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Full text of "Descripção do Sanctuario e Romaria de Nossa Senhora do Porto d'Ave em 1869 : fragmento das viagens de D. Luiz Vermell (o Peregrino Hespanhol)"

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IIESCRIPÇiO 1)0 SAPiCTCARlO 

ROMARIA 

' DE 

iSSA ffiilU DO POBTÍ.Wm 

Fragmento das Viagens de D. Luiz Vermell 
(o Peregrino HespanholJ 

Traduzida em presença do autor 

POR 

Hia Js DE 




TYPOGRAPHIA luzitajn* 

Rua Nova n.° 3. D. 



«891. 



DESCMPÇiO liO S.4NCTCARIO 

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Fragmento das Viagens de D. Luiz Vermell 
(o Peregrino Hespanhol) 

Tra «fingida essa presença d© autos? 

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11L Ji BE Me 




TYPOGKAPHÍÀ LUZÍTANA 
Rua Nova n.° 3. D. 



STossos respeitáveis asMigos e pa&^ieios 
resiilentos n® Brasil 



Em lesiimunho de affeclo e consideração 



0 TRADUGTOR. 



AOS LEITORES 



Dous motivos me levaram a traduzir a presente 
Dcscripção do Sanctuario e Romaria de N. Senhora 
do Porto d" Ave : foi o primeiro — o pedir-me isto o 
respectivo reverendo padre Capellão, a quem muito 
respeito; c o segundo — o meu mesmo grande de- 
sejo de que, dado este opúsculo ao préio em o nos- 
so idioma, todos os que o entendem podessem ver 
o alto apreço que o descriptor fizera, assim de unia 
como da outra cousa. 

Peia minha parte confesso que tive grande sa- 
tisfação em que o snr. D. Luiz Vermell, eminente 
na pintura e esculptura, tendo, sob o titulo de 
«Peregrino Hespanho!» que adoptara, percorrido a 
Hespanha, França, Itália e o nosso Portuga!, viesse 
emtim ainda aqui encontrar um Sanctuario e umâ 
romagem dignos da sua attenção ; e tanto mais is- 
to me é grato, quanto o apreciador é competente 
e insuspeito, cuja inteiligencia e imparcialidade as- 
sas transluzem, a par uma da outra, por todo o seu 
escripto. 

Muito desejara que igual prazer os leitores pa- 
trícios experimentassem ; c não menos o merecer a 
todos a necessária indulgência. 



O TKADUGTOlt 



PROLOGO DO AUCTOR. 



Admira-me que na actualidade, em que a sede 
de ouro tudo explora, ninguém haja escripto e pu- 
blicado uma noticia da origem d'este tão digno e 
famoso Sanctuario ; nem tão pouco se haja feito 
descripção alguma (Fellc, nem de sua pittoresca, de- 
vota e concorridissima romaria : cabe-me pois a sa- 
tisfação de ser eu o primeiro que descrevi circuns- 
tanciadamente, e com a maior exactidão que me foi 
possível, estas festas piedosas e alegres. Não foi o 
lucro que a tratar d'elias me estimulara ; foi a gloria 
de Deus e a honra de minha pátria. 



SAWCTUAKIO 

DE 



I. M IPíDlM) WM I 



I 

§ua ©sri€$essa 



A. tres léguas de Braga para o nascente, na 
margem direita do rio Ave e no pendor ao sul de 
uma collina, logar pertencente á freguczia de S. Mi- 
guel de Thaide, concelho da Povoa de Lanhozo, — 
está situado o Sancluario de que me occupo : acom- 
panham -n'o outros próximos edifícios e capellas a 
elle pertencentes, tudo mui dealbado, e rodeado de 
muitíssima vegetação, cujo complexo visto da dis- 
tancia de meio kilometro, da parte esquerda do rio, 
oííerecc uma vista tão alegre, que a gente desejaria 
voar, para a gozar mais depressa. 

No sexto lustro do século próximo passado, um 
visitador ecclesiastico, passou pela freguezia de S. 
Miguel de Thaide, e vendo na sacristia da egreja 
parochial uma imagem de Nossa Senhora do Rosa- 
rio acantoada, e mui deteriorada, a mandou d'a!!i 
tirar, e enterral-a, como 6 de direito e se costuma 
fazer aos objectos do culto inutilizados por velhos ou 
deformes. Constando esta determinação, um devoto 
por nome Francisco de Magalhães Machado, mestre 
de primeiras letras, pediu a dita imagem, dizendo 
que elle a conservaria para vcneral-a alguns annos 



— ÍO — 



roais. Tanto agradou este terno affecto, que se lhe 
deu satisfação; sendo grande a do mestre por ficar 
senhor de seu desejado thesouro. 

Parece que Maria Sanctissima, em agradecimen- 
to de ser sua imagem restituída á veneração, segundo 
os altos desígnios da Omnipotência, quiz premiar o 
mestre, pois d'ahi a pouco tempo a achou renova- 
da ; sendo de notar, que o mesmo devoto e mais 
outras pessoas depozeram, que não sabiam quem o 
tivesse (eito, nem o mandasse fazer : o documento 
das testimunhas existe na camará ecclesiastica de 
Braga, onde o viu o respeitável sor. reitor d'A- 
roza, que me honra com sua amizade. 

