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Full text of "Geografia, Ensino E Construção De Conhecimentos 2"

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Leonardo Batista Pedroso 
Rildo Aparecido Costa 
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Fernanda Pereira Martins 
Leonardo Batista Pedroso 
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Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 


Diagramação: Camila Alves de Cremo 
Correção: Flávia Roberta Barão 
Indexação: Gabriel Motomu Teshima 
Revisão: Os autores 
Organizadores: Fernanda Pereira Martins 
Leonardo Batista Pedroso 
Rildo Aparecido Costa 





Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) 


G345 Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 / 
Organizadores Fernanda Pereira Martins, Leonardo 
Batista Pedroso, Rildo Aparecido Costa. - Ponta Grossa 
- PR: Atena, 2021. 


Formato: PDF 

Requisitos de sistema: Adobe Acrobat Reader 
Modo de acesso: World Wide Web 

Inclui bibliografia 

ISBN 978-65-5983-354-2 

DOI: https://doi.org/10.22533/at.ed.542210608 


1. Geografia. |. Martins, Fernanda Pereira 
(Organizadora). Il. Pedroso, Leonardo Batista (Organizador). 
Ill. Costa, Rildo Aparecido (Organizador). IV. Título. 

CDD 910 


Elaborado por Bibliotecária Janaina Ramos - CRB-8/9166 














Atena Editora 

Ponta Grossa - Paraná - Brasil 
Telefone: +55 (42) 3323-5493 
www.atenaeditora.com.br 
contatoBatenaeditora.com.br 





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DECLARAÇÃO DOS AUTORES 


Os autores desta obra: 1. Atestam não possuir qualquer interesse comercial que constitua um 
conflito de interesses em relação ao artigo científico publicado; 2. Declaram que participaram 
ativamente da construção dos respectivos manuscritos, preferencialmente na: a) Concepção 
do estudo, e/ou aquisição de dados, e/ou análise e interpretação de dados; b) Elaboração do 
artigo ou revisão com vistas a tornar o material intelectualmente relevante; c) Aprovação final 
do manuscrito para submissão.; 3. Certificam que os artigos científicos publicados estão 
completamente isentos de dados e/ou resultados fraudulentos; 4. Confirmam a citação e a 
referência correta de todos os dados e de interpretações de dados de outras pesquisas; 5. 
Reconhecem terem informado todas as fontes de financiamento recebidas para a consecução 
da pesquisa; 6. Autorizam a edição da obra, que incluem os registros de ficha catalográfica, 
ISBN, DOI e demais indexadores, projeto visual e criação de capa, diagramação de miolo, assim 


como lançamento e divulgação da mesma conforme critérios da Atena Editora. 


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DECLARAÇÃO DA EDITORA 


A Atena Editora declara, para os devidos fins de direito, que: 1. A presente publicação constitui 
apenas transferência temporária dos direitos autorais, direito sobre a publicação, inclusive não 
constitui responsabilidade solidária na criação dos manuscritos publicados, nos termos 
previstos na Lei sobre direitos autorais (Lei 9610/98), no art. 184 do Código penal e no art. 
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institucionais, com fins exclusivos de divulgação da obra, desde que com o devido 
reconhecimento de autoria e edição e sem qualquer finalidade comercial; 3. Todos os e-book 
são open access, desta forma não os comercializa em seu site, sites parceiros, plataformas de 
e-commerce, ou qualquer outro meio virtual ou físico, portanto, está isenta de repasses de 
direitos autorais aos autores; 4. Todos os membros do conselho editorial são doutores e 
vinculados a instituições de ensino superior públicas, conforme recomendação da CAPES para 
obtenção do Qualis livro; 5. Não cede, comercializa ou autoriza a utilização dos nomes e e- 
mails dos autores, bem como nenhum outro dado dos mesmos, para qualquer finalidade que 


não o escopo da divulgação desta obra. 


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Ano 2021 


APRESENTAÇÃO 


Discutir o ensino neste momento de grandes reflexões e mudanças na sociedade é 
essencial. Diversas transformações no âmbito da educação têm ocorrido, especialmente 
quanto à organização curricular, o que pode impactar diretamente grandes áreas do 
conhecimento, como a Geografia. 

A coleção “Geografia, Ensino e Construção de Conhecimentos 2” constitui-se em 
palco para discussão dos diversos saberes associados ao ensino-aprendizagem no âmbito 
da ciência geográfica. A obra é composta por pesquisas que englobam relatos de casos e/ 
ou revisões bibliográficas em diversas esferas da educação. 

A coleção de artigos aqui inserida demonstra a diversidade de temas, teorias e 
metodologias que são empregadas no processo da construção da consciência geográfica. 
O livro é constituído por 20 capítulos, que remontam distintas experiências no contexto 
supracitado, cada qual com sua expertise e contribuições epistemológicas. 

Assim, essa coletânea se concretiza a partir do empenho de vários pesquisadores, 
os quais representam diversas instituições de ensino e de pesquisa e que aqui deixam suas 
contribuições para ampliar as discussões dentro do ensino-aprendizagem da Geografia. 

Que essa leitura seja de grande valia e possa gerar reflexões importantes que 


venham a somar em sua trajetória na ciência geográfica. 


Fernanda Pereira Martins 
Leonardo Batista Pedroso 
Rildo Aparecido Costa 


SUMÁRIO 


CAPITULO A ara Ai add 1 


MOVIMENTO DE RENOVAÇÃO DA GEOGRAFIA E FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE 
GEOGRAFIA NO BRASIL 
Ana Rita Xavier 


d) https://doi.org/10.22533/at.ed.5422106081 


CAPILAR ara CRETA ug RR a 9 


UNIVERSIDADES OCIDENTALIZADAS: DA CÂNONE EPISTÊMICA DO SECULO XVI À 
CONTRA HEGEMONIA NO SÉCULO XXI 
Tiago Sandes Costa 


d) https://doi.org/10.22533/at.ed.5422106082 


[67.V:) BU) 6 Ex 18 


O ENSINO DA GEOGRAFIA E O DESENVOLVIMENTO DAS COMPETÊNCIAS E 
HABILIDADES INTERPESSOAIS 

Rodrigo Boeing Althof 

Thiago Domingos Marques 


é) hitps://doi.org/10.22533/at.ed.5422106083 


CAPITULO Asia iii 30 


CARACTERÍSTICAS E EPISTEMOLOGIA DA GEOGRAFIA GREGA 
Ewerton Ferreira Cruz 
Glaycon de Souza Andrade e Silva 
José Henrique Izidoro Apezteguia Martinez 
Deborah Cristina da Rocha 


é) https://doi.org/10.22533/at.ed.5422106084 


CAPITULOS asas 45 


ELABORAÇÃO DE BASE DE CONCEITOS PARA DISSERTAÇÃO DE MESTRADO EM 
GEOGRAFIA 

Diego Paschoal de Senna 

Lisandro Pezzi Schmidt 


d) https://doi.org/10.22533/at.ed.5422106085 


CAPITULO O c2ssa72io 2022 ra 54 


A CARTOGRAFIA PARA LER O MUNDO: UMA PROPOSTA METODOLÓGICA 
Ana Paula Dechen Rodrigues 
Pedro da Costa Alamy 
Tulio Barbosa 
Vinícius Fernandes Alves 
Maria Clara Martins de Oliveira 


é https://doi.org/10.22533/at.ed.5422106086 





CAPITULO 75,2 do ie e E 65 


QLLAKI: PRODUÇÃO DE SOFTWARE BASEADO EM DADOS GEOMÁTICOS DA 
FRONTEIRA 
Rodrigo Freire dos Santos Alencar 


d)) https://doi.org/10.22533/at.ed.5422106087 


CAPITULO Bisa dao io E 78 


A CARTOGRAFIA TEMÁTICA NA SALA DE AULA COMO ESTRATÉGIA DE VALORIZAÇÃO 
DO PATRIMÔNIO CULTURAL 
Marcela Maria Patriarca Mineo 


é) hitps://doi.org/10.22533/at.ed.5422106088 


CAPRI WO Saad 87 


A FORMAÇÃO DE PROFESSORES PARA O TRABALHO COM A CARTOGRAFIA 
ESCOLAR NAS SERIES INICIAIS 

Adriana Salviato Uller 

Amanda Weridyana Uller 


é) hitps://doi.org/10.22533/at.ed.5422106089 


CAPITULO O s;2icia oo 98 


A UTILIZAÇÃO DO PROCESSO DE GEOCODING E SOFTWARES LIVRES PARA 
GESTÃO DE DADOS GEOESPACIAIS DA COVID-19 EM BELÉM-PA 

Arthur José da Silva Rocha 

Erick Peuriclepes Rodrigues da Silva 

Marcos Gabriel Silva e Silva 

Mozart dos Santos Silva 

João Matheus dos Santos Leal 

Andrea Alves Valente 

Adler Henrique Rodrigues Alves 


é) hitps://doi.org/10.22533/at.ed.54221060810 


EPT O agi 111 


BALANÇO DE ENERGIA COM IMAGENS LANDSAT 8 EM LIMOEIROS SOB DIFERENTES 
SISTEMAS DE IRRIGAÇÃO NO SUDESTE DO BRASIL 

Antônio Heriberto de Castro Teixeira 

Tiago Barbosa Struiving 

Janice Freitas Leivas 

João Batista Ribeiro da Silva Reis 

Fúlvio Rodriguez Simão 


d) https://doi.org/10.22533/at.ed.54221060811 


[67.V) E 00) o Ds [RR 123 


A ATUAL CONFIGURAÇÃO DO PUNCTUM DOLENS BRASILEIRO NO SÉCULO XXI 
Wendell Teles de Lima 
Ana Maria Libório de Oliveira 
Sebastião Perez de Souza 


Marcelo Lacortt 
Rita Dácio Falcão 
Maércio de Oliveira Costa 


d)) https://doi.org/10.22533/at.ed.54221060812 


CAPITULO Saia o Ra DS O SÓ 135 
A VULNERABILIDADE DE INFRAESTRUTURA E MEIO AMBIENTE DOS MUNICÍPIOS 
INSERIDOS NA BACIA DO RIO PIRACICABA/MG 

Ewerton Ferreira Cruz 

Alecir Antonio Maciel Moreira 

José Henrique Izidoro Apezteguia Martinez 

d https://doi.org/10.22533/at.ed.54221060813 


CAPITULO IA, sais 149 


IMPACTOS SOCIOAMBIENTAIS E RECUPERAÇÃO DE ÁREAS DEGRADADAS APÓS O 
MEGADESASTRE DE 2011 EM NOVA FRIBURGO (RJ) 

Denise de Almeida Gonzalez 

Alexander Josef Sá Tobias da Costa 


d)) https://doi.org/10.22533/at.ed.54221060814 


CAPITULO 15: cio ia eq Sia 160 


AMEAÇA DE INUNDAÇÃO NA REGIÃO DA CALHA NORTE - ESTADO DO PARÁ - 
AMAZÔNIA 

Marcos Vinicius Rodrigues Quintairos 

Eliane de Jesus Miranda Santana 


d) https://doi.org/10.22533/at.ed.54221060815 


CAPITULO TOS za ia ideia 174 


ANÁLISE DA SEGREGAÇÃO SOCIOESPACIAL URBANA EM RONDONÓPOLIS (MT), A 
PARTIR DOS ESPAÇOS PUBLICOS DE LAZER INSTALADOS 

Rubens Petri Torres 

Silvio Moises Negri 


d) https://doi.org/10.22533/at.ed.54221060816 


CAPITULO 172 is asia ii 189 


CEMITÉRIO HARMONIA: UMA APROXIMAÇÃO ENTRE ARQUITETURA E PATRIMÔNIO 
CULTURAL NO MUNICÍPIO DE TELÊMACO BORBA (PR) 

Ingrid Cristina Ligoski de Avila 

Brunna Adla Ferreira 


d) https://doi.org/10.22533/at.ed.54221060817 


CAPÍTULO Bai 195 


EVOLUÇÃO HISTÓRICA E URBANA DE CONTRASTE URBANO EM ÁREA RESIDENCIAL 
NA CIDADE DE SÃO LUIS - MA: PENINSULA DA PONTA D'AREIA E ILHINHA 

Walber da Silva Pereira Filho 

Hugo José Abranches Teixeira Lopes Farias 


Marluce Wall de Carvalho Venancio 
Saulo Ribeiro dos Santos 


é) https://doi.org/10.22533/at.ed.54221060818 


CAPITULO 19 sair 206 
MATERIAIS DIDÁTICOS NO ENSINO DE GEOGRAFIA: PRÁTICAS EM SALA 

Lia Dorotéa Pfluck 

é) https://doi.org/10.22533/at.ed.54221060819 


CAPÍTULO 20: sia den o 224 


TRAJETÓRIAS DE VIDA E MIGRAÇÕES DO TRABALHO PARA O CAPITAL NO 
AGROHIDRONEGOCIO  CANAVIEIRO NA 102 REGIAO ADMINISTRATIVA DE 
PRESIDENTE PRUDENTE (SP) 

Fredi dos Santos Bento 

Antonio Thomaz Junior 


d)) https://doi.org/10.22533/at.ed.54221060820 
SOBRE OS ORGANIZADORES ............... nene eeeeeererarareraranananaaa 236 
ÍNDICE REMISSIVO............ aeee rare ra rara rara aeee araras 237 





CAPÍTULO 1 


MOVIMENTO DE RENOVAÇÃO DA GEOGRAFIA E 
FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE GEOGRAFIA NO 


Data de aceite: 02/08/2021 


Ana Rita Xavier 

Escola Municipal Vereador Raymundo 
Hargreaves 
http://lattes.cnpq.br/8762942204092414 


RESUMO: O Artigo discorre sobre: o movimento 
de renovação da geografia, o processo de 
formação de professores e a geografia como 
disciplina científica no Brasil. A intenção é 
compreender os caminhos do movimento de 
renovação geográfica e verificar que muitas 
foram às produções, os debates, os encalços 
para concretização deste movimento. A 
efetivação no ensino não só possibilitou uma 
melhor formação dos profissionais envolvidos 
com o ensino-aprendizagem de Geografia, 
como abriu caminhos para aqueles que veem 
a Geografia como possibilidade de mudança de 
uma realidade que nos parece tão complexa. 
PALAVRAS-CHAVE: Conhecimento, disciplina, 
espaço geográfico. 


MOVEMENT TO RENEW THE 
GEOGRAPHY AND FORMATION OF 
THEGEOGRAPHY TEACHER IN BRAZIL 
ABSTRACT: The article discusses: the renewal 
movement of geography, the process of teacher 
education and geography as a scientific discipline 
in Brazil. The intention is to understand the paths 
of the movement of geographic renewal and verify 
that many went to the productions, debates, the 
trails to achieve this movement. Effective teaching 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 


BRASIL 


not only enabled a better training of professionals 
involved with teaching-learning Geography, but 
also opened paths for those who see Geography 
as a possibility to change a reality that seems so 
complex to us. 

KEYWORDS: Knowledge, Discipline, Geographic 
Space. 


MOVIMENTO DE RENOVAÇÃO DA 
GEOGRAFIA 

A Geografia como área de conhecimento 
foi valorizada desde a antiguidade na Grécia 
antiga onde os estudos geográficos estiveram 
vinculados à filosofia, matemática e as ciências 
da natureza. Seus conhecimentos delinearam- 
se com Tales e Anaximandro que privilegiavam 
a medição do espaço e discutiam sobre a forma 
da Terra. Com Heródoto, a descrição dos lugares 
sob a ótica regional. Quanto à relação homem e 
meio foi defendida por Hipocrates. Contudo, não 
havia uma especificação da Geografia e com 
conhecimento qual se encontrava disperso sem 
conteúdo unitário. 

No entanto, com o fim da Idade Média e 
renascimentos das rotas comerciais a Geografia 
ganhou maior força. Até o final do século 
XVIII não foi possível falar de conhecimento 
geográfico com unidade temática. O conceito 
de Geografia consistia em relatos de viagem, 
compêndios de curiosidades sobre lugares 
relatórios estatísticas, 


exóticos, catálogos 


sistemáticos sobre os continentes e os países 


Capítulo 1 


do Globo etc. Para Moraes (1991, p.34), “[...] trata-se de todo um período de dispersão do 
conhecimento geográfico, onde é impossível falar dessa área de conhecimento como um 
todo sistematizado e particularizado”. 

A expansão do capitalismo, o desenvolvimento comercial e industrial no início do 
século XIX foram fatores que contribuíram efetivamente para que a Geografia se tornasse 
uma ciência independente e com base científica e específica. A sistematização geográfica 
colaborou, segundo Moraes (1991, p. 34), efetivamente para o processo de consolidação 
do capitalismo na Europa devido aos “[...] avanços e domínio das relações capitalistas de 
produção. E na própria constituição do modo de produção capitalista”. 

Para Martins (2005), a Geografia como disciplina acadêmica surgiu e foi introduzida 
na Universidade, em 1870, na Alemanha, através de Humboldt e Ritter. Fato semelhante 
ocorreu na França com os trabalhos de Paul Vidal de La Blache que foi de extrema 
importância para a evolução da história do pensamento geográfico. Quanto ao Brasil, as 
últimas décadas do século XIX foram decisivas para a ciência geográfica que 


[...] passou a ganhar importância com a criação do Instituto Histórico e 
Geográfico Brasileiro (IHGB), em 1838, e da Sociedade Geográfica do Rio 
de Janeiro (SGRJ), em 1883. Essas instituições contribuíram no sentido de 
impulsionar os estudos e o ensino da geografia, utilizados no reconhecimento 
do território e na constituição de uma identidade nacional. (MARTINS, 2005, 
p. 2). 





Com o incentivo dessas instituições a Geografia se firmou como disciplina no século 
XX e foi muito utilizada no reconhecimento do território e na constituição de uma identidade 
nacional, principalmente após a Segunda Guerra Mundial. 

Com a implantação de novas tecnologias houve mudanças na economia, pois 
cresceu a urbanização e a industrialização. Esses fatores fizeram com que a realidade do 
espaço se modificasse principalmente no setor agrário, que foi envolvido pela mecanização 


agrícola. O crescimento econômico fez com que 


as realidades locais paulatinamente tornassem elos de uma rede articulada 
em nível nacional e mundial, ou seja, cada lugar deixou de explicar-se por si 
mesmo como produto de longa relação (dialética), histórica entre a vida do 
homem em sociedade e o meio natural transformado em meio geográfico por 
esse mesmo homem. (PONTUSCHKA, 2007 p. 51). 


O espaço geográfico mediado pelo capitalismo tornou-se difícil de explicar, sendo 
assim, as metodologias usadas pela Geografia vigente não davam conta de solucionar toda 
essa complexidade. Assim, uma nova vertente de pensamentos surgiu para fundamentar e 
contribuir com a ciência geográfica. Essa nova linha de pensamento é denominada como o 
Movimento de Renovação da Geografia. 

Para Moraes (1991) o movimento de renovação aconteceu porque a Geografia 
Tradicional entrou em crise e novamente perguntou-se qual o objeto, o método e o 
significado dessa disciplina. Como respostas a tais indagações foram buscar em novas 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 1 ER 


técnicas os caminhos para liberdade de maior criação e reflexão para análise geográfica. 
Porém, este movimento se dispersou e terminou por gerar ideias antagônicas e excludentes 
que resultaram em dois grandes movimentos: a Geografia Pragmática e a Crítica. 

A Geografia Pragmática, segundo Moraes (1991), remete uma crítica ao 
conhecimento tradicional qual era totalmente voltado para o passado. Dessa forma, propõe 
um conhecimento voltado para o futuro, cuja finalidade era criar uma tecnologia geográfica 
de intervenção na realidade. 

Esta Geografia foi um instrumento de dominação burguesa por ligar-se ao sistema 
capitalista o qual monopoliza, busca a maximização dos lucros, a manutenção do capital e 
a exploração do trabalho. No entanto, teve sérias críticas com relação a sua contribuição, 
pois 

[...] simplifica arbitrariamente o universo da análise geográfica, torna-o mais 
abstrato, mais distante do realmente existente. Seus autores empobrecem a 
Geografia, ao conceber múltiplas relações entre os elementos da paisagem, 
como relações matemáticas, meramente quantitativas. Empobrecem a 
Geografia, ao conceber a superfície da terra (para o pensamento tradicional 
a “morada do homem” ou o “teatro da História”), como um espaço abstrato 
de fluxos, ou uma superfície isotrópica, sob a qual se inclina o planejador, e 
assim a desistoricizam e a desumanizam. (MORAES, 1991, p.117). 

Em síntese, esta linha de pensamento simplifica o espaço defende a burguesia, 
retalha o objeto e se afasta da proposta de encontrar o objeto da Geografia perdendo 
espaço para a Geografia Crítica. Esta tem por objetivo se posicionar de forma radical frente 
ao pensamento anterior buscando a transformação da realidade social. Entre inúmeros 
autores optamos por destacar aqui apenas Milton Santos e Yves Lacoste. 

Assim como outros pensadores, Santos e Lacoste buscaram fazer ampla avaliação 
de todo pensamento que acompanhou a Geografia até meados do século XX. Suas críticas 
são direcionadas inicialmente para o meio acadêmico em que o empirismo, a estrutura 
acadêmica, o apego às velhas teorias, o isolamento dos geógrafos e a despolitização do 
discurso geográfico reinavam nos centros acadêmicos e que percorreram como um todo o 
pensamento tradicional. 

Tais autores elaboraram suas teorias mostrando o papel que a Geografia ocupa 
no campo do saber. Um saber que visa a transformação da realidade social, que possui 
conhecimento científico, mas que também milite a favor de uma sociedade mais igualitária 
e que possa ser instrumento de libertação do homem. 

O geógrafo Lacoste (1977), quando escreveu o seu livro “A geografia serve, antes 
de mais nada, para fazer a guerra”, coloca que o saber geográfico ocupa dois planos: 
a Geografia dos Estado-Maiores ligada à própria prática do poder e a Geografia dos 
Professores denominada como tradicional. Para Lacoste (1977), a Geografia funciona 
como instrumento de dominação da burguesia, dotada de alto potencial prático e ideológico. 
Segundo este autor, é preciso romper com este pensamento propondo novas ideias e 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 1 EEE 


perspectivas renovadoras para denunciar o que percebemos o que está na contramão da 
transformação. Ele ainda argumenta que é necessário conhecer o espaço para nele se 
organizar e combater. 

Santos (1978) com sua obra: Por uma Geografia Nova expõe sua concepção do 
objeto geográfico, argumenta que é necessário discutir o espaço social, pois este é a 
morada do homem. Dessa forma, é preciso estar nele e aprender toda sua dinâmica porque 
será através dele que ressurgirão novas formas de organizações espaciais para a ação 
humana. Ter o entendimento da ação humana sobre a superfície terrestre é essencial para 
reformular e pensar o espaço como lugar de luta e transformações sociais. 

Segundo Moraes (1991), Milton Santos avança em suas análises e acentua que a 
unidade de estudo do geógrafo deve ser o Estado Nacional, devido à variedade de lugares 
contida em seu território. Esta diferença de lugares envolvendo os aspectos históricos, 
naturais e variáveis originadas da acumulação desigual do tempo é que possibilitam o 
processo contínuo de modernização, definindo o objeto de preocupação do geógrafo. 
Neste contexto, cabe então ao geógrafo fazer uma Geografia mais generosa e visualizar o 
espaço mais organizado a favor dos interesses humanos. 

Neste contexto, que a partir da década de 80, começaram a ocorrer mudanças mais 
radicais no ensino de Geografia no Brasil, advindas das discussões teórico-metodológicas 
que se desenvolviam no meio acadêmico. Entre os trabalhos que contribuíram para essa 
renovação podemos citar, dentre outros, os de José W. Vesentini, Antônio Carlos Roberto 
de Moraes, Manuel Correa de Andrade, Ariovaldo U. Oliveira como também o de Milton 
Santos. 

Estes autores, juntamente com a Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB), 
fomentaram discussões e abordagens a respeito do ensino de Geografia e a formação dos 
docentes, visando uma Geografia mais crítica e próxima à realidade social. 


A GEOGRAFIA COMO DISCIPLINA CIENTÍFICA 


A Geografia enquanto disciplina científica segue a lógica do contexto sócio-político 
e econômico do século XIX. Já existia nesta época, ainda em processo, a industrialização, 
urbanização, escolarização da sociedade e a construção dos Estados-nações o que 
contribuía para a expansão do capitalismo. Em meio a todos estes ideários só havia um 
instrumento metodológico: o positivismo. As ideias positivistas influenciaram efetivamente 
a Geografia e contribuíram para legitimar o conhecimento científico nessa área. 

Este método científico era desenvolvido através da observação, descrição e 
classificação dos fatos, restringindo-se aos aspectos visíveis e mensuráveis do estudo. 
Dessa forma, o ensino de Geografia era puramente descritivo das paisagens humanas e 
naturais e não havia qualquer tipo de relação entre elas. 

No Brasil, não havia professores com licenciatura e bacharelado para lecionar 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 1 RES 


Geografia. Os professores que ministravam as aulas eram médicos, advogados, 
seminaristas e outros profissionais oriundos de variadas faculdades e também das escolas 
normais. 

É preciso salientar que, a Geografia ensinada nas escolas era puramente extraída 
dos livros didáticos escritos por não geógrafos. Isso nos remete a repetição, memorização e 
descrição dos rios, serras, capitais, cidades e outros; características próprias da Geografia 
Tradicional e da realidade científica da época. 

Este período também é conhecido, segundo Pontuschka (2007, p. 46) como a “pré- 
história da Geografia”. Tal período foi importantíssimo para a produção geográfica porque, 
mesmo sendo produzida por profissionais não formados na área, estes pesquisadores faziam 
parte da Comissão Geográfica e Geológica, criada em 1886. Estes foram responsáveis por 
elaborar pesquisas ligadas ao espaço como: levantamentos detalhados sobre hidrografia, 
geologia, solo, vegetação, cartas topográficas e outros. 

Com a difusão da escolarização para um maior número de pessoas e a instituição 
da Geografia como disciplina básica, aprofundou-se a preocupação com a formação 
acadêmica do professor dessa área de conhecimento. Para Pontuschka (2007), a fundação 
da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFCL/USP), 
em 1934, a Universidade do Distrito Federal, absorvida em 1938, pela Universidade do 
Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro e do Departamento de Geografia em 
1946, foram essenciais para o desenvolvimento da ciência geográfica no país. 

A fundação da FFCL/USP contribuiu para mudanças no perfil do professor de 
Geografia, pois com a implementação do bacharelado e licenciatura houve uma importante 
mudança cultural e, acima de tudo, na sala de aula e na produção geográfica. Sendo 
assim, 


a formação docente em Geografia desenvolveu-se com o crescimento 
da produção científica baseada em trabalhos de campo, realizada com 
estudantes e vinculados à literatura geográfica de origem francesa ou alemã, 
acrescida da crítica dos professores brasileiros. O aluno, ao completar sua 
formação inicial, tornava-se professor de História e Geografia. (PONTUSCHKA, 
2007, p.48). 

Paralelo à criação da Universidade de São Paulo (USP), foi fundada também 
Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB) que ainda exerce fundamental importância 
para todos que acreditam e produzem conhecimento geográfico. 

Cabe destacar que a AGB iniciou a publicação do Boletim Paulista de Geografia 
(BPG) com seções dedicadas ao ensino o que ajudou como fonte bibliográfica, tanto para 
o ensino fundamental, como para o médio. 

Ainda na década de 40 e 50, do século XX, havia uma relevância para os estudos 
regionais, em que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) exerceram papel 
fundamental nas pesquisas geográficas. Estas pesquisas foram utilizadas pelos professores 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 1 RE 


para complementar suas aulas e os editores a publicavam em seus livros. 

Contudo, foi em 1957 que um grande passo foi dado para a consolidação do 
ensino de Geografia no país, pois foi neste ano que ocorreu o desmembramento do curso, 
passando a existir vestibulares específicos para História e Geografia. 


FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE GEOGRAFIA NO BRASIL 


Foi com o decreto nº 19851 de 11 de abril de 1931 que o Ministro Francisco Campos 
introduziu o sistema universitário renovando o Ensino Superior no Brasil. Foram criadas as 
Faculdades de Educação, Ciências e Letras que abrigou vários cursos e entre eles o de 
Geografia. 

Neste momento, os cursos de História e Geografia ainda se constituíam em uma 
única graduação e eram ministrados por professores oriundos da Europa. A partir de 1936 
foram formados os primeiros professores licenciados para atuar no Ensino Secundário. 

Conforme Rocha (2000), os novos licenciados tornaram-se elementos importantes 
para a mudança cultural da época, pois pela primeira vez surgiam professores que haviam 
tido formação que os qualificava para o exercício da Geografia. 

Para Rocha (2000), houve uma difusão de cursos de formação de professores 
de Geografia a partir da década de 50, do século XX, muitas turmas ingressaram e se 
qualificaram tanto nas universidades públicas quanto nas privadas e posteriormente atuava 
nos diferentes níveis de ensino. 

Mas, com a entrada em vigor da Lei nº 4024/61 que estabelecia as Diretrizes e Bases 
da Educação Nacional, os cursos de Geografia passaram a ter uma nova regulamentação, 
isto é, foi estabelecido um currículo mínimo e de caráter nacional para os mesmos. 

Após esta regulamentação, houve também a Lei da Reforma do Ensino Superior 
nº 5540/68 que instituiu que o Ensino Superior deveria ser organizado sob a forma de 
Universidade, o que contribuiu para a expansão do Ensino Superior no país. Em virtude da 
aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 5692/71 (LDB) efetivou-se 
também a expansão dos estabelecimentos com licenciatura curta em todas as áreas de 
ensino. Criou-se, então, o curso de graduação em Estudos Sociais, substituindo os cursos 
de graduação em Geografia e História. 

Em resposta a tal aprovação, houve reação por parte dos geógrafos brasileiros a 
respeito da criação desta licenciatura. Fato que pode ser observado através de críticas 
feitas pelo Boletim Paulista de Geografia de 1981 que aponta 


Seabra questionava a maneira pela qual se pretendia chegara essa integração: 
a formação polivalente de professores que recebiam um verniz das diferentes 
disciplinas, História e Geografia, sem que tivessem, durante o processo de 
formação, uma reflexão profunda sobre os fundamentos epistemológicos 
de cada disciplina. Segundo o autor, retirava-se da relação entre ensinar e 
aprender sua propriedade fundamental, ou seja, preparar o sujeito para estar 
no mundo, para agir no mundo e participar da construção da realidade social 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 1 EE 


presente e futura. (PONTUSCHKA, 2007. p. 65). 


Com a criação dos Estudos Sociais, a situação do professor ficou ambígua, pois 
a política educacional estruturada separava licenciatura do bacharelado. Essa dicotomia 
instaurada 


[...] vem se perpetuando nas universidades até a atualidade. É idéia corrente 
acreditar que o bacharelado tem status superior à licenciatura por formar o 
geógrafo-pesquisador, enquanto a segunda forma “apenas” o professor, cuja 
função se restringe à transmissão dos conteúdos resultantes das pesquisas 
realizadas pelos pesquisadores. (PINHEIRO, 2006, p. 93) 


Conforme Pinheiro (2006), muitas pesquisas foram realizadas sobre o ensino 
de Geografia no Brasil, entre o período de 1968 e 2003. Pesquisas que dirigiam seus 
interesses com a temática da formação de professores e da licenciatura. A maioria das 
dissertações e teses 


[...] evidencia o distanciamento, na formação acadêmica, entre os conteúdos 
pedagógicos, conteúdos específicos e a realidade do trabalho docente, 
ocasionando, na prática dos professores, diversos problemas. A falta de 
articulação das áreas, de métodos, conteúdos, entre outros aspectos, ainda 
revela o pouco interesse no meio acadêmico, pelas licenciaturas e demais 
cursos de formação de professores. (PINHEIRO, 2006, p. 93) 


A conclusão apontada por este autor é 


O curso de licenciatura tem apresentado diversos problemas quanto à sua 
função na formação de professores, sobretudo, por não ter atendido às 
necessidades da formação para todos os níveis do ensino. Os entraves 
existentes na licenciatura são vários, mas no caso da Geografia, considerando 
o que revelam as pesquisas, estão relacionados à desarticulação entre 
a formação acadêmica e a prática docente. Os problemas residem na 
organização dos cursos, em sua desvalorização por alguns institutos e 
professores das disciplinas específicas e pedagógicas, além de sua pouca 
inserção na realidade. (PINHEIRO, 2006, p.94). 

Entretanto, essa situação começou a mudar no início da década de 80 quando 
professores, alunos, entidades de classes manifestaram-se contrários a essa política 
de formação dos docentes. Conforme Pinheiro (2006, p. 95), entidades como AGB e a 
Associação Nacional dos Professores de História (ANPH) “propuseram novas alterações 
nos currículos dos cursos de formação de professores”. Houve de certa forma um avanço, 
isto é, era possível cursar dois anos de Geografia ou História e obter licenciatura plena em 
uma dessas áreas. Porém, este modelo não foi satisfatório sendo gradativamente extinto 
na década de 90 e substituído pelas licenciaturas específicas das mesmas. 

Com a Novada Lei de Diretrizes e Bases (LDB) (Leinº 9394/96) novas reformas foram 
realizadas pelo governo Federal, sendo a escola básica dividida em Ensino Fundamental 
e Ensino Médio. Foram adotados também os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) 
para o ensino básico e elaboradas as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) para os 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 1 


cursos superiores de graduação. 

Assim, as décadas de 80 e 90, do século XX, foram intensas para a renovação da 
Geografia nas escolas. Houve debates, tendências e propostas curriculares, em que foram 
postas à disposição dos professores, bem como a dos responsáveis pela formação docente. 
O objetivo dessas produções era minimizar a distância entre o Ensino de Geografia e a 
realidade social, política e econômica do país. Foi com esse propósito que se iniciou um 
movimento de renovação escolar. Renovação que começou, num primeiro momento com 
a reestruturação acadêmica dos cursos de Geografia e abriu caminhos também para, uma 
reestruturação dos conteúdos programáticos e práticas escolares abordados no ensino 
básico de Geografia. 


REFERÊNCIAS 


LACOSTE, Yves. A Geografia serve, antes de mais nada, para fazer a guerra. Iniciativas Editoriais, 
Lisboa, 1977. 


MARTINS, Rosa Elisabete Militz Wypyczynski. O ensino de Geografia em Questão: Um olhar sobre 

o ensino médio. In: 28º Reunião Anual da Anped, 2005, Caxambu/MG. 40 anos de Pós-graduação 
no Brasil: produção de conhecimentos, poderes e práticas, 2005. Disponível em: <http/Avww.upf.br> 
Acesso em: 15 fev. 2009. 


MORAES, Antônio Carlos Robert. Pequena História Crítica. 10. ed. São Paulo: Hucitec, 1991. 


PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS. INTRODUÇÃO aos parâmetros curriculares nacionais. 
Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1997. 


PINHEIRO, Carlos Antônio. Dilemas da Formação do Professor de Geografia no ensino Superior. 
In: CAVALCANTI, Lana de Souza (Org). Formação de Professores: Concepções e Práticas em 
Geografia. Goiânia: E.V., 2006. 


PONTUSCHKA, Nidia Nacib; PANGANELLI, TomokoLyda; CACETE, Núria Hanglei. Para ensinar e 
aprender geografia. 1. ed. São Paulo: Cortez, 2007. Coleção docência em formação. (Série ensino 
fundamental). 


ROCHA, Genylton Odilon Rêgo da. Uma breve história da formação do (a) professor (a) de 
Geografia no Brasil. Terra Livre, São Paulo, n.15, 2000. p.129-144. 


SANTOS, Milton. Por uma Geografia Nova: Da Critica da Geografia a uma Geografia Critica. 1. ed. 
Hucitec (Edusp), São Paulo, 1978. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 1 [EE 


CAPÍTULO 2 


. UNIVERSIDADES OCIDENTALIZADAS: DA 
CANONE EPISTEMICA DO SECULO XVI À CONTRA 
HEGEMONIA NO SECULO XXI 


Data de aceite: 02/08/2021 


Tiago Sandes Costa 

Programa de Pós-graduação em Geografia 
(Tratamento da Informação Espacial) PUC- 
Minas 

Belo Horizonte, Minas Gerais 
https://orcid.org/0000-0003-1772-7225 


RESUMO: O artigo faz um diálogo a partir da 
consolidação do conhecimento geográfico a 
partir das eminentes discussões proposta por 
Ramón Grosfoguel fazendo uma interlocução 
na contemporaneidade com o processo de 
globalização discutida por Milton Santos, David 
Harvey, entre outros. O objetivo é contribuir com 
o debate epistemológico no que concerne a 
influência hegemônica do pensamento geográfico, 
constituído no século XVI, fazendo um reconte 
temporal para o século XXI. Metodologicamente, 
a pesquisa tem um caráter teórico, com um aporte 
literário consistente, que pretende estabelecer 
um aprofundamento conceitual e epistêmico em 
torno das contribuições de vários pensadores. 
Pudemos evidenciar as contribuições dos 
pensadores tendo como perspectiva a 
importância da construção epistêmica por 
parte dos pesquisadores e o rompimento com 
a centralização do conhecimento em países 
europeus. 

PALAVRAS-CHAVE: Epistemologia. Racismo. 
Sexismo. Genocídio. Epistemicídio. 


ABSTRACT: The article is a dialogue from 
the consolidation of geographical knowledge 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 


from the eminent discussions proposed by 
Ramón Grosfoguel making an interlocution in 
contemporary times with the globalization process 
discussed by Milton Santos, David Harvey, 
among others. The objective is to contribute 
to the epistemological debate regarding the 
hegemonic influence of geographic thought, 
constituted in the 16th century, making a temporal 
recounting for the 21st century. Methodologically, 
the research has a theoretical character, with a 
consistent literary contribution, which intends to 
establish a conceptual and epistemic deepening 
around the contributions of several thinkers. 
We were able to highlight the contributions of 
thinkers with the perspective of the importance 
of epistemic construction by researchers and 
the break with the centralization of knowledge in 
European countries. 

KEYWORDS: Epistemology. Racism. Sexism. 
Genocide. Epistemicide. 


11 INTRODUÇÃO 


Ao longo do desenvolvimento histórico, 
a ciência geográfica se consolida e transcende 
ao apresentar concepções que contribuíram 
significativamente para a compreensão da 
evolução das sociedades. Santos (2003) mostra 
“a batalha travada entre a nação passiva e a 
nação ativa”, em uma transição política que 
envolve todos os espaços do viver, desde o 
espaço da vida cotidiana. (SANTOS, 2008, p. 
160). Ao estabelecer o século XVI enquanto 
norte para embasar a argumentação proposta 
com um recorte para o século XXI, se faz 


Capítulo 2 


necessário compreendermos os aspectos mais relevantes da estrutura epistêmica em um 
período de expansão e domínio territorial tendo como premissa o Cartesianismo (René 
Descartes) entrelaçando o racismo/sexismo ao genocídio/epistemicídio enquanto método 
opressor e de expropriação da cultura, religião, línguas e modo de vida. 

Em seu artigo “A estrutura do conhecimento nas universidades ocidentalizadas: 
racismo/sexismo epistêmico e os quatro genocídios/epistemicídios do longo século XVI”, 
Grosfoguel (2016) responde alguns questionamentos baseados a partir das análises de 
Boaventura de Sousa Santos sobre a premissa dos conhecimentos hegemônicos (Norte- 
Cêntrica) excludentes do sistema-mundo e das críticas de Dussel sobre o panorama 
estabelecido pelo modelo de poder exposto pela filosofia Cartesiana. 

Como é possível que o cânone do pensamento em todas as disciplinas da ciências 
sociais e humanidades nas universidades ocidentalizadas (Grosfoguel, 2012) se baseie 
no conhecimento produzido por uns poucos homens de cinco países da Europa Ocidental 
(Itália, França, Inglaterra, Alemanha e os Estados Unidos)? 

Como foi possível que os homens desses cinco países alcançaram tal privilégio 
epistêmico ao ponto de que hoje em dia se considere o seu conhecimento superior ao do 
resto do mundo? 

Como eles conseguiram monopolizar a autoridade do conhecimento do mundo? 

Por que o que hoje conhecemos como teoria social, histórica, filosófica, econômica 
ou crítica se baseia na experiência sócio-histórica e na visão de mundo de homens destes 
cinco países? Como é que no século XXI, com tanta diversidade epistêmica existente no 
mundo, estejamos ancorados em estruturas epistêmicas tão provincianas camufladas de 
universais? 

Mesmo na atualidade, vivemos em um momento em que a cânone do pensamento 
científico (Ciências Humanas) está intrinsicamente atrelado ao privilégio epistêmico que 
se estabeleceu a partir do século XVI a pensadores de países como França, Alemanha, 
Inglaterra, Estados Unidos e Itália e permanece de forma hegemônica enraizado nas 
universidades ocidentalizadas. Nas entrelinhas, Grosfoguel (2016) cita Boaventura de 
Sousa Santos para embasar suas discussões: 


Quando se ingressa em qualquer departamento de ciências sociais ou 
humanidades, o cânone do pensamento a ser ensinado é fundamentalmente 
encontrado numa teoria produzida por homens dos cinco países da Europa 

ocidental citados anteriormente (SANTOS, 2010). 
O contexto em que se estabelece essas premissas, expõe uma ordem geopolítica 
com a narrativa de “universalidade/superioridade”. É nessa perspectiva que se margeia a 
distopia, em que, a inferioridade e superioridade epistêmica estabelece condições históricas 
para reflexão sobre o momento vigente. Esses 200 anos (1450-1650) de formação do sistema 
histórico estabelecido na filosofia Cartesiana, vivenciou-se na interlocução entre a ciência 


e o divino para constituição de uma ideologia dominante (Cristandade) que externou para 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 2 o 


o mundo um modelo de domínio territorial imposto pela retórica de purificação, escravidão 
dos desalmados e de destruição epistêmica. 

Mesmo depois de 3 (três) séculos, o conhecimento Cartesiano influencia 
diretamente as Universidades ocidentais na produção e difusão do conhecimento científico. 
“É somente a partir dessa constatação, fundado na história real do nosso tempo, que se 
torna possível retomar, de maneira concreta, a ideia de utopia e de projeto” (SANTOS, 
2008, p.160). Tendo em vista os preceitos pré-estabelecidos, se faz necessário um diálogo 
com o amplo processo de globalização discutida por Santos (2003). Sabemos que toda 
essa retórica estabelecida a partir do século XVI influencia a academia até os dias atuais. 
É esse processo de globalização que intermedia o conhecimento produzido, de certa 
forma provinciana, a aplicabilidade que transcende séculos que de certa forma baliza o 
entendimento do que é ciência. A dicotomia centro-periferia do mundo como indutor do 
conhecimento validou a premissa de que o conhecimento deve se estabelecer também 
dessa forma (Dos países desenvolvidos para os subdesenvolvidos), ou seja, o saber é uma 
forma de empoderamento, de se ter o poder. 


21 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 


2.1 Uma leitura a partir de Grosfoguel 


Caracterizando o período que influencia o mundo contemporâneo, Grosfoguel 
(2016) estabelece uma relação de poder para justificar a expansão e domínio sobre os 
povos nativos e sua exiguidade do Deus “certo” e da “purificação” dos povos. 


O que conecta o “conquisto, logo existo” (Ego conquiro) com o idolátrico 
“penso, logo existo” (Ego cogito) é o racismo/sexismo epistêmico produzido 
pelo “extermino, logo existo” (Ego extermino). É a lógica conjunta do genocídio/ 
epistemicídio que serve de mediação entre o “conquisto” e o racismo/sexismo 
epistêmico do “penso” como novo fundamento do conhecimento do mundo 
moderno e colonial. O Ego extermino é a condição sócio-histórica estrutural 
que faz possível a conexão entre o Ego coquiro e o Ego cogito. Em seguida, 
se sustentará que os quatro genocídios/epistemicídios do longo século XVI 
são as condições da possibilidade sócio-histórica para a transformação do 
“conquisto, logo existo” no racismo/sexismo epistêmico do “penso, logo 
existo”. (GROSFOGUEL, 2016) 


Em seu artigo, ele aponta quatro genocídios/epistemicídios no século XVI: 


1. contra os muçulmanos e judeus na conquista de Al-Andalus em nome da “pureza 
do sangue”; 


2. contra os povos indígenas do continente americano, primeiro, e, depois, contra 
os aborígenes na Ásia: 


3. contra africanos aprisionados em seu território e, posteriormente, escravizados no 
continente americano; e 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 2 Fi 


4. contra as mulheres que praticavam e transmitiam o conhecimento indo-europeu 
na Europa, que foram queimadas vivas sob a acusação de serem bruxas. 

É evidente que o genocídio físico e cultural como proposta libertária caracterizou um 
processo de colonização imposta, tendo como retórica a imposição de uma raça superior 
com suas verdades intransigentes que resultou no extermínio epistêmico da sua História 
e o aprofundamento das crises existenciais diante da barbárie estabelecida. Para Quijano 
(2009), a colonialidade do poder é o modo como esse padrão de poder mundial teve 
continuidade e consolidou-se mesmo após o fim do colonialismo, tendo como racionalidade 
específica e eixo articulador o eurocentrismo. Os quatro genocídios/epistemicídios citados 
por Grosfoguel foi a gênese de uma égide colonialista que usurpou a espiritualidade desses 
povos em prol de um sistema/mundo/colonial que evidenciou a disfunção humana por meio 
da divisão em raças e caracterizando um emergente padrão da divisão do trabalho por 
meio da escravidão, inclusive, de gênero. O eurocentrismo, partindo do pressuposto da 
centralidade econômica, científica, cultural e geográfica, permeia a universalização das 
suas concepções ideológicas como hegemônica afim de alicerçar, sobre tudo nos dias 
atuais, uma forma de domínio sobre o mundo periférico. 

Vivemos em um período ainda com características colonialistas, patriarcal, 
divisionista institucionalizada. A contracultura se intensifica como um movimento libertário 
que dignifica a natureza transversal da heterogeneidade, tolerante, que possibilita a 
garantia de sobrevivência frente aos ataques capitalistas e conservadores às sociedades. 

Ao analisarmos todo o enredo constituído a partir do século XVI, passando pela 
expropriação religiosa, cultural e científica que descaracterizou milhares de pessoas, 
pela imposição de um modelo social biologicamente superior, convertendo mulçumanos 
e Judeus e atrelando a imagem animalesca aos povos originários (Índios) no continente 
americano, podemos fazer uma leitura de como esse contexto histórico resultou na atual 
conjuntura estabelecida mesmo depois de três séculos. O globalitarismo, intensificou uma 
imposição totalitária ao mundo subdesenvolvido em vários e distintos setores da sociedade. 
Segundo Santos (1993), o espaço se globaliza, mas não é mundial como um todo senão 
como metáfora. Todos os lugares são mundiais mas não há um espaço mundial. Quem 
se globaliza mesmo são as pessoas” (SANTOS, 1993). A adaptação a esse modelo de 
sociedade capitalizada que impõe um novo modelo de desenvolvimento econômico e social 
onde as contradições se estabelecem como normalidade expõe um desenvolvimentismo 
capitaneado pelas grandes potências econômicas e bélicas numa supremacia abastadas 
sobre as sociedades exploradas ao longo desses séculos. 

Para Soja (1993) 


“A instrumentalidade das estratégias espaciais e locacionais da acumulação 
do capital e do controle social está sendo revelada com mais clareza do que 
em qualquer época dos últimos cem anos. Simultaneamente, há também um 
crescente reconhecimento de que o operariado, bem como todos os outros 
segmentos da sociedade que foram periferalizados e dominados, de um modo 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 2 2 


ou de outro, pelo desenvolvimento e reestruturação capitalistas, precisam 
procurar criar contra-estratégias espacialmente conscientes em todas as 
escalas geográficas, numa multiplicidade de locais, a fim de competir pelo 
controle da reestruturação do espaço” (SOJA, 1993:210). 

Com o fim da guerra-fria e o estabelecimento de uma nova ordem mundial, 
capitaneado por regiões supranacionais, que colocam como ponto crucial a disputa de 
mercados (transformando tudo em mercadoria), inclusive a ciência, que permeamos o 
surgimento de uma nova face do mecanismo de exploração, genocídio e epistemicídio. 
Esses fatos também desencadearam um desenvolvimento desigual. Santos (1996) afirma 
que “uma ordem, cuja inteligência é apenas mediante o processo de totalização, isto é, o 
processo de transformação de uma totalidade em outra totalidade” (SANTOS, 1996:101). 
Foram essas congruências que desaguaram na contemporaneidade toda influência 
transformando-o em um núcleo europeizado. 

Inaugura-se um novo formato de opressão das minorias, intolerância religiosa e 
racial, misoginia, negação da ciência, grandes corporações suprimindo o modelo Estatal, 
além da homogeneização cultural. Sobre esse último ponto, Santos (1996) afirma que “cada 
lugar é, ao mesmo tempo, objeto de uma razão global e de uma razão local, convivendo 
dialeticamente” (SANTOS, 1996:273). 

A história do Brasil é marcada em sua essência pela descaracterização do modo de 
vida dos povos originários. Suas línguas e culturas foram literalmente dizimadas durante 
o período de colonização, marcado pela retórica de expansão territorial de domínio e 
evangelização dos “povos sem alma”. Esse retrato desencadeou um abrupto rompimento 
com suas tradições e culto aos deuses e a natureza e o extermínio de milhares de “índios”. 
O estereótipo desses povos também foram imprescindíveis para que os europeus agissem 
de forma predatória em seu território. 

Ao tratarmos a questão de gênero, ressalta-se a importância de massificar essa 
discussão no tocante a questão indígena. Quando tratamos de temas tão balizados por 
uma sociedade patriarcal, machista e misógina, é importante destacar historicamente o 
quanto as mulheres foram perseguidas. Ainda estamos falando de poder. O século XVI 
foi marcado por essa exaustão em manter a sociedade pautada em uma superioridade de 
gênero, sobretudo hoje. Contudo, cabe ressaltar o período destacado anteriormente. O 
empoderamento das mulheres por meio da produção do conhecimento em diversas áreas 
da ciência, adquiridos por meio dos seus antepassados, foram cruciais para potencializar 
o genocídio/epistemicício desde a idade média. Contudo, foi a partir do Século XVI que 
se intensificou, a inquisição marcou essa época. Ao relacionarmos esse período ao 
conhecimento dos povos nativos, é possível identificar feições que as integralizem. Um 
dos momentos mais complexos da exploração capitalista no Brasil, durante o período de 
interiorização, foi a contaminação dos nativos por doenças que até então nunca assolaram 
essas comunidades. O conhecimento e domínio sobre plantas e animais sempre foram 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 2 13 


cruciais para a manutenção da saúde desses povos. Curandeiros (Pajé), cientistas da 
natureza, protagonizam um papel fundamental na comunidade e com o dever de passar de 
geração em geração seus conhecimentos. Hoje, as indústrias de fármacos se apropriam 
dessas florestas e desse conhecimento para patentear seus remédios. 

A medida que as décadas e séculos se passam, os interlocutores mudam, contudo, a 
trajetória da filosofia de Descartes permanece. Anteriormente, observamos a mundialização 
da economia e da cultura como fator de socialização dos pensamentos europeus. Chegamos 
ao século XXI em que observamos a pertinência temática ora relocada ao século XVI. 
Trata-se de um molde dos modos e práticas externadas e posteriormente criticadas por 
outros estudiosos. 


“por meio da experiência de tudo — comida, hábitos culinários, música, 
televisão, espetáculos e cinema -, hoje é possível vivenciar a geografia do 
mundo vicariamente, como um simulacro. O entrelaçamento de simulacros da 
vida diária reúne no mesmo espaço e no mesmo tempo diferentes mundos. 
Mas ele o faz de tal modo que oculta de maneira quase perfeita quaisquer 
vestígios de origem, dos processos de trabalhos que os produziram ou das 
relações sociais implicadas em sua produção” (SANTOS, 1992:270-271). 

A Divisão Internacional do Trabalho, por exemplo, é reflexo da Divisão Racial do 
Trabalho no século XVI. Essa divisão, que sempre foi injusta, reflete as distorções provocadas 
pelo contexto histórico, do qual, somos produto. As relações sociais se mantém, contudo, 
em outros padrões. Se observarmos, o mercado de trabalho tornou-se dialético na mesma 
proporção de inserção da força de trabalho feminina. A violência contra a mulher só mudou 
de patamar. A cada dia o feminicídio torna-se aparente em uma sociedade opressora e 
que durante muito tempo cerceou os direitos das mulheres à vida. A luta encampada pelas 
mulheres no Brasil foi intensa. O direito ao voto, à educação, ao parto humanizado, ao 
mercado de trabalho com equidade de salários são algumas das pautas elencados durante 
o século XX. A presença da mulher em setores estratégicos ainda são ínfimas. Na política, 
na academia, na arte, na ciência e em outros setores observamos o quanto precisamos 
socializar esses espaços para mudarmos os panoramas, inclusive, quando citamos etnia, 
gênero e raça. Um estudo feito na Universidade Federal do Recôncavo Baiano — UFRB 
expressa essas distorções. Veja o quadro abaixo. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 2 ELI 





Representação dos autores/as no currículo por gênero/sexo 





Homens 


539 autores 


Total: 74,6% 





Mulheres 


183 autoras 


Total: 26,4% 





Representação dos autores/as no currículo por raça e gênero 





Homens brancos 


526 autores 


Total: 72,8% 





Mulheres brancas 


177 autoras 








Total: 24,2% 





Total autores/as brancos/as no currículo: 97% 





Homens negros 


13 autores 


Representação dos autores/as no currículo por raça e gênero 


Total: 1,8% 





Mulheres negras 


06 autoras 








Total: 0,8% 





Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 2 


Total autores/as negros/as no currículo: 2,6% 











Fonte: Almeida; Figueiredo. 


Os séculos XIX e XX foram negativamente marcantes em diferentes períodos. Da 
partilha da África, passando pelas crises econômicas e duas guerras mundiais, genocídios 
de Judeus, conflitos na Terra Santa e chegando ao século XXI com a desconformidade de 
uma globalização perversa moldada por um sistema socioeconômico controverso que gera 
desigualdades desumanas. Milton Santos, em sua visão de futuro, descreve que 


“Não cabe, todavia, perder a esperança, porque os progressos técnicos 
(...) bastariam para produzir muito mais alimentos do que a população atual 
necessita e, aplicados à medicina, reduziriam drasticamente as doenças e a 
mortalidade. Um mundo solidário produzirá muitos empregos, ampliando um 
intercâmbio pacífico entre os povos e eliminando a belicosidade do processo 
competitivo, que todos os dias reduz a mão-de-obra. É possível pensar na 
realização de um mundo de bem-estar, onde os homens serão mais felizes, 
um outro tipo de globalização” (SANTOS, 2002:80). 


A segunda década do século XXI está sendo marcada por mais uma expressiva 
influência da complexa mundialização que estabeleceu parâmetros globais de sociabilização 
da economia imperialista marcada por uma corrente de contra hegemonia que permeie 
uma sociedade mais justa e igualitária. O momento pandêmico em que estamos inseridos, 
nos desloca no espaço e no tempo a períodos em que o poder estatal usava seu aparato 
para massificar uma limpeza étnica. Se conjecturarmos as literaturas é possível verificar 
como a evolução temporal apenas moldou os mecanismos de domínio e autoritarismo 
refazendo novos caminhos para manter a hegemonia geopolítica. As escritas são as 
descrições históricos-cientificas que marcaram um determinado tempo. Apagar a memória 
e a história de um determinado povo, como ocorreu com os Judeus e Mulçumanos, é 
apagar sua origem. Negar a ciência a partir da produção acadêmica em suas diversas 


áreas do conhecimento é condizente com uma política nefasta que manipula e desvirtua o 


processo de construção do conhecimento. 


31 METODOLOGIA 


A pesquisa exercerá uma natureza teórica, com procedimentos baseados na 
literatura, propondo assim, em suas discussões, um aprofundamento conceitual a partir de 
suas bases epistemológicas. A temática racismo/sexismo epistêmico caracterizada pelos 
quatro genocídios/epistemicídios ao longo século XVI, serão basilares na construção da 
análise temporal proposta para discutir essas ideias no século XXI. Um recorte a partir 
das análises de Boaventura de Sousa Santos sobre a premissa dos conhecimentos 
hegemônicos (Norte-Cêntrica) excludentes do sistema-mundo e das críticas de Dussel 
sobre o panorama estabelecido pelo modelo de poder exposto pela filosofia Cartesiana 
serão fundamentais para consolidação do estudo. 


41 DISCUSSÕES 


Os apontamentos dos diversos pensadores que contribuíram para o desenvolvimento 
do pensamento geográfico, especialmente os citados nessa revisão, fez com que 
pudéssemos sistematizar os campos de análise fazendo uma interligação do saber e suas 
relações de poder. Ao concluir o artigo que foi base para essa análise, (GROSFOGUEL, 
2016) descreve três pontos importantes para que tenhamos uma descolonização da 
ocidentalização das Universidades: 


1. Reconhecimento do provincialismo e do racismo/sexismo epistêmico que 
constituem a estrutura fundamental resultante de um genocídio/epistemicídio 
implementado pelo projeto colonial e patriarcal do século XVI. 


2. Rompimento com o universalismo onde um (“uni”) decide pelos outros, a saber, a 
epistemologia ocidental. 


3. Encaminhamento da diversidade epistêmica para o cânone do pensamento, 
criando o pluralismo de sentidos e conceitos, onde a conversação interepistêmica, 
entre muitas tradições epistemológicas, produz novas redefinições para velhos 
conceitos e cria novos conceitos plurais com “muitos decidindo por muitos” (pluri- 
verso), em lugar de “um definir pelos outros” (uni-verso). 

É importante mencionar que o pragmatismo pode incorrer em uma manutenção 
sistematizada da inobservância da necessidade da pluralidade do pensamento e da 
construção do saber. Romper com esse modelo neocolonialista centralizado e provinciano 
é fundamental para termos uma refundação epistemológica que possa dar pluralidade 
sempre possibilitando a análise crítica, como as que foram feitas, que é sempre essencial 


para o amadurecimento científico. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 2 16 


REFERÊNCIAS 


ALMEIDA, Weder Bruno de; FIGUEIREDO, Ângela. Colonialidade, produção do conhecimento e 
o lugar da universidade pública. Plano de Desenvolvimento Institucional 2015-2019. Universidade 
Federal do Recôncavo da Bahia — UFRB. 


GROSFOGUEL, Ramón. A estrutura do conhecimento nas universidades ocidentalizadas: 
racismo/sexismo epistêmico e os quatro genocídios/epistemicídios do longo século XVI. Revista 
Sociedade e Estado — Volume 31 Número 1 Janeiro/Abril 2016. 


HARVEY, David. A condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, 1992. 


QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do Poder e Classificação Social In: Epistemologias do Sul. 
Editora Almedina S/A. 2009. 


SANTOS, Boaventura de Sousa. Epistemologias del Sur. Mexico: Siglo XXI, 2010. 


SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 10. 
ed. Rio de Janeiro: Record, 2003. 174 p. 


SANTOS, Milton. (Organização RIBEIRO, Wagner Costa). O país distorcido: o Brasil, a globalização 
e a cidadania. São Paulo: Publifolha, 2002. 


SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Hucitec, 
1996. 


SANTOS, Milton. A aceleração contemporânea. In SANTOS, Milton et al. (Orgs.). O novo mapa do 
mundo. São Paulo: Hucitec, 1993. 


SOJA, Edward. Geografias pós-modernas: a reafirmação do espaço na teoria social crítica. Rio de 
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 2 


CAPÍTULO 3 


O ENSINO DA GEOGRAFIA E O 
DESENVOLVIMENTO DAS COMPETENCIAS E 
HABILIDADES INTERPESSOAIS 


Data de aceite: 02/08/2021 
Data de submissão: 18/06/2021 


Rodrigo Boeing Althof 

Instituto Federal Catarinense - IFC 
Blumenau/SC 
http://lattes.cnpq.br/7490155755604527 


Thiago Domingos Marques 

Instituto Federal Catarinense - IFC 
Blumenau/SC 
http://lattes.cnpq.br/526117755588893 


RESUMO: A formação dos estudantes de 
Geografia devetambémfazer uso de metodologias 
inovadoras que ultrapassam o treinamento 
puramente técnico e tradicional. O mercado de 
trabalho tem exigido dos novos profissionais 
além destes conhecimentos, outras habilidades 
e competências, em específico a formação de 
um sujeito ético, crítico, reflexivo, transformador 
e humanizado. Nesta acepção, o presente artigo 
tem por objetivo avaliar quais as competências 
necessárias ao estudante de graduação em 
geografia e como estas competências podem 
ser desenvolvidas pelos professores durante 
as práticas de ensino aprendizagem. Para isto, 
realizou-se uma pesquisa bibliográfica e de 
abordagem qualitativa, verificando o disposto 
na diretriz curricular da Geografia e o desafio 
para as competências comuns a qualquer área 
profissional possam complementar a formação 
dos estudantes de Geografia. A utilização 
das metodologias ativas, como a utilização 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 


dos laboratórios e dos projetos de pesquisa e 
extensão e do uso das tecnologias podem ser 
um componente tático de inovação das práticas 
pedagógicas, direcionando a formação da 
identidade dos alunos de modo a desenvolver 
as habilidades e competências necessárias para 
os desafios sociais e profissionais aos quais 
estarão expostos. Assim, o contexto profissional 
da atualidade em qualquer carreira já exige, e, 
continuará exigindo para além das competências 
técnicas o desenvolvimento das soft skills. 
PALAVRAS-CHAVE: Soft Skills. Metodologias 
Ativa. Ensino de Geografia. 


THE GEOGRAPHY OF EDUCATION AND 
DEVELOPMENT OF SOFT SKILLS 
ABSTRACT: The training of Geography students 
must also make use of innovative methodologies 
that go beyond purely technical and traditional 
training. The job market has required from new 
professionals, in addition to this knowledge, other 
skills and competences, specifically the formation 
of an ethical, critical, reflective, transforming 
and humanized subject. In this sense, this 
article aims to assess which skills are needed 
by undergraduate geography students and 
how these skills can be developed by teachers 
during teaching-learning practices. For this, 
a bibliographical research with a qualitative 
approach was carried out, verifying the provisions 
of the Geography curriculum guideline and the 
challenge for the common competences of any 
professional area to complement the training 
of Geography students. The use of active 
methodologies, such as the use of laboratories 
and research and extension projects and the use 


Capítulo 3 


of technologies can be a tactical component of innovation in pedagogical practices, directing 
the formation of students” identity in order to develop the necessary skills and competences 
for the social and professional challenges to which they will be exposed. Thus, the current 
professional context in any career already requires, and will continue to require, in addition to 
technical skills, the development of soft skills. 

KEYWORDS: Soft Skills. Active Methodologies. Geography Teaching. 


11 INTRODUÇÃO 


A educação é um tema que, devido às constantes transformações estruturais, 
tecnológicas e dos sujeitos envolvidos no processo (alunos e professores), precisa estar 
sempre sendo repensada e estudada, de modo que sejam pensadas práticas pedagógicas 
significativas e que realmente proporcionem processos de ensino e de aprendizagem. 

Segundo Gerbran (2003) a preocupação com o ensino de Geografia no Brasil fica 
evidenciada ao longo do tempo, principalmente quando se analisa a proposta da Geografia 
Tradicional e da Geografia Renovada, onde a primeira apresentou um limite devido ao 
tradicionalismo, reflexo do golpe militar, principalmente entre os anos de 1960 e 1970. 
Kimura (2010) indica que a abordagem da Geografia Crítica no Brasil emerge a partir da 
polêmica referente à neutralidade da ciência geográfica entre os anos de 1970 e 1990. 

Estas preocupações perpassam pela prática de ensino em sala e consequentes 
abordagens metodológicas para o desenvolvimento e facilitação do processo de ensino 
aprendizagem. Segundo Cavalcanti (2010), o movimento de renovação da Geografia 
foi marcado pela disputa do poderio de dois núcleos fundamentais, sendo um ligado a 
uma Geografia considerada “tradicional”, que se mantinha tal como havia se estruturado 
nas primeiras décadas do século XX e, outra que representava uma Geografia Nova, 
especificamente sua abordagem crítica (Geografia Crítica), em que se buscava suplantar a 
tradicional, e que se proclamava “crítica” (CAVALCANTI, 2010). 

Neste contexto no capítulo 2 vamos abordar sobre o ensino da Geografia frente 
a Diretriz Curricular dos cursos de Geografia vigente no Brasil, os desafios do ensino da 
Geografia e as competências requeridas ao Geógrafo no século XXI. 

As metodologias ativas vêm sendo amplamente difundidas, e têm se apresentado 
como eficazes, por serem estratégias que minimizam ou solucionam alguns dos problemas 
encontrados no ambiente escolar. Entre suas potencialidades estão a de impulsionar o 
envolvimento dos alunos por meio de atividades lúdicas, como o uso de jogos, e partir de 
situações vivenciadas por eles para tratar de temas como cidade ou meio ambiente. 

Nesta acepção, o presente trabalho tem por objetivo avaliar quais as competências 
necessárias e complementares ao estudante de graduação em geografia e como estas 
competências podem ser desenvolvidas pelos professores durante as práticas de ensino 


aprendizagem. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 3 [EE 


21 O ENSINO DA GEOGRAFIA NO BRASIL 


2.1 Diretriz curricular da geografia 
De acordo com o Parecer CNE/CES 492/2001, o perfil do formando em Geografia; 


Compreender os elementos e processos concernentes ao meio natural e ao 
construído, com base nos fundamentos filosóficos, teóricos e metodológicos 
da Geografia. Dominar e aprimorar as abordagens científicas pertinentes ao 
processo de produção e aplicação do conhecimento geográfico. 
O mesmo parecer define as seguintes competências e habilidades gerais para o 
geógrafo. 


º Identificar e explicar a dimensão geográfica presente nas diversas 
manifestações do conhecimento; 


e  Articular elementos empíricos e conceituais, concernentes ao 
conhecimento científico dos processos espaciais; 


º Reconhecer as diferentes escalas de ocorrência e manifestação dos 
fatos, fenômenos e eventos geográficos; 


º Planejar e realizar atividades de campo referentes à investigação 
geográfica; 


º Dominar técnicas laboratoriais concernentes a produção e aplicação do 
conhecimento geográficos; 


º Propor e elaborar projetos de pesquisa e executivos no âmbito de área 
de atuação da Geografia; 


º Utilizar os recursos da informática; 


e Dominar a língua portuguesa e um idioma estrangeiro no qual seja 
significativa a produção e a difusão do conhecimento geográfico; 


e Trabalhar de maneira integrada e contributiva em equipes 
multidisciplinares. 


Como habilidades específicas o Parecer CNE/CES 492/2001 indica. 


º Identificar, descrever, compreender, analisar e representar os sistemas 
naturais; 


º identificar, descrever, analisar, compreender e explicar as diferentes 
práticas e concepções concernentes ao processo de produção do 
espaço; 


e | selecionar a linguagem científica mais adequada para tratar a informação 
geográfica, considerando suas características e o problema proposto; 


e avaliar representações ou tratamentos, gráficos e matemático- 
estatísticos; 


e | elaborar mapas temáticos e outras representações gráficas; 


e | dominar os conteúdos básicos que são objeto de aprendizagem nos 
níveis fundamental e médio; 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 3 FE 


* | organizar o conhecimento espacial adequando-o ao processo de ensino- 
aprendizagem em geografia nos diferentes níveis de ensino. 


Conteúdos básicos e complementares da Geografia se organizam em torno de: 
* | Núcleo específico: conteúdos referentes ao conhecimento geográfico; 


* | Núcleo complementar: conteúdos considerados necessários à aquisição de co- 
nhecimento geográfico e que podem ser oriundos de outras áreas de conheci- 
mento, mas não excluem os de natureza específica da Geografia; 


* | Núcleo de opções livres: composto de conteúdo a serem escolhidos pelo pró- 
prio aluno. No caso da licenciatura deverão ser incluídos os conteúdos defi- 
nidos para a educação básica, as didáticas próprias de cada conteúdo e as 
pesquisas que as embasam. 

Neste contexto, são consideradas atividades integrantes da formação do aluno de 
Geografia, além da disciplina: estágios, que poderão ocorrer em qualquer etapa do curso, 
desde que seus objetivos sejam claramente explicitados; seminários; participação em 
eventos; discussões temáticas; atividades acadêmicas à distância; iniciação à pesquisa, 
docência e extensão; vivência profissional complementar; estágios curriculares, trabalhos 
orientados de campo, monografias, estágios em laboratórios; elaboração de projetos de 
pesquisa e executivos, além de outras atividades acadêmicas a juízo do colegiado do curso. 

Assim, o aspecto técnico não deve ser o único elemento a caracterizar o perfil 
do geógrafo, que deve ser complementado pelo aspecto comportamental, humano, 
tecnológico, e por seus conhecimentos, competências e atitudes. 


2.2 Desafios no ensino de geografia 


Dominar os conteúdos de uma disciplina é fator determinante para o desempenho 
da atividade do professor; todavia, isto não é suficiente. Nesse momento, vale a pena 
fazer o seguinte exercício: colocar-se no lugar do aluno, voltar no tempo e, das próprias 
lembranças, resgatar aquela aula de elevado grau de dificuldade que era ensinada com 
clareza, coerência e, principalmente, de forma cativante por este ou aquele professor — 
certamente ali existia algo que fazia a diferença nos processos de ensino e aprendizagem. 

Nos cursos de geografia é comum prevalecer a chamada transposição do 
conhecimento, ou seja, ensinar conforme foi aprendido; contudo, nos casos em que a 
transmissão do conhecimento foi bem-sucedida, deve existir algo que possa ser identificado, 
estudado e aprimorado, proporcionando um ciclo virtuoso. O referencial teórico educacional 
é uma das chaves de acesso para este ciclo virtuoso, juntamente com outras estratégias 
pedagógicas, transformando o ato de ensinar em um procedimento consciente e intencional. 

Para Moran (2004), uma das mais expressivas reclamações advindas de escolas e 
instituições de ensino superior versa pelo fato dos estudantes não mais aguentarem nossa 
forma de dar aula. É preciso mudar e inovar a partir do uso de práticas que sejam mais 
condizentes com a realidade cotidiana dos estudantes e com as tecnologias acessíveis. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 3 RE 


De acordo com Berbel (2011, p.29), “é recorrente a ideia de que já não bastam 
informações para que crianças, jovens e adultos possam, com a contribuição da escola, 
participar de modo integrado e efetivo da vida em sociedade”, é preciso buscar problematizar 
situações, analisar as contradições do espaço e assim avançar para além da descrição 
das paisagens, do visível, e alcançar a construção de novos conceitos, utilizando-se de 
metodologias atrativas, criativas e inovadoras em sala de aula. 

