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Full text of "História natural illustrada. Compilação sobre os mais auctorisados trabalhos zoologicos por Julio de Mattos"

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HISTORIA  NATURAL 


HISTORIA 


NATURAL 


ILLUSTRADA 


COMPILAÇÃO   FEITA  SOBRE  OS  MAIS  AUCTORISADOS 
TRABALHOS   ZOOLÓGICOS 


JXJLIO    IDE    3VE.AuTTOS 


TERCEIRO   VOLUME 


PORTO 

LIVRARIA    UNIVERSAL 

DE 

3S/E.A.GA.IjIíÀES   &   I^OISTIZ  —  EDITORES 

13  — Largo  dos  Loyos— H 


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Porto  —  Imprensa  Commercial  —  Rua  dos  Lavadouros,  16. 


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RUMINANTES 


(CONTINUAÇÃO) 


OS    MOSCHOS 


Alguns  naturalistas  collocam  estes  ruminantes  entre  os  veados  de 
que  se  approximam  pela  elegância  de  formas.  A  não-existencia  porém 
de  cornos  é  um  caracter  negativo  que,  quando  outros  não  existissem, 
bastaria  para  fazer  considerar  arbitraria  uma  tal  collocação.  Fazemos 
pois  dos  moschos  uma  familia  aparte,  seguindo  Brehm. 


CAP.ACTEBES 


Os  moschos  não  teem  cornos,  nem  fossas  lacrimaes,  nem  pêllos  cm 
tufo  nas  pernas  posteriores.  A  cauda  d'estes  ruminantes  é  perfeitamente 
rudimentar;  ou  antes  no  logar  de  cauda  existe  um  tubérculo,  uma  li- 
geira saliência.  Os  machos  distinguem-se  de  todos  os  outros  ruminantes 
pela  existência  de  caninos  saKentes  na  maxilla  superior^  ora  compridos 
e  dirigidos  para  fora,  ora  mais  curtos  e  voltados  para  dentro.  Teem  os 
moschos  quatorze  a  quinze  vértebras  dorsaes,  cinco  a  seis  lombares, 


6  TTTSTOBTA   NATURAL 

quatro  a  sois  saibradas  e  treze  caudaes  atrophiadas.  Ideias  parles  molles 
recordam  os  anlilopes  e  os  veados. 


DISTRIBUIÇÃO    CxEOGRAPHIfiA 


Habitam  a  Ásia  central  e  meridional,  as  ilhas  e  a  parte  occidental 
da  Africa  cenlral. 


COSTUMES 


Vivem  nas  regiões  pedregosas  das  altas  montanhas,  raras  vezes 
perto  das  florestas,  e  mais  raramente  ainda  nos  valles  a  que  não  descem 
senão  quando  um  inverno  rigoroso,  roubando-lhes  nas  montanhas  todos 
os  meios  de  subsistência,  os  forçam  a  procurar  alimentos  em  regiões 
mais  ricas  de  vegetação. 

De  ordinário  vivem  solitários;  uma  espécie  apenas  forma  bandos. 

Dormem  quasi  todo  o  dia,  apparecendo  apenas  ao  fim  da  tarde,  á 
hora  do  pôr  do  sol. 

São  geralmente  vivos  e  ágeis;  saltam  e  trepam  admiravelmente. 
Garacterisa-os  uma  grande  timidez;  ao  menor  perigo  deitam  a  fugir.  São 
astutos;  ás  vezes  diante  de  um  grande  perigo  simulam-se  mortos. 

A  fêmea  pare  um  a  dois  fiihos  de  cada  vez  e  com  grandes  inter- 
vallos. 


CAPTIVEIRO 


Embora  timidos,  domesticam-se  facilmente,  chegando  a  ter  pelo  ho- 
mem uma  viva  aífeição. 


MAMÍFEROS   EM  ESPECIAL 


USOS  E   PRODUCTOS 


A  carne  é  boa  e  a  pelle  aproveitável,  o  que  explica  a  perseguição 
de  que  são  victimas  estes  ruminantes.  Ha  uma  espécie  que  produz  al- 
míscar. 