Enthusiasmado o mestre com a imagem, e col- 
locada em uma barraca, parodia de capella, situada 
no ponto da fonte que se vê ao lado da egreja, os 
meninos da escola a viam, e lhe oravam com fervor, 
pois aquelles meninos aprendiam primeiro a conhe- 
cer e amar a Deus do que a arithmetica / ecuniaria ; 
e todavia sem Iranscural-a, crescendo em idade al- 
guns foram ao Brazi! ; e como ao homem lhe não 
faltam afíliccões, e nYilas se invoca a consoladora 
Mãe dos afflictos, consolou a vários d'aquelles seus 
devotos quando meninos, e depois atribulados quan- 
do jovens, que, em agradecimento, começaram a man- 
dar donativos á predilecta imagem. Juntando-se as- 
sim alguns meios, se poz com mais decência a po- 
bre esculplura, que havia sido destinada a perecer 
antes de tempo; e tanto cresceu a devoção ao que 
e!!a representa, pelos favores que liberalizava, que 
Jogo se projectou e se pôde levantar-lhe digna Ca- 
pella. Foi no anno de 1740 que se viu a imagem, 
d'antes chamada do Rosario, e já n'aquella data com 
o titulo do local onde está, isto é, do Porto d y Ave, 
eoliocada em rico e solido Sanctuario. 

Em vista da viva fé com que era visitado, e 
avultadas esmolas que esta grande virtude produzia, 



— li — 



o arcebispo de Braga tomou posse e domínio d/elle 
para me!horal-o : o que leve lugar no atino de 1741. 
E com effeito nâo se passou muito tempo sem que 
se engrandecesse o primeiro edifício, ajuntando-lhe 
um octogono com zimbório, capella-mór com altar 
de saliente e caprichosa talha, boa sacristia com 
urna pintura a o!eo no tecto representando a San- 
ctissima Virgem, no meio de vários ornatos, e em 
cima um camarim ou sala, que se não chegou a 
adornar. 

A architetura do augmento é mais barroca, 
mas engenhosa; notando-se comtudo, que o inte- 
rior do zimbório ou foi irregularmente construído, 
ou soffreu grande abalo, pois saltam á vista os de- 
feitos de seus ângulos. A decoração do primitivo 
corpo d'este templo ostenta mais riqueza e bom gosto 
que o segundo; adornam-n'o dous órgãos cheios 
de talha, unidos ao coro, e dous púlpitos coroados 
com as Vit Ilides Theologaes, e só ires das Cardeaes ; 
as paredes estão cobertas de azulejos; e a abobada 
é ernbellesada de almofadado, contendo os attrihntos 
da ladainha. Um altar do Santíssimo Sacramento ê 
outro de Sant'Anna, aformoseam o octogono. A fa- 
chada da egreja tem duas torres com remate pyra- 
uiidal. 

"Visto o Santuário, sobe-se sem cansaço á col- 
ima ; pois tanto os escadorios, como os edifícios la- 
teraes, (cuja capacidade durante a romaria, na má- 
xima parte serve de albergue gratuito,) quatro ter- 
reiros, pequeno jardim central, um ziguezague e por 
elle collocadas oito capellas, amenisadas com frondo- 
so olival, — tudo isto é de tanta perspectiva e archi- 
tetonico, que uma pessoa, distrahida contemplando-o, 
quando menos pensa se acha no terreiro superior. 

Um edifício pouco distante do santuário foi re- 
colhimento de beatas de S. Francisco, que se oceu- 
pavam em ensinar meninas. 



— 12 — 



II 

Capellagí 

No terreiro central ha uma capella, ou oratório 
quadrado, sostido por arcos, que engenhosamente 
dividem tres lanços de escadorio monumental, deco- 
rada com jarrões e seis estatuas de granito, repre- 
sentando David, SanfAnna, a Virgem, S. Gabriel, 
S. Zacharias e S. Simeão. No dito oratório está Jesus 
Christo, que com o braço direito despregado da 
cruz, abraça a S. Francisco. 

As figuras de todas as capellas são de madei- 
ra de tamanho natural, e vè-se ainda a riqueza com 
que foram pintadas e douradas. 

Na primeira capella lateral se representa a An- 
nunciação : o Padre Eterno, que está no centro, tem 
magestade, e com muita propriedade o esculptor lhe 
poz o Espirito Santo no peito, para demonstrar que 
é um só Deus em tres pessoas, e que a Segunda 
n'aque!le instante foi gerada nas puríssimas entranhas 
da Santíssima Virgem. 

Na segunda capella se representa a Visitação : 
ífella deleita summamenle ver o amor e contenta- 
mento das duas nobilíssimas Primas em acto de abra- 
çar-se, e a candidez e alegria de quatro anjos em 
expressão de cantar, dons d'elles tocando também 
instrumentos músicos, pois até o cc'o celebrou a vi- 
sita mais interessante do género humano, porque n'el? 
la assistia a Divindade. 