Portanto, não é mais significativo o ensino baseado apenas na simples transmissão 
de conteúdo, numa compreensão pedagógica tradicional cuja teoria prevalece em 
detrimento da problematização da realidade. O ensino deve se basear em concepções 
que priorizem o trabalho ativo dos discentes, sendo estes atores do processo, e com vistas 
aos problemas reais da sociedade, e onde haja uma reconciliação entre teoria e prática. 
Nesse sentido, o ensino muitas vezes engessado em currículos com carga excessiva de 
conteúdos sem aplicações em cenários práticos, cai no tradicionalismo e não apreende os 
problemas reais da sociedade contemporânea. 

Diante deste cenário exposto, a Geografia se faz necessária e importante nos 
diferentes níveis e etapas de ensino escolar, uma vez que permite contextualizar e interligar 
diversos saberes de cunho físico, econômico, geopolítico, social e cultural dos sujeitos no 
cotidiano da sociedade. 

Corroborando com esta situação, existem um entendimento que ressalta a 
necessidade da promoção junto aos acadêmicos da obtenção e desenvolvimento 
das competências que facilitarão o processo de migração do ambiente escolar para o 
profissional. 

Faria et al. (2017, p. 6) destacam que “As competências de que os alunos necessitam 
para o século XXI não são novas. O pensamento crítico e a resolução de problemas, por 
exemplo, são dimensões há muito associadas ao desempenho acadêmico e aos processos 
de ensino e aprendizagem”. 

Entende-se por competência (ou skills) o nível de eficiência de um indivíduo na 
execução de uma determinada capacidade adquirida, ou seja, o quanto está qualificado 
para realizar um algum trabalho. Competência é “um saber agir responsável e reconhecido, 
que implica mobilizar, integrar, transferir conhecimentos, recursos e habilidades, que 
agreguem valor econômico à organização e valor social ao indivíduo” (FLEURY & FLEURY, 
2001, p. 188). 

Enquanto hard skills são competências técnicas e conhecimento de domínio, soft 
skills são uma combinação de habilidades pessoais, habilidades interpessoais, habilidades 
de comunicação e inteligência emocional, dentre elas a autoconsciência, autogestão, 
consciência social e gestão de relacionamento (FME, 2014), que ajudam a garantir a 
clareza nas mensagens e a construção de confiança e relacionamentos. 

E o geógrafo deve ter a habilidade de compreender os elementos e processos 


concernentes ao meio natural e ao construído, com base nos fundamentos filosóficos, 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 3 2. 


teóricos e metodológicos da Geografia; dominar e aprimorar as abordagens científicas 
pertinentes ao processo de produção e aplicação do conhecimento geográfico, o que 
chamamos de habilidades técnicas (hard skills), mas sem nunca se esquecer da sua 
responsabilidade em deixar um legado positivo no entorno de seu trabalho, seja para as 
pessoas ou para a paisagem, e neste contexto a importância de desenvolver as habilidades 
gerenciais e habilidades comportamentais (soft skills). 

Entretanto, tais atividades apresentam posição complementar à formação 
estudantil, e mesmo considerando-se que suscitam a curiosidade dos alunos na busca 
do conhecimento e da aplicação dos conceitos de seus cursos à atividade em si, não 
conseguem sustentar, de forma completa e conclusiva, o conjunto das competências que 
são necessárias para sua formação. 

O ensino técnico da geografia está nas mãos de Geógrafos, todavia, muitos destes 
profissionais não possuem formação para exercer a atividade de docente, desconhecendo 
as principais teorias e técnicas de aprendizagem e metodologias ativas. Saber diferenciar 
comportamentalismo, cognitivismo e humanismo e entender as contribuições de tais linhas 
filosóficas no processo educacional, proporciona uma melhor compreensão de como 
ocorrem os processos de ensino e aprendizagem (MOREIRA, 1999). 


2.3 Competências para o século XXI 


As competências possibilitam aos estudantes a melhoria de suas interações com 
seus pares e com o mundo que os rodeia. Tais competências são caraterizadas por não 
serem exclusivas para determinada função, sendo úteis em qualquer área profissional e 
mais valiosas ainda para a vida pessoal dos estudantes. Como tendência também em outras 
áreas, algumas organizações já estão preferindo estudantes com menos conhecimentos 
técnicos, porém com mais responsabilidade, mais assiduidade, disponibilidade para 
aprender e mais comunicativos, uma vez que as competências técnicas podem ser 
adquiridas nas escolas e faculdades e aprimoradas no próprio ambiente da empresa. 

Os conceitos de competência são apresentados neste capítulo em conformidade 
com alguns autores para que o entendimento do contexto deste trabalho e as competências 
dos estudantes de geografia, sejam mais bem assimiladas. 


2.4 Afinal, o que são competências? 

O dicionário Aurélio de língua portuguesa, descreve o termo competência como 
sendo a “Capacidade decorrente do profundo conhecimento que alguém tem sobre um 
assunto”. Pode-se afirmar que a competência está descrita como a capacidade de usar a 
inteligência e os recursos mentais para a realização de determinada tarefa com a maior 
eficiência. 


Para Mello (2014, p.8): 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 3 FER 


Aprender a aprender, saber lidar com a informação cada vez mais disponível, 
aplicar conhecimentos para resolver problemas, ter autonomia para 
tomar decisões, ser proativo para identificar os dados de uma situação e 
buscar soluções tornam-se objetivos mais valiosos do que o conhecimento 
desinteressado e erudito da escola do passado. Os resultados das 
aprendizagens precisam se expressar e se apresentar como a possibilidade 
de operar o conhecimento em situações que requerem aplicá-lo para tomar 
decisões pertinentes 


Corroborando com este conceito: 


[...] define-se competência como sendo a capacidade de agir eficazmente 
em um determinado tipo de situação, apoiando-se em conhecimentos, mas 
sem se limitar a eles. Para enfrentar uma determinada situação, colocam-se 
geralmente em ação vários recursos cognitivos, uma vez que quase toda 
ação mobiliza conhecimentos, algumas vezes elementares e esparsos, outras 
vezes complexos e organizados em rede (BRASIL, 2008, p.18) 


Perrenoud (1999, p.07), explica competência como sendo “a capacidade de agir 
eficazmente em um determinado tipo de situação, apoiando-se em conhecimentos, mas 
sem se limitar a eles”. 

Para Mascarenhas (2008, p. 184), quando se define competência, é primordial que 
se observe a unicidade que caracteriza cada evento e como resultado o exercício das 
competências. 

De acordo com Parry (1996) as competências podem ser descritas como sendo um 
conjunto de três elementos: 


* | Conhecimento: Ou Saber; 
* Habilidades: Saber fazer e; 
* Atitude: Saber fazer acontecer. 


O conjunto destes três elementos forma a competência, isto é, as características 
que a pessoa aprendeu ou irá aprender. 

Com intuito de ajudar os estudantes a desenvolverem este novo perfil profissional 
muitas instituições buscam enriquecer suas propostas de formação baseadas nos quatro 
pilares da Educação, que segundo o relatório da Comissão Internacional sobre a Educação 
para o século 21, elaborado para a UNESCO por Delors (1999), que destaca os quatro 
pilares: 


* | Aprender a conhecer: Neste pilar o destaque fica no desenvolvimento do po- 
tencial cognitivo do estudante e na sua capacidade de aprender a aprender; 


* | Aprender a fazer: Prioriza a criação de situações onde os estudantes adquirem 
competências e habilidades para resolverem problemas cotidianos, aplicando o 
uso de seus conhecimentos obtidos em suas experiências cotidianas; 


* | Aprender a conviver: Neste sentido procura-se desenvolver a empatia dos 
estudantes, a compreensão de que se vive num mundo de diversidades, sejam 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 3 EH 


elas de quaisquer formas: cultural, étnica, racial, social, etc; 


* | Aprender a ser: Trabalha-se a atitude dos estudantes, onde suas ações devem 
ser pautadas no protagonismo ao mesmo tempo em que se fortalece suas po- 
tencialidades: o raciocínio e principalmente o autoconhecimento. 

Tomando por base estes pilares, Chu et. al (2012, p. 21) esquematizaram as 
habilidades necessárias para que os estudantes enfrentem os desafios impostos pelo 
século 21, dividindo em três grupos, conforme visto no Quadro 1. 

Destarte que apenas o conhecimento técnico não é mais o suficiente para que 
os estudantes sejam formados e transformados em bons profissionais. Eles precisam 
deter o autoconhecimento, a colaboração e principalmente a comunicação, dentre outras 
competências. As instituições que dispuserem aos seus estudantes estas competências 
desenvolverão profissionais mais capazes de enfrentar os novos desafios do século. 


Pensamento Crítico Letramento informacional Flexibilidade 
Resolução de problemas Letramento midiático Adaptação 
Comunicação Letramento tecnológico Autonomia 
Colaboração Interação social 
Criatividade Interação crosscultural 
Inovação Produtividade 
Liderança 
Responsabilidade 
Accountability 


Quadro 1- Competências relacionadas a cada grupo de habilidades para o Século 21. 
Fonte: CHU et al. (2012, p. 21). 


2.5 Competência do geógrafo do século XXI 


A geografia é um campo do conhecimento com muitos avanços no período 
contemporâneo. De mapas para navegação, passando por pesquisas de mercado, políticas 
de povoamento até os complexos sistemas econômicos, sociais e de gestão ambiental, 
o geógrafo é o profissional que possui conhecimento e credencial para lidar com essas 
questões, e tantas outras, tecnicamente para o desenvolvimento de projetos de magnitude 
e políticas específicas. 

A geografia, em seu processo de desenvolvimento histórico como área do 
conhecimento, veio consolidando teoricamente sua posição como uma ciência que busca 
conhecer e explicar as múltiplas interações entre a sociedade e a natureza. Isso significa 
dizer que possui um conjunto muito amplo de interfaces com outras áreas do conhecimento 
científico. Assim, coloca-se a necessidade de buscar compreender essa realidade espacial, 
natural e humana, não de uma forma fragmentada, mas como uma totalidade dinâmica. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 3 FE 


A geografia vem evoluindo, nas últimas décadas, tanto pela introdução 
e aprofundamento de metodologias e tecnologias de representação do espaço 
(geoprocessamento e sistemas geográficos de informação, cartografia automatizada, 
sensoriamento remoto etc.) quanto no que concerne ao seu acervo teórico e metodológico 
em nível de pesquisa básica ( campos novos ou renovados como geoecologia, teoria das 
redes geográficas, geografia cultural, geografia econômica, geografia política e recursos 
naturais, etc.), quanto em nível de pesquisa aplicada (planejamento e gestão ambiental, 
urbana e rural). 

Assim sendo, devemos admitir que essas transformações no campo dos 
conhecimentos geográficos vêm colocando desafios para a formação não apenas do 
geógrafos-pesquisador (técnico e planejador) como também para o geógrafo-professor do 
ensino fundamental, médio e superior. 

A atual dinâmica das transformações pelas quais o mundo passa, com as novas 
tecnologias, com os novos recortes de espaço e tempo, com a predominância do instantâneo 
e do simultâneo, com as complexas interações entre as esferas do local e do global afetando 
profundamente o quotidiano das pessoas, exige que a Geografia procure caminhos teóricos 
e metodológicos capazes de interpretar e explicar esta realidade dinâmica. 

Essas mudanças de abordagem da Geografia no Brasil, trouxeram naturalmente 
a necessidade de mudanças dos conteúdos abordados no ambiente escolar. A partir do 
século XXI, o acesso facilitado e cada vez maior a uma série de instrumentos tecnológicos 
e redes de informação, exige da abordagem do ensino de Geografia, a necessidade 
premente de acompanhar as transformações tecnológicas que crianças, jovens e adultos 
hoje dominam, tais como smartphones, jogos eletrônicos, possibilidades de informações 
mais rápidas e interativas considerando o Youtube, Netflix e as redes sociais como Twitter, 
Instagram e Facebook. 

Para Gemignani (2012), o grande desafio deste início de século XXI é a crescente 
busca por metodologias inovadoras que possibilitem uma práxis pedagógica capaz de 
ultrapassar os limites do treinamento puramente técnico e tradicional, para efetivamente 
alcançar a formação do sujeito como um ser ético, histórico, crítico, reflexivo, transformador 
e humanizado. 

Dessa forma, os Departamentos ou Colegiados de Curso de Geografia, enquanto 
instâncias responsáveis pelo dinamismo e implementação das mudanças que se façam 
necessárias no currículo, não podem desconhecer novas possibilidades abertas pela LDB 
na perspectiva de flexibilização das estruturas curriculares, transformando conteúdos 
e técnicas em percursos possíveis para a formação do pesquisador e profissional em 
Geografia. Devem buscar, então, caminhos para superar a “cultura da cartilha” e para 
assumir a liberdade da crítica e da criação, como uma área do conhecimento que tem seu 
objeto específico, sem abrir mão do rigor científico e metodológico. 

Esses são pressupostos que norteiam a proposta das Diretrizes Curriculares para o 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 3 FED 


curso de Geografia. 


31 CONSIDERAÇÕES FINAIS 


Apresentou-se neste trabalho uma pesquisa sobre competências do profissional 
Geógrafo com o objetivo de analisar o alinhamento das competências necessárias desses 
profissionais. 

Uma vez que há um envolvimento maior do que apenas conhecimentos e 
habilidades, a complexidade do conceito de competência, vem sendo o centro dos objetivos 
educacionais para a formação dos estudantes, para que atuem com mais desenvoltura nos 
contextos atuais, complexos e exigentes do mercado de trabalho. 

Porém, para o seguimento do objetivo de formar estudantes com competências 
e habilidades, se faz necessário uma mudança de paradigmas no modelo de ensino, 
inserindo o estudante como protagonista de seu aprendizado, ao mesmo tempo em que 
desenvolvem os conhecimentos, também desenvolvam as competências, habilidades e 
atitudes necessárias à sociedade contemporânea. 

Nos dias atuais o que diferencia as pessoas são as atitudes que elas têm sobre as 
oportunidades profissionais, alinhadas com as competências que o mercado de trabalho 
está exigindo destes novos profissionais. O mercado de trabalho está em transformação 
contínua e o sucesso não depende somente da formação, mas de todas as competências 
desenvolvidas em sua carreira. 

O mercado de trabalho exige que os estudantes ativos que aprendem conceitos 
importantes por meio de projetos criativos e inovadores. Seu envolvimento no processo 
de resolução de problemas constrói uma cultura de investigação, em que perguntar e 
responder às suas próprias questões torna-se a peça central do processo de aprendizado. 

Salienta-se que mesmo com todas as habilidades e competências desenvolvidas, 
é certo que, em um processo de seleção, a probabilidade de se encontrar um profissional 
que detenha todas as qualidades exigidas para determinada função não consiste em uma 
tarefa simples. 

Os estudantes de geografia têm a sua disposição uma abundância de informações, 
porém o mercado de trabalho do início do século XXI, não está absorvendo profissionais 
que detenham somente o conhecimento técnico. Este mercado está buscando profissionais 
que tenham competências interpessoais, pessoais e sociais bem desenvolvidas, além é 
claro do conhecimento técnico e perfil empreendedor. 

Estes estudantes precisam trabalhar o entendimento de várias disciplinas em 
equipes colaborativas que são cultural e filosoficamente diversificadas, precisam também 
desenvolver competências e habilidades que extrapolam sua área de conhecimento. Os 
futuros geógrafos devem, portanto, aprender a trabalhar com a diversidade de conteúdos 
e ter habilidades múltiplas. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 3 


Desta forma, o presente artigo objetivou mapear habilidades e competências 
inerentes ao curso de Geografia. O estudante que anseia uma ocupação na mencionada 
área tem a necessidade de ser hábil na criação de novos modelos e onde seja capaz 
de transferir a aplicabilidade dos conhecimentos adquiridos em sala de aula. Percebe- 
se que para o Geógrafo do século XXI não basta apenas ter o domínio das ferramentas 
teóricas, além de compreender os processos, deve saber lidar com pessoas, assim com 
estar disposto a novos desafios. 

Este artigo manifestou um convite à reflexão sobre as competências e habilidades 
que os estudantes de Geografia devem desenvolver para que sejam bem-sucedidos no 
mercado de trabalho. 


REFERÊNCIAS 


BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação 
nacional. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 23 dez. 1996. 


BRASIL. Ministério da Educação. Planejando a próxima década: conhecendo as 20 metas do Plano 
Nacional de Educação. 2014. Disponível em: <http://pne.mec.gov.br/images/pdf/pne conhecendo 20 . 
metas.pdf>. Acesso em: Mar. 2021. 


BERBEL, N. A. N. As metodologias ativas e a promoção da autonomia de estudantes. Semina: 
Ciências Sociais e Humanas, Londrina, v. 32, n. 1, p. 25-40, jan./jun. 2011. 


CAVALCANTI, Lana de S. Geografia, Escola e Construção de Conhecimentos. Editora Papirus. São 
Paulo. 2010. 


CHU, Sam; TAVARES, Nicole; CHU, Donna; HO, Shun Yee; CHOW, Ken; SIU, Felix; WONG, Mona. 
Developing upper primary students” 21st century skills: inquiry learning through collaborative 
teaching and web 2.0 technology. Hong Kong: Centre for Information Technology in Education, Faculty 
of Education, The University of Hong Kong, 2012. 


CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO - CNE. Resolução CNE/CES 11/2002. Diário Oficial da 
União, Brasília, 9 de abril de 2002. Seção 1, p. 32. 


DELORS, J. Educação: um tesouro a descobrir: Relatório para a UNESCO da Comissão 
Internacional sobre Educação para o século XXI. 3 ed. São Paulo: Cortez, 1999. 


FARIA, Ercília et al. Perfil do aluno - competências para o século XXI. Lisboa: Conselho Nacional de 
Educação (CNE), 2017. 107 p. 


FLEURY, M. T. L., & FLEURY, A. (2001). Construindo o Conceito de Competência. In: RAC, Edição 
Especial, 183-196. 


FREE MANAGEMENT EBOOKS - FME (2014). Project stakeholder management: project skills. 
FME: project skills. FME. Disponível em: <http:/Ayww.free-management-ebooks.com/didebk-pdf/fme- 
projectstakeholder. pdf>. Acesso em: 11 nov 2019. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 3 FER 


GEBRAN, Raimunda Abou. A geografia no ensino fundamental- Trajetória histórica e proposições 
pedagógicas. In: Revista Eletrônica Boletim Paulista de Geografia: São Paulo, 2008. 


GEMIGNANI, E. Y. M. Y. Formação de Professores e Metodologias Ativas de Ensino- 
Aprendizagem: Ensinar Para a Compreensão. Fronteiras da Educação (online), v. 1, 2012, p. 1-27. 


KIMURA, S. Geografia no ensino básico: questões e propostas. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2010. 


MASCARENHAS; A. O. Gestão estratégica de pessoas: evolução, teoria e crítica. São Paulo: 
Cengage Learning, 2008. 


MELLO; G. N. Currículo da Educação Básica no Brasil: Concepções e políticas. São Paulo: USP, 
2014. 


MOREIRA; M. A. Teorias de aprendizagem. São Paulo: EPU, 1999. 195 p. 


MORAN, J. M. Proposta de mudanças nos cursos presenciais com a educação on-line. In: 11º 
Congresso Internacional de Educação a Distância. 8/09/2004. Salvador: Abed, 2004. 


PERRENOUD; P. Construir as competências desde a escola. Trad. Bruno Charles Magne. Porto 
Alegre: Artes Médicas Sul, 1999. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 3 FER 


CAPÍTULO 4 


CARACTERÍSTICAS E EPISTEMOLOGIA DA 


Data de aceite: 02/08/2021 
Data de submissão: 05/05/2021 


Ewerton Ferreira Cruz 

Pontifícia Universidade Católica de Minas 
Gerais, Departamento de Geografia 

Belo Horizonte/MG 
http://lattes.cnpqg.br/2709089724771845 


Glaycon de Souza Andrade e Silva 
Pontifícia Universidade Católica de Minas 
Gerais, Departamento de Geografia 

Belo Horizonte/MG 
http://lattes.cnpqg.br/7889733538515026 


José Henrique Izidoro Apezteguia Martinez 
Pontifícia Universidade Católica de Minas 
Gerais, Departamento de Geografia 

Belo Horizonte/MG 
http://lattes.cnpg.br/5985053272787633 


Deborah Cristina da Rocha 

Universidade Federal de Minas Gerais, Instituto 
de Geociências 

Belo Horizonte/MG 
http://lattes.cnpqg.br/1250145933878644 


RESUMO: Nos primórdios das civilizações, a 
Geografia possuía uma finalidade puramente 
prática, tais conhecimentos  vernaculares 
eram empregados pelos povos primitivos 
para fins de subsistência, sobrevivência e 
desenvolvimento dos agrupamentos humanos. 
Essas civilizações eram conhecidas como 
“civilizações axiais'. Contudo, é somente durante 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 


GEOGRAFIA GREGA 


o período da Antiguidade que se tem as primeiras 
sistematizações dos saberes geográficos. Nessa 
época, é impreterível reconhecer a importância 
das contribuições do pensamento filosófico da 
civilização grega, dita civilização diagonal”, que 
serviram de sustentações para a fundamentação 
epistemológica do pensamento geográfico e 
posterior reconhecimento enquanto Ciência. 
Um dos principais feitos da civilização grega 
para a Geografia foi de promover a primeira 
unificação desse conhecimento subdividindo-o 
em Geografia Geral e Geografia Especial. Dito 
isso, o objetivo do estudo é compreender a 
organização, desenvolvimento e características 
da civilização grega analisando suas principais 
fundamentações filosóficas que contribuíram 
para a epistemologia da Geografia Grega. 
Para alcançar esse objetivo, o estudo foi 
orientado metodologicamente por uma revisão 
bibliográficas de artigos e livros em distintos 
idiomas que tratam da temática. Por fim, pôde-se 
evidenciar a importância da Geografia Grega na 
construção da Geografia como uma ciência. 
PALAVRAS-CHAVE: Corografia; Civilização; 
Helenismo. 


CHARACTERISTICS EPISTEMOLOGY OF 
GREEK GEOGRAPHY 
ABSTRACT: In the beginnings of civilizations, 
Geography had a practical purpose. This 
vernacular knowledge was used by primitive 
peoples for the purposes of subsistence, survival 
and development of human groups. These 
civilizations were known as “axial civilizations. 
However, it is only during the antiquity period 
that the first systematizations of geographic 


Capítulo 4 


knowledge have been carried out. At that time, itis fundamental to recognize the importance of 
the contributions of the philosophical thought of Greek civilization, called “diagonal civilization”, 
which served as supports for the epistemological foundation of geographic thought and later 
recognition as Science. One of the main achievements of Greek civilization for Geography 
was to promote the first unification of this knowledge by subdividing it into General Geography 
and Special Geography. The goal of this study is to understand the organization, development 
and characteristics of Greek civilization by analyzing its main philosophical foundations that 
contributed to the epistemology of Greek Geography. The study was methodologically oriented 
by a bibliographic review of articles and books in different languages that deal with the theme. 
Finally, it was possible to highlight the importance of Greek Geography in the construction of 
Geography as science. 

KEYWORDS: Chorography; Civilization; Hellenism. 


11 INTRODUÇÃO 


A geografia greco-romana está compreendida aproximadamente entre o período 
de 800 a.C e 300 d.C. A civilização grega e romana provocaram um avanço significativo 
para a geografia, em si, devido ao fato de conceber o conceito de Paidéia e com os 
aprofundamentos em relação a geografia física e descritiva. 

Para compreender a rica contribuição da civilização grega, deve se compreender 
o cenário físico e climático da região ao qual a população estava inserida. Se trata de 
um território com o relevo totalmente acidentado, com vales encaixados e declivosos, 
que dificultava o mantimento de culturas agrícolas e o deslocamento. E o clima é bem 
característico, com invernos rigorosos e verões secos com altas temperaturas. Pela 
característica do relevo desta região, notava-se que havia um isolamento “natural' entre 
as comunidades que buscavam se estabelecer ao longo das planícies para garantir uma 
melhor posição para fixar os assentamentos e desenvolver culturas por meio do plantio de 
subsistência. Além disso, o isolamento trouxe diferenciações entre as culturas existentes 
em cada localidade, em outras palavras, a Grécia era composta por civilizações distintas 
que possuíam suas próprias organizações política e administrativa. 

Desta maneira, como alternativa as dificuldades fisiográficas, os gregos 
desenvolveram as principais cidades próximas ao litoral e nas ilhas circundantes, mantendo 
assim uma relação intrínseca com o Mar Mediterrâneo. Os conhecimentos geográficos se 
tornaram vitais para o progresso da civilização grega, subsidiando o avanço colonialista ao 
sul da Europa (atual Itália), península Balcânica, a península da Ásia Menor (atual Turquia) 
e o norte da África (atual Egito), e fomentou o comércio (em principal: marítimo). Gerando 
a conexão com novos territórios e culturas ao longo da história que gerou uma grande área 
de influência e criação de inúmeras Cidades-Estados, como pode ser observado no mapa. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 4 EEN 








ATLANTIC 





Arco of Greek 
influence 





€ Grock city-state 
or colony 





— Trade route 


Figura 1: Cidades e Colônias Gregas no ano 600 a.C. 


Fonte:https://Iwww.seal-pa.org/ms/staff/dhicks/blog/Lists/Photos/Geography%20and%20the%20 
Early%20Greeks.pdf 


O descobrimento se deu por motivos exploratórios que 


teve início com o fenômeno social e econômico ao qual se dá o nome de 

colonização. (...) Esse fenômeno corresponde a uma expansão de vários 

grupos de migrantes que, do século VIll ao VI (a.C.) instalaram-se em 

numerosos pontos do entorno do Mediterrâneo e do Mar Negro, para fundar 

aí empórios e cidades, povoar e explorar as terras do interior (PEDECH, 1976). 

Sobre o surgimento do saber grego, deve-se considerar as bases educacionais da 

época que ficou conhecida como a Paideia tem origem da palavra grega “maldeia» que 

é uma forma de denominar a educação e ética dos gregos com a finalidade de tornar 

os seus habitantes, cidadãos perfeitos e completos. As características do homem grego 

clássico é fruto do conceito bruto da Paideia. Este termo é complexo, de modo geral eram 

os valores que o homem grego deveria ter no sentido de ter conhecimento das várias 

áreas de conhecimento como matemática, geografia, filosofia, gramática, história, música e 

ginástica. Por ser tão complexo o significado de Paideia, não há uma tradução consolidada 

para este termo, porém, pode-se associar esse vocábulo com as expressões como: 

civilização, cultura, tradição, literatura e educação. Os gregos utilizavam o conceito de 

Paideia como uma mistura de todas essas expressões citadas, o que seria impossível 
realizar em uma palavra ou expressão do nosso idioma (Português)". 

De acordo com Bitros e Karayiannis (2011), o termo Paideia compreende uma 

série de acordos que visam moldar a caráter moral da juventude desde a infância até a 


adolescência, logo este termo pode ser interpretado para incluir além da educação de 


1 Notas de aula do prof. Dr. Oswaldo Bueno Amorim Filho na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais da dis- 
ciplina de Evolução do Pensamento Geográfico no curso de pós-graduação em Geografia - Tratamento da Informação 
Espacial 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 4 E 


todos os esforços para influenciar o caráter e moral permanente das pessoas, de modo a 
tornar-se mais cidadãos e menos indivíduos autocentrados. Em complemento, para além 
do desenvolvimento intelectual e teórico, havia uma preocupação com o aperfeiçoamento 
físico intrinsicamente relacionado com a espiritualidade. 

Partindo do conceito de Paideia, os gregos daquela época deveriam ser polímatas, 
ou seja, deveriam ser seres que dominavam o conhecimento. A palavra polímata tem como 
origem da palavra TOAUuaBNG que se traduz a «aquele que aprendeu muito». 

Um dos governantes que mais se destaca no enriquecimento e disseminação 
dos padrões políticos gregos foi o governante de Atenas chamado Péricles. Péricles foi 
responsável também pela modernização e ampliação dos vínculos comerciais de Atenas. 
O governante utilizava meios para difundir as suas ideias bem como para excitar o conceito 
de polimatéia na sociedade de Atenas, como por exemplo através do discurso em praça 
pública. 

Através do conceito de que os povos gregos eram polímatas, se inicia uma fase 
chamada de Helenismo, a qual o seu princípio era fazer a difusão da idéia de Paidéia pelos 
lugares onde os povos gregos passavam. 

Diante do exposto, o objetivo desse capítulo foi contextualizar a história da 
Geografia Grega elucidando o período histórico em que ela ocorreu, as suas características 
e os principais pensadores geográficos da mesma. Para atingir os objetivos foi utilizada o 
método contextual a partir da revisão da literatura acerca do tema. A abordagem através 
da contextualização é também chamada de método contextual pois estuda a produção da 
geografia através do ambiente em que foi criada bem como a época que esta ocorreu. 


21 HELENISMO 


O termo Helenismo é datado de aproximadamente no início do século IV a.C. e 
originado da palavra grega “hellenizein” que significa de modo geral “falar grego” e “viver 
como os gregos”. O Helenismo tem como princípio levar a cultura grega para os povos 
colonizados com o intuito de educar, e de aprimorar o conhecimento dos povos através de 
um conhecimento superior adquirido pelos gregos. 

No período helenístico princípios completamente novos para a época foram 
introduzidos. Apesar já existirem grandes realizações artísticas, religiosas e políticas 
anteriores ao Helenismo, foi no Helenismo que o conceito de cultura foi plenamente 
introduzido na academia. Em outras palavras, não se deve desprezar os conceitos e 
realizações introduzidas na academia, porém os gregos foram povos evoluídos que 
contribuíram substancialmente na história. 

Um outro conceito de suma importância para a geografia introduzido nesta época foi 
o significado da palavra “Natureza”. Este conceito teve atrelado em seu início a constituição 
espiritual dos Gregos. Ressalta-se que 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 4 E 


muito antes de o espírito grego ter delineado essa ideia, eles já consideravam 
as coisas do mundo numa perspectiva tal que nenhuma delas lhe aparecia 
como parte isolada do resto, mas sempre como um todo ordenado em conexão 
viva, na e pela qual tudo ganhava posição e sentido. Chamamos orgânica a 
esta concepção, porque nela todas as partes são consideradas membros de 
um todo. A tendência do espírito grego para a clara apreensão das leis do 
real, tendência patente em todas as esferas da vida - pensamento, linguagem, 
ação e todas as formas de arte - radica-se nesta concepção do ser como 
estrutura natural, amadurecida, originária e orgânica (JAEGER, 2001, p. 34). 

Jaeger (2001) ainda pontua que foi no Helenismo quando se começou a avaliar a 
natureza como um sistema, onde uma coisa só tem sentido por causa de suas conexões. 
Em outras palavras o todo (sistema) é mais importante que um único indivíduo, apesar do 
mesmo fazer parte do sistema. 

Sabe-se que o Helenismo está diretamente relacionado com a religião, visto que 
os seus princípios se iniciaram através da religião, ilustrado na Figura 10 com os vetores 
evolutivos da civilização grega. Alguns autores afirmam que o processo de helenização 
estava diretamente relacionado a prática de submeter o Helenismo para ajudar no processo 
de cristianização (SPINELLI, 2002), porém o Helenismo, segundo Barreto (2003), vai muito 
mais além do que a cultura religiosa, apesar de contê-la. 

Como mostrado na figura 2, no topo e início da evolução da Grécia antiga tinha 
a religião como principal eixo de pesquisa e conhecimento. Tudo girava em torno da 
religião, havendo o misticismo da existência de deuses que controlavam o mundo. Deve- 
se enfatizar que a moral era o princípio mais valorizado, mais importante para os gregos. 
A moral daquela época era bastante forte e era fortemente relacionada com o conceito de 
Paidéia. E por último a base que é essência do conhecimento científico utilizado até os 


tempos modernos, a ciência. 





Figura 2:Vetores evolutivos da civilização Grega. 
Fonte: BUENO FILHO, 20162. 


31 TIPOS DE CIVILIZAÇÕES 


As contribuições dos povos primitivos e pré-helênicos foram de suma importância 
para o saber geográfico. Contudo, na Antiguidade tem-se, com os gregos, um dos maiores 
legados no que diz respeito ao desenvolvimento dos saberes e da ciência. Assim, ficaram 


2 Esquema apresentado pelo prof. Dr. Oswaldo Bueno Amorim Filho na PUC-Minas na aula da disciplina de Evolução 
do Pensamento Geográfico na Pós-graduação em Geografia - Tratamento da Informação Espacial 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 4 ET 


a cargo dos gregos a junção dos saberes tradicionais das civilizações denominadas axiais. 
Segundo Karl Jaspers citado Schluchter (2017) trata de civilizações que surgiram de 
maneira simultânea e, contudo, foram interdependentes entre si. Gerando uma ruptura na 
compreensão da humanidade. 

Os gregos desenvolvem-se em uma civilização diagonal que possui uma 
superioridade intelectual perante as demais e se beneficia das contribuições de civilizações 
axiais. Tais saberes foram utilizados e, consequentemente, aprimorados. A partir dessa 
etapa, podemos dizer que houve a primeira ruptura epistemológica da geografia. Para que 
isso ocorresse, a civilização grega passou por transições, ilustrado na figura 3. Na primeira, 
considerado o caos de origem da gênese, onde ocorre a desordem da civilização, seguido 
da ordenação através das religiões e mitologias que foram as bases para as produções da 


filosofia e da ciência como alternativas intelectuais. 





Figura 3: As transições das Civilização Grega na Antiguidade. 


Fonte: Oswaldo Bueno Filho. 


As civilizações podem ser caracterizadas de duas formas: axiais e diagonais. Pode-se 
considerar que as denominadas diagonais são civilizações mais evoluídas intelectualmente, 
por este motivo os gregos, como uma civilização diagonal, se consideravam superiores aos 
demais. 

As civilizações axiais são aquelas que não possuíam uma junção de outras culturas. 
Em outras palavras, as civilizações axiais possuíam sua própria cultura e não dependiam 
de outras. De forma geral, este tipo de civilização tendia a competir, dominar e ou eliminar 
as culturas alheias. As primeiras civilizações axiais (Figura 4), possuíam culturas paralelas, 
ou seja, sem troca de informações. 


3 Esquema apresentado pelo prof. Dr. Oswaldo Bueno Amorim Filho na PUC-Minas na aula da disciplina de Evolução 
do Pensamento Geográfico na Pós-graduação em Geografia - Tratamento da Informação Espacial inspirado na leitura 
do texto: FERRY, Luc: Du mythe à la raison. In: Le Point - Réferences - La Sagesse Grecque / Les Textes Fontamen- 
taux. Paris, Juillet - Aoút. p. 13-15. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 4 FEST 





Figura 4: Primeiras Civilizações Axiais. 


Fonte: Dos autores. 


Diferentemente das civilizações axiais, as sociedades diagonais faziam troca da 
cultura e de conhecimento, para criar uma civilização que domina o conhecimento. Este 
tipo de civilização foi criada após a viagem de Alexandre, quando os gregos se alimentaram 
da cultura e do conhecimento de outras civilizações. Deste modo a primeira civilização 
diagonal da história foi a Grécia, e o período que esta foi se concretizando se deu o nome 
de Helenismo (Figura 5). 





Figura 5: Aparecimento da Primeira Civilização diagonal através do Helenismo. 


Fonte: Oswaldo Bueno Filho”. 


41 CARACTERÍSTICAS DA GEOGRAFIA GREGA 


Algumas características podem ser pontuadas no período da Grécia antiga na 
produção da geografia. Primeiramente deve-se ressaltar que foi a primeira vez que se tem 
o conceito de unificação da geografia, principalmente pelo motivo do conceito de sistema, 
onde tudo estava interligado onde o todo era mais importante que o individual. 

Para que houvesse a unificação foi-se necessário a divisão da geografia. Esta 
divisão ocorreu em dois eixos, a geografia geral e a geografia especial (ou corografia, que 
era o termo utilizado na época). 

No primeiro eixo tem-se a geografia geral, esta era confundida com astronomia por 


estudar escalas maiores, longe da percepção visual local. Tinha como base a matemática 


4 Esquema apresentado pelo prof. Dr. Oswaldo Bueno Amorim Filho na PUC-Minas na aula da disciplina de Evolução 
do Pensamento Geográfico da Pós-graduação em Geografia - Tratamento da Informação Espacial 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 4 ES 


para os seus estudos, por exemplo, um dos itens mais importantes: o aparecimento de 
par de coordenadas para a localização na superfície terrestre (latitude e longitude). Além 
da localização, a geografia geral se baseava nos fenômenos naturais que se repetiam 
na superfície terrestre, correlacionando com o local onde os fenômenos ocorriam. Tem a 
palavra grega “Ecúmend” como a chave da geografia geral, que significa “área geográfica 
que é permanentemente habitada pelo homem”. 

No segundo eixo tem-se a geografia especial, também chamada de corografia. 
A corografia se baseava nos relatos das paisagens feitos pelos navegadores em suas 
viagens, possuindo escala menor que a geografia geral, passa a ser uma geografia 
regional. Tem como palavra grega chave a “Chora” que significa a subdivisão do espaço 
com características que o individualizam em relação a outro. 

É através desses dois eixos que os principais pensadores geográficos, geógrafos, 
ou «produtores» da geografia se subdividem, e também pela junção dos eixos da geografia. 


51 PRINCIPAIS “PENSADORES GEOGRÁFICOS” 


Como discorrido anteriormente, a geografia grega possui dois principais eixos: 
geografia geral e geografia especial. Existiam dentro de cada eixo da geografia registros 
geográficos e pensadores geográficos. Afigura 6 ilustra de forma esquemática os formadores 
da geografia de forma temporal e organizada de acordo com cada eixo da geografia grega. 

Os métodos utilizados na produção da geografia são basicamente o dedutivo e o 
indutivo. Pode-se caracterizar a geografia geral como dedutiva e a especial como indutiva. 
Isso procede pela forma com que estas são produzidas. Como base metodológica para 
avaliar esta diferenciação metodológica, pode-se utilizar os filósofos Platão e Aristóteles. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 4 








Homero (Vil a.C.) Tales (Vil a.C.) 


y Mileto y 


Hecateus (VI -V a.C.) Anaximandro (VI -V a.C.) 


Heródoto (V a.C.) Eratóstenes (Ill-la. C.) 


Alexandria 


Pytheas (IV a.C.) Hiparco (ll a.C.) 


a EA 


Estrabon (la.C.- | d.C.) 





Ptolomeu (| -Il d.C.) 


Figura 6: Esquema síntese dos eixos da Geografia e respectivos geógrafos da Grécia Antiga. 


Fonte: Oswaldo Bueno Filho* adaptado pelos autores (2021). 


Considerado um mestre da razão o metodologia dedutiva, “Platão insistiu que 
fenômenos observáveis da Terra eram somente cópias pobres das ideias, ou predicados 
perfeitos a partir dos quais coisas observáveis teriam se degenerado ou estavam em 
processo de degeneração”* (AMORIM FILHO, 2016). Oposto à razão dedutiva, Aristóteles 
era indutivo. Em outras palavras utilizava como forma metodológica a obtenção de respostas 
através da observação da realidade. Através do contato com a realidade, colhe-se a maior 
quantidade de dados, onde são posteriormente organizados por tipologia e hierarquia. Os 
resultados, portanto, são obtidos através da leitura organizada dos dados, que podem ser 
uma explicação simples, modelo e raramente uma teoria. 

Faz-se necessário conhecer, de forma mais aprofundada, os principais pensadores 
geográficos ou relatos geográficos de cada eixo. Na geografia especial destaca-se Homero 
e Heródoro, e na geografia geral Eratóstenes. Os dois estudiosos que conseguem de certa 
forma unir os dois eixos da geografia foram Estrabon e Ptolomeu, tornando a geografia 
unificada pela primeira vez na história. 


5 Esquema apresentado pelo prof. Dr. Oswaldo Bueno Amorim Filho na PUC-Minas na aula da disciplina de Evolução 
do Pensamento Geográfico na Pós-graduação em Geografia - Tratamento da Informação Espacial 

6 Notas de aula do prof. Dr. Oswaldo Bueno Amorim Filho na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais da dis- 
ciplina de Evolução do Pensamento Geográfico no curso de pós-graduação em Geografia - Tratamento da Informação 
Espacial. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 4 FER 


5.1 Homero 


A geografia propriamente dita começa com Homero. A geografia produzida por 
Homero é classificada como geografia especial, visto que a escala que ele utiliza em suas 
obras é regional. O termo geografia regional não era utilizado na época, por este motivo 
utilizavam o termo corografia, traduzida da palavra grega “chorografial”. 

As duas principais obras de Homero foram: Ilíada e Odisséia. Alguns estudos 
confirmam que Homero não era uma pessoa mas sim alguma forma de compartilhadores 
de um mesmo pensamento, visto que as duas obras citadas anteriormente são datadas com 
mais de 100 anos de diferença. As duas obras possuem aspectos educativos, reforçando 
os valores gregos da educação com o intuito de serem uma civilização superior. 

A obra Ilíada se origina palavra Ílion, que era a cidade posteriormente chamada de 
Tróia. Esta obra descreve, em forma de poema, 50 dias durante o último ano da Guerra de 
Tróia. A obra possui relevância na geografia, visto que, segundo alguns autores, foi através 
das descrições geográficas encontradas na obra que vestígios arqueológicos da cidade de 
Tróia foram encontrados, confirmando a sua existência. 

A obra Odisséia está entre as obras mais conhecidas no mundo. A obra descreve 
a volta de Ulisses após a guerra de Tróia. Esta viagem é retratada entre os séculos IX - 
VIII a.C. Ulisses foi o um dos divulgadores do Helenismo, e colocando os gregos como 
seres superiores por dominarem o conhecimento. A Odisséia descreve os lugares pelos 
quais as embarcações estiveram, descrevendo o mar mediterrâneo, as costas, os lugares 
e as regiões. As descrições geográficas utilizavam uma forma mística e eram baseadas 
na subjetividade, o que dificulta o entendimento da obra. A obra tem grande importância 
visto que utiliza localização e descrições geográficas em escala da longa viagem pelo 
mediterrâneo ocidental. 


5.2 Heródoto 


Heródoto (aproximadamente 485-420 a.C.) foi um geógrafo e historiador. Focado 
na geografia especial, a geografia de Heródoto não se destinava a um sistema, mas sim 
a descrição de locais e regiões para explicar uma história. Heródoto utilizava os relatos 
de viajantes para descrever e mapear lugares (Figura 15), por este motivo, as suas obras 
continham erros consideráveis. A sua geografia era de interesse dos gregos, pois era 


a descrição da Terra habitada, ou seja, ecúmeno (...). Se Heródoto aparece 
como um dos fundadores da geografia é porque descreve o mundo de 
seu tempo com um olhar novo: seu relato não é aquele de um viajante que 
enumera as etapas de um itinerário; ele apresenta os conjuntos territoriais, 
que ele define por limites tais como eles aparecem em um mapa, e por seus 
traços comuns. À visão sistêmica, implicando que se saiba mudar de escala, 
já está presente. (CLAVAL, 1995, p. 25) 


O geógrafo acreditava que a Terra era plana, ou seja, não globular, o que o tornava 
um ignorante da ciência abstrata. Apesar deste pensamento errôneo, deve-se considerá- 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 4 ER 


lo como um historiador, geógrafo e moralista fundamental para o avanço da geografia. A 
Geografia de Heródoto consiste mais em posições relativas, distâncias reais, e dimensões, 
que era âmbito do seu conhecimento geográfico (RENNEL, 1859). 

O geógrafo descrevia o espaço através dos aspectos físicos e o modo de vida das 
populações (que as pessoas produzem, aspectos culturais, politicamente como estão 
espacializados esses modos de vida), em outras palavras, o método geográfico de Heródoto 
repousa na combinação da corografia (descrição das unidades espaciais) e da etnografia 
(descrição dos modos de vida). Todavia, deve-se destacar que há predominância da 
etnografia, que, nem sempre, fazia uma ligação entre ela e a corografia. Este método pode 
ser observado no estudo geográfico da África realizado por Heródoto (PEDECH, 1976). 

O estudioso foi de grande importância, visto que foi a essência para a produção da 
geografia posteriormente por Vidal de Lablache, onde criou um conceito que se assemelha 
com o método do Heródoto, porém mais aprofundado, chamado “Genre de vie” (no século XIX). 
5.3 Eratóstenes 


Erastóstenes (aproximadamente 273 -192 a.C.) é considerado um dos pioneiros da 
geografia geral. O estudioso implantou o termo geografia no mundo acadêmico, além de 
utilizar pela primeira vez sistema de coordenadas gráficas em seu mapa (Figura 7). Muitos 
autores afirmam que ele era um matemático, geógrafo, poeta, bibliotecário, astrônomo e 
ainda o consideram 


como um gênio que encontrou uma biblioteca. De seu gênio ele retirou os 
métodos que o levaram a uma nova mensuração do globo terrestre e a um 
mapa racional do ecúmeno; da biblioteca ele tirou enorme documentação 
necessária a suas pesquisas. (PÉDECH, 1976, p. 100) 





Figura 7: Carta segundo Erastóstenes. 


Fonte: https://bricoastronomia.wordpress.com/2013/06/27/la-medida-del-mundo/. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 4 40 


O estudioso foi de grande importância para a geografia geral, visto que mensurou a 
Terra através de modelos matemáticos. Martins (2014) afirma que Erastóstenes fez uma 
observação que o deixou curioso que seria posteriormente crucial para a mensuração da 
Terra. Na cidade egípcia de Siene o estudioso percebeu que no dia mais longo do ano, 
também chamado de solstício de verão, “as sombras das colunas dos templos decresciam 
à media que se aproximava o meio-dia; e que precisamente a esta hora o sol aparecia 
totalmente refletido no fundo dos poços, o que não ocorria em mais nenhum dia do ano” 
(MARTINS, 2014, p. 1). Para comprovar que tal fenômeno não ocorria em todo planeta, o 
cientista mediu a sombra que formava com um pau ao meio dia na cidade de Alexandria, 
comprovando que formava sombra, diferentemente da sua cidade (Sciene). Através deste 
experimento, o cientista concluiu que tal fenômeno só poderia ocorrer se a superfície da 
Terra fosse curva, contrariando a crença de que a Terra era plana. 

Como Erastóstenes já obtinha da informação que a distância entre as duas cidades 
era de aproximadamente 800 km, e que o ângulo formado entre a sombra e o centro da 
Terra era de aproximadamente 7º (MARTINS, 2014), Erastóstenes conseguiu calcular 
a medida aproximada da circunferência da Terra. Considerando que um círculo possui 
360º, o qual é o formato da Terra, e o ângulo obtido por Erastóstenes era de 1/50 da 
circunferência terrestre, Erastóstenes multiplicou 50 pela distância entre as duas cidades 
(800 km), obtendo a medição da circunferência terrestre de aproximadamente 40.000 km. 
Considerando os equipamentos e técnicas rudimentares (pau, sombra, passos) utilizados 
pelo estudioso, o erro obtido por Erastóstenes foi relativamente insignificante, cerca de 5%. 

As duas obras mais importantes de Erastóstenes foram: Uma revisão da mensuração 
da Terra (esfera terrestre) e Um tratado de geografia (descrição da parte habitada da Terra 
- Ecúmeno). Apesar de ambas as obras terem sido perdidas, existem alguns relatos que 
comprovam as suas existências, por exemplo, em citações nas obras de Estrabon. 


5.4 Estrabón 


A obra de Estrabón (aproximadamente 64 a.C. até 24 a.C.) é considerada a síntese 
da geografia grega. Segundo Holt-Jensen (2009), o geógrafo escreveu uma obra em 
dezessete volumes chamado “Geographica”. Essa obra foi uma descrição enciclopédica do 
mundo conhecido, cujo o valor principal foi o fato de preservar vários outros trabalhos a que 
teve acesso, anotando-os e citando-os. Este foi o início do Enciclopedismo que apareceu 
anos depois de Estrabón, em outras palavras, Estrabón já introduzia algumas metodologias 
que só iriam ser estudadas minuciosamente em um tempo futuro ao dele. 

Estrabón incluiu em sua obra tentativas de explicar diferenças culturais, tipos de 
governo e costumes em lugares específicos. Porém o estudioso não se restringiu apenas 
à este tipo de geografia (humanista), ele ainda abordou temas da geografia física em 
sua obra como a significação das condições naturais para o desenvolvimento cultural foi 
discutida em relação ao número de lugares, especialmente nas descrições da Itália (HOLT- 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 4 ES 


JENSEN, 2009). 

Estrabón tinha preferência pela geografia especial, porém, por causa do tamanho da 
sua obra e pela complexidade destas, o autor acabou discorrendo sobre a geografia geral 
em alguns volumes, por este motivo, a Estrabón acabou trazendo unidade a geografia. 

Nos primeiros volumes da obra de Estrabón, o geógrafo foca na epistemologia, 
utilizando características da geografia geral, e na segunda parte de sua obra foca na 
geografia espacial, descrevendo regiões do mundo conhecido naquela época. 

Nas suas primeiras obras, Estrabón afirma que em primeiro lugar a geografia 
descreve o mundo habitado, suas dimensões, sua figura, sua natureza e sua relação com a 
Terra inteira. O estudioso ainda retoma a importância da utilização do conceito de Polimatéia 
para que a geografia se tornasse algo verídico, de valor, e que tivesse importância para o 
mundo. Para que a difusão ocorresse, Estrabón considerava que era necessário a fusão de 
vários conhecimentos de várias disciplinas científicas e humanistas (ESTRABON, 1991). 

Segundo Holt-Hensen (2009), os geógrafos gregos e romanos se preocupavam 
basicamente em três pontos: 


* descrição topográfica dos lugares e sua história (o que Ptolomeu nomeia como 
Corografia) 


* || a medição da Terra e a elaboração de mapas (Geografia Geral) 


* um interesse mais filosófico nas relações entre a humanidade e o ambiente, 
que envolve a crença de que a Terra apresenta uma ordem e um propósito que 
foram designados por uma divindade e que o ambiente influencia as pessoas e 
que as pessoas só podem modificá-lo até certo ponto. 

Considerando que os dois primeiros dois pontos já foram esclarecidos e explicados 
anteriormente, deve-se destacar o último ponto. Em suma, não há geografia sem relacionar 
o ambiente e as pessoas que o habitam, logo este último item citado por Holt-Jensen (2009) 
utiliza a geografia geral e a especial para a produção da geografia, mostrando que estas 
são conectadas e inseparáveis, e esta geografia foi a adotada por Estrabón. 


5.5 Ptolomeu 


Ptolomeu marcou o início da geografia Romana. O estudioso utilizava alguns 
princípios de Erastóstenes para a produção de seu trabalho cartográfico, além de figuras 
místicas para a produção de seus mapas (Figura 8). Ptolomeu se enquadra na geografia 
geral, pois apenas no último volume de sua obra é que descreve regiões com base na 


geografia geral discorrida em volumes anteriores. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 4 2 


ARGESTES O RV ma TESTS 9) 
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Figura 8: Tetrabiblos de Ptolomeu. 


Fonte: http:/Avww.espacoastrologico.org/o-tetrabiblos-de-ptolomeu/. 


Ptolomeu produziu uma grande obra cnamada Geografia de Ptolomeu contendo um 
total de 8 volumes. No primeiro volume Ptolomeu explica os princípios para se calcular as 
dimensões da Terra. O geógrafo ainda descreve sobre a divisão da Terra através de graus 
e posteriormente introduz os cálculos de latitude e longitude, além de discutir sobre as 
projeções cartográficas. 

No último volume Ptolomeu coloca alguns mapas específicos de algumas regiões 
da Terra, apesar de parecer unicamente parte da geografia especial, ele, assim como 
Estrabon, traz a unidade para a geografia, colocando como por exemplo tabelas de latitude 
e longitude vinculados com os mapas para cerca de 4.000 lugares. 

Apesar de ter sido importante para a geografia, Ptolomeu obteve alguns erros na 
medição da Terra por desprezar os cálculos de Erastóstenes. Ptolomeu subestimou o 
tamanho da Terra, rejeitou quase a correta medição de Erastóstenes em favor de uma 
estimativa feita por Posidônio no ano 100 a.C. Posidônio acreditava que a circunferência 
terrestre era de 180.000 estádios, e para Erastóstenes, que teve um erro de menos de 
5%, este valor era de 252.000 estádios. Comparativamente, o tamanho da Terra segundo 
Ptolomeu era cerca de 30% menor que o valor calculado por Erastóstenes que era bem 
próximo da realidade. 


61 CONSIDERAÇÕES FINAIS 


Compreendendo o panorama da Geografia Grega, por meio das revisões 
bibliográficas, literaturas, aprofundamentos e sínteses, conclui-se que esta foi bem 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 4 KER 


sistematizada e plural, no que diz respeito as abordagens descritas. Contudo, os teóricos 
da época criaram um mosaico resultante da diversidade de conhecimentos, deram à ciência 
uma visão de conjunto e promoveram a criação de modelos e formulações consolidadas. 

A Geografia Grega teve grande importância ao introduzir o conceito de sistema para 
o planeta Terra, onde o todo é mais importante que o individual, caracterizando assim uma 
geografia unificada. Criou a separação da geografia através Geografia Geral e Geografia 
Especial (ou Corológica), onde ambas são dependentes. Em síntese, cabe a Geografia 
Geral desenvolver a descrição da Terra em sua totalidade, estudos em escalas maiores 
dos fenômenos naturais e como estes se reproduziam na superfície terrestre e houve o 
emprego de modelos matemáticos para estudos geográficos. Já a Geografia Especial 
possui o papel de descrever, em menor escala, regiões específicas do globo no que tange 
aos aspectos físicos e antrópicos. Para além, cabe destacar que foi com a Geografia Grega 
que as técnicas cartográficas foram sistematizadas e consolidação. 


REFERÊNCIAS 


AMORIM FILHO. O.B. As grandes etapas e os principais temas da Evolução da Geografia: 
Síntese resumida, notas de aulas e seminários. Belo Horizonte: PUC Minas, 2016. 


BARRETO, M. H. Razao e Fé no Encontro entre Helenismo e Cristianismo. Revista de Filosofia, v. 30, 
n. N 97, Belo Horizonte, p. 263-274, 2008. 


BITROS, G. C.; KARAYIANNIS, A. D. Character, Knowledge and Skills in Ancient Greek Paideia: Some 
Lessons for Today's Policy Makers. The Journal of Economic Asymmetries, v. 8, n. 1, p. 193-219, 2011. 


CLAVAL, Paul. Histoire de la Geógraphie. Paris: PUF, 1995. 128 p. 


ESTRABÓN. Geografia (libros |-Il). Madrid: Editorial Gredos, 1991. (Tomo |, traducción de J. Garcia 
Blanco). 559 p. : p. 109 


HOLT-JENSEN, A. Geography: History and Concepts. 4 ed. London SAGE, 2009. 

JAEGER, W. Paideia: a formação do homem grego, São Paulo, Martins Fontes, 2001, p.10 
MARTINS, M. DO C. Eratóstenes : um génio do período Helénico! Correio dos Acores, p. 14, 2014. 
PEDECH, Paul. Géographie der Grecs. Paris: PUF, 1976. 202 p. 


RENNEL, J. The Gographical System of Herodotus, Examined; and Explained, by a Comaprison 
with those of other Acient Authors, and With Modern Geography. London: W. Bulmer, 1859. 


SCHLUCHTER, Wolfgang. A modernidade: uma nova (era) cultura axial?. Política & Sociedade, v. 16, 
n. 36, p. 20-43, 2017. 


SPINELLI, Miguel. Helenização e recriação de sentidos. A filosofia na época da expansão do 
cistianismo — séculos II, Ill e IV, Porto Alegre, EDIPUCRS, 2002, 392 p. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 4 EE 


CAPÍTULO 5 


ELABORAÇÃO DE BASE DE CONCEITOS PARA 
DISSERTAÇÃO DE MESTRADO EM GEOGRAFIA 


Data de aceite: 02/08/2021 
Data de submissão: 06/07/2021 


Diego Paschoal de Senna 

Mestrando programa de Pós-graduação em 
Geografia Unicentro — Universidade estadual 
do centro-oeste Guarapuava/PR 
http:/llattes.cnpq.br/1141338449023858 


Lisandro Pezzi Schmidt 

Professor do departamento de geografia 
Unicentro — Universidade estadual do centro- 
oeste Guarapuava/PR 
http://lattes.cnpqg.br/0707619030291379 


RESUMO: O presente trabalho fora elaborado 
após inúmeros debates realizados na disciplina 
teorias da Geografia no ano de 2020 do 
programa de pós graduação em Geografia da 
universidade estadual do centro-oeste. Visando 
contribuir com o repertório conceitual, a disciplina 
serviu como um condutor entre a teoria “geral” da 
Geografia com o objeto de estudo do discente. 
O objetivo data em contribuir para com a 
construção teórica da dissertação de mestrado 
do mesmo. O presente trabalho portanto aborda 
os principais conceitos que abarcam a Geografia 
geral e também adentra de maneira breve 
conceitos relacionados a produção do espaço, 
economia e financeirização. Nesse sentido, não 
estamos estacionados a Geografia apenas, pois 
a pluralidade de ideias abraçadas flerta com 
diferentes áreas de forma interdisciplinar. 

PALAVRAS-CHAVE: Teorias da geografia; 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 


Espaço; Estado; Financeirização. 


ELABORATION OF CONCEPT BASE FOR 
MASTER'S THESIS IN GEOGRAPHY 
ABSTRACT: The present work was elaborated 
after countless debates carried out in the 
discipline of Geography theories in the year 2020 
of the graduate program in Geography ofthe state 
university of the Midwest. Aiming to contribute to 
the conceptual repertoire, the discipline served 
as a conductor between the “general” theory of 
Geography and the student's object of study. 
The objective is to contribute to the theoretical 
construction of the master's thesis. The present 
work, therefore, addresses the main concepts 
that encompass general geography and briefly 
enters into concepts related to space production, 
economics and financialization. In this sense, we 
are not only stationed with Geography, as the 
plurality of ideas embraced flirts with different 

areas in an interdisciplinary way. 
KEYWORDS: Theories of geography; Space; 
State; Financialization. 


INTRODUÇÃO 


A disciplina de Teorias da Geografia, nos 
respaldou conhecer e aprofundar conhecimentos 
pertinentes a construção teórica/metodológica 
da ciência geográfica ao longo da história. Este 
fator é importante pois data da compreensão 
em como os paradigmas geográficos foram 
sofrendo as metamorfoses do tempo. 


No decorrer da disciplina nos foi 


Capítulo 5 


apresentado como a ciência foi pautada no uso da racionalidade, abandonando os 
preceitos da metafísica e seguindo a lógica moderna para construção cientifica. Dado isto 
foi possível compreender como a Geografia passa a ser institucionalizada como ciência e 
consequentemente como os paradigmas à foram moldando até os dias atuais. 

A proposta do presente artigo é construir um embasamento conceitual/teórico para 
o decorrer da dissertação, aprofundando-se nos meandros da sub-área que a pesquisa se 
compromete. 


Deste modo os conceitos abordados seguirão a seguinte ordem: 
* Espaço 
* | Desenvolvimento regional 
*- Financeirização/Estado. 


O objetivo é buscar compreender a importância desses conceitos para a análise 
investigativa futura, sempre ressaltando que a proposta ainda não é definitiva, podendo vir 
a sofrer mudanças no decorrer do desenvolver da pesquisa. 

A construção metodológica do artigo fora construída em caráter exploratório. Com 
aprofundamento do embasamento teórico e conceitual acerca dos conceitos já citados. 
Iniciou-se com a montagem de um banco de dados das palavras chaves e a partir disto 
buscou-se construir um debate acerca dos principais autores que trabalham os derivados 
assuntos. 


DESENVOLVIMENTO 


. Espaço; 

Pensar a geografia é pensar o espaço, portanto inicia-se a discussão a partir 
deste conceito, sendo este o principal foco de objeto de estudo para a geografia geral. 
Milton santos em Por uma geografia nova (1978), o conceito de espaço é central, é o 
conjunto de relações sociais do passado e do presente, representado por relações que 
estão acontecendo e manifestando-se através de processos e funções. “O espaço é um 
verdadeiro campo de forças cuja formação é desigual. Eis a razão pela qual a evolução 
espacial não se apresenta de igual forma em todos os lugares”. (Santos, p.122). 


(...) O espaço por suas características e por seu funcionamento, pelo que 
ele oferece a alguns e recusa a outros, pela seleção de localização feita 
entre as atividades e entre os homens, é o resultado de uma práxis coletiva 
que reproduz as relações sociais, (...) o espaço evolui pelo movimento da 
sociedade total. (SANTOS, 1978, p. 171). 
Ainda no decorrer dessa obra Milton Santos evidencia com maior clareza o 
conceito de espaço, apresentando-o como um fator social e não somente como um reflexo 


social. Denominando-o mais precisamente como Instância da sociedade e totalidade em 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 5 EE 


desenvolvimento assim como a Economia, a Cultura e a Política. 


(...) o espaço organizado pelo homem é como as demais estruturas sociais, 
uma estrutura subordinada-subordinante. É como as outras instâncias, o 
espaço, embora submetido à lei da totalidade, dispõe de uma certa autonomia. 
(SANTOS, 1978, p. 145). 


Para Milton Santos o espaço precisa ser considerado como uma totalidade: conjunto 
de relações realizadas através de funções e formas apresentadas historicamente por 
processos tanto do passado como do presente. 

Todavia para Sposito (2017): 


O espaço pode ser compreendido como categoria e como conceito, como 
categoria, ele é uma essência ideal da realidade, mesmo que haja diferentes 
formas de defini-la. Como conceito, o espaço é uma construção teórica 
em diferentes momentos do pensamento universal e teve transformações 
de acordo com onde foi elaborado, por quem foi elaborado e quando foi 
elaborado. (SPOSITO, 2017, p. 171). 

O conceito de espaço foi elaborado por inúmeros pensadores de acordo com 
Gottdiener (1993, p. 120, apud Sposito 2017, p. 172), Lefebvre “desenvolveu uma teoria 
marxista do espaço a fim de moldar o que ele denomina uma práxis sociespacial”. Já 
para Castells, em seu livro A questão urbana, “analisar o espaço como uma expressão da 
estrutura social equivale [...] a estudar sua formação por elementos do sistema econômico, 
do sistema político e do sistema ideológico, e por suas combinações e pelas práticas sociais 
que derivam deles” (1977, p.126, apud Gottdiner, 1993, p.121, apud Sposito 2017, p.172). 
Para ele, é preciso “que se volte à questão teórica colocada pela natureza do espaço 
urbano — isto é, a forma de espaço especifica da sociedade moderna, onde o próprio espaço 
abrange apenas as relações sociais subjacentes em ação que o produzem” (ibid., p. 121). 
Em resumo, Castells elabora sua teoria do espaço aplicando a abordagem de Althusser 
para “uma explicação da produção do ambiente construído” e produz uma “tentativa de 
resgatar o termo “urbano”, definindo-o teoricamente como uma unidade espacial dentro do 
sistema estrutural que produz o ambiente construído” (apud Sposito 2017, p. 172, ibid., p. 
123). 

Acerca dessa construção, a concepção de espaço é complexa, porém de caráter 
primordial para entendermos como se dão as relações no meio, Milton Santos ainda nos 
elucida que as meras relações no meio são parte do território usado em sua obra por uma 
Geografia nova (1978) ele cria uma inter-relação entre os conceitos de território usado, 
espaço geográfico e lugar. Já que como ele propõe espaço geográfico seria uma instância, 
portanto seria abstrato. O espaço tal qual como imagina-se, o meio onde ocorrem as 
relações, seria o espaço historicizado, ou seja, o espaço geográfico é o espaço usado pelo 
sujeito que o vê. E é nesse sentido que o conceito de território usado se aplica, sendo tal 
qual como espaço historicizado. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 5 


* | Desenvolvimento regional; 


Os trabalhos que abordam o conceito de desenvolvimento se fazem presente a partir 
de economistas clássicos (François Quesnay, Adam Smith, David Ricardo e Stuart Mill), 
neoclássicos (Carl Menger, Leon Walras, Vilfred Pareto, Wiliam Jevons), com Karl Marx e 
sua teoria que o desenvolvimento ocorre de maneira cíclica e ao mesmo tempo, através 
do conflito distributivo entre a burguesia e o proletariado. Onde posteriormente viria a ser 
revisitado por vários teóricos inclusive Milton Santos, com ênfase na Formação Econômica 
e Social, como base fundamentada teórica e metodológica em sua obra “Sociedade e 
espaço: a formação social como teoria e como método” (1974). 

Esse trabalho de Milton é interessante, pois nos embasa a consolidação do espaço 
como meio intrínseco ao tempo e aos meios de produção, que produzem o próprio espaço, 
gerando “desenvolvimento”. Todavia não nos interessa aprofundar essas questões neste 
primeiro momento, mas sim considerar um apanhado geral de como se dá a discussão 
acerca do termo “desenvolvimento” aprofundado no âmbito regional. 

Antes de pensarmos o conceito especifico de desenvolvimento regional, atentemo- 
nos ao conceito de região. Para Lencioni (2017) pensarmos o conceito de região é 


necessário levar em consideração dois aspectos fundamentais. 
* || Como o homem se coloca diante da natureza; 


* Eo horizonte geográfico do homem de determinada época. (Sua dimensão de 
mundo). 

Isso nos conduz diretamente a ideia de divisão e a questão da dimensão das partes. 
Mas cada parte é igualmente parte de um todo. Mas também sua dimensão se constitui 
numa totalidade. Podendo ser ao mesmo tempo parte e todo. 

A grosso modo, pode-se contribuir que região, denota a importância de seccionar 
o todo, regionalizar numa escala de acordo com o dado característico de determinado 
espaço, sendo ele; natural, físico ou cultural. 

Dado isto ao pensarmos sobre o conceito de desenvolvimento regional é preciso 
analisar uma série de fatores, dando ênfase na questão evolutiva dos centros econômicos e 
os principais meios que induzem isso. Basicamente para entender essa questão evolutiva, 
seria necessário pensar os meios de produção da localidade e como o espaço desenvolve- 
se nesse âmbito. 

Costa (2005) define o conceito de desenvolvimento regional e o termo 


desenvolvimento como sendo a mesma coisa e pertencentes ao mesmo contexto: 


Não há decisão — seja ela do tipo global ou setorial — cuja implementação 
não imponha a sua tradução no espaço, [...] o desenvolvimento passa 
pelo desenvolvimento regional ou, como na realidade tem de ser visto, 
desenvolvimento e desenvolvimento regional são apenas uma e a mesma 
coisa: todo o desenvolvimento tem de ser desenvolvimento regional. COSTA 
(2005 p. 477). 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 5 EE 


As transformações presentes no espaço dão-se a partir de uma série de fatores, a 
medida que a economia desenvolve-se a magnitude das transformações tende a alcançar 
uma estrutura produtiva mais estável. 

Ao buscar entender o conceito de desenvolvimento regional é preciso atentar-se 
ao crescimento econômico de determinada região, a organização de políticas públicas 
voltadas à infraestrutura e aos incentivos fiscais de atração de capital privado, que darão 
dinamismo e desenvolvimento estrutural, proporcionando assim “desenvolvimento” para o 
espaço em questão alocado. 

Para entender o viés econômico de dada região é necessário dar enfoque aos meios 
de produção, já que serão estes que fomentarão e darão forma à economia. 

As políticas de desenvolvimento são umas das principais iniciativas com o objetivo 
de minimizar as disparidades socioeconômicas de um país, ocorrendo a partir de iniciativas 
públicas ou privadas. 

O setor público evolui através de políticas públicas, realizadas através da 
administração política, em uma relação entre Estado e agentes sociais. Já o setor privado 
se alimenta através das linhas de crédito, em condições adequadas, disponibilizadas ao 
empresário a fim de viabilizar projetos econômicos com grande investimento e prazos de 
sazonamento. 

Conforme Beluzzo (1993, p.53), cabe “[...] ao Estado, em defesa dos interesses 
da coletividade, traçar estratégias para o desenvolvimento nacional, regional e setorial. 
Incumbe-lhe, ainda, estabelecer instrumentos financeiros adequados para viabilizar tais 
políticas.” 

A elaboração e implementação de Políticas Públicas é tarefa do poder público, 
podendo ocorrer com a distribuição e redistribuição de poder, os processos de decisão e 
seus conflitos e também a repartição de custos e recursos para oferta de bens e serviços 
públicos (TEIXEIRA, 2002). 

Normalmente as condições fiscais, matéria-prima, mão de obra, logística de 
distribuição, infraestrutura, entre outros, são os principais determinantes para a alocação 
do capital privado em determinado local. 

A sistematização de Políticas Públicas de Desenvolvimento Regional justifica-se a 
partir de uma tipologia de falhas de mercado (FIGUEIREDO, 2009), porque a este, por 
vezes, não interessa atender determinada demanda. 

O trecho anterior fica mais claro, ao entender-se que a atuação do capital em 
determinada localidade, inclusive uma região, é de acordo com o interesse de determinados 
grupos econômicos que serão favorecidos na mesma. 

Tais interesses geram conflitos, bem como disparidades sociais, cabendo ao Estado 
investir e preencher as lacunas na forma de políticas públicas, para que ocorra equidade. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 5 RE: 


*  Financeirização/Estado; 


A utilidade das transações financeiras é a de economizar tempo, pois possibilitam a 
realização de investimentos que só poderiam ser concretizados se os sujeitos tivessem a 
quantia total em dinheiro (capital) necessária para a compra ou para a produção do produto 
final a que estão interessados. De modo resumido, “As finanças permitem dissociar os 
períodos de produção e de distribuição da movimentação de valores [...]” (SINGER, 2000, 
p.30). 

Singer (2000, p. 29-30), ao esclarecer sobre o mundo financeiro, discute o papel 
das finanças na economia capitalista enquanto instrumento que minimiza o tempo das 
transações. O exemplo abaixo é ilustrativo: 


Imaginemos um mundo sem finanças em que prédios são construídos. 
Para começar a produção, o empresário precisa ter reunido um capital 
considerável para pagar o terreno, todos os materiais e equipamentos para 
o início das obras e todos os salários a serem pagos ao menos no primeiro 
mês. [...] Toda vez que o dinheiro do empresário não for suficiente para pagar 
tudo à vista, as obras serão paralisadas. E só quando o prédio estiver pronto, 
os apartamentos poderão começar a ser vendidos. E cada um será vendido 
à vista, o que significa que cada comprador terá que ter economizado o valor 
integral do apartamento antes de poder ocupa-lo [...] 

Nesse sentido, sobressaem os territórios financeiros, ou seja, um “conjunto de 
lugares no qual se verifica o processo de circulação de capital relativo aos depósitos, 
empréstimos, descontos, cobranças, juros, lucros e rendas, assim como salários, 
investimentos e serviços” (CORRÊA, 1993, p.163). 