O  ALMISCAREIRO 


Pertence  a  um  género  cujos  membros  se  distinguem  pela  existência 
de  caninos  muito  compridos,  de  um  péllo  duro  e  de  uma  bolsa  umbilical, 
no  macho,  destinada  á  produccão  de  almíscar. 


OONSroERAÇOES  HISTÓRICAS 


Os  gregos  e  os  romanos,  com  quanto  apreciadores  distinctos  das 
pomadas  perfumosas  que  recebiam  da  índia  e  da  Arábia,  desconheceram 
completamente  o  almiscareiro.  Na  China  é,  pelo  contrario,  conhecido  ha 
muitos  milhares  d'annos.  Existem  descripções  antiquíssimas  do  animal, 
como  as  de  Abou  Senna,  Mosadius  e  Marco  Polo,  todas  mais  ou  menos 
deficientes  ou  phantasiosas.  A  primeira  descrippão  reputada  exacta  é  a 
de  Palias. 


HISTORIA   NATURAL 


CARACTERES 


O  almiscarciro  6  um  ruminante  elegantíssimo.  Mede  oilenla  cenli- 
metros  de  comprimento  sobre  sessenta  e  seis  de  altura.  A  parte  poste- 
rior do  tronco  é  ura  pouco  mais  elevada  que  a  anterior;  os  membros 
são  delgados,  o  pescoço  é  curto,  a  cabeça  é  alongada  e  o  focinho  arre- 
dondado. Os  cascos  são  pequenos,  finos,  ponteagudos  e  susceptíveis  de 
se  aíTastarem;  as  unhas,  que  são  rudimentares,  tocam  o  solo.  Esta  dis- 
posição permitte  ao  animal  manter-se  sobre  os  campos  cobertos  de  gelo. 
O  corpo  é  todo  coberto  de  pêllos  abundantes,  de  um  ruivo-trigueiro  e 
mais  compridos  aos  lados  do  peito,  entre  as  coxas  e  no  pescoço.  Estes 
pêllos  são  compridos,  rijos  e  crespos.  Os  caninos  no  macho  fazem  uma 
saUencia  de  trez  a  oito  centímetros  fora  da  bocca;  são  dirigidos  para 
baixo  e  para  traz.  Na  fêmea  estes  dentes  não  excedem  os  lábios. 

O  almiscarciro  entre  a  depressão  umbilical  e  os  órgãos  genitaes 
apresenta  uma  bolsa  arredondada,  saliente,  de  cinco  a  sete  centímetros 
de  comprido  sobre  trez  de  largura  e  trez  ou  quatro  de  altura.  Esta  bolsa 
é  cercada  de  pêllos  aos  lados  e  tem  na  parte  media  uma  certa  porção 
desnudada,  onde  vêem  abrir-se  dois  canaes.  Pequenas  glândulas  parie- 
taes  segregam  o  almíscar  que  por  canaes  se  despeja  na  bolsa.  No  ani- 
mal adulto,  esta  contem,  termo  médio,  sessenta  grammas  de  almíscar; 
algumas  vezes  encontra-se  muito  mais.  Os  animaes  não  adultos  ordina- 
riamente não  produzem  mais  do  que  oito  grammas.  Durante  a  vida  do 
animal,  o  almíscar  oíferece  a  consistência  do  mel  e  uma  cor  entre  ver- 
melho e  trigueiro;  depois  de  morto  o  ruminante,  a  substancia  odorífera 
torna-se  n'uma  massa  granulosa  ou  pulverulenta,  de  um  trigueiro  ruivo 
que  enegrece  com  o  tempo.  O  cheiro  diminue  á  medida  que  a  côr  escu- 
rece. Este  almíscar  é  solúvel  na  agua,  quente  ou  fria,  e  no  álcool. 