Na terceira capella se representa o Nascimento 
de Jesus Christo: mui graciosos são os pastores que 
figuram, e notável pela naturalidade é o que traz 
um cordeirinho em oííerenda : lindos são também o 
pastorinho que toca o tamboril e outros pastores mo- 
ços e moças tocando gaita de folie, castanhetas a 
pandeirinho, quasi todos cantando e bailando. 



— 13 — 



Na quarta capella se representa o momento an- 
terior á Circumcisão : vè-se a Santíssima Virgem em 
altitude compassiva pela operação dolorosa que o 
ministro vae fazer, segundo a lei, A'que!le que vi- 
nha dar a da Graça. N'esta scena é para se notar 
a honestidade e delicadeza do escuiptorno sentimento e 
pureza que imprimiu a dous anjos, pois voltam al- 
gum tanto o rosto, e bem assim a modéstia de dous 
coristas, — todos com tochas. 

Na quinta capella se representa a Adoração dos 
Reis Magos : n'este passo não está mal a compo- 
sição de dous pagemzinhos, tres crcados e dous ca- 
melos e meio, (que está cortado, para caber no locai). 

Na sexta capella se representa a Apresentação 
de Jesus no templo : é para notar aqui a compla- 
cência e admiração de Maria Santíssima ao ver o 
Santo Simeão tomar em seus braços o divino Me- 
nino, e proromper no canto prophetico mixto de 
gozo e dor: a este acto assistem S. José e Anna 
Propheiisa ; o artista, porém, na cestinha d'aquelíe 
pôz tres aves, talvez ignorando que a ofíerta dos 
pobres por lei eram dous pombinhos ou duas rolas. 

Na sétima capella se representa a Fugida para o 
Egyplo : que dignidade e graça resaltam na Santís- 
sima Virgem montada na burrinha!... E a penetra- 
ção e ar tranquiilo que se observa em seu terno 
Filho !... Graciosíssima está Maria com seu chape- 
linho; e, como leva a Jesus nú, vê-se que o escol p- 
tor tão pouco pôde cubrir-lhe a divina cabecinha 
com igual anachronico atavio. Expressivos são tam- 
bém n'este mysterio o anjo conductor e S. José, car- 
regado com a ferramenta do seu oíiicio, e outvas 
pessoas em posições variadas e próprias, dando a 
conhecer a emoção que sentiam procurando em vão 
a causa, que c era a sagrada comitiva passando in- 
visível por diante da gente. 

Na oitava e ultima capella é representada a dis- 



— 14 — 



puta de Jesus com os doutores da lei : sinto que 
nenhuma figura digna de mencionar-se haja n'esta 
ultima capella. Todas são de forma éxagona, com 
abobada pyramidal, solidas e bem conservadas. 

Não se sabe por quantos esculptores foram fei- 
tas tantas imagens e figuras que constituem os ditos 
passos do Novo Testamento ; porém n'ellas se vê o 
continuo anachronismo cios trajes, que na maior 
parte são como se usavam no tempo dos artistas, 
que elaboravam as esculturas, variando-lhes ou aug- 
mentando-lhes só alguma cousa ; e n'isto se mani- 
festa a escassez de conhecimentos n'aquella epocha, 
quanto á propriedade dos trajes hebreus, — devido 
isto á difficuldade que até ao século presente havia 
de viajar, para se poderem copiar modelos na Judea, 
graval-os e explical-os, como depois se fez, com o 
fim de, proporcionando-os por módico preço a todo 
o mundo, o illustrar : do que necessitava, ate o 
cximio pintor Raphael, como em suas obras muitos 
tem tido occasião de notar. 



ROMARIA 



i 



No dia 7 de Setembro, com o snr. reitor d'A- 
roza, meu amigo, e com o snr. seu pae d , a11i nos diri- 
gimos ao Santuário: é para vêr-se a immensa mul- 
tidão de povo que a e!le afflue por tantos atalhos 
e de muitas léguas de distancia. Além d'isto, como 
o tempo estava magnifico, tudo eram comitivas cantai 
do, e trasbordando de saúde e alegria : pena é que, 
chegando-se ao ponto do rio, se haja de passar por 
cima de umas fracas pedras, e apenas um a um. 
Ha pouco tempo se projectou a construcção de uma 
ponte, cujos desenhos scientificos estão feitos, e o 
custo orçado; falta que os romeiros quizeram passar 
este Jordão em miniatura mais depressa, e até a 
doze de fundo, ainda que venha mui cheio : para este 
fira seria util e meritório que por estas míseras passa- 
deiras toda a gente fosse -mais leve, por ter alivia- 
do a algibeira, deixando ao entrar n'el!as uma pe- 
quena esmola para a dita obra. 

Chegados que fomos ao Santuário, que se acha 
mui enfeitado interior e exteriormente, o vejo cheio 
de íieis, que entoam cânticos concluindo a novena 
da Santíssima Virgem*. 