Harvey (2010) em o enigma do capital e as crises do capitalismo enfatiza que “o 
capital não é uma coisa, mais um processo em que o dinheiro é perpetuamente enviado 
atrás de mais dinheiro”. E ao construir esse raciocínio é que se percebe como o sistema 
financeiro através do crédito, viabiliza sua égide dominante sobre o sujeito. Esse processo 
não apenas ratifica este ponto, mas também garante o dinamismo que o capital necessita 
para continuar se reproduzindo. 

O ponto a ser levado em consideração data da relevância e do foco em que buscar- 
se-á para a pesquisa, não nos é interessante compreender a financeirização através do 
paradigma de mercado e de suas relações na bolha globalizada. Mas sim o papel dessa 
“financeirização” na relação Estado e sociedade. Já que a pesquisa se dá através do 
BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e sua lógica estatal. 
Portanto não nos cabe compreender como o capital e a lógica bancária (detentores do 
poder ao crédito) findam ao BNDES, mas logicamente, compreender a relação Estado e 
a necessidade social, pensando o financiamento através deste, para se findar ao BNDES. 
Portanto cabe esse adendo, Estado —- BNDES e como o financiamento estatal gera garantias 
de desenvolvimento social. 

Hirt (2016) a partir de uma prerrogativa marxista, argumenta que o Estado é 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 5 50 


um mecanismo duplo de acumulação: onde “propulsiona e cauciona a acumulação e a 
dominação. A dominação pode ter uma legitimação hegemônica ou, quando necessário, 
através da repressão”. Hirt (2016, p. 32, apud Poulantzas) destaca: “O Estado é 
compreendido como uma arena do conflito de classes, sendo produto da luta de classes 
que ocorre internamente”. 

Para Jessop, o argumento do Estado enquanto relação social poderia ser 
parafraseado no sentido de dizer que o poder do Estado é uma relação social entre forças 
políticas mediadas através da instrumentalidade das instituições jurídico-políticas, das 
capacidades do Estado e das organizações políticas (Hirt, 2016, p. 42 apud, Jessop, 2014, 
p. 31). 

A nossa análise de Estado, não pode se dar de maneira neutra, pensando Estado, 
sociedade e política de maneira isolada. Esses três pontos remetem uma gama variada de 
conjecções a serem pensadas. Mas é importante frisar a tática de estratégia do Estado para 
implementação de sua postura seja qual for na sociedade. Para uma análise adequada do 
Estado capitalista, é preciso compreender as distintas formas institucionais e também como 
o equilíbrio de forças políticas é determinado por fatores localizados para além da forma do 
Estado como tal. (Hirt 2016, p. 45). 

O aparato e as práticas do Estado são, nesta perspectiva, interdependentes de outras 
ordens institucionais e de outras práticas sociais (Jessop, 2014). Jessop ainda ressalta: “os 
Estados não existem 'ilhados”, mas sim integrados em um sistema (ou sistemas) político 
mais amplo, articulando-se com outras ordens institucionais e vinculados a diferentes 


formas de sociedade civil”. 


O Estado é o lugar das lutas e das contradições de classes (relevantes), assim 
como o lugar das lutas e das rivalidades entre suas diferentes ramas. Ser tal 
lugar coloca o problema de como atua o Estado, se o fizesse, como uma força 
política unificada. É aqui onde o papel dos gestores estatais (tanto políticos 
como funcionários de carreira) resulta crucial para compreender como uma 
unidade relativa se impõe às diversas (in)atividades do Estado, e como estas 
atividades adquirem uma autonomia relativa no que diz respeito às pressões 
conflitivas que emanam da sociedade civil. Portanto, devemos examinar as 
diferentes estratégias e táticas que os gestores estatais desenvolvem para 
impor uma medida de coerência nas atividades do Estado (HIRT 2016, p. 46, 
JESSOP, 2014, p. 34 — tradução nossa). 


Sendo assim, no que tange o papel do Estado e como se da sua relação de atuação 
acerca do que fora levantado, pode se chegar ao BNDES, tal qual como um órgão e 
instrumento estatal, dotado da capacidade de realizar parcelas das propostas já levantadas 
em sua estruturação conceitual. 


CONCLUSÃO 


A disciplina de teorias da geografia, nos possibilitou ter o embasamento necessário 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 5 ESTO 


para compreender os principais temas acerca da conceituação geral da ciência geográfica. 
O presente artigo, vem para nortear uma extensão do que já fora trabalhado em aula, em 
escala individual de acordo com a proposta de cada aluno. 

O artigo além da métrica avaliativa, surge como parte da pesquisa geral, sendo 
assim um importante componente na trajetória da produção da dissertação. 

Ao que refere-se aos objetivos propostos e se foram atendidos, acredita-se que esses 
três conceitos abordados, surgem como “espinha dorsal” principal, do todo da pesquisa. 
Logicamente tantos outros temas poderiam ser abordados como base de complementação. 
Mas fora pretendido abordar apenas esses por mera formalidade de não aprofundarmos, 
de maneira massiva com a conceituação. 

Espaço, desenvolvimento regional e financeirização/Estado, atrelados com a 
proposta preterida, configuram uma boa estratégia para compreender o que se propõe e 
como isso se propõe. Sem abandonar de maneira, digamos “dispersa” a base geográfica, 
que pretendemos seguir. 

O presente trabalho aborda essas questões de maneira sucinta, porém condizente, 
traçando “nortes” e não adentrando uma base massiva conceitual. O foco é continuar com 
a proposta, atualizando as leituras e visando compreender cada vez mais a base teórica 
para futuramente, na dissertação, construir um arcabouço robusto como é o que se espera 
do trabalho. Enfim conclui-se que dentro das prerrogativas propostas o presente trabalho, 
corresponde com o que se propõe. 


REFERÊNCIAS 
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999. 


CORRÊA, Roberto L. Revista Brasileira de Geografia. n.51, v.2, abr/jun. 19983. 
COSTA, J.S. (Org.). Compêndio de economia regional. Lisboa: APDR, 2005 


FOCHEZZATO, A. Desenvolvimento regional: recomendações para um novo paradigma produtivo. 
2010 


GOTTDIENER, Mark. A produção social do espaço urbano. São Paulo: Edusp, 1993. 


HARVEY, David. O enigma do capital e as crises do capitalismo. Tradução Joao Alexandre 
Peschanski. São Paulo, SP: Boitempo, 2011. 


HIRT, Carla. O lugar e o papel do BNDES no desenvolvimento brasileiro. Tese. Rio de Janeiro: 
IPPUR/UFRJ, 2016 


JESSOP, Bob. Accumulation Strategies, State Forms and Hegemonic Projects. Kapitalistate, 10, pp. 
89-112, 1983. Disponível em: http://bobjessop.org/201 4/04/15/accumulation-strategies-state-forms-and- 
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Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 5 52 


JESSOP, Bob. Institutional re(turns) and the strategic-relational approach. Environment and Planning 
A, v.33. 2001. 


JESSOP, Bob. Globalização, regionalização, Mercado e o Estado: entrevista com Bob Jessop. In: 
Currículo sem fronteiras. v.2, n.2, 2002. Entrevista concedida a Ankara Múrekkep. 


LEFBVRE, Henri. Espacio y politica. Barcelona: Edicions 62, 1976 


LENCIONI, Sandra. Metrópole, metropolização e regionalização. Rio de Janeiro: Consequência 
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POULANTZAS, Nicos. Poder político e classes sociais. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 1977. 
POULANTZAS, Nicos. Estado, Poder y Socialismo [1978]; Siglo XXI, Madrid, 2005. 


PRADA, Joanderson. Em defesa de uma geografia financeira. Geosul, Florianópolis, v. 34, n. 72, p. 
486-513, mai./jago. 2019. 


SANTOS, Milton. A natureza do espaço. São Paulo: Hucitec, 1996. 
SANTOS, Milton. Espaço e método. São Paulo: Nobel, 1985. 
SANTOS, Milton. Por uma geografia nova. São Paulo: Hucitec/Edusp, 1978. 


SANTOS, Milton; Silveira, Maria L. Brasil: território e sociedade no início do século XXI. São Paulo: 
Hucitec, 2001 


SINGER, Paul, 1932. Para entender o mundo financeiro. São Paulo: Contexto, 2000. 
SPOSITO, Eliseu S. Geografia e filosofia. São Paulo: Editora Unesp, 2004. 
SPOSITO, Eliseu S. Glossário de geografia Humana e econômica. São Paulo: editora Unesp, 2017 


TEIXEIRA, E. C. O Papel das Políticas Públicas no Desenvolvimento Local e na Transformação da 
Realidade. Revista AATR, 2002. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 5 EE 


CAPÍTULO 6 


A CARTOGRAFIA PARA LER O MUNDO: UMA 
PROPOSTA METODOLOGICA 


Data de aceite: 02/08/2021 
Data de submissão: 06/05/2021 


Ana Paula Dechen Rodrigues 

Universidade Federal de Uberlândia, Instituto 
de Geografia, Uberlândia (MG) 
http:/lattes.cnpq.br/9199545907509417 


Pedro da Costa Alamy 

Universidade Federal de Uberlândia, Instituto 
de Geografia, Uberlândia (MG) - PET Sesu/ 
MEC Geografia 
http://lattes.cnpqg.br/6072607090867040 


Tulio Barbosa 

Universidade Federal de Uberlândia, Instituto 
de Geografia, Uberlândia (MG) - PET Sesu/ 
MEC Geografia 
http://lattes.cnpq.br/0987719839415557 


Vinícius Fernandes Alves 

Universidade Federal de Uberlândia, Instituto 
de Geografia, Uberlândia (MG) - PET Sesu/ 
MEC Geografia 
http://lattes.cnpq.br/7368367410862087 


Maria Clara Martins de Oliveira 
Universidade Federal de Uberlândia, Instituto 
de Geografia, Uberlândia (MG) - PET Sesu/ 
MEC Geografia 
http:/llattes.cnpq.br/1044671451133121 


RESUMO: O ensino da Cartografia no Brasil é de 
responsabilidade da Geografia na escola, com 
isso as questões metodológicas no processo 
ensino-aprendizagem tomam a direção da relação 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 


entre o cotidiano discente e a construção de um 
caminho para a produção de um conhecimento 
que não pode ser usado apenas na realidade 
escolar, já que o mesmo precisa compor a 
realidade cotidiana dos discentes para que 
consigam entender o mundo nas suas múltiplas 
relações de escalas e articulações de áreas. 
Deste modo, compreendemos que a Cartografia 
e a Geografia colaboram diretamente para a 
compreensão do espaço nas suas múltiplas 
dimensões e escalas. Assim, consideramos como 
desafios a defasagem metodológica de ensino de 
Cartografia por ser majoritariamente tecnicistas 
e positivista. Neste sentido, há necessidade de 
repensar as questões metodológicas no processo 
de ensino-aprendizagem educacionais para 
conseguir promover uma educação geográfica 
pela Cartografia que empreenda nos sujeitos a 
crítica, a reflexão e o conhecimento voltado para 
resolver os problemas cotidianos. O presente 
trabalho, portanto, tem como fundamento a 
compreensão da realidade e a produção de 
conhecimentos por meio de práticas docentes 
reflexivas as quais possam trazer a Cartografia 
por meio da Geografia Escolar e promover o 
conhecimento geográfico como entendimento 
das múltiplas espacialidades. 
PALAVRAS-CHAVE: Cartografia; Geografia; 
Metodologia; Dialética. 


CARTOGRAPHY TO READ THE WORLD: 
A METHODOLOGICAL PROPOSAL 
ABSTRACT: The teaching of Cartography in 
Brazil is the responsibility of Geography at 
school, with this methodological issues in the 


teaching-learning process take the direction of the relationship between the student's daily 
life and the construction of a path for the production of knowledge that cannot be used only 
in school reality, since it needs to compose the daily reality of students so that they can 
understand the world in its multiple relations of scales and articulations of areas. In this way, 
we understand that Cartography and Geography directly collaborate to understand space in 
its multiple dimensions and scales. Thus, we consider challenges to be the methodological 
gap in the teaching of Cartography as it is mainly technicist and positivist. In this sense, 
there is a need to rethink methodological issues in the educational teaching-learning process 
in order to be able to promote geographic education through Cartography that undertakes 
criticism, reflection and knowledge aimed at solving everyday problems. The present work, 
therefore, is based on the understanding of reality and the production of knowledge through 
reflective teaching practices which can bring Cartography through School Geography and 
promote geographic knowledge as an understanding of multiple spatialities. 

KEYWORDS: Cartography; Geography; Methodology; Dialectics. 


11 INTRODUÇÃO 


O espaço é uma categoria comum de estudo da Cartografia e Geografia; assim, 
por meio de mapas, croquis, desenhos e esquemas cartográficos conseguimos explicar, 
relacionar, produzir, promover, compreender e refletir sobre o espaço. A Cartografia nos 
coloca diante do mundo de forma indireta, mas as nossas relações cotidianas com o mundo 
nos colocam diante do espaço de forma direta, deste modo, o espaço cartografado passa 
a ser sentido/entendido/refletido quando compreendemos o espaço pela realidade. A 
Cartografia sintetiza, organiza, dinamiza, sinaliza, direciona e nos autoriza ao entendimento 
radical da realidade pelas categorias, conceitos, problemas, temas e questões da ciência 
geográfica. 

Neste sentido, o espaço não é apenas um dado estatístico ou uma referência 
geoespacial, pois o espaço é a totalidade que nos cerca, nos une, no separa, nos comove e 
nos elenca temas e problemas da nossa própria existência. O espaço é atotalidade de nossas 
vivências e ações. Dentre tais possibilidades que podemos pensar o espaço escolhemos 
para esse trabalho compreender o mesmo a partir do sentimento e pertencimento, uma vez 
que é indubitável a importância da compreensão dessa categoria no que diz respeito ao 
sentimento de pertencimento do indivíduo e; assim, destaca o meio no qual habita e que 
estabelece cotidianamente suas relações sociais. 

Tais relações sociais estão dentro de uma estrutura de caráter dominante, que é 
alheia à inclusão e à democratização do conhecimento. A cartografia, dessa forma, é um 
conjunto de saberes e direções metodológicas fundamentais para o ensino de Geografia e 
para o desenvolvimento do aluno, pois inseri os mesmos no mundo e, com isso promovem 
uma compreensão autônoma, crítica, reflexiva, plural e dinâmica do espaço. 

Segundo a publicação institucional do Governo Federal a Base Nacional Comum 
Curricular (BNCC) a cartografia é uma condição obrigatória para a aprendizagem: 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 6 ES 


Espera-se que, no decorrer do Ensino Fundamental, os alunos tenham domínio 
da leitura e elaboração de mapas e gráficos, iniciando-se na alfabetização 
cartográfica. [...] Compreender as particularidades de cada linguagem, em 
suas potencialidades e em suas limitações, conduz ao reconhecimento dos 
produtos dessas linguagens não como verdades, mas como possibilidades. 
(BNCC, 2018, p.363) 

A BNCC constitui como encaminhamento a compreensão da cartografia como 
linguagem. Também entendemos a mesma como linguagem, mas na lógica da produção 
de conhecimento, não apenas como informação. Ensinar cartografia ajuda a promover a 
interação conceitual à realidade discente e principalmente instigar a ação discente sobre o 
mundo. Essa ação sobre o mundo, segundo Coimbra (2017), por parte das e dos estudantes 
é que garante a interação do conhecimento escolar com a vida real e sinaliza a promoção 
da ciência geográfica como realidade mediada pelas estruturas e imediata pela intervenção 
na realidade por parte das e dos estudantes. 

É fundamental compreendermos que ainda que a alfabetização cartográfica tenha 
início nos primeiros anos do ensino fundamental, ela não permite que o aluno ultrapasse 
os pressupostos teóricos estabelecidos pela cartografia de bases tecnicistas, que não 
possuem como foco a criticidade e, desse modo, limitam a compreensão da realidade e, 
principalmente, o campo de atuação das e dos estudantes, ou seja, o campo de ação para 
intervir na realidade. Observa-se, assim, um déficit entre a expectativa apresentada pela 
BNCC e o empírico, mesmo que essa seja baseada em princípios do ensino democrático 
havendo a notoriedade da exploração das potencialidades da cartografia no ensino de 
Geografia. 

O presente trabalho tem como centralidade promover conhecimentos para o ensino 
de Cartografia por meio de metodologias escolares voltadas para o Ensino Fundamental 
Il (6º ao 9º ano). Essa escolha foi realizada pela importância pedagógica e geográfica 
da Cartografia, uma vez que seus elementos, conteúdos, temas e linguagens estão 
inseridos no cotidiano das e dos estudante em muitos formatos dentre tais os aparelhos 
eletrônicos e/ou computacionais como tablets, celulares, computadores, televisões, etc. 
Tal aparelhagem contém sistemas de informações geográficas, sistemas de navegação, 
sistemas de referências, mapas, dados estatísticos e informações de sensores remotos. 
Entretanto, esses alunos, muitas vezes, não conseguem compreender tais tecnologias e 
muito menos o próprio cotidiano imbricado à lógica e as ferramentas cartográficas. 

Esses fatores cartográficos e geográficos que não são compreendidos implicam 
em distanciar da realidade as e os estudantes e com isso não constituir um caminho de 
ação para o cotidiano. O conhecimento cartográfico amplia as relações cotidianas nas suas 
múltiplas dimensões e a não realização desse na sala de aula faz com que estudantes se 
alienem do próprio entendimento de sua vida que é estruturada espacial por um conjunto 
político, jurídico, social, cultural e econômico. Tal apontamento pode vir a se tornar um 
grande empecilho na formação desses alunos, já que a compreensão cartográfica permite 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 6 EO 


a localização espacial e a possibilidade de pensar e articular diversas escalas e cenários, 
o que promove uma compreensão mais ampla do mundo e permite uma ação direta sobre 
o mesmo. 

A falta de criticidade na cartografia é resultado das estruturas estimuladas por um 
grupo político-econômico dominante marcado pela tradicionalidade do ensino (BARBOSA, 
2015), deixando propositalmente de proporcionar aos alunos competências necessárias 
para o domínio de conteúdo presentes nos mapas e nas representações cartográficas dos 
livros. Conforme Fonseca (2018), as lacunas da cartografia escolar estão relacionadas 
com a formação dos próprios professores, que dependem de uma formação conceitual e 
libertadora. Essas lacunas se baseiam em uma cartografia estática e mecanizada, isto é, 
não há diálogo entre técnica e ensino. Diante do exposto e considerando a dificuldade na 
formação dos professores, metodologias simples e eficazes se vêem necessárias como 
material de apoio para amparo desses profissionais na elaboração de aulas que expressam 
a totalidade do processo de ensino-aprendizagem. Essas metodologias são possibilitadas 
quando levado em consideração os conhecimentos prévios e as particularidades do 
estudante enquanto sujeito do espaço habitado, ou seja, a promoção do sentimento e do 
pertencimento tem caráter formativo na realização da leitura e entendimento dos mapas ou 


de outros aspectos cartográficos como desenhos, esquemas e croquis. 


21 ACARTOGRAFIA E A INSPIRAÇÃO 


Ametodologia apresentada por este trabalho tem como base teórica a aula expositiva 
dialogada em uma perspectiva freireana (COIMBRA, 2017). Para realização da mesma, 
há uma divisão entre etapas denominadas “inspiração”, “problematização”, “reflexão”, 
“transpiração” e “síntese”. O presente trabalho tomará esses passos como norteadores 
para a proposta de aplicação do ensino de cartografia nas escolas, tendo como princípio a 
inclusão e a democratização do processo de ensino-aprendizagem. 

Durante o estágio de inspiração, segundo Coimbra (2017), é fundamental que o 
ambiente de sala de aula seja convidativo e desperte interesse dos alunos e alunas em 
relação ao conteúdo apresentado. Para isso, o docente deverá utilizar diferentes linguagens 
e ferramentas de acordo com as especificidades do grupo, a fim de estimular a participação 
voluntária. Assim, o docente deverá realizar previamente um diagnóstico do ambiente e do 
público-alvo, ou seja, promover o conhecimento a partir da realidade local, do sentimento e 
do envolvimento das pessoas, com isso haverá o interesse do público. 

A partir de Freire (2010) e Coimbra (2017) temos a importância em buscar 
metodologicamente a aproximação docente-discente, deste modo, o ensino de 
Cartografia partirá da realidade imediata pelas experiências dos sujeitos envolvidos no 
processo educacional. Assim, a etapa da inspiração serve para dar impulso ao aluno 


enquanto sujeito ativo do processo de ensino-aprendizagem envolvendo os sujeitos como 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 6 


promotores de ações para o conhecimento. O professor, deste modo, é o mediador do 
conhecimento (CHIOVATTO, 2000) e também aquele que promove diálogos com discentes, 
logo a construção efetiva do processo para ensinar leva em consideração as vivências, 
personalidades e culturas discentes, neste sentido, os discentes são educados para o 
conhecimento que liberta e com isso promove a autonomia diante do conteúdo apresentado. 
O conteúdo para resultar em conhecimento precisa de interação entre os sujeitos 

e o cotidiano, para isso é necessário que sejam compostas as informações e conteúdos 
por meio de múltiplas linguagens. As diversas linguagens ampliam o conhecimento por 
fomentar novas relações entre o cotidiano que se tem e as questões apresentadas para 
pensar o mesmo por outra lógica. A seguir, seguem dois exemplos da linguagem literária 
como possibilidade metodológica para a sala de aula como inspiração para cartografia: 

[...] A lua cheia clareia as ruas do Capão 

Acima de nós só DEUS humilde, né, não? Né, não? 

Saúde (plin) mulher e muito som 

Vinho branco para todos, um advogado bom 
Esse frio 'tá de fuder 
Terça feira é ruim de rolê, vou fazer o que? 
Unca mudou nem nunca mudará 
O cheiro de fogueira vai perfumando o ar 


esmo céu, mesmo CEP no lado sul do mapa [...] 





RACIONAIS, 2002) 


A letra da música “Da Ponte Para Cá” do grupo Racionais MC pode ser trabalhada 
a partir dos temas desenvolvidos diretamente pelas questões cotidianas dos grupos 
vulneráveis social e economicamente. Tal ferramenta possui potencial de inspiração por 
carregar simbolismos do espaço vivido e contribuir na compreensão do conteúdo trabalho 
cartograficamente, neste caso hipotético, a desigualdade social em centros urbanos. 
[...] Gosto dos mapas porque mentem. 
Porque não dão acesso à dura verdade. 
Porque, generosos e bem-humorados, 
estendem-me na mesa um mundo 
que não é deste mundo. 
(SZYMBORSKA, 2015) 
O poema “Mapa” da ganhadora do prêmio Nobel de Literatura, Wistawa Szymborska, 
poderá ser trabalhado com grupos que tenham uma identificação por literatura. Talferramenta 


possui o mesmo potencial da música, pois causa nos alunos um sentimento de simpatia por 
aquele assunto. É importante ressaltar que tanto a música quanto o poema poderiam ser 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 6 58 


trabalhados em qualquer turma, inclusive, de classes sociais distintas, mas, para a fase de 
inspiração, a efetividade está atrelada à afinidade do aluno diante da ferramenta escolhida. 
Portanto, caso seja do desejo do professor apresentar uma linguagem sem vínculo direto 


com o grupo, torna-se necessário ser feito em outra etapa. 


31 CARTOGRAFIA E A PROBLEMATIZAÇÃO 


Este momento consiste em problematizar o conteúdo apresentado. A problematização 
é um recurso utilizado para evidenciar a realidade cuja interpretação é atrelada à lógica 
dominante do sistema capitalista, que limita a compreensão da representação cartográfica. 


Tanto nas sociedades ocidentais como nas orientais, a cartografia 
invariavelmente une o objetivo ao subjetivo, a prática aos valores, o mito 
ao fato comprovado, a precisão à aproximação. As histórias eurocêntricas 
tradicionais têm desprezado os usos míticos, psicológicos e simbólicos dos 
mapas, valorizando seu uso prático; isso se deve mais à nossa obsessão 
pelos modelos científicos do que à história real da prática cartográfica. 
(HARLEY, 1991, p. 9) 

Conforme Harley (1991), houve historicamente um desprezo em relação a 
interpretação dos mapas exaltando o seu uso prático. Em contrapartida, a cartografia 
crítica permite ultrapassar a praticidade e a técnica levando em consideração a totalidade e 
os simbolismos presentes nos mapas. O valor da cartografia crítica jaz na rigorosa análise 
do espaço possibilitando ao estudante a formação do conhecimento para a vida social, 
isto é, a não reprodução de ideias ou ações dentro da estrutura a qual pertence. Como 
construir, portanto, uma criticidade dentro de sala de aula? Coimbra (2017), sugere iniciar 
essa construção com um questionamento apoiando-se na problematização. 

Há diferentes caminhos para estimular a problematização, sendo um deles o de 
apresentação de dados. O exemplo mostrado a seguir retirado do Laboratório Espaço Público 
e Direito à Cidade da Universidade de São Paulo (USP), que faz um acompanhamento 
crítico das políticas urbanas e habitacionais, particularmente em São Paulo e em outras 
regiões metropolitanas brasileiras. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 6 FER 


MAIOR/MENOR VALOR 


' População 
preta e parda POL 

28 

32,1 


Média da cidade 


Proporção da população preta e parda 
em retação ao total da popadação 


DESIGUALTOMETRO 


10,3x 








Figura 1 - Distribuição da população preta e parda na cidade de São Paulo (SP). 
Fonte: LabCidade. (2019). 


A escolha da imagem deu-se por ela trazer questionamentos e uma análise crítica 
diante do tema proposto em sala de aula. É importante ressaltar que este é um tema 
hipotético para desenvolver a etapa da problematização dentro da cartografia, mas não 
há impedimentos de temas a serem trabalhados dentro da metodologia proposta, como 
exemplo a questão agrária, regionalização mundial ou até mesmo fuso horários. 

O exemplo, ainda no tema de desigualdade social nos centros urbanos, evidencia 
um problema social na cidade de São Paulo (SP) mostrando a distribuição da população 
preta e parda na capital paulista. Juntamente à imagem e aos dados apresentados, são 
possíveis os seguintes questionamentos: por que essa parcela da população não está nos 
centros urbanos? Quais fatores levam a essa representação cartográfica? 

O objetivo é, portanto, a partir do desejo dos alunos devido à etapa de inspiração, 
causar uma indagação em relação ao tema trazendo elementos da cartografia crítica 
para que estabeleça um elo analítico com o tema e estimule a passagem para o próximo 


momento: o de reflexão. 


41 CARTOGRAFIA E A REFLEXÃO 


Há três etapas na construção do conhecimento dialético: a síncrese, a análise e a 
síntese (VASCONCELLOS, 1992). Afase reflexão, a qual a síncrese pertence, é o momento 
fundamental do processo de ensino-aprendizagem, pois permite a interação entre aluno e 
professor e aguça a criticidade iniciada anteriormente com a problematização. 

Segundo Coimbra (2017), a síncrese será explorada através do resgate dos saberes 
tanto do aluno quanto do professor. O educador deverá mapear dentro de sala de aula 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 6 EE 


as experiências dos alunos e agrupá-las a fim de estabelecer um diálogo entre elas para 
que o educando se sinta pertencente à experiência de sala de aula. Tal fato proporciona 
uma ampliação no processo de ensino-aprendizagem devido à acessibilidade dos saberes 
dos envolvidos, sendo, portanto, um aperfeiçoamento e complementação mútua do 
conhecimento prévio causado pela reflexão. Cabe dizer acerca da gravidade do julgamento 
feito em relação aos saberes prévios, pois limita o movimento de síncrese. 

Diante do exposto, será exemplificada, a seguir, uma possibilidade de 
desenvolvimento do momento reflexão dentro da cartografia. O assunto trabalhado no 
exemplo é o de biomas brasileiros, diferenciando-se do tema de Desigualdade Social 
em Centros Urbanos apresentado anteriormente com intuito de mostrar a flexibilidade da 
aplicação da metodologia proposta em relação aos possíveis conceitos do currículo de 
Geografia. 

A proposta se baseia na aplicação previamente de um mapa preto e branco (Figura 
2) em sala de aula, tendo como objetivo a exploração do saber do aluno expressado pela 
pintura e, ademais, a associação do mesmo com o assunto ministrado. 


Biomas Brasileiros 


Legenda 


Amazônia 
Caatinga 
Cerrado 
Mata Atlântica 
Pampa 
Pantanal 















































O 250 500 750 1.000 km 
o O 





Sistema de Coordenadas Geográficas 
Sirgas 2000 / WGS 84 
Fonte; IBGE (2018); Elaboração: RODRIGUES, A. P, D. ALVES, V. ALAMY, C. P. 


Mapa 1 - Mapa dos biomas brasileiros. 


Elaboração: autores.(2021). 


Espera-se que sejam diferentes o uso de cores entre os alunos criando caminhos 
para discussões acerca de cada perspectiva dos biomas brasileiros; a partir disso, haverá 
complementação dos saberes do professor e aluno e aperfeiçoamento do conhecimento 


quando distanciado do senso comum e, somado a isso, uma aproximação de conceitos 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 6 Pe 


científicos. 

O momento de reflexão possui a necessidade da participação do aluno durante 
a aula, tirando o seu papel exclusivo de ouvinte (COIMBRA, 2017). A massividade do 
ensino pode ser superada quando os alunos se envolvem com cada símbolo do objeto 
estudado, neste caso, o mapa. Compreende-se, assim, a relevância de atividades as quais 
exploram a síncrese e o momento de reflexão. Ao ser aguçada a subjetividade e os saberes 
prévios dos alunos, há, consequentemente,um envolvimento maior dos mesmos tornando 


o processo de Alfabetização Cartográfica prazeroso. Conforme Silva e Kaercher (2006) 


Cabe ao professor tornar esse aprendizado prazeroso, não só mecânico, 
elaborando planejamentos de aula que deixem os alunos se expressarem, 
compreenderem o significado das cores de um mapa, por exemplo, os 
traços, as proporções, os diferentes tipos de representações [...]. (SILVA, 
KAERCHER, 2006) 


51 CARTOGRAFIA E TRANSPIRAÇÃO 


Segundo Coimbra (2017) o momento de transpiração é aquele cujo conhecimento 
é construído, sendo necessário o envolvimento de todos os participantes do processo de 
ensino-aprendizagem e o esforço dos mesmos para atingir o resultado esperado, ou seja, 
a ação como etapa inicial e final pela mediação da relação conteúdo e cotidiano; assim, é 
fundamental compreender que o saber não é dado e não está pronto. Vasconcellos (1992) 
salienta que a transpiração corresponde a análise dentro das etapas da construção do 
conhecimento dialético. Neste sentido, são acessadas informações pelas experiências dos 
sujeitos envolvidos no processo de ensino-aprendizagem e, desta forma, a urgência em 
organizar as que passam para o exterior e resultam em ações voltadas para o conhecimento 
imediato. 

Assim, como a transpiração está relacionada diretamente com a organização das 
ideias do professor e dos alunos, pede-se que haja fundamentação teórica com livros, 
artigos, revistas e outras referências (COIMBRA, 2017). Ademais, há a necessidade de um 
planejamento prévio da aula baseado no diagnóstico feito inicialmente como discutido na 
etapa da inspiração. 

Deste modo, o estudo dirigido é uma das possíveis técnicas de ensino para a etapa 
da transpiração, não excluindo outras formas de estimular a busca pelo conhecimento e a 
organização do mesmo. O estudo dirigido por meio de mapas e outras linguagens imprimem 
nos sujeitos envolvidos a compreensão dos desafios específicos para essa relação que 
resultará em conhecimento. Trabalhar as questões ímpares de um tema tendo como 
centralidade o mapa permitirá que estudantes e professores identifiquem os problemas 
também locais, já que a preocupação central é com a articulação de conhecimentos e suas 
relações e movimentações escalares. 


Assim, é fundamental nos atermos a Haydt (2006), pois esse elenca a elaboração de 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 6 EE 


atividades pelo professor por operações cognitivas dos alunos. Essa elaboração direciona 
as especificidades locais que serão trabalhadas de forma dirigida para fundamentar, 
pelos olhares sobre os mapas, as diferentes formas de organização do espaço nas suas 
articulações escalares. Os procedimentos principais para a aplicação dessa técnica 
encontram-se na elaboração ou escolha de um tema para compreensão e a formação de 


questões que estimulem a e análise cartográfica. 


61 CARTOGRAFIA E SÍNTESE 


Este momento, segundo Coimbra (2017) é marcado pelo compartilhamento do 
que foi aprendido durante as outras quatro etapas. A forma de exposição do resultado do 
conhecimento construído não segue um padrão. Não há um exemplo concreto de síntese, 
pois ela resulta de uma objetivação já apropriada pelo professor e mediado pelo ensino 
escolar (LAVOURA, MARTINS, 2017). A criatividade é a chave para a síntese, pois ela 
depende da expressão de cada aluno em relação à cartografia, nesse caso. Vasconcellos 
(1992) afirma a importância da síntese para a compreensão do conhecimento adquirido 
através da projeção do mesmo, seja em uma folha de papel, de forma oral ou até musical. 


71 CONSIDERAÇÕES FINAIS 


O trabalho foi inspirado na Escola Municipal Odilon Custódio Pereira, localizada no 
bairro Parque São Jorge, periferia de Uberlândia-MG, responsável por atender um público 
carente da região ao seu entorno. Na qual o Grupo PET/Geografia da Universidade Federal 
de Uberlândia promoveu atividades iniciais com a comunidade escolar e, desta forma, 
obteve resultados preliminares positivos quanto à resposta dos alunos. 

Devido a pandemia as atividades na escola tiveram que ser interrompidas em seu 
estágio inicial, deste modo, a metodologia apresentada neste trabalho fica como sugestão 
para aplicação em sala de aula, visando sempre uma alteração no ensino cartográfico das 
escolas. 

O diagnóstico da realidade dos alunos, tanto educacional, econômico e social, quanto 
o da escola, estrutural, geográfico e pedagógico são fundamentais para a viabilização de 
um projeto. Essa atividade, proposta para um bairro que se localiza na periferia da cidade 
de Uberlândia - MG, buscou apresentar exemplos que se aproximassem da realidade dos 
educandos. Conhecer a situação dos alunos e escola facilita a adaptação da atividade à 
realidade de ambos, visto que, uma aula em que o aluno se sente inserido, torna-se mais 
prazerosa e interessante e desta forma agrega ainda mais conhecimento. 

O desafio para o ensino de Cartografia está na compreensão das motivações dos 
sujeitos envolvidos no processo ao mesmo tempo em que é preciso ampliar as possiblidades 
de ensino para que o cotidiano seja não apenas representado cartograficamente, mas 
compreendido e por meio de ações transformado. Ler o mundo pelos mapas significa ler os 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 6 E 


mapas pelo mundo que vivemos e que almejamos. 


AGRADECIMENTOS 


Agradecemos o Programa de Educação Tutorial da Secretaria de Ensino Superior 
(SESu) do Ministério da Educação (MEC). 


REFERÊNCIAS 


BARBOSA, Tulio. Cartografia, Geoprocessamento e Ensino de Geografia: Para Executar a Crítica. 
Caderno Prudentino de Geografia, v. 2, n. 37, p. 56-68, 2015. 


BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2018. 
CHIOVATTO, Milene. O professor mediador. Artes na escola, Boletim, n. 24, 2000. 


CIDADE, Laboratório Espaço Público e Direito à. O mapa da desigualdade de São Paulo e as lições 
que vêm das periferias. Disponível em: http://www. labcidade.fau.usp.br/o-mapa-da-desigualdade-de- 
sao-paulo-e-as-licoes-que-vem-das-periferias/. Acesso em: 03 mai. 2021. 


COIMBRA, Camila Lima . A aula expositiva dialogada em uma perspectiva freireana. In: Edvalda Araújo 
Leal; Gilberto José Miranda; Silvia Pereira de Castro Casa Nova. (Org.). Revolucionando a sala de 
aula: como envolver o estudante aplicando técnicas de metodologias ativas de aprendizagem. 
ted.São Paulo: Atlas, 2017, v., p. 1-14. 


FONSECA, Ricardo Lopes. Cartografia e formação docente: o domínio conceitual cartográfico na 
formação do professor de Geografia. Geosaberes, Londrina (Pr), v. 10, n. 20, p. 1-13, 01 maio de 2021. 


FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2010. 
HAYDT, R. C. C. Curso de didática geral. São Paulo: Ática, 2006. 


LAVOURA, Tiago Nicola; MARTINS, Lígia Márcia. A dialética do ensino e da aprendizagem na atividade 
pedagógica histórico-crítica. Interface-Comunicação, Saúde, Educação, 2017. 


PILETTI, C. Didática geral. 24. ed. São Paulo: Ática, 2010. 


RACIONAIS. Da Ponte Para Cá. São Paulo: Zimbabwe Records, 2002. Disponível em: https:/Avww. 
youtube.com/watch?v=Xe8DN92itbg. Acesso em 3 mai. 2021 


SILVA, Jorge Luiz Barcellos da; KAERCHER, Nestor André. O mapa do Brasil não é do Brasil. In: 
SEEMANN, Jorn (org.). A Aventura Cartográfica: perspectivas, pesquisas e reflexões sobre a 
Cartografia Humana. Fortaleza - CE, 2006, p.173-184. 


SZYMBORSKA, Wislawa. Map: Collected and last poems. (Translation Clare Cavanagh). New York/ 
United States of America: The Wislawa Szymborska Foundation, 2015. p. 432. 


VASCONCELLOS, Celso dos S. Metodologia Dialética em Sala de Aula. In: Revista de Educação 
AEC. Brasília: abril de 1992 (n. 83). 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 6 6 


CAPÍTULO 7 


QLLAKI: PRODUÇÃO DE SOFTWARE BASEADO EM 
DADOS GEOMÁTICOS DA FRONTEIRA 


Data de aceite: 02/08/2021 
Data de submissão: 04/06/2021 


Rodrigo Freire dos Santos Alencar 
Instituto Federal de Educação, Ciência e 
Tecnologia de Mato Grosso do Sul. 
Ponta Porã — Mato Grosso do Sul 
http://lattes.cnpqg.br/2510376375293399 
https://orcid.org/0000-0001-5457-3515 


RESUMO: O projeto Qllaki consiste em um 
sistema de informações geográficas que visa 
divulgar o turismo na fronteira entre Ponta Porã e 
Pedro Juan Caballero. Por meio de informações 
visuais apresentando a fotografia do local, 
textuais contendo dados descritivos e localização 
geográfica a respeito dos estabelecimentos 
cadastrados no sistema. Fornecendo ao usuário, 
uma série de categorias como: alimentação, 
compras, hotelaria, serviços públicos, transporte, 
lazer e turismo; juntamente com as respectivas 
subcategorias de cada tópico, possibilitando 
inclusive a escolha da região, entre Ponta Porã 
ou Pedro Juan Caballero. Após a seleção da 
região, categoria e estabelecimento, as três 
naturezas de informação são fornecidas ao 
turista, possibilitando o conhecimento do local 
selecionado. Prestando uma fonte confiável, 
e segura de todos os locais cadastrados, 
promovendo assim, a visibilidade de regiões 
que não estão inseridas em mecanismos de 
pesquisa, proporcionando maior alternativa para 


a população turística e regional. 
PALAVRAS - CHAVE: Software, 
Georreferenciamento, Turismo, Fronteira. 


OLLAKI: SOFTWARE PRODUCTION 

BASED ON GEOMATIC FRONTIER DATA 
ABSTRACT: The Qllaki project consists of a 
geographic information system that aims to 
promote tourism on the border between Ponta 
Porã and Pedro Juan Caballero. Through visual 
information presenting a photograph of the place, 
textual information containing descriptive data 
and geographic location about the establishments 
registered in the system. Providing the user with 
a series of categories such as: food, shopping, 
hotels, public services, transportation, leisure and 
tourism; along with the respective subcategories 
for each topic, even allowing the choice of region, 
between Ponta Porã or Pedro Juan Caballero. 
After the selection of the region, category and 
establishment, the three types of information are 
provided to the tourist, enabling the knowledge of 
the selected place. Providing a reliable and secure 
source of all registered sites, thus promoting the 
visibility of regions that are not included in search 
engines, providing a greater alternative for the 
tourist and regional population. 
KEYWORDS: Software, 
Tourism, Frontier. 


Georeferencing, 


11 INTRODUÇÃO 


O desafio proposto nesse trabalho é 
a produção do software Hallaki !, de modo a 


1 Hallaki (procure aqui - Neologismo das palavras em espanhol Halla = Procure; Aki = Aqui), posteriormente alterado para Qllaki, 


adaptando uma gramática cyberspace. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 


Capítulo 7 


facilitar a localização de estabelecimentos da fronteira. O trabalho Qllaki consiste em um 
sistema de informações geográficas que visa divulgar o turismo na fronteira entre Ponta 
Porã e Pedro Juan Caballero. Por meio de informações visuais apresentando a fotografia 
do local, textuais contendo dados descritivos e localização geográfica a respeito dos 
estabelecimentos cadastrados no sistema, assim como a sua contribuição nos serviços 
públicos, informando a localização de hospitais, farmácias, prefeitura, receita federal e 
demais órgãos públicos. 

O município de Ponta Porã, oficializado em 18 de julho de 1912, situado no estado 
de Mato Grosso do Sul, perfaz sua delimitação simbólica, intitulada como “Fronteira 
Seca” com o município Paraguaio de Pedro Juan Caballero. (REGISTROS, 2017). O 
município de Pedro Juan Caballero, oficializado em 1956, sendo nomeado como o primeiro 
Intendente Municipal pelo Decreto nº 18.387, Don Carlos Domínguez. Designada capital 
do departamento de Amambay, pelo decreto de 10 de julho de 1945. (CARDONA, 2017). 

Em 1911 surge a definição primária de Turismo, por meio do economista Hermann 
von Schullern zu Schattenhofen: 


É o conceito que compreende todos os processos, especialmente os 

econômicos, que se manifestam na chegada, na permanência, e na saída do 

turista de um determinado município, pais ou estado. (BARRETO, 2008, p. 9). 

Sua definição está intimamente relacionada com pessoas, que intitulamos visitantes, 

sendo um indivíduo que está envolvido em uma visita, e seu ambiente se encontra fora de 

sua residência, sua causa é movida por diversos fatores, como: saúde, educação, lazer, 

entre outros. De acordo com Moesch (2012) em definições recentes da OMT — Organização 
Mundial do Turismo, compreende-se que: 


O turismo compreende as atividades que realizam as pessoas durante suas 
viagens e estadas em lugares diferentes do seu entorno habitual, por um 
período consecutivo inferior a um ano, com finalidade de lazer, negócios ou 
outras. (OMT, 1998, p. 47, tradução nossa). 

Afronteira apresenta um fenômeno geográfico, intitulado conurbação, quando regiões 
distintas se expandem de tal forma, que passam a compartilhar o mesmo espaço, sendo 
comum em centros urbanos; promovendo uma série de peculiaridades, e reverberações. 
(CURY, 2017). Como expresso na Figura 1 a seguir: 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 7 ES 






+ 


PONTA PORÁÃ 





[EB Área comercial 
[EB] Área de serviço 
[7] Área residencial 
[E] Área industrial 


| Área mista: comercial e serviço 


PEDRO JUAN CABALLERO 


E Área mista: comercial e residência 
[EB Área institucional 

[E Área verde 

H Área verde urbanizada 

E] Vazio urbano 

E Marcos 


Fonte: Modificado de Prefeitura municipal de Ponta Porã 


Figura 1 A Conurbação de Ponta Porã com Pedro Juan Caballero. 
Fonte: ALOVISI; ANDRADE; MATOSO (2010, p. 34). 


Possuindo forte interação turística social e cultural, Ponta Porã e Pedro Juan 
Caballero, proporcionam rica experimentação aos seus visitantes, permitida pela conurbação 
entre os municípios, contemplando aspectos como Turismo de Aventura, compreendendo 
os movimentos turísticos decorrentes da prática de atividades de aventura de caráter 
recreativo e não-competitivo Turismo (2017). Turismo de Contemplação usufruindo de 
serviços prestados no ambiente natural Turismo (2017). Turismo Histórico, relacionado 
ao contato com o patrimônio histórico e cultural Turismo (2017). Turismo de Compras 
fortemente ligado a visitação de lugares com intenções comerciais Turismo (2017). 

A despeito da Fronteira possuir alto potencial turístico, infelizmente existem fatores 
que retardam e debilitam tamanho potencial, a partir de mídias, propagandas e meios de 
comunicação, limitando a exploração e o conhecimento amplo do turista em sua estada 
na fronteira, por conta do conteúdo vinculado ou falta dele. Até mesmo proprietários de 
estabelecimentos que não buscam estar inseridos no contexto tecnológico. 

Em virtude disso propõe-se desenvolver um software multiplataforma de 
Georreferenciamento da Fronteira, integrando o sistema de gerenciamento de conteúdo 
WordPress, e o sistema de informações geográficas Google Maps. A escolha dos pontos 
a serem localizados se deu por amostragem, localizando e fornecendo informações 
visuais, textuais e geográficas, de estabelecimentos e lugares. A captura de imagens das 
localizações deve-se ao Google Street View. Juntamente com um aplicativo que atue em 
conjunto com sistema, desenvolvido na plataforma MIT App Inventor. Logo o sistema Q 
llaki, pretende atuar no georreferenciamento da Fronteira. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 7 


21 REFERENCIAL TEÓRICO 


2.1 Problemática 


Ao observar o contexto turístico da Fronteira entre Ponta Porã e Pedro Juan 
Caballero, encontramos roteiros de visitas aparentemente pré-estabelecidos, pelas mídias, 
propagandas e meios de comunicação, limitando a exploração e o conhecimento amplo do 
turista em sua estada na fronteira. 


De fato a mídia exerce influência no setor turístico e possui papel fundamental 
para o desenvolvimento desse setor. Ao modificarmos nossa agenda em 
função da agenda da mídia, veiculada por meio das notícias, propagandas, 
campanhas etc; fica implícita sua influência, às vezes de forma direta, outras 
indireta, tanto a curto, médio ou longo prazo. (PERETTI; MEGIOLARO, 2011, 
p. 13). 

Consta como fator depreciativo, está no fato da existência de informações duvidosas, 
quanto a locais, regiões e atrações. Em que localizações, endereços e descrições 
presentes em mecanismos de pesquisas, faltam com a verdade e diferem da realidade, 
quando tais informações são colocadas a prova, apresentam resultados discrepantes, tal 
fato caracteriza-se como empírico e parte das experiências do autor, na trajetória deste 
trabalho. A salientar, diversos pesquisadores, visualizam tal cenário como empecilho ao 
desenvolvimento do turismo. 


São tantas as mentiras para tirar dinheiro das pessoas que um pouco de 
ceticismo faz bem para quem deseja dar um pouco mais de prioridade aos 
gastos com o seu dinheiro na escolha da compra de atrações turísticas 
sensatas do que deixar se levar pela falta de caráter de certos agentes 
de viagens e guias de turismo que visando a venda de um produto que 
os remuneram uma alta comissão, estimulam o cliente a ser enganado por 
ilusões e farsas. (WIRES, 2017). 


Outro ponto comumente presente em extremos, se dá quando proprietários de 
estabelecimentos nutrem determinada aversão, a implantação e uso de tecnologias em 


seus negócios, não inserindo seu estabelecimento em mecanismos de pesquisas, e a falta 
de interação com redes sociais. 


Use a tecnologia e as redes sociais para permitir aos visitantes a pesquisa a 
partir de casa e recolher as informações básicas. No entanto, muitos hotéis e 
empresas de transporte parecem que escondem os números de telefone em 
seus sites. Combine as informações básicas que podem ser fornecidas pelo 
computador com o lado humano da informação. Lembre-se que, se o turista 
nunca chegar até você, pode achar que o seu cliente encontrou um local mais 
agradável. (TOURISM, 2017). 


2.2 Soluções 


Tomando ciência dessa problemática, de possuir informações turísticas em 
melhores condições, sugere-se que um sistema contendo fontes confiáveis, e seguras 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 7 68 


de informações, inserindo locais que não estão presentes em mecanismos de pesquisa, 
proporcionando maior alternativa para a população turística e regional, auxiliando nas 
operações turísticas, contribuirá significativamente para a sociedade, como é evidenciado: 


A tecnologia toca em quase todos os aspectos da indústria do turismo. Se 
formos inteligentes o suficiente para usar os benefícios da tecnologia, tais 
como a conveniência, velocidade e precisão e evitar algumas das armadilhas, 
a facilidade de utilização, tamanho de letras e falta de contato humano, a 
tecnologia pode ser uma grande ferramenta para poupar tempo e dinheiro. 
(TOURISM, 2017). 

Ao analisar o momento da utilização do sistema, é de vital importância a experiência 
da interação do usuário, embasando o desenvolvimento de um sistema interativo, dinâmico, 
e responsivo facilitando o manuseio. O intuitivo layout apresentado, contém imagens 
autoexplicativas e mecanismos que facilitam a utilização do sistema. Como apontam as 
experiências visuais: 

Na composição de um layout, sempre que possível, procuramos trabalhar 
com elementos que representem a empresa e que mostrem a preocupação 
que temos com os detalhes. Assim, inserimos texturas, ícones, símbolos, 
ilustrações e gráficos que facilitem a compreensão da mensagem pelo cliente 


final e favoreçam a sua formação de opinião a favor da empresa. (CONCEITO, 
2017). 


31 METODOLOGIA 


As ferramentas a seguir, foram utilizadas para o desenvolvimento do Qllaki. Para 
a estruturação do sistema foi empregada à plataforma de gerenciamento de conteúdo 
WordPress. O Google Maps, atuará na produção do mapa virtual, onde os locais serão 
inseridos. Google Street View, ferramenta utilizada para captura fotográfica dos locais. 
Logo o MIT App Inventor, produzirá o aplicativo após o sistema se encontrar online, o 
aplicativo possuirá as mesmas funções do sistema. 

WordPress consiste em um Sistema de Gerenciamento de Conteúdo ou CMS - 
Content Management System, sendo um software que facilita a criação, edição, organização 
e publicação de conteúdo na internet. (WORDPRESS, 2017). Os Sistemas de Informações 
Geográficas (GIS), atuam na captura, armazenamento e processamento de dados baseado 
na localização da superfície na Terra, possuindo vasta gama de dados, potencial analítico, 
conferindo assim ao espectador novas perspectivas ao analisar determinada área Terrestre 
com tal tecnologia geográfica. (GIS, 2017). 

O Google Maps compreende um sistema de informações geográficas, disponibilizado 
pela Google, utilizado para georreferenciamento e mapeamento virtual, a nível global. 
(GOOGLE, 2017). Street View é um recurso do Google Maps que disponibiliza imagens 
panorâmicas de 360º horizontalmente, e 290º verticalmente, em regiões específicas do 
mundo. (GOOGLE, 2017). No processo de captura de imagens dos locais, as mesmas 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 7 ER 


foram retiradas do Street View, outras se encontravam disponibilizadas gratuitamente, e 
demais foram desenvolvidas pelo autor. 

MIT App Inventor consiste em um ambiente de programação visual, dedicada 
ao desenvolvimento de aplicativos funcionais para smartphones e tablets, baseado em 
programação de blocos, sendo a ferramenta responsável por gerar o aplicativo Qllaki. 
(MIT, 2017). 


3.1 Método de Desenvolvimento 


Para o desenvolvimento do Software, foi utilizado o sistema de informações 
geográficas Google Maps, o sistema gerenciador de conteúdos WordPress, juntamente 
com a plataforma de desenvolvimento de softwares móbile MIT App Inventor, adotando os 
seguintes passos: 


Mapeamento Pinagem dos Integração 
da Fronteira Locais Multiplataforma 


Disponibilização 





Figura 2 Diagrama Metodológico. 


Fonte: Elaborado pelo autor. 


1º Mapeamento da Fronteira: Utilizando o sistema de informações geográficas 
Google Maps, disponibilizado pela Google, sendo a ferramenta responsável por gerar 
o mapa virtual da Fronteira entre Ponta Porã e Pedro Juan Caballero. 2º Pinagem dos 
Locais: Por meio do sistema gerenciador de conteúdos WordPress, o usuário acessa o 
painel disponibilizado pelo mesmo, e assim cadastra os locais. Após o cadastro supracitado, 
o sistema de informações geográficas Google Maps, inseri o que foi cadastrado, no mapa 
virtual. 

3º Integração Multiplataforma: O mapa virtual (Google Maps) se encontra 
inserido no sistema web, sobre a qual o sistema gerenciador de conteúdos (WordPress) 
administra, logo ambos atuam mutuamente. 4º Disponibilização: Por se encontrar 
online com a possibilidade de localização tanto localhost quanto à World Wide Web, e 
possuir características de responsibilidade, se adequando a variáveis modelos de telas, 
sendo acessível a Desktops, Laptops, Tablets, Smartphones e demais dispositivos que 
possuem conexão com a internet e um Sistema Operacional compatível. Para a criação do 
aplicativo, foi utilizado a plataforma MIT App Inventor, onde o aplicativo gerado se conecta 
ao WordPress. 


3.2 Método de Utilização 


Apresentando a tela inicial do sistema, para o acesso do administrador é informado 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 7 


nome ou e-mail, e senha. O usuário, opta pela região desejada, recebendo ampla visão do 
funcionamento do sistema conforme demonstrado na Figura 3. 1º Passo: O Administrador 
do sistema, onde sua responsabilidade se dá por cadastrar locais, categorias, regiões, 
páginas e zelar pelo correto funcionamento do sistema. Acessa a tela de administração do 
sistema, selecionando o botão “Login”, informando seu nome ou e-mail, e senha. 


ES (81) RESOURCES EE 





Georreferenciamento 
da Fronteira 


ds 





Figura 3 Tela inicial do sistema. 


Fonte: Elaborado pelo autor. 


Apresentando a tela de inserção de categoria, o administrador cadastra as categorias 
desejadas, conforme demonstrado na Figura 4. 2º Passo: Na tela de administração 
do sistema, no menu Items, na opção Item Categories, é exibido a tela de cadastro de 
categorias, onde o administrador informa o nome da categoria, descrição, imagens, e a 
mesma é adicionada. 





Item Categories 


7 Add New Category Ações em massa || Apis 3 item 1 


Nome 





— Cofoteria nelas fever afeteria 


— Cosa de chá Lista das Casas de chá asa-de-uha 





— Confeitaria 








—— Biscoito 








— — Sorveteria Lista da 






— Fast Food Usa de 





— — Lanchonete 


Figura 4 Tela de inserção de categoria. 


Fonte: Elaborado pelo autor. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 7 


Apresentando a tela de inserção de locais, o administrador cadastra os locais 
desejados, conforme demonstrado na Figura 5. 3º Passo: Na tela de administração do 
sistema, no menu Items, na opção Add New, é exibido a tela de cadastro de Locais, onde 
o administrador informa o nome do local, a qual categoria pertence, descrição, imagens, 
endereço, geolocalização, horários e o local é adicionado. 





ali Add New Item 


Nome do Item Publicar 


3m 
e 





Item Categories 
EE Psriner a 


Resumo à Ash Ney Category 


de Unuéi Mem Locations 


Figura 5 Tela de inserção de locais. 


Fonte: Elaborado pelo autor. 


Apresentando a tela de inserção de região, o administrador cadastra às regiões 
desejadas, conforme demonstrado na Figura 6. 4º Passo: Na tela de administração do 
sistema, no menu Items, na opção Item Locations, é exibido a tela de cadastro de Regiões, 
onde o administrador informa o nome da região, a qual categoria ele pertence, descrição, 
imagens e a região é adicionada. 





Item Locations 


O Midi Add New Category re 











Figura 6 Tela de inserção de região. 


Fonte: Elaborado pelo autor. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 7 





5º Passo: O usuário se posicionará no menu lateral esquerdo, para a escolha da 
região, sendo Brasil remetendo à Ponta Porã, e Paraguay direcionando à Pedro Juan 
Caballero, conforme demonstrado na Figura 7. Os usuários que não possuem privilégios 


administrativos no sistema, obterão acesso às telas visualizadas deste momento em diante. 


2 [1 A) 


Locanons O veses EEB 


Brasil 





bi 


Paraguay 


Georreferenciamento 
da Fronteira 





Figura 7 Tela inicial do sistema. 


Fonte: Elaborado pelo autor. 


Apresentando a tela de busca, que usuário pesquisará os locais desejados, mediante 
a utilização de recursos de pesquisa, conforme demonstrado na Figura 8. 6º Passo: É 
exibido à lateral esquerda, o menu de categorias que foram cadastradas, alimentação, 
compras, hotelaria, serviços públicos, transporte, turismo. Ao centro é listado todos os 
locais cadastrados na região escolhida. A direita existe o mapa virtual apresentando todos 
os pontos marcados em relação à região escolhida. 


2 welcome, Root O 


Es: (51) resources [EE 





OS Brasil 


O me: 





Ginásio Poli Esportivo Pepe Portela Castelinho 


Figura 8 Tela de busca. 





Fonte: Elaborado pelo autor. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 7 





Apresentando a tela de busca de categorias, possibilitando ao usuário a escolha, 
entre as subcategorias existentes, da categoria selecionada anteriormente, conforme 
demonstrado na Figura 9. 7º Passo: Após no menu lateral esquerdo, selecionar uma 
categoria, será exibido ao centro superior subcategorias, sendo possível selecioná-las, no 
centro inferior é listado todos os locais da categoria selecionada. À direita existe o mapa 
virtual identificando os locais, mediante o ícone da subcategoria. 


6) Welcome, Root O 


O sms ED 


Cafeteria » Casadechá + 





COUNT B » SORTBY O + «4 





Filho da Fruta Cacau Show 





Figura 9 Tela de busca categoria. 


Fonte: Elaborado pelo autor. 


Apresentando a tela de subcategoria, expondo exclusivamente a subcategoria da 
categoria selecionada, e seus respectivos locais, conforme demonstrado na Figura 10. 8º 
Passo: Após selecionar a subcategoria, apenas os locais pertencentes a ela são listados 
no centro inferior, juntamente no mapa virtual à direita. 


O vens o 
O srs ED 





t 


staurante 


"Churrascaria 





Lista dos Restaurantes Pedro Juan 
Caballerô, 


COUNT 8 sorRTBY O a 








Figura 10 Tela de subcategoria. 


Fonte: Elaborado pelo autor. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 7 





Apresentando a tela do local, o item selecionado é detalhado, fornecendo informações 
visuais, textuais e geográficas do estabelecimento, conforme demonstrado na Figura 11. 
9º Passo: Após selecionar o local, a página do mesmo é exibida com informações visuais, 
com a fotografia do local, para que o usuário possa identifica-lo visualmente, informações 
textuais, contendo a descrição do local, horário de atendimento, endereço, telefone, redes 


sociais, juntamente com a informação geográfica, presente no mapa virtual à direita. 


[) welcome. Root O 





Pedro 
Cabali 





uar 
ro 
ALIMENTAÇÃO “o CAFETERIA e FAST FOOD & RESTAURANTE 


ADDRESS & CONTACT OPENING HOURS 


Address; 





ro, Ponta Monday: O = 15:90 Mapa saio 





Tuesday: du - 15:00 


Figura 11 Tela do local. 


Fonte: Elaborado pelo autor. 


Utilização do aplicativo móbile conforme a Figura 12. Todos os passos anteriores se 
aplicam ao acessar o sistema em ambiente móvel. 


Pedro Juan 
Cabailerá, 





Figura 12 Tela do local na aplicação móvel. 


Fonte: Elaborado pelo autor. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 7 





41 CONSIDERAÇÕES FINAIS 


O desenvolvimento do presente trabalho, possibilitou a integração de um sistema 
de informações geográficas, juntamente com um sistema de gerenciamento de conteúdo, 
e a criação de um aplicativo móvel capaz de visualizar os sistemas supracitados, também 
presente nas redes sociais. 

Exerce função de implementar a tecnologia no âmbito turístico, aumentando o 
contato da população residente e visitante com a região, contribuindo para o encontro das 
localidades. Naturalmente possibilitando incrementos posteriores, gerando outros projetos 
e tecnologias. 

Salientando a necessidade e importância, da realização de georreferenciamentos 
da região onde vivemos, onde geralmente o processo é realizado pelo responsável do 
estabelecimento, ou por um indivíduo que se dispõe a georreferenciar grande parte desses 
estabelecimentos. 

O protótipo conclui seu objetivo de desenvolvimento da elaboração do sistema, de 
modo a facilitar a localização de estabelecimentos da fronteira entre Ponta Porã e Pedro 
Juan Caballero, tendo uma fonte confiável, e segura de todos os locais cadastrados, 
promovendo assim, a visibilidade de regiões que não estão inseridos em mecanismos de 
pesquisa, proporcionando maior alternativa para a população turística e regional. 


REFERÊNCIAS 


ALOVISI, Alves Alexandre; ANDRADE, Ana Paula Vieira de; MATOSO, Armando Luis. GEO Ponta 
Porã: Perspectivas para o meio ambiente urbano. [S.I.]: PNUMA - Programa das Nações Unidas 
Para O Meio Ambiente, UN-HABITAT - Programa das Nações Unidas Para Os Assentamentos 
Humanos, ISER - Instituto de Estudos da Religião, Ministério das Cidades, 2010. Disponível em: http:// 
www.pnuma.org/deat1/pdf/2010%20-%20GE0%20Ponta%20Pora.pdf. Acesso em: 04 set. 2016. 


BARRETTO, Margarita. Manual de Iniciação ao Estudo do Turismo: Coleção Turismo. 17. 
ed. Campinas: Papirus, 2008. Disponível em: https://books.google.com.br/books?id=iftaAnj . 
QQPIC&printsec=frontcover&hl=pt-BR$v=onepage&qg&f=false. Acesso em: 20 jul. 2017. 


CARDONA, Sacha Aníbal. Institucional: Historia de Pedro Juan Caballero. Disponível em: http:/Avww. 
municipalidadpjc.gov.py/historia.php. Acesso em: 10 abr. 2017. 


CONCEITO Ideal: QUAIS SÃO AS CARACTERÍSTICAS DE UM BOM LAYOUT PARA UM SITE? 
Disponível em: http://www.conceitoideal.com.br/Sites/quais-sao-as-caracteristicas-de-um-bom-layout- 
para-um-site.html. Acesso em: 06 ago. 2017. 


CURY, Alan. Instituto de Arquitetos do Brasil: Conurbação e Perímetro Urbanos. Disponível em: http:// 
www.iab.org.br/artigos/conurbacao-e-perimetro-urbanos. Acesso em: 10 ago. 2017. 


GIS (geographicinformation system): Geospatial Information System. Disponível em: http:/Anww. 
nationalgeographic.org/encyclopedia/geographic-information-system-gis/. Acesso em: 10 abr. 2017. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 7 


GOOGLE Maps APIs: Google Maps para todas as plataformas. Disponível em: https://developers. 
google.com/maps/?hl=pt-br. Acesso em: 03 ago. 2017. 


GOOGLE Street View: ONDE ESTIVEMOS E PARA ONDE VAMOS. Disponível em: https:/Avww. 
google.com/streetview/understand/. Acesso em: 06 ago. 2017. 


MIT App Inventor: Anyone Can Build Apps That Impact the World. Disponível em: http://appinventor. 
mit.edu/explore/%4. Acesso em: 03 ago. 2017. 


MOESCH, Marutschka. A origem do conhecimento, o lugar da experiência e da razão na gênese 
do conhecimento do turismo. Artigo extraído da tese de doutoramento em comunicação, Título 
Epistemologia Social do Turismo. ECA/USP/SP. 2004. 


OMT. Introducción al Turismo: Organización Mundial del Turismo. [S. |.: s. n.], 1998. E-book. 


PERETTI, Shana Lehenbauer; MEGIOLARO, Ana Paula. O PAPEL DA MÍDIA NO TURISMO: Estudo 
das repercussões e dos possíveis reflexos de quatro notícias, amplamente divulgadas pelos meios 
de comunicação. 2011. Mestrado e Turismo da UCS (Il Encontro Semintur Jr.) - Centro Universitário 
Metodista, do IPA, Universidade de Caxias do Sul, 2011. Disponível em: https://Anww.ucs.br/site/midia/ 
arquivos/04 o papel da midia.pdf. Acesso em: 06 ago. 2017. 


REGISTROS HISTÓRICOS: Histórico da emancipação político-administrativa de Ponta Porã. 
Disponível em: http://pontapora.ms.gov.brNv2/registros-historicos/. Acesso em: 04 abr. 2017. 


TOURISM Tidbits: Turismo no mundo da tecnologia. Disponível em: http:/Avww.tourismandmore.com/ 
tidbits/turismo-no-mundo-da-tecnologia/. Acesso em: 06 ago. 2017. 


TURISMO. Turismo de Aventura. Disponível em: hitp://Anww.ecobrasil.org.br/turismo/turismo-aventura. 
Acesso em: 07 abr. 2017. 


TURISMO. O Que é o turismo de natureza? Disponível em: http://mentesemaccao.blogs.sapo. 
pt/10262.html. Acesso em: 09 abr. 2017. 


TURISMO. Turismo Cultural. Disponível em: http://turismo.mg.gov.br/index2.php?option=com . 
content&do pdf=1&id=297. Acesso em: 09 abr. 2017. 


TURISMO. Turismo de Compras. Disponível em: http:/Awww.bigviagem.com/turismo-de-compras/. 
Acesso em: 09 abr. 2017. 


WIRES, Douglas. BASTIDORES DO TURISMO: TURISMO SUSTENTADO POR MENTIRAS NA 
MÍDIA. Disponível em: http://bastidoresdoturismo.blogspot.com.br/2008/03/turismo-sustentado-por- 
mentiras-na-mdia.html. Acesso em: 06 ago. 2017. 


WORDPRESS: About WordPress. Disponível em: https:/Awordpress.org/about/. Acesso em: 04 ago. 
2017. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 7 


CAPÍTULO 8 


A CARTOGRAFIA TEMÁTICA NA SALA DE AULA 
COMO ESTRATEGIA DE VALORIZAÇÃO DO 


Data de aceite: 02/08/2021 
Data de submissão: 01/06/2021 


Marcela Maria Patriarca Mineo 

Doutora pela Universidade de São Paulo (USP) 
São Paulo, SP 
http://lattes.cnpg.br/0850571986567575 


RESUMO: O presente trabalho é resultado dos 
meus esforços em aliar a pesquisa sobre o 
patrimônio cultural na região central de Limeira 
— SP, em programas de Pós-Graduação, e 
práticas em sala de aula enquanto professora 
de Geografia para os anos finais do Ensino 
Fundamental na rede estadual de ensino 
paulista. Assim, desenvolvi uma sequência 
didática com alunos do 6º ano que tem por 
objetivo reconhecer e valorizar o patrimônio 
cultural local através de pesquisa, trabalho de 
campo e elaboração de mapas temáticos. Os 
alunos nesta etapa da escolarização partem do 
espaço de vivência para analisar a produção 
do espaço geográfico e trabalham, conforme 
indicação curricular, com o conceito de paisagem 
e suas transformações, além da alfabetização 
cartográfica. Assim, a discussão sobre o 
patrimônio cultural se torna bastante relevante, 
uma vez que levanta questionamentos sobre 
diferentes temporalidades coexistindo no mesmo 
espaço e a necessidade da conservação dos 
imóveis de interesse histórico e cultural para O 
município. O referencial metodológico sobre 
Cartografia Temática utilizado em sala de aula 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 


PATRIMÔNIO CULTURAL 


para a construção dos mapas sobre o patrimônio 
cultural de Limeira é do Professor Marcello 
Martinelli (USP — São Paulo) e a proposta de 
mapeamento desenvolvida pelos alunos foi 
importante para a discussão sobre patrimônio 
cultural e para o desenvolvimento da capacidade 
leitora de mapas a partir de sua elaboração. 
PALAVRAS-CHAVE: Cartografia Temática, 
patrimônio cultural, práticas de ensino. 


THEMATIC MAPPING IN CLASSROOM AS 
A ESTRATEGY FOR VALUING CULTURAL 
HERITAGE 
ABSTRACT: The present paper is a result of 
my efforis to combine researches on cultural 
heritage of the downtown area of Limeira — SP, 
at postgraduate courses, with my practices as a 
Geography school teacher for the final years of 
elementary schooling in public schools of Sao 
Paulo. As so | developed a teaching sequence 
with 6” grade students that had the purpose 
to recognize and value the cultural heritage 
throughout research, fieldwork and the elaboration 
of thematic mapping. The students at this stage of 
schooling start off ffom the living space area to 
analyze the production of the geographic space 
and work, as a curriculum recommendation, with 
the concept of landscape and its transformations, 
besides the cartographic literacy. Therefore, the 
discussion on cultural heritage is very relevant 
once it brings questionings of different times 
coexisting in the same space and the need to 
preserve the buildings that have historic and 
cultural interest for the County. The method for 
Thematic Cartography used in the classroom, for 
the elaboration of maps on the cultural heritage 


Capítulo 8 


of Limeira, is ffom Marcello Martinelli (USP — Sao Paulo) and the mapping proposal created 
by the students was significant for the discussion on cultural heritage with the students and to 
increase their ability to read maps from their own elaboration. 

KEYWORDS: Thematic Mapping, cultural heritage, teaching practices. 


11 INTRODUÇÃO 


Em 2006 iniciei um Estágio de Especialização no Departamento de Planejamento 
Territorial e Geoprocessamento da UNESP - Rio Claro, escolhendo como temática de 
investigação o patrimônio cultural material de Limeira - SP. Em dezembro de 2009 eu 
defendida minha dissertação de Mestrado “O espaço urbano e suas temporalidades: 
diagnóstico e propostas de intervenção para o patrimônio histórico do centro de Limeira 
— SP” na UNESP — Rio Claro. Neste trabalho eu busquei aprofundar a discussão sobre o 
patrimônio cultural material do centro da cidade de Limeira a partir das políticas públicas 
que os protegem e como a população local percebe esses imóveis, propondo estratégias 
de educação e turismo cultural. 

Em 2012 iniciei o curso de Doutorado em Geografia Humana pela Faculdade 
de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP — São Paulo, dando continuidade ao 
estudo do patrimônio cultural material de Limeira, só que englobando todos os imóveis 
tombados pelo Plano Diretor do Município de 2009, localizados na área urbana e rural. A 
tese defendida em outubro de 2016 “Do Rancho do Morro Azul ao município de Limeira 
— SP: uma proposta de Cartografia do Turismo aplicada ao patrimônio cultural material” 
teve como objetivo mapear os imóveis tombados pelo município em mapas temáticos, 
elaborados em software de geoprocessamento. 