DISTRIBUIÇÃO  GEOaRAPHICA 


O  almiscarciro  habita  todos  os  cumes  das  montanhas  da  Ásia  cen- 
tral. 


mamíferos  em  especjal 


COSTUMES 


Vivendo  do  preferencia  nas  montanhas,  conserva-se  geralmente  a 
uma  altitude  de  mil  a  dois  mil  c  trezentos  metros  acima  do  nivel  do 
mar.  É  raro,  muito  raro,  encontrar-se  n'um  valle  a  uma  altitude  inferior 
a  trezentos  metros.  Vive  solitário,  excepção  feita  para  a  epocha  do  cio, 
e  occulto  o  dia  inteiro;  só  de  noite  vagueia. 

São  rápidos  e  cheios  de  segurança  os  movimentos  d'este  ruminante. 
Corre  com  ligeireza  egual  á  do  antílope,  salta  com  a  destreza  do  bode- 
quim  e  trepa  com  a  intrepidez  do  gamo.  Sobre  os  campos  cobertos  de 
gelo,  onde  a  maior  parte  dos  animaes  a  custo  conseguem  mover-se,  o  al- 
miscareiro  corre  com  facilidade  espantosa.  Quando  o  attacam  de  perto, 
salta  enormes  precipicios  sem  se  molestar,  corre  ao  longo  dos  rochedos 
onde  mal  encontra  espaço  para  poisar  as  patas  ou,  se  tanto  é  preciso, 
attravessa  a  nado  as  correntes. 

Tem  sentidos  muito  perfeitos,  mas  uma  intelligencia  muito  limitada 
e  uma  grande  timidez  de  caracter.  Quando  o  surprehende  um  perigo, 
foge,  correndo  desesperadamente  sem  bem  saber  para  onde. 

A  epocha  do  cio  é  em  Novembro  ou  Dezembro.  Realisam-se  então 
entre  os  machos  tremendos  combates  em  que  os  dentes  se  tornam  armas 
terríveis.  Raros  são  os  machos  adultos  que  não  apresentam  pelo  corpo 
largas  cicatrizes,  testemunhas  d'esses  renhidos  combates.  Durante  o  cio, 
o  cheiro  d'almiscar  exalado  pelos  machos  é  de  uma  pasmosa  actividade; 
dizem  alguns  caçadores  que  elle  se  sente  a  um  quarto  de  légua  de  dis- 
tancia. Em  Maio  ou  Junho,  isto  é  seis  mezes  depois  das  relações  sexuaes, 
a  fêmea  pare  um  a  dois  filhos,  que  nascem  completamente  formados.  A 
mãe  conserva-os  junto  a  si  até  uma  nova  epocha  de  cio.  Os  novos  seres 
ao  fim  de  trez  annos  são  adultos. 

O  almiscareiro  escolhe,  sempre  que  ha  logar  para  isso,  as  liervas 
melhores  e  mais  succulentas. 


CAÇA 


A  caça  feita  ao  almiscareiro  é  das  mais  diíficeis;  concorre  para  isto 
a  timidez  excessiva  do  animal,  a  sua  perpetua  desconfiança,  que  poucas 


10  HISTORIA  NATURAL 

vozes  pcrmiltcm  ao  caçador  encontral-o  ao  alcance  da  arma.  De  ordinário 
a  caça  faz-so  por  meio  de  laços  que  se  dispõem  pelos  caminhos  que  o 
almiscareiro  lom  de  attravessar.  Na  Sibéria  apanlia-sc  por  meio  de  ar- 
madilhas a  que  servem  de  engodo  os  licliens.  lia  logares  onde  se  fecham 
os  valles  com  estacarias  altas  de  todos  os  lados,  deixando  aberta  ape- 
nas uma  fenda  onde  os  laços  se  dispõem.  N'outros  pontos  mata-se  o  al- 
miscareiro á  ílexa,  attraindo-o  por  sons  que  lhe  imitam  a  voz.  (cAcontece 
ás  vezes,  diz  Brehm,  que,  em  vez  do  almiscareiro,  apparecem  um  urso, 
um  lobo  ou  um  rapozo,  enganados  também  pelo  som.w  *  O  almiscareiro 
tem  o  costume  de  voltar  sempre  ao  logar  que  uma  vez  escolheu  para 
repousar.  É  d'este  costume,  d'esta  persistente  tendência  que  os  caçado- 
res muitas  vezes  se  aproveitam. 