Sahindo do templo, e princiando meu passeio 
observador, me sorri de ver a um canto do adro 
uma porção de barbeiros que ao ar livre fazem a 
barba e cortam o Cabello aos lavradores. Mais além 



— -16 — 



excita o appetite tanta qualidade de variada e boa 
fructa e excellente pão de Braga, como aqui n'estes 
dias se apresenta. Por diante d'estes alimentos ma- 
teriaes se me depara o da Fé : vinde, incrédulos, 
e observae o que estou vendo, e que de certo 
chamareis fanatismo: contemplae estas pessoas que 
de joelhos dão tres e muitas mais voltas em roda 
do vSanhiario, mortificação que promelteram pelo be- 
neficio da saúde recoperada, ou outros favores al- 
cançados pela protecção da SS. Virgem. Muitos tra- 
zem mortalha vestida, e se figuram de solteiros, le- 
vam um ramo de flores nas mãos, e coroa de flo- 
res na cabeça. Melhor ou mais suave, do que estes 
devotos, o entendem outros com as promessas que 
fizeram, que vem a ser, o darem quantidade de vol- 
tas ao redor da egreja, não devagar como os peniten- 
tes, senão com alvoroço, indo grande numero de 
homens e mulheres em grupos, dançando, tocando 
violas e outros instrumentos, e algum homem can- 
tando em voz de falsete. 

Voltando a attenção para outra parte, porém 
no mesmo adro, aqui vejo ourives, que vieram par- 
ticipar da ventura dos aldeães, trocando-lhes por 
pequenas libfas, jóias grandes de metaes preciosos ; 
e o bonito é íicarem todos contentes, se não por 
igual bem sei vidos. Vejo aqui também barracas com 
quinquilherias, e outras com panno de algodão e 
lenços de cores vivas, que attrahem cem olhos de 
encantadas lavradeiras. Além um sitio onde se ven- 
dem violões, violas, bandurras e clarinetes. Subindo 
éio segundo terreiro, o vejo occupado com cozinhas 
improvisadas, mezas e pipas de vinho, tudo debai- 
xo de toldos ; e mais além um forno em que assam 
carne de vitela. 

Observando cousas e scenas tão variadas, se 
me apresenta uma moça não feia, e em excesso de- 
sembaraçada, que conhecendo-me estrangeiro, vê se 



por minha vontade lhe deixo levar-me alguns vin- 
téns : admirado, e juntamente o meu amigo sor. rei- 
tor, e seu não menos bondoso pae, da franqueza com 
que ella me propõe — se quero que, examicando-me 
a mão, me leia a buena dtciui, recuso; mas logo, 
para rir-me, e ver sua perspicácia na sua falsa scien- 
cia, lhe abro minha mão direita; e ufana com ella 
a presumida sibvíla, tendo pendentes de seus lábios 
a vários espectadores que se agrupam, principia e 
prosegue tão depressa os seus prognósticos, que são 
uma lição do seu es: miado reportório : todavia no 
meio das necedades que disse, algumas circumstan- 
cias de minha vida por acaso, já se sabe, acertou. 

Proseguindo meu passeio investigador dos quasi 
patríarehacs costumes d 'es te povo, que tão pacifica- 
mente sabe divertir-se, subo a grande escadaria que 
cerca o jardim e conduz ao espaçoso terreiro cen- 
tral : vêem -se aqui comitivas de jovens que com ob- 
jectos extravagantes arremedam instrumentos de mu- 
sica, fazendo com elles um ru ido atroador ; em 
quanto outros fazem dançar bonecos na ponta de 
canas, e algum, até, anda vestido de mulher, — tu- 
do tolerado para rir. 

Lindas acácias amenisam assim este como os 
demais terreiros, mas, porque na presente occasião 
não é suííiciente a sombra d'ellas, fazem-se também 
barracas, e nas quaes se vendem doces e outras 
cousas. N'este pittoresco locai, agora embeliecido 
com alto pavilhão para uma orchestra, é onde pos- 
so ver mais detidamente os numerosos e variadíssi- 
mos trajes das mulheres que a esta romaria acodem 
de longínquas comarcas. Do vestuário dos homens 
nada ha que dizer, pois é quasi como o geral; só 
sim, muitos adornam seus chapéus com a estampa 
da Virgem e com uma coroa de doces de pasta e 
pennas. Digno de se nchr em alguns romeiros são 
os paus que trazem, — mai altos, com ferrão no pé, 



— 18 — 

e ferro agudo defensivo na ponta, porem occuho 
em grande castão parafusado : outros paus raríssimos 
e sem artificio aqui apparecem lambem brilhando : 
— são troncos naturaes com formas de serpente mais 
ou menos em espiral, de aranhas ou de sapos co- 
lossaes, em fim de monstros, objectos de que seus 
donos fazem gaía, assim como de seu não menos es- 
trambótico vestuário. 

cm festa tão alegra como havia de faltar a 
lanterna magica ou diorama ambulante com tanto 
idiota extático, com os olhos pegados ao vidro aug- 
mentador, e os ouvidos mui attentes ás historias 
e sandices que o protagonista, dono do espectáculo, 
explica a cerca do que se representa na sua, ás 
vezes boceta de Pandora? — pois bem, lá está» o não 
pouco concorrida. 