Cabe ressaltar que toda a minha trajetória de Pós-Graduação foi trilhada 
paralelamente à sala de aula, ministrando aulas de Geografia para os anos finais do Ensino 
Fundamental, pela rede estadual em Limeira. Assim, o conhecimento adquirido durante 
este tempo de estudo refletiu-se em ações nas minhas aulas de Geografia, através de 
projetos pedagógicos e sequências didáticas elaboradas de acordo com o Currículo Oficial 
e a realidade sociocultural local. 

Durante a pesquisa de Mestrado foram aplicados questionários com a população 
transeunte da área central de Limeira a fim de levantar a percepção sobre a conservação 
do patrimônio histórico local e observou-se que o tema não está sendo debatido de maneira 
aprofundada pelas escolas, meios de comunicação e instituições locais, pois apesar dos 
entrevistados julgarem o assunto como relevante, os mesmos não sabiam explicar do 
que se tratava. Isto demonstra que as políticas públicas de patrimonialização, criadas 
recentemente no Brasil e em Limeira, em particular, precisam investir na conscientização 
da população, para que a mesma participe de forma ativa dos processos de conservação 
dos edifícios históricos. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 8 


A fim de contribuir para a educação patrimonial na cidade de Limeira - SP e fazendo 
uso de minha experiência docente elaborei uma sequência didática que envolve pesquisa, 
trabalho de campo e também o mapeamento desses imóveis, que poderá auxiliar outras 
iniciativas semelhantes. 

O público alvo escolhido para esta sequência didática são as turmas de 6º ano do 
Ensino Fundamental, pois segundo a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) este ano 
da Educação Básica parte do espaço de vivência dos alunos: 


“Para tanto, no 6º ano, propõe-se a retomada da identidade sociocultural, do 
reconhecimento dos lugares de vivência e da necessidade do estudo sobre 
os diferentes e desiguais usos do espaço, para uma tomada de consciência 
sobre a escala da interferência humana no planeta. (...) Trata-se, portanto, de 
compreender o conceito de natureza; as disputas por recursos e territórios 
que expressam conflitos entre os modos de vida das sociedades originárias 
e/ou tradicionais; e o avanço do capital, todos retratados na paisagem local 
e representados em diferentes linguagens, entre elas o mapa temático. O 
entendimento dos conceitos de paisagem e transformação é necessário para 
que os alunos compreendam o processo de evolução dos seres humanos e 
das diversas formas de ocupação espacial em diferentes épocas.” (BNCC, 
2018, p. 381). 


O documento levanta a importância da utilização de diferentes linguagens no estudo 
do espaço geográfico, como o mapa temático. Outro documento norteador para o ensino de 
Geografia na Educação Básica do Estado de São Paulo é o Currículo Paulista, que dentre 
outros aspectos destaca: 


. a linguagem cartográfica tem um papel importante no processo de 
aprendizagem em Geografia, no sentido de contribuir para o desenvolvimento 
de habilidades necessárias para o entendimento das interações, dinâmicas, 
relações e dos fenômenos geográficos em diferentes escalas e para 
a formação da cidadania e da criticidade e autonomia do estudante.” 
(CURRÍCULO PAULISTA, 2019, p. 414). 


A Cartografia Escolar tem sido debatida exaustivamente nas últimas décadas, 
colocando o aluno enquanto sujeito ativo no processo de mapear (reduzir proporcionalmente, 
estabelecer um sistema de signos ordenados, obedecer um sistema de projeções e etc.) a 
fim de que o mesmo se torne um leitor consciente (ALMEIDA E PASSINI, 2002). 

Segundo Castrogiovanni (2000) as crianças precisam aprender a construir mapas 
para que possam fazer uma leitura crítica dos mesmos, transpondo suas informações no 


dia a dia. Para o autor: 
“A percepção espacial de cada sujeito ou sociedade é resultado também 
de relações de afetividade e referência sociocultural. O espaço deve ter 
uma interatividade processual, onde interagem fatores naturais, culturais, 


históricos, sociais, econômicos, políticos, ou seja, a totalidade que é a vida.” 
(2002, p. 80). 


Assim, o presente trabalho faz uso da Cartografia Temática como ferramenta para 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 8 ES 


processos de ensino-aprendizagem em Geografia voltados para a valorização da identidade 
sociocultural dos espaços de vivências de alunos no 6º ano do Ensino Fundamental. 


21 METODOLOGIA 


Segundo Martinelli (2009), a Cartografia Temática surgiu da ramificação das ciências 
no século XIX, atendendo às exigências filosóficas e metodológicas do positivismo. A ela 
coube representar a aparência dos fenômenos através da observação e mensuração 
empírica da realidade e assim contribuir para a descrição, enumeração e classificação dos 
acontecimentos. Já no final do século XIX a Cartografia Temática detinha vários métodos 
de representação dos fenômenos e elementos do espaço geográfico, tornando-se mais 
popularizada através da educação e dos meios de comunicação. 

Os estudos da Geografia Tradicional até meados do século XX, preocupavam-se 
em descrever as características naturais das regiões e como essas determinavam a vida 
social, colocando o homem como mais um elemento da paisagem. O desenvolvimento 
dos sistemas tecnológicos digitais a partir da segunda metade do século XX alterou 
profundamente as relações socioespaciais, que passaram a ser cada vez mais mediadas 
pela técnica. A noção de tempo foi alterada, uma vez que a produção e a comunicação se 
tornaram mais rápidas e precisas e a Cartografia também foi capturada pela “Era Digital” 
através de novas técnicas empregadas na elaboração e disseminação de seus produtos 
com programas e equipamentos computacionais específicos. 

O uso massivo e extenuante dos recursos tecnológicos digitais propiciou uma 
produção científica conhecida como Geografia Quantitativa, presa ainda a antigos métodos 
de pesquisa tradicionais que se limitavam à descrição da realidade vivida e percebida. 
A partir da década de 1970, os estudos geográficos começam a avançar no sentido da 
compreensão do espaço para além das formas e estruturas da paisagem para elucidar os 
processos históricos e sociais que o produzem, marcando o olhar da Geografia Crítica. 

Segundo Martinelli (2005) a finalidade mais marcante dos mapas em toda a sua 
história foi a de estarem sempre vinculados ao poder e à dominação dos povos e territórios, 
demarcando o que era de interesse para uma minoria e esta finalidade foi o que levou ao 
desenvolvimento desta ciência. 

Apartir de 1970, a Cartografia modernizou-se com os avanços da informática podendo 
ir além da localização dos fenômenos para os aspectos estruturais dos padrões e relações 
espaciais. A Cartografia Digital também passou a ser chamada de Geoprocessamento 
e Sistema de Informação Geográfica (SIG). A Cartografia Digital refere-se à tecnologia 
utilizada na elaboração dos mapas em plataformas digitais. O Geoprocessamento 
consiste em técnicas de coleta e tratamento das informações espaciais, bem como no 
desenvolvimento de novos sistemas e aplicações. Já os SIG referem-se aos softwares que 


tratam e manipulam os dados georreferenciados espacialmente. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 8 Bo 


Com a difusão da internet pelo mundo, os usuários se tornaram familiarizados 
com algumas plataformas virtuais utilizados na localização geográfica, como Google 
Maps, Google Earth etc. que permitem até acrescentar informações aos mapas, além 
dos softwares de GPS (Sistema de Posicionamento Global) presentes nos automóveis e 
aparelhos celulares que possuem comando de voz e ditam ao usuário o caminho a ser 
percorrido e eventuais ocorrências no trânsito. 

A apropriação dos conteúdos disponibilizados por estes dispositivos nem sempre 
é acessível para a maioria da população que desconhece os principais elementos 
cartográficos: orientação, escala, projeção, legenda e etc. Assim, a tecnologia facilitou o 
acesso à informação, mas esta requer os conhecimentos básicos para a sua decodificação. 
No entanto, com o desenvolvimento das tecnologias de informação, os mapas estão mais 
disponíveis à população como um todo, evidenciando as contradições socioespaciais e 
podendo servir a movimentos de resistência. 

Os novos aparelhos e aplicativos, disponíveis atualmente, permitem acessar através 
da internet um banco de dados cartográficos em tempo real, que podem ser alimentados 
pelos próprios usuários com novas informações. 

Segundo Martinelli (2005), a Cartografia atualmente vem se tornando cada vez mais 
um SIG, com o apoio dos satélites e computadores que promovem a coleta, armazenamento, 
recuperação, análise e apresentação de informações sobre lugares de forma rápida e 
eficiente, podendo inclusive simular eventos e situações complexas da realidade. 

Para o Professor Martinelli, a representação gráfica do território através dos mapas 
é uma elaboração humana a partir da escolha dos elementos a serem retratados, da 
simbologia, da escala, projeção e etc. e, portanto, é carregada de paradigmas sociais. 
Atualmente, a Cartografia se tornou mais complexa e ao mesmo tempo mais usual, devido 
às inovações tecnológicas na elaboração e difusão dos mapas pelas plataformas digitais. 
No entanto, as bases da comunicação visual na definição dos parâmetros da linguagem 
cartográfica permaneceram. 

Para Martinelli (2005), a Cartografia Temática interessa à Geografia na medida em 
que ela possibilita a análise territorial em diferentes escalas. A elaboração dos mapas faz 
uso de técnicas e conhecimentos, não só científicos como também artísticos, através da 
seleção dos signos com suas formas e cores apropriadas, levando sempre em consideração 
sua legibilidade através da divulgação para o público alvo específico. 

Assim, a Cartografia Temática representa a aparência dos fenômenos através 
da observação e mensuração empírica da realidade, contribuindo para a descrição, 
enumeração e classificação dos acontecimentos. Os mapas não só localizam os objetos, 
mas ajudam a compreender sua forma, função e estrutura no espaço levando em conta os 
agentes produtores e seu contexto histórico. 

Segundo Martinelli (2009), a representação cartográfica dos fenômenos e 
objetos no espaço geográfico pode ocorrer através de relações de diversidade, ordem 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 8 E 


e proporcionalidade. Assim, para comunicar corretamente as informações presentes no 
mapa, o cartógrafo deve estar atento à legibilidade das informações representadas, fazendo 
uso de uma linguagem monossêmica que não produz ambiguidades. Essa linguagem 
deve levar em conta o público alvo a que se destina o mapa, havendo clareza entre os 
atores da comunicação (emissor e o receptor) e devem compreender as relações entre os 
significados dos signos representados. 

O autor afirma que o objetivo da representação gráfica, é transcrever as três 
relações básicas dos elementos e fenômenos da realidade: diversidade (=), ordem (O) e 
proporcionalidade (Q). A diversidade responde à questão “O que?” ilustrando o aspecto 
qualitativo da realidade ilustrada. Já a ordem responde à questão “Em que ordem?” 
demonstrando o aspecto ordenado da realidade considerada. Por fim a proporcionalidade 
responde à questão “Quanto?” mostrando o aspecto quantitativo da realidade representada. 

As relações entre o significado dos signos adotados devem estar explícitas na 
legenda de forma clara e sem ambiguidades. Sendo que a dimensão visual (Z) do plano 
responde à questão “Onde?”, mostrando a organização espacial do atributo ou variável. 

A comunicação visual que os mapas proporcionam está inserida na comunicação 
social e assim é determinada pela cultura e exige uma rápida compreensão dos fenômenos 
a partir da percepção visual. As imagens são elaboradas pelos seres humanos e, portanto, 
são carregadas de juízos de valor, de parcialidades produzidas pela mente que é limitada 
a partir de uma realidade histórica cultural específicas. Assim, os mapas não são neutros, 
eles têm a função de comunicar algumas informações através de sistemas de signos 
facilmente apreendidos entre os sujeitos que os elaboram e os leem. 

A sequência didática proposta neste trabalho foi desenvolvida para alunos do 6º ano 
na disciplina de Geografia e está dividida em quatro etapas: sondagem; pesquisa; trabalho 
de campo; e mapeamento. 

Para a sondagem, a professora levantou os conhecimentos prévios dos alunos 
sobre identidade, história, memória, conservação, bem, herança, posse, cultura e etc. A 
seguir, a professora introduziu o conceito de patrimônio cultural (material, imaterial, móvel 
e imóvel), dando exemplos no Brasil e no mundo, e destacando a importância de sua 
conservação para a sociedade. 

A partir dessas discussões a professora apresentou o mapa do patrimônio cultural 
da região central de Limeira elaborado para sua tese de doutoramento (Figura 1). Nele 
estão 15 imóveis tombados pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico de Limeira 
(CONDEPHALI) no Plano Diretor Territorial-Ambiental de 2009 ou levantados pela 
professora como sendo de interesse histórico e cultural para a cidade, sendo: Estação 
Ferroviária, Palacete Levy, Palacete Tatuiby, Museu Histórico Pedagógico, Praça Toledo de 
Barros (Gruta e Teatro), Prédio da Antiga Cesp, Paço Municipal, Antigo Arquivo Municipal, 
Casa dos Azulejos, Museus da Joia, Espaço Cultural ENGEP, Prédio do Banco do Brasil, 
Cemitério da Saudade, Casarão da Praça Toledo de Barros, e Fachada da antiga Máquinas 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 8 EE 


Paulista. 

A professora indagou os alunos se eles conheciam esses imóveis, se tinham alguma 
memória afetiva ou histórico de uso desses espaços por eles ou pelos familiares e percebeu 
que a maioria dos alunos até conheciam esses espaços, mas não sabiam sua história ou 
que os mesmos eram considerados patrimônio do município e, desta forma, deveriam ser 
conservados. 

As próximas aulas então foram destinadas à pesquisa dos imóveis do patrimônio 
cultural da área central de Limeira. Para tanto, os alunos foram divididos em duplas e cada 
uma ficou responsável por pesquisar um dos imóveis, apresentados pela professora, na 
internet e em livros da Sala de Leitura. Após a realização da pesquisa escrita, na forma de 
relatório, os alunos foram à campo para verificar a situação atual do imóvel pesquisado, 
registrando com fotografias e entrevistas, além de coletarem as coordenadas geográficas 


dos mesmos para o mapeamento em sala de aula. 


PATRIMÔNIO MATERIAL CULTURAL DA ÁREA URBANA DE LIMEIRA - SP 


252000 253000 





cad 








) 
T 
7503000 














gas 
*. 
7503500 








7502000 m N 
P. 
E 
7502000 





ae 





7503000 


Projeção UTM 
Datum: SIRGAS 2000 


Ê Fuso23s 
z Data: 19/02/2018 


* Patrimônio Cultural 
— Ribeirão Tatu 
E | “Quadras — 
252000 ME 253000 CS Centro Histórico 
EM Limite Área Urbana 








7502800 mn 














& ; 














FIGURA 1 - Mapa do Patrimônio Cultural da área urbana de Limeira — SP (MINEO, 2016). 


A maioria das duplas fizeram uso do celular no trabalho de campo como ferramenta 
para fotografar e coletar os pontos dos imóveis através do aplicativo Google Maps, pois 
esse aplicativo fornece navegação por GPS, permitindo inserir marcadores nos pontos de 
interesse, adicionar fotos, criar rotas e compartilhar informações, baixando o mapa off-line, 


se necessário. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 8 EE 


Após os trabalhos de campo, as duplas realizaram mapas temáticos para o 
patrimônio cultural da área central de Limeira em sala de aula, tendo como base os dados 
inseridos no aplicativo Google Maps. Para essa etapa, a professora imprimiu um mapa 
base da região central de Limeira, para cada dupla e a mesma deveria elaborar o seu 
próprio mapa em folha vegetal. 

A professora orientou os alunos sobre as premissas da Cartografia Temática, 
destacando o papel da legibilidade na comunicação das informações definidas pelos grupos. 
Cada mapa elaborado pelas duplas deveria conter o imóvel pesquisado e seu entorno com 
as informações básicas de um mapa (título, escala, legenda, orientação geográfica e fonte). 

Os alunos escolheram juntos os símbolos que iriam representar o patrimônio cultural 
de Limeira pela função que exercem na área central da cidade, como: residência, serviços, 
administrativo e abandono. 

Após o mapeamento, os alunos elaboraram cartazes contendo os mapas temáticos 
confeccionados, as fotos e trechos de relatos orais colhidos durante o trabalho de campo. 
Os cartazes foram apresentados pelas duplas em sala de aula, onde puderam relatar 
as impressões do centro da cidade e do estado de conservação dos imóveis visitados, 
levantando a importância da conservação para a preservação da memória e identidade 
local. 

Ao final, todos os cartazes ficaram expostos em um grande painel na escola, 
formando um grande mosaico do patrimônio cultural de Limeira para a apreciação de todos 
da comunidade escolar. 


31 CONSIDERAÇÕES FINAIS 


A sequência didática proposta neste trabalho tinha por objetivo ampliar o repertório 
cultural e científico dos alunos de 6º ano de Geografia, partindo do espaço de vivência 
(município de Limeira), a partir do conceito de patrimônio cultural, uma vez que os 
alunos, nesta fase da escolarização, já têm domínio sobre o conceito de paisagem e sua 
transformação ao longo do tempo. 

Uma das ferramentas utilizadas por esta sequência didática foi a cartografia temática 
que se demonstrou extremamente eficaz, dentro de um processo investigativo que envolveu 
também pesquisa na unidade escolar e trabalho de campo na região central de Limeira. 

ACartografia é uma ferramenta muito eficiente no processo de ensino-aprendizagem, 
permitindo a mobilização de vários conhecimentos do espaço geográfico, como as 
diferentes formas de ocupação humana ao longo dos anos impressas na paisagem através 
do patrimônio cultural. 

Os alunos demonstraram grande envolvimento com o mapeamento dos imóveis que 
eles pesquisaram e investigaram no campo, demonstrando um domínio maior na leitura de 


mapas diversos após a realização da sequência didática. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 8 EE 


REFERÊNCIAS 


ALMEIDA, R. D. de; PASSINI, E. Y. O espaço geográfico: ensino e representação. 12 ed. São Paulo: 
Contexto, 2002, 90 p. 


BRASIL. Base Nacional Comum Curricular: educação é a base. Brasília: Ministério da Educação, 
2018. 


CASTROGIOVANNI, A. C. (org.). Ensino de Geografia: práticas e textualizações no cotidiano. 2 ed. 
Porto Alegre: Mediação, 2000, 173 p. 


GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Currículo Paulista. São Paulo: Secretaria da Educação do 
Estado de São Paulo, 2019. 


MARTINELLI, M. Mapas da geografia e cartografia temática. 2 ed. São Paulo: Contexto, 2005, 109 
p. 


, M. Os mapas da Geografia. Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo, 
2009. Disponível em: http://docs.fct.unesp.br/docentes/geo/raul/cartografia tematica/leitura%20 
2/1-MAPAS%20DA%20GEOGRAFIA.pdf. Acesso em: novembro de 2019. 





MINEO, M. M. P. O espaço urbano e suas temporalidades: Diagnóstico e propostas de intervenção 
para o patrimônio histórico do centro de Limeira — SP. Dissertação (Mestrado). Instituto de Geociências 
e Ciências Exatas de Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” — UNESP, Rio Claro, 
2009, 184 p. 


; M.M. P. Do Rancho do Morro Azul ao município de Limeira - SP: uma proposta de 
Cartografia do Turismo aplicada ao patrimônio cultural material. Tese (Doutorado). Faculdade de 
Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo — USP, São Paulo, 2016, 166 p. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 8 EEE 


CAPÍTULO 9 


A FORMAÇÃO DE PROFESSORES PARA O 
TRABALHO COM A CARTOGRAFIA ESCOLAR NAS 


Data de aceite: 02/08/2021 
Data de submissão: 02/07/2021 


Adriana Salviato Uller 

Universidade Estadual de Ponta Grossa — UEPG 
Departamento de Geociências — DEGEO/ 
SEXATAS 
http://lattes.cnpqg.br/4126777128989382 


Amanda Weridyana Uller 
Colégio Integração de Ponta Grossa 
http:/llattes.cnpq.br/5396669697189116 


Apresentado no XI Colóquio de Cartografia para 
Crianças e Escolares. Pelotas-RS, 2020. 


RESUMO: Este trabalho disserta sobre 
as experiências enquanto professora da 
universidade e acadêmicos em formação 


docente, vinculadas à Geografia, na disciplinas 
de Tópicos Especiais de Ensino |. O objetivo é 
refletir sobre a contribuição de atividades práticas 
e discussões temáticas a cerca da alfabetização 
cartográfica, tendo como pressuposto a 
importância da construção de conceitos no 
processo de ensino aprendizagem. Tais reflexões 
são embasadas em autores e estudiosos da 
área da cartografia, sobretudo escolar, que 
tem pesquisado sobre o tema e publicado suas 
observações em materiais diversos. Aexperiência 
com diversas metodologias durante o processo 
de formação profissional tem propiciado uma 
ampla compreensão sobre o papel do professor 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 


SÉRIES INICIAIS 


na aprendizagem dos alunos, no sentido de 
identificar possíveis dificuldades no momento 
de aquisição e consolidação das informações, 
tendo como facilitador diferentes recursos 
metodológicos experimentais que permitem 
maior efetividade no trabalho. Estes vão desde 
o pensar sobre o que vem a ser a representação 
gráfica, seus elementos essenciais, até formas 
de trabalho com diferentes faixas etárias e até 
mesmo com alunos portadores de deficiência 
ou pertencentes a grupos culturais distintos. 
Tais resultados positivos tem sido apresentados 
como trabalhos de conclusão de curso e artigos 
científicos, bem como fomentado pesquisas e 
projetos de extensão com alunos da graduação, 
pós-graduação e professores em capacitação 
continuada. 

PALAVRAS-CHAVE: Formação de professores, 
cartografia escolar, teoria/prática, metodologias 
inclusivas. 


TEACHER TRAINING TO WORK WITH 
SCHOOL CARTOGRAPHY IN THE EARLY 
GRADES 


ABSTRACT: This work discusses the experiences 
as a university professor and academics in teacher 
training, linked to Geography, in the disciplines 
of Special Teaching Topics I. The objective is to 
reflect on the contribution of practical activities 
and thematic discussions about cartographic 
lteracy, having as presuppose the importance 
of constructing concepts in the teaching-learning 
process. Such reflections are based on authors 
and scholars in the field of cartography, especially 
in schools, who have researched the topic and 
published their observations in various materials. 


Capítulo 9 


The experience with different methodologies during the professional training process has 
provided a broad understanding of the teacher's role in student learning, in order to identify 
possible difficulties in the acquisition and consolidation of information, having as a facilitator 
different experimental methodological resources that allow greater effectiveness at work. 
These range from thinking about what graphic representation is, its essential elements, to 
ways of working with different age groups and even with students with disabilities or belonging 
to different cultural groups. Such positive results have been presented as course conclusion 
works and scientific articles, as well as fostering research and extension projects with 
undergraduate, graduate and continuing training professors. 

KEYWORDS: Teacher education, schoolcartography, theory/practice, inclusive methodologies. 


INTRODUÇÃO 


Pensar a formação docente é algo de extrema importância em todos os eixos 
científicos e à todo tempo, pois esta está em constante transformação face a sua 
consonância com o mundo real e suas demandas. Neste sentido, o artigo aqui apresentado 
relata nossa experiência não de mãe e filha, mas de professora formadora do curso superior 
e aluna em formação (hoje já formada e profissional na educação básica), bem como da 
experiência de demais colegas acadêmicos, ao longo do tempo em que atuamos na área, 
que já ultrapassou os 20 (vinte) anos de experiência. 

O nosso objetivo é refletir sobre a contribuição de atividades práticas e discussões 
temáticas a cerca da alfabetização cartográfica, tendo como pressuposto a importância da 
construção de conceitos no processo de ensino aprendizagem. 

Para um melhor entendimento abordaremos algumas práticas desenvolvidas 
permeando com considerações de autores na área e à relatos acadêmicos, bem como de 
professores já em formação e que executam em suas práticas, experiências aprendidas 
conosco em sala de aula. 

Durante este vasto período em que atuamos junto à formação de professores, 
passamos por experiências de ensino acadêmico de graduação e pós-graduação, 
coordenação de curso presencial e à distância, coordenação do Programa de Bolsa de 
Iniciação á Docência (PIBID), Programa de Bolsa de Iniciação Científica (PIBIC), Projetos 
de Extensão, Programas de Capacitação Continuada (com vínculo municipal, estadual e 
privado). 

Grande parte destas experiências também foi vivenciada pela acadêmica que 
aqui representa seus colegas, no sentido de vivenciar ao máximo o que a Instituição 
Superior oferece para a formação profissional dos sujeitos. Neste sentido, os relatos 
aqui apresentados, bem como os resultados obtidos são fruto de uma construção do 
pensar a ciência e sua prática no âmbito escolar, num propósito de assumir ao máximo 
o compromisso na formação dos sujeitos através do processo educativo, pensando suas 
necessidades e particularidades. 

Alguns destes relatos serão acompanhados de ilustrações (fotos) das próprias 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 9 


experiências desenvolvidas, para maior compreensão do que está sendo enfatizado. 


DO DESCOBRIR A DEMANDA PELO TRABALHO COM CARTOGRAFIA 
ESCOLAR A FORMAÇÃO DE PROFESSORES 

Desde os trabalhos de Lívia de Oliveira sobre o “Estudo Metodológico e Cognitivo 
do Mapa”, publicado em 1978, fruto de sua tese de livre-docência, profissionais voltados à 
Geografia/Cartografia e seu ensino vem se debruçando sobre a temática e agregando novas 
contribuições sobre diferentes aspectos que esta temática aborda, desde o fato de pensar 
o espaço real, partindo de questões elementares como o conhecimento de lateralidade 
para poder transportar essa ideia espacial de modo cognitivo para um mapa, até o modo 
contrário, sobre os mecanismos complexos ativados no pensamento para permitir a leitura 
e compreensão sobre um mapa ou outra representação gráfica. 

Face à necessidade de uma metodologia de trabalho com o mapa, alavancada por 
esta autora, profissionais como Almeida, Passini, Simielli, Paganelli, Le Sann, Martinelli e 
outros mais, apresentaram propostas de uma espécie de alfabetização cartográfica, no 
sentido de contribuir com a formação de professores, para o trabalho com a cartografia no 
âmbito escolar, sobretudo nas séries iniciais, uma vez que, se não for uma etapa efetiva de 
construção do conhecimento da criança, isso poderá acarretar problemas de compreensão 
nas fases seguintes, quando os conceitos perpassam um caminho mais de abstração. 

Tais trabalhos são por sua vez baseados em estudos também do campo da psicologia, 
como a psicologia genética com seus estágios cognitivos do ser humano, resultante dos 
experimentos de Jean Piaget, e ainda sobre a Gestalt, psicologia da forma, fundada pelos 
alemães Max Wertheimer, Kurt Koffka e W. Kóhler, e que fundamenta a discussão de 
Jacques Bertin no desenvolvimento de seus estudos sobre Cartografia Temática. 

Em nossos trabalhos mais constantes, que estão focados ao curso de licenciatura em 
Geografiatrabalhamos com enfoque sobre os seguintes objetivos: conhecer as concepções 
teóricas e metodológicas que tratam a respeito da cartografia escolar, compreender as 
possibilidades de se trabalhar com a cartografia desde a infância e mesmo com alunos 
especiais (exemplo da cartografia tátil para deficientes visuais), analisar a importância 
da maquete na representação espacial e na construção de conceitos cartográficos como: 
a passagem da representação tridimensional (maquete) para a bidimensional (mapa), a 
definição da orientação, legenda e escala. 

Entre os autores que abordam a metodologia de educação cartográfica enquanto 
processo de alfabetização destacamos Simielli (1996) com o esquema que segue 
sintetizando esta proposta. Para a autora, falar em alfabetização cartográfica consiste em 
trabalhar com as seguintes noções, descritas no quadro que segue (por nós adaptado): 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 9 ES 





Quadro 1: Síntese esquemática do processo de aprendizagem dos conceitos cartográficos essenciais. 
Fonte: SIMIELLI, 1996 adaptado por ULLER & ULLER 2020. 


Com base nestes elementos observamos que a maquete é um importante recurso 
para a construção e compreensão destes conceitos uma vez que a partir dela é possível 
realizar intervenções dialógicas e questionadoras junto aos alunos, para se formalizar o 
ensino e aprendizagem de modo efetivo. 

Em nossas experiências solicitamos aos alunos para que em grupo construam uma 
maquete sobre uma espacialidade do lugar em que vivemos (TUAN,1983). Isso se torna 
interessante, pelo fato que os alunos podem utilizar de alguns recursos tecnológicos, como 
fotografias obtidas na internet, para observarem os elementos que irão representar, embora 
explicado aos mesmos que em suas práticas podem fazer isso a partir de uma visita de 
campo, ou até se baseando num espaço imaginário ou a partir de um esboço de mapa 
mental. 

Neste segundo aspecto, o uso de mapa mental, sobretudo sobre o lugar de vivência, 
é possível ainda subtrair uma série de outros aspectos contributivos com o ensino da 
Geografia e a leitura/compreensão que a criança faz do espaço real, suas dificuldades, 
experiências, frustrações, desafios e perspectivas, conforme afirma Kozel (2018). 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 9 [90 





Fotos 1 à 4: Atividades ministrada em Sala de Aula UEPG. Curso de Licenciatura em Geografia 


Após realizada a construção da maquete, com todos os seus detalhes, a mesma é 
utilizada enquanto recurso para o mapeamento da respectiva espacialidade e assim fazer 
a passagem do concreto ao abstrato. 

Primeiramente se solicita que fotografem a maquete sobre diferentes ângulos de 
visão: vertical, horizontal e oblíqua. Então se explica que o mapeamento parte de uma 
visão na vertical, logo, é nesta que irão focar. 

Neste momento é oportuno mostrar como misturamos isso em nosso processo 
habitual de representação, por exemplo do caminho de casa à escola geralmente fazemos 
a representação das casas como se estivéssemos vendo-as no ângulo horizontal, ou 
seja, frontal, enquanto em um mapa, sendo que parte de uma visualização vertical, a 
representação se torna diferente. 

Outro aspecto importante a explicar é que em um mapa não conseguimos representar 
os detalhes, até pelo fato da grande variedade de aspectos, como pela necessidade de 
muita redução, logo faz-se uma adequação simbólica, podendo partir de formas geométricas 
associativas na legenda, e que nos mapas oficiais essa simbologia segue um padrão das 
convenções cartográficas internacionais. 


Dadas as explicações sobre estes aspectos é possível passar para uma outra 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 9 FE 


abordagem conceitual que é a compreensão da escala: como trata-se da proporção 
matemática entre o tamanho do espaço real e o que é representado em um mapa, sugere- 
se pedir aos alunos que façam a medição da maquete com um barbante, e o dobrem até 
ficar ao tamanho do papel em que irão mapear, após corte as pontas e conta-se quantas 
partes formaram. Explica-se que este é o denominador da escala, e corresponde à quantas 
vezes o espaço da maquete será reduzido. Após transfere-se os elementos representados, 
fazendo sempre a transferência de tamanho, reduzindo-o tantas vezes quanto foram 
definidas. 

Salientar que não se pode esquecer-se de apresentar no mapa o título referente a 
espacialidade representada, a escala, a legenda e a orientação (sendo esta última tomando- 
se por referência a rosa dos ventos e a identificação pela bússola, ou pela observação 
generalizada a partir do posicionamento do sol). 

Após trabalhados os conceitos elementares da Cartografia é possível ir além, para 
compreensões de elementos mais complexos, como a representação do relevo e as cores 
hipsométricas. Novamente a maquete auxilia muito neste processo, mas dessa vez ela 
construída a partir de mapas de relevo e posteriormente a partir de cartas de curvas de 
nível, o que exige um conhecimento mais avançado, ou seja, é uma atividade para ser 
aplicada nas séries do Ensino Fundamental Il e Ensino Médio. 

Na sequência apresentamos a ilustração de atividades dessa natureza, envolvendo 
a cartografia voltada especificamente para a representação das altitudes. Tais experiências 
foram feitas em materiais diferentes, porém com o mesmo enfoque. 


LEGENDAS 
Posoemo 

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do po uciãs fimo 


7 Map Nimiba do Be 





Fotos 5 e 6 : Atividades de maquete e mapas relevo, ministradas em Sala de Aula UEPG. Curso de 
Licenciatura em Geografia. 


A primeira foto foi feita em material chamado EVA, utilizando como base o mapa 
de relevo do Brasil. Para isso foram compradas placas nas cores específicas para 
demonstração de hipsometria. Fora explicado que no verde eles deveriam traçar todo 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 9 E 


o contorno do território do Brasil, depois o amarelo somente a área correspondente, e 
assim sucessivamente com as demais cores. Com o mesmo papel seda, deveriam marcar 
a localização das placas coloridas, obedecendo a ordem. Após o material estar pronto, 
demonstrar que, ainda que não correspondendo à uma proporção altimétrica, todos podem 
observar que o verde representa as áreas mais baixas. Na sequência vem o amarelo, 
laranja, marrom e preto (isso porque utilizamos apenas essa distribuição de intervalos 
altimétricos). 

Na segunda experiência foi utilizado o isopor, que permite uma maior elevação. 
O processo de construção é o mesmo, ou seja, retira-se a delimitação de cada altitude, 
transfere a mesma para a placa de isopor que é cortada com material próprio (aquecido), e 
colada após demarcação da localização da altitude. Se a turma apresentar um conhecimento 
mais aprofundado poderá ser utilizadas placas com espessuras correspondentes à escala 
altimétrica. É importante destacar para os alunos que estas passagens de uma altitude para 
outra não se dá de forma abrupta, para melhor compreender vale transformar o material na 
maquete, fazendo a passagem entre uma placa e outra com massa acrílica, ou outra massa 
que permita modelagem. 


“ 


3 


RA 


E 


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e 


“. 
. 





Foto 7. Atividade elaborada a partir de carta com curvas de nível. 
É importante observar que estes modelos de mapas 3D contribuem sobretudo para 


o trabalho com deficientes visuais, pois permite o manuseio tátil, recurso este adotado 
nestas especificidades em diferentes temáticas. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 9 HER 





Foto 7. Fotos 8 e 9: Atividades desenvolvidas em sala de aula sobre mapa tátil. 


Curso de Licenciatura em Geografia UEPG. 


Com base nas pesquisas e trabalhos de outra geógrafa, Regina Araújo de Almeida 
(1993), dedicamos um momento especial da formação docente sobre a Cartografia Escolar, 
focado sobretudo na Cartografia Tátil, buscando capacitá-los a pensar nas situações de 
inclusão e necessidades de adaptação dos recursos didáticos para atender à todos. Neste 
contexto já estivemos orientando, apresentando e publicando trabalhos especificamente 


sobre esta questão. 





Foto 10: Cartografia Tátil. Fonte: MICENE & ULLER. Mapas táteis e material dourado para 
aprendizagem e compreensão do espaço geográfico municipal e escalas: uma abordagem para alunos 
com deficiência visual.. UNINGA REVIEW, v. 33, p. 01-15, 2018. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 9 EE 


Finalizando nossa apresentação aqui neste espaço de diálogo, gostaríamos de 
relatar um outro trabalho prático no âmbito da Cartografia Escolar, que é com o uso de 
tecnologias via internet, explicitando os dispositivos existentes, como acessá-los, o que 
eles propiciam de recursos e o modo de operá-lo para uso prático no dia-a-dia. 





Foto 10 : Atividade ministrada no Laboratório - Sala de Aula UEPG. 


Curso de Licenciatura em Geografia. 


Dispositivos como Google Earth, Street View, Google Maps são alguns dos mais 
acessíveis para o universo escolar, por não demandar de equipamentos com muitos 
recursos de memória, instalação de software, etc. Por este motivo, no âmbito da cartografia 
escolar buscamos levar metodologias diversas porém aplicáveis à diferentes realidades 
educacionais. 

Com tais dispositivos é possível realizar práticas cartográficas já em um nível 
mais científico, trabalhando com conceitos importantes de representação gráfica, como 
a compreensão dos signos e emprego de variáveis visuais. Porém antes dessa etapa é 
imprescindível que os alunos dominem as etapas prévias de construção do conhecimento, 
referentes ao que chamam de alfabetização cartográfica. Tais encaminhamentos são 
bastante enfatizados na formação acadêmica dos futuros docentes, para que executem 
posteriormente uma prática profissional preocupada sobretudo com a plena aprendizagem 
dos alunos enquanto contribuição sobretudo para a vida prática. 


RESULTADOS E CONSIDERAÇÕES FINAIS JAMAIS CONCLUSIVAS 


Em toda a nossa trajetória docente e estudantil tivemos como preocupação primordial 
a compreensão efetiva sobre o que está sendo trabalhado. Neste sentido é muito importante 
compreender que enquanto seres humanos possuímos habilidades diferenciadas, que 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 9 [ES 


alguns autores chamam de Inteligências Múltiplas. Desse modo, precisamos buscar 
diferentes caminhos para construir, consolidar e transformar o conhecimento. 

Também refletimos sobre a complexidade das dinâmicas no meio educacional 
oriundas das transformações sociais no mundo, pois estas afetam sobremaneira o pensar 
dos sujeitos, os modos de aquisição das informações e as demandas da vida prática. Isso 
recai na escola de modo que o profissional docente precisa estar em constante atualização, 
não mais da ciência apenas, mas também da evolução sobre o pensar, das pesquisas e 
descobertas diante dos desafios de aprendizagem, e sobre as potencialidades de recursos 
que vão sendo socializados e aprimorados pelos estudiosos a fim de facilitar a qualidade 
do resultado laboral dos docentes. 

A cartografia é, antes de mais nada, um meio de comunicação de modo 
representativo, onde por meio de signos os sujeitos buscam saber como se deslocar, a 
dinâmica de fatos e fenômenos, a organização espacial de fatores diversos. Logo, não 
é simplesmente um conteúdo a ser aprendido na escola para cumprir tabela, mas um 
instrumental de localização e acesso à informação sobre a vida cotidiana, bem como de 
gerenciamento de uma infinidade de coisas no mundo profissional. 

É importante destacar que em nosso relato pudemos descrever sucintamente 
algumas de nossas experiências apenas, mas enfatizamos que todas as temáticas 
abordadas sobre a Cartografia Escolar tem o trabalho com a parte teórica e também 
prática, para se aprender a como fazer em sala de aula. Salienta-se que o feedback dos 
alunos é sempre muito positivo e enriquecedor para todos nesta disciplina que aparece no 
primeiro ano do curso de licenciatura em Geografia, sendo que neste mesmo ano os alunos 
estudam cartografia geral e no ano seguinte cartografia temática. Tais anos são também 
os momentos em que acadêmicos tem a oportunidade de participar do Programa de Bolsa 
de Iniciação à Docência, colocando até em prática, quando possível estas ações junto às 
escolas. 

Tais experiências são sempre rememoradas nos encontros com os ex-alunos e nos 
eventos diversos da área, onde os mesmos solicitam novas oportunizações para os colegas 
que muitas vezes não vivenciaram esta mesma oportunidade de formação. Isso nos move 
a continuarmos mergulhados nesta preocupação com a formação e prática docente e sua 
consequente repercussão sobre o aprendizado escolar dos alunos da educação básica. 


REFERÊNCIAS 


ALMEIDA, Regina Araújo de. A Cartografia Tátil e o deficiente Visual: Uma avaliação das etapas de 
produção e uso do mapa. In: Tese de Doutorado. São Paulo: USP, 1998. 


ALMEIDA, Rosangela Doin (Org.). Cartografia Escolar. São Paulo: Contexto, 2007. 


. Do Desenho ao Mapa: iniciação cartográfica na escola. São Paulo: 





Contexto, 2011. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 9 EEE 


. Novos Rumos da Cartografia Escolar: currículo, linguagem e 
tecnologia. São Paulo: Contexto, 2011. 





BRANDÃO, Heliana; FROESELER, Maria das Graças V. G. O livro dos jogos e das brincadeiras. Belo 
Horizonte: Leitura, 1997. 


CALLAI, Helena Copetti. Educação Geográfica — Reflexão e Prática. Ijuí: Ed. Unijuí, 2011. 
CASTELLAR, Sônia & VILHENA, Jerusa. Ensino de Geografia. São Paulo: Cengage Learning, 2010. 


CASTROGIOVANNI, Antonio C.; CALLAI, Helena C.; SCHÃFFER, Neiva O.; KAERCHER, Nestor A.; 
Geografia em sala de aula: práticas e reflexões. Porto Alegre: Editora Universidade UFRGS, 2001. 


KOZEL, Salete (Org.). Mapas Mentais: Dialogismo e Representações. Curitiba: Appris, 2018. 


MORIN. Edgar. Os Sete Saberes necessários à Educação do Futuro. São Paulo : Cortez e Brasília, DF: 
UNESCO, 2000. 


PONTUSKA, Nídia N.; PAGANELLI; Tomoko |.; CACETE, Núria H. Para Ensinar e Aprender Geografia. 
São Paulo: Cortez, 2009. 


SIMIELLI, Maria Helena. Cartografia e Ensino. Tese de Livre Docência. São Paulo: USP, 1996. 
. Coleção Primeiros Mapas. Como entender e Construir. São Paulo: Ed. Ática, 2004. 
TUAN, Yi-Fu. Espaço e Lugar. São Paulo: Difel, 1983. 


ULLER, Adriana Salviato. A Educação Cartográfica na Geografia do Ensino Fundamental. In: Múltiplas 
Geografias: Ensino — Pesquisa — Reflexão . Londrina-PR: Edições Humanidades, 2005. 


MICENE, F.; ULLER, A. S.; MICENE, K. T. . Mapas táteis e material dourado para aprendizagem e 
compreensão do espaço geográfico municipal e escalas: uma abordagem para alunos com deficiência 
visual.. UNINGA REVIEW, v. 33, p. 01-15, 2018. 


ZÓBOLLI, Graziella — Práticas de Ensino: Subsídios para a atividade docente. São Paulo, Ed. Ática, 
1996. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 9 


CAPÍTULO 10 


A UTILIZAÇÃO DO PROCESSO DE GEOCODING E 
SOFTWARES LIVRES PARA GESTÃO DE DADOS 
GEOESPACIAIS DA COVID-19 EM BELÉM-PA 


Data de aceite: 02/08/2021 


Arthur José da Silva Rocha 
Universidade Federal Rural da Amazônia 
Departamento do Instituto Ciberespacial - 

ICIBE 


Erick Peuriclepes Rodrigues da Silva 
Universidade Federal Rural da Amazônia 
Departamento do Instituto Ciberespacial - 

ICIBE 


Marcos Gabriel Silva e Silva 
Universidade Federal Rural da Amazônia 
Departamento do Instituto Ciberespacial — 
ICIBE 


Mozart dos Santos Silva 

Universidade Federal Rural da Amazônia 
Departamento do Instituto Ciberespacial - 
ICIBE 


João Matheus dos Santos Leal 
Universidade Federal Rural da Amazônia 
Departamento do Instituto Ciberespacial - 

ICIBE 


Andrea Alves Valente 

Universidade Federal Rural da Amazônia 
Departamento do Instituto Ciberespacial - 
ICIBE 


Adler Henrique Rodrigues Alves 
Universidade Federal Rural da Amazônia 
Programa de Pós-Graduação em Aquicultura e 
Recursos Aquáticos Tropicais 


RESUMO: Dada a atual situação de Pandemia do 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 


novo Coronavírus, declarada pela Organização 
Mundial de Saúde - OMS, ferramentas que 
colaborem com a gestão de dados da COVID-19 
tornam-se cada vez mais necessárias ao redor 
do mundo. O presente artigo tem como objetivo 
principal apontar ferramentas eficientes e de baixo 
custo para o gerenciamento e espacialização de 
dados da COVID-19 e tendo em vista os desafios 
que se encontram na obtenção dos mesmos via 
órgãos responsáveis, onde geralmente não são 
disponibilizados com suas coordenadas, objetiva- 
se por meio do processo de Geocodificação 
obter estas coordenadas para a elaboração 
de uma gama de produtos cartográficos maior, 
foram utilizadas as ferramentas Google Forms, 
Google Planilhas, Plugin de Geocodificação, 
Google Earth PRO e QGIS 3.10.8. Os resultados 
obtidos foram produtos cartográficos como 
mapas de densidade de Kernel que mostram que 
87,7% dos entrevistados não fizeram teste para 
a COVID-19, 61,7% apresentaram os sintomas, 
e apenas 12,3% das pessoas realizaram o teste. 
PALAVRAS-CHAVE: Geoprocessamento; QGIS; 
Formulários 


ABSTRACT: Given the current Pandemic 
situation of the new Coronavirus, declared by 
the World Health Organization - WHO, tools 
that collaborate with the data management of 
COVID-19 are increasingly required around 
the world. The main objective of this article is 
to point out efficient and low-cost tools for the 
management and spatialization of COVID-19 data 
and in view of the challenges that are obtained in 
obtaining them via responsible bodies, they are 
generally not available with their coordinates, the 


Capítulo 10 FER 


purpose of the geocoding process is to obtain these coordinates for the preparation of a 
wider range of cartographic products, using Google Forms, Google Spreadsheets, Geocoding 
Plugin, Google Earth PRO and QGIS 3.10.8. The results obtained were cartographic products 
such as Kernel density maps that show that 87.7% of the interviewees did not take a test for 
COVID-19, 61.7% summarized the symptoms, and only 12.3% of the people took the test. 
KEYWORDS: Geoprocessing; QGIS; Forms. 


11 INTRODUÇÃO 


Os primeiros casos da doença causada pelo vírus SARS-CoV-2, denominada 
COVID-19, foram registrados em dezembro de 2019 na cidade de Wuhan, República 
Popular da China. De acordo com Pan et al. (2020), os infectados pela doença apresentam 
problemas respiratórios e digestivos, a doença é altamente contagiosa, pois o agente 
infeccioso é transmitido por meio de gotículas de saliva com carga viral, a partir de tosses 
ou espirros de infectados. 

Diante da facilidade de propagação do vírus, há possibilidade de a doença promover 
um colapso no sistema de saúde em inúmeros países, visto que a quantidade de infectados 
poderá ser superior ao de leitos em hospitais. Em janeiro de 2020, a COVID-19 foi 
declarada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma emergência de relevância 
internacional, e somente em março foi declarada como pandemia, tendo 118 mil casos e 
mais de 4 mil mortes confirmados pela OMS. 

O mundo globalizado, no qual há infraestrutura aérea internacional, permite que 
haja um constante fluxo de pessoas e mercadorias entre países, segundo Campos e 
Canavezes (2007), as trocas econômicas e relações diplomáticas a grande distância são 
facilitadas por meio da evolução das tecnologias de transporte. Todavia, tal dinâmica de 
integração internacional tornou-se nociva à saúde humana, uma vez que foi fundamental 
para a propagação do Coronavírus. 

No Brasil, os primeiros focos de contágio de COVID — 19 foram em cidades com alta 
relevância na economia global, tais como: São Paulo - SP e Rio de Janeiro - RJ. Entretanto, 
o Governo Federal tardou a tomar atitudes para reduzir a proliferação da doença, tais como 
isolar suspeitos infectados, cancelar viagens internacionais e preparar leitos em hospitais. 
Devido à falta de estudos científicos, o senso comum inferia que o vírus tardaria a afetar 
estados mais distantes como os da região Norte, todavia, de acordo com os dados do 
Ministério da Saúde, em março de 2020 o Coronavírus já havia atingido pelo menos 8 
estados. 

Em 18 de março de 2020 o estado do Pará confirmava o primeiro caso de pessoa 
infectada pelo novo Coronavírus, diante disso, o Governo Estadual adotou medidas de 
isolamento social, tais como: utilização obrigatória de máscaras e paralisação do período 
letivo nas escolas. Em maio, o decreto estadual Nº 729 entrou em vigor; de acordo com o 
documento, foi instituído o Lockdown, uma medida que restringia a circulação de pessoas e o 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 10 ES 


funcionamento de serviços não essenciais, objetivando reduzir a velocidade de propagação 
da doença, o decreto é válido para a Região Metropolitana de Belém (RMB), os municípios 
de Breves, Vigia e Santo Antônio do Tauá. De acordo com estimativas do Instituto Brasileiro 
de Geografia e Estatística - IBGE (2019), há um total de 2.505.242 habitantes na RMB. 

Belém, a capital do estado do Pará, teve seu primeiro caso de óbito por Coronavírus 
confirmado no dia 5 de Abril de 2020 pela Secretaria de Saúde do Estado do Pará — 
SESPA. Tendo em volta uma Região Metropolitana, todos os dias há intenso movimento de 
pessoas de municípios vizinhos para Belém em movimento pendular, o transporte público 
efetuado majoritariamente por ônibus, tornou-se uma preocupação maior ainda como 
possível fonte de contágio do vírus, a situação, a partir deste momento, exigiu que o poder 
público tomasse medidas mais fortes em relação ao combate da pandemia, como decretos 
municipais e estaduais com medidas sanitárias e de saúde. Ao analisar espacialmente a 
distribuição dos locais que apresentam risco de contaminação, estar-se-á utilizando da 
geografia para benefício da saúde humana e planejamento de contenção da doença. De 
acordo com Carvalho, Pina e Santos (2000), tal análise é fundamental para ratificar zonas 
de risco e planejar possíveis medidas de prevenção e controle de doenças. Tais ações 
poderiam ser viabilizadas por meio de projetos que utilizam softwares de banco de dados 
de informações espaciais, denominados de Sistemas de Informações Geográficas (SIG), 
objetivando produzir mapas e dados estatísticos. 

Sendo assim, este trabalho tem como objetivo mostrar ferramentas eficientes e de 
baixo custo para a gestão de dados da COVID-19 em Belém — PA, para a elaboração de 
produtos cartográficos de maior precisão e que fujam dos mapas Coropléticos gerados 
a partir de tabelas disponibilizadas por órgãos de saúde, necessita-se de dados que 
contenham pontos com coordenadas geográficas e para a obtenção destes dados foi 
utilizado o aplicativo Google Formulários, gratuito e que permite a aplicação remota de 
formulários, importante neste momento de pandemia, devido ao distanciamento social 
e medidas sanitárias, e para a obtenção de coordenadas utilizou-se o plugin chamado 
Geocode By Awesome Tables no aplicativo Google Planilhas e isto possibilitou a aquisição 
de dados geoespaciais que permitem a elaboração de produtos cartográficos de alta 
qualidade e possibilidade de ampla variedade dos mesmos. 


21 MATERIAIS E MÉTODOS 


2.1 Área de estudo 


Devido ao volume de dados obtidos nos formulários aplicados na metodologia deste 
trabalho, foram coletados resultados em número suficiente para a elaboração de produtos 
cartográficos indicando densidade apenas no município de Belém — PA. Entretanto, se 
deu mais atenção à região central de Belém, pois alguns bairros não foram citados nas 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 10 (100 


respostas do formulário aplicado. Dessa forma, a área de estudo ficou situada entre os 52 
bairros da cidade, destes 43 bairros foram comtemplados no com respostas no formulário 
e 9 não foram citados representados na Figura 1. 

O município de Belém possui uma população total estimada de 1.492.745 habitantes 
no ano de 2019, possuindo área total de 1.059,466 km?, Produto Interno Bruto (PIB) per 
capita em 2017 de R$ 20.821,46 e Índice de Desenvolvimento Humano Municipal — IDHM 
que em 2010 era de 0,746, sendo esses dados fornecidos pelo IBGE. As coordenadas 
centrais do município são 782676,006 e 9862728,254 em Longitude e Latitude no Sistema 
de Projeção Universal Transversa de Mercator - UTM, no datum SIRGAS 2000, zona 228, 
calculadas pelos autores no software QGIS 3.10.8 através de Shapefile fornecido pelo IBGE. 


771400 781550 791700 801850 812000 
+ - - 





A 


Coordenadas: UTM 
Datum: Sirgas 2000 
Zona: 22S 
Base Cartográfica: IBGE 
Escala: 1/295000 
02 4 6 8km Data: Julho de 2020 
Elaboração: Autores 








+ - 





Bairros de Estudo 14 - Sacramenta 28 - Cremação 42 - Fátima 

- Cidade Velha 15 - Marambaia 29 - Águas Negras 43 - Umarizal 

16 - Guanabara 30 - Agua Boa 44 - Ponta Grossa 

17 - Campina 31 - Nazaré 45 - Coqueiro 

18 - Souza 32 - Marco 46 - Paracuri 

19 - Cabanagem 33 - Tapanã 47 - Bengui 

20 - Tenoné 34 - São Brás 48 - Reduto 

21 - São Clemente 35 - Jurunas 49 - São João do Outeiro 
22 - Montese 36 - Maracangalha 50 - Castanheira 

- Mangueirão 23- Universitário 37 - Itaiteua j 51- Brasília l 

10 - Guamá 24 - Telégrafo 38 - Val-de-Cães 52 - Curió Utinga 

11 - Canudos 25 - Parque Guajará 39 - Pedreira [9 Limites de Belém 
12 - Batista Campos 26 - Condor 40 - Miramar Municípios Vizinhos 
13 - Agulha 27 - Maracacuera 41 - Aurá 


- Una 

- Campina de Icoaraci 
- Barreiro 

- Cruzeiro 

- Parque Verde 

- Aguas Lindas 

- Pratinha 


DONA wNmNH 











Figura 1 - Mapa de localização da área de estudo. 


Fonte: Autores (2020). 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 10 ao 


2.2 Aquisição dos dados 


Para a realização desse trabalho foi proposta uma sequência metodológica na qual 
foram usados os seguintes softwares e aplicativos: Google Formulários, Google Planilhas, 
Plugin de Geocodificação, Google Documentos, Google Earth PRO e QGIS 3.10.8. 

A SESPA disponibiliza uma plataforma para o monitoramento e difusão de 
informações sobre a progressão da COVID-19 no Estado do Pará (https://www.covid-19. 
pa.gov.br/). No site são divulgados boletins, os quais informam a idade, sexo e município de 
cada infectado pelo vírus, os dados são atualizados constantemente e alimentam um banco 
de dados, onde são gerados produtos cartográficos e mapas por meio das estatísticas 
coletadas. Para Belém, os dados são tabulados por bairros, logo, tais informações permitem 
a produção de análises mais apuradas. 

Por meio do aplicativo Google Formulários, o qual permite a criação de formulário 
de perguntas para pesquisa online e fornece várias maneiras de gerenciar uma pesquisa, 
foi aplicado um formulário online com o objetivo de gerar os dados necessários para esse 
trabalho. O autor do formulário necessita de uma conta no serviço e-mail do Google, o 
Gmail, para que seja possível criar o formulário e gerenciar as perguntas e respostas, e 
os usuários podem responder de forma rápida e prática onde quer que estejam, sendo 
necessário apenas que tenham acesso ao link do formulário online. 

Dessa forma, foi aplicado um formulário online que ficou ativo durante o período 
de 22/06/2020 a 04/07/2020, sendo obtidas 262 respostas no total, e 200 respostas no 
munícipio de Belém que foram utilizadas para a confecção dos produtos cartográficos. A 
partir das respostas obtidas, foi possível analisar os dados em forma de tabelas e gráficos, 
gerados automaticamente pelo Google Formulários. Durante o período de aplicação do 
formulário, as respostas foram sendo atualizadas pelo aplicativo em tempo real, a medida 
em que mais pessoas responderam a pesquisa. Após o período de coleta das respostas, 
pôde-se fazer o download dos dados de tabela em formato Comma-separated values (.csv), 
para que fosse possível analisar os dados quantitativos gerados pela pesquisa. 

Os dados vetoriais de referência, em formato ShapeFile (.shp), foram obtidos no 
site de bases e referências cartográficas do IBGE (https://mapas.ibge.gov.br/bases-e- 
referenciais/bases-cartograficas.html). A plataforma disponibiliza o arquivo georreferenciado 
de setores censitários de todo o Brasil para o ano de 2010, o qual pôde ser filtrado por meio 
de um software de SIG para gerar os bairros presentes no município de Belém - PA. 


2.3 Programas e processamento 


Para processamento de dados foram utilizadas plataformas online, Google Planilhas 
e LibreOffice Calc para a edição e formatação de planilhas de dados, o plugin Geocode 
by Awesome Tables para a obtenção de coordenadas a partir dos endereços obtidos nos 
formulários aplicados e para a elaboração de produtos cartográficos foi utilizado o software 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 10 ER 


QGIS que permite também a elaboração de Sistemas de Informações Geográficas e o 
geoprocessamento dos dados. 

Uma das principais etapas do processamento é a organização dos dados de 
respostas do formulário aplicado via Google Formulários baixados em formato .csv. A 
tabulação desses dados no arquivo baixado foi feita em campos separados para todas 
as respostas. Além disso, para obter as coordenadas geográficas de cada formulário 
respondido, foi utilizado um processo chamado Geocodificação (geocoding). Antes de 
realizar esse processo, é necessário unir os campos de endereço em um único campo de 
endereço na tabela de dados, sendo estes campos: cidade, bairro (com complemento, se 
necessário), nome da rua e número da casa. 

Com base na API (Application Programming Interface) do Google Maps, que é 
gratuita para uso não comercial, é possível obter coordenadas de pontos de interesse por 
meio de geocodificação. A geocodificação é o processo de georreferenciar um ponto de 
interesse através de um endereço, tendo como resultado as coordenadas referentes ao 
respectivo endereço (SOUTO, 2012). Existem várias formas de realizar esse processo, 
sendo uma delas o uso do plugin Geocode by Awesome Tables. 

Sendo assim, para realizar o processo de Geocodificação foi usado o plugin para o 
Google Planilhas (onde foram organizados os dados após o período de coleta) cnamado 
Geocode by Awesome Tables. Por meio das informações de endereço, mencionadas 
anteriormente, o plugin utiliza uma API para recuperar dados dos servidores do Google 
Maps e retorna as coordenadas geográficas do local informado referenciadas pelo Datum 
WGS-84 (posteriormente, no QGIS, os dados foram convertidos para SIRGAS 2000). 
Essas coordenadas foram dispostas em duas novas colunas (Latitude e Longitude) na 
planilha automaticamente. Após isso, foi possível baixar a planilha em formato .csv, agora 
contendo as coordenadas de cada resposta. 

Com os dados geográficos obtidos por meio da planilha em .csv, pôde-se carregar 
os pontos no software QGIS versão 3.10.8 LTR “A Corufa”. Por meio da ferramenta 
de inserção de pontos por texto delimitado, foram gerados os pontos, de acordo com 
as colunas de latitude e longitude da planilha. O QGIS é um software de Sistemas de 
Informações Geográficas (SIG) de código aberto e gratuito, licenciado sob a General Public 
License (GNU). É um projeto oficial da Open Source Geospatial Foundation (OSGeo), e 
roda em vários sistemas operacionais, como sistemas Linux, Unix, Mac OSX, Windows e 
até Android, segundo o site oficial www.qgis.org. 

Os mapas de Kernel, também conhecidos como mapas de densidade, são bastante 
usados em situações em que é necessário analisar fenômenos pontuais. A densidade de 
Kernel tem por objetivo representar a densidade pontual a partir do padrão de distribuição 
dos pontos pela área de estudo (BERGAMASCHI, 2010). Além disso, de acordo com Rizzatti 
et al. (2020), o estimador de Kernel pode ser uma ótima ferramenta para o mapeamento dos 
casos de COVID-19 nas cidades, identificando áreas de concentração dos casos, podendo, 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 10 03 


dessa forma, ser usado como apoio aos órgãos de saúde. 

Nesse sentido, foi realizado o processo de Estimativa de densidade Kernel dos 
pontos obtidos, por meio de algoritmo nativo do QGIS 3.10.8. Foi possível gerar mapas de 
densidade de acordo com duas respostas do formulário aplicado: a densidade de pessoas 
que apresentaram sintomas de COVID — 19 e pessoas que não fizeram nenhum teste. 
Foi utilizado um raio de 500 metros para essas estimativas, e caso fosse obtido maior 
quantidade de respostas, seria possível aumentar esse valor de raio de acordo com a 
necessidade. 

Além dos mapas de Kernel, pôde-se gerar um mapa coroplético dos casos 
confirmados da COVID-19 nos bairros de Belém, com dados fornecidos pela SESPA no 
site de monitoramento da doença. O mapa coroplético usa um método quantitativo de 
representação em área, que pode ser usado para representar a distribuição espacial de 
diversos fenômenos, estabelecendo uma ordem crescente dos valores relativos que será 
associada diretamente a intensidade usada na paleta de cores do mapa, indo de tons mais 
claros até tons mais escuros (MARTINELLI, 2011). 

Além disso, foi realizada uma coleta de dados pontuais relacionados a Hospitais e 
Unidades de Pronto Atendimento — UPA, bancos da Caixa Econômica e Supermercados de 
Belém. Para isso, foi utilizado o programa Google Earth Pro para a análise e coleta dessas 
coordenadas. Os pontos foram salvos no formato Keyhole Markup Language (.km!), o qual é 
o formato de arquivos padrão utilizado no software, e, posteriormente, importados ao QGIS 
3.10.8 e salvos no formato .shp. A partir desses pontos, foi possível elaborar um mapa que 
mostra a distribuição dos pontos de serviços essenciais mencionados anteriormente, com 
o objetivo de relaciona-lo com os outros mapas obtidos por meio da pesquisa. 


31 RESULTADOS E DISCUSSÃO 


Como resultado, obtiveram-se quatro mapas, sendo a Figura 2 um mapa coroplético, 
produzido por meio dos dados disponibilizados pela SESPA, as Figuras 3 e 5 são mapas 
de densidade (Kernel) produzidos a partir dos dados coletados no questionário e a Figura 
4 um mapa contendo a distribuição de pontos de serviços essenciais coletados via Google 
Earth Pro. 

De acordo com a Figura 2, é possível inferir que os bairros que possuem maior 
incidência de infectados por COVID-19 são Marco e Pedreira. Tais localidades apresentam 
taxas elevadas de densidade populacional e, por estarem situados no centro de Belém, 
apresentam muitos serviços essenciais, sendo os principais apontados nessa pesquisa: 
supermercados, hospitais e bancos. Por consequência, estes fatores facilitaram a 
disseminação da doença. A região periférica, a qual apresenta os bairros mais afastados 
do centro comercial, apresenta baixas quantidades de casos confirmados, variando entre 
1a250 casos. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 10 04 





772500 777650 E 787950 793100 
+ + + + 


Coordenadas: UTM 
Datum: Sirgas 2000 
Zona: 22S 
Fonte: IBGE, SESPA 
(Junho de 2020) 
Escala: 1/295000 
Data: Julho de 2020 
Elaboração: Autores 


LEGENDA 
Casos confirmados 


[CJ 1-50 

3 51-250 
EB 251-600 
EB 601-950 
EM 951-1230 


ANANINDEUA 


MARITUBA 


BARCARENA 











Figura 2 - Mapa Coroplético dos casos de COVID-19 (dados até julho de 2020). 
Fonte: Adaptado (SESPA, 2020). 


A Figura 3 representa o mapa de Kernel da densidade de pessoas que apresentaram 
sintomas da doença. A contagem de casos é representada em um raio de 500 metros, 
possuindo uma paleta de cores que varia do amarelo ao roxo escuro, a qual simboliza 
uma graduação na intensidade de pessoas que tiveram sintomas, segundo o formulário 
aplicado. Os dados obtidos apresentam-se coerentes com a contagem oficial da SESPA 
(Figura 1), haja visto que a região central apresenta maior quantidade de possíveis casos 
em relação à região periférica. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 10 105 


Estimativa de densidade Kernel com raio de 500 metros para pessoas que 
apresentaram sintomas da Covid-19, Belém - PA. 


772500 777650 782800 787950 793100 
DA 





Coordenadas: UTM 
Datum: Sirgas 2000 
Zona: 22 S 
Fonte: IBGE, SESPA 
(Junho de 2020) 
Escala: 1/295000 
Data: Julho de 2020 
Elaboração: Autores 


9859990 


LEGENDA 

Densidade 

E o 
BELÉM EP og 
ms 
=» 27 
EH 36 
Mas 
= 54 
Mes 
= 72 
mei 


9854460 


Es 
5 
fr 
[=] 
£ 
z 
Eq 
z 
< 


9848930 


MARITUBA 


BARCARENA 


9843400 


9837870 








Figura 3 - Mapa de sintomas. 


Fonte: Autores (2020). 


Nesse sentido, com a aplicação do formulário online, tornou-se possível a obtenção 
de dados atualizados sobre a COVID-19 no município de Belém, sendo fornecidos pelos 
próprios moradores da cidade. O formulário, que além de perguntar sobre pessoas que 
fizeram teste para a comprovação ou não da doença, perguntou sobre sintomas, saídas 
necessárias, regras de distanciamento social e o endereço que, quando usado para gerar- 
se coordenadas geográficas, fornece uma maior precisão para produtos cartográficos e 
que podem ser disponibilizados para a população de maneira geral. 

A Figura 4 representa um mapa de distribuição de serviços essenciais, mostrando 
a localização de hospitais, supermercados e prédios da Caixa Econômica. Estes locais 
recebem um fluxo intenso de pessoas, devido a constante necessidade dos serviços 
ofertados pelos mesmos, podendo, dessa maneira, serem pontos onde há uma disseminação 
mais intensa do vírus, caso não sejam respeitadas as regras de distanciamento e feitas as 
ações de higienização. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 10 106 





771400 781350 791700 801850 812000 
+ + + 


A 


Legenda 


Hospitais | 
Caixa Econômica 
Supermercados 


Coordenadas: UTM 
Datum: Sirgas 2000 
Zona: 22 S 
Base Cartográfica: IBGE 
Escala: 1/295000 
Data: Julho de 2020 
Elaboração: Autores 














Figura 4 - Distribuição de serviços essenciais. 
Fonte: Autores (2020). 


Ainda de acordo com a Figura 4, se percebe que a maior parte dos serviços 
essenciais estão dispostos no centro de Belém. Mais uma vez, os dados da Figura 3 se 
mostram coerentes com as informações contidas no Mapa de serviços essenciais (levando 
em consideração apenas hospitais, caixa econômica e supermercados), visto que é onde 
há maior densidade desses serviços e de pessoas que sentiram os sintomas da doença. 

Segundo os dados coletados, 87,7% dos entrevistados não fizeram teste para 
confirmar se estavam com a doença (Figura 5), e, segundo os mesmos, este fator se deve 
ao oneroso custo de aquisição do teste. Esta problemática torna dificultosa a obtenção de 
produtos cartográficos que condizem com a realidade, haja vista que 61,7% das pessoas 
que participaram da entrevista apresentaram os sintomas da COVID-19, de forma leve ou 
moderada, e não tem certeza se foram infectados pelo vírus, sendo que apenas 12,3% das 
pessoas realizaram o teste, das 25 pessoas que realizaram o teste 12 testaram negativo e 
13 testaram positivo. 

Como consequência da falta de dados, o governo pode deixar de tomar decisões 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 10 





de contenção da doença em certos locais, como os bairros que tiveram altas taxas de 
pessoas que apresentaram sintomas, mas com poucas pessoas que de fato confirmaram 
que tiveram a doença. A Figura 5 é um mapa de densidade que segue os moldes da 


Figura 8. 


Estimativa de densidade Kernel com raio de 500 metros para pessoas que não 
fizeram nenhum teste para a Covid-19, Belém - PA. 


772500 7TT6S0 782800 787950 793100 


Coordenadas: UTM 
Datum: Sirgas 2000 
Zona: 22 S 
Fonte: IBGE, SESPA 
(Junho de 2020) 
Escala; 1/295000 
Data: Julho de 2020 
Elaboração: Autores 


9859990 


LEGENDA 

Densidade 

E o 
BELÉM Pos 
EH 16 
25 
EH 36 
ma2 
so 
so 
67 
= 


9854460 


ANANINDEUA 
9848930 


MARITUBA 


BARCARENA 


9843400 


9837870 





Figura 5 - Mapa de pessoas que não fizeram nenhum teste. 
Fonte: Autores (2020). 


Além disso, de acordo com a Figura 5, a maior parte das pessoas que não fizeram 
nenhum teste para COVID-19 estão localizadas no centro da cidade, mas também existe 
uma distribuição considerável nas regiões periféricas, como os bairros do Guamá, Jurunas, 
pontos próximos do Distrito de Icoaraci entre outros. 


41 CONSIDERAÇÕES FINAIS 


Com a aplicação da metodologia proposta neste artigo, pode-se dizer que o 
recurso de geocoding pode tornar-se uma ferramenta interessante para a gestão de dados 
acerca da COVID-19, podendo possibilitar a espacialização destes dados em Sistemas 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 10 EE 


de Referência Cartográficos que utilizem valores métricos, permitindo assim a criação de 
produtos cartográficos mais bem elaborados, como mapas de pontos de contagem, mapas 
de densidade Kernel, mapas de símbolos proporcionais e outros. 

Uma das análises possíveis, por meio dos resultados obtidos neste artigo, é a que 
pôde-se notar que os bairros que possuem maior densidade no número de pessoas que 
apresentaram os sintomas da COVID-19 estão localizados na região central da cidade. 
Ademais, é possível também notar que há um considerável número de estabelecimentos 
que oferecem serviços considerados essenciais nesta região, porém, a maioria das 
pessoas entrevistadas, 87,7 %, não fizeram nenhum tipo de teste para a confirmação da 
doença, pois, além do alto valor agregado aos testes durante o período de pandemia, 
houve também uma grande procura pelos mesmos. 

A grande vantagem do método de geocoding é a praticidade de se conseguir dados 
com coordenadas de maneira simplificada, não precisando, necessariamente, enviar 
equipes a campo, sendo que os dados podem ser coletados quando pacientes procurarem 
atendimento médico, de maneira remota, como na metodologia aplicada neste artigo, ou 
mesmo a obtenção de coordenadas sem a necessidade de aparelhos de GPS de navegação 
para a equipe de campo. As maiores desvantagens, por sua vez, são a possibilidade de 
existirem erros grandes de precisão gerados no processo de geocoding, uma grande 
organização destes dados e a necessidade de equipe para se dedicar ao processo. 

O processo necessita de estruturas físicas e humanas adequadas, como 
computadores ou notebooks com grande capacidade de processamento, internet de 
boa qualidade e que órgãos gestores possibilitem a obtenção destes dados de maneira 
dinâmica e simples para a equipe. Além de necessitar que uma rotina de trabalho seja 
criada de fato, a equipe, por sua vez, necessita, fundamentalmente, de conhecimentos 
amplos em geoprocessamento, cartografia, organização, edição e formatação de dados 
tabulares, discentes de áreas correlatas podem fazer este trabalho como estagiários por 
exemplo, e universidades ou órgãos de gestão podem implementar o uso desta ferramenta. 