CAPTIVEIRO 


As  informações  sobre  este  ponto  são  deficientissimas.  Sabe-se  ape- 
nas de  dois  casos  de  captiveiro,  um  realisado  em  Paris,  outro  em  Lon- 
dres. Os  animaes  captivos  não  duraram  muitos  annos,  mas  viveram  sem- 
pre alegres  e  com  saúde.  O  de  Paris  succumbiu  a  um  desastre,  a  obs- 
trucção  do  pyloro  por  uma  porção  de  pôllos  que  ingerira. 


usos   E    PRODUCTOS 


A  carne  do  almiscareiro  não  é  boa;  o  almiscar  porém,  é  um  bello 
producto  de  grandes  resultados  commerciaes.  D'este  almiscar  ha  muitas 
qualidades,  sendo  considerado  o  melhor  e  o  menos  sujeito  a  sophistica- 
ções  o  chamado  Cabardin  ou  da  Rússia.  A  pelle  serve  para  a  fabricação 
de  bonnets  e  vestidos. 


>     Broliin,  nin:  <■!/.,  vol.  2.»,  pg.  4(;i. 


MAMÍFEROS    EM    ESPECIAL 


11 


O  MOSCHO  MENOR  OU  MÍNIMO 


É  o  mais  pequeno  dos  ruminantes.  DiíTere  essencialmente  da  espé- 
cie anterior  pela  não  existência  da  bolsa  de  almiscar. 


CARACTERES 


Mede  apenas  cincoenta  centimetros  de  comprimento,  pertencendo 
quatro  á  cauda;  a  altura,  medida  ao  nivel  da  espádua  é  de  vinte  e  dois 
centimetros.  A  parte  posterior  do  corpo  é,  como  no  almiscareiro,  um 
pouco  mais  alta  do  que  a  anterior.  O  pêllo  é  fino.  A  cabeça  é  ruiva  com 
o  vértice  quasi  negro;  a  parte  superior  do  corpo  é  de  um  trigueiro  ama- 
rellado  com  cambiantes  ruivas  e  um  traço  negro  ao  longo  da  columna; 
os  lados  do  corpo  são  claros  e  o  ventre  branco.  Os  machos  teem  cani- 
nos que  excedem  as  gengivas  de  trez  centimetros  e  que  são  fortemente 
recurvos,  dirigidos  para  fora  e  para  traz. 


DISTRIRUIÇAO    GEOCRAPTTICA 


Java,  Singaporo  e  Pinang  são  a  pátria  d'este  curioso  animal 


COSTUMES 


Vivem  nas  florestas  espessas,  preferindo  as  montanhas  ás  planícies. 
Tem  hábitos  solitários;  só  no  tempo  do  cio  se  encontram  juntos  ma- 
cho e  fêmea.  Vive  o  dia  inteiro  escondido  nos  arvoredos  espessos,  onde 


12  HISTORIA  NATURAL 

om  repouso  se  entrega  á  ruminação;  ao  cair  da  tarde  sae  em  busca  do 
alimento  que  consiste  principalmente  em  folhas,  hervas  e  fructos  de  toda 
a  ordem. 

Os  movimentos  d'cste  animal  são  leves  e  graciosos;  dá  saltos  rela- 
livamente  grandes  e  vence  com  destreza  as  maiores  diíficuldades.  É 
muito  ardiloso;  quando  se  sente  perseguido  e  tem  poucas  probabilida- 
des de  escapar,  fugindo,  fmge-se  morto  para  desviar  o  inimigo  e  corre 
quando  o  sente  a  distancia  bastante.  Os  indígenas  quando  querem  desi- 
gnar de  um  modo  expressivo  um  homem  impostor,  dizem  d'elle:  ma- 
nhoso como  o  moscho  menor,  phrase  que  corresponde  á  nossa:  astuto 
como  o  rapozo. 

Sobre  a  reproducção  d'este  ruminante  nada  lemos  de  authentico; 
parece  que  a  fêmea  não  produz  em  cada  parto  mais  que  um  filho. 