Enlevado na contemplação de objectos ião re- 
creativos, ouço repicar os sinos do santuário; a el!e 
me dirijo com os meus dous amigos, e chegando, 
pergunto o motivo do repique: respondem-me que era 
um milagre alcançado por Maria Santíssima, e que 
o puhlical-o por tal modo indicava que a esmola ou 
oflferta promeltida não era menos de 3:000 reis. 
Não foi passado muito tempo que não chegasse a 
noticia de que vinham trazer outra esmola ou offe- 
renda, e não de pouco valor, em agradecimento á 
compassiva intercessora por outro favor recebido : 
já se vê a gente em ondas, já se solta ao vento 
com mais brio o soido dos sinos, e se ouvem per- 
to as harmonias de uma banda de musica: já che- 
ga a comitiva trazendo dous grandes bezerros eorfi 
sua mãe, sem que seja necessário violental-os parai 
entrarem no sanctuario, que se acha aberto de par 
em par, 4 com duas muralhas de gente fora e den- 
tro (Telle, que apenas deixa estreita passagem, pa- 
ra que as offerendas andantes cheguem sem obstá- 
culo junto do aliar mór. Confesso que estou mara- 



— 19 — 



vilhado da scena que presenceio, pois não sei se 
me acho n'um amphitheatro, ou em templo chris- 
tao. Como, porém, os voventes ou devotos d'esta 
província do Minho exigem que progrida tal cos- 
tume, e não se pode deixar de admiítir estas va- 
liosas dadivas, vae continuando tão estranho espec- 
táculo. 

E' digno de vêr-se, quando passam os bois en- 
feitados com fitas e flores na cabeça, como alguns 
homens, ou os mesmos donos do gado, o fazem in- 
clinar a cabeça em signa! de reverencia á imagem da 
Senhora, em cuja presença os demoram alguns mo- 
mentos. D'alli os vão conduzindo peio corredor que 
cerca o altar mór, e, apartanclo-se d'esta, os dirigem 
para fora pelo mesmo caminho no meio de estrepi- 
tosa musica, e deitando-se muitos foguetes no adro. 

Como hem se deixa vêr, esta scena, que tanto 
recorda os costumes pagãos, não é ultimada com o 
mais absoluto silencio e discripção ; todavia não é 
tanto o barulho como se poderia suppôr, nem acon- 
tece que os animaes se desmandem offendendo a al- 
guém, ou fazendo algumas funcções da natureza, que 
por sem duvida, se acha suspensa pelo aturdimento. 

Por fim o padre capellão do sanctuario, ou ou- 
tro individuo por elle encarregado, em vez da arre- 
matação que do gado, diz, se deveria fazer, usa sem- 
pre de generosidade com os voventes, deixando-lh'o 
pelo justo ou ainda menor valor : estes animaes de- 
pois são tidos por seus donos em mais alguma esti- 
ma e consideração. 

Mais desoccupado o templo, entro na sacristia? 
e o mesmo padre capellão me mostra alguma alfaias 
do culto, entre as quaes é notável o porta-paz de 
prata dourada, com muito boas pedras e peças de 
crystal de rocha : tem baixos-relevos pequeninos, e 
da escola de Miguel Angelo : tudo parece obra do 
século XVSL Entre os painéis antigos, que enchem 



— 20 — 

as paredes da anli-saeristia, ha Ires ou quatro regu- 
larmente compostos; e das figuras que contem, os 
trajes são muito interessantes. 

Passa de meio dia, e com os meus dous ami- 
gos me dirijo á avenida da esquerda, que vae dar 
ao terreiro superior : junto do arruado, dá gosto ver 
o bulício e trafico, que alli reina, de pão e peixe e 
outras mais cousas, tudo de comer e beber. Apraz 
ver as casinBas improvisadas, grandes fornos e ou- 
tros pequenos e fogueiras, onde guisam, assam e 
cosem carne, fazem o indirpemavel diário caldo e 
arroz, preparam alguns legumes, e sobre tudo o ca- 
fé com o seu cortejo de licores. 

Aqui é de notar, que a agua de todas as fon- 
tes do sancluario não é muita para os sobreditos 
misteres, e além d'isto custa a acarretar, por serem 
tantos os que n'ellas bebem, que quasi não dei- 
xam' encher cântaros : duas d'ellas são devidas a ex- 
pensas e serviços particulares, — a primeira, bem co- 
mo um lanço de estrada antes de entrar por detraz 
da egreja, feita em 1864 a custa do snr. José Gon- 
çalves Ferreira e sua senhora esposa, —a detraz do 
oratório devida á generosidade e serviços prestados 
pelo exc. mo snr. commendador João Fernandes de 
Mattos. 