De maneira geral, com o resultados obtidos é possível análises mais profundas 
destes dados e isto não é propriamente o foco deste trabalho entretanto os dados aqui 
obtidos podem ser utilizados em estudos futuros acerca do tema, e pode-se dizer que o 
processo de geocoding é uma boa alternativa na elaboração de produtos cartográficos 
voltados para dados de COVID-19, além de outras doenças endêmicas ou mesmo de 
qualquer pesquisa que necessite de uma geoespacialização de dados acerca de uma 
população, tornando viável a obtenção de coordenadas em qualquer área que conste 
como mapeada na base cartográfica do Google, de maneira simples e de baixo custo, uma 
alternativa que se torna válida também para estudantes e suas publicações acadêmicas de 


maneira geral. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 10 109 


REFERÊNCIAS 


BERGAMASCHI, R. B. SIG aplicado à segurança no trânsito — estudo de caso no município de 
Vitória — ES. 2010. Monografia (Graduação em Geografia) — Departamento de Geografia, Universidade 
Federal do Espírito Santo, Vitória, 2010. 


CAMPOS, L.; CANAVEZES, S. Introdução à globalização. Instituto Bento Jesus Caraça, 
Departamento de Formação da CGTP-IN, 2007. 


CARVALHO, M. S.; PINA, M. F.; SANTOS, S. M. Conceitos básicos de Sistemas de Informação 
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(Mestrado em Sistemas de Informação) - Instituto Politécnico de Bragança, Escola Superior de 
Tecnologia e de Gestão, 2012. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 10 no 


CAPÍTULO 11 


BALANÇO DE ENERGIA COM IMAGENS LANDSAT 
8 EM LIMOEIROS SOB DIFERENTES SISTEMAS DE 
IRRIGAÇÃO NO SUDESTE DO BRASIL 


Data de aceite: 02/08/2021 
Data de submissão: 05/072021 


Antônio Heriberto de Castro Teixeira 


Embrapa Tabuleiros Costeiros 
http://lattes.cnpg.br/9956312513672760 


Tiago Barbosa Struiving 
Associação dos Produtores de Limão 
http://lattes.cnpq.br/5891208660419661 


Janice Freitas Leivas 
Embrapa Territorial 
http://lattes.cnpqg.br/6479273687148473 


João Batista Ribeiro da Silva Reis 
Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas 
Gerais 
http://lattes.cnpq.br/0170762259145267 


Fúlvio Rodriguez Simão 

Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas 
Gerais 
http://lattes.cnpqg.br/9143294448276500 


RESUMO: Este trabalho visou dar suporte ao 
manejo racional da água na cultura do limoeiro 
irrigado sob diferentes sistemas de irrigação 
nas atuais situações de restrição hídrica. O 
algoritmo SAFER foi aplicado em imagens 
Landsat 8, usando-se dados climáticos de 2015, 
na modelagem dos componentes do balanço de 
energia. Os valores dos fluxos de calor latente 
(AE) e sensível (H) mais elevados e inferiores, 
respectivamente, ocorreram para sistemas 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 


de irrigação por pivôs. Considerando a fração 
evaporativa (E,) como um indicador de umidade 
na zona das raízes, para os três sistemas de 
irrigação analisados, os valores chegaram 
acima de 1,00 e 1,30 para irrigação localizada 
(microaspersão e gotejamento) e por pivôs, 
respectivamente, nas fases generalizadas do 
crescimento dos frutos à colheita. O conhecimento 
desta fração é relevante para a agricultura de 
precisão, considerando as mudanças climáticas 
e de uso da terra, sob condições de irrigação nas 
regiões semiáridas do Brasil. 
PALAVRAS-CHAVE: Saldo de radiação, fração 
evaporativa, Citrus limonL. 


ENERGY BALANCE WITH LANDSAT 8 
IMAGES IN LEMON ORCHARDS UNDER 
DIFFERENT IRRIGATION SYSTEMS IN 
SSOUTHEAST BRAZIL 
ABSTRACT: This work aimed to support the 
rational water management in lemon crop 
under different irrigation systems in situations of 
actual water restriction conditions. The SAFER 
algorithm was applied to Landsat 8 images, using 
weather data of 2015, for modelling the energy 
balance components. The values of highest latent 
(AE) and lowest sensible (H) heat fluxes occurred 
under pivot irrigation systems. Considering the 
evaporative fraction (E,) as a root-zone moisture 
indicator, for the three analyzed irrigation 
systems, the values reached to 1.00 and 1.30 
for localized irrigation (micro aspersion and 
dripple) and for pivots, respectively, inside the 
generalized crop stages of fruit growth to harvest. 
The knowledge of this fraction is important for 
precision agriculture, considering the climate and 


Capítulo 11 


land-use changes, under the irrigation conditions of the Brazilian semi-arid regions. 
KEYWORDS: Net radiation, evaporative fraction, Citrus limonL. 


11 INTRODUÇÃO 


Dentre os países produtores de limão (Citrus limon L.) no mundo, o Brasil se destaca 
como o de maior produção, estando o estado de Minas Gerais (MG) na segunda colocação 
no ranking nacional. 

O cultivo comercial vem progredindo nas condições semiáridas do Norte do Estado, 
em virtude do projeto de irrigação Jaíba, graças às condições favoráveis à irrigação. 
Entretanto, cautelas devem ser tomadas quanto à rápida substituição da vegetação natural 
nas regiões semiáridas brasileiras, que altera os componentes do balanço de energia 
(TEIXEIRA et al., 2017). 

Poucas pesquisas já foram realizadas com relação aos componentes do balanço 
de energia na cultura do limoeiro irrigado no Brasil. Além das variações espaciais destes 
componentes de acordo com as condições ambientais, estes também variam com as 
condições de umidade do solo, as quais dependem do manejo de irrigação (PEDROSO et 
al., 2014). 

O objetivo do atual trabalho foi a aplicação do SAFER — Simple Algorithm for 
Evapotranspiration Retrieving, com imagens Landsat 8 em limoeiro sob diferentes sistemas 
de irrigação no ano de 2015, objetivando subsídios ao manejo da água sob as condições de 
irrigação na região semiárida do Norte de Minas Gerais, Sudeste do Brasil. 


21 MATERIAIS E MÉTODOS 


A Figura 1 mostra a localização das áreas cultivadas com limoeiro sob diferentes 
sistemas de irrigação no município de Matias Cardoso, estado do Minas Gerais (MG), 
região semiárida do Sudeste do Brasil, juntamente com a estação agrometeorológica 
utilizada na modelagem em larga escala dos componentes dos balanços de energia. As 
cenas do Landsat 8 foram de ponto/órbita 218/70, 218/71 e 219/70, com sobreposições das 
passagens do satélite na área estudada. Uma composição RGB (“Red”, “Green”, “Blue”) 
para o dia juliano (DJ) 211 é usada como base. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 11 no 











B as'qow a33qow 4200 W 
8! 
É) 
19-70 21810 

“a 
= 

219-11 218-71 
w 
5 
2] 
o Cenas Landsat 
ni Ea CO uímite estadual 














Figura 1 — Localização das áreas cultivadas com limoeiro irrigado no município de Matias 
Cardoso, região semiárida de Minas Gerais (MG), Sudeste do Brasil, juntamente com a estação 
agrometeorológica utilizada. 


De acordo com Lumbreras et al. (2014) as precipitações médias da região de estudo 
situam-se abaixo de 900 mm ano”, concentrando-se nos primeiro e no trimestre do ano. A 
região é caracterizada por valores de temperatura do ar elevados, típicos do clima tropical, 
com médias anuais em torno de 24ºC e máximas, entre 31 e 32ºC, estas últimas ocorrendo 
de setembro a outubro enquanto junho e julho são os meses mais frios, com mínimas 
variando de 14 a 17ºC. 

No perímetro irrigado Jaíba as colheitas de limão ocorrem durante o ano inteiro, com 
dois períodos de pico — entre novembro/janeiro e junho/julho. A Tabela 1 apresenta as fases 
fenológicas generalizadas consideradas pelos produtores da região. 





MÊS/ 
FASE 
F 
CF 


PC 


01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 1 12 








*F — Florada; CF — Crescimento dos frutos; PC — Pico de colheita. 


Tabela 1. Fases fenológicas consideradas para a cultura do limoeiro irrigado no Norte de Minas Gerais, 
região semiárida do Sudeste do Brasil. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 11 RES 


O limoeiro no Norte de Minas Gerais tem múltiplas floradas durante o ano, com 
as parcelas irrigadas apresentando diferentes fases em uma mesma planta. Contudo a 
intensidade de florescimento depende das condições climáticas e umidade na zona das 
raízes. 

Uma estação agrometeorológica foi instalada nas proximidades das fazendas 
estudadas (ver Figura 1), cujos dados diários foram usados em conjunto com as imagens 
Landsat 8 adquiridas em diferentes condições termo hídricas do ano de 2015. Os dados de 
radiação solar global (R,), temperatura média do ar (T.) e evapotranspiração de referência 
(ET,) foram usados em conjunto com os parâmetros obtidos por sensoriamento remoto, o 
albedo da superfície (a,) e o Índice Diferença de Vegetação Normalizado (NDVI). 

As sobreposições das passagens do satélite apresentadas deram a oportunidade 
de aquisição de 27 imagens, sendo que quando houve problemas de nebulosidade, os 
valores espaciais de a, e NDVI foram interpolados sucessivamente, utilizando-se os dados 
climáticos para os dias com céu encoberto, resultando em um total de 52 imagens ao longo 
do ano, suficientes para caracterização dos componentes do balanço de energia nas fases 
fenológicas. As bandas 1 a 7 foram usadas na determinação de a, e NDVI, enquanto que 
a temperatura da superfície (T,) foi obtida como resíduo no balanço de radiação. Detalhes 
da metodologia são descritos em Teixeira et al. (2017), sendo aqui as equações principais 
resumidas. 

Para toda a faixa do visível o albedo planetário (a,) foi obtido como a soma dos 
valores para cada banda (ap,) de acordo com seus pesos (w,). 


Qp=Wap, (1) 


Para a estimativa de a,, correções atmosféricas para os valores de a, foram 
aplicadas através de regressões obtidas de medições conjuntas prévias de campo e por 
sensoriamento remoto. 

A radiação atmosférica (R.) foi calculada através da lei de Stefan-Bolizmann: 


KR, =06 7; (2) 


em que T, foi medida na estação agrometeorológica e a emissividade atmosférica 
(c,) obtida em função da transmissividade atmosférica (T.,). 

Com a radiação solar global incidente (R,,) medida na estação agrometeorológica e 
multiplicando-se por a, os valores diários da radiação solar global refletida (R,) foi estimada. 

Os valores diários do saldo de radiação (R,) foram calculados através da equação 


de Slob. 
R=(1-0,)R;-ar,, (3) 


n 


em que o coeficiente de regressão a, foi espacializado através da sua relação com 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 11 ILS 


T, (Teixeira et al., 2008). 
Tendo-se R,, Ra, R,e R, a radiação de ondas longas emitida (R,) foi estimada como 
resíduo no balanço de radiação e a temperatura da superfície (T,) foi obtida: 


R 
h, E (4) 


onde £, é a emissividade da superfície a qual foi relacionada com os valores de 
NDVI e o é a constante de Stefan-Boltzman (5,67 x 10º W m2 K?). 

Aplicando-se o algoritmo SAFER, a razão da evapotranspiração atual (ET), para a 
de referência (ET,), a ET,, foi modelada no momento da passagem do satélite: 


h 
ET =€xp|a, +b, [a] (5) 


onde a, e b, são coeficientes de regressão. 

Os valores diários de ET, foram então multiplicados por ET,, fornecendo a ET em 
larga escala, a qual então foi transformada em unidades de energia, resultando nas taxas 
diária de fluxo de calor latente (AE). 

Estimando-se o fluxo de calor no solo (G) como uma fração de R,, o fluxo de calor 
sensível (H) foi obtido como resíduo na equação do balanço de energia. 

Para análises das condições de umidade na zona das raízes, a fração evaporativa 
(E, foi usada: 

AE 


E, =" — 6 
1“ (R-6) (6) 


31 RESULTADOS E DISCUSSÕES 

A Figura 2 apresenta as tendências dos totais médios quinzenais dos pixels para 
precipitação (P) e evapotranspiração de referência (ET,) em termos de dias julianos (DJ) 
no município de Matias Cardoso, Norte de Minas Gerais (MG), região semiárida do Sudeste 
do Brasil, durante o ano de 2015. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 11 [E 


120 





100 4 


80 4 


Pou ETo(mm) 


60 4 


40 4 


20 4 





0 |] 





=== P-(555 mm ano?) 


---— ETo- (1740 mmano”) 











001-016 


049-06 


4 


097-112 145-160 193-208 


Dia Juliano (DJ) 


241-256 


289-304 


337-352 





Figura 2 — Tendências dos valores quinzenais da precipitação (P) e da evapotranspiração de referência 
(ET,) de acordo com intervalos de dias julianos (DJ) durante o ano de 2015 no município de Matias 
Cardoso, estado do Minas Gerais (MG), região semiárida do Sudeste do Brasil. 


A precipitação (P) foi mais variável que a evapotranspiração de referência (ET,). As 
chuvas se concentraram no início e no final do ano, o que está de acordo com Lumbreras 


et al. (2014). Os períodos mais secos e longos, com os valores quinzenais de P abaixo 
de 5 mm, foram de DJ 160 a 289, inferiores em 10% da ET,. Entretanto percebe-se 


estiagens no início de janeiro no período de DJ 064 a 097 durante a estação chuvosa, com 
P correspondente à apenas 4% da ET.. 


A Figura 3 apresenta a distribuição espacial dos valores médios trimestrais do saldo 


de radiação (R,) no ano de 2015, na região semiárida do Norte do estado de Minas Gerais, 


Sudeste do Brasil. Destaques são dados para as áreas com a cultura do limoeiro sob 
irrigação por microaspersão (Micro), gotejamento (Gotejo) e pivôs. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 


Capítulo 11 


43'52'W 43'50'W 43º48'W 43'52'W 43'50'W 43'48'W 


15º03'S 


15º05'S 
=11,0+0,2 
10,940,1 


15º03'S 


1,940,2 Gotejo =10,6+0,2 


Micro = 10,7+ 0,2 
ivô=8,0+0,1 T Pivô =10,9+0,1 


R, (MJ m2d"!) 


6 mo 8,5 


[] cotejo [L] Micro aspersão 





1,5 km 


Figura 3 — Distribuição espacial dos valores médios trimestrais do saldo de radiação (R ). Destaques 
para a cultura do limoeiro sob irrigação por microaspersão (Micro), gotejamento (Gotejo) e pivôs. T1— 
primeiro trimestre; T2 — segundo trimestre; T3 — terceiro trimestre; T4 — quarto trimestre. 


Os valores de R, foram mais fortemente influenciado pelos níveis de R, que pelos 
sistemas de irrigação ou fase da cultura, apresentando baixas variações espaciais de 
acordo os desvios padrões. A fração de R, transformada em R,, indiferentemente do sistema 
de irrigação, variou de 44% no segundo trimestre a 49% no primeiro e último trimestre, 
estando de acordo com medições de campo realizadas nas condições semiáridas do Brasil 
(TEIXEIRA et al., 2008), o que fornece confidência na aplicação do SAFER usando as 
bandas nas faixas do visível e do infravermelho próximo do Landsat 8 em conjunto com 
dados climáticos. 

A Figura 4 mostra a distribuição espacial dos valores médios trimestrais do fluxo 
de calor latente (AE) no ano de 2015, na região semiárida do Norte do estado de Minas 
Gerais, Sudeste do Brasil. Destaques são dados para as áreas com a cultura do limoeiro 
sob irrigação por microaspersão (Micro), gotejamento (Gotejo) e pivôs. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 11 





43'52'W 43'50'W 43'48'W 43'52'W 4350" W 43'48'W 


15º03'S 


15º05'S Rets ES Ra 
Micro =8,72,4 


Pivô - 9,542,3 A o 


15º05'S jotejo =5,8+1,4 


) VET ER) 
Pivó=9,3+1,7 a Pivô =8,2+0,9 


XE (MI m2d) 


00 26 52 8 


[] cotejo [1] Micro aspersão [| Pivô 





Figura 4 — Distribuição espacial dos valores médios trimestrais do fluxo de calor latente (AE). 
Destaques para a cultura do limoeiro sob irrigação por microaspersão (Micro), gotejamento (Gotejo) e 
pivôs. T1- primeiro trimestre; T2 — segundo trimestre; T3 — terceiro trimestre; T4 — quarto trimestre. 


Diferentemente de R,, as variações espaciais nos valores de AE são claras (Figura 
4), com os valores mais elevados para pivôs de irrigação, principalmente no terceiro 
trimestre (T3), período climaticamente mais seco da região de estudo, quando ocorrem 
valores de AE acima de R, nas parcelas de culturas bem irrigadas, contrastando com as 
áreas vizinhas ocupadas pelas espécies da Caatinga (ver Figuras 2 e 4). 

Os valores mais elevados de AE foram para os sistemas de irrigação por pivôs, 
devido ao efeito conjunto das chuvas e aplicações suplementares de água pelo sistema sob 
elevada demanda atmosférica. Entretanto, os níveis uniformes e de elevada umidade na 
zona das raízes das espécies da Caatinga no período chuvoso fazem com que as plantas 
deste ecossistema natural apresentem taxas similares e até mesmo, em algumas situações 
do primeiro trimestre (T1) maiores do que as culturas agrícolas. 

A Figura 5 apresenta a distribuição espacial dos valores médios trimestrais do fluxo 
de calor sensível (H) no ano de 2015, na região semiárida do Norte do estado de Minas 
Gerais, Sudeste do Brasil. Destaques são dados para as áreas com a cultura do limoeiro 
sob irrigação por microaspersão (Micro), gotejamento (Gotejo) e pivôs. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 11 neo 


43'52'W 43º50'W 43'48'W 43'52'W 43'50'W 43"48'W 


15º03'S 


15º03's 


Gotejo=2,071,4 Gotejo =4,4+1,3 
Micro =1,8+2,4 Miêro = 4,2+1,9 


ivô=-1,9+1,7 Pivó=1,8+1,2 


H (MJ md!) 


L6 44 


[cotejo [1] Micro aspersão [] Pivô 





Figura 5 — Distribuição espacial dos valores médios trimestrais do fluxo de calor sensível (H). 
Destaques para a cultura do limoeiro sob irrigação por microaspersão (Micro), gotejamento (Gotejo) e 
pivôs. T1- primeiro trimestre; T2 — segundo trimestre; T3 — terceiro trimestre; T4 — quarto trimestre. 


Pelas variações espaciais de H, também pode-se diferenciar as áreas irrigadas 
pelos menores valores, com alguns pixels negativos, principalmente nos sistemas por 
pivôs, significando advecção horizontal de calor da vegetação natural mais quente e seca. 
Por outro lado, os valores maiores de H são para o sistema de irrigação por gotejamento 
no quarto trimestre (T4) do ano. 

A Figura 6 apresenta a distribuição espacial dos valores médios trimestrais do fluxo 
de calor no solo (G) no ano de 2015, no Norte do estado de Minas Gerais, Sudeste do 
Brasil. Destaques são dados para as áreas com a cultura do limoeiro sob irrigação por 
microaspersão (Micro), gotejamento (Gotejo) e pivôs (P). 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 11 no 


43º52'W 43º50'W 4348'W 43º52'W 43º50'W 43148'W 


Got&o = 0,5+0,1 Gotejo =0,5+0,1 
=0,5+01 Micro = 0,510,1 


Pivô= 0,400 ! Pivô=0,4*0,0 


15º03'S 


15º05'S 0=0,340,1 
1=0,4*0,1 


Pivô - 0,4T0,0 


G (MJ m?d) 


00 02 04 06 08 10 


[cotejo [Micro aspersão [) Pivô 





Figura 6 — Distribuição espacial dos valores médios trimestrais do fluxo de calor no solo (G). Destaques 
para a cultura do limoeiro sob irrigação por microaspersão (Micro), gotejamento (Gotejo) e pivôs. T1— 
primeiro trimestre; T2 — segundo trimestre; T3 — terceiro trimestre; T4 — quarto trimestre. 


A partição de R, em G foi a de menor proporção na Figura 6, e em particular para 
a cultura do limoeiro independentemente do sistema de irrigação adotado, comprovando- 
se que este componente do balanço de energia pode ser desprezado na escala diária 
(TEIXEIRA et al., 2008, 2017). 

Com relação às variações espaciais dos componentes do balanço de energia, os 
maiores valores de desvio padrão foram para AE e H no sistema de irrigação por micro 
aspersão e por pivôs, envolvendo as fases de crescimento à colheita dos frutos (ver Tabela 
1 e Figuras 3 a 6). Para todo o ano de 2015, em média, as razões AE/R, e H/R, para os 
sistemas de irrigação por microaspersão, gotejamento e pivôs, foram respectivamente de 
0,75 e 0,21; 0,70 e 0,25; 0,94 e 0,02. O conhecimento destas frações é relevante para a 
agricultura, principalmente quando se considera os efeitos conjuntos de mudança climática 
e de uso da terra nas condições de irrigação nas regiões semiáridas. 

A Figura 7 mostra a tendência dos valores médios quinzenais da fração evaporativa 
(E) para o limoeiro irrigado por micro aspersão (micro), gotejamento (gotejo) e pivôs 
centrais (pivôs) ao longo do ano de 2015 na região semiárida do Norte do estado de Minas 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 11 [1200 


Gerais, Sudeste do Brasil. 





1,36 + 


1,12 4 


Fração evaporativa — E, 





0,40 








Dia Juliano — DJ 


Figura 7 — Tendência e valores médios quinzenais da fração evaporativa (E,) nos limoeiros irrigados por 
micro aspersão (micro), gotejamento (gotejo) e pivôs centrais (pivôs). 


Os valores de E, para os três sistemas de irrigação variaram ao longo do ano, 
porém com diferentes magnitudes, sendo acima de 1,00 e 1,30 para irrigação localizada e 
por pivôs, respectivamente, no período de DJ 154 a 163, na primeira quinzena de junho, 
envolvendo as fases generalizadas de crescimento à colheita dos frutos. Percebe-se que, 
com exceção da segunda quinzena de abril (DJ 108-115), quando caíram abaixo de 0,70 no 
sistema de gotejamento, em geral a cultura teve bom suprimento de água de irrigação. Por 
outro lado, os valores obtidos nos pivôs sugerem desperdício de água, evidenciados pela 
curva após a primeira quinzena de maio (DJ 131). 


41 CONCLUSÕES 


O uso conjunto de imagens do satélite Landsat 8 e dados agrometeorológicos 
possibilitou a quantificação e análises dos componentes do balanço de energia na cultura 
do limoeiro sob diferentes sistemas de irrigação na região semiárida do estado de Minas 
Gerais, Sudeste do Brasil. A magnitude destes componentes variou ao longo do ano, porém 
com diferentes valores, sendo a fração evaporativa (E) acima de 1,00 e 1,30 para irrigação 
localizada e por pivôs, respectivamente, nas fases generalizadas de crescimento dos frutos 
à colheita. O conhecimento dos valores desta fração é relevante, considerando os efeitos 
de mudança climática e de uso da terra. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 11 aro 


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semi-arid Brazil. Journal of Hydrology, v. 362, p. 110-127, 2008. 


TEIXEIRA, A.H. de C.; LEIVAS, J.F.; HERNANDEZ, F.B.T.; FRANCO, R.A.M. Large-scale radiation and 
energy balances with Landsat 8 images and agrometeorological data in the Brazilian semiarid region. 
Journal of Applied Remote Sensing, v.11, p. 016030, 2017. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 11 EE 


CAPÍTULO 12 


A ATUAL CONFIGURAÇÃO DO PUNCTUM DOLENS 
BRASILEIRO NO SECULO XXI 


Data de aceite: 02/08/2021 
Data de submissão: 28/04/2021 


Wendell Teles de Lima 

Universidade do Estado do Amazonas 
Tabatinga — Amazonas 
http://lattes.cnpqg.br/2543584628480160 


Ana Maria Libório de Oliveira 

Instituto Federal de Brasília 

Brasília — Distrito Federal 
http://lattes.cnpqg.br/4609709219632981 


Sebastião Perez de Souza 

Secretaria do Estado do Amazonas 
Tabatinga — Amazonas 
http:/llattes.cnpq.br/4465454211897132 


Marcelo Lacortt 

Instituto Federal Sul-rio-grandense 
Passo Fundo — Rio Grande do Sul 
http://lattes.cnpqg.br/4307056323894954 


Rita Dácio Falcão 

Universidade do Estado do Amazonas 
Tabatinga — Amazonas 
http://lattes.cnpqg.br/9176750512856415 


Maércio de Oliveira Costa 

Instituto Federal do Rio Grande do Sul 
Ibiruba — Rio Grande do Sul 
http://lattes.cnpqg.br/3429410599928210 


RESUMO: Os pontos dolosos do país, os 
chamados punctum dolens, foram analisados 
pelo brigadeiro Lysias Rodrigues nos anos de 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 


1940, sendo estabelecido por diferentes regiões 
em todo território, ou seja, existe um conjunto 
de forças divergentes na fronteira, em função da 
grande quantidade de países fronteiriços com o 
Brasil, cada ponto apresenta diferenciação em 
sua localização com os países existentes. Pontos 
de convergências permanecem, atualmente, por 
todo o país e sua natureza é conflitiva. 
PALAVRAS-CHAVE: Pontos dolosos, 
Convergências de Forças, Fronteira. 


THE CURRENT CONFIGURATION OF 
THE BRAZILIAN PUNCTUM DOLENS IN 
THE 21ST CENTURY 
ABSTRACT: The malicious points of the country, 
called punctum dolens, were analyzed by Brigadier 
Lysias Rodrigues in the 1940s, being established 
by different regions throughout the territory, that 
is, there is a set of divergent forces on the border, 
due to the large number of countries border with 
Brazil, each point presents differentiation in its 
location with the existing countries. Convergence 
points currently remain throughout the country 

and their nature is conflicting. 
KEYWORDS: Harmful points, Convergence of 
Forces, Border. 


RESUMEN: Los puntos maliciosos del país, 
el Ilamado punctum dolens, fueron analizados 
por el brigadier Lysias Rodrigues en la década 
de los 40, siendo establecidos por distintas 
regiones a lo largo del territorio, es decir, existe 
un conjunto de fuerzas divergentes en la frontera, 
debido al gran número de países limítrofes con 
Brasil, cada punto presenta diferenciación en su 
ubicación con los países existentes. Actualmente 


Capítulo 12 EIN 


permanecen puntos de convergencia en todo el país y su naturaleza es conflictiva. 
PALABRAS CLAVE: Puntos nocivos, Convergencia de Fuerzas, Frontera. 


11 INTRODUÇÃO 


O estudo de Os Punctum Dolens (pontos dolosos) no território brasileiro no Século 
XX, foi analisado pelo brigadeiro Lysias Rodrigues, sendo assim, Os Punctum Dolens 
passaram a ser reconhecidos pelo geopolítico nos anos de 1940. Este ponto foi analisado 
pelo livro: A Geopolítica do Brasil de 1947 pela Biblioteca Militar, atualmente, denominada 
de BIBLIEX. 

O reconhecimento de três pontos no território brasileiro, ou seja, pontos de 
convergências de forças, tendo em vista que o Chile e Equador são países que não fazem 
fronteiras com o Brasil, sendo que o país possui uma das maiores fronteiras terrestres do 
mundo em função da extensão territorial. 

Tendo em vista a entrada de forças que ocorrem na fronteira, temos o noroeste do 
país, na região amazônica, um ponto que chama atenção, a cidade de Tabatinga/AM, onde 
ocorre a sua convergência com a cidade de Letícia (Colômbia), e ainda é determinada 
como uma tríplice fronteira, constituída pelo Peru, Colômbia e Brasil. 

O dilema dessa fronteira, além da sua formação e de sua aparente calmaria, é a 
composição do rio Solimôes/Amazonas que serve de acesso para o Atlântico, e que continua 
sendo a principal rota econômica do mundo. Surgiram no século XX disputas territoriais 
entre Peru e Colômbia, dando origem à corrida armamentista, da Letícia (Colômbia) com 
o Peru, apesar da “Guerra” entre os países, a “paz” passou a reinar na zona do Trapézio. 

Sendo assim, com um olhar diante das situações apresentadas nessa constatação, 
entendemos que, 


No contexto brasileiro, as motivações (geo)políticas e econômicas que 
conduziram as estratégias do processo de transformação territorial se 
atrelaram profundamente à história do próprio país, permitindo-nos apreender 
uma série de fenômenos no que diz respeito à compreensão da fronteira e 
sua construção teórica e conceitual. Ao longo do tempo, nos debates sobre 
a definição e o papel da fronteira, a temática se amplia a outras noções, a 
saber, zona de fronteira, faixa de fronteira e, mais recentemente, linha de 
fronteira. (SIMÕES, 2017, p. 35) 


É a partir da fronteira que começa a ser pensado os pontos dolosos do território 
brasileiro por Rodrigues (1947); 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 12 EEE 





FIGURA 1: Municípios da Faixa de Fronteira Brasileira. 


Fonte: Ministério da Integração Nacional. 2005. 


As fronteiras (Figura 1) começaram a ser parte da geografia brasileira, em virtude 
do país possuir uma grande extensão territorial, e a Amazônia em função do grande “vazio 
demográfico” e sua população não ser numerosa em comparação com as demais regiões 
do país, passou a ser parte componente do discurso geopolítico. 

Portanto, existe uma preocupação com países amazônicos, como o Peru, que 
chegou a ser vice-reinado da Espanha, essa preocupação ficou maior com o armamentismo 
de Letícia, sendo preocupação de Rodrigues (1947). 

No fundo a disputa reinou em torno do acesso ao rio principal. O Peru pretendia 
excluir a Colômbia desse rio, tornando a negociação mais fácil somente com o Brasil, 
atualmente, a cidade de Iquitos (Peru) celebra a retomada de Leticia que já foi um dia 
desse país. 

Notamos que, a pequena ilha de Santa Rosa, na fronteira com Brasil e Colômbia, 
dado pela sedimentação do rio Solimões-Amazonas, ultrapassa os limites geodésicos do 
Peru, chegando em países como Brasil e Colômbia. Portanto, pode-se criar uma possível 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 12 EEN 


situação de um novo armamentismo na região. 
Com a grande extensão brasileira, temos três grandes somas de convergência entre 
estados, conforme o país, apresentada na Figura 2. 


Arcos e Sub-regiões da Faixa de Fronteira 


r 
im 
m 
ow 
v 
in 
(vir 
(var 
x 
| x 
RS 
xa 


EEE: 


A-Segmento Sudoeste do PR 
E - Segmento Oeste do sc 





FIGURA 2: Convergência de Força no Território Brasileiro. 


Fonte: Ministério da Integração Nacional. 2005. 


Em função da Amazônia ser uma região ambicionada internacionalmente, as forças 
não giram somente entre os países que fazem parte da composição da Pan-Amazônia, e 
sim, das grandes potências mundiais. 
No mapa apresentado na Figura 2, observamos um ponto de disputa regional, o de 
Ponta Porá/MS, ele termina se complexando no país, em função dos anos de 1960. Pois, 
A reflexão sobre as fronteiras nacionais durante o século XIX e primeira metade 
do século XX foi feita principalmente por diplomatas, juristas, geógrafos, 
historiadores e militares. Os trabalhos estavam centrados em discussões 
de conflitos de limites, tratados de fronteiras, movimentos expansionistas 
dos Estados nacionais e redefinições das fronteiras. A referência principal 
eram os agentes dos Estados e seus movimentos de conquista, expansão, 
demarcação e garantia do território nacional. A palavra “fronteira” estava 


associada à dimensão militar, territorial e estatal (SOARES, 1972; MATTOS, 
1990, apud ALBUQUERQUE, 2009, p. 137). 


O grande número de brasileiros fez-se presente no Mato Grosso do Sul e Paraná, 
de forma que se denominam de brasilguaios, que são eles habitantes da fronteira. Essa 
disputa ocorre entre os países Argentina e Paraguai, para Travassos (1935) o Paraguai era 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 12 KEN 


um país pendular, portanto, sendo este país ora voltado para Argentina e o Brasil, dada a 
sua instabilidade era necessário que o Brasil interviesse no Paraguai. Nesse sentido, 


O estudo da geopolítica, para Travassos (1947), refere-se à identificação 
das possibilidades e dos obstáculos ao aumento de influência de um Estado 
em dado território. Os Estados nacionais tenderiam a buscar três objetivos 
geopolíticos: possuir várias saídas para o mar (se possível para mares 
diferentes), dominar a totalidade das bacias hidrográficas e estender seu 
domínio para onde o tráfego os possibilite. As três tendências são expressões 
de um mesmo fenômeno: a procura pela expansão do poder em bases 
territoriais. Os estadistas brasileiros deveriam observar essas tendências ao 
formularem a política para a América do Sul. (SABOYA, 2018, p. 29). 


Sendo assim, a disputa ocorria em torno da hegemonia da América do Sul entre 
Brasil e Argentina. Outros países no período também disputavam essa hegemonia, no 
entanto, esses países não conseguiram despontar ao longo do tempo, como Chile e a 
Venezuela que tentaram sucessivas vezes assumir essa posição. 

A luta para entrada de novos países, como o Chile ou Venezuela, foram marcados 
de commodities, no caso da Venezuela, um país atrelado ao petróleo, e com a economia 
dolarizada. 


Enquanto a trajetória dominante na América Latina foi marcada, após a 
Depressão de 1930, por estratégias econômicas de governos populistas, como 
a industrialização via substituição de importações, a Venezuela ingressou 
nesse processo somente após o fim da Segunda Guerra Mundial (Ibidem, 
1988). A industrialização tardia da década de 1950 tornou-se a condição 
estrutural para o fim da transição ao regime democrático, quando assumiu 
mediante o voto popular o governo de Rómulo Betancourt (1959-1964), do 
centro-esquerda Acción Democrática — principal partido venezuelano do 
século XX. A elevada demanda por petróleo no pós-guerra, a crise de Sueze a 
crise iraniana de 1954 forçaram a Venezuela a experimentar a industrialização 
devido à expansão econômica, pois o aumento da exportação de petróleo e, 
com efeito, as reservas estrangeiras alimentaram o gasto público e o nível de 
investimento. (JESUS; CARDOSO, 2019, p. 234 - 235). 


Outrossim, a guerra pela liderança na América do Sul é fria. Apesar de não ser 
declarada pelo conjunto de países no quadro atual, temos a liderança do Brasil, considerando 
a dinâmica da economia do continente, e que o jogo geopolítico poderá se modificar. 

Neste sentido, temos a Bolívia considerada um estado pivô, em função de estar 
centrado em vários ecossistemas. Para o geopolítico catalão Gabriel Malagrida (1946), um 
país que não fortalece sua identidade perde sua força de influência. 


Para Travassos os principais contrastes fisiográficos do subcontinente 
giravam em torno dos antagonismos Atlântico-Pacífico e Bacia Platina e Bacia 
Amazônica. Para o militar brasileiro, dentre os dois antagonismos o último era o 
mais acentuado e colocava em jogo interesses das duas potências regionais: 
Brasil e Argentina. No seu pensamento geopolítico, ambos os antagonismos 
se materializavam em pleno território boliviano conformando um triângulo onde 
se confrontavam interesses brasileiros (influências amazônicas), argentinos 
(influências platinas) e bolivianos (influências andinas). Segundo Travassos, 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 12 





“a chave desse problema se encontrava no chamado triângulo econômico 
Cochabamba-Santa Cruz de La Sierra-Sucre, verdadeiro signo da riqueza 
boliviana” (TRAVASSOS, 1935, p. 41). Ou seja, nessa nova corrente a Bolívia 
deixava de ser insignificante para ganhar atenção dos projetos expansionistas 
das semipotências sul-americanas. (PFRIMER, 2011, p. 12) 
Tendo em vista a mudança de cenário na América do Sul, em virtude de sua 
geopolítica, Becker (1982) analisa que a Amazônia é o novo heartland do continente. No 
entanto, os “problemas” não deixaram de ocorrer em função dessa mudança de localização 


que passou a chegar na borda amazônica. 





FIGURA 3: Província de Pando. 
Fonte: G1 (2008). 


Esta província na Bolívia (Figura 3), passou a ser preocupação para o país, em 
função do grande número de brasileiros e, temendo o que acontecesse o mesmo que 
ocorreu no Estado do Acre. O governo boliviano está em constante alerta com essa zona 
de fronteira de seu território. 

Outra questão, é a migração na faixa de fronteira do Vales Coloniais Sulinos. Os 
brasilguaios, termo que atualmente está incorporado, refere-se aos brasileiros que em 
direção ao Paraguai assentam suas plantações e investem pesadamente no agronegócio 
(Figura 4). 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 12 KEN 


MATO GRO BL 


DO Str 


TÃO PALA.C 





FIGURA 4: Brasiguaios. 
Fonte: Daniel Buarque — G1 (2009). 


Em função da expansão agrícola, como a soja e outros produtos, há uma dilatação 
prática nas fronteiras agrícolas do país. Isso possibilitou o aumento da influência neste 
subcontinente, provocando uma reorganização do território, o que determinou com a 


criação do Mato Grosso do Sul, conforme Figura 5. 


eau seo on 0 IW segu 


MATO GROSSO 


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500 1.000 
mo ——Ikm 


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FIGURA 5: Mato Grosso do Sul. 


Fonte: Pereira Filho, “Criado por: Almir José Azevedo, desenhista técnico cartográfico. Cartas 
Topográficas IBGE/DSG, Imagens de Satélites, dados Disponibilizados pela SEMA/MTSEMA/MT.” 
(2020, p. 10). 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 12 EEE 


Para Travassos (1935) a criação do estado (Figura 5) é determinante para o 
ecúmeno da época, estabelecendo o povoamento do Centro-Oeste e da Amazônia, era um 
plano aguerrido. 

De forma que, 

O termo “brasiguaios' corresponde aos imigrantes brasileiros e seus 
descendentes residentes no Paraguai. Os primeiros indivíduos deste 
contingente chegaram naquele país durante a segunda metade do século XX, 
com vistas a obter uma nova perspectiva econômica. A maioria dos imigrantes 
era proveniente da região Sul do Brasil, em especial do Rio Grande do Sul. 
Entre os imigrantes havia alguns proprietários de terra que — influenciados pelo 
governo Vargas, que havia idealizado a campanha “Marcha para o Oeste” 
—, naquela altura já começavam a ocupar as regiões Centro-Oeste e Norte 


do Brasil, como também as regiões fronteiriças do Paraná (ALBUQUERQUE, 
2003 apud CARNEIRO; SANTOS; VANDERLEI, 2020, p. 133). 


Algumas inciativas foram idealizadas por Travassos (1935) como a construção que 
liga o Centro-Oeste ao porto de Santos, a finalidade era promover acesso do Paraguai ao 
oceano Atlântico, a ideia era tornar esse país independente da Argentina. 


O Brasil, por sua grandeza territorial, qualidade da diplomacia e inúmeros 
outros fatores, é constantemente qualificado como reunindo condições de 
tornar-se uma potência, cuja área de influência (regional ou mundial) pode 
variar, a depender do modelo adotado (FREITAS, 2004). Não obstante, esse 
não é o único tema recorrente. Pode-se observar, do estudo das contribuições 
geopolíticas dos pensadores brasileiros, um razoável grau de unidade de 
valores e objetivos comuns (FREITAS, 2004 apud CAMILO, 2019, p. 13). 


Tendo a extensão brasileira como uma das preocupações na geopolítica, seu 
pensamento permeou as inquietações do Estado, pois todos os geopolíticos tiveram essa 
inquietação. 

Outro ponto doloso é Foz de Iguaçu no Paraná, que faz fronteiras com Argentina 
e Paraguai, essa cidade é a mais populosa da fronteira brasileira, e desponta como a 
principal do país. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 12 EE 





FIGURA 6: Tríplice Fronteira do Cone Sul. 
Fonte: Click Foz (2017). 


Essa fronteira (Figura 6) é de fundamental importância, localiza-se na Região da 
Bacia do Rio Prata. No entanto, diante dos 


conflitos de fronteira, que envolveram as coroas ibéricas até o início do século 
XIX, com a independência das colônias sul-americanas passaram a envolver 
o Brasil e uma série de países (Argentina, Paraguai, Bolívia e Uruguai) cujos 
territórios compuseram o Vice-Reino do Rio da Prata, que existiu entre 1776 
e 1814. O modelo de colonização espanhola do Vice-Reino do Rio da Prata 
pode ser apontado como o responsável por sua balcanização. Muitos conflitos 
na região foram ocasionados pela má divisão dos territórios. Exemplo disso 
foi o fato de os principais rios platinos terem sido usados como fronteiras, ao 
invés de servirem como vias de comunicação interna (MALAGRIDA, 1946). 


De forma que, essa questão ganhou mais veracidade com as disputas entre 
Argentina e o Brasil, o que foi determinante para a criação de um cordão de isolamento 
no Sul, território este conhecido como Iguaçu, que com o tempo foi incorporado ao Paraná 
(Figura 7). 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 12 amo 





rodovias pavimentadas 
terra 
+—+—+ ferromas 


estadual 

internacional 

12 milhas (Mar Territorial 
= 200 milhas (Zona Económica 





FIGURA 7: Unidades Federativas do Brasil. 
Fonte: IBGE educa (2021). 


Observamos que nos anos 1930 foi constituído territórios federais com o objetivo 
de proteger o país das influências externas, como foi o caso do Território de Foz do Iguaçu. 
A atual constituição em vigor foi abolida a criação de territórios federais, no entanto, essa 
figura jurídica é possível de ser revisada pelo Congresso Nacional. 

Desse modo, em uma região, como a Amazônia, existe possibilidade de criar 
territórios federais, com o objetivo de trazer desenvolvimento para regiões mais distantes. 
Assim, evidencia-se que a intenção é aumentar as bancas regionais, de forma que, o jogo 
geopolítico está em pauta. 


21 CONSIDERAÇÕES FINAIS 


O jogo geopolítico ainda não está decidido, vemos que a análise do território emana 
de uma fonte de poder, seja ela do poder central, dos estados ou municípios. 

Tendo em vista que essa análise foi feita em virtude das relações de forças no 
subcontinente da América do Sul, as disputas que apareciam entre Argentina e Brasil 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 12 





tornaram-se mais complexas para os estados que compõem a região. 

Esse foi o mérito de Lysias Rodrigues, em identificar a existência de pontos no 
território brasileiro, esses pontos eram espalhados ao longo da extensão territorial. 

Eles somente não foram identificados no cone-sul, em que a disputa nos olhos de 
alguns apresenta-se de forma nítida, não podemos esquecer, uma região como Amazônia. 

Essa História é pouco falada a respeito da disputa da fronteira entre países da 
América do Sul, é objeto de maior aprofundamento na análise geopolítica contemporânea. 
A problemática da geopolítica acabou se estendo para todo o território nacional devido a 
sua grande extensão territorial. 

Atualmente, a grande questão é a extensão territorial, nesse caso, a Amazônia 
destaca-se e estimula interesses, pois os estados do Norte possuem grandes dimensões 
territoriais, maiores que países da Europa. 

Tendo em vista os conflitos fronteiriços, observamos que a questão citada por 
Rodrigues (1947) não evoca a singularidade, ele não se restringe somente aqueles lugares. 

Portanto, podemos falar neste século XXI de novos pontos dolosos no território 
nacional em função da dinâmica geográfica, e destacar que a estabilidade não ocorreu 
neles, uma vez que, foram criados pelo dinâmica novos pontos ao longo do território. A 
partir das análises nos anos de 1940 fez com que houvesse a identificação dos punctum 
dolens presentes no território brasileiro. 


REFERÊNCIAS 


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“Brasiguaios” entre os limites nacionais. Horizontes Antropológicos. Vol.15. Nº.31. Porto Alegre, jan./ 
june. 2009. 


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BECKER, Bertha K. Geopolítica da Amazônia: A Nova Fronteira de Recursos. Rio de Janeiro: Zahar 
Editores, 1982. 


BRASIL. Ministério da Integração Nacional. Secretaria de Programas Regionais. Programa de 
Desenvolvimento da Faixa de Fronteira. — Brasília: Ministério da Integração Nacional, 2005. 


BUARQUE, Daniel. Viver no Paraguai é como voltar ao Brasil dos anos 1970, diz imigrante. G1. 2009. 

Disponível em: <http://g1.globo.com/Sites/Especiais/Noticias/0,, MUL1242334-17083,00-VIVER+NO+P 
ARAGUAI+E+COMO+VOLTAR+AO+BRASIL+DOS+ANOS+DIZ+IMIGRANTE .html>. Acesso em: 15 de 
abr. 2021. 


CAMILO, Luiz Ângello Pelinsari. A Geopolítica brasileira e sua influência para as iniciativas 
nacionais. Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. 
2019. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 12 EEB 


CARNEIRO, Camilo Pereira; SANTOS, Jéssica Alves do; VANDERLEI, Maria Luiza Nogueira. Os 
Brasiguaios e sua influência política e econômica no Paraguai: racismo e nacionalismo no Mercosul do 
Século XX. Revista Geonorte, V.11, N.37, p.132 - 153, 2020. 


DIVISÃO politico-administrativa e regional. IBGE educa. 2021. Disponível em:< https://educa.ibge.gov. 
br/jovens/conheca-o-brasil/territorio/18310-divisao-politico-administrativa-e-regional.html>. Acesso em: 
16 de abr. de 2021. 


GREVE na Argentina afeta fronteira com Foz do Iguaçu. ClikFoz. 2017. Disponível em:< https:/Avww. 
clickfozdoiguacu.com.br/greve-na-argentina-afeta-fronteira-com-foz-iguacu/>. Acesso em: 16 de abr. de 
2021. 


JESUS, Fernanda Delgado de; CARDOSO, João Victor Marques. Vulnerabilidade estrutural da 
Venezuela e os impactos ao entorno estratégico Sul-Americano. R. Esc. Guerra Nav., Rio de Janeiro, 
v. 25, n.1, p. 226 - 252. janeiro/abril. 2019. 


MALAGRIDA, Carlos Badia. El factor geográfico en la política sudamericana. 2º ed. Madri: Instituto 
Editoral Réus, 1946. 


PEREIRA FILHO, José. A ocupação das terras de córrego das pedras no Sudoeste de Mato- 
Grossense. In: OLIVEIRA, Robson José de. Agricultura em foco: tópicos em manejo, fertilidade do 
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PFRIMER, Matheus Hoffmann. Heartland Sul-americano? Dos discursos geopolíticos à territorialização 
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RODRIGUES, Lysias Augusto. Geopolítica do Brasil. Rio de Janeiro: Ministério da Guerra, 1947. 


SABOYA, André Nassim de. O pensamento de Mario Travassos e a política externa brasileira. Revista 
de Geopolítica, v. 9, nº 2, p. 29 - 50, jul./dez. de 2018. 


SIMÕES, Sulamita Oliveira. A concepção de fronteira na perspectiva da política territorial brasileira e as 
áreas de livre comércio na Amazônia: um aporte baseado nos principais instrumentos jurídico-políticos. 
(RELEA) Revista Latino-Americana de Estudos Avançados, Vol. 2, n. 1 ago-dez/2017. 


TRAVASSOS, Mário. Projeção Continental do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2º Ed, 
1935. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 12 KEN 


CAPÍTULO 13 


A VULNERABILIDADE DE INFRAESTRUTURA E 
MEIO AMBIENTE DOS MUNICIPIOS INSERIDOS NA 
BACIA DO RIO PIRACICABA/MG 


Data de aceite: 02/08/2021 
Data de submissão: 25/06/2021 


Ewerton Ferreira Cruz 

Pontifícia Universidade Católica de Minas 
Gerais, Departamento de Geografia 

Belo Horizonte/MG 
http://lattes.cnpqg.br/2709089724771845 


Alecir Antonio Maciel Moreira 

Pontifícia Universidade Católica de Minas 
Gerais, Departamento de Geografia 

Belo Horizonte/MG 
http://lattes.cnpg.br/3573918935578179 


José Henrique Izidoro Apezteguia Martinez 
Pontifícia Universidade Católica de Minas 
Gerais, Departamento de Geografia 

Belo Horizonte/MG 
http://lattes.cnpg.br/5985053272787633 


RESUMO: A Bacia do Rio Piracicaba, situada nas 
Mesorregiões Metropolitana de Belo Horizonte 
e Vale do Rio Doce no estado de Minas Gerais 
apresenta diversas suscetibilidades ambientais 
dentre elas pode-se destacar a universalização 
do saneamento básico. Percorrida por 
bandeirantes desde o início da conquista do 
território mineiro, a bacia do rio Piracicaba 
abriga um dos rios mais degradados da bacia 
do rio Doce. A bacia abrange 20 municípios 
mineiros e a sua ocupação intensificada teve 
início no final do século XVII, com a extração 
de ouro. Desde então há um crescimento na 
ocupação dos municípios superior à instalação 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 


de equipamentos de infraestrutura relacionada 
ao saneamento ambiental. O objetivo geral 
desse trabalho foi caracterizar as condições de 
suscetibilidade de saneamento e meio ambiente 
dos municípios da Bacia do Rio Piracicaba no 
Estado de Minas Gerais. Utilizou-se o modelo 
o Índice de Vulnerabilidade de Infraestrutura e 
Meio Ambiente (IVIMA) de Maciel et al. (2005), 
englobando as infraestruturas dos municípios 
relacionadas ao saneamento ambiental. Como 
resultado, foi possível identificar que grande parte 
dos municípios (treze) possui vulnerabilidade 
de infraestrutura e saneamento baixos, com 
menos de 20% dos domicílios com saneamento 
inadequado e o município de Antônio Dias é o 
que possui maior IVSMA considerado como 
inadequado. 

PALAVRAS-CHAVE: Abastecimento, 
Lixo. 


Esgoto, 


THE VULNERABILITY OF 
INFRASTRUCTURE AND ENVIRONMENT 
IN THE MUNICIPALITIES INSERTED 
IN THE PIRACICABA RIVER BASIN IN 
MINAS GERAIS STATE 
ABSTRACT: The Piracicaba River Basin, 
located in the Mesoregions Metropolitan of Belo 
Horizonte and Vale do Rio Doce in the state of 
Minas Gerais, presents several environmental 
susceptibilities among which the universalization 
of basic sanitation can be highlighted. Traversed 
by Bandeirantes since the beginning of the 
conquest of Minas Gerais territory, the Piracicaba 
River basin is one of the most degraded basin 
in the Doce River basin. The basin covers 20 
municipalities in Minas Gerais and its intensified 


Capítulo 13 


occupation began at the end of the 17th century, with the extraction of gold. Since then, there 
has been a growth in the occupation of municipalities that is greater than the installation of 
infrastructure equipment related to environmental sanitation. The objective of this work was to 
characterize the conditions of environmental and sanitation susceptibility in the municipalities 
of the Piracicaba River Basin in the State of Minas Gerais. The Infrastructure and Environment 
Vulnerability Index (IVIMA) model by Maciel et al. (2005), encompassing the infrastructure of 
municipalities related to environmental sanitation was used as method. As a result, it was 
possible to identify that most of the municipalities (13) have low infrastructure and sanitation 
vulnerability, with less than 20% of households with inadequate sanitation and the municipality 
of Antônio Dias is the one with the highest IVIMA considered as inadequate. 

KEYWORDS: Water Supply, Sewage, Garbage. 


11 INTRODUÇÃO 


A Bacia Hidrográfica do Rio Piracicaba - BHRP constitui um microcosmo interessante 
do território de Minas Gerais. Ela ocupa uma área de aproximadamente 5.706 km2 
localizada em duas mesorregiões: a Metropolitana de Belo Horizonte e Vale do Rio Doce 
(IGAM, 2010). Ele tem suas nascentes localizadas no município de Ouro Preto e foz no Rio 
Doce, na divisa dos municípios de Ipatinga e Timóteo (IGAM, 2010). A BHRP abrange total 
ou parcialmente 20 municípios mineiros. 

De acordo com Paula (1997), a ocupação da bacia teve como propulsor o início 
da extração de ouro no século XVII nos municípios de Ouro Preto e Mariana, dois dos 
mais antigos mais importantes da história do Brasil. Com a busca intensa desse mineral 
em diversas áreas próximas a esses municípios, diversas vilas foram fundadas, as quais 
posteriormente originaram as cidades de Antônio Dias, Catas Altas, Itabira, Santa Bárbara 
e Nova Era. 

Posteriormente, no século XX, houve a construção da Estrada de Ferro Vitória-Minas, 
fazendo com que novas ocupações surgissem, bem como a instalação de novas industrias. 
A descoberta de novas jazidas de minério de ferro atraiu empresas do ramo minerário para 
a região, realimentando o processo de ocupação. Indústrias de beneficiamento de minério, 
as siderúrgicas (BRAGA, 1998), foram para aí atraídas. Logo, induziu-se a necessidade 
de produção de carvão vegetal, que serve como combustível no processo de tratamento 
do minério de ferro. Favorecidas por incentivos fiscais e políticas públicas, empresas 
começaram a investir no reflorestamento através da monocultura de eucalipto. Para além 
da perda de cobertura vegetal e da fragmentação de habitats, o processo de produção do 
espaço brasileiro condicionou a existência de um conjunto de problemas socioambientais 
de grande monta. 

Para tornar ainda mais complexa a situação da bacia, no ano de 2015, a bacia 
do rio Doce foi fortemente impactada por um desastre ambiental decorrente da atividade 
minerária, que afetou, a jusante, larga porção do território mineiro: o desastre do rompimento 
da barragem de Fundão em Mariana (MG). Entre os impactos do desastre incluem-se a 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 13 [1360 


morte de milhares de animais, a poluição e assoreamento de cursos d'água, a supressão 
de vegetação ciliar e a contaminação de solos. 

De acordo com Plano de Ação de Recursos Hídricos da Unidade de Planejamento 
e Gestão dos Recursos Hídricos Piracicaba (IGAM, 2010), a bacia do Rio Piracicaba foi a 
bacia que apresentou o maior ritmo de crescimento populacional da bacia do Rio Doce, 
apresentando um índice médio de crescimento de 1,20% ao ano (2000 a 2007). Esse 
crescimento populacional implica diretamente a criação de equipamentos de infraestrutura 
de saneamento. 

Em relação ao saneamento básico da BHRP, quase 97% da população possuem 
abastecimento e menos de 20% dos esgotos são tratados. O abastecimento de água na bacia 
contava, no ano de 2007, com um índice médio de 96,7% da população urbana atendida. 
Entre os munícipios localizados na BHRP, 17 possuem sua sede dentro da área limitada 
da bacia, sendo que 7 deles têm abastecimento universalizado, 8 apresentam índice de 
atendimento acima de 95%, e 2 possuem índice de atendimento de aproximadamente 82%. 
Em relação ao esgotamento sanitário, os municípios da BHRP coletam, aproximadamente, 
84,6% do esgoto produzido e do total coletado apenas 19,4%. 3 dos 17 municípios com 
cede dentro da BHRP tratam 100% do esgoto produzido, porém a grande maioria não 
possui tratamento de esgoto (IGAM, 2010). 

Diante do exposto, constitui objetivo geral deste estudo caracterizar as condições de 
suscetibilidade de saneamento e meio ambiente. 


21 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS 


O Índice de Vulnerabilidade de Infraestrutura e Meio Ambiente (IVIMA) é um índice que 
engloba a infraestrutura do município, principalmente àquelas relacionadas ao saneamento 
ambiental. O IVIMA teve como origem no trabalho desenvolvido no Departamento de 
Economia Universidade Mackenzie por Maciel et al. (2005) e foi apresentado à Associação 
Nacional dos Centros de Pós-graduação em Economia — ANPEC no mesmo ano. 

O modelo possui as seguintes variáveis: origem do abastecimento de água no domicílio 
(rede geral, poço, outro tipo); forma de abastecimento de água (canalizada em pelo menos 
um cômodo, canalizada só na propriedade, não canalizada); tipo de esgotamento (rede geral, 
fossa séptica, fossa rudimentar, vala, rio, lago, mar); destino do lixo domiciliar (coletado por 
serviço de limpeza, caçamba, queimado, enterrado, terreno baldio, jogado em rio, lago, mar); 
existência de iluminação elétrica no domicílio; existência de linha telefônica no domicílio. 

Os critérios de valoração das variáveis qualitativas do modelo do IVIMA foram 
realizados de acordo com o modelo proposto por Maciel et al. (2005) de forma adaptada. 
Sendo assim, os critérios foram divididos em não vulnerável (peso 0) e vulnerável (peso 1), 
conforme o quadro 1. Com o intuito de considerar a real situação dos municípios da bacia, 
foi considerado o percentual das residências que possuem características inadequadas, ou 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 13 





seja, consideradas vulneráveis. 


























Variável |Indicador Não vulnerável = O Vulnerável = 1 
Vi origem do abastecimento Rede Geral Poço ou outro tipo 
de água no domicílio 
forma de abastecimento Ganalizada em pelo menos 
Vv2 de doua um cômodo, canalizada só |Não canalizada 
9 na propriedade. 
Fossa séptica, fossa 
v3 tipo de esgotamento Rede Geral rudimentar, vala, rio, lago ou 
mar 
; Caçamba, queimado, 
Vv4 destino do lixo domiciliar cena porsanigorda enterrado, terreno baldio, 
p jogado em rio, lago ou mar 
v5 existência de iluminação eira hã 
elétrica no domicílio 
v6 existência de linha ” Si não 
telefônica no domicílio 











Quadro 1: Critérios para Construção do índice de Vulnerabilidade em Infraestrutura e Meio Ambiente - 
IVIMA. 


Fonte: Maciel et al, 2005. 


Em relação à caracterização da origem e da forma de abastecimento de água, foram 
utilizados os dados do Censo demográfico realizado pelo IBGE no ano de 2010. Como 
variáveis para essas duas características tem-se a quantidade de casas que recebem água 
da rede geral de distribuição. Outra característica importante é aquela que diz respeito às 
residências que têm como fonte de água os poços ou nascentes em suas propriedades, 
bem como outras formas de abastecimento que não estão incluídas nas duas anteriores. 

Para a caracterização da origem de abastecimento, foi considerado como 
inadequadas aquelas que não advém das redes de distribuição geral, ou seja, as de poços, 
nascentes ou outras formas. Essa característica foi definida porque se a água não vem 
da rede geral a probabilidade de não haver nenhuma forma de tratamento é praticamente 
de 100%. De forma inversamente análoga foi considerado como forma de abastecimento 
adequada as propriedades que recebem água canalizada da rede geral de distribuição. 

Para quantificar o percentual de residências que possuem esgotamento sanitário 
inadequados, foi considerado como inadequados o esgotamento sanitário realizado em 
fossas sépticas, as residências que não possuem banheiros e outros tipos de esgotamento 
sem considerar as residências que possuem ligação com a rede geral de esgoto. De forma 
geral, todos os tipos de esgotamento sanitário que não são da rede coletora de esgoto 
foram classificados como vulneráveis. 

Para a caracterização do destino do lixo domiciliar também foram utilizados os dados 
do censo demográfico de 2010 disponibilizado pelo IBGE. Nesse aspecto, de acordo com 
a pesquisa, foram subdivididos os tipos de destino do lixo domiciliar em: diretamente por 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 13 KEN 


serviço de limpeza, em caçamba de serviço de limpeza e outros (não coletados). Portando, 
para determinar a porcentagem de destino inadequado de cada município foi considerado 
como inadequado as residências que não são contempladas com o serviço de coleta. 
Para a obtenção do mapa síntese de vulnerabilidade de infraestrutura e saneamento 
foram somados os valores das variáveis e transformados em porcentagem através da 


equação 


IVIMA = (Vi + V2 + V3 + V4 + V5 + V6) x 100 
6 
As variáveis V5 (existência de iluminação elétrica no domicílio) e V6 (existência de 





linha telefônica no domicílio) foram desconsideradas para o presente estudo, pois estas 
variáveis não se adaptam, visto que há universalização de energia elétrica no Estado de 
Minas Gerais e, a existência de linha telefônica não se adequa no diagnóstico ambiental 


para a conservação, conforme exposto por Moreira (2015) (Figura 2). 





Figura 1: Fluxograma da metodologia utilizada na produção de mapas. 


Fonte: Maciel et al (2005), adaptado pelos autores. 


A partir do resultado da equação, foi possível reclassificar os municípios segundo o 
grau de vulnerabilidade (Quadro 2). 





Grau de 
Vulnerabilidade 


(%) 
1-25 
26-50 
51-75 
76-100 








Quadro 2: Escala de Vulnerabilidade a Infraestrutura e Meio Ambiente. 


Fonte: Dos autores. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 13 KER 


Foi utilizado o software ArcGis para O processamento e geração de mapas na versão 
10.3 da empresa ESRI no laboratório de Cartografia do Programa de Pós-Graduação em 
Geografia — Tratamento da Informação Espacial da Pontifícia Universidade Católica de 
Minas Gerais. 


31 RESULTADOS E DISCUSSÃO 


Após a observação das características físicas da bacia do Rio Casca foi possível 
avaliar o grau de vulnerabilidade parcial (das variáveis: geologia, solo, declividade e 
cobertura do solo) conforme a 

De acordo com os dados do censo demográfico realizado pelo IBGE no ano de 
2010, os municípios da bacia do Rio Piracicaba possuem IDHM classificado como médio e 
alto (Figura 3). Os municípios classificados como médio estão localizados na região centro- 
oeste (Alvinópolis, Rio Piracicaba, São Domingos do Prata, Bela Vista de Minas e São 
Gonçalo do Rio Abaixo), na região centro-sul (Catas Altas), na região oeste (Bom Jesus do 
Amparo) e na região centro-norte (Antônio Dias, Martiéria e Jaguaraçu). Já os municípios 
que possuem IDHM classificados como alto estão localizados na região sul e sudoeste 
(Ouro Preto, Mariana e Barão de Cocais), na região oeste (Itabira e Nova Era), na região 
central (João Monlevade) e na região norte (Coronel Fabriciano, Timóteo e Ipatinga). 

O IDHM considera três dimensões: longevidade, educação e renda. Esse indicador 
é utilizado para avaliar o desenvolvimento dos municípios brasileiros. Pode-se dizer que 
o IDHM tem relação direta com a infraestrutura de saneamento de um município. Os 
indicadores de infraestrutura de saneamento e meio ambiente podem ser utilizados como 
prenúncio da qualidade de vida da população. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 13 140 


43400'W 43200'W 


' Bacia do Rio Piracicaba - MG 
Indice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) 


42"400"W 





19º200"€ 
19º200"€ 


20'00"s 19º400"S 
19º400"s 


20'00's 


20º200"S 
20"200"s 


FONTE: IBGE, 2010. 
GEOPROCESSAMENTO: Ewerton Ferreira Cruz, 2017 (PPGG-TIE/PUC-Minas) 


43º400"W 43º200"'W 43º00"W 42º400"W 
Figura 3: Mapa da distribuição do IDHM nos municípios da bacia do Rio Piracicaba. 


Fonte: IBGE, 2010. 


A qualidade de infraestrutura de saneamento e meio ambiente dos municípios 
foi defina através da média aritmética da porcentagem de residências com origem do 
abastecimento, forma de abastecimento, tipo de esgotamento sanitário e destino do lixo 
domiciliar inadequados. 

A origem do abastecimento e a forma de abastecimento são variáveis similares pois, 
de forma geral, ambas as variáveis versam sobre a origem da água dos domicílios, ou seja, 
se ela é advinda da rede geral de distribuição ou não. Alguns municípios se destacam por 
possuir baixos índices de origem e forma do abastecimento inadequados (Quadro 3). O 
município de João Monlevade possui o menor índice com 2,03%, seguido por Timóteo, 
com 6,59% e Itabira com 8,26%. De maneira inversa, os três municípios que possuem os 
maiores índices são: Antônio Dias (55,15%), Marliéria (44,77%) e Bom Jesus do Amparo 
(41,30%). 

Em relação ao tipo de esgotamento sanitário inadequado (Quadro 3), três municípios 
se destacam por ter baixos índices: Ipatinga, com 2,59% das residências; Timóteo, com 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 13 amo 


6,98%; e João Monlevade com 7,06%. Por outro lado, os municípios de Antônio Dias 
(50,45%), São Domingos do Prata (46,27%) e Bom Jesus do Amparo (44,21%) possuem 
os maiores índices de esgotamento sanitário inadequado. 

Já para o destino do lixo domiciliar considerado como inadequados (Quadro 3), 
os municípios de Ipatinga, Timóteo e João Monlevade possuem os menores índices, com 
taxa de, respectivamente, 0,27%, 0,94%, 0,98%. Todavia, outros três municípios possuem 
as maiores taxas de destino do lixo inadequado, são eles: Antônio Dias (50,90%), São 
Domingos do Prata (36,61%) e Bom Jesus do Amparo (29,10%). 

Por fim, em relação às médias, como pode ser observado no Quadro 3, o município 
de João Monlevade é o que possui a menor taxa de saneamento inadequado, com apenas 
3,02% das residências, seguido pelo município de Timóteo com 5,18%, e Ipatinga com 
5,83%. Por outro lado, três municípios se destacam por ter auto índice de residências com 
saneamento inadequado, são eles: Antônio Dias, com 52,91%; Bom Jesus do Amparo, com 
38,98%; e São Domingos do Prata com 38,87%. 















































mn o ae, | esgotamento | Destinado | média 
sanitário 
Alvinópolis 28,61% 28,61% 27,85% 26,73% 27,95% 
Antônio Dias 55,15% 55,15% 50,45% 50,90% 52,91% 
Barão de Cocais 12,38% 12,38% 17,06% 4,32% 11,53% 
Bela Vista de Minas 11,21% 11,21% 13,53% 5,09% 10,26% 
Bom Jesus do Amparo 41,30% 41,30% 44,21% 29,10% 38,98% 
Catas Altas 14,79% 14,79% 15,42% 11,84% 14,21% 
Coronel Fabriciano 11,98% 11,98% 12,51% 1,64% 9,53% 
Ipatinga 10,22% 10,22% 2,59% 0,27% 5,83% 
Itabira 8,26% 8,26% 11,50% 7,04% 8,76% 
Jaguaraçu 26,01% 26,01% 29,84% 10,70% 23,14% 
João Monlevade 2,03% 2,03% 7,06% 0,98% 3,02% 
Mariana 8,07% 8,07% 23,23% 9,86% 12,30% 
Marliéria 44,11% 44,17% 33,28% 12,86% 33,92% 
Nova Era 15,75% 15,75% 16,84% 3,38% 12,93% 
Ouro Preto 12,36% 12,36% 26,58% 6,71% 14,50% 
Rio Piracicaba 15,42% 15,42% 27,87% 13,51% 18,05% 
Santa Bárbara 10,56% 10,56% 16,50% 7,68% 11,33% 
São Domingos do Prata 36,30% 36,30% 46,27% 36,61% 38,87% 
São Gonçalo do Rio Abaixo 19,69% 19,69% 38,52% 9,67% 21,89% 
Timóteo 6,59% 6,59% 6,98% 0,94% 5,28% 




















Quadro 3: Porcentagem de residências que possuem saneamento inadequado por tipo de serviço. 


Fonte: IBGE, 2010 adaptado pelo autor. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 13 EL 


Pode-se perceber através da Figura 3 e Figura 4 que em relação à origem do 
abastecimento de água e à forma de abastecimento respectivamente, os municípios que 
possuem os piores índices relacionados à água de abastecimento são Bom Jesus do 
Amparo (região oeste), Marliéria e Antônio dias (região norte), possuindo entre 40 e 60% 
do abastecimento considerado como inadequados. Já em relação aos municípios com 20 a 
40% inadequados em relação à forma de abastecimento tem-se os municípios Alvinópolis, 
São Domingos do Prata (região oeste) e Jaguaruçu (região norte). Os demais municípios 
presentes na bacia possuem origem e forma de abastecimento adequados em 80% ou 
mais das residências. 


43400'W 43º200'W 43º00'W 42º400"W 
Bacia do Rio Piracicaba - MG 
Origem do Abastecimento 


19º200"s 
19"200"s 


19º400"S 


Eq 
E) 
É 
E 


20'00"'s 


20'200"S 
20'200"S 


ATA FONTE: IBGE, 2010. 
Fo) 5 410 GEOPROCESSAMENTO: Ewerton Ferreira Cruz, 2017 (PPGG-TIE/PUC-Minas) 





43º400"W 43200"W 43º00'W 42'400"W 


Figura 3: Mapa do percentual de origem do abastecimento de água inadequados dos municípios da 
bacia do Rio Piracicaba. 


Fonte: IBGE, 2010. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 13 





43400'W 43200'W 


Bacia do Rio Piracicaba - MG 
Forma de Abastecimento 


42"400"W 





19º200"€ 
19º200"s 


19º400"S 
19400"s 


2o'00's 


20'00"s 


20º200"S 
20"20'0"s 


FONTE: IBGE, 2010. 
GEOPROCESSAMENTO: Ewerton Ferreira Cruz, 2017 (PPGG-TIE/PUC-Minas) 


43400"W 43200'W 43º00"W 42º400"W 


Figura 4: Mapa do percentual de forma de abastecimento de água inadequado dos municípios da bacia 
do Rio Piracicaba. 


Fonte: IBGE, 2010. 


Já em relação ao destino do lixo familiar (Figura 5), percebe-se que o único município 
que possui entre 40 e 60% de destino inadequado é o município de Antônio Dias, que está 
localizado na região noroeste da bacia. Outros municípios que devem ser destacados são 
os municípios de Bom Jesus do Amparo (região oeste), Alvinópolis e São Domingos do 
Prata (região leste) que possuem uma destinação inadequada do lixo em cerca de 20 a 
40% dos municípios. Já os demais municípios possuem menos de 20% dos domicílios com 
destino inadequado do lixo. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 13 ELES 


43:400"W 42'400"W 
Bacia do Rio Piracicaba - MG 
Destino do Lixo 


19º200's 
19º200"€ 


19º400"S 
19º400"S 


20'00's 


20'00's 


20*20'0'S 
20*200's 


FONTE: IBGE, 2010. 
GEOPROCESSAMENTO: Ewerton Ferreira Cruz, 2017 (PPGG-TIE/PUC-Minas) 





43400"W 43200"W 43º00"'W 42400'W 


Figura 5: Mapa do percentual de destino inadequado do lixo dos municípios da bacia do Rio Piracicaba. 
Fonte: IBGE, 2010. 