CAPTIVEIRO 


Parece  não  soffrer  muito  com  a  perda  de  liberdade.  Actualmente 
encontra-se  em  muitas  coUecções  de  animaes  expostas  na  Europa.  Tem-se 
conseguido  mesmo  a  reproducção  em  captiveiro. 


usos  E   PRODUCTOS 


Em  Java  a  carne  d'este  ruminante  é  estimada  como  alimento.  Os 
pés,  finíssimos  e  elegantes,  engastados  em  ouro  ou  prata  servem  na  con- 
fecção de  alguns  objectos  de  luxo  e  de  gosto,  nos  cachimbos,  por 
exemplo. 


mamíferos  em  especial 


13 


os  VEADOS 


Constituem  pela  sua  reunião  uma  familia  importantíssima  da  ordem 
dos  ruminantes  e  fácil  de  conhecer  e  distinguir,  como  pelo  estudo  que 
vamos  fazer  se  deprehenderá. 


CARACTERES 


São  ruminantes  de  cornos,  de  dimensões  superiores  ás  dos  mos- 
clios,  de  caninos  curtos,  de  corpo  alongado,  elegante,  perfeito  e  rigoro- 
samente proporcionado,  de  pescoço  vigoroso,  de  olhos  grandes  e  vivos, 
de  orelhas  finas,  direitas  e  muito  moveis.  Geralmente  só  os  machos 
apresentam  cornos,  isto  é  prolongamentos  ramificados  do  frontal  e  que 
todos  os  annos  caem  para  ser  por  outros  substituídos.  A  muda  dos  cor- 
nos está  ligada  à  actividade  sexual.  Se  um  veado  se  castra  e  na  epocha 
da  operação  possuia  cornos,  ficará  perpetuamente  com  elles;  se  os  não 
tinha  n'essa  occasião,  não  os  readquire;  se  a  castração  foi  unilateral,  só 
do  lado  não  operado  tornam  os  cornos  a  reproduzir-se.  No  recemnas- 
cido  nota-se  desde  logo  no  ponto  de  inserção  dos  cornos  um  insoUto 
desenvolvimento  do  frontal.  Aos  seis  ou  oito  mezes  apparece  no  logar 
indicado  uma  sahencia  óssea  que  persistirá  toda  a  vida  e  da  qual  os  cor- 
nos tomarão  origem. 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPHICA 


Existem  hoje,  como  existiram  já  em  epochas  geológicas  anteriores 
á  nossa,  em  todas  as  partes  do  mundo,  em  toda  a  terra,  excepção  feita 
da  Austrália  e  de  uma  certa  parte,  ahás  considerável,  da  Africa. 


li  IIÍSTOIUA  NATURAL 


COSTUMES 


Eficoritram-sc  nos  climas  quentes  como  nos  írios,  nas  planícies  como 
nas  montanhas,  nos  logares  descobertos  como  nos  bosques  largamente  e 
densamente  arborisados,  nas  regiões  seccas  como  nas  pantanosas,  em 
toda  a  parte  e  em  todas  as  condições. 

São  animaes  sociáveis;  muitos  reunem-se  em  bandos  numerosíssi- 
mos. Durante  o  estio,  os  velhos  machos,  separam-se  de  ordinário  das 
íemeas  e  vivem  ou  solitários  ou  unidos  uns  aos  outros. 

Na  epocha  do  cio  juntam-se  aos  bandos  das  fêmeas  e  provocam  os 
rivaes;  é  então  que  se  ferem  as  luctas  tremendas  d'onde  resultará  a  se- 
lecção sexual. 

São  quasi  todos  animaes  nocturnos;  no  entanto  os  que  vivem  nos 
logares  desertos,  tranquillos,  procuram  de  dia  mesmo  o  alimento. 

Todos  estes  ruminantes  são  vivos,  ágeis,  um  pouco  tímidos,  rápidos 
em  todos  os  movimentos  e  intellígentes. 

Alímentam-se  exclusivamente  de  vegetaes  e  bebem  muita  agua. 