Continuando a íixar minha attenção ao que se 
acha ifesta paragem, vejo quasi tudo debaixo de tol- 
dos : aqui muitas nie/jss com seus commensaes, cuja 
alegria esta nos seus limites; alli outros em que ella 
já quer ser excessiva ; aeoiá carros com pipas de vi- 
nho enramadas, e outros do Alto Douro, — estes, 
suas pipas e aprestos dos bois, tudo difierente dos 
d'aqui. Muitíssimos romeiros já estão dormindo, can- 
sados de andar, folgar e cantar sem medida. Mas ai! 
e quão poucos ha n'este mundo que saibam bem 
empregal'a em todos os seus prazeres! E isto devo 
exclamal'0 até pela parte que me toca, porque, con- 



- 21 - 



siderawdo^me fraco também, não se me diga que ve- 
jo o argueir© no olho do visinho, c não vejo a tra- 
ve que está ncs meus. 



IV 

Contistai!» a ifes cripta© úm feâtn 



Depois de comer em Aroza, (distante menos 
de ura kilometro,) me acho outra vez na romaria 
a saciar-me de mais leve alimento, mas qne en- 
trando pelos olhos e ouvidos, robustece a intelligen- 
cia. Aprazível está o dia, o céo claríssimo, verdes- 
aiegres os campos, puro e luzente o rio : ao con- 
templar este risonho quadro, a par da grata espe- 
rança da próxima abundante colheita de milho, vi- 
nho, castanha, nozes, azeitona e laranja, — tudo con- 
siderado, digo, causa tão suave emoção ao pensa- 
dor, que lhe inunda de puro prazer o peito, e elle 
não pode deixar de levantar os olhos a Deus em 
agradecimento de tantos benefícios. 

São quatro haras e meia, e principia a mover- 
se a gente de uma para outra parte em busca de 
bom loca! para ver a procissão : eu o escolho para 
ve!-a sahir, E' admirável o aspecto, eminentemente 
pittoresco, que apresenta o adro do sanctuario, todo 
trasbordando de espectadores ; a ponto de os mais 
leves do pé e de cabeça, que são os rapazes, tre- 
parem ás arvores, d'onde, quaes macacos, fazem 
mil gestos, como que jactando-se de terem sabido 
escolher o logar mais dislinclo. 

Collocam-se na frente da procissão, e em logar 
competente, o guião e as bandeiras das confrarias. 
No adro veem-se dous objectos que, mais que tudo 
chamam a attenção do povo c também a minha, 



— sao dous pomposos carros triumphaes, cujos dó- 
ceis cobrem, o primeiro a Sant'Anna ensinando a 
Virgem a ler, e o segundo a Virgem, S. José c o 
Menino Jesus no berço. No primeiro carro estão, 
sentadas em degraus alcatifados, seis meninas vesti- 
das de túnica, mamo e coroa de rosas, tudo branco. 
Ao lado do carro está o snr. Antonio Fernandes 
Gomes de Campos, que, dirigindo outros muzicos, 
dá certo signal, e a eíle se levantam as seis meni- 
nas, que, representando virgens christâs, principiam 
a cantar lindos versos a Maria Santíssima, acompa- 
nhados com suaves harmonias. Inspiradora é a me- 
lodia e innocencia das cantoras, e o observar o 
effeito thealral de tanto povo exportador que occu- 
pa os dous adros, a rampa da avenida lateral e es- 
cadorios, guardando religioso silencio a esta scena 
tão nova para mim. Absorto me tem, não pelo que 
é em si mesma, senão porque todo este apparato de 
carros triumphaes tem um vislumbre de idolatria 
com suas sacerdotizas. 

Acabam as meninas de cantar, e oito pastori- 
nhos uniformemente vestidos, descem do seu carro, 
tomam uns pombos e um cordeirinho, e os oílere- 
cem a Jesus, Maria e José: cantam em seu louvor, 
executam uma engenhosa e própria dança pastoril, 
e, concluída, sobem ao carro e sentarn-se. 

Depois d'isto toda a procissão se põe em ordem, 
sae o pallio cobrindo um sacerdote, que, acompanha- 
do' de dous diáconos e mais clero que o precede, 
leva o porta-paz; e começa a andar a vistosa co- 
mitiva ao som de numerosa banda de musica, c es- 
trondo de girandolas de foguetes. 

A procissão dá longa volta por uma estrada 
que cerca o terreiro superior, parando em vários 
pontos em razão dos cânticos e danças; descendo 
ultimamente pela outra estrada, e recolhendo -se ia 
posto o sol. 



Chegou a festa ao seu auge ; grande é o alvo- 
roço da multidão, que exulta aos sons arrebatado- 
res de quatro bandas de rnuzica, que a passo de 
marcha percorrem toda a extensão pertencente ao 
santuário: que alegria em numerosas sucias, e que 
homens dançando como torvelinhos ! e o transporte 
no cantar ou esganiçar-se em tom de falsete? que 
immcnsa multidão de povo em toda a parte, alu- 
miada pela luz das barracas, das cosinhas, das 
mezas onde se vende, de archotes e da illuminação, 
por ora parcial, do terreiro do meio ! quanto movi- 
mento, e que confusão de outros cantos, se bem 
que pausados ; e tudo. tudo eííeetuando-se na mais 
completa fraternidade, e inulilisando o imponente 
a p para to da tropa, que para aqui ú mandada afim 
de conter desordeiros, e que consiste (oh! pasmo!) 
em trinta soldados ! ! servindo só para regosijar-se 
também no meio de mais de trinta mil romeiros, 
que, depois de rudes tarefas, só anhelam e sabem 
divertir-se pacificamente. Ah ! e em que outra par- 
te occidental da Europa se vê tão exemplar espectá- 
culo, excepto nesta portugueza província do Minho? 
Será acaso porque estas comarcas ainda não ouviram 
silvar a locomotora, ou por ignorarem os progressos 
do século corruptores, que a barreira d'esses mon- 
tes, qual ou ira muralha da China, ainda impede o 
propagar-se? Se assim é, oxalá que nunca lhes che- 
gue tão falsa civilisação ! 