Em relação ao esgotamento sanitário tem-se que dez municípios presentes na bacia 
do Rio Piracicaba possuem menos de 20% dos domicílios com forma de esgotamento 
sanitário inadequados, são eles: Barão de Cocais, Santa Bárbara, catas Altas, Itabira, João 
Monlevade, Bela Vista de Minas, Nova Era, Timóteo, Coronel Fabriciano e Ipatinga. Sete 
dos municípios presentes na bacia possui entre 20 e 40% dos domicílios com forma de 
esgotamento sanitário inadequado (Ouro Preto, Mariana, Alvinópolis, São Gonçalo do Rio 
Abaixo, Rio Piracicaba, Jaguaraçu e Marliéria). Os outros três municípios que possuem 
a pior qualidade em relação à forma de esgotamento sanitário da bacia em análise são 
Bom Jesus do Amparo, São Domingos do Prata e Antônio Dias, onde entre 40 e 60% das 
residências possuem forma de esgotamento inadequado (Figura 6). 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 13 1485 


43º400"W 43200"W 43º00"W 42:400'W 
Bacia do Rio Piracicaba - MG 
Tipo de Esgotamento Sanitário 


19º200"s 
19"200"s 


19º400"S 
20'00's 19'400"S 


20'00"'s 


20º200"S 
2o"200"s 


FONTE: IBGE, 2010. 
GEOPROCESSAMENTO: Ewerton Ferreira Cruz, 2017 (PPGG-TIE/PUC-Minas) 





43:400"W 43200"W 43º00"W 42"400"W 
Figura 6: Mapa de tipo de esgotamento sanitário inadequado municípios da bacia do Rio Piracicaba. 
Fonte: IBGE, 2010. 


A partir da média aritmética dessas variáveis foi produzido o mapa de vulnerabilidade 


de infraestrutura e saneamento dos municípios da Bacia do Rio Piracicaba, que pode ser 
observada na Figura 7. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 13 [1460 


19'200"s 


19'200"S 


Bacia do Rio Piracicaba - MG 
Média dos dados de Infraestrutura e Saneamento 


19'400's 
194005 


zo00's 
20'00's 


o zoo's 
20'200'5 


: IBGE, 2010. 


FONTE 
GEOPROCESSAMENTO: Ewerton Ferreira Cruz, 2017 (PPGG-TIE/PUC-Minas) 





43400'W 43200"W 43º00"W 42400"W 
Figura 7: Vulnerabilidade de infraestrutura e meio ambiente dos municípios da bacia do rio Piracicaba. 


Fonte: Dos autores. 


Grande parte dos municípios (treze) possui vulnerabilidade de infraestrutura e 
saneamento baixos, com menos de 20% dos domicílios com saneamento inadequado. Os 
municípios que possuem entre 20 e 40% dos domicílios com saneamento inadequado estão 
localizados na região leste (Alvinópolis, São Domingos do Prata, Marliéria e Jaguaraçu) e 
na região ocidental da bacia (Bom Jesus do Amparo e São Gonçalo do Rio Abaixo). O 
município que possui o pior índice é Antônio Dias, onde cerca de 52,91% dos domicílios 
possuem infraestrutura de saneamento e meio ambiente inadequados. 


41 CONSIDERAÇÕES FINAIS 


Apesar dos resultados apresentarem, em sua maior parte, como municípios de 
baixa vulnerabilidade em relação à infraestrutura de saneamento e meio ambiente através 
da metodologia adotada, é necessário ressaltar que os resultados não demonstram o ideal. 
O ideal, para minimizar os problemas ambientais relacionados com o saneamento, é que 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 13 





todos os domicílios sejam contemplados por infraestrutura de saneamento adequado. 

Este estudo foi utilizado como parte de uma metodologia para identificar áreas 
prioritárias para conservação, considerando que municípios que possuem maior 
universalização do acesso às infraestruturas de saneamento são mais adequados para a 
implantação de áreas para a conservação da natureza. 


REFERÊNCIAS 


BRAGA, T. Conflito Sócio-Ambiental e Constituição de Agentes Sociais Ambientalistas: um 
estudo sobre as cidades industriais da bacia do Rio Piracicaba (MG). Belo Horizonte, 1998. 


INSTITUTO MINEIRO DE GESTÃO DAS ÁGUAS - IGAM. Plano de Ação de Recursos Hídricos 
da Unidade de Planejamento e Gestão dos Recursos Hídricos Piracicaba- PARH Piracicaba. 
Consórcio ECOPLAN Engenharia e LUME Estratégia Ambiental. Maio de 2010. 100 p. 


MACIEL, V. F.; KUWAHARA, M. Y.; SILVA, R. da; OLIVEIRA, K. Vulnerabilidades urbanas: uma 
alternativa de mensuração. Em: Encontro Nacional de Economia, 33, 2005, Natal. Anais... Natal: 
ANPEC, 2005. 


MOREIRA, A. A. M.. Desafios à conservação na Bacia do Paraobeba-MG: identificando valores. 
Tese de doutorado. PUC-Minas. PPG em Geografia — Tratamento da Informação Espacial. Belo 
Horizonte, 2015, 287 p. 


PAULA, J. A. Biodiversidade, população e economia: uma região de mata atlântica. Belo 
Horizonte: UFMG/Cedeplar; ECMVC; PADCT/CIAMB , 1997. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 13 148 


CAPÍTULO 14 


IMPACTOS SOCIOAMBIENTAIS E RECUPERAÇÃO 
DE ÁREAS DEGRADADAS APÓS O 
MEGADESASTRE DE 2011 EM NOVA FRIBURGO 


Data de aceite: 02/08/2021 
Data de submissão: 05/07/2021 


Denise de Almeida Gonzalez 

Doutoranda do PPGEO UERJ (Programa de 
Pós-Graduação em Geografia da Universidade 
do Estado do Rio de Janeiro) 

Rio de Janeiro (RJ) 
http://lattes.cnpq.br/4088589578771957 


Alexander Josef Sá Tobias da Costa 
Professor Associado — IGEOG (Instituto de 
Geografia) / PPGEO UERJ (Programa de Pós- 
Graduação em Geografia da Universidade do 
Estado do Rio de Janeiro) 

Rio de Janeiro (RJ) 
http://lattes.cnpqg.br/4646726597049553 


RESUMO: Em janeiro de 2011, a região serrana 
do Estado do Rio de Janeiro passou por uma 
catástrofe deflagrada por chuvas torrenciais e 
contínuas, que provocaram a saturação dos 
solos, ocasionando inundações e uma sucessão 
de movimentos de massa, modificando aspectos 
hidrogeomorfológicos locais no chamado 
Megadesastre' 11. Neste capítulo, será analisada 
a recuperação de diferentes pontos no município, 
oito anos após o desastre: uma área localizada 
no Condomínio do Lago, no distrito de Campo 
do Coelho, na vila de Conquista; e outra no 
entorno de um prédio na área central da cidade. 
A metodologia de pesquisa consistiu em um 
levantamento bibliográfico, trabalho de campo 
e entrevistas, assim como, questões sobre 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 


(RJ) 


vulnerabilidade da população, percepção do 
risco, sentimento de pertencimento e resiliência 
da mesma. Os resultados apontam para a falta 
de ações efetivas por parte do poder público para 
a recuperação dessas áreas, o que impactou (e 
ainda impacta) de forma significativa a qualidade 
de vida das populações envolvidas com o 


megadesastre. 
PALAVRAS-CHAVE: Desastre Natural, 
Áreas Degradadas, Percepção de Risco, 


Vulnerabilidade, Resiliência. 


SOCIAL AND ENVIRONMENTAL IMPACTS 
AND RECOVERY OF DEGRADED AREAS 
AFTER THE 2011 MEGA DISASTER IN 
NOVA FRIBURGO (RJ) 
ABSTRACT: In January 2011, the mountainous 
region of the State of Rio de Janeiro went 
through a catastrophe triggered by torrential 
and continuous rains, which caused the 
saturation of the soils, causing floods and a 
succession of mass movements, modifying local 
hydrogeomorphological aspects in the so-called 
Megadisaster 11. In this chapter, the recovery 
of different points in the municipality, eight years 
after the disaster, will be analyzed: an area 
located in Condomínio do Lago, in the Campo 
do Coelho district, in the village of Conquista; 
and another around a building in the central 
area of the city. The research methodology 
consisted of a bibliographic survey, field work 
and interviews, as well as questions about the 
population's vulnerability, risk perception, sense 
of belonging and resilience. The results point to 
the lack of effective actions by the government for 
the recovery of these areas, which significantly 


Capítulo 14 


impacted (and still impacts) the quality of life of the populations involved in the megadisaster. 
KEYWORDS: Natural Disaster, Degraded Areas, Perception of Risk, Vulnerability, Resilience. 


11 INTRODUÇÃO 


Em janeiro de 2011, a região serrana do Estado do Rio de Janeiro teve um 
elevado número de deslizamentos, que abrangeram seis municípios - com destaque 
para Nova Friburgo, Petrópolis e Teresópolis. Este conjunto de eventos ficou conhecido 
como Megadesastre'11 da Serra Fluminense (DRM-RJ, 2011) e provocou muitos óbitos, 
desaparecidos e desabrigados, afetando áreas rurais e urbanas sob diferentes tipos de 
uso e cobertura dos solos. O agente deflagrador deste desastre natural foi uma elevada 
quantidade de chuva que compreendeu os dias de 11 e 12 de janeiro de 2011 e o resultado 
envolveu uma combinação de diferentes fatores, como aspectos geológicos, hidrológicos, 
geomorfológicos, climatológicos, do uso e da ocupação do solo. 

Os desastres naturais são fenômenos complexos que envolvem a população e os 
fenômenos naturais que fazem parte da dinâmica terrestre (como movimentos de massa, 
terremotos, tsunamis e furacões), podendo causar mortes, perdas materiais e prejuízos 
financeiros consideráveis (Tominaga, 2009). São causados por fenômenos da natureza 
que ocorrem independentemente da ação humana. Em geral, considera-se como desastre 
natural todo aquele que tem como gênese um fenômeno natural de grande intensidade, 
agravado, ou não, pela atividade humana (TOMINAGA, 2009). 

Como recorte espacial para a elaboração deste estudo, foram observados três 
pontos de recuperação de área degradada: uma área na estrada Teresópolis-Nova Friburgo 
(RJ 130), como exemplo de recuperação bem-sucedida após o megadesastre de 2011; 
outro local, um prédio que se tornou símbolo do evento (Voz da Serra, 2017), situado na 
área central da cidade; e, como último exemplo, a região turística de um camping no distrito 
de Lumiar. 

A questão da percepção de risco dos moradores pode ser analisada, pois moradores 
estavam — e ainda estão sujeitos até hoje a essa situação — e também no que se refere à 
questão de vulnerabilidade. Segundo Sausen (2015, p.27), por vulnerabilidade entendemos 
“conjunto de processos e condições resultantes de fatores físicos, sociais, econômicos e 
ambientais que aumenta a probabilidade de um determinado grupo populacional sofrer os 
impactos dos perigos”. 

Perigo e risco são conceitos diferentes e, ao mesmo tempo, complementares. 
Segundo a Organização das Nações Unidas, perigo é considerado como uma circunstância 
que prenuncia um mal para alguém ou alguma coisa, portanto pode causar dano, perda 
ou prejuízo ambiental, humano, material ou financeiro, enquanto risco é dado como sendo 
a probabilidade (ou frequência) esperada de ocorrência dos danos, perdas ou prejuízo 
consequentes da consumação do perigo (Tominaga, 2009). Para Veyret (2007), risco é a 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 14 [1500 


probabilidade mensurável de um perigo transformar-se em desastre, citando que “não há 
risco sem uma população ou indivíduo que o perceba e que poderia sofrer seus efeitos”. 

De acordo com aspectos econômicos, sociais, de escolaridade, culturais, 
comunitários e mesmo individuais da população, são identificadas diferentes formas de 
superação ao desastre, ou seja, o poder de resiliência da população. Nesse trabalho, 
há o enfoque à percepção do risco após o desastre natural de 2011 e também o poder 
de resiliência desta mesma população. A resiliência, conceito emprestado da física e 
engenharia, foi introduzida nas pesquisas das ciências da saúde há mais de 30 anos. Esta 
sofre transformações desde sua definição inicial como um traço ou característica individual, 
até ser considerada como um processo que se desenvolve no âmbito das interações 
humanas frente às adversidades, tendo como resultado a superação (Souza, 2011). 

O sentimento de pertencimento pode ser um ponto chave para a resiliência dos 
moradores nos três exemplos de locais de recuperação de área degradada nesta pesquisa. 
Observou-se o poder de resiliência da população frente ao desastre natural, assim como 
formas simples de alerta elaborado por esta última. Por recuperação de área degradada, 
podemos dizer que existem algumas diferenciações, como observado na Lei nº 9.985, 
de 18 de julho de 2000 (Brasil, 2000), em seu art. 2º, que distingue, para seus fins, um 
ecossistema “recuperado” de um “restaurado”, da seguinte forma: 


XIII - recuperação: restituição de um ecossistema ou de uma população 
silvestre degradada a uma condição não degradada, que pode ser diferente 
de sua condição original; 


XIV -- restauração: restituição de um ecossistema ou de uma população 
silvestre degradada o mais próximo possível da sua condição original. 
(BRASIL, 2000). 
Ao mesmo tempo, segundo Majer (1989) apud Ribeiro (2015), uma área de 
reabilitação é diferente das citadas anteriormente visto que é: 


o retorno da área degradada a um estado biológico apropriado. Esse retorno 
não significa necessariamente que a área poderá ter um uso produtivo em 
longo prazo, mas pode ser usada como uma atividade alternativa, adequada 
ao uso humano e não aquela de reconstruir a vegetação original, como 
valorização estético-ecológica e para fins de recreação. O planejamento 
dessa atividade deve ser projetado de modo a não causar impactos negativos 
no ambiente. 


A principal consequência do desastre natural no condomínio do Lago está relacionada 
à ocorrência de movimentos de massa nas encostas ao longo de toda a área e a enchentes 
e inundações do rio Grande, próximo ao condomínio. Este mesmo fato ocorreu na área 
central deste município. Movimentos de massa são fenômenos comuns na realidade 
brasileira e podem ocasionar danos irreversíveis. Esses fenômenos se constituem como 
um dos principais agentes de modificação da paisagem, e são responsáveis, juntamente 
com outros processos naturais, pela contínua modelagem das formas de relevo (Guerra e 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 14 pasto 


Jorge, 2013). Os mesmos autores, citando Fernandes et al. (in Guerra e Jorge, 20183, p. 
95), indicam que 


Movimentos de massa são processos desencadeantes nas encostas, 
decorrentes da atuação integrada de diversos fatores condicionantes, e 
caracterizados pelo movimento gravitacional de material, descendente e para 
fora da encosta. 


Também inseridos no megadesastre de 2011, outros eventos ocorreram em Nova 
Friburgo, como enchentes e inundações. As enchentes ou cheias são definidas pela elevação 
do nível d'água no canal de drenagem, devido ao aumento da vazão, atingindo a cota 
máxima do canal, porém, sem extravasamento. Inundação representa o transbordamento 
das águas de um curso d'água, atingindo a planície de inundação ou área de várzea. O 
alagamento é um acúmulo momentâneo de águas em determinados locais por deficiência 
no sistema de drenagem e, por fim, a enxurrada é escoamento superficial concentrado e 
com alta energia de transporte, que pode ou não estar associado a áreas de domínio dos 
processos fluviais (MIN. CIDADES/IPT, 2007). 

No distrito de Lumiar, cortando toda a APA de Macaé de Cima, o rio Macaé propicia 
várias cachoeiras e áreas para atividades de recreação para a população e turistas. No 
megadesastre de 2011, este distrito não sofreu impactos diretos, mas sua população e a de 
Nova Friburgo, como um todo, tem aumentado a sua percepção de risco, visto que, mesmo 
numa área de lazer, providências para alerta aos turistas têm sido tomadas por alguns 
proprietários de estabelecimentos turísticos. 


21 MATERIAIS E MÉTODOS 


Para a elaboração deste artigo foi feito um levantamento bibliográfico sobre 
desastres naturais, riscos, percepção de risco, resiliência áreas degradas e recuperadas. 

Foram realizados dois trabalhos de campos para aquisição de dados com os 
moradores do condomínio do Lago através de entrevistas (num total de 20 entrevistas). As 
entrevistas foram realizadas de forma semiestruturada, com perguntas fechadas e abertas 
objetivando maior liberdade na obtenção das informações. 

Conforme Marconi e Lakatos (2010, p. 190), a observação “não consiste apenas em 
ver e ouvir, mas também em examinar fatos ou fenômenos que se desejam estudar”. Neste 
contexto, houve um destaque ao olhar dos moradores frente a recuperação do condomínio 
e o poder de resiliência dos mesmos. A observação também foi feita na área central do 
município, por meio do acompanhamento da recuperação do prédio que teve parte da sua 
estrutura abalada, desabando posteriormente, assim como de área ao seu redor. 


31 PONTOS DE RECUPERAÇÃO DOS EFEITOS DO MEGADESASTRE 


O primeiro local de estudo é um condomínio que está situado no município de Nova 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 14 as 


Friburgo, no distrito de Campo do Coelho, na vila de Conquista, a aproximadamente 18 km 
do centro de Nova Friburgo, na rodovia RJ-130. 

Além dos deslizamentos, ocorreu uma inundação devido a uma sucessão de 
deslizamentos no corte realizado na estrada próxima ao rio Grande, que se localiza em seu 
vale. Devido a este fato, houve a elevação do nível de água do canal, ocasionando, desta 
maneira, um quadro caótico que dificultou a evacuação dos moradores no Condomínio. 
Assim, ocorreram 16 óbitos na localidade, além da destruição ou danos parciais em 18 das 
23 casas existente, como mostram a Figura 1 (a) e 1(b). 


(a) 





(b) 





Figura 1- Imagens do Condomínio do Lago retiradas do Google Earth antes e dias após o desastre: (a) 
25 de maio de 2010, (b) Imagem do dia 19/01/2011. 


Fonte: OLIVEIRA et al. (2013). 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 14 EEE 


A partir de observações levantadas em trabalhos de campo em 2017, foi elaborada 
a Figura 2. No ponto (1) é observado o rio Grande, próximo ao condomínio e no número 
(2) localiza-se a área que está sendo reconstruída, onde pode ser identificada uma nova 
residência no ponto (3). A seguir, no ponto (4), ainda existe uma área com casas destruídas. 
Na área (5), foram identificadas algumas casas que foram reconstruídas pelos moradores. 
A seguir, no ponto (6), novas construções em fase de obras. Já no ponto (7), encontra- 
se a rodovia RJ-130 e por último a área (8) pode ser observada a encosta por trás do 


condomínio seis anos após o evento extremo de 2011. 


4738 30'W 
Mapa das observações de 
campo do Condomínio do 
Lago - Campo do Coelho - 
Nova Friburgo - RJ 
2010 


Legenda: 


1 Ponios Observados em campo 


Áreas de observação de campo. 





Sistema de Coordenadas Geográficas 
Sistema Geodésico: SIRGAS 2000 


Fonte: IBGE (2010) 
Imagem Soogle Eamh 


metros 


2r1410's 


azrasw 42I00"w 42150 W 





Figura 2 - Condomínio do Lago e observações de campo (2017). 


Posteriormente, na Figura 3 (a) e (b), é apresentado um trabalho de recuperação 
de área degradada no centro da cidade de Nova Friburgo. Neste local, observa-se um 
prédio onde um de seus blocos cedeu pelo impacto do movimento de massa em janeiro 
de 2011. Na Figura 3 (a), em fotografia tirada no ano de 2014, pode ser visto o prédio 
parcialmente destruído, destacando as encostas que sofreram intervenções a partir de 
trabalho de terraceamento e utilização de gabiões. Já na Figura 3(b), observa-se o mesmo 
prédio já totalmente reconstruído em dezembro de 2018. Ao mesmo tempo, é observada a 


encosta, ainda sem ocupação. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 14 EEE 


(a) 





PRI Spe 


Figura 3: (a) foto no ano de 2014 com parte do prédio destruído pelo movimento de massa e gabiões 
na encosta; (b) prédio reconstruído em 2018. 


Fonte: a autora (2019). 


41 RESULTADOS E DISCUSSÕES 


Através dos trabalhos de campo no condomínio do Lago, foi identificado um 
quadro contraditório: ao mesmo tempo em que foram constatadas diversas reformas e 
reconstruções de casas, as encostas ao redor do condomínio permanecem sem nenhum 
trabalho de recuperação das áreas degradadas, como, por exemplo, a partir da instalação 
de biomantas; cortinas ou contrafortes atirantados; ou gabiões — técnicas utilizadas em 
outros pontos dessa mesma estrada, localizados no distrito sede do município de Nova 
Friburgo e na área central do município. 

Nas entrevistas realizadas no condomínio do Lago, evidenciaram-se alguns fatos, 
como a maioria dos entrevistados ter a faixa etária entre 35 a 65 anos e estar no local no 
dia da ocorrência do megadesastre. Os entrevistados tinham residência própria e moravam 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 14 DES 


no local entre 10 e 20 anos. No dia do desastre, a maioria dos respondentes teve ajuda dos 
vizinhos e voluntários que também fizeram o trabalho de recuperação dos mortos frente ao 
ocorrido. A polícia, bombeiros e defesa civil, também ajudaram os moradores, porém, só no 
dia posterior ao evento. 

A recuperação do condomínio foi feita com recursos dos próprios moradores. Depois 
de intensa atuação frente aos órgãos competentes, foram instalados novos calçamentos, 
infraestrutura de saneamento e de energia elétrica, e novos postes para iluminação pública 
a partir da empresa local fornecedora de energia. Não houve ajuda financeira dos poderes 
públicos para recuperação das suas moradias: apenas os moradores que perderam 
totalmente suas moradias receberam o “aluguel social” ou novas moradias, como no projeto 
Terra Nova, construído em parceria pelos governos federal e estadual, posteriormente 
alvo de denúncias de desvios de recursos e corrupção em seus projeto e construção. 
Os entrevistados informaram que não saíram do local por possuírem moradia própria e 
gostarem do condomínio onde relataram ser uma área tranquila e longe da violência dos 
centros urbanos, assim como terem família e amigos no condomínio. 

Para estes moradores, o problema atual são as enchentes e inundações frequentes 
que ocorrem no rio Grande, próximo ao condomínio - embora os efeitos das inundações 
e dos alagamentos apenas se restrinjam ao calçamento das ruas, não alcançando suas 
casas. Para eles, as áreas bem próximas às encostas são perigosas e não querem que 
haja ocupação: se alguém for construir no local, haverá preocupação por sua parte. 

Até a data das entrevistas, os moradores afirmaram ocorrer uma valorização dos 
preços dos terrenos e imóveis dentro do condomínio, devido principalmente ao esforço de 
recuperação efetuada pelos próprios moradores. 

Poucos souberam informar quais ações poderiam ser elaboradas para melhorar 
a recuperação do condomínio; todavia, aqueles que deram sugestões, afirmaram que 
uma das medidas seria reflorestar a encosta atrás das moradias, visto que esta não tem 
quase nenhuma vegetação desde então, sendo percebidos somente alguns pinheiros que 
surgiram após o evento. Ao mesmo tempo, surgiram propostas para melhorar a drenagem 
do rio, a fim de evitar enchentes e inundações. Em termos de infraestrutura, uma proposta 
levantada foi a ampliação do calçamento das ruas do condomínio. 

A unanimidade em relatar o descaso dos órgãos públicos com os moradores do 
condomínio foi flagrante. Entrevistados e moradores alegam que a prefeitura só se faz 
presente no local para fiscalizar as construções, apontando os locais onde não podem 
ser realizadas construções. Entretanto, apontam o pagamento de impostos como objetivo 
principal das ações de fiscalização no local. Numa análise geral, os entrevistados temem 
e receiam a prefeitura. 

Numa última análise, todos os entrevistados manifestaram a intenção de continuar 
a morar no local e consideram que aqueles que saíram do condomínio foram somente os 


que perderam suas moradias. Foi registrado ainda um único morador que não continuou 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 14 KEN 


no local, possivelmente por ter outra residência assim como o desenvolvimento de traumas 


psicológicos surgidos em função do megadesastre de 2011. 


51 CONSIDERAÇÕES FINAIS 


Para a recuperação de áreas degradadas nos locais de estudo objetos desse 
trabalho, foram observadas diferentes práticas para cada tipo de situação, podendo ser 
destacada a diferença entre ambientes rurais e urbanos. Na área rural, percebeu-se a 
retomada de atividades agrícolas e desobstrução das estradas, como observamos no 
condomínio do Lago e através das entrevistas dos moradores. Nas áreas urbanas, também 
houve desobstrução das vias de acesso e recuperação das encostas, o que não ocorreu 
no condomínio do Lago. 

Durante as entrevistas no condomínio do Lago, foi possível perceber que os 
moradores não receberam assistência dos órgãos públicos para recuperação do 
condomínio, salvo logo após o desastre - para procura de desaparecidos e desobstrução 
das vias públicas. Receberam como ajuda governamental somente o aluguel social para 
moradia no período pós desastre — instrumento que foi destinado a um número restrito de 
moradores locais. 

Ficou evidenciada que a questão de resiliência dos moradores do condomínio do 
Lago e dos moradores do prédio no centro da cidade foi movida por apenas por ações 
individuais e comunitárias (mais relacionadas à infraestrutura, como energia elétrica e 
calçamento de vias públicas). Os moradores sentiram que tinham que deveriam empreender 
esforços pela recuperação de seu patrimônio, obtido a partir de seus trabalhos, sonhos 
e afetividade ao lugar em que residiram grande parte da vida. Assim, a afetividade, o 
pertencimento, a emoção e laços com a comunidade se tornaram elementos fundamentais 
para a recuperação após este evento extremo. Tal fato também ocorreu na recuperação 
do prédio embora alguns ex-moradores tenham desistido de seus imóveis. Para estes 
moradores, infelizmente os órgãos públicos são identificados com descaso, com uma 
atuação direcionada somente para cobrança de impostos, diferente do que deveria ser 
o papel do Estado. Apesar da complexidade da situação, todos conseguiram permissão 
legal para reconstruir suas moradias, embora esse processo seja lento, visto que anos 
se passaram e ele continue até a presente data. O prédio no centro da cidade teve a 
possibilidade de sua reconstrução logo após as secretarias municipais de Defesa Civil e 
Meio Ambiente emitirem laudos autorizando a deliberação por parte dos proprietários sobre 
o que seria feito com o imóvel. Com isso, em setembro de 2016, a empresa administradora 
do prédio iniciou um amplo levantamento de custos para a realização da obra. Segundo o 
síndico, “a expectativa para a conclusão desse projeto é muito grande, pois vai apagar uma 
mancha na história do município” (VOZ DA SERRA, 2017). 

Entretanto, considera-se muito difícil que as ações de recuperação acabem com as 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 14 





marcas históricas dos desastres naturais. Elas nos remetem à resiliência da população — 
porém, ao mesmo tempo, um conjunto de ações necessita ser implementada nos estudos 
sobre os desastres naturais (que podem se repetir no futuro): a inserção da população 
envolvida nas discussões, planejamentos e projetos; a capacitação de técnicos e 
profissionais dos órgãos públicos relacionados ao tema; a adoção de medidas preventivas 
e de alerta são alguns dos exemplos para que as perdas humanas e materiais se reduzam 
ou mesmo sejam nulas frente à ocorrência de novos eventos. Nesta pesquisa, observou- 
se que o destaque da recuperação das áreas degradadas partiu dos próprios moradores, 
demostrando o sentimento de pertencimento e a percepção de risco frente a um desastre 
natural em Nova Friburgo. 


REFERÊNCIAS 


BRASIL. Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000. Regulamenta o art. 225, 8 1º, incisos |, II, Ill e Vil da 
Constituição Federal, institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza e dá outras 
providências. Disponível em:<http:/Awww.planalto.gov.br/ccivil 03/LEIS/L9985.htm>. Acesso em: 11 
nov. 2018. 


DRM-RJ. SERVIÇO GEOLÓGICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. Megadesastre da Serra — JAN 
2011. Disponível em: <www.drm.rj.gov.br/index.php/.../13-regio-serrana?...48%3Amegadesastre- 
da...2011...> Acesso em: 10 agosto de 2013. 


GUERRA, Antonio Teixeira; JORGE, Maria do Carmo Oliveira (Orgs). Processos erosivos e 
recuperação de áreas degradadas. Oficina de Textos. São Paulo. 2013 


LAGO, Larissa Neves; AMARAL, Cláudio Palmeiro; LIMA, Francisco Pimentel; DE CAMPO, Luis 
Edmundo Prado; SILVA, LuisEiraldo; DOURADO, Fernando. O deslizamento do Condomínio do 
Lago, em Nova Friburgo — Análise dos condicionantes geológicos e geomorfológicos. In: 12º 
Simpósio de Geologia do Sudeste. Anais 12º Simpósio de Geologia do Sudeste. Nova Friburgo, RJ. 
2011. 


MARCONI, Marina de Andrade; LAKATOS, Eva Maria. Metodologia científica. 4. ed. São Paulo: 
Atlas, 2010. 


NOVA FRIBURGO. Nova Friburgo em foco. Defesa Civil autoriza volta dos moradores ao prédio 
atingido em 2011. Disponível em: <https:/Ayww.novafriburgoemfoco.com.br/noticia/defesa-civil- 
autoriza-volta-de-moradores-ao-p >. Acesso em 10 fev. 2019. 


OLIVEIRA, C. M. M. Avaliação de mecanismos de ruptura em escorregamentos da Prainha e 
Condomínio em Nova Friburgo. Dissertação de Mestrado. PUC. Departamento de Engenharia Civil. 
Rio de Janeiro. 2018. 


SOUZA, Marilza Terezinha Soares de. Resiliência e desastres naturais. Revista Cienc. Cult. vol.63 
n.3 — São Paulo. Julho de 2011. Disponível em:<http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci 
arttext&pid=S0009-67252011000300002>. Acesso em: 06 dezembro de 2017. 


SAUSEN, Tânia; LACRUZ, M.S.P. Org. Sensoriamento Remoto para Desastres. São Paulo. Oficina 
de Textos. 2015. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 14 KEN 


TOMINAGA, LidiaKeiko; SANTORO, Jair; AMARAL, Rosangela (Orgs.). Desastres naturais: conhecer 
para prevenir. São Paulo: Instituto Geológico, 2009. 


VEYRET, |. Riscos: O homem como agressor e vítima do meio ambiente. São Paulo. Contexto. 1º 
Edição. 2007. 


VOZ SA SERRA. Prédio marco da tragédia de 2011 começa a ser reconstruído. 2017. Disponível 
em: <http://acervo.avozdaserra.com.br/noticias/predio-marco-da-tragedia-de-2011-comeca-ser- 
reconstruido>. Acesso em: 14 nov. 2017. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 14 KEN 


CAPÍTULO 15 


AMEAÇA DE INUNDAÇÃO NA REGIÃO DA CALHA 
NORTE - ESTADO DO PARÁ - AMAZÔNIA 


Data de aceite: 02/08/2021 
Data de submissão: 06/07/2021 


Marcos Vinicius Rodrigues Quintairos 
Escola de Aplicação 

Universidade Federal do Pará 

Belém — Pará 
http://lattes.cnpqg.br/8884164258345716 


Eliane de Jesus Miranda Santana 
Escola de Aplicação 

Universidade Federal do Pará 

Belém — Pará 
http:/lattes.cnpq.br/6935946299211132 


RESUMO: A região da Calha Norte, localizada 
no Baixo Amazonas do Estado do Pará, sofre 
historicamente com vários tipos de ameaças 
naturais, como cheias, enchentes, alagamentos, 
erosão, estiagem, enxurrada, fortes chuvas e 
secas, todas registradas pela Defesa Civil. Todos 
os anos, seja no período da chuva ou no período 
da seca, a população fica vulnerável a tais 
eventos. O presente artigo objetiva-se realizar 
a identificação das ameaças de inundação 
que permita a incorporação da temática de 
gerenciamento de riscos naturais no Zoneamento 
Ecológico Econômico, tendo como estudo de caso 
o ZEE da Calha Norte do Pará proporcionando 
instrumentos para a gestão e melhorias das 
ações do poder público. A análise das ameaças 
naturais baseou-se em estudo metodológico que 
agregou dados históricos, mapa geomorfológico, 
mapa geológico, mapa hipsométrico, mapa 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 


de declividade, identificando as três classes 
de análises: (i) área de alta suscetibilidade; (ii) 
área de moderada suscetibilidade e (iii) área de 
baixa suscetibilidade, gerando assim o mapa da 
ameaça de inundação. O ZEE da Calha Norte do 
Pará foi analisado com alguns questionamentos a 
fim de verificar a inclusão da temática de ameaça, 
concluindo-se pela falta desta no documento 
técnico. Além disto, os resultados obtidos com a 
pesquisa são de elevada importância no sentido 
de subsidiar o ordenamento territorial e para a 
criação de políticas públicas à região. 
PALAVRAS-CHAVE: Ameaça de Inundação; 
Zoneamento ecológico econômico (ZEE); Calha 
Norte; Amazônia. 


THREAT OF FLOODING IN THE REGION 
OF CALHA NORTE - STATE OF PARÁ - 
AMAZON 
ABSTRACT: The region of Calha Norte, located 
in the Lower Amazon of the State of Pará, has 
historically suffered from various types of natural 
threats, such as floods, floods, flooding, erosion, 
drought, runoff, heavy rains and droughts, all 
registered by the Civil Defense. Every year, 
whether in the rainy season or the dry season, 
the population is vulnerable to such events. This 
article aims to carry out the identification of flood 
threats that allow the incorporation of the theme 
of natural risk management in the Ecological 
Economic Zoning, having as a case study the 
ZEE Calha Norte do Pará, providing instruments 
for the management and improvement of actions 
of the public power. The analysis of natural threats 
was based on a methodological study that added 
historical data, geomorphological, geological, 


Capítulo 15 


hypsometric, slope, identifying the three classes of analysis: (i) high susceptibility; (ii) of 
moderate susceptibility and (iii) of low susceptibility, thus generating the flood threat map. The 
ZEE Calha Norte do Pará was analyzed with some questions in order to verify the inclusion 
of the threat theme, concluding that it was missing from the technical document. In addition, 
the results obtained with the research are of high importance in the sense of subsidizing the 
territorial ordering and for the creation of public policies for the region. 

KEYWORDS: Flood Threat; Economic ecological zoning (ZEE): Calha Norte; Amazon. 


11 INTRODUÇÃO 


Na Amazônia, as condições climáticas, e o processo de ocupação às margens 
dos rios, associados ao crescimento desordenado da população, têm pressionado os 
ecossistemas vulneráveis (como as áreas inundáveis sazonalmente), o que constitui um 
fator de vulnerabilidade para estas populações (BECKER, 2000 apud SILVA Jr., 2010). 

De acordo com a SEDEC (2012), na Amazônia foram registradas 57 situações de 
emergência e 15 em estado de calamidade pública originada predominantemente nas 
enchentes, estiagens e erosões fluvial. Nos municípios do Estado do Pará, as principais 
ameaças naturais identificadas são as enchentes, as inundações, as enxurradas e a erosão 
fluvial (SZLAFSZTEIN, 20083). As enchentes e inundações são frequentes principalmente 
no período conhecido como “inverno amazônico” (SZLAFSZTEIN et al., 2010). 

O crescimento urbano descontrolado, a carência/ausência de infraestrutura, a 
pobreza, e a fraca estrutura política, aliados à ocupação de espaços expostos às ameaças 
naturais, geram ambientes de intensa vulnerabilidade social e um enfraquecimento da 
capacidade de resposta da sociedade às emergências. O risco é a probabilidade que um 
desastre aconteça provocando a perda de vidas, pessoas desabrigadas ou desalojadas, 
danos a edificações, e as atividades socioeconômicas, entre outros (PELLETIER, 2007). 

Não se pode impedir que um desastre natural aconteça, mas pode-se minimizar 
os impactos de um fenômeno adverso, com medidas de prevenção e a gestão de riscos 
naturais. 

O processo de ocupação no espaço brasileiro é marcado por uma configuração 
socioespacial caracterizada por contrastes, pois, se por um lado existe intenso 
desenvolvimento (urbanização, sistemas portuários, turismo, indústrias, agricultura, 
pecuária), que favorece o fluxo de pessoas e aumenta os impactos ambientais, por outro 
lado, há grandes áreas com baixa densidade populacional (como na Amazônia), onde o 
ecossistema ainda não sofre grandes impactos da sociedade (SZLAFSZTEIN, 2008). 

Para Alameddine (2009), a gestão de riscos exige uma apreensão de sua 
multiplicidade, não devendo ser restrita aos aspectos técnicos, que apenas indicam o grau 
de um acontecimento, mas também que possa resultar em análises e avaliações desses 
riscos. 


Segundo Freiria (2009), quando não é feita uma boa gestão do risco, as 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 15 [ERRO 


consequências fazem-se sentir ao nível social, econômico e podem até mesmo implicar 
perda de vidas humanas. A ocorrência de desastres naturais demonstra a necessidade da 
integração da gestão de risco no processo de planejamento do território, não como uma 
forma de eliminar os riscos, mas como uma medida preventiva e mitigadora. 

Assim, faz-se necessário o ordenamento territorial, como um mecanismo de 
regulação racional de uso de territórios (ocupação do espaço e uso dos recursos) no Brasil, 
e principalmente na Amazônia. A não consideração dos riscos nas ações de ocupação 
e transformação do território também é negligenciada pelos estudos do Zoneamento 
Ecológico Econômico (ZEE), que é um instrumento de planejamento do ordenamento 
territorial, sendo uma importante ferramenta de planejamento ambiental no Brasil, que 
realiza o diagnóstico do uso do território visando assegurar o desenvolvimento sustentável 
(MMA, 2006). 

O presente trabalho tem por objetivo identificas as ameaças de inundação que 
permita a incorporação da temática de gestão de riscos naturais no Zoneamento Ecológico 
Econômico, tendo como estudo de caso o ZEE da Zona Oeste do Estado do Pará: Calha 
Norte, analisando as ameaças de inundações que afetam os municípios que estão nessa 
área, a fim de apoiar o processo de atualização de futuros estudos do ZEE, quanto à 
gestão de risco, controle de ameaças, assim como por meio de mapeamento da ameaça 
de inundação oferecendo subsidio a melhoria das políticas públicas. 


21 REVISÃO DE LITERATURA 


Para fundamentação teórica, serão abordados inicialmente alguns conceitos 
básicos a respeito dos termos relacionados à temática, ameaça e o zoneamento ecológico 
econômico, como instrumentos de ordenamento territorial. Arevisão e sistematização destas 
informações também fora utilizada com vistas à identificação da ameaça de inundação na 
área pesquisada. 


2.1 Zoneamento Ecológico Econômico (ZEE) 


O ZEE é um instrumento de planejamento e gestão territorial que tem por finalidade 
propiciar um diagnóstico preciso do meio físico-biótico e socioeconômico, e sobre sua 
organização institucional. Ainda deve oferecer diretrizes de ação, as quais têm que refletir 
os diferentes interesses dos cidadãos (CAVALCANTE, 2003). 

O ZEE é entendido como “um dos instrumentos para a racionalização da ocupação 
dos espaços e de redirecionamento de atividades, subsídio a estratégias e ações para a 
elaboração e execução de planos regionais em busca do desenvolvimento sustentável” 
(BRASIL, 2006). 

Segundo Becker e Egler (1997), o ZEE é um instrumento político de regulação do 
uso do território, um instrumento técnico de informação sobre o território, e um instrumento 


de planejamento e gestão. Visa realizar estudos para determinar a vocação de todos 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 15 ER 


os subespaços que compõem um determinado território, efetuando levantamentos 
de suas potencialidades econômicas, sociais, físicas sob um critério basicamente 
ecodesenvolvimentista (AB'SABER, 1989). Portanto, fornece bases técnicas para a 
espacialização das políticas públicas visando a ordenamento do território. 

Segundo Santos (2004), o ZEE compreende duas atividades: uma técnica 
(formulação de um banco de dados que fornece informações sobre o território, definindo 
áreas prioritárias e prognósticas) e uma política (que propicia interação entre governo e 
sociedade civil para estabelecer áreas prioritárias no planejamento). 


2.2 Ameaça 


Ameaça é todo evento de origem natural, sócio-natural ou antropogênica que, devido 
à sua magnitude e às suas características, pode causar dano. Lavell (1996) classifica em 
três tipos: naturais, socioambientais e antrópicas. 

A ameaça natural pode ser de origem geológica (sismos, erupção vulcânica, 
deslizamentos, erosão, etc.), e hidrometeorológica (chuvas intensas, fenômenos El Nifo, 
temperaturas extremas, enchentes, secas, etc.). 

A ameaça antrópica é originada em decorrência da urbanização, desenvolvimento, 
questões culturais, sociais, tecnológicas, a exemplo, acidente de trânsito, troca de tiros 
entre traficante e polícia, desabamento de uma obra civil, derramamento de óleo no rio, 
explosão. 

A ameaça socioambiental é resultado da interação do homem com meio natural, 
podendo gerar deslizamentos, secas e inundações. 


31 MATERIAIS E MÉTODOS 


3.1 Caracterização da área em estudo 


A área de estudo está localizada a noroeste do Estado do Pará, sendo composta 
por nove municípios - Alenquer, Almeirim, Curuá, Faro, Monte Alegre, Óbidos, Oriximiná, 
Prainha e Terra Santa. Está limitada a oeste pelos Estados do Amazonas e Roraima e a 
leste pelo Estado do Amapá. Grande parte da área do território é ocupada por 27 Unidades 
de Conservação e 6 Terras Indígenas! (Figura 1). Os municípios com as maiores extensões 
de áreas protegidas são Oriximiná (99,33%), Faro (92,26%), Almeirim (79,11%) e Prainha 
(78,51%) (PARÁ RURAL, 2010). 

A Calha Norte é a faixa de fronteira no extremo norte do Brasil. Esta região 
recebeu este nome em decorrência do programa Calha Norte (PCN) criado em 1985 pelo 


1 Unidades de Conservação: Estação Ecológica Grão Pará, Reserva Biológica do Rio Trombetas, Parque Estadual 
Monte Alegre, Reserva Biológica Maicuru, Estação Ecológica do Jari. Floresta Estadual, Floresta Nacional Saracá-Ta- 
quera, Floresta Estadual Trombetas, Floresta Estadual Parus, Floresta Nacional de Mulata, Floresta Nacional de Mulata, 
Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, Floresta Nacional Tapajós, Área de preservação ambiental praia de Alter-do- 
-Chão, Área de preservação ambiental Praia de Aramanaí, R.A.C. Palhão e a Área de preservação ambiental Paytuna. 
Terras Indígenas: Trombetas/Mapuera, Nhamundá/Mapuera, Zo'e, Parque do Tumucumaque e o Rio Paru D'Este. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 15 EEE 


Governo Federal para promover a ocupação nas fronteiras e combater o contrabando da 
biodiversidade da Amazônia. A área do PCN fica na Amazônia Setentrional, na faixa de 
fronteira da região norte do Brasil (Colômbia, Venezuela, Guiana e Suriname), situada ao 
norte da Calha dos rios Solimões e Amazonas. O PCN foi instituído para proteger extensa 
faixa de fronteira na Amazônia, profundamente “despovoada”. 

A região apresenta uma população total de 299.759 habitantes até 2010 e uma área 
de 49.133 km? (IBGE, 2010). As sedes municipais tiveram origem no período colonial, e 
são resultado da estratégia de ocupação da coroa portuguesa do vale do rio Amazonas por 
meio de fortificações. Seu desenvolvimento, ao longo do século XIX e início do século XX, 
associou-se à economia da borracha. No século XX, suas principais atividades inclufam a 
pesca, a juta, o gado e a partir da década de 1970, à mineração com o Pólo Trombetas e a 
celulose em Almeirim (PARÁ, 2010). 


Governo Federal 
Universidade Federal do Pará 
Programa de Pós Graduação em Geografia 


MAPA DE LOCALIZAÇÃO 
CALHA NORTE - ESTADO DO PARÁ 


O Sedes municipais 

French Guiana a e arm Hidrografia 

(D Área de estudo 

MB Tera Indígena 

C Proteção Integral 

EB Uso sustentável 

rva Biológica (0) Limites municipais 

ma Estado do (D limites Estaduais 
tapa (0) Limites Intemacionais 


Suriname 


Sistema de coordenadas geográficas 
Datum horizontal: WGS 1984 
Elaboração: QUINTAIROS, M.V.R. 2011 
Escala: 1: 1.400.000 Folha: As 


0 2040 E 120 160 
o Tr 


Floresta Estaduã 
Faro 
Floresta Nació 
Estado do  SaracáTaqueiê 
Amazonas á 














Figura 1. Mapa de localização do ZEE da Calha Norte-PA. 


Fonte: Elaborado pelo autor 


A região é marcada por uma baixa densidade demográfica é uma alta conservação 
ambiental. A taxa geométrica anual de crescimento populacional dos municípios de Prainha 
(0,40%), Óbidos (0,08%) e Monte Alegre (0,00%) foram inferiores, em relação à média do 
Estado do Pará (22%), inclusive com crescimentos nulos ou muito baixo de população 
(PARÁ, 2010). 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 15 EEE 


Os nove municípios integrantes do ZEE da Calha Norte apresentam tendências ao 
êxodo rural. Porém as taxas de urbanização de Terra Santa (69,01%), Almeirim (61,43%) e 
Oriximiná (61,96%) são as mais representativas se comparadas aos outros municípios da 
mesma região (tabela 1). A população urbana está situada nas margens dos rios Amazonas, 
Paru e Trombetas. 





Municípios 1970 1980 1991 1996 2000 2007 2010 





Alenquer 32,46% | 39,86% | 41,54% | 45,98% | 60,21% | 57,06% | 52,68% 





Almeirim 29,67% | 14,59% | 48,87% | 47,72% | 55,71% | 61,43% | 59,39% 





Curuá - - E - 31,80% | 42,65% | 47,18% 





Faro 43,35% | 52,24% | 65,45% | 50,43% | 49,00% | 75,32% | 74,94% 





Monte Alegre | 21,17% | 28,16% | 36,18% | 37,98% | 34,11% | 38,63% | 44,29% 





Óbidos 34,03% | 46,48% | 47,62% | 46,77% | 49,43% | 51,02% | 51,62% 





Oriximiná 35,37% | 40,53% | 51,42% | 56,05% | 60,38% | 61,96% | 63,93% 





Prainha 13,93% | 7,38% | 15,67% | 24,32% | 26,19% | 29,15% | 30,53% 





Terra Santa - - - 68,80% | 44,69% | 69,01% | 60,98% 























Tabela 1. Taxa de Urbanização para os Municípios do ZEE da Calha Norte (1970 -2010). 
Fonte: IBGE (Censos Populacionais de 1970, 1980, 1991, 2000 e 2010. 
Contagem Populacional 1996) e PARÁ (2010). 


O clima regional apresenta média mensal de temperatura do ar elevada, mínima de 
18ºC e máxima de 31ºC. A umidade relativa apresenta valores acima de 70% em quase 
todos os meses do ano. A região caracteriza-se com valores de chuvas anuais entre 1700 
mm e 2300 mm. As estações de maior pluviosidade estão entre os meses de março a maio 
(PARÁ RURAL, 2010). 


3.2 Metodologia de mapeamento da ameaça de inundação 

A inundação é entendida como o processo de transbordamento das águas do canal 
de drenagem para as áreas marginais (planície de inundação, várzea ou leito maior do rio), 
quando a enchente atinge cota acima do nível máximo da calha principal do rio, afetando 
as atividades humanas ali instaladas (IPT, 2007) (Figura 2). 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 15 165 








q INUNDAÇÃO a 





Figura 2. Perfil esquemático do processo de enchente e inundação. 
Fonte: IPT (2007). 


Na elaboração dos mapeamentos de ameaça de inundação buscou-se adaptar a 
metodologia desenvolvida por Marques (2010) e Szlafsztein et al. (2010), que se basearam 
essencialmente em análise de modelos digitais de elevação, trabalho de campo com 
coleta de pontos de GPS, utilizando a modelagem matemática, na obtenção dos valores 
da altimetria do SRTM. Portanto, são bases de dados estabelecidas no método para a 
delimitação das áreas com ameaça a inundações. 

No presente trabalho a metodologia será adaptada para a escala de mapeamento 
de 1:250.000, escala de mapeamento do ZEE Brasil, para identificar e mapear as áreas 
suscetíveis às inundações. Foram desenvolvidas as etapas, com produção de mapas, 
denominadas de: levantamento histórico de ocorrências de eventos naturais; uso de mapa 
hipsométrico; declividade; unidade geomorfológica; e unidade geológica. De posse dessas 
informações, foi construído o mapa de ameaça de inundações (Figura 3). 


AMEAÇA À 

INUNDAÇÃO 

GEOLOGIA GEOMORFOLOGIA DECLIVIDADE | [MODELO DIGITAL 
DE ELEVAÇÃO 


Figura 3. Composição da Árvore de ameaça à inundação. 



























HISTÓRICO DE 
OCORRENCIAS ) 





Fonte: Elaborado pelo autor. 


As bases de dados das unidades geomorfológicas e geológicas foram obtidas, através 
do IBGE (2008) e CPRM (2007), em formato vetorial na escala de 1:250.000. Aárea de estudo 
é composta pelas seguintes unidades geomorfológicas: Planície Amazônica, Planalto do 
Uatumã-Jari, entre outras. O relevo da área de estudo apresenta cotas topográficas variando 
de 100 a 1000 metros. A porção sul caracteriza-se pela Planície Amazônica que envolve 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 15 KEN 


essencialmente a calha do rio Amazonas e seus principais afluentes de deposição mais 
recente holocênica de domínio de depósitos sedimentares do Quaternário, com solos dos 
tipos Aluviais, Hidromórficos, Gleyzados e Orgânicos com altimetria até 100 m. O Planalto 
do Uatumã-Jari constitui importante feição de relevo suavizado de leste com cotas variando 
entre 50m-200m, relevos residuais (240-270 m) e superfície de forma de tabuleiros. As 
subunidades geomorfológicas foram classificadas conforme as suas características físicas, 
em ameaças de: alta, média e baixa suscetibilidade, conforme tabela 02. 





Sub-unidades 
Geomorfoló- Observações 
gicas 


Níveis de ameaças 
de Inundação 





Área plana resultante de acumulação fluvial sujeita a 
inundações periódicas, incluindo as várzeas atuais, podendo 
conter lagos de meandros, furos e diques aluviais paralelos 
ao leito atual do rio. 


Af Alta 


Área plana resultante de diferentes acumulações fluviais, 
periódica ou permanentemente inundada, comportando 
Aptf meandros abandonados e diques fluviais com diferentes Alta 
orientações, ligada com ou sem ruptura de declive a patamar 
mais elevado. 





Área plana resultante da combinação de processos de 
Afl acumulação fluvial e lacustre, podendo comportar canais Média 
anastomosados ou diques marginais. 





Acumulação fluvial de forma plana, levemente inclinada, 
apresentando ruptura de declive em relação ao leito do rio 





pas : pra dna Médi 
Au e às várzeas recentes situadas em nível inferior, entalhada édia 
devido à variação do nível de base. 
Conjunto de formas de relevo de topos estreitos e alongados, 
Da esculpidas em rochas cristalinas e, eventualmente, em Baixa 


sedimentos, denotando controle estrutural, definidas por vales 
encaixados. 





Conjunto de formas de relevo de topos convexos, em geral 
Dc esculpidas em rochas cristalinas e, eventualmente, também Baixa 
em sedimentos, às vezes denotando controle estrutural. 

















Tabela 02. Unidades geomorfológicas classificadas conforme os níveis de ameaça de Inundação. 
Fonte: PARÁ (2010). 


As unidades geológicas presentes estão agrupadas em dois grandes grupos: os de 
origem sedimentar compostos pelas Formações Alter do Chão, Nova Olinda, Faro, Maecuru, 
Barreirinha e Trombetas e os de origem Vulcânica composta pelos grupos: Iricoumé, Suíte 
Intrusiva Mapuera e Complexo Indiferenciado. O mapa geológico foi classificado em 
ameaças de inundação, segundo as suas unidades geológicas, ou seja, cada unidades 
foi classificada conforme as suas características geológicas em ameaças de alta e baixa 
suscetibilidade, conforme tabela 08. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 15 








Unidade 


Características 


Nível de Ameaça 
de Inundação 





Formação Alter 
do Chão 


Espesso pacote de arenitos intercalados com camadas de 
pelitos e, em menor escala, de conglomerados. Depositado 
em ambiente fluvial de alta energia/lacustrino-deltáico. 


Média 





Formação 
Barreirinha 


Predominantemente folhelhos negros, bem laminados, 
carbonosos, micáceos, piritosos e radioativos, que denota 
um ambiente deposicional de águas profundas, sob 
condições redutoras. Amplamente distribuída em ambos os 
flancos da bacia e sua seção-tipo situa-se ao longo do rio 
Tapajós, ao norte da cidade de Barreirinha. 


Baixa 





Cobertura 
Laterítica Matura 


Esta unidade relaciona-se à Superfície de Aplainamento 
Sul-Americana do Cretáceo Superior ao Terciário Inferior, 

e constitui platôs que formam o relevo atual. Geralmente 
define um relevo tabular, fortemente dissecado, onde a 
altitude decresce de cerca de 400 m até cerca de 100 m, 
em uma distância em torno de 300 km. Nesta unidade estão 
relacionados grandes depósitos minerais (ex. bauxita dos 
distritos de Trombetas e Almerim). 


Baixa 





Depósitos 
Aluvionares 


Sedimentos clásticos inconsolidados relacionados às 
planícies aluvionares atuais dos principais cursos d'água, 
que constituem basicamente depósitos de canais (barras 
em pontal e barras de canais) e de planícies de inundação. 


Alto 





Grupo Trombetas 








As rochas do Grupo Trombetas afloram numa faixa da borda 
norte da Bacia do Amazonas, onde jazem discordantemente 
sobre rochas do Grupo Purus e do embasamento. 





Baixa 





Tabela 03. Unidades geológicas classificadas conforme os níveis de ameaça de Inundação. 


Fonte: PARÁ (2010). 


As curvas de nível foram extraídas das imagens ASTER GDEM com equidistância 


vertical de 1 metro. Após delimitação das curvas para a área de estudo, criou-se uma malha 


triangular, no modulo “3D Analyst” para transformar as curvas de nível em pontos cotados 


via triangulação. Esta malha é a base do modelo digital de terreno, a partir do comando 


SLOP). O mapa de declividade foi classificado em duas classes em diferentes intervalos de 


declividade definidos segundo porcentagem, conforme tabela 04. 





























Declividade (%) Relevo Ameaça de inundação 
0-3 Plano Alto 
3-8 Suave ondulado Médio 
8-20 Ondulado 
20 - 45 Fortemente Ondulado 
Baixo 
45-75 Montanhoso 
75-— 100 Escarpado 





Tabela 04. Classes de Declividades classificadas pelo IBGE (2009). 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 


Capítulo 15 


O ambiente de análise geoespacial foi a extensão Spatial Analyst do software ArcGIS 
9.3 (ESRI, 2002). As informações cartográficas foram selecionadas, para a realização da 
“álgebra de mapas”, que permite a interseção dos produtos cartográficos. Cada produto 
cartográfico foi atribuído valores numéricos para a análise do SIG2. Esta linguagem fornece 
uma estrutura poderosa para a modelagem cartográfica (DeMers, 2002), permitindo realizar 
diversas funções e técnicas interativas que possibilitaram a geração do mapa de ameaça 
de inundação. 


41 RESULTADOS E DISCUSSÃO 


O mapa de ameaça à inundação procura retratar o cenário no que diz respeito às 
áreas suscetíveis às inundações, e é construído pelo relacionamento entre as informações 
espacializadas do histórico das ocorrências, da hipsometria, da geomorfologia, da geologia 
e da declividade (Figura 04). 


Governo Federal 
Universidade Federal do Pará 
aeds Programa de Pós Graduação em Geografia 


AMEAÇAS A INUNDAÇÃO 
CALHA NORTE - ESTADO DO PARÁ 





SáeaBiaorw 


Estado 
do Amapá 


Oriximiná 
Alenquer 


Oriximina 


Óbidos CUrUá epa 





stema de coordenadas geográrcas 2 
Daum honzonta: WGS 1984 [Ameaça de Inundação (1) Area de estudo 
Elaboração: QUINTAIROS. MVR 2011 [OB cia 
Escala 11500000 Folha A3 ã 





Limites municipais] 


rage y Medicilândia | | Moderada fim Hidrografia 
% õ 4okm 


e — T——— JD a: o Saderminerais 


sesgow so80W s1e4r30W. 




















Figura 4. Ameaça a inundação na área de estudo do ZEE da Calha Norte. 


As áreas de alta suscetibilidade a ameaça de inundação são áreas mais crítica, 
anualmente afetada pela inundação do rio. Abarca aproximadamente 4.620,05 km? (10,69% 
da área de estudo) onde estão localizados grande parte das cidades da região da Calha 


22 SIG — Sistemas de Informações Geográficas são sistemas computacionais capazes de capturar, armazenar, consul- 
tar, manipular, analisar e imprimir dados referenciados em relação a superfície da terra. Fonte: MAGUIRRE et alí, 1991. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 15 ED 


Norte. As áreas de moderada suscetibilidade de inundação são áreas inundáveis devido a 
acumulação fluviolacustre de forma plana, com declividade de 8º em relação à planície. A 
área corresponde a 5.460,71 km? (12,63% da área de estudo). As áreas de baixa influência 
da inundação são regiões de topografia mais elevada, não é atingida nem mesmo nas 
maiores inundações. 


4.1 Análise no Zoneamento Ecológico Econômico da Calha Norte 


Para analisar o Zoneamento Ecológico Econômico da Calha Norte Estado do Pará 
(Lei Estadual nº. 7.398/2010) utilizou-se a matriz de análise adaptada de Azevedo (2008), 
com cinco questionamentos relacionados à temática dos riscos naturais (Quadro 3), onde 
a partir da utilização de parâmetros de cores (verde, amarelo e vermelho) representa- 
se o maior ou menor grau de relacionamento das diretrizes traçadas no ZEE da Calha 
Norte do Estado do Pará com relação à gestão de riscos naturais, controle de ameaças e 
vulnerabilidades. 

O questionário estrutura-se, como: sim, relacionada a existência das diretrizes 
propostas pelo ZEE da Calha Norte com relação à gestão de riscos naturais, controle de 
ameaças e vulnerabilidades; moderada, estando relacionado entre elementos que possam 
traduzir as relações existentes entre as diretrizes propostas no ZEE da calha Norte com 
relação à gestão de riscos naturais, controle de ameaças e vulnerabilidades; ou não, que é 
a não existência das diretrizes propostas pelo ZEE com relação à gestão de riscos naturais, 
controle de ameaças e vulnerabilidades. 





Respostas Comentários 





Perguntas 








O ZEE Calha Norte nas suas 
políticas setoriais, na organização 
do território, explicitamente faz 
referências à temática de riscos e 
desastres naturais? 


A temática de riscos e desastres naturais não 
foi tratada de maneira explicita no documento, 
apenas relacionadas com as ocupações 
irregulares. 











O ZEE Calha Norte faz referência ás Zonas 
Ambientalmente Sensível. Entretanto é 


O ZEE Calha Norte faz referência 
às ameaças naturais que afetam a 
áreas de estudo? 





O ZEE Calha Norte estabelece 
medidas para a diminuição dos 
fatores de vulnerabilidades? 





só é abordada no Art. 4º nas Zonas de 
Gestão como áreas de Uso Controlado, 
compreendendo as áreas de várzeas, igapó, 
manguezais, que são caracterizadas por 
áreas de fragilidade natural. 








O ZEE Calha Norte propõe 
medidas e/ou estratégias de 
respostas? Quais? 








A única vulnerabilidade tratada no documento 
é com relação à erosão, mas voltada para o 
uso da terra e não a processos naturais. 





Não existe medidas e nem estratégias. 





Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 


Capítulo 15 











O ZEE Calha Norte apresenta 
cartografia de riscos? 











Não existe a cartografia de risco no 
documento técnico. 
Quadro 3. Resultado da aplicação da matriz no ZEE da Calha Norte. Legenda para as respostas: S: 


sim; M: moderada; N: não. 
FONTE: Elaborado pelo autor. 





O artigo 3º do ZEE Calha Norte mostra os principais objetivos enquanto produtos 
de mapas de Gestão Territorial, nele consta informações relativas ao ambiente biofísico- 
natural, ao meio socioeconômico, e a vulnerabilidade natural à erosão (Produto da relação 
Uso da terra x tipos de solo), esse é o único ponto em que a vulnerabilidade é tocada. 

No artigo 4º do ZEE Calha Norte trata-se das principais unidades de gestão do 
território denominadas “Áreas de Gestão”. Nele tem-se as áreas de Uso Controlado: 
caracterizadas como “Zonas Ambientalmente Sensíveis”, que são áreas com elevada 
vulnerabilidade natural, limitada oferta de recursos naturais, de proteção estratégica dos 
recursos hídricos e minerais e vulneráveis à pressão antrópica. 

No ZEE da Calha Norte há nenhuma cartografia que apresente a espacialização 
dos riscos na área de estudo, que é uma importante ferramenta estratégica no controle, 
mapeamento e ordenamento do território, contudo, não consta no relatório técnico. A única 
referência à cartografia é relacionada às Zonas Ambientalmente Sensíveis. A temática de 


risco a desastres naturais não foi tratada de maneira explicita no documento. 


51 CONSIDERAÇÕES FINAIS 


O tema de ameaça a inundações em cidades na Amazônia ainda é um tema pouco 
explorado na região, isso ocorre pela deficiência em políticas públicas que levem em conta 
essa temática. 

Considerando a metodologia empregada e resultados obtidos neste artigo, estes 
podem servir como base para a aplicabilidade de análise em outros zoneamentos ecológicos 
e econômicos do Brasil, devido à facilidade de aplicação da metodologia, sendo capaz de 
ser aplicada em qualquer unidade territorial de trabalho (município, estado, setor censitário, 
etc.), sem a necessidade de grandes recursos financeiros, desde que se disponha de dados 
e informações cartográficas necessárias, obtidas em base de dados preexistentes. 

Aimportância de mapear áreas de ameaças naturais relaciona-se com a possibilidade 
de (a) a objetivação da ameaça e sua designação como problema público. (b) ser uma 
ferramenta de comunicação e ajuda em uma mobilização social, e (c) facilitar a análise das 
áreas atingidas e subsidiar o ordenamento territorial e ações da coordenadoria municipal 
de Defesa Civil (COMDEC), órgão responsável pelo planejamento, em âmbito municipal 
(Silva, 2010). 


As ameaças estão associadas não somente a processos naturais, mas também 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 15 





à falta de um ordenamento territorial compatível com a realidade local, embora seja uma 
área de baixa densidade demografia, constatou que é também uma região desconhecida, 
devido à poucos estudos que abordem as ameaças naturais em cidades amazônicas, e 
pela falta de políticas públicas eficazes que visem minimizar os problemas existentes. 

As ameaças naturais causam impactos em diversos segmentos econômicos e sociais, 
às vezes os prejuízos são muitos maiores de bens materiais, como a ocorrências de mortes 
em desastres. Considera-se, portanto, que se as ameaças naturais e as vulnerabilidades 
sociais forem reconhecidas através de metodologias adaptadas à realidade, estes danos 
podem ser evitados. 

O mapeamento aplicado partiu de escala do ZEE 1:250.000. A base de dados 
utilizada para identificação da ameaça de inundação foi ampla pela variedade dos temas 
componentes do ambiente a ser estudado, que foi obtida a partir das bases de dados da 
geomorfologia, declividades, hipsometria e geologia. 

A pesquisa foi desenvolvida com a preocupação em gerar um produto que possa 
subsidiar a tomada de decisão do poder público. Espera-se assim contribuir para as 
temáticas relacionadas as do estudo, e para os órgãos competentes, lembrando a 
importância de melhorar as metodologias preexistentes, e considerando também a dinâmica 
do meio físico, social e suas interações, pois, qualquer interferência deve ser precedida de 
diagnósticos que levem ao conhecimento da real situação do território. 


REFERÊNCIAS 


AB'SABER, A. Zoneamento Ecológico e Econômico da Amazônia: Questões de Escala e Método. 
Estudos avançados 3(5): 4-20. 1989. 


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Paulo. São Paulo, 2009. 130p. 


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XIV: 53-85, 2000. 


BRASIL. Ministério do meio ambiente. secretaria de políticas para o desenvolvimento sustentável. 
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. Censo 2010. Disponível em: http:/Anww.ibge.gov.br/. Acesso: 14/11/2011. 


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Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 15 





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Bairro-Cota 200. Centro de Tecnologias Ambientais e Energéticas. Laboratório de Riscos Ambientais. 
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Disponível em: http://www.defesacivil.gov.br/desastres/desastres.asp. Acesso em: 5 de janeiro de 2010. 


SILVA Jr. O. M. da Análise de risco a inundação na cidade de Alenquer - Estado do Pará. 
Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal do Pará, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, 
Programa de Pós-Graduação em Geografia, Belém, 2010. 103 pág. 


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impacts: long-term coastal zone management, NE of the State of Pará, Brazil. ZMT - Contributions, 
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SZLAFSZTEIN, C.; MARQUES, O.; MAIA, H.; PRETTE, M.; FISCHENICH, P.; ALTIERI, F. 
Referências Metodológicas para mapeamento de Riscos Naturais na Amazônia: Mapeando as 
vulnerabilidades. Brasília, MMA/GTZ, 2010. 60 p. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 15 





CAPÍTULO 16 


ANÁLISE DA SEGREGAÇÃO SOCIOESPACIAL 
URBANA EM RONDONOPOLIS (MT), A PARTIR DOS 
ESPAÇOS PÚBLICOS DE LAZER INSTALADOS 


Data de aceite: 02/08/2021 
Data de submissão: 02/07/2021 


Rubens Petri Torres 

Mestre pela Universidade Federal de 
Rondonópolis — MT 

Rondonópolis -MT 
http://lattes.cnpqg.br/4415334515205312 


Silvio Moises Negri 

Professor Doutor da Universidade Federal de 
Rondonópolis — MT 

Rondonópolis — MT 
http:/llattes.cnpq.br/1106288907071464 


RESUMO: Ao se observar o processo de 
ocupação das cidades, nota-se que os agentes 
produtores do espaço são determinantes no que 
tange a fragmentação do território e percebe- 
se que o mesmo é moldado segundo os seus 
interesses. Nota-se dentro dessa lógica do capital 
o condicionamento das pessoas dentro do sistema 
e questões relevantes como a qualidade de vida 
relacionada à sua moradia e os equipamentos 
públicos instalados não são considerados, 
causando com isso, uma segregação de maior 
magnitude. A presente pesquisa teve por 
objetivo mapear e analisar a localização, uso e 
a disponibilidade dos equipamentos públicos 
urbanos voltados ao lazer (praças) que existem 
na cidade de Rondonópolis-MT. Dentro deste 
contexto, foi possível verificar o processo de 
segregação socioespacial em decorrência 
da distribuição dos mesmos em seu espaço 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 


urbano. Para esta pesquisa se fez uso e ou 
confecção de mapas e tabelas para representar 
as áreas com carências e as que possuem 
maior apropriação de equipamentos urbanos e 
sociais, para delimitação do raio de abrangência 
dos equipamentos, se fez uso de literaturas 
apropriadas (SANTOS, 1994) e (CAMPOS 
FILHO, 2010), e para identificar a demanda dos 
equipamentos em áreas carentes dos mesmos, 
utilizou-se da densidade populacional e da 
tipologia sócio econômica produzida pelo Instituto 
Brasileiro de Geografia e Estatística ano de 
referência 2010 em conjunto com outros dados 
pertinentes ao tema pesquisado. Os resultados 
alcançados na pesquisa comprovaram que em 
Rondonópolis — MT ocorre a distribuição de 
equipamentos públicos de lazer de forma desigual 
quando se compara à área central e seu entorno 
versus as áreas periféricas, consequentemente, 
esses fatores apontados são colaboradores para 
o agravamento do fenômeno de segregação 
socioespacial nesta cidade. 
PALAVRAS-CHAVE: Espaços 
Segregação, Lazer, Rondonópolis-MT. 


Públicos, 


ANALYSIS OF URBAN SOCIO-SPACE 
SEGREGATION IN RONDONÓPOLIS 
(MT), FROM THE PUBLIC SPACES OF 
LEISURE INSTALLED 
ABSTRACT: When observing the process of 
occupation of cities, it is noted that the agents 
of space producers are crucial with regard to 
the fragmentation of the territory and realize that 
it is shaped according to their interests. Within 
this logic of capital, the conditioning of people 
within the system is noted, and relevant issues 


Capítulo 16 174 





such as the quality of life related to their housing and non-incorporated public facilities are 
considered, thus causing a greater segregation. This research aimed to map and analyze the 
location, use and availability of urban public facilities aimed at leisure (squares) that exist in 
the city of Rondonópolis-MT. Within this context, it was possible to verify the process of socio- 
spatial segregation as a result of their distribution in their urban space. For this research, 
maps and tables were used and/or made to represent areas with shortages and as having 
greater appropriation of urban and social equipment, to delimit the radius of coverage of 
the equipment, appropriate literature was used (SANTOS, 1994) and (CAMPOS FILHO, 
2010), and to identify the demand for equipment in areas lacking them, population density 
and socio-economic typology were used. relevant to the research topic. The results achieved 
in the research showed that in Rondonópolis - MT there is an unequal distribution of public 
leisure facilities when compared to the central area and its surroundings versus peripheral 
areas, consequently, these factors mentioned are collaborators for the aggravation of the 
phenomenon of segregation socio-spatial in this city. 

KEYWORDS: Public Spaces, Segregation, Leisure, Rondonópolis-MT. 


11 ESPAÇO PÚBLICO E SUA RELAÇÃO COM A SEGREGAÇÃO 
SOCIOESPACIAL 

Ao analisarmos ambos os conceitos de espaço público e segregação socioespacial, 
nota-se que Oo primeiro, se mal gerenciado pelo poder público, intensifica o segundo, 
principalmente em países subdesenvolvidos, onde as diferenças socioeconômicas 
e residenciais são uma realidade concretizada na formação socioespacial do modo de 
produção capitalista. 

Todo o cidadão se confronta ou necessita dos espaços públicos, seja ele para 
locomoção, para lazer, para prática política, para cultura, para eventos religiosos ou 
esportivos. 

Com o crescimento populacional urbano e seu modo de ocupação desordenado e 
fragmentado, se negligenciou ter uma preocupação voltada para construção dos espaços 
públicos principalmente em bairros periféricos, onde ao analisarmos o seu traçado é 
passível de encontrarmos em vários bairros populares, apenas pequenas residências 
sem um único espaço público consolidado, tendo algumas vezes, nesses locais, apenas 
terrenos vagos com a intencionalidade de um dia abrigar um determinado espaço público. 

As classes de menor poder aquisitivo geralmente que vivem em áreas periféricas 
destituídas e ou com poucos espaços públicos, são as que mais necessitam dessas 
infraestruturas, haja vista, serem principalmente nesses locais que estes cidadãos 
conseguem ter acesso em parte a política, a cultura, aos serviços estatais e ao lazer, 
em seus momentos de necessidade de ordem pessoal ou na folga das suas atividades 
laborativas. 