A  fêmea  pare  um,  dois  e  ás  vezes  trez  filhos,  que  nascem  comple- 
tamente desenvolvidos  e  que  ao  íim  de  alguns  dias  seguem  a  mãe  por 
toda  a  parte.  A  fêmea  é  de  uma  extraordinária  solhcitude  pelos  recem- 
nascídos,  aos  quaes  defende  contra  todos  os  perigos.  Espécies  ha  em 
que  o  macho  cuida  também  da  prole  com  extremo  desvello. 


GAPTIVEIRO 


O  captiveiro  ó  para  estes  ruminantes  uma  crueldade  contra  a  qual 
perpetuamente  se  revoltam.  Se  é  certo  que  em  novos  parecem  aífei- 
çoar-se  ao  homem  e  tributar-lhe  uma  grande  dedicação,  não  é  menos 
certo  que  progredindo  em  edade  se  tornam  mãos,  coléricos,  indóceis.  O 
rangifero,  que  ha  muitos  séculos  vive  captivo,  esse  mesmo  não  é,  como 
poderá  suppôr-se,  uma  excepção;  a  sua  domesticação  é,  no  dizer  de 
Brehm  e  d'outros  naturalistas,  pronuncíadamente  incompleta. 


MAMÍFEROS    EM   Ebl»EClAL 


CSOS   E    PUUDLCTOS 


Se  fizermos  uma  exceppão  para  o  raiigiíero,  cuja  ulilidade  para  a 
nossa  espécie  é,  como  veremos,  incontestável,  pode  francamente  dizer-se 
que  a  família  dos  veados  nos  causa  prejuizos  apenas.  É  boa  a  carne? 
Tiramos  proveito  dos  cornos?  É  a  pelle  susceptivel  de  utilisar-se?  Pode 
decerto  responder-se  aífirmativamente.  Mas  o  que  é  tudo  isto,  se  nos  lem- 
bramos dos  estragos  produzidos  por  estes  ruminantes  nos  logares  cul- 
tivados ? 


Estão  comprehendidos  na  familia  que  acabamos  de  descrever,  como 
géneros  principaes :  os  alces^  os  rangiferos,  os  gamos j  os  veados  propiia- 
rnc7Ue  ditos  o  os  zorlitos.  D'estes  géneros  passamos  a  occupar-nos. 


OS  ALCES 


São  os   representantes  mais  notáveis  cm  grandeza  da  familia  dos 
veados. 


CAKAGTEHES 


São  fortes,  pezados  e  muito  altos.  Teem  cornos  compridos,  largos 
e  muito  ramificados.  Não  possuem  caninos.  A  cabeça  é  comprida,  a  rc- 


16  HISTORIA    NATURAL 

j,náo  nasal  muito  desenvolvida,  o  lábio  inferior  procidente  e  a  cauda 
curta;  os  olhos  sào  pequenos  e  as  orelhas  compridas  e  largas. 


O  ALCE  MAIOII 


É  um  animal  de  grandes  propor^iões.  O  macho  adulto  tem  dois  me- 
tros e  sessenta  centímetros  a  dois  metros  e  oitenta  de  comprido  sobre 
dois  metros  de  alto.  O  comprimento  da  cauda  é  de  dez  centímetros.  O 
pezo  médio  é  de  duzentos  a  trezentos  kilogrammas,  chegando  alguns 
animaes  já  velhos  a  attlngir  quinhentos.  O  corpo  é  curto  e  grosso,  o 
peito  largo,  a  espádua  elevada,  formando  uma  hgeira  corcova,  e  o  dorso 
recto.  Os  membros  são  altos  e  muito  fortes.  Os  cascos  são  finos,  pro- 
fundamente fendidos  e  hgados  na  origem  por  uma  membrana  extensível. 
A  cabeça  c  grande,  alongada,  o  focinho  comprido,  grosso,  largo,  obtuso 
e  o  pescoço  curto,  forte,  muito  vigoroso;  o  nariz  é  cartilagineo,  o  lábio 
superior  espesso,  fendido,  extenso  e  muito  saUente.  Os  olhos  são  peque- 
nos e  muito  encovados.  As  orelhas  são  compridas  e  largas,  mas  termi- 
nando em  ponta  e  moveis  em  todos  os  sentidos.  Os  cornos  do  animal  são 
constituídos  por  hastes  curtas  que  se  alargam  trlangularmente.  O  péllo 
é  curto  e  espesso.  Sobre  a  nuca  e  pescoço  este  péllo  chega  a  attlngir 
vinte  centímetros  de  comprido,  d'onde  o  nome  de  élmi  à  crinière  dado 
pelos  francezes  a  este  animal.  A  cor  do  manto  é  um  trigueiro  ruivo  bas- 
tante uniforme.  A  fêmea  é  mais  pequena  que  o  macho  e  é  desprovida 
de  cornos;  os  seus  cascos  são  mais  compridos  e  mais  finos  e  as  unhas 
mais  curtas  que  as  do  macho.  A  cabeça  da  fêmea  recorda  a  das  mulas. 