V 

Jkiiiftla eoBatisiiga & deseripção ti» festa 

Como já e hora de cear, muitos o fazem, e 
onde podem, uns apoderandcHse como de assalto de 
algum canto de rneza desoccupado, e os demais no 
bendito' chão, que em tal occurrencia nem é meza 



grande, nem cama espaçosa, porque está completa- 
mente cheio, sobre tudo os terreiros. E como é dig- 
no de vêr-se o superior ou clamado berreiro do fo- 
go,)) e observar-se as seenas mnocenles e graciosas 
que n'elie se passam, e as conversas variadas que 
ali se ou vem ! E/ um local conveiíido em exlenso 
theatro, ou acampamento, mas não dè guerra; se 
bem que com risco de havei- p r suggeslão demo- 
níaca, visto se acharem tantos homens e mulheres 
misturados, acordados ou dormindo, e em siiios já 
alumiados, fá escuros. 

M'este grande plano estão plantadas muitas ar- 
vores de fogo artificial íixo, para a rderem d'aqui 
a pouco tempo. Deixo, porém, o referido e agra- 
dável quadro, para ir vêr o que apresenta o bello 
terreiro central. 

Pelo caminho me recreio vêr e ouvir tanto al- 
deão absorto contemplando as capellas, adornadas 
por dentro de damascos, e iliu minadas com veias 
e lustros não de crystai, porem, mui engenhosos; re- 
velando também exquisito gosto a disposição de flo- 
res naturaes, coiloeadas, segundo sua cor, em nume- 
rosos ramos arranjados n'um tecido de canas de for- 
ma pyramidal, e a dos vasos com plantas; o que 
tudo junto n'estes dias aformosea e embalsama os 
ricos passos da vida de Maria Santíssima. 

Ainda assim, chegando ao terreiro, o acho co- 
berto de povo, porém mui desperto e alegre, ou- 
vindo as ruidosas bandas de musica, e contemplan- 
do a vistosa e agora já total iiluminação da escada- 
ria monumental e do oratório. 

Mui interessante é para o estrangeiro o ouvir 
as varias c pausadas canções que alguns ranchos de 
mulheres entoam só a vozes : — são modinhas pró- 
prias da terra de cada um d'aquelles ranchos, os 
quaes eu tive o gosto de desfrutar sentado nas 
longas escadas de cima do jardim. 



— c 2o — 



Começam a subir balões de cores, que cada 
vez agitam mais a multidão ; e não tardam muito a 
seguil-os os primeiros fogueies, dados no terreiro do 
logo, e que podem considerar-se como anuuncios do 
estrondoso fim da romaria. Elevam-se mais balões 
em diííerentes pontos ; cruzam-se no ar muitos fo- 
guetes, bombas e balas de illuminaçao, que, para 
melhor se poderem ver, fazem correr a geme de uma 
para outra parte. Dirijo-nie ao terreiro superior, 
aonde cbego ao tempo em que estão pegando fogo 
a maquinas pyrotechnicas de íiguras extravagantes, 
representando homens em caricatura, bruxas, animaes, 
monstros e peças architectonicas de fogo preso ; 
lindo o que, dispara-se uma erupção vulcânica de 
grande efíeilo pelas suas cores, chuva de ouro e 
estrellas volantes, — tudo capaz de causar inveja a 
outros fogueteiros, mas também, e isto o peor, de 
para logo fazer que pareça escuro o ceu claro com 
a sua admirável via-lactea, e mais dura a terra ári- 
da que serve de cama a tão numerosos somnoientos 
romeiros, a quem pouco deixam dormir tanto os in- 
cansáveis desvelados, como as musicas, que não 
cessam de tocar até a aurora, em que acaba todo o 
bulício, e principia a oração. 

Com efíeito antes de raiar o dia 8, Natividade 
da Santíssima Virgem, celebra-se uma missa no ora- 
tório do terreiro central, que, supposlo mui espaçoso, 
não pode conter senão pequena parte do grandíssimo 
numero de fiais que ficara, (pois muitíssimos já par- 
tiram,) nem ainda estando em pá; não obstante, 
assistem devotamente ao santo sacrifício. 