É dentro dessa urbanização economicista e controlada pelo capital que o Estado 


direciona os investimentos em áreas urbanas onde abrigam pessoas com melhor 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 16 





rendimento financeiro, dando a esses espaços uma atenção especial em contraposição ao 
que é feito na periferia. 

O território urbano é cada vez mais artificializado e pensado na ótica do privado em 
detrimento do público e exemplos não faltam como os Shopping Centers com suas praças 
de alimentação, cinemas e lojas, os parques aquáticos e ou de diversões com seus atrativos, 
os hipermercados e os bancos com a maioria de suas agencias em áreas centralizadas, 
todos criados na ótica do consumo, em busca de um público ansioso por segurança privada 
e ou vigiada, são esses lugares voltados para o espetáculo e entretenimento, mas que 
na realidade são efetivamente áreas de lazer ou uso que quando não é público, são para 
poucos cidadãos que podem pagar e desfrutar dessas estruturas. 

Esses espaços privados são dificilmente localizados em locais periféricos, com 
isso o processo segregativo se acentua quando o espaço público segue essa tendência, 
daí nasce à necessidade de resgatar o espaço público dentro da ótica de seu uso social 
com a devida preocupação do poder público em não criar apenas um ambiente urbano 
de mercado e pouco favorável para a vida comunitária, mas sim, é função do Estado, se 
preocupar em dinamizar e instalar esses espaços públicos, dotados de atrativos que sejam 
voltados a atrair os cidadãos, garantindo que tenham um bem estar social de qualidade 
com ampla acessibilidade e de forma gratuita. 

Segundo Serpa (2011), é no termo “periferia” que é explicitado, em geral, como 
áreas localizadas fora ou nas imediações de algum centro. Todavia, muitas áreas afastadas 
dos centros das cidades não são entendidas, atualmente, como periféricas. O termo 
absorveu uma conotação sociológica, redefinindo-se. Dessa forma, “periferia” hoje significa 
também aquelas áreas com infraestrutura e equipamentos de serviços deficientes, sendo 
essencialmente o lócus da reprodução sócio espacial da população de baixa renda e com 
baixa | escolaridade. 

É no planejamento e na gestão que a prática sócio administrativa nas políticas 
públicas, serve para soluções de conflitos urbanos. Esse planejamento, teoricamente 
deveria ser desenvolvido com o direcionamento voltado a toda população dentro de um 
plano consensual entre as suas classes sociais. 

Outro fator importante a destacar, é quanto às decisões tomadas referentes ao local 
a ser implantado um determinado equipamento público, pois é notório que a partir de sua 
instalação todo seu entorno será valorizado financeiramente e socialmente; informações 
privilegiadas a determinados grupos sociais sobre obras deste tipo, poderão ocasionar uma 
valorização antecipada do local e de suas imediações, sendo com isso, um gerador potencial 
de uma especulação imobiliária em busca de um público alvo para esse empreendimento, 
onde segregação ou a gentrificação! é passível de ocorrer. 


1 Gentrificação significa um processo de mudanças nos padrões residenciais e culturais em determinados espaços 
geográficos urbanos podendo acarretar mudança de alguns moradores mais pobres para outros locais com preços 


mais acessíveis. 
O termo gentrificação é atribuído originalmente à socióloga Ruth Glass, que em 1964 utilizou a expressão para descre- 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 16 





Entre os problemas enfrentados principalmente em áreas periféricas, não obstante 
outras áreas também relacionadas aos espaços públicos é a desatenção pelo poder público 
com relação à manutenção desses locais que favorecem o desapego do usuário a esse 
bem público, consequentemente esse espaço se deteriora e marginaliza-se e a opção do 
espaço privado se destaca como grande alternativa de bem estar social. 

Em meio às transformações culturais quanto sociais em um período dotado 
de tecnologias, na qual a vida se torna mais dinamizada, sabiamente esse fato não é 
contemplativo a todos os habitantes, pois esses espaços adquirem novas intenções, 
símbolos, valores surgindo novos paradigmas em sua apropriação. Por traz dessa alternativa 
intencional é trabalhado a ideia de seu valor de troca (financeirizado) em contraponto ao 
seu valor de uso (necessidade social) no qual com isso, limitado fica sua acessibilidade, 
criando através deste processo a segregação dos cidadãos carentes que não podem pagar 
pelo seu uso. 


21 A FUNÇÃO E UTILIZAÇÃO DOS ESPAÇOS PÚBLICOS NA CIDADE 
CONTEMPORÂNEA 

Em meio à construção e ocupação do espaço urbano há de se destacar a importância 
estrutural dos espaços públicos e privados existentes. Os espaços privados têm seu uso 
controlado por seu proprietário, restringindo ou ampliando o número de munícipes que 
utilizarão desse espaço, variando de acordo com as lógicas capitalistas impostas por quem 
o administra, já ao espaço público, teoricamente se destina o uso por todos os moradores 
da cidade ou da área rural que estiverem no município. 

Entre os espaços públicos podemos citar como principais, as praças, os jardins, 
parques, hortos, zoológicos, bibliotecas, as vias de ligação (ruas, calçadas e avenidas), 
quadras de esportes, campos de futebol, escolas públicas, hospitais e pronto atendimento 
(saúde), órgãos de atendimento ao público (fórum, prefeitura, etc.). Através desses 
equipamentos é possível realizar as atividades de ir e vir (deslocamento), cidadania, 
política e lazer, cumprindo suas funções sociais. 

Os espaços públicos, principalmente os de lazer, possuem fundamental importância 
para a revitalização urbana, haja vista ser esses equipamentos utilizados principalmente 
por moradores de menor renda. 

O próprio conceito de descanso semanal associado ao lazer do trabalhador é algo 
bem restrito que permeia entre a aparência e a essência; ao capitalismo o descanso semanal 
do trabalhador se torna necessário principalmente por motivo de repor as energias do 
trabalhador frente à nova etapa semanal de trabalho, em menor importância se relaciona ao 
fato do direito ao lazer, importante é estar descansado para novamente reproduzir o capital. 
ver um processo iniciado em 1950 no centro de Londres, quando algumas áreas residenciais deterioradas, tradicional- 


mente ocupadas por operários, estavam sendo transformadas em áreas residenciais para grupos de status socioeconô- 
mico mais elevado (FURTADO 2011, apud GEVEHR 2017). 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 16 





Em tratando da classe de maior renda, diversificada é a sua forma de lazer, que 
a nível local é variável entre a frequência a um shopping ou um pesque - pague, entre o 
clube social ou um parque ou cinema e ainda se desejar, pode fazer também uso dos bens 
públicos existentes ou mesmo viajar para outros locais; em contrapartida ao trabalhador 
principalmente das camadas de mais baixa renda, as opções são mais restritas, surge daí 
a grande importância de um espaço público de lazer, que na maioria dos casos, se tornam 
a principal forma de entretenimento desse cidadão. 

O próprio entorno residencial é diferenciado entre bairros de população de baixa e 
de alta renda, um exemplo clássico disso são os condomínios horizontais fechados que são 
dotados de academias, salão de festas, áreas verdes com lagos, piscinas, salão de festas 
e/ou jogos, segurança, mini praças, internet etc. Em contrapartida, diversos são os bairros 
de trabalhadores de baixa renda que nem sequer uma simples praça existe, muitas vezes 
resumidos apenas à área construída de sua própria residência, distantes de todos os bens 
públicos existentes no município. 

Importante seria para a sociedade municipal se os espaços públicos de todos 
os segmentos estivessem inseridos no contexto de análise relacionado à unidade de 
vizinhança, como apontam alguns autores quando se trata principalmente na questão da 
educação e do lazer. 

Ferrari (1982, p.14), nos indica que na escala conhecida por unidade de vizinhança, 
a escola primaria é colocada, aproximadamente, no centro da área de modo que as 
distâncias dos pontos mais afastados não devam exceder 800 a 1000 metros (para uma 
criança representa em torno de uns 15 minutos de caminhada a pé). 

É dentro dessa lógica de vizinhança que equipamentos públicos relacionados ao 
lazer como as praças e relacionados à saúde, como os postos de saúde, deveriam ser 
melhor distribuídos na mancha urbana. Campos Filho (2010, p.20) nos orienta que: 


(...) o grau de mobilidade urbana afetará o custo material (tempo) e econômico 
(gasto com transporte), [...] o arquiteto e urbanista Luiz Carlos Costa (Urbe 
Planejamento Programação e Projetos), relata que 800 metros tem sido a 
distância máxima definida como cômoda para se andar a pé até o comercio, 
serviços ou equipamentos sociais. 


Atualmente inserida sob a lógica globalizante do capital, a cidade é anunciada 
nos conceitos mercadológicos necessitando de espaços renovados e atrativos. No 
decorrer temporal desses espaços geográficos com o avanço do período técnico científico 
informacional, novas intenções, símbolos e valores são dotados de novas significâncias 
que nos remetem a novos paradigmas em relação ao uso e ocupação territorial e social. 

Na demanda locacional do mercado em busca de lugares luminosos (lugares 
atrativos no que tange os interesses econômicos dotados de características técnicas, 
científicas e informacionais) insere-se a cidade-mercadoria moldada em conformidade aos 
interesses financeiros que, tentando atingir seu público consumidor, tem na implantação de 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 16 





seus aportes estruturais uma diferença entre centro e periferia, criando com isso uma luta 
de classes com interesses antagônicos, proporcionando-se um caos urbano diretamente 
relacionado à ineficiência de um planejamento socioespacial adequado, onde este não 
apenas seja contemplativo para a lógica do seu consumo. 

Surge nesse contexto à ideia de cidades com áreas maquiadas. Alguns autores 
denominam esses locais de Placemaking?, na qual são voltadas a atrair público 
consumidor para a pujança comercial, novos espaços se transformam em locais dotados 
de embelezamento em suas fachadas prediais imbuídos de novos atrativos, tanto no que 
se refere à esfera pública como privada. 

Ao munícipe, em princípio, essa parceria apresenta-se como alternativa para regiões 
mais seguras e com aparência voltada ao bem estar e melhoria em qualidade de vida, mas 
em contrapartida, outro fenômeno se desenvolve nessas áreas maquiadas, pois a mesma, 
dotada de uma nova dinâmica espacial, tem a ocorrência de uma valorização, favorecendo 
o processo de gentrificação. Esse processo de embelezamento, dificilmente é executado 
nas pontas periféricas da cidade, ficando resumido a locais mais centralizados em busca 
de munícipes com poder razoável de consumo local. 

Esse fato de abandono dos espaços públicos pelo poder executivo remete a ideia 
ao munícipe de que certo são esses equipamentos serem administrados por empresas 
privadas. 

Em meio a essa negociação mercantilizada voltada aos interesses privado e 
imobiliário, os espaços públicos que tem função voltados a cidadania e lazer de todos os 
moradores de uma cidade, atende uma pequena parcela da sociedade. 


31 AS PRAÇAS ENQUANTO ESPAÇOS PÚBLICOS DE LAZER EM 
RONDONOPOLIS 

Segundo levantamento de Petri (2017), sobre estudo de segregação socioespacial 
referente a equipamentos públicos lazer, a relação de praças segundo a Prefeitura 
Municipal de Rondonópolis é de 44 unidades (Quadro 01). 

Ao se cruzar os dados de nomes de praças e endereços, o autor averiguou que 
algumas praças no município possuíam dois, em alguns casos, três nomes para o mesmo 
equipamento público, conforme descrito em Montalvão (2014, p. 34), reduzindo com isso o 


número de praças fisicamente existentes na mancha urbana local. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 16 























































































































Nº NOME LOCALIZAÇÃO LEI 

01 Praça Bom Jesus Vila Operária 4141979 
02 Praça das Palmeiras Conj. Hab. COOPHALIS — Praça F 641/1979 
03 Praça dos Sândalos Conj. Hab. COOPHALIS — Praça Q 641/1979 
04 Praça das Perobas Conj. Hab. COOPHALIS — Praça K 641/1979 
05 Praça das Aroeiras Conj. Hab. COOPHALIS — Praça L 641/1979 
06 Praça da Saudade Av. Bandeirantes 997/1980 
07 Praça 7 de Setembro Núcleo Hab. Rio Vermelho — Cohab velha 677/1979 
08 Praça das Bandeiras Núcleo Hab. Rio Vermelho — Cohab Velha 6771979 
09 Praça Marechal Rondon Vila Jd. Pindorama 713/1980 
10 Praça do Imigrante V. Salmem — Frente p/ a av. Pres. Medici 737/1980 
1 Praça N. Sr? Aparecida Núcleo Hab. Parque Real 754/1980 
12 Praça José de Matos Paço Municipal — V. Aurora 755/1981 
13 Praça Corrêa Leite Quadra nº 08 do Agrupamento 32 832/1982 
14 Praça Maria do Carmo F. Garcia Quadra nº 25 do Bairro Santa Cruz 832/1982 
15 Praça Marco A. D. Soares Quadra s/n do Agrupamento 32 832/1982 
16 Praça Wilson Ferrari Vila Birigui — Frente à Santa Casa 832/1982 
17 Praça Manuel Francisco dos Santos | Praça da Vila Itamarati 952/1983 
18 Praça Júlio A. da Silva Praça feira-livre da V. Salmem 953/1983 
19 Praça Ricardo Groto Antiga pça Sândalo, Conj. H. COOPHALIS 956-A/1983 
20 Praça Ver. A. Corrêa Leite Praça destinada a feira-livre da Vila Operária 981/1983 
21 Praça Maria do Carmo C. Garcia | Rua Frei Servácio Bairro Sta. Cruz 1.713/1990 
22 Praça Antônio L. C. Limpo Neto Conjunto Habitacional São José III 1.770/1990 
23 Praça Manoel Pires Núcleo Hab. Rio Vermelho (Cohab Velha) 1.793/1990 
24 Praça Everaldo Kitada Núcleo Hab. Rio Vermelho (Cohab Velha) 1.794/1990 
25 Praça Naim Melhem Charafeddine Conjunto Residencial Marechal Rondon 2.267/1994 
26 Praça Habib Dib Quadra nº 25 do Bairro Santa Cruz 2.350/1995 
27 Praça Badid Dib Quadra nº 08 do Bairro La Salle 2.352/1995 
28 Praça José Francisco Pereira A praça da feira-livre Vila Operária 2.385/1995 
29 Praça Rinaldo Almeida de Souza Quadra nº 17 da Vila Birigui 2.467/1996 
30 Praça Júlio A. da Silva Jardim Ipanema e Vila Lurdes 2.534/1996 
31 Praça “Maximiano S. de Oliveira” Praça Esportiva — Jardim Atlântico 2.681/1997 
32 Praça Marco A. Duarte Soares Bairro La Salle 2.888/1998 
33 Praça Afonso E. Garcia Núcleo Hab. Parque Real 3.027/1999 
34 Praça Maria G. Portela A praça do Lar dos Idosos “Paul Percy Harris” 4.548/2005 
35 Praça da Coophasem Bairro “Coophasem” 4.662/2005 
36 Praça Khalil Zaher Pça da Câmara Municipal, La Salle 4.682/2005 
37 Praça Luiz Carlos Zeni Bairro Monte Líbano 5.084/2007 
38 Praça A. Gomes Cardoso A Praça do Conjunto Habitacional São José | 5.256/2005 
39 Praça Edinaldo P. dos Santos Vila Santa Luzia 5.313/2005 











Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 


Capítulo 16 























40 Praça Habib Dib Ao lado da sede da URAMB 4.932/2006 
41 Praça Ciro Pinheiro Pedroso Praça Multiuso - Bairro Cohab Velha 6.545/2010 
42 Praça dos Carreiros Centro 9991982 
43 Praça Brasil Centro 792/1963 
44 Praça João Domingos do Amaral A praça do Residencial Colina Verde 9971992 








Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 16 KEN 


Quadro 1: Relação das Praças no Município de Rondonópolis (2017). 
Fonte: Prefeitura Municipal de Rondonópolis (2017); MONTALVÃO, J. P. (2014). 


Outro fator relevante é o uso de alguns locais de praças utilizados para outras 
atividades, como a praça José de Matos, na verdade se trata até os dias atuais, da área 
predial da Prefeitura Municipal, apresentando um pequeno jardim do lado externo e 
interno, com seu acesso restrito a funcionários. No horário noturno, em que a prefeitura se 
encontra fechada, esse local oferece aos moradores do bairro apenas a parte externa, sem 
infraestrutura para seu uso como praça. 

Outra praça que apresenta acesso restrito, se trata da praça Naim Melhem 
Charafeddine, onde se encontra a Igreja de São Judas Tadeu, onde claramente se percebe 
seu acesso restrito através de grades no local, ficando parte da área deste território para 
uso exclusivo da igreja. 

A praça Vereador Alberto Corrêa Leite e praça José Francisco Pereira, que de 
acordo com a Prefeitura Municipal seriam cadastradas como praças, não passam de um 
local destinado ao funcionamento da feira livre do bairro Vila Operária. Este local, é de uso 
apenas para a feira e não possui qualquer infraestrutura que poderia indicar ser uma praça. 

Seguindo a análise de locais cadastrados como praça, encontramos espaços públicos 
de lazer que tinham como função apenas o esporte como é o caso da praça Manuel Francisco 
dos Santos no qual se trata apenas de um campo denominado de Mané Garrincha. 

Na praça do bairro Coophasem, a única infra estrutura até os dias atuais se trata 
de uma mini academia pública, não possuindo outras infraestruturas relativas ao efetivo 
funcionamento de praça no local. 

Até o fim dessa pesquisa, nada relacionado a instalação de bancos para o conforto de 
quem utiliza esse espaço público, arborização, quadras, etc., havia sido instalado neste local. 

Devido às contradições entre o cadastro e o real existente na paisagem urbana, em 
relação aos locais que efetivamente desempenhavam suas funções de praça, conseguiu- 
se chegar ao número efetivo de 21 praças no município, conforme aponta a figura 01. 

Efetivamente conforme demonstrado no estudo de Montalvão (2014), das quarenta 
e quatro praças cadastradas a época nos registros da prefeitura, apenas vinte e uma praças 
eram estruturados e atendiam as funções de uso para lazer dos cidadãos do município. 

Ao se utilizar o critério de unidade de vizinhança apontado por Campos Filho (2003), 
800 metros e Ferrari (1982) de 800 a 1000 metros, ficou demonstrado as áreas do município 
segregadas em função da localização desses equipamentos de lazer em 2017. 





Em retorno à Prefeitura em 2017, em busca de dados georreferenciados, o SHP 
(shape) fornecido pela Prefeitura Municipal, ao qual no momento cabe aqui ressaltar, que 
na gestão atual, o cadastro apresentou apenas 30 unidades consideradas como praça. 

Na figura 02, destaca-se o posicionamento das praças existentes indicando os 


bairros contemplados por esses equipamentos públicos, assim como informa a quantidade 
de unidades existentes por bairro. 


= 

=* 
e 
” 
a 
a 





Figura 01: Imagem da distribuição das praças públicas instaladas no município de Rondonópolis. 
Fonte: Google Earth (2013), P-M.R (2013). MONTALVÃO, J. P. & PETRI, R. T. (2017). 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 


Capítulo 16 KZ 


Ao observamos figura 02, fica evidente que o bairro Coophallis é detentor de quatro 
unidades de praças, e a pouca distância deste bairro, encontraremos outro local favorecido 
com três unidades que no caso se trata do Núcleo Habitacional Rio Vermelho (Cohab 
Velha), ao lado deste bairro, precisamente no Parque Real tem mais uma unidade, no 
Jardim Guanabara verificamos possuir duas unidades, no Centro A e B também duas 
unidades, e a nível periférico, apenas um local que após o ano de 2015 ficou agraciado 
com duas praças, bairro Jardim Atlântico, talvez por sua proximidade com a Universidade 
Federal de Rondonópolis (UFR) e a Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e 
Inovação (SECITEC), no qual são entidades educacionais responsáveis por oferecer a 
este bairro um bom número de moradores (estudantes). É importante destacar que bairros 
como Cohab Velha, Coophallis que em datas anteriores eram conjuntos habitacionais 
para trabalhadores de baixa renda, devido a sua proximidade com a área central, hoje 
apresentam características em suas construções voltadas à classe média. 

Em síntese, existe nesses bairros periféricos, áreas destinadas para instalação 
praças, porém, cabe ao poder executivo a efetiva construção dos espaços públicos nesses 
locais, o que em muito melhoraria a qualidade de vida desses moradores. 

Conforme se visualiza no mapa referente as praças, na qual são os principais 
atrativos de lazer no município, principalmente para pessoas mais carentes, observa-se 
que estes equipamentos estão distribuídos em maior quantidade principalmente em área 
central e bairros adjacentes. 

Outro fato evidente apresentado na figura 02, é a quantidade de bairros periféricos 
não contemplados com praças, restando a esses moradores buscar apoio no que se 
referem a esses equipamentos públicos, em bairros vizinhos ao seu local de moradia. 

Verifica-se que poucos são os bairros periféricos que dispõem desses equipamentos, 
e que esse fato não tem essa ocorrência relacionada aos moradores quando se trata de 
áreas mais centralizadas. 

As praças são de vital importância no contexto urbano, como nos apontam 
diversos autores tais como, Robba e Macedo (2002), Caldeira (2007) e outros, não se 
concretizam efetivamente como bem público a todos os moradores da cidade. Ao observar 
o descumprimento desse direito, é que se nota que a cidade não é algo constituído para 
todos os seus cidadãos, sendo essa tratativa intencional ou não no que se determina como 
responsabilidade do poder público. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 16 EEE 


Mancha Urbana de Rondonópois - 


Praças Públicas 


Quantidade de Equipamentos 
B 1 Praça 
BD 2ZPraças 
E 3Praças 
E 4Praças 
Bairros sem Praças 


Fonte PU R 


1 PÇA DA PAZ - 2 PÇA RINALDO ALMEIDA DE SOUZA - 3 PÇA BADID DIB - 4 PÇA KHALIL ZAER - 5 PÇA HABIB DIB - 6 PÇA DA SAUDADE - 7 
PÇA BRASIL - 8 PÇA CARREIROS - 9 PÇA JOSE MATOS - 10 PÇA AFONSO EGEA GARÇIA - 11 PÇA EVERALDO KITADA - 12 PÇA CIRO 
PINHEIRO PEDROSO - 13 PÇA MANOEL PIRES - 14 PÇA DAS PALMEIRAS - 15 PÇA RICARDO CROTO - 16 PÇA DAS PEROBAS - 17 PÇA DAS 
AROEIRAS - 18 PÇA SAGRADA FAMILIAI - 19 PÇA MARIA COMES PORTELA(MARIA DO BOSCO) - 20 PÇA MAXIMINIAMO SOARES OLIVEIRA 
- TIPÇA SEBASTIÃO MARCOS DE SOUZA - 27 PÇA JOSE FÇO PEREIRA - 23 PÇA CENTENARIA - 24 PÇA BOM JESUS - 25 PÇA MANUEL FÇO 
SANTOS - 26 PÇA ACRIPIXNO COMES CARDOSO - 27 PÇA NAIM MELHEM CHARAFEDDINE 28 PÇA ANTONIO LOUREÇO CAMPO LIMPO NETO 
- 29 PÇA LUIZ CARLOS ZENI 30 PÇA COPHACEM 








áreas segregadas 


fica que, conforme 


ão geográ 


o 
— 
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diversas 


ência 


lapontar a existê 


Fonte: Prefeitura Municipal de Rondonópolis (P.M.R.), VICENTE, T.G. (2017). 
, € possive 


Figura 02: Mapa de Praças Públicas no Município de Rondonópolis — MT (2017). 
E importante esclarecer que atualmente algumas iniciativas são tomadas entre 


poder público, iniciativa privada e sociedade civil que estão relacionadas ao melhoramento 
estético de algumas áreas públicas, mas o que aqui se questiona e procura apontar como 


problema se relaciona à quantidade de equipamentos existentes e a dificuldade de se 
ter acesso a esses bens públicos devido a sua distribuiç 


demonstrado através de mapas 
Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 


na sua correlação com esses espaços públicos. 

A questão de unidade de vizinhança de aproximadamente 800 a 1000 metros, 
em grande parte do município, não acontece na maioria dos casos e o tempo gasto 
para acessar esses dispositivos públicos são uma constante na vida de muitos desses 
munícipes, associa-se a isso em muitos casos, o gasto com transporte para a via de ligação 
entre bairro e equipamento. 

Em análise desse recorte parcial da figura 02, é possível perceber que em uma 
pequena área urbana (centro e seu entorno) se concentra a maior parte deste tipo de 
equipamento de lazer municipal. 


41 CONSIDERAÇÕES FINAIS 


Rondonópolis-MT é uma cidade com características socioespaciais atrativas e com 
um crescimento econômico significativo, conforme atestam Negri (2001), Demamaman 
(2011), entre outros. Cabe aqui ressaltar que esse crescimento acelerado, incluindo grande 
emigração, potencializou o preço do solo urbano mercantilizado pelos seus principais 
agente produtores (NEGRI, 2008). 

Verifica-se, portanto, que poucos são os bairros periféricos que dispõem dos 
equipamentos apontados na pesquisa, o que não ocorre, na mesma intensidade com 
os moradores das áreas mais centralizadas, que além de financeiramente serem mais 
abastados em sua maioria, usufruem de vários locais onde podem ter acesso ao lazer, 
tanto público como privado, com maior facilidade. São as pessoas mais pobres aquelas que 
mais sofrem quando tem seu deslocamento ampliado, devido as grandes distâncias são 
obrigadas a percorrer entre seus locais de moradia até os espaços públicos de lazer. Tanto 
em termos financeiros, onerando o já reduzido orçamento, principalmente ao se tornar 
necessário o uso de algum tipo de transporte, como também pelo maior tempo despendido 
ao se deslocar, isso por si só já reduz seu tempo de lazer ou tempo de descanso, sem 
levar em conta a exposição aos riscos decorrentes, tais como, violência e ou acidentes que 
possam vir a ocorrer nos centros urbanos. 

Rondonópolis, como a maioria das cidades brasileiras, apresenta características 
de fragmentação, desordenamento territorial e periferização dos mais pobres, fato esse, 
que é comum na grande maioria dos municípios. Aqui, como em grande parte do país, há 
uma carência de infraestruturas públicas nas áreas periféricas, alia-se a isso um déficit 
habitacional crescente, haja vista ser um município mato-grossense com certo destaque na 
esfera estadual e nacional. 

São esses fatores contribuintes para a subtração de direitos à cidade e suas formas, 
como também no direito de sua cidadania, constituindo-se assim uma realidade que se 
materializa em seu processo de ocupação, e no uso estrutural e pleno do espaço geográfico 


do município. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 16 185 


Um fato relevante aos mais pobres é a questão da consciência política e laboral 
necessária para O pleito argumentativo frente aos poderes públicos em busca de seus 
direitos. Cada cidadão necessita estar inserido politicamente nas instâncias de poder com 
objetivos voltados a conseguir uma sociedade mais justa tendo para seu local de habitat, 
condições dignas de vida. 

Desse modo, é importante frisar que a segregação socioespacial deve ser enfrentada 
com políticas públicas de intervenção através de uma perspectiva integral, vinculando as 
dimensões sociais, estruturais e ambientais. As políticas públicas desse modo devem ser de 
inclusão urbana com um combate à exclusão social, em seus diferentes níveis e dimensões 
socioespaciais, onde a preocupação maior do poder público se torne o ser humano e não 
a auto regulação especulativa do mercado. Ao se tratar dos planos diretores municipais, 
eles não devem ser displicentes, quando se trata de dados físicos e sociais relacionados à 
economia, moradia, saúde, infraestruturas e questões ambientais, sendo estes fatores os 


principais quesitos de piora ou melhora na qualidade de vida dos habitantes de uma cidade. 
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Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 16 


CAPÍTULO 17 


CEMITÉRIO HARMONIA: UMA APROXIMAÇÃO 
ENTRE ARQUITETURA E PATRIMÔNIO CULTURAL 
NO MUNICIPIO DE TELEMACO BORBA (PR) 


Data de aceite: 02/08/2021 
Data de submissão: 05/07/2021 


Ingrid Cristina Ligoski de Avila 
Universidade Estadual de Ponta Grossa 
Ponta Grossa — PR 
https://orcid.org/0000-0002-9925-9551 


Brunna Adla Ferreira 

Universidade Estadual de Ponta Grossa 
Ponta Grossa — PR 
https://orcid.org/0000-0003-4572-4451 


RESUMO: Este artigo tem como objetivo 
apresentar a discussão da notoriedade 
e potencialidade do Cemitério Harmonia, 
localizado no município de Telêmaco Borba, 
estado do Paraná, como patrimônio cultural, 
além de uma de suas características ímpares: 
a arquitetura. O estudo foi realizado a partir 
da produção do projeto — realizado pelo Grupo 
de Pesquisa Geografia e História: Patrimônio 
Cultural e Memória Social (CNPq/UEPG), e 
apresenta resultados de análises de entrevistas e 
aplicação de formulários via Google Forms, feitas 
no decorrer do trabalho, como a importância do 
Cemitério no desenvolvimento do município em 
que está localizado, bem como sua relevância 
patrimonial. 

PALAVRAS-CHAVE: Patrimônio 
Patrimônio Cemiterial; Arquitetura. 


Cultural; 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 


HARMONIA CEMETERY: AN APPROACH 
BETWEEN ARCHITECTURE AND 
CULTURAL HERITAGE IN THE 
MUNICIPALITY OF TELÊMACO BORBA 
(PR) 

ABSTRACT: This article aims to present the 
discussion of the notoriety and potentiality 
of Harmonia Cemetery, located in the city of 
Telemaco Borba, state of Paraná, as a cultural 
heritage, besides one ofits unique characteristics: 
the architecture. The study was conducted from 
the production of the project - carried out by the 
Research Group Geography and History: Cultural 
Heritage and Social Memory (CNPq/UEPG), 
and presents results of analysis of interviews 
and application of forms via Google Forms, 
done during the course of the work, such as the 
importance of the Cemetery in the development 
of the municipality in which it is located, as well 
as its heritage relevance. 
KEYWORDS: Cultural 

Heritage; Architecture. 


Heritage; Cemetery 


11 INTRODUÇÃO 


Atualmente os estudos cemiteriais têm 
sido fonte de estudo para diversas áreas de 
conhecimento. Isso se deve ao fato de que 
os cemitérios carregam valores materiais e 
imateriais, e por isso devem ser considerados 
patrimônios histórico-culturais. Desta forma, 
o presente trabalho é referente ao Cemitério 
Harmonia, que se localiza no município de 


Telêmaco Borba (PR), o qual possui um papel 


Capítulo 17 


fundamental para a memória social e cultural dos telemacoborbenses. 

Com isso, nosso objetivo é realizar uma discussão sobre a importância patrimonial 
do Cemitério, a partir de resultados obtidos na elaboração do projeto — realizado pelo 
Grupo de Pesquisa Geografia e História: Patrimônio Cultural e Memória Social (CNPq/ 
UEPG) — a partir de análises sobre o seu valor simbólico, representatividade, religiosidade, 
funcionalidade social e, também, sobre seu aspecto arquitetônico. 


21 CEMITÉRIO HARMONIA: HISTÓRIA, MEMÓRIA, ARQUITETURA E 
PATRIMÔNIO 

Construído em 1940! e tendo seu último sepultamento na década de 1990, o 
Cemitério Harmonia (FIGURA 01), teve suas atividades encerradas devido ao crescimento 
da cidade de Telêmaco Borba, oficialmente elevado à categoria de município em 21 de 
março de 1964. 


s37000 sa8000 539000 540000 ss1000 542000 543000 


Localização do Cemitério de Harmonia- Telêmaçó Borba 


7314000" 


7314000 
“ 








7313000 


7313000 


Legenda 


| cemitério de Harmonia 





7312000 


7312000 


75] Klabin Monte Alegre 
5] Kiabin- Pátio de madeiras 
| Lago Harmonia Clube 


Telêmaco Borba 














Harmonia Clube 


7341000 
7311000 


Núcleo de Harmonia 
Parque Ecológico 


Prefeitura 


coz] 


7310000 


Teleférico de Harmonia 


7310000 


— Rio Tibagi 
— Rodovia do Papel 


7308000 


7309000 


Informações Cartográficas 
SIRGAS 2000-225 
Base de Dados: ITOG 
Nº Org ANDRADE, 2019 


T 1:35.000 


0 0425 085 17 km 
— > ——— 





7308000 
7308000 


s37000 s38000 sa39000 ss0000 00 543000 


Figura 01 — Mapa de localização do Cemitério Harmonia, Telêmaco Borba (PR). 


Fonte: Arquivo de dados - Projeto de pesquisa Cemitério Harmonia (2019). 


Durante cinquenta anos o “Cemitério recebeu sepultamentos de pessoas da 
comunidade, especialmente dos trabalhadores da Klabin” (LIGOSKI, 2019, p. 14). Sendo 
esse um ponto a ser destacado no que se refere ao seu potencial patrimonial, estando 
ligado à memória dos familiares dos inumados. E a memória, para Chauí (2000) pode 
ser considerada uma evocação ao passado, ou seja, “a capacidade humana para reter e 


1 Mesmo período de implantação da Indústria Klabin do Paraná Papel e Celulose S/A. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 17 [190 


guardar o tempo que se foi, salvando-o da perda total” (CHAUÍ, 2000, p. 158). 

A partir dos anos 2000, a consequência do abandono do Cemitério culminou em 
seu mal uso, motivo que levou a iniciativa privada a cogitar seu desmonte. E em 2005, 
colaboradores da Klabin?, buscaram contato com algumas famílias dos inumados no local, 
para informar acerca do encerramento total das atividades (incluindo visitas, pois, os corpos 
deveriam ser exumados e transferidos para os outros dois cemitérios do município). 

Foi esse o estímulo necessário para moradores e principalmente familiares buscarem 
formas de impedir esse processo. A partir de então a Universidade Estadual de Ponta 
Grossa - especificamente o Grupo de Pesquisa Geografia e História: Patrimônio Cultural 
e Memória Social (CNPq/UEPG) -, por indicação do Setor do Patrimônio Arqueológico, 
Etnográfico e Paisagístico da Coordenação do Patrimônio Cultural da Secretaria de Estado 
da Cultura (CPC/SEEC), foi convidada a realizar um estudo aprofundado da importância 
do Cemitério Harmonia para a população de Telêmaco Borba e sua caracterização como 
patrimônio cultural. 

De acordo com Ligoski (2019) o patrimônio cultural, sobretudo cemiterial tem grande 
potencial, pois 


[...] os cemitérios carregam valores que estão diretamente relacionados aos 
bens materiais e aos bens imateriais, pois é através dos aspectos e dos 
símbolos presentes nesses espaços que podemos identificar como somos e 
como nos organizamos socialmente. (LIGOSKI, 2019, p. 20) 


Além disso, Pierre Nora (1983), afirma sobre a não existência de meios de memória, 
apenas lugares de memória, que nessa discussão pode ser entendida como o Cemitério, 
pois, sem a existência dele, a memória acerca do início de Telêmaco Borba poderia estar 
em um maior esquecimento. 


A memória é a vida, sempre carregada por grupos vivos e, nesse sentido, 
ela está em permanente evolução, aberta à dialética da lembrança e do 
esquecimento, inconsciente de suas deformações sucessivas, vulnerável a 
todos os usos e manipulações, suceptível de longas latências e de repentinas 
revitalizações. (NORA, 1983, p. 09) 

Sendo assim, ao tratar de patrimônio cultural é necessário a compreensão de 
seus significados, sua dialética (entre materialidade e imaterialidade) e força simbólica 
(FERREIRA, 2019), portanto, o potencial patrimonial do Cemitério Harmonia, pode ser 
percebido através dessas três frentes, principalmente no que se refere a sua força simbólica. 

Além disso, Ligoski (2019, p. 25) afirma que “por intermédio da arquitetura, escultura 
e artes decorativas, cristalizam-se elementos simbólicos que, quando interpretados, 
permitem uma compreensão da sociedade na qual estão inseridos”. 

A arquitetura tumular é de grande importância para os estudos patrimoniais, pois 
permite que diversas áreas do conhecimento se encontrem e realizem diferentes discussões 
referentes ao tema cemiterial. Isso porque, estudar a morte é trabalhar sobretudo com 


2 Responsáveis pela manutenção e advogado. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 17 as 


a memória, e, portanto, a morte deve ser estudada através de suas manifestações 
socioculturais, símbolos e espaços que as sociedades destinaram a ela. 

O Cemitério Harmonia, mesmo sem uso e em condições de abandono, apresenta 
elementos arquitetônicos antigos (FIGURA 02, 03 e 04), com técnicas de construção da 
parte intermediária do século XX, bem como o uso de materiais, que o classificam como um 
Cemitério singular (LIGOSKI, 2019). 


“ana 








Figura 02 - Portal de entrada do Cemitério. 
Autora: LIGOSKI, |. C (2019). 





Figura 03 - Túmulos do Cemitério Harmonia. 
Autora: LIGOSKI, |. C (2019). 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 17 KER 





Figura 04 — Capela do Cemitério Harmonia, localizada ao centro. 
Autora: LIGOSKI, |. C (2019). 


Neste sentido, o que faz um cemitério ser um local de memória é a arquitetura que 
ali se encontra representada, seja ela por túmulos, lápides, epitáfios e na maioria das vezes 
por artefatos religiosos. Portanto a relação entre cemitério, memória e patrimônio, se devem 
a esses elementos arquitetônicos, pois segundo Nogueira (2013, p. 32), “o monumento 
funerário destina-se, entre outras atribuições, prioritariamente a perpetuar a recordação no 
domínio em que a memória é particularmente valorizada”. 

E com o intuito de justificativa para esse título de patrimônio cultural ao Cemitério, 
para o projeto, foi realizada uma pesquisa junto a população do município de Telêmaco 
Borba, para identificar esse (reconhecimento. Nessa medida, houveram questionários 
fechados utilizando a plataforma online Google Forms, calculando assim 171 respostas 
evidenciando o Cemitério Harmonia (FERREIRA, 2019). 


31 CONSIDERAÇÕES FINAIS 


Desenvolver esse trabalho dentro de um projeto tão significativo, traz à tona alguns 
pontos relevantes de discussão, sobretudo pontos que denotam o Cemitério Harmonia 
como um patrimônio cultural, em primeiro lugar é sua participação na história de Telêmaco 
Borba e da indústria Klabin, além de características sui generis? (FERREIRA, 2019). 

Ao definir o processo de proximidade para com a população na aplicação dos 
questionários não foi levado em conta que mesmo abrangente, ele seria excludente, uma 
vez que pessoas sem acesso à internet não puderam expor suas opiniões acerca do 


3 Pois se localiza em um local de preservação florestal. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 17 EEE 


Cemitério, porém, não houve influências no resultado final, uma vez que foram realizadas 
entrevistas no local com sujeitos que possuem familiares inumados no local. 

Por meio do trabalho com a plataforma online, foi possível perceber ainda que o 
Poder Público Municipal caracteriza o Cemitério Harmonia como um patrimônio cultural a 
ser cuidado e mantido para que a assim a memória desse local resista ao passar dos anos. 

Sendo assim, o Cemitério, se apresenta como um lugar sagrado em que a população 
não quer mexer, pois “é quase unânime o respeito e o desejo das pessoas em manter o 
cemitério para que os restos mortais das pessoas inumadas fiquem em paz” (FERREIRA, 
2019, p. 3). Além de que o Cemitério atrai muitos visitantes pelas suas lendas e histórias. 


REFERÊNCIAS 
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. Editora Ática, São Paulo, 2000. 


FERREIRA, Brunna Adla. Cemitério Harmonia: Patrimônio Cultural dos Campos Gerais e a 
Sociedade. In: Encontro Anual de Iniciação Científica, 28, 2019, Ponta Grossa. ANAIS... Ponta Grossa: 
UEPG, 2019. ISSN 1676-0098. 


. À relevância patrimonial da primeira experiência socialista no Brasil: Distrito de Tereza 
Cristina — Cândido de Abreu (PR). 2019. 82 p. Trabalho de Conclusão de Curso (Curso de Bacharelado 
em Geografia) — Universidade Estadual de Ponta Grossa, Ponta Grossa, 2019. 


LIGOSKI, Ingrid Cristina. Cemitério Harmonia: Patrimônio Arquitetônico e Cultural dos Campos Gerais 
(Paraná). 2019, 75 f. Monografia (Graduação em Geografia Licenciatura). Universidade Estadual de 
Ponta Grossa, Paraná, 2019. 


NOGUEIRA, Renata de Souza. Quando um cemitério é patrimônio cultural. 2013, 128 f. Dissertação 
(Mestrado em Memória Social) — Centro de Ciências Humanas e Sociais. Universidade Federal do 
Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2018. 


NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Les lieux de mémoire, (pp.28 — 
42), 1984. Tradução de: Yara Aun Khoury, 1993. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 17 EEE 


CAPÍTULO 18 


EVOLUÇÃO HISTÓRICA E URBANA DE 
CONTRASTE URBANO EM ÁREA RESIDENCIAL NA 
CIDADE DE SÃO LUÍS - MA: PENÍNSULA DA PONTA 


Data de aceite: 02/08/2021 
Data de submissão: 14/07/2021 


Walber da Silva Pereira Filho 

Mestrando em Geografia, Natureza e Dinâmica 
do Espaço - UEMA 
http://lattes.cnpqg.br/7671026024152533 


Hugo José Abranches Teixeira Lopes Farias 
Professor - Curso de Arquitetura e Urbanismo - 
Universidade de Lisboa 
https://orcid.org/0000-0001-9346-4039 


Marluce Wall de Carvalho Venancio 
Professora 

Curso de Arquitetura e Urbanismo - UEMA 
http://lattes.cnpg.br/3695709486352940 


Saulo Ribeiro dos Santos 

Professor - Mestrado em Geografia, Natureza e 
Dinâmica do Espaço - UEMA 
http://lattes.cnpg.br/6334574563260950 


RESUMO: A cidade de São Luís - MA apresenta 
um constante crescimento urbano nas últimas 
décadas, resultando em um contraste citadino 
num ponto central e importante - as áreas da 
Península e Ilhinha. A presente pesquisa analisou 
a evolução urbana destas duas áreas específicas 
na cidade: a Península na Ponta D'Areia (parte 
favorecida economicamente) e a Ilhinha (área 
carente de infraestruturas e serviços). A escolha 
do tema decorreu da importância das áreas no 
contexto urbano da cidade, e por serem locais 
de antigo conflito social. Utilizou-se de pesquisa 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 


D'AREIA E ILHINHA 


bibliográfica, com abordagem qualitativa, como 
artigos, livros e periódicos. Também utilizou-se 
de pesquisa de campo para o levantamento de 
parte do seu espaço urbano. Com este estudo, 
esperamos uma compreensão das diferenças 
que existem entre as duas áreas ao nível do 
espaço urbano para a construção de um País 
mais harmônico e igualitário. 
PALAVRAS-CHAVE: Contrastes urbanos; 
Espaço urbano; Península; Ilhinha; São Luís. 


ABSTRACT: The city of São Luís - MA presents 
a constant urban growth in the last decades 
resulting in a city contrast in a central and 
important point - the areas of the Península and 
llhinha. The present study analyzes the urban 
evolution of these two specific areas in the city: the 
Peninsula in Ponta D'Areia (economically favored 
part) and Ilhinha (area lacking in infrastructure 
and services). The choice of this theme stemmed 
from the importance of the areas in the urban 
context of the city, and because they were places 
of ancient social conflict. Bibliographical research 
was used, with a qualitative approach, such as 
articles, books and periodicals. Field research 
was also used to survey part of its urban space. 
With this study, we expect an understanding of 
the differences that exist between the two areas 
atthe level of the urban space for the construction 
of a more harmonious and egalitarian country. 
KEYWORDS: Urban Contrasts; Urban Space; 
Península; Ilhinha; São Luís. 


11 INTRODUÇÃO 
Segundo Mongin (2009), ametropolização 


Capítulo 18 


gera a ascensão das desigualdades. Assim, podemos perceber em São Luís - MA, um 
constante crescimento da cidade nas últimas décadas, resultando num contraste urbano 
em um ponto central e importante - as áreas da Península e Ilhinha. 

Se, por um lado, o habitar pode ser pleno de todas as condições necessárias para 
a vida quotidiana, segundo os princípios da arquitetura contemporânea, por outro lado, 
quando esse habitar é desprovido de infraestrutura, equipamentos urbanos e serviços, a 
sua presença assume um impacto depreciativo e marcante na paisagem urbana. 

A Península da Ponta D'Areia, se caracteriza por ser a área mais cara e privilegiada 
da cidade. Com uma relação direta com a praia, esta zona conta com inúmeros edifícios 
residenciais de classe média, alta e de extremo luxo. Na Ilhinha podemos perceber as 
diferenças em relação aos dados socioeconômicos, infraestrutura, equipamentos urbanos 
e espaços públicos. As condições habitacionais e de convivência oferecem baixa qualidade 
de vida. A renda econômica de seus moradores é baixa e há falta de infraestrutura nas 
moradias. Este contraste urbano nos fornece um campo vasto de estudo em áreas distintas, 
seja ela arquitetônica, social, econômica, urbanística, entre outras. 

O presente artigo analisou a evolução urbana de duas áreas específicas na cidade 
de São Luís: a Península na Ponta D'Areia (parte favorecida economicamente) e a Ilhinha 
(área carente de infraestrutura e serviços) sobretudo, por estarem em pontos estratégicos 
da cidade e por serem áreas de atrito social. 

















Figura 01 - Foto aérea da Península e Ilhinha indicadas. 


Fonte: Burnet (2002). 


21 OBJETIVOS 


2.1 Objetivo geral 


Analisar a evolução urbana de duas áreas específicas na cidade de São Luís: a 
Península na Ponta D'Areia (parte favorecida economicamente) e a Ilhinha (área carente 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 18 [196 


de infraestrutura e serviços). 


2.2 Objetivos específicos 


* | Compreender o processo de urbanização nas zonas mencionadas do Bairro da 
Ponta D'Areia especificamente, na Península e na llhinha; 


*- Contextualizar historicamente, socialmente e economicamente estas áreas. 


31 JUSTIFICATIVA 


A escolha do tema deste estudo decorreu, sobretudo, da importância das áreas no 
contexto urbano da cidade, e por serem locais de antigo conflito social. A Ilhinha, como 
remete seu nome, está “ilhada” entre construções de alto poder aquisitivo sendo vista como 
um dos locais mais perigosos da cidade em razão da existência de pontos de tráfico de 
drogas. Com uma divisão geográfica feita naturalmente pelo mangue! há o bairro da Ponta 
D'Areia, caracterizado pela existência de empreendimentos imobiliários de alto padrão, 
tornando esta região o metro quadrado mais valorizado da cidade. 


41 METODOLOGIA 


Utilizou-se de pesquisa bibliográfica, com abordagem qualitativa, como artigos 
científicos, livros e periódicos. Também utilizou-se de pesquisa documental para 
levantamento de dados sobre registros, fotos e acontecimentos históricos das áreas 
analisadas. Entrevistas abertas com alguns professores do curso de Arquitetura e 
Urbanismo da Universidade Estadual do Maranhão também foram realizadas. Além de 
levantamento fotográfico e físico de algumas habitações na Península e Ilhinha. 


51 A FORMAÇÃO DA ILHINHA 


A comunidade da Ilhinha está situada a noroeste de São Luís. A Oeste, encontra- 
se a Baía de São Marcos e o Residencial Ana Jansen, rodeada a leste pelo Bairro de São 
Francisco e pelo BASA (conjunto habitacional) na parte Sul. Ao Norte, a Ilhinha limita-se 
com o Igarapé Ana Jansen, área de mangue que faz conexão com a Lagoa da Jansen, 
como mostra a Figura 02. 


1 Mangue é um ecossistema costeiro de transição entre os ambientes terrestre e marinho, zona úmida característica 
de regiões tropicais. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 18 








LAGOA DA JANSEN 
PONTA D'AREIA 


AHIA. 


ELUS 
SÃO MARCOS 


ILHINHA. ] 











Figura 02 - Bairro da Ilhinha e localidades adjacentes. 
Fonte: Google Maps (2016). 


O surgimento da Ilhinha está intimamente relacionado ao aterro da Ponta D'Areia 
e do represamento do Igarapé da Jansen em 1970, que como consequência houve o 
surgimento da Lagoa da Jansen e da Av. Maestro João Nunes. A área de maré/mangue 
foi ocupada por pessoas humildes, que fizeram suas palafitas e passaram a morar na 
localidade, originando assim uma ilha pequena, a Ilhinha. 

Segundo Silva (2012), a Lagoa da Jansen consiste em um represamento artificial 
que se comunica com a água do mar, através de comportas, formadas por água salobra, 
salgada e de lençóis freáticos. 

Por outro lado, tem-se a Avenida Castelo Branco, que no decorrer do crescimento 
dos bairros adjacentes de São Francisco e Renascença, no final dos anos 80, foi alargada se 
transformando numa das mais movimentadas e importantes de São Luís. Transformando-a 
num eixo viário primário, promoveu ainda mais o crescimento e adensamento da Ilhinha. 

A Ilhinha foi-se expandindo internamente, consolidando-se como uma ocupação 
permanente, caracterizando-se, porém, pela falta de um planejamento urbanístico 
adequado. Constata-se que, na década passada, as ruas construídas eram desprovidas 
de um estudo prévio, sendo assim estreitas e sem asfaltamento, além dos problemas 
relacionados com a falta de energia e de saneamento básico (LONGUI, 2007). 

Na década de 90, foi construída a ampliação da Avenida Litorânea e a Ilhinha passou 
a ter melhores acessos, facilitando assim o fluxo viário de seus moradores com uma das 
maiores opções de lazer da cidade: a praia. Ocorreu na mesma época a remoção das 
palafitas encontradas na Lagoa da Jansen para serem relocadas num conjunto construído 
e com uma infraestrutura básica já implantada, chamada de Residencial Ana Jansen, 
localizado na parte oeste. Por estar localizado em um ponto estratégico dentro da cidade 
(próximo ao Centro histórico, praias etc.) este Residencial presencia o crescimento de 
inúmeras palafitas ao seu redor, muitas delas, construídas por famílias que ali pretendem 
se estabelecer, como mostra a Figura 03. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 18 EE 





= . 
LAGOA DA JANSEN El OCUPAÇÕES IRREGULARES “+ 
e " q | at 
+ A ILHINHA 


PENÍNSULA 














Figura 03 - Avanço das ocupações irregulares. 
Fonte: Autor (2016). 


Com o passar do tempo a Ilhinha foi crescendo e se consolidando tanto na vertente 
cultural (a Ilhinha possui dois bumba-meu-boi?) como na vertente sócio-econômica de São 
Luís. As casas que antes eram de palha, madeira, papelão, deram lugar às casas de taipa, 
e, mais tarde, às de alvenaria. Com muita persistência da comunidade, foram implantados 
saneamento básico (precário), água canalizada, electricidade, pavimentação de ruas e 
escolas. 

5.1 Características específicas da Ilhinha de acordo com o Plano Diretor 


A revisão do Plano Diretor de São Luís de 1992, introduziu uma grande vantagem 
à comunidade: a proposta de que a Ilhinha fosse considerada “Zona de Interesse Social 
(ZIS)”. De acordo com esta lei, ZIS - é a área que, pelas suas características de ocupação 
já consolidadas, merece tratamento especial, ou que permitirá a implantação de cunho 
social”. Garante-se assim o interesse público na função social da cidade e da propriedade, 
e afastam-se problemas habitacionais causados pela gentrificação, ou seja, pela “expulsão” 
dos moradores pobres devido à supervalorização dos terrenos em que habitam. 








ILHINHA 








Figura 04 - Recorte do mapa urbano de São Luís, Bairros, Corredores e Zonas Urbanas. A localidade 
da Ilhinha marcada como ZIS. 


Fonte: PMSL (1992). 


2 Bumba-meu-boi é uma dança típica do folclore popular brasileiro, com personagens humanos e animais, que gira em 
torno de uma lenda sobre a morte e ressurreição de um boi. Dança muito popular principalmente no Norte e Nordeste 
Brasileiro. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 18 KEN 


As Zonas de Interesse Social possuem especificidades próprias. No Plano Diretor 
de São Luís de 1992 as ZIS se dividem em número 1 (ZIS1) e número 2 (ZIS2). 
Notamos algumas divergências do que está escrito na referida norma e do que 


encontramos na realidade. Dentre tais inconsonâncias, destaca-se a tabela abaixo: 




















Plano Diretor de São O que encontramos na 
Luís de 1992 (ZIS2) Realidade 
Frente mínima do lote (testada) 5,00m 4,00m 
Área mínima do lote 125,00m? 100,00m?2 
Afastamento frontal mínimo 2,00 Casas coladas com a calçada 
Área Livre Mínima do Lote (ALML) 30% Casas sem Área Livre Mínima 








Tabela 01 - Quadro comparativo da ZIS2 em relação ao Plano Diretor. 


Fonte: Autor (2016). 


Assim sendo, essa situação de contraste na tabela acima pode ser atribuída à 
evolução ocorrida nos últimos anos, obrigando alguns moradores a venderem parte de seus 
lotes por dificuldades financeiras, o que beneficiou os mais privilegiados, que pretendiam 
maiores acomodações. 

E, ainda, nas moradias mais amplas, residem diversos membros da família nesse 
mesmo espaço, o que leva as pessoas a ampliarem as moradias. A variação no tamanho 
dos lotes, gera impactos na vida das famílias da zona em estudo, mas ao longo dos anos 
essas famílias foram-se adaptando conforme as suas necessidades e possibilidades. 


5.2 Dados socioeconômicos da Ilhinha 


Os dados mostram que no ano de 2010, o Bairro da Ilhinha possuía um total de 
1.119 domicílios particulares permanentes. Um total de 4.645 pessoas residiam nesses 
imóveis. Havia abastecimento de água tratada em 1.067 domicílios, 37 deles usavam poço 
ou nascente e 15 utilizavam outra forma. 

Dentre os domicílios particulares permanentes, 801 deles tinham acesso à rede geral 
de esgoto. Um percentual de quase 20% dos domicílios não possuíam instalação sanitária, 
21 deles usavam fossa séptica, 20 fossa rudimentar, 51 usavam vala, 30 utilizavam rio, 
lago ou mar e 5 outro tipo de escoadouro. Não havia banheiro em 191 domicílios. O lixo 
era coletado em 1.030 dos domicílios, os demais davam outros destinos ao lixo (queimado, 
terreno baldio, rio, lago, mar). 

A maioria dos habitantes recebia até dois salários mínimos. Essa condição denota 
a falta de infraestrutura nas casas, muitas delas não possuem revestimento algum, os 
espaços são mínimos, sem higiene e alojam de quatro a seis pessoas. A área analisada 
possui baixo nível de escolaridade, uma vez que 80% da população residente é analfabeta. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 18 | 200; 


Na pesquisa foram pesquisados 1.578 domicílios, destes 1.592 são domicílios 
particulares permanentes, um improvisadoº e 35 coletivos. 

Na análise a esta realidade, encontrou-se uma característica muito interessante: 
o fato de serem moradores do sexo feminino os responsáveis na maioria dos domicílios 
permanentes. Isso mostra a relevância do papel das mulheres na atualidade, haja vista sua 
presença, cada vez maior, no mercado de trabalho. 

A faixa etária predominante da área analisada é de 20 a 24 anos. As pessoas com 
até 44 anos alcançam índice de 85,5% da população residente total. A proporção de jovens 
e adultos apresentou-se superior a de idosos. 


5.3 Densidade demográfica Ilhinha e Península 


Analisando o valor mínimo e máximo temos um dado interessante, pois enquanto 
na Península pode-se chegar a O habitantes/km? na Ilhinha pode-se encontrar mais de 
785.000 habitantes/km2. Vários fatores contribuem para este elevado número na Ilhinha, 
como a localização estratégica da área na cidade e também a esperança de uma fonte 
de renda por parte desses moradores em decorrência da proximidade com a Península, 
pois esperam ser absorvidos por algumas atividades econômicas. Estabelece-se aqui uma 
relação de trabalho importante com a vizinha Península. 

O número de habitantes extremamente alto na Ilhinha gera carência de habitações, 
degradação do meio ambiente, ocupações irregulares, entre outros. 


61 A FORMAÇÃO DA PENÍNSULA 


O Bairro da Ponta D'Areia caracteriza-se pela sua posição estratégica para a defesa 
e proteção da cidade de São Luís, desde o séc. XVIl com o Forte de Santo Antônio. 

Com o Plano Diretor de 1971, a área da Ponta D'areia começa a ter maior destaque 
no cenário da cidade com a proposição de um “Projeto de Urbanização da Ponta D'areia” 
que “considerava sua condição excepcional para a formação do núcleo inicial da Nova São 
Luís”. (PRADO, 2002, p. 76). 

Um obstáculo para a implementação desse novo plano era a ocupação irregular 
existente, que até então era formada por bares e casas de veraneio. Assim, a Prefeitura 
requereu junto ao Patrimônio Imobiliário da União a transferência do domínio útil de toda a 
área para o Estado. Isso gerou a viabilização do plano com a desapropriação da área e a 
criação e venda dos lotes resultantes de novo parcelamento. 

A via de ligação entre o Centro Histórico e as praias foi construída sobre o 
Igarapé da Jansen, para permitir o rápido acesso à Ponta D'Areia. A ligação cidade-praia 
e o saneamento da bacia do Rio Anil foram de extrema importância para as obras de 


3 Domicílio que, embora esteja sendo usado, para fim residencial, não foi construído para tal fim. Incluem-se também 
aqueles localizados em unidades (lojas, fábricas etc.) que não possuem dependências destinadas exclusivamente à 
moradia, prédios em construção servindo de moradia a pessoal de obra, embarcação, carroça, vagão, tenda, barraca, 
gruta etc. (IBGE, 2015). 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 18 ET 


urbanização, pois estas áreas represadas e alagadas seriam, com o tempo, aterradas 
para formarem novas ruas, habitações e condomínios de classe econômica média e alta 
(PRADO, 2002). Estas obras foram determinantes para a configuração urbana atual do 
local, como mostra a Figura 05. 





<<] 


Figura 05 - Praia da Ponta D'Areia em 1975 antes do represamento do Igarapé da Jansen e no ano de 
1994, após a construção da Av. Maestro João Nunes e formação da Lagoa da Jansen. 


Fonte: PMSL (1975 e 1994) citado por Marques (1996). 


A malha urbana do bairro ficou praticamente inalterada até à década de 80 quando 
houveram apenas a construção de algumas casas e edifícios residenciais e do atual late 
Clube. Registra-se nesta mesma época a construção do “Memorial Bandeira Tribuzzi” do 
arquiteto Acácio Gil Borsoi. 

Até ao ano de 2013, a área não contava com nenhum espaço público digno e 
comparável às unidades habitacionais. Apenas no ano de 2014, com a construção do 
Espigão, verificou-se uma preocupação no que se refere a espaços públicos e equipamentos 
urbanos na área. Até então a classe mais favorecida economicamente encontrava-se 
“presa” em suas edificações, isolada em apartamentos de alto luxo, e não usufruindo da 
cidade. 

A expressão, “Península da Ponta D'Areia”, foi e está sendo muito utilizada pelo 
mercado imobiliário de modo a alavancar ainda mais o preço do metro quadrado de 
construção da área, pois a expressão “morar na Península” gera uma posição social de 
destaque na cidade, elevando assim, o famoso status social. Atualmente o que se pode 
verificar é um intenso processo de verticalização e valorização imobiliária da Ponta D'Areia 


como um dos pontos mais atrativos e privilegiados da cidade. 


6.1 Características específicas da Península de acordo com o Plano Diretor 


De acordo com o atual Plano Diretor da Cidade a Península é dividida em quatro 
zonas distintas, como podemos observar na figura abaixo: Corredor Primário (CP), Zona 
Turística 2 (ZT2), Zona Residencial 2 (ZR2) e Zona de Proteção Ambiental 2 (ZPA2). Cada 
área apresenta características e exigências próprias, no que se refere ao uso e ocupação 
do solo urbano. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 18 FEZ 





| ERES 


ZT2 











Figura 06 - Recorte do mapa urbano de São Luís. A Península dividida em quatro zonas distintas. 


Fonte: Adaptada a partir do Google Earth (2016). 


O Corredor Primário presente numa das avenidas mais importantes da cidade - Av. 
dos Holandeses - divide a Península em duas partes: na parte Norte (ZT2), formada por 
edificações de alto valor econômico com habitações multifamiliares de média e alta renda, 
e na parte Sul (ZR2), constituída por baixa ocupação, com intensificada construção de 
edifícios multifamiliares e hotéis. Encontramos também na área a ZPA2, sendo considerada 
de preservação ambiental por se tratar de uma faixa marítima. 

De acordo com estas informações, é sabido que existe uma diversidade de 
empreendimentos imobiliários na região que, de acordo com a localização da obra na área, 
ficam obrigados ao uso de algumas informações de suma importância no andamento do 
projeto arquitetônico legal. Devido a esta situação, presenciamos uma grande diversidade 
em relação às metragens de apartamentos, gabaritos, entre outros indicadores. 


6.2 Dados socioeconômicos da Península 


Os dados mostram que no ano de 2010, a área da Península possuía um total 
de 404 domicílios particulares permanentes. Um total de 1.314 pessoas residiam nesses 
imóveis. Havia abastecimento de água tratada em 387 domicílios, 02 deles usavam poço 
ou nascente e 15 utilizavam outra forma. 

Dentre os domicílios particulares permanentes, 387 deles tinham acesso à rede 
geral de esgoto. Em um total de 404 domicílios analisados, 02 deles usavam fossa séptica, 
01 fossa rudimentar, nenhum usava vala tão pouco utilizava rio, lago ou mar e apenas 01 
apresentava outro tipo de escoadouro. O lixo era coletado em 99.49% dos domicílios. 

A maioria dos habitantes recebia mais de 05 salários mínimos. Essa condição denota 
a boa condição das habitações na área. Um dado interessante que serve para confirmar 
esta referência é que 15.35% dos habitantes recebiam mais de 20 salários mínimos. A área 
analisada possui alto nível de escolaridade, uma vez que 98.76% da população residente 
é alfabetizada. 

Na análise a esta realidade, encontrou-se uma característica similar a área da Ilhinha: 


o fato de serem moradores do sexo feminino os responsáveis na maioria dos domicílios 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 18 ES 


permanentes. A faixa etária predominante da área analisada é a adulta de 30 a 59 anos. As 
pessoas com mais de 60 anos alcançam índice de 23,76% da população residente total. A 
proporção de jovens de 18 a 29 anos representou apenas 11.88%. 


71 CONCLUSÃO 


A paisagem urbana se torna marcante de forma negativa quando presenciamos uma 
mudança bruta, uma descontinuidade na extensão do território que se abrange num lance 
de vista. Coexistem bairros nobres com edifícios altos e de grande valor econômico sendo 
margeados por favelas, palafitas ou moradias sem condições mínimas de infraestrutura. 
Este impacto é muito presente em todo o Brasil e nos permite mostrar uma ruptura na 
construção das cidades e bairros. 

Com a análise da evolução urbana em duas áreas específicas na cidade de São 
Luís: a Península na Ponta D'Areia (parte favorecida economicamente) e a lIlhinha (área 
carente de infraestrutura e serviços), esperamos uma compreensão das diferenças que 
existem entre as áreas ao nível do espaço urbano. Este estudo levanta questões que 
devemos observar de como os contrastes urbanos brasileiros estão sendo tratados, como 
está sendo realizada a dura transição entre o mundo privado e o público. 

É necessário atinar aos problemas até então não solucionados, para a construção de 
uma Cidade e de um País mais harmônico e igualitário, onde haja espaço digno para todos 
os seus habitantes. É ilusório pensar que o que acontece com uma parcela da população, 
de algum modo, não atinge a outra. 


REFERÊNCIAS 


BURNETT, C. F. L. Além do Rio Anil, urbanização e desenvolvimento sustentável: estudo sobre 
a sustentabilidade dos tipos de urbanização na cidade de São Luís do Maranhão. 2002. Dissertação 
(Mestrado em Desenvolvimento Urbano) - Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Recife: 
UFPE, 2002. 


IBGE - INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Instituto da Cidade. 2010. 
Disponível em: http://Awnww.ibge.gov.br. Acesso em: 10 out. 2015. 


LONGUI, L. E. A macrozona de qualificação e os instrumentos do Estado da cidade: o caso 
Ilhinha. Monografia do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual do Maranhão. São 
Luís: UEMA, 2007. 


MONGIN, O. A condição urbana: a cidade na era da globalização. São Paulo: Estação Liberdade, 
2009. 


PRADO, B. Paisagem urbana de São Luís: transformação das formas e arranjos naturais na Ponta 
D'areia. 1 ed. São Luís, 2002. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 18 FEZES 


PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO LUÍS. Plano de transporte e Desenvolvimento da Cidade - 
Plano Diretor. PMSL, 1975. 


PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO LUÍS. Programa de Humanização do Centro Histórico de São 
Luís. PMSL, 1992. 


PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO LUÍS. Programa de Humanização do Centro Histórico de São 
Luís. PMSL, 1994. 


SILVA, A. S. Percepção Ambiental de Frequentadores e Estudo dos Impactos do Parque 
Ecológico Laguna da Jansen, Município de São Luís, Ma. Artigo no Ill Congresso Brasileiro de 
Gestão Ambiental Goiânia/GO, 2012. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 18 205; 


CAPÍTULO 19 


MATERIAIS DIDÁTICOS NO ENSINO DE 
GEOGRAFIA: PRATICAS EM SALA 


Data de aceite: 02/08/2021 


Lia Dorotéa Pfluck 

Universidade Estadual do Oeste do Paraná/ 
Unioeste 

Colegiado de Geografia 


RESUMO: A prática foi desenvolvida na disciplina 
de Prática de Ensino de Geografia III, 4º ano/ 
2013, Curso de Geografia/Unioeste, Campus 
de Marechal Cândido Rondon-PR. Objetivo: 
despertar, estimular e desenvolver a criatividade 
para melhor atuação no exercício da docência e 
exposição do conteúdo de forma diferenciada, 
dinâmica e lúdica, com a participação de 
professores e alunos. Os recursos utilizados: 
massa de bolo, café, leite, giz de cera, tintas 
guache, terra, galhos e folhas secas, erva-mate, 
letra de música e cadeira. A operacionalização 
partiu da confecção de planos de aula à 
simulação de aulas práticas e teóricas aplicadas 
(Ensino Médio). Resultados positivos com maior 
integração, troca de experiências, despertar 
da criatividade e uso de recursos presentes no 
cotidiano dos participantes. 
PALAVRAS-CHAVE: Práticas de 
recursos didáticos; processo de 
aprendizagem. 


ensino; 
ensino- 


MATERIALS IN TEACHING GEOGRAPHY: 
ROOM PRACTICES 
ABSTRACT: The practice was developed in the 
discipline of Teaching Practice in Geography III, 
4th year/ 2013, Geography Course/Unioeste, 
Campus de Marechal Cândido Rondon-PR. 
Objective: to awaken, stimulate and develop 
creativity for better performance in teaching and 
displaying content in a differentiated, dynamic 
and playful way, with the participation of teachers 
and students. The resources used: cake dough, 
coffee, milk, crayons, gouache paints, earth, dry 
branches and leaves, mate, lyrics and chair. The 
operationalization started from the preparation of 
lesson plans to the simulation of applied practical 
and theoretical lessons (High School). Positive 
results with greater integration, exchange of 
experiences, awakening of creativity and use of 
resources present in the participants” daily lives. 
KEYWORDS: Teaching practices; didactic 

resources; teaching-learning process. 


INTRODUÇÃO 


As atividades com a utilização de 
diferentes recursos didático-pedagógicos foram 
realizadas em sala de aula com acadêmicos! 
do 4º ano do Curso de Geografia, na disciplina 
de Prática de Ensino em Geografia III (ensino 
médio), com o objetivo de despertar, estimular 


e desenvolver, nos/com os acadêmicos, a 


1 Acadêmicos: Alexandre V. Breuning; Ângela D. Kuhn; Angélica B. H. Daltoé; Beatriz Koefender; Camila Heimerdinger; Diogo V. 
Silva; Eliete Woitowicz; Fabiane Múller; Fernando M. dos Santos; Josimara Cec-chin; Lilian R. Conrat (desistente); Lineker A. G. 
Nunes; Luciane Vendruscolo; Maiko F. Grunewald; Micheli C. Mayer; Paulo V. D. Fuentes; Roberto dos A. Dias; Thiago R. Mazzarollo; 


Valdineia de F. Lunkes; Valéria S. de Melo; Verônica R. Lima. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 


Capítulo 19 


criatividade a fim de incrementar a atuação em sala de aula no exercício docente. As 
atividades teóricas e práticas foram relacionados aos conteúdos: práticas pedagógicas; 
leitura e escrita; formação do professor e práticas interdisciplinares; geografia em nossas 
práticas; recursos didáticos e linguagens; seminário/oficina e produção de resumos. 

Para Souza (2007, p. 111), “Recurso didático é todo material utilizado como auxílio no 
ensino-aprendizagem do conteúdo proposto para ser aplicado, pelo professor, a seus alunos”, 
para tanto deve ter “[...] competência para utilizar os recursos didáticos disponíveis e muita 
criatividade” (p. 111). O que servirá de “[...] de auxílio para que no futuro os alunos aprofundem, 
apliquem seus conhecimentos e produzam outros conhecimentos a partir desses” (p. 113). 
E, “[...] deve ser sempre acompanhado de uma reflexão pedagógica quanto a sua verdadeira 
utilidade no processo de ensino e aprendizagem” (p. 113). E, desta forma, expor o conteúdo de 
forma diferenciada e fazer os alunos participantes do processo de aprendizagem. 


METODOLOGIA PARA A CONSTRUÇÃO DAS PRÁTICAS CRIATIVAS 


Para desenvolver as atividades práticas se trouxeram conjuntos de recursos 
didáticos com o objetivo de preparar uma aula, de tema geográfico livre, proposto para o 
Ensino Médio. Os recursos foram: 1) xícara de café e leite; 2) giz de cera e folha de papel 
A3; 3) massa de bolo e açúcar colorido; 4) porção de terra, fragmentos de rochas, galhos 
(gravetos) e folhas de árvores; 5) cuia, bomba, erva mate e água; 6) tintas guache, folha de 
papel A3; 7) criação de letra de música; 8) barbantes coloridos e folha de papel A3; 9) bacia 
e gravetos; e, 10) cadeira estofada (Fig. 1). 





1) cadeira; 2) água; 3) terra e pedrinhas; 4 (esq.) gravetos e folhas secas; 4 (centro) gravetos 
padronizados (tamanho e espessura); 5) peneira; 6) calda de chocolate; 7) açúcar colorido; 8) luvas 
descartáveis; 9) leite; 10) bolo; 11) tintas guache; 12) giz de cera; 13) barbantes coloridos; 14) bacia. 