DISTRIBUIÇÃO    GKOGRAriUCA 


Habita  as  florestas  do  norte  da  Europa  e  da  Ásia.  Na  Europa  esten- 
de-se  até  ás  costas  do  Báltico;  encontra-se  na  Prússia  oriental,  na  Lithua- 


mamíferos  em  especial  17 

nia,  na  Livonia,  na  Suécia,  em  Noruega,  em  alguns  pontos  da  Grande 
Rússia,  etc.  Segundo  Brehm,  em  1746  matou-se  o  ultimo  alce  maior  em 
Saxe  e  em  1760  o  ultimo  também  na  Galiza. 

É  mais  commum  na  Ásia  do  que  na  Europa;  em  todos  os  pontos 
d'aquelle  continente  onde  existem  florestas,  o  notável  ruminante  atii 
existe. 


costumes 


Os  togares  preferidos  por  este  ruminante  para  habitação  são  as  flo- 
restas, principalmente  as  dos  togares  desertos  e  pantanosos.  De  Abril 
até  Outubro,  o  alce  maior  vive  em  togares  baixos;  depois,  no  inverno, 
procura  as  regiões  elevadas,  não  expostas  ás  inundações  e  não  cobertas 
de  gelo.  Quando  o  inquietam  ou  não  encontra  alimento  bastante  n'um 
local,  muda-se  para  outro. 

É  sociável;  vive  geralmente  em  pequenos  bandos  compostos  de 
quinze  a  vinte  indivíduos;  perto  da  epocha  do  parto,  os  velhos  machos 
abandonam  estes  bandos,  que  ficam  exclusivamente  formados  por  fêmeas 
e  pequenos  machos,  não  aptos  ainda  para  a  reproducção. 

Se  o  não  incommodam,  se  ninguém  o  inquieta,  o  alce  maior  va- 
gueia dia  e  noite,  embora  seja  naturalmente  nocturno. 

Alimenta-se  de  folhas,  de  renovos  e  de  cascas  d'arvores,  o  que  o 
torna  immensamente  prejudicial.  Quando  se  encontram  n'uma  floresta 
arvores  despidas  de  casca,  pode  estar-se  certo  de  que  o  alce  maior  não 
está  longe;  é  assim  que  os  caçadores  sabem  onde  perseguil-o.  Só  im- 
pellido  pela  necessidade,  procura  alimentação  vegetal  diíferente  da  que 
referimos.  Causa  por  isso  mais  estragos  nos  campos  em  cultura  do  que 
nas  florestas. 

É  menos  ágil  e  menos  gracioso  que  os  veados  propriamente  ditos; 
não  se  pense  todavia  que  é  moroso:  calculasse  que  pode  percorrer  n'um 
dia  quatrocentos  kilometros. 

^  Passa  por  ser  um  bello  nadador,  que  entra  na  agua  não  só  quando 
o  força  a  necessidade,  mas  por  prazer. 

Quando  corre,  costuma  erguer  a  cabeça  de  modo  que  os  cornos  lhe 
flcam  em  posição  horisontal;  esta  attitude  fal-o  cair  muitas  vezes.  Quando 
isto  acontece,  o  animal,  tentando  levantar-se,  agita  muito  as  patas  de 
deante  e  estende  as  posteriores  até  junto  da  cabeça.  D'aqui  uma  fabula 
curiosíssima,  segundo  a  qual  