Cumprido este christão dever, é surprehenden- 
te a gera! e espontânea dispersão de tanto povo, 
que com forças próprias de quem deseja descançar 
bem em sua próxima ou mui disi te terra e casa, 
segue o caminho por tantas dÀreççõ \ e tortuosas ve- 
redas como d'aqui se divisam, e qn$, pelo movi- 



— 26 — 



mento das pessoas e diversas cores do vestido, pa- 
rece utna invasão de bellos reptis por estas proxi- 
midades; ou, se desejar comparação sympalhica, se 
bem que menos própria, direi que se assemelha a 
uma sarta de matizadas flores ondulando. Adeus, 
devotos e prazenteiros comarcãos, que na maior par- 
te ides mortos de somno, porém lodos vivos de 
pernas ! praza a Deus que por muitos annos pos- 
saes concorrer a esta festa religiosa (ão brilhante ! 
Nunca a mancheis, como sabeis não manchada 
com a perda da innocencia no meio destes vossos 
costumes ; n'e!!es conservae sempre a boa paz e 
harmonia que tenho observado reinar n'esta tão pit- 
toresca, poética e grande romagem. 



Que é feito de cerca' de sessenta mil almas que 
só em nove dias visitaram este santuário, das quaes 
boas trinta mil ainda ha poucas horas o povoavam 
e enchiam de animação e alegria? Ai! tantas see- 
nas, já passadas como o relâmpago, não são uma 
imagem exacta da rápida passagem das gerações por 
este triste mundo? Olhae, olhae como estão desertos 
estes terreiros, escadorios e avenidas ; não vos pa- 
rece que tanta realidade foi só um sonho?! Sim 
foi sonho, posto que o vereficassemos despertos, o 
qual no coração deixa mais vácuo do que antes de 
deslhual-o. 

São nove horas da manhã, e vem chegando ao 
santuário alguma gente dos arredores, para assistir á 
funeção solemne que hoje á Virgem se consagra ; 
em quanto que eu estou debuxando uma vista do 



terreiro central, e tusío mui absorto, porque nada 
me inquieta, parando, somente, mas de passagem, 
ora um os a oulro individuo a ver meu trabalho. 

Principia na egreja a festa celebrada a grande 
orchestra e com toda a solemnidade, assistindo a ella 
a Camara Municipal, e dando-lhe maior realce o elo- 
(jiiente sermão, que infunde grande aííecto ao San- 
tíssimo exposto, á Santíssima Virgem^e a seu sanc- 
tuario ; concluído o que, faz-se em volta do tem- 
plo a procissão com Sua Divina Magestade debaixo 
do pallio, precedendo uma confraria com sua ban- 
deira, e tudo seguido de uma banda de musica, que 
não cessa de, tocando, louvar ao Senhor, até que 
com eíle se haja dado a benção ao povo, que sabe 
mui satisfeito da funcção. À musica em seguida 
acompanha os snrs. ecclesiasticos e mais convidados 
ao jantar que lhes oííerece, bem como a mim, o 
padre Caetano José da Cruz Barros, capelião 'do 
sanctuario. 

Sentando-nos á mesa, o mesmo senhor padre 
capelião exige de minha obediência o sentar-me eu 
á cabeceira da mesa defronte d'el!e ; ao que acendi, 
pedindo sempre desculpa de deferência tão immere- 
cida em presença de doutores e arciprestes. A co- 
mida era boa, os convivas delicados, e os brindes 
em relação ; sendo o meu em agradecimento á hon- 
ra que tão distinctas pessoas me haviam dispensado, 
e á prosperidade do sanctuario, á qual desejo con- 
tribuir com esta descripção. 

Em outra Sala repartiu o amável padre Caetano 
aos convidados il tas da medida da imagem da Vir- 
gem, e também suas estampas. 

Estando em conversação, e quando menos o es- 
perávamos, surprehendem-n'os umas desarmonias es- 
trepitosas no terreiro ; e logo vemos e applaudimos 
a sociedade que organisára, o bisarro e intelligente 
joven musico snr. Antonio Fernandes Gomes de Cam- 



— 28 — 

pos, que infatigável, pois até nos fizera a honra de 
servir-aos á mesa, agora nos rnimosêa com este 
ruidoso fira de festa, Olhae o dito mestre com seu 
traje emplumado tocando rebeca, e alguns de seus 
companheiros da mesma forma com trajes disfarçados 
por meio de accessorios estrambóticos: que cffeito 
tão raro fazem todos juntos cantando e bailando, e 
locando instrumentos meio desatinados, e o bombo 
ás costas ! Não parece senão um enthusiasmado con- 
ciliábulo de bruxas ! sendo todos tão bons rapazes, 
que sabem discretamente dar ao tempo o que é seu, 
e aos amigos mais idosos alguns momentos de re- 
creio, que se ihes agradecem quanto valem. 

Adeus, obsequioso padre Caetano ; adeus, res- 
peitáveis convivas, e adeus, quantos contribuístes 
para que este artista gozasse vossa grande romaria ; 
n ? ella admirasse vossa prudência, vossa religiosidade 
e a poesia que oslentaes ; e possa, finalmente, con- 
signar meu aífecto a Portugal, por ver n'eile em to- 
do o seu vigor tão bellos e memoráveis costumes. 



Luiz Vermell (o Peregrino HesjanholJ.