Figura 1 — Recursos disponibilizados para as práticas. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 19 





Por sorteio organizaram-se 10 grupos, e, a estes foram sorteados os conjuntos 
de recursos. Cada grupo pode adicionar um único elemento ao seu conjunto justificando 
sua inclusão. O tempo para as atividades foi de quatro horas-aula (sorteios, organização, 
leituras e preparação da aula), e, duas horas (10 minutos/grupo) para a apresentação dos 
trabalhos. O tempo restrito e as aulas sequenciais serviram para trabalhar o improviso, a 
agilidade e a criatividade. O trabalho resumido foi entregue por escrito, seguindo normas de 
publicação. As fotografias (registros das atividades) citadas e incluídas ao texto, e, o plano 
de aula em apêndice. 

Autores e títulos parciais dos textos sugeridos para a preparação das atividades 
foram: Araújo e Gratão (2006), ato de ensinar Geografia; Castrogiovanni (2007), práticas 
prazerosas no ensino; Pinheiro et al. (2004), Góes (2009) e Correia, Kozel (2009), 
ressignificação de conteúdos pela música; Costa (2002), leitura do espaço; Costela (2007), 
construção do conhecimento geográfico; Farina, Guadagnin (2007), atividades práticas; 
Freitas, Lombardo, Ventorini (2007) e Gomes (2005), maquete; Lima, Neves, Santos 
(2011), perspectivas para o ensino de geografia; Thiesen (2011) e Lopes (2012), conceitos 
essenciais; Moniz, Braga (2010), atividades lúdicas; Oliveira (2012), escala e mapas, 
atividade prática de pesquisa; Reffatti (2007), construção do conhecimento; Santos, A. 
(2012), pintura como recurso; Santos (2012), Geografia e o conhecimento do cotidiano; 
Santos; Chiapetti, (2011), linguagens; Senetra, Nobukuni (2009), intervenção de estágio 
no Ensino Médio;. 


DESENVOLVIMENTO DAS PRÁTICAS E ANÁLISES 


As atividades com os recursos disponibilizados “[...] podem ser instrumentos 
auxiliares do professor no processo de ensino-aprendizagem” (PILLETTI, 1985, p. 181). E, 
“[...] há que se pensar em um ensino que forme o aluno do ponto de vista reflexivo, flexível, 
crítico e criativo” (PONTUSCHKA, 2001, p. 112). 

E, assim, “O desafio está em não apenas avançar nas discussões teóricas, mas 
oferecer sugestões para a prática educativa, instigando a criatividade” (CASTROGIOVANNI, 
2005, p. 9), nos acadêmicos, a um passo da docência. Segundo Silva e Lunkes (2018, p. 
3), “Com base nos recursos diferenciados, cabe ressaltar que é um método para facilitar o 
processo de ensino e aprendizagem, [...] [com] o poder de obter a atenção do aluno durante 
a aula”. 

Os temas foram escolhidos pelos acadêmicos relacionados aos recursos, cuja 
relação nem sempre foi direta, por exemplo, “café com leite” não foi remetida à geografia 
econômica, ao “ciclo do café' ou à “história política do café com leite”. 

O Grupo 1 apresentou “Desperdício dos recursos hídricos”, uma abordagem 
conscientizada a contexto dos recursos hídricos, com a inclusão de um papel de bala. 
Primeiramente, esclareceram o desperdício da água, mencionando desde o “[...] simples 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 19 FESER 


fato de deixar a torneira aberta, banho demorado etc. sendo a poluição e contaminação 
causas de desperdício”. Depois, explicaram, teoricamente e por demonstração, a diferença 
entre os conceitos 'poluição” e 'contaminação”. 

Na prática usaram o “leite”, numa xícara transparente, comparando-o à água 
potável, “[...] a água de um rio limpo, após jogou-se papel de bala, para representar um 
rio poluído, no entanto afetando apenas as propriedades físicas da água”. Os poluentes 
podem retirados da água com relativa facilidade (SILVA; LUNKES, 2013, p. 1), Fig. 
2. Depois, “[...] misturou-se café ao leite, para representar uma água contaminada [...] 
afetando as propriedades químicas da água, sendo muito mais difícil de tratá-la e utilizá-la 
para o consumo humano.” O contaminante, o café, poderia representar um vazamento de 
petróleo ou de esgoto residencial ou industrial. Com esses recursos e a prática mostraram 
ser escavador de relações impossíveis para possíveis (SIMÕES, 1995; VIOLA, 2006; 
MARTINS; PICOSQUE, 2006). 








Figura 2 — Material 'café com leite”: poluição e contaminação da água. 


Apresentação dos elementos e do trabalho; a água “limpa”, com leite; água “poluída”, com papel de 
bala; e a água “contaminada”, com café. Grupo: Diogo e Valdinéia (maio/2013). 


Na exposição oral e no resumo fizeram referência ao crescimento da demanda por 
água, ao uso ineficiente nas irrigações, nas indústrias e consumo humano (desperdício de 
até 70% na Região Metropolitana de São Paulo e 93% nas culturas de irrigação no Brasil). 
Para apresentarem esses dados, basearam-se em Rebouças (2004). Mencionaram que o 
desperdício também está relacionado à poluição e à contaminação dos recursos hídricos 
e suas consequências, desde o destino do lixo até os insumos agrícolas usados no país e, 
em âmbito local, no município de Marechal Cândido Rondon-PR. 

O Grupo 2 desenvolveu o tema “Organização espacial urbana e seus conflitos”, 
utilizaram uma massa de bolo (tipo nega-maluca), açúcar de várias cores, luvas descartáveis. 
A esse conjunto, o grupo acrescentou 'calda de chocolate” (Fig. 3). 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 19 EE 





Figura 3 — Material 'massa de bolo”: organização espacial urbana e seus conflitos. 


Caracterização da organização espacial urbana com/sobre a massa de bolo; apresentação aos 
colegas; derramamento da calda de chocolate (seta amarela). Grupo: Josimara e Valeria (maio/2013). 


Para representar as formas de relevo foram 'escavando a massa do bolo” criando 
vales e elevações. Com o açúcar colorido simbolizaram os elementos urbanos e, com a 
calda de chocolate, criaram rios de lama, que, ao escoarem pelas encostas, adentravam o 
perímetro urbano. Mostraram que é desta ocorrência que os conflitos se geram. No meio 
rural, o desmatamento e lavouras homogeneizadas e sem ou pouca proteção ciliar libera 
as águas pluviais carregadas de partículas e lodo; enquanto na cidade, onde, se permite 
ocupar as margens dos cursos d'água e se lançam neles esgoto e lixo, acaba-se obstruindo 
os cursos que resultam em alagamentos e enchentes, os rios de lama. 

Com “giz de cera, folha de papel A3'e a inclusão de mapas em alto relevo em forma 
de quebra-cabeças da Região Nordeste e na Região Sudeste (desenho dos estados em 
retalhos de emborrachado, tipo E.V.A., e recortado), o Grupo 3 de-senvolveu “Recursos 
didáticos no ensino de Geografia" (Fig. 4). Dentro desse tema e na ânsia de explorar 
melhor ou esgotar as possibilidades de uso dos recursos trabalharam ainda “Economias 
e indicadores sociais das regiões brasileiras e “Cartografia: escala cartográfica”. Os 
indicadores sociais (analfabetismo, mortalidade infantil e esperança de vida) foram 
identificados e comparados com várias cores e ta-manhos de giz de cera; e, intentaram 
compreender porque, apesar de um relativo crescimento, o Nordeste apresenta profundas 
desigualdades socioeconômicas. O giz de cera em posição vertical e a montagem dos 
quebra-cabeças das regiões, possibilitou a inclusão de aluno com deficiência visual na 
dinâmica, esse ao manusear os referidos recursos didáticos, concretos e táteis poderia 
perceber o tamanho e a forma dos estados e identificar a diferença entre os indicadores 
sociais (Fig. 4). 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 19 oo 





Figura 4 — Giz de cera, folha A3: Recursos didáticos no ensino de Geografia. 


Preparação (a/b) e apresentação (c). Grupo: Eliete e Roberto (maio/2013). 


O Grupo 4, com a porção de terra, fragmentos de rochas, gravetos, folhas secas, 
dentro de uma caixa acrílica, e a inclusão de água e peneira, desenvolveu “O comportamento 
do processo erosivo” (Fig. 5). O grupo montou uma feição de relevo montanhoso dentro da 
caixa. Para explicar o comportamento do processo erosivo, simularam “chuva”, com a água 


e a peneira, sobre o solo coberto com matéria orgânica e sobre solo desnudo. 





Figura 5 — Terra, pedrinhas, gravetos e folhas secas: Comportamento do processo erosivo. 


Apresentação, participação dos colegas; dinâmica. Grupo: Angélica e Micheli (maio/ 2013). 


Na primeira situação, a água escoou lentamente e sua cor se manteve próxima 
da transparência; na segunda, a água escorreu carregada de detritos e deixando valas 
aparentes. A diferença entre as duas situações foi visível. Durante a dinâmica, os 
acadêmicos explicaram a importância do manejo adequado do solo agrícola e do uso e 
ocupação do solo urbano. 

O Grupo 5, otrabalho 'Migração da cultura'foi desenvolvido mesmo com a desistência 
do Curso de uma integrante. A acadêmica trabalhou com os materiais próprios para fazer 
chimarrão/mate: cuia, bomba, erva-mate e água aquecida, e agregou flores de chá natural 
(Fig. 6). Apresentou a trajetória da histórica econômica da erva-mate pela América Latina, 
afirmando que os Incas já a usavam. Além disso, mencionou a possibilidade de trabalhar 
de forma interdisciplinar, com recursos disponibilizados, como: questões geográficas; 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 19 mo 


econômicas; históricas; culturais (temperatura da água; acréscimo ou não de açúcar e 
outras ervas; o uso de diferentes recipientes como cuia; formas de preparar e compartilhar 
a bebida); expansão da produção, dos usos e costumes e sua diversificação ao longo do 
tempo e no espaço. A acadêmica explicou como manejar a cuia, a bomba, a erva-mate e a 
água na temperatura adequada (70º aproximadamente) no preparo de um 'bom chimarrão”. 
E, falou sobre a tradição e a etiqueta no compartilhar desse hábito. 





Figura 6 — Material para “chimarrão”: a migração da cultura. 


Apresentação do trabalho. Grupo: Beatriz (maio/2013). 


O tema “Representação do lugar" foi desenvolvido pelo Grupo 6, com tintas guache, 
papel A3 e o uso dos dedos como pincéis (Fig. 7). O elemento incluído foi o mapa do Brasil, 
fixado na sala de aula. Os acadêmicos desenharam duas imagens, um quarto numa casa, 
caracterizando o conceito “lugar”; e, uma paisagem. 











Figura 7 — Tintas guache, papel e os dedos: A representação do lugar. 


Preparação com os dedos; apresentação do trabalho. Grupo: Ângela e Lineker (maio/2013). 


A partir desses dois desenhos simbólicos explicaram a diferença entre os conceitos 
de 'lugar' e de “paisagem”, conceitos fundamentais em estudos de Geografia. A dupla 
também enfatizou que o “...] uso deste recurso poderá ser repetido daqui a 10 anos” 
(KUHN; NUNES, 2013). Ao fazer uso de desenhos observam-se mudanças e evoluções na 


representação, mas a relação com os conceitos se mantem, ou seja, lugar" e 'paisagem', 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 19 FEZES 


enquanto conceitos, poderão ser entendidos melhor se analisados a partir de desenhos. A 
dupla se disse surpresa com a possibilidade de trocar pincéis convencionais pelo uso dos 
próprios dedos, vivenciarem a elaboração do material didático com mais um dos sentidos 
da Geografia, o tato. 

Ao Grupo 7 coube criar uma letra de música", e desenvolveram “Crescimento 
populacional”, a partir de uma paródia, relacionado a diferentes conceitos — pirâmides 
etárias, países desenvolvidos e subdesenvolvidos, 'estado”, situação, tendência, migração, 
imigração, emigração. Os conceitos foram explicitados e relacionados as estrofes da letra, 
depois, com a cópia da letra em mãos todos ajudaram a cantar (Fig. 8). Assim, mostraram 
que é possível trazer experiências com linguagem diferente — música e poesia — e que 
podem tornar-se recurso didático-pedagógico, instrumento valioso ao/no processo de 
ensino-aprendizagem. Esse contexto pode ser apoiado em Panitz (2012, p. 1-2), que, ao 
buscar as raízes relativas ao uso da música no ensino da Geografia, se remeteu a Friedrich 
Ratzel (1844-1904) e a Leo Frobenius (1873-1938) e escreveu que Ratzel estabelecera 


[...] áreas culturais a partir de uma espacialidade dos instrumentos musicais 
na África, [e] Leo Frobenius [...] o primeiro sistematizador do estudo entre 
espaço geográfico e música [...]. Dessa forma, na busca de uma gênese 
do interesse da Geografia moderna pela música, até o presente momento 
encontramos em Ratzel o princípio inspirador dessa discussão, bem como em 
Frobenius o desenvolvimento teórico e empírico da mesma. 


Para Viana (2000, p. 109 apud MESQUITA, 1994), com letras de músicas/ poesias 
“[...] é possível desvelar todo um universo social construído através do imaginário coletivo 


da sociedade, que nos auxilia a melhor forma de compreender quem somos no contexto de 
nossa contemporaneidade e do passado recente de que fomos partícipes.” 








Figura 8 — Letra de música: Os conceitos geográficos. 


Apresentação e participação. Grupo: Camila e Verônica (maio/2013). 


O tema “Rede de rodovias, ferrovias e a hidrografia' foi desenvolvido pelo Grupo 8 
com “quatro cores de barbantes”. O elemento incluído foi uma folha de papel AS justificado 
pela representação do mapa do Estado do Paraná impresso, buscaram em sites a 
localização e a distribuição das principais redes de rodovias, ferrovias e da hidrografia (Fig. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 19 oo 


9). Com os barbantes (50cm cada) representaram o contorno do Estado do Paraná, as redes 
rodoviária e ferroviária, demonstrando suas áreas de concentração; e, a rede hidrográfica 
sua importância para a navegação e a produção energética. O uso de barbantes em aulas 
de Geografia é mais comum quando se trata de construção de maquetes, trabalhos com 
escala, orientação (alfabetização cartográfica), e em dinâmicas de integração (OLIVEIRA, 
2014). 

















Figura 9 — Barbantes: A rede de rodovias, ferrovias e a hidrografia do Paraná. 


Apresentação. Grupo: Fabiane, Thiago e Maiko (maio/2013). 


Uma represa e suas consequências ambientais' foi o escolhido pelo Grupo 9 e 
trabalhado a partir de gravetos serrados (15cm de comprimento e 1,5cm de diâ-metro cada) 
e uma bacia, aos quais agregaram água (Fig. 10). Um acadêmico vivenciou as mudanças 
às margens do Rio Paraná pela instalação da Hidrelétrica Binacional de Itaipu (1982), 
compartilhou as consequências ambientais da represa. Os gravetos representaram as 
árvores (mato) e os troncos afogadas que, ainda em 2013, eram visíveis no rio represado. 
Essas árvores afogadas, ao se decomporem, liberam gás metano, que permanece 
dissolvido na água, nas camadas mais profundas do “lago”, e quando suas águas passam 
pelas turbinas e pelos vertedouros da usina (Itaipu) é liberado para a atmosfera. 





Figura 10 — Bacia, água e tronquinhos: uma represa e suas consequências ambientais. 


Grupo: Alexandre e Luciane (maio/2013). 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 19 





Assim, “O velho discurso oficial de que as usinas hidrelétricas sempre foram um 
modelo de geração de energia limpa, ou seja, que não contribuíam para o aquecimento 
global, caiu por terra” (MELO, 2002, s/p), pois as “[...] barragens de hidrelétricas produzem 
quantidades consideráveis de metano, gás carbônico e óxido nitroso, gases que provocam 
o chamado efeito estufa” (MELO, 2002, s/p). Ainda, é possível buscar, com o geógrafo 
Marco Aurélio dos Santos, fatores que justificam a produção desses gases, conforme Melo 
(2002, s/p), tais como 


[...] a decomposição da vegetação pré-existente [...] na construção dos 
reservatórios; a ação de algas primárias que emitem CO? nos lagos das 
usinas; e o acúmulo nas barragens de nutrientes orgânicos trazidos por rios 
e pela chuva. [...] a emissão de gás carbônico e de metano não acaba [...]. 
Há uma renovação constante na produção desses gases, com a chegada de 
novos materiais orgânicos trazidos pelos rios e pelas chuvas. 

Vasconcelos (2007, p. 36) complementa a análise: “[...] o gás permanece dissolvido 
na água, principalmente nas camadas mais profundas do lago, e escapa para a atmosfera 
quando passa pelas turbinas e pelos vertedouros das usinas.” 

Com uma cadeira estofada o Grupo 10 apresentou o “Processo industrial e a 
hierarquia socioeconômica”, trabalhou com a matéria-prima e o processo industrial que 
resulta em diferentes tipos de cadeiras (Fig. 11). Colocaram a cadeira sobre uma mesa para 
melhor ser observada e questionaram sobre a origem da matéria-prima (ferro, madeira, 


emborrachado, tipos de rochas, tipo de formação vegetal). 








Figura 11 — Uma cadeira estofada: processo industrial e hierarquia socioeconômica. 


Grupo: Fernando e Paulo (maio/2013). 


A cadeira, estofada ou não, resulta de uma linha de produção, e explicaram “[...] 
como acontece o processo de extração da mais-valia por parte do patrão (detentor dos 
meios de produção) sobre a classe trabalhadora (força de trabalho)” (SANTOS; FUENTES, 
20183, p. 1). Um acadêmico subiu sobre a mesa e sentou-se sobre a 'cadeira estofada' 
e questionou: “Por que eu uso a estofada e vocês não?” Debateu-se sobre a divisão de 


classes, poder econômico e as relações de trabalho. Compararam a cadeira estofada foi 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 19 so 


com as cadeiras de madeira de uso dos “alunos”, e na relação entre estas demonstraram 
a hierarquia social (Fig. 11). E, complementaram: “Percebe-se que muitas vezes o espaço 
que o aluno vivencia não é explorado pelos professores, os objetos desses lugares muitas 
vezes podem ser referência para uma aula diferenciada e produtiva”. Consideraram que 
“[...] é perceptível que os professores precisam desenvolver práticas diferenciadas em sala 
de aula além de estabelecer relações do aluno com o conteúdo aplicado” (p. 3). Abordaram 
“[...] os elementos naturais e humanizados no processo de fabricação da cadeira: a 
vegetação da qual foi extraída a madeira [...]; a rocha de qual é extraído o minério de ferro; 
o petróleo, [...] para a fabricação da lona da cadeira e da espuma” (p. 3). Além das relações 
industriais exploraram “[...] as relações de trabalho que se estabelecem no processo de 
fabricação, sendo que a cadeira estofada, em tese, é para o patrão sentar, já a cadeira de 
madeira é para o funcionário, ou seja, a classe trabalhadora” (SANTOS; FUENTES, 2018, 
p. 3-4). O Grupo demonstrou a 'cadeira' desde sua matéria-prima até o produto industrial 
final e sua relação social. 

As leituras fundamentaram e justificaram a importância do elaborado para o ensino 
de Geografia/Ensino Médio, apontaram melhorias para a prática e indicaram outros temas 
que podem ser desenvolvidos com os mesmos recursos disponibilizados para as práticas 


em questão (Quadro 1). 





Nº do Grupo e 
Recursos 


Tema 
trabalhado 


Sugestões de exploração em novos 
Trabalhos 


Substituição dos 
recursos por: 





1- Xícara de café 
com leite; papel de 
uma bala 


Desperdício dos 
recursos hídricos 


- história da política “café com leite”; - 
pecuária leiteira intensiva e extensiva; 

- industrialização;- setores da economia; 
- migração /expansão da economia 
cafeeira 


Sucos regionais: 
ca-já, caju e 
coco (NE); açaí, 
cupuaçu e gua- 
raná (N);. 





2-Massa de bolo; 
açúcar colorido; 
lu-vas; calda de 
cho-colate 


Organização 
espacial urbana 
e seus conflitos 


- perfil do solo; - processo industrial dos 
ingredientes do bolo 


Tapioca; bolo de 
fubá. 





























3- Giz de cera; fo- | Economia e - escrever sobre o conteúdo; - explicação | Carvão; lápis de 
-lha de papel A 3; | indicadores de conceitos; - desenhar tipos de cor; canetinhas 
giz de cera; mapas | sociais das nuvens; - construção de gráficos; - coloridas. 
do NE e SE regiões do país elaboração de mapas temáticos 
4- Porção de terra, | Comportamento | - uso e ocupação do solo; - agricultura Fragmentos 
pedrinhas, galhos/ | do processo intensiva e impactos ambientais; - rocho-sos e 
folhas; água erosivo expansão urbana e impactos ambientais | porções de areia. 
5- Cuia, bomba, Migração da - ciclo da erva-mate e exploração Cafezinho; chá. 
erva-mate e água; | cultura humana; - expansão e diversificação da 
ervas naturais cultura e uso da erva mate pelo país e 
exterior (chimarrão, mate, tererê) 
6- Tintas guache, Representação - exploração de outros temas: vegetação | Tintas naturais: 
papel A3 e dedos | do lugar e ou hidrografia com esses recursos; - colo rau; 
Mapa do Brasil recursos dos Grupos 2,3,4e 7 para o beterraba; erva- 
tema mate; papel 
crepom 
Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 19 








7- Letra de músi- 
ca; paródia 


Conceitos 
geográficos 


- meio ambiente e música, hidrografia; 
- recursos dos Grupos 1,4e 6 para o 
tema 


Poesia; 
elaboração de 
texto. 





8- barbantes 
coloridos; Papel 
AS 


Rede hidrográfi- 
ca, rodovias, 
ferrovias 


- Classes econômicas e indicadores 
sociais 

- recursos dos Grupos 2,4e 7 para o 
tema 


Giz de cera; lápis 
de cor; tiras de 
tecido; canetas 
coloridas. 





9- Bacia e 


Represa e suas 


- escala astronômica; - redes; 


Amostras de solo. 





tronquinhos de consequências - clinogramas; - escalas; - rede 
madeira; litros de | ambientais hidrográfica; - fronteiras; - sistema de 
água produção; - exploração madeireira, O. do 
PR, séc XX 
10- Cadeira esto- | Processo - modo de produção; - evolução Pedaço de trilho 
fada; uma mesa industrial e industrial do Brasil; - desperdício/mau de trem; banco 
hierarquia uso de riquezas minerais, vegetais tosco de madeira. 


socioeconômica 




















Quadro 1 — Novas sugestões a partir dos recursos e temas trabalhados; novos recursos. 
Após aulas práticas, disciplina Prática de Ensino de Geografia III (maio/2013). 


Organizado por Lia Dorotéa Pfluck, mar./2015. 


O uso de recursos diversificados potencializa a exploração da pluralidade de 
assuntos, no caso os de caráter geográfico. Pontuschka (2001, p. 112) afirma que “[...] há 
que se pensar em um ensino que forme o aluno do ponto de vista reflexivo, flexível, crítico 
e criativo.” E, desta forma, se constrói “...] um ensino dinâmico, atual, criativo e instigante 
para que nossos alunos percebam a Geografia como um conhecimento útil e presente 
na vida de todos” (KAERCHER, 2002, p. 230). A receptividade dos alunos em relação ao 
uso de novas linguagens é quase sempre satisfatória, pois desperta a curiosidade e a 
ansiedade, facilita a concentração e a absorção das ideias explicitadas pela música, pelo 
uso do livro didático e por outros recursos ou linguagens (CAVALCANTI, 1998). 


E AINDA PARA REFLETIR ... 


Essas provocações ou atividades foram lançadas e desenvolvidas pensando nos 
inúmeros desafios que o docente poderá encontrar em sua caminhada como escolas com 
recursos tecnológicos modernos e funcionais, outras sem eletricidade, desprovidas de 
material didático, distante do visto teoricamente na academia. E, independentemente da 
situação de cada escola, há de se concordar com Rui Barbosa, que já afirmava que “[...] é 
pela intuição real, não por descrições verbais, que o ensino deve começar” (LOURENÇO 
FILHO, 1956, p. 54). E, para tanto, a prática do ensino intuitivo deve se caracterizar, 
conforme Lourenço Filho (1956, p. 121), por “Educar a vista, o ouvido, o olfato; habituar os 
sentidos a se exercerem naturalmente sem esforço e com eficácia”. 

Nesse contexto podem ser desenvolvidas competências para incitar “[...] os alunos 
a mobilizar seus conhecimentos e, em certa medida, completá-los” (PERRENOUD, 
2002, s/p). Donald Schon, na década de 1980, embora trabalhasse em outras áreas de 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 19 





ensino, defendeu a ideia de que o aluno precisa aprender-fazendo a partir da reflexão na 
ação, e propôs uma “nova epistemologia da prática”. Para Faria (2008, p. 37) “A prática 
docente reflexiva exige que o professor não se limite às investigações produzidas na 
academia, devendo produzir um conhecimento prático, que é validado pela própria prática, 
fundamentada na reflexão”. E, dessa forma, poderá “[...] dar respostas a certos dilemas que 
aparecem no dia a dia do exercício profissional” (p. 37), produzindo saberes pedagógicos 
a partir da ação. 

Apoiado em Cavalcanti (1998) e Fuini et al. (2013), pode-se considerar que conceitos 
científicos e práticas pedagógicas analisadas a partir de recursos diferenciados podem 
gerar ações como: i) estímulo da atividade mental e física; ii) facilidade na exposição dos 
conhecimentos relacionados ao mundo vivido e conhecido; iii) interação, socialização e 
cooperação entre os alunos; iv) ajuda mútua entre professor e aluno, reconstruindo conteúdo 
e suscitando atividades reflexivas; v) informações, conceitos e análise de dados que levam 
a produzir/aprimorar seu conhecimento; vi) estímulo à construção da aprendizagem, 
de conclusões parciais, busca da sistematização e o compartilhar de conhecimentos e 
informações entre os indivíduos; vii) estímulo para a formação de conceitos, discussão 
coletiva, oportunidade para a síntese de resultados das atividades; viii) potencialização do 
processo de ensino-aprendizagem de forma significativa e crítica de conceitos geográficos, 
a partir da dinâmica, do lúdico, das reflexões; e, ix) avaliação dos reflexos do uso de 
recursos diversificados na prática pedagógica, ao final do processo. As ações apontadas 
se inter-relacionam, uma não anula nem se sobrepõem a outra. 

O Grupo 3 fez a seguinte análise sobre o uso de recursos didáticos: 


[...] o desenvolvimento de atividades diferenciadas traz vários benefícios: 
estimula a capacidade de oralidade dos alunos, a expressão e a percepção 
do mundo; proporciona a discussão de conteúdos de forma dinâmica e 
lúdica; incorpora a participação ativa dos alunos no processo de ensino- 
aprendizagem; promove a participação e o envolvimento dos alunos em um 
trabalho com questões cotidianas e que envolvam a realidade local/regional/ 
nacional/ mundial; enfim são várias pluralidades e benefícios proporcionados 
pelo uso de recursos didáticos, atividades e metodologias diferenciadas no 
ensino de Geografia. (WOITOWICZ; DIAS, 2013, p. 3). 


Assim, “Pensando conhecimento como uma construção em rede que se amplia, 
se clareia e se aprofunda pelas relações que são estabelecidas entre o que se sabe e o 
que ainda não se sabe” (MARTINS; PICOSQUE, 2006, p. 57) foi que os grupos sugeriram 
outras formas de explorar o mesmo material, outras possibilidades de trabalhos (sugestões 
complementadas) e, poder-se-ia, ainda, sugerir a substituição por alguns recursos mais 
regionais ou de conhecimento geral (Quadro 1). 

E, se é na escola, segundo Senetra e Nobukuni (2009, p. 106), que “[...] os alunos 
irão aprender a interpretar os acontecimentos ao seu redor, cabe justamente ao professor 
fazer esta ligação [...] facilitar a compreensão do aluno [com] o emprego de material visual 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 19 FER 


não deixando de lado o diálogo entre os alunos.” 

“Professor e aluno caminham juntos e não raramente criam soluções de grande 
criatividade” (GRANERO, 2011, p. 68). A preparação e os relatos demonstraram isso 
quando uma xícara de café com leite foi usada para tratar 'poluição e contaminação da 
água'; com massa de bolo se construiu uma maquete representando “espaço urbano e 
rural”, uma cadeira serviu para trabalhar “hierarquia e classes sociais”. Como a sala de aula 
estava evocando uma mistura singular de vistas e cheiros (TUAN, 1983) da massa de bolo 
com a calda chocolate, que serviu de maquete (uso de luvas) para o trabalho “Organização 
espacial urbana e seus conflitos” ao chimarrão que embasou o trabalho “A migração da 
cultura”, estes foram servidos aos participantes dos trabalhos (Fig. 12). 





Figura 12 — Distribuição e degustação do bolo e socialização do chimarrão. 


Confraternização após as aulas práticas: (A) Beatriz, Eliete, Verônica e Thiago. (B) Micheli. (C) Beatriz 

e Alexandre. (D) 1) Ângela; 2) Paulo; 3) Valéria; 4) Diogo; 5) Fabiane; 6) Camila; 7) Micheli: 8) Luciane; 

9) Verônica; 10) Eliete; 11) Alexandre; 12) Lineker; 13) Angélica; 14) Josimara; 15) Beatriz; Maiko; 16) 
Roberto; e 17) Fernando. Fonte: Prática de Ensino de Geografia III (maio/2013). 


Embora não previsto como objetivo, foram explorados também os sentidos da 
Geografia (tato, paladar, olfato, visão e audição), sentidos que podem multiplicar sentidos. 
A confraternização, de forma descontraída, serviu melhorar a integração dos acadêmicos 
e possibilitou compartilhar novas ideias sobre as inúmeras possibilidades que se abriram 
com a socialização dos 10 trabalhos, e com os recursos encontrados com facilidade no dia 
a dia (Fig. 1 a 12; Quadros 1). Os acadêmicos interagiram no Grupo e entre os grupos, o 
que proporcionou aulas experimentais dinâmicas. A falta de entrosamento e motivação, 
num grupo, e abordagem de dois temas distintos, com dois elementos complementares, de 
outro serviu para mostrar que nem sempre se atingem os objetivos na sua integralidade. 
Porém, essas questões não devem ser vistas como tais, pois são grandes aprendizados. 
As atividades propostas, o curto espaço de tempo para a preparação e apresentação, foi 
importante para instigar o improviso e despertar a criatividade e superar dificuldades. 

Essas práticas pedagógicas apresentaram resultados satisfatórios para a 
aprendizagem do licenciando e para a proponente. Aos acadêmicos serviu como uma 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 19 oo 


importante ferramenta de auxílio para a realização do Estágio Supervisionado em 
Geografia, no Ensino Médio, em escolas da rede pública estadual, para a ação profissional 
e superação de problemas do ensino, como a falta de aulas práticas, a falta de material 
didático-pedagógico, a dependência do livro didático e a passividade dos alunos, e, por 
vezes, do próprio professor. 

O sorteio dos integrantes dos grupos foi proposital e surtiu resultado positivo, pois 
a maioria disse que “com este colega' ainda não havia trabalhado, embora já estivessem 
na metade do 4º ano, finalizando o Curso de Geografia. A justificativa dos acadêmicos 
habituados a se manterem nos mesmos grupos foi afinidade entre os colegas e a própria 
comodidade. No presente caso, a 'quebra' dos grupos coesos foi produtiva principalmente 
em relação à troca de ideias com o “novo' membro. Esse trabalho com “novas” equipes 
despertou, ainda outras sugestões a partir dos recursos e dos temas trabalhados e também 
do uso e substituição dos recursos por outros mais próximos do cotidiano dos alunos e 
dos professores (Quadro 1). Para tanto, a construção do conhecimento, a relação do 
sujeito aprendente com o seu objeto de conhecimento e o professor como mediador da 
aprendizagem se concretizou pelo uso dos recursos trabalhados e pela possibilidade de 
“[...] para tornar o ensino mais atraente e prazeroso” (SANTOS; CHIAPETTI, 2011, p. 2). 

Silva e Lunkes (2018, p. 3), citam que essa atividade serviu como “[...] prática que 
despertou a criatividade dos acadêmicos que estão em busca pela formação docente em 
Geografia”, “[...] um teste do aprendizado”, “[...] uma forma de troca de experiências com 
os demais colegas”. Sugerem também que poderiam ser utilizados para os mais diversos 
conteúdos de Geografia e que o uso de “[...] simples recursos didáticos” podem chamar 
muito mais a atenção dos alunos, contribuir para a construção do conhecimento, por 
estarem presentes em seu cotidiano. 

Com as apresentações e análise do conjunto das ações e dos resultados, se conclui 
que a criatividade aflorou, as ações aconteceram e o fascinante ato de ensinar geografia 
se concretizou com práticas prazerosas, e, foi possível fazer o aluno perceber a Geografia 


como um conhecimento útil e presente na vida de todos. 


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Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 19 223º; 


CAPÍTULO 20 


TRAJETÓRIAS DE VIDA E MIGRAÇÕES 

DO TRABALHO PARA O CAPITAL NO 
AGROHIDRONEGOCIO CANAVIEIRO NA 10% 
REGIAO ADMINISTRATIVA DE PRESIDENTE 


Data de aceite: 02/08/2021 
Data de submissão: 17/06/2021 


Fredi dos Santos Bento 

Acadêmico de Doutorado do Programa de 
Pós-Graduação em Geografia da Universidade 
Estadual Paulista (UNESP), Campus de 
Presidente Prudente-SP 
http://lattes.cnpg.br/3787321333764173 
https://orcid.org/0000-0001-6408-8134 


Antonio Thomaz Junior 

Professor Doutor e Livre Docente pelo 
Departamento de Geografia da Faculdade 
de Ciências e Tecnologia (UNESP), Campus 
de Presidente Prudente-SP, sendo também 
pesquisador PQ-CNPQ 
http:/llattes.cnpq.br/1283115540482082 
https://orcid.org/0000-0002-1015-2257 


Texto originalmente apresentado e publicado na XVIII 
Jornada do Trabalho, ocorrida em 2017, na cidade de 
Goiânia-GO. 


RESUMO: Nestas primeiras décadas do século 
XXI, tem se ampliado a ofensiva do capital 
sobre o trabalho, manifestando no território 
o conteúdo historicamente determinado de 
formas de dominação sobre os trabalhadores 
e trabalhadoras. É nesse contexto que têm 
ganhado ênfase, dadas às mudanças pelas 
quais tem passado a agroindústria canavieira 
nos últimos anos, a presença de trabalhadores 
migrantes sazonais na 10º Região Administrativa 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 


PRUDENTE (SP) 


de Presidente Prudente-SP, que atraídos pela 
oferta de trabalho no setor são submetidos aos 
mandos e desmandos do agrohidronegócio 
canavieiro. Assim, estamos tratando de 
migrações temporárias ou sazonais, enquanto 
fenômeno marcante no país, também sendo 
chamadas de migrações do trabalho para 
o capital e que acompanhamos através da 
realização de entrevistas semiestruturadas para 
com esses trabalhadores. 

PALAVRAS-CHAVE: Migrações do trabalho; 
trajetória; agrohidronegócio canavieiro. 


TRAJECTORIES OF LIFE AND LABOR 
MIGRATION TO CAPITAL IN SUGARCANE 
HYDROAGRICULTURAL IN THE 
1OTH ADMINISTRATIVE REGION OF 
PRESIDENTE PRUDENTE (SP) 
ABSTRACT: In these first decades of the 21st 
century, capital's offensive on labor has expanded, 
manifesting in the territory the historically 
determined content of forms of domination over 
male and female workers. It is in this context that 
they have gained emphasis, given the changes 
that the sugarcane agroindustry has gone 
through in recent years, the presence of seasonal 
migrant workers in the 10th Administrative Region 
of Presidente Prudente-SP, who, attracted by 
the offer of work in the sector, are submitted 
to the orders and excesses of the sugarcane 
hydroagricultural. Therefore, we are dealing with 
temporary or seasonal migrations, as a striking 
phenomenon in the country, also being called 
migrations from labor to capital and that we follow 
through conducting semi-structured interviews 

with these workers. 


Capítulo 20 


KEYWORDS: Labor migrations; trajectory; sugarcane hydroagricultural. 


11 INTRODUÇÃO 


O discurso do desenvolvimento nacional a partir da agrohidronegócio canavieiro tem 
se mostrado falho neste início do século XXI, além de omitir uma série de questões no que 
diz respeito a real configuração apresentada na 10º Região Administrativa de Presidente 
Prudente no que tange a superexploração do trabalho e a presença de trabalhadores 
migrantes temporários que tem sido alvo de um processo que além de provocar sua 
expulsão (expropriação) de seu local de origem, muitas vezes acaba por atraí-lo para os 
lugares de destino. 

Desse modo, estamos qualificando as migrações do trabalho para o capital enquanto 
um processo social de grande complexidade, se considerando não apenas os sentidos e 
significados presentes no ato de migrar, como também os fatores que levam os sujeitos 
a migrarem, mesmo que temporariamente. E neste início do século XXI, torna-se urgente 
buscarmos as devidas mediações para com a teoria, no intuito de nos situarmos em torno 
do que apreendemos na prática cotidiana, tendo em vista a apreensão deste processo, 
dado o caráter transitório e fragmentado não apenas dos deslocamentos, mas da própria 
vida daqueles que realizam o mesmo, caracterizando-se por serem “vidas transitórias”. 

Sem embargo, deve se levar em consideração também, as contradições engendradas 
no processo de apropriação territorial dos sujeitos ao migrarem, tendo em vista a intensa 
mudança de lavra, nos remetendo a máxima em torno da plasticidade do trabalho e o 
estabelecimento de redes de solidariedade entre os trabalhadores migrantes, e que tem 
se evidenciado ao analisarmos as trajetórias de vida desses trabalhadores, nos permitindo 
vislumbrar uma série de questões porque passamos os mesmos, desde as “transformações 
identitárias” até a dimensão da memória enquanto parte importante da construção territorial 
que envolve suas trajetórias laborais e de vida. 

Então, é importante asseverarmos que para a realização desses expostos temos 
lançado mão de uma metodologia baseada em relatos orais, entrevistas semiestruturadas 
etc., nos permitindo questionar o sentido e o significado das migrações do trabalho para o 
agrohidronegócio canavieiro, bem como os interesses do capital agroindustrial canavieiro 
nesse processo. 

Diante de tal urgência é que enxergarmos na Geografia não apenas a possibilidade 
de se realizar uma leitura da configuração exposta, no que tange as migrações do trabalho 
para o capital, como também podermos dar passos na construção de uma alternativa 
verdadeiramente concreta no que diz respeito à deposição e substituição do metabolismo 
sociorreprodutivo em vigor, mais que isso a necessidade de empreendermos uma leitura 
das migrações do trabalho para o capital, pelo viés de uma leitura geográfica do trabalho, 
haja vista todo o conteúdo destrutivo do processo de reprodução capitalista, bem como 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 20 FE 


a importância de lermos o trabalho enquanto mediação central e capaz de promover a 
emancipação humana. 

Sob esse intento, o texto se subdivide em três momentos, sendo o primeiro 
relacionado a necessária compreensão dos desafios e necessidades de se empreender 
uma leitura geográfica do trabalho, em seguida lançaremos o debate em respeito as 
migrações do trabalho para o capital neste início do século e por fim trataremos em respeito 
das trajetórias de vida dos trabalhadores e trabalhadoras migrantes nos municípios de 
enfoque da pesquisa empírica. 


21 POR UMA LEITURA GEOGRÁFICA DO TRABALHO NO INÍCIO DO SÉCULO 
XXI 

Em consideração a esses postulados é que enxergamos o potencial da Geografia em 
oferecer um debate profícuo no que diz respeito às contradições, tensionamentos e conflitos 
que perpassam a sociedade que vive do trabalho, dado que é através desta ciência que 
podemos apreender as marcas históricas e seus desdobramentos para os sujeitos sociais 
que laboram diariamente. Então, ao tratarmos dos desafios para a construção de uma 
Geografia do Trabalho, não podemos perder de vista o imprescindível debate em respeito 
à emancipação da sociedade de um modelo fadado a implodir que é o do metabolismo 
societário do capital. 

Nesta perspectiva, trazemos para essa proposta à importância de se empreender 
uma leitura geográfica do trabalho, pautada pelos limites, desafios e possibilidades para 
refletirmos em respeito aos acontecimentos do início deste século, bem como seu papel 
central na emancipação do atual estado de coisas. Assim, é crucial que assumamos que é 
pelo viés da negatividade e positividade do trabalho, que podemos pensar a respeito das 
contradições que perpassam a humanidade imersa no sociometabolismo da barbárie, ou 
melhor, do capital. 

Então, é preciso que nos direcionemos para os sinais dos tempos oferecidos pelo 
capital, dado estes expressarem o conteúdo de irracionalidade que perpassa o nosso 
tempo histórico, tomando em consideração também, a nova polissemia que caracteriza a 
classe trabalhadora, levando em consideração as marcas destrutivas geradas pelo capital 
(THOMAZ JUNIOR, 2011). 

É sob a égide dessa discussão que a Geografia do Trabalho tem se inserindo neste 
início do século, dados os desafios que se colocam como nunca antes para a construção da 
mesma, tendo em vista a ampliação dos agravos para a saúde dos trabalhadores, processo 
saúde-doença, a ofensiva neoliberal e o pacote de austeridade que perpassam os países 
do Ocidente, bem como a ampliação dos ambientes refeitos pela reestruturação produtiva, 
do desemprego estrutural, da terceirização, produção flexível, relações semidegrantes e de 
trabalho escravo, feminização do trabalho, migrações do trabalho, etc., e que nos põem a 
propugnarmos qual a Geografia do Trabalho que estamos construindo efetivamente nesta 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 20 | 226; 


segunda década do século XXI, e qual o papel da mesma na emergência de se refletir 
sobre um modelo alternativo ao que está posto. 

Essas sinalizações nos permitem tensionarmos à centralidade da categoria trabalho 
neste início do século, “dado seu significado político, ontológico, econômico... exigindo 
que apreendamos as diferentes identidades territoriais do ser que trabalha” em tempos de 
ampliação da precarização, superexploração, degradação, desqualificação e fragmentação 
do trabalho, blindando sua capacidade de irromper ao que está posto (THOMAZ JUNIOR, 
2009, p.08). 

O trabalho tem sido “ontologicamente prisioneiro da sociedade em todas as suas 
dimensões”, pois é a “base fundante do autodesenvolvimento da vida material e espiritual” 
apresentando as possibilidades para o desenvolvimento de uma vida cheia de sentidos, 
realizada através de uma transição radical da divisão do trabalho tal como está (THOMAZ 
JUNIOR, 2002, p.10; MÉSZÁROS, 2009). 

Ao estabelecermos a importância de realizarmos uma leitura geográfica e territorial 
do trabalho, temos em conta a oportunidade de assim podermos fazer a autocrítica 
enquanto forma de nos sintonizarmos diante dos desafios que emergem para compreensão 
do trabalho neste início de século, ao mesmo tempo em que podemos reavaliar os 
significados, marcas históricas, sentidos do trabalho, sob a esperança de saltarmos para a 
compreensão da totalidade do mesmo (THOMAZ JUNIOR, 2009). 

Essa leitura não deve perder de vista as mudanças de grande monta que estão 
ocorrendo no mundo do trabalho nas últimas décadas, seja nas funções laborais, ambientes 
de trabalho, bem como as mais diferentes formas contratuais e formas de trabalho, além da 
ampliação da superexploração, precarização, degradação, subsunção, sujeição e controle 
do trabalho pelo capital, em que os trabalhadores e trabalhadoras acabam por encarnar a 
condição de “joguete do capital”, totalmente adversos quanto às perspectivas não apenas 
de luta, como também de seus direitos (THOMAZ JUNIOR, 2009, p.77) (Figura 01). 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 20 








Figura 01- Trabalhadores migrantes em greve em Flórida Paulista-SP. 


Fonte: Pesquisa de campo (2016). 


As mudanças que tem sido colocadas para o mundo do trabalho, permitem-nos 
falar em uma nova materialidade do trabalho, marcada por seu caráter regressivo no 
que tange os direitos conquistados, bem como por sua perversidade no que diz respeito 
à ampliação do número de desempregados e desqualificados diante das mudanças no 
processo de trabalho, levando em consideração o avanço da tecnologia, da automação, 
das novas formas de gerenciamento, mas que também rebatem em sua identidade cultural 
e de gênero, nas instâncias de organização do trabalho, além de ofuscar a resistência dos 
camponeses, comunidades tradicionais, desempregados e subempregados, bem como no 
processo de adoecimento porque passam os trabalhadores e trabalhadoras (ALVES, 2000; 
THOMAZ JUNIOR, 2006; 2011; BARRETO; HELOANI, 2013). 

É em respeito a essa plêiade de consequências, que está o desafio de se construir 
uma Geografia do Trabalho neste início do século, dado que as amarras que prendem e 
submetem o trabalho ao capital devem ser transpostas, pois nunca foram tão graves as 
contradições que se materializam na manutenção do metabolismo societário do capital, 
sendo não apenas sumamente importante, como imprescindível que realizemos uma leitura 
geográfica e territorial do trabalho com fins a não apenas nos posicionarmos, como também 
compreendermos as migrações do trabalho para o capital pelo seu papel primordial na 
construção de uma leitura geográfica do trabalho. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 20 | 228; 


81 MIGRAÇÕES DO TRABALHO PARA O CAPITAL NO AGROHIDRONEGÓCIO 
CANAVIEIRO NA 10º REGIÃO ADMINISTRATIVA DE PRESIDENTE PRUDENTE 
(SP) 

Nesse início do século XXI, as distintas tramas sociais que se revelam para os 
trabalhadores, nos impelem a pensar nas diferentes formas de apreensão do momento 
histórico vivido. Ou seja, o caráter de regressão dos direitos e as vitórias da classe 
trabalhadora ao longo da história postas em perigo. Desse modo, tem chamado atenção 
as mais inúmeras formas de precarização do trabalho insurgentes, recriadas/reformadas 
no âmbito da voracidade expansionista do capital encimada na apropriação do trabalho 
excedente. 

No entanto, é preciso que realizemos as devidas mediações tendo em vista a 
102 Região Administrativa de Presidente Prudente (SP), enquanto uma das rotas destes 
deslocamentos que tem se dado nos últimos anos, dadas as estratégias colocadas em 
ação pelo agrohidronegócio canavieiro, sendo as migrações do trabalho para os canaviais 
do Pontal, uma das mesmas e que se dá encimada nos trabalhadores migrantes sazonais. 

Esse movimento é percebido na região, com maior força neste período de transição 
no capital agroindustrial canavieiro entre a colheita manual e a mecanizada da cana, tendo 
em vista a urgência dos protocolos firmados em torno do fim da realização da queima 
(despalha) da cana, o que nos permite, questionar quais os sentidos da utilização da mão de 
obra migrante, bem como os impactos gerados na 10º Região Administrativa de Presidente 
Prudente, enquanto parte das rotas migratórias do trabalho para o capital (Figura 02). 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 20 FER 





LEGENDA 


Água Clara Fátima do Sul ES Mesorregião de Ribeirão Preto 
Catalão Ivinhema 


Cuiabá Montes Claros Mesorregião de Presidente Prudente 


Engenheiro Coelho Serrana [ ] Unidades Federativas 
Montezuma-MG Valparaiso [mm Demais Pai 


unesp” 


jeção: UTI Fonte dos Dados: Trabalho de Campo (20142015:2016) Org: BENTO, E dos 5: CARDOSO, 3. M. do N. (2017) 





Figura 02-Principais rotas migratórias dos trabalhadores entrevistados. 


Fonte: Pesquisa de campo (2016-2017). 


Em respeito ao termo migração é preciso que entendamos que este é marcado por 
inúmeros significados e sentidos, e que podem nos levar a diferentes leituras a respeito de 
um determinando fenômeno. Desse modo, é viável que nos situemos diante das inúmeras 
leituras existentes, sendo importante destacar que tipo de migrações nós trataremos aqui, 
que são as migrações temporárias ou sazonais, enquanto fenômeno que tem se destacado 
não só na 102 R.A. de Presidente Prudente (SP), mas em todo o país, valendo a máxima de 
migrações do trabalho para o capital. 

As migrações sazonais acabam por revelar o lado visível de fenômenos invisíveis, 
tendo em vista o trabalhador migrante, muitas vezes ter sido alvo de um processo que além 
de provocar sua expulsão (expropriação) de seu local de origem, muitas vezes acaba por 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 20 FE 


atraí-lo para os lugares de destino, sendo este o caso do processo de desterritorialização 
e reterritorialização do trabalho, que envolvem os camponeses (OLIVEIRA, 2009; 
GONÇALVES, 2001). 

O migrar temporariamente envolve assim, a passagem de um tempo a outro, tendo 
em consideração que o migrante sazonal é caracterizado por “ser duas pessoas ao mesmo 
tempo, é sair quando está chegando e voltar quando está indo... é estar em dois lugares 
ao mesmo tempo, e não estar em nenhum” (MARTINS, 1988, p.45). Esse trabalhador 
viveria então, duas situações, ao mesmo tempo em que manteria relações com os locais de 
origem, também constituiria novas relações no lugar de destino, o que acaba por configurar 
sua dupla personalidade. Para tanto, devemos entender que esta dupla personalidade que 
o envolve não é fruto de seu desejo, mas das próprias condições que enfrenta ao sofrer o 
processo migratório. 

Em contrapartida, não devemos deixar de lado a análise destes deslocamentos 
tendo em vista a perspectiva das teorias que tem norteado o assunto, e aqui cnamarmos 
atenção para os expostos de Póvoa Neto (1997), Salim (1992) e Becker (1997), a respeito 
do que Mondardo (2007) entende como uma perspectiva modernista de interpretação do 
fenômeno migratório, caracterizado por uma leitura encimada nos referenciais teóricos que 
circundam o fenômeno. 

Porém, as migrações do trabalho para o capital, também podem ser entendidas 
como parte de um processo de mobilidade do trabalho, dado que a mobilidade do trabalho 
segundo Gaudemar (1977) é uma característica do trabalhador submetido ao capital. 

Apesar de enxergarmos nas migrações do trabalho para o capital, enquanto 
migrações forçadas, isso não nos impede de considerarmos a existência de outros fatores 
que acabam por se somar ao caráter perverso assumido nas migrações do trabalho, 
perspectivando aqui, o conhecimento em torno das trajetórias sociais travadas por esses 
trabalhadores, tendo em vista o migrante temporário ser um inclassificável (SAYAD, 1998). 

Com relação a esta questão, é vital que deixemos claro que a migração sazonal 
deixa marcas permanentes, pois o retornar periodicamente não garante que se possa 
efetivar a territorialização perdida no momento da partida, como assevera Martins (2002), 
tendo em conta que ao deixarem o local de origem, esses trabalhadores sofram o processo 
de desterritorialização do mesmo. 

Ademais, consideramos também a proposição a respeito do termo realizada por 
Santos (2002), em que a desterritorialização é considerada enquanto estranhamento, bem 
como sinônimo de desculturização, pois “o homem de fora é portador de uma memória, 
espécie de consciência congelada, provinda com ele de outro lugar. O lugar novo o obriga 
a um novo aprendizado e a uma nova formulação” (SANTOS, 2002, p.330). 

Sob a perspectiva de que tenha de buscar um novo aprendizado e por si só uma 
nova territorialização, ajuda-nos a entender o exposto por Martins (2002), com relação a 
não efetivação de uma territorialização perdida, tendo em vista não apenas o fato de o lugar 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 20 ES 


de origem ter mudado, como o próprio migrante já não ser o mesmo (MARTINS, 1988). 

A migração pode ser entendida dessa maneira, enquanto um processo social 
de grande complexidade, se considerarmos não apenas os sentidos e significados 
presentes no ato de migrar, como também o fator que leva o trabalhador a migrar, mesmo 
que temporariamente, como é o caso empreendido aqui, sendo tal proposição de vital 
importância dadas as trajetórias laborais e de vida dos trabalhadores que diariamente 
vendem sua força de trabalho nos canaviais da 10º Região Administrativa de Presidente 
Prudente-SP. 


41 TRAJETÓRIAS DE VIDA DOS TRABALHADORES MIGRANTES SAZONAIS 
PARA OS CANAVIAIS DA 10º REGIAO ADMINISTRATIVA DE PRESIDENTE 
PRUDENTE (SP) 

A compreensão em torno das migrações do trabalho para o capital reforça a 
necessidade de empreendermos uma leitura que contemple a trajetória de vida dos 
trabalhadores migrantes, nos permitindo assim, vislumbrarmos uma série de questões 
porque passam esses trabalhadores, desde as transformações identitárias como nos fala 
Vetorassi (2010), e partindo de tal pressuposto é que não podemos deixar de considerar a 
ligação entre a dimensão da memória enquanto parte importante da construção territorial 
que envolve as trajetórias de vida dos mesmos. 

Ao passo que também devem ser considerados os laços interpessoais que ligam 
esses trabalhadores, e por isso, colocarmos em xeque a importância das redes sociais na 
configuração territorial empreendida por esses trabalhadores, ao acionarem o ato migratório, 
fazendo valer a necessidade de entendermos através das trajetórias dos trabalhadores e 
trabalhadoras, o movimento territorial que caracteriza as disputas territoriais existentes. 

Truzzi (2008) assevera que as redes podem ultrapassar o nicho familiar, atingindo 
a escala microrregional, o que fortalece a perspectiva em torno da formação dos territórios 
migratórios, dada a projeção mental que os mesmos possam assumir, tendo em vista a 
formação na mente e imaginário desses trabalhadores em respeito as trajetórias vivenciadas 
e as que poderão ser vivenciadas no futuro. 

Doravante tal explanação, não podemos deixar de creditar outras questões na 
decisão efetiva do migrar e a construção das trajetórias de vida, dada a ação perversa do 
modelo destrutivo do capital em sua ânsia por acumulação, transformando o que parece 
ser liberdade, numa falsa liberdade. 

Nessa perspectiva, advogamos que apesar de os trabalhadores estabelecerem 
estratégias e redes de sociabilidade que os permitam traçar rotas migratórias, este é 
apenas um elemento dos inúmeros que compõem a complexidade do processo migratório, 
tendo em vista não poder se negligenciar os interesses e ações do capital e sua capacidade 
de promover a ordenação territorial, e que já abordamos neste texto. 

Sob a expectativa de analisarmos as trajetórias de vida dos trabalhadores e 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 20 FE 


trabalhadoras que compuseram nossas entrevistas e depoimentos, nos apropriamos dos 
recursos possibilitados pela metodologia da história oral, não no sentido de dar voz aos 
trabalhadores, mas sim de compreender o que é dito pelos mesmos, pois enquanto sujeitos 
sociais, esses trabalhadores e trabalhadoras já são portadores de uma voz, fazendo valer 
a subjetividade dos mesmos. 

Thompson (1998) enfatiza que a história oral deve se prestar a entender a finalidade 
social da história, além de apresentar um desafio que nos possibilite empreender mudanças, 
e aí pensarmos nos sujeitos sociais que produzem a mesma e o papel exercido por eles 
diante do estado de coisas vigentes, sob o advento do metabolismo societário do capital. 

Com tal intuito é que temos nos preocupado ao analisarmos as trajetórias de vida 
e laborais dos trabalhadores e trabalhadoras, dada a contribuição que a história oral e os 
relatos orais nos oferecem para compreendermos o quadro de contradições a que são 
submetidos os trabalhadores migrantes temporários em suas constantes idas e vindas pelo 
território nacional, e que tem se evidenciado na 10º Região Administrativa de Presidente 
Prudente-SP, enquanto uma das rotas de deslocamento desses trabalhadores, permitindo 
que pontuemos em respeito ao que Thomaz Junior (2009) entende enquanto plasticidade 
do trabalho, dada a mudança de funções que acompanham esses deslocamentos e que 
temos nos proposto a acompanhar neste início do século XXI. 


51 CONSIDERAÇÕES FINAIS 


O constructo desenvolvido até aqui é resultado do que temos apreendido em 
nossas reflexões iniciais no âmbito da pesquisa em nível de mestrado no que diz respeito 
as migrações do trabalho para o capital, bem como ao desenvolvimento das trajetórias 
laborais e de vida dos trabalhadores e trabalhadoras que diariamente vendem sua força de 
trabalho nos canaviais paulistas, enquanto parte primordial em nosso intuito de realizarmos 
uma leitura geográfica do trabalho neste início de século, dada a imprescindibilidade de tal 
debate no momento histórico vivenciado pelo país, dados os ataques a classe trabalhadora 
no que tange os seus direitos conquistados a duras penas ao longo da história do país. 

Então, mais que simplesmente tatearmos a construção de uma leitura geográfica 
e territorial do trabalho que seja capaz de oferecer respostas aos desdobramentos de 
grande monta que marcam nosso tempo histórico, é a necessidade de ao realizarmos tal 
exercício podermos fazer a autocrítica em respeito às possibilidades de construção de uma 
sociedade para além do capital. Tal tarefa pode parecer utópica, mas acreditamos que ela 
seja de vital importância, tendo em vista justamente a configuração que assola (assombra) 
o nosso país. É preciso que continuemos a crer que nem tudo está perdido! 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 20 FE 


REFERÊNCIAS 


ALVES, Giovanni. O novo (e precário) mundo do trabalho: reestruturação produtiva e crise do 
sindicalismo. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2000, 365p. 


BARRETO, Margarida; HELOANI, Roberto. Assédio laboral e as questões contemporâneas à saúde do 
trabalhador. In: LOURENÇO, Edvânia Angela de Souza; NAVARRO, Vera Lúcia (orgs.). O avesso do 
trabalho III. 1. ed.São Paulo: Outras Expressões, 2013, 494p. 


BECKER, Olga Maria Schild. Mobilidade espacial da população: conceitos, tipologia, contextos. 

In: CASTRO, Iná Elias de; GOMES, Paulo César da Costa; CORREA, Roberto Lobato (orgs.). 
Explorações geográficas: percursos no fim do século. 1. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997, 
367p. 


GAUDEMAR, Jean-Paul de. Mobilidade do trabalho e acumulação do capital. Lisboa: Editorial 
Estampa 1977. 


GONÇALVES, Alfredo José. Migrações internas: evoluções e desafios. Revista Estudos Avançados, 
São Paulo, vol.15, n.43, p.173-184, 2001. 


MARTINS, José de Souza. O voo das andorinhas: migrações temporárias no Brasil. In: Não há terra 
para plantar neste verão (O cerco das terras indígenas e das terras de trabalho no renascimento 
político do campo). 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1988, p.44-61. 


MARTINS, José de Souza. A sociedade vista do abismo: novos estudos sobre exclusão, pobreza e 
classes sociais. 1. ed. Petrópolis: Vozes, 2002, 228p. 


MÉSZÁROS, István. Estrutura social e formas de consciência- a determinação social do método. 
1.ed. São Paulo: Boitempo, 2009, 309p. 


MONDARDO, Marcos Leandro. Estudos migratórios na modernidade e na pós-modernidade: do 
econômico ao cultural? Revista Terra Livre, Presidente Prudente, ano 23, vol.2, n.29, p.51-74, ago-dez, 
2007. 


OLIVEIRA, Ana Maria Soares de. Reordenamento territorial e produtivo do agronegócio canavieiro 
no Brasil e os desdobramentos para o trabalho. 2009. 571f. Tese (Doutorado em Geografia) - 
Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista, Presidente Prudente. 


PÓVOA NETO, Hélion. Migrações internas e mobilidade do trabalho no Brasil atual. Novos desafios 
para análise. Revista Experimental, São Paulo, n.2, p.11-24, março de 1997. 


SALIM, Celso Amorim. Migração: o fato e a controvérsia teórica. Sessão temática 17- migrações 
internas: a necessidade de novos paradigmas. In: ENCONTRO NACIONAL DE ESTUDOS 
POPULACIONAIS, 8.1992, Belo Horizonte. Anais... Belo Horizonte: vol.3, pág. 119-144, 1992. 


SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo; razão e emoção. 4. ed. São Paulo: Hucitec, 
2002, 384p. 


SAYAD, Abdelmalek. A imigração ou os paradoxos da alteridade. 1. ed. São Paulo: EDUSP, 1988, 
299p. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 20 EE 


THOMPSON, Paul. A voz do passado.2.ed.São Paulo: Paz e Terra,1998,385p. 


TRUZZI, Oswaldo. Redes em processos migratórios. Revista Tempo Social, vol.20, n.1, p.199-218, 
junho de 2008. 


VETORASSI, Andréa. Laços de trabalho e redes dos migrantes: um estudo sobre as dimensões 
objetivas e subjetivas presentes em redes sociais e identidades de grupos migrantes de Serrana-SP 
e Guariba-SP.2010.211f.Tese (Doutorado em Sociologia) -Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, 
Universidade Estadual de Campinas, Campinas. 


THOMAZ JUNIOR, Antonio. Por trás dos canaviais, os “nós” da cana: a relação capital x trabalho 
e o movimento sindical dos trabalhadores na agroindústria canavieira paulista. 1. ed. São Paulo: 
Annablume: FAPESP, 2002, 388p. 


THOMAZ JUNIOR, Antonio. Se camponês, se operário! Limites e desafios para a compreensão da 
classe trabalhadora no Brasil! In: THOMAZ JUNIOR, et al. (orgs.). Geografia e trabalho no século 
XXI, vol.2, p.135-170. Presidente Prudente: Centelha, 2006. 


THOMAZ JUNIOR, Antonio. Dinâmica geográfica do trabalho no século XXI. (Limites explicativos, 
autocrítica e limites teóricos). 2009. 997f. Tese (Livre Docência) - Faculdade de Ciências e Tecnologia, 
Universidade Estadual Paulista, Presidente Prudente. 


THOMAZ JUNIOR, Antonio. Intemperismo do trabalho e as disputas territoriais contemporâneas. 
Revista da ANPEGE, vol.7, n.1, número especial, p.307-329, outubro de 2011. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Capítulo 20 EE 


SOBRE OS ORGANIZADORES 


FERNANDA PEREIRA MARTINS - Bacharel e Licenciada em Geografia pela Universidade 
Federal de Uberlândia — FACIP (2010). Mestre em Geografia pela UFU (2014), com 
discussões no campo da Pedologia e Geomorfologia em áreas úmidas de Chapada. Doutora 
em Geografia pelo Instituto de Geociências da Universidade Federal de Minas Gerais (2018), 
com pesquisas sobre a evolução de longo termo das paisagens de chapadas no Brasil e 
discussões no campo da legislação e proteção ambiental. Atualmente é professora do 
Instituto Federal de Goiás - IFG, Campus Valparaíso. 


LEONARDO BATISTA PEDROSO - Bacharel e Licenciado em Geografia (2011) pela 
Universidade Federal de Uberlândia - UFU. Mestre (2014) e Doutor (2018) em Geografia 
pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Uberlândia - 
UFU. Membro do Grupo de Estudos Agronômicos Aplicados ao Sudoeste Goiano do Instituto 
Federal Goiano - IFGoiano. Atualmente é Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência 
e Tecnologia Goiano - IFGoiano, Campus Morrinhos. Atua nas áreas de Saúde Ambiental, 
Climatologia e Recursos Hídricos. 


RILDO APARECIDO COSTA - Possui graduação em Geografia pela Universidade Federal 
de Uberlândia (1997), mestrado em Geografia pela Universidade Federal de Goiás (2001) 
e doutorado em Geografia pela Universidade Federal de Uberlândia (2008). Atualmente é 
professor Associado | da UFU/FACIP. Coordenador do Programa de Pós-Graduação em 
Geografia do Pontal (2018 - 2019), Professor/Orientador do Programa de Pós Graduação 
em Geografia da Universidade Federal de Goiás - Campus Catalão e do Programa de Pós 
Graduação em Geografia da UFU/FACIP. Coordenador do Laboratório de Climatologia da 
FACIP/UFU. 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Sobre os organizadores | 236; 


ÍNDICE REMISSIVO 


A 


Agrohidronegócio 224, 225, 229 

Amazônia 98, 125, 126, 128, 130, 132, 133, 134, 160, 161, 162, 164, 171, 172, 173 
Áreas degradadas 149, 155, 157, 158 

Arquitetura 186, 189, 190, 191, 193, 195, 196, 197, 204 


Cc 

Cartografia 26, 54, 55, 56, 57, 58, 59, 60, 61, 62, 63, 64, 78, 79, 80, 81, 82, 85, 86, 87, 89, 
92, 94, 95, 96, 97, 109, 110, 140, 171, 210 

Cartografia escolar 57, 80, 87, 89, 94, 95, 96, 97 

Cartografia temática 78, 80, 81, 82, 85, 86, 89, 96, 110 

Cemitério harmonia 189, 190, 191, 192, 193, 194 

Competências 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 27, 28, 29, 57,217 


Conhecimento 1,2,3,4,5,9,10, 11, 12, 13,14, 15, 16, 17,20,21, 22,23,24, 25,26, 27, 
30, 32, 33, 34, 36, 39, 40, 54, 55, 56, 57, 58, 59, 60, 61, 62, 63, 65, 67, 68, 77, 79, 89, 92, 
98, 95, 96, 111, 120, 121, 172, 189, 191, 193, 208, 217, 218, 220, 221, 222, 228, 231 


D 


Dialética 2, 54, 64, 191 
Dissertação 45, 46, 52, 79, 86, 110, 158, 172, 173, 194, 204 


E 


Energia 111, 112, 114, 115, 120, 121, 139, 152, 156, 157, 168, 198, 215, 223 


Ensino 1,2,4,5,6, 7,8, 18, 19,20, 21, 22, 23, 26, 27, 29, 54, 55, 56, 57, 60, 61, 62, 63, 
64, 78, 79, 80, 81, 85, 86, 87, 88, 89, 90, 92, 97, 206, 207, 208, 210, 211, 213, 216, 217, 
218, 219, 220, 221, 222, 223 


Ensino-aprendizagem 1, 21, 29, 54, 57,60, 61, 62, 81, 85, 206, 207, 208, 213, 218, 221 
Epistemologia 9, 16, 30, 42, 77, 218 
Espaços públicos 174, 175, 176, 177, 178, 179, 181, 183, 185, 196, 202 


Estado 3, 4, 17, 45, 46, 49, 50, 51, 52, 53, 66, 80, 85, 86, 99, 100, 102, 112, 116, 117, 118, 
119, 120, 121, 122, 123, 127, 128, 130, 133, 135, 139, 149, 150, 151, 157, 158, 160, 161, 
162, 163, 164, 170, 171, 172,173, 175, 176, 183, 187, 189, 191, 194, 201, 204, 2183, 214, 
226, 233 


F 


Financeirização 45, 46, 50, 52 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Índice Remissivo 





G 


Geocoding 98, 99, 103, 108, 109 


Geografia 1,2,3,4,5,6,7,8,9, 14, 18, 19,20, 21, 22,23, 25, 26, 27, 28, 29,30, 31, 32, 
38, 34, 35, 36, 37, 38, 39, 40, 41, 42, 43, 44, 45, 46, 47, 51, 52, 53, 54, 55, 56, 61, 63, 64, 
78, 79,80, 81, 82, 83, 85, 86, 87, 89, 90, 91, 92, 94, 95, 96, 97, 100, 110, 125, 135, 140, 
148, 149, 173, 174, 186, 187, 188, 189, 190, 191, 194, 195, 204, 206, 207, 208, 210, 211, 
212, 213, 214, 216, 217, 218, 219, 220, 221, 222, 228, 224, 225, 226, 228, 234, 235, 236 


Geografia grega 30, 33, 36, 37, 41, 43, 44 
Georreferenciamento 65, 67, 69 


Gestão 22, 25, 26, 29, 98, 100, 108, 109, 110, 137, 148, 160, 161, 162,170,171,172,176, 
182, 188, 205 


H 


Hegemonia 9, 15, 127 

I 

Infraestrutura 49, 99, 135, 137, 138, 139, 140, 141, 146, 147, 148, 156, 157, 161, 176, 181, 
196, 197, 198, 200, 204 

Inundação 152, 153, 160, 162, 165, 166, 167, 168, 169, 170, 172, 173 

Irrigação 111, 112, 116, 117, 118, 119, 120, 121, 209 

M 

Megadesastre 149, 150, 152, 155, 157, 158 

Meio ambiente 19, 76, 135, 137, 138, 139, 140, 141, 147, 157, 159, 172, 173, 201,217 
Mestrado 45, 77, 79, 86, 110, 158, 172, 173, 194, 195, 204, 233, 236 

Metodologias ativas 18, 19, 23, 28, 29, 64 

Metodológica 37, 38, 45, 46, 48, 54, 58, 102 

Migrações 224, 225, 226, 228, 229, 230, 231, 232, 233, 234 

P 

Patrimônio 67, 78, 79, 83, 84, 85, 86, 157, 189, 190, 191, 193, 194, 201 

Professores 1,3,4,95,6, 7,8, 18, 19,29, 57, 62, 87, 88, 89, 197, 206, 216, 220, 221 
Punctum dolens 123, 124, 133 

R 


Recuperação 82, 149, 150, 151, 152, 154, 155, 156, 157, 158 
Recursos didáticos 94, 206, 207, 210, 211, 218, 220, 223 


Renovação da geografia 1,2 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Índice Remissivo FE 


s 


Segregação socioespacial 174, 175, 179, 186, 187 
Soft skills 18, 19, 22, 23 

Softwares 70, 81, 82, 98, 100, 102 

T 


Teorias da geografia 45, 51 

Trabalho 3, 7, 12, 14, 18, 19, 22, 23, 27, 28, 42, 45, 48, 52, 54, 55, 56, 57, 58, 693, 65, 66, 
68, 76, 78, 79, 80, 83, 84, 85, 87, 89, 93, 95, 96, 100, 102, 109, 111, 112, 133, 135, 137, 
149, 151, 154, 155, 156, 157, 162, 166, 171, 177, 187, 189, 193, 194, 201, 208, 209, 211, 
212, 215, 216, 218, 219, 220, 221, 222, 2283, 224, 225, 226, 227, 228, 229, 230, 231, 232, 
233, 234, 235 

U 


Universidades ocidentalizadas 9,10, 17 
Urbanismo 186, 195, 197, 204 


Urbano 47, 52, 76, 79,86, 161, 173, 174, 175, 176, 177,179,183, 185, 186, 188, 195, 196, 
197, 199, 202, 208, 204, 210, 211, 219, 221 


V 


Vulnerabilidade 134, 135, 137, 138, 139, 140, 146, 147, 149, 150, 161, 170, 171 


Geografia, ensino e construção de conhecimentos 2 Índice Remissivo | 239; 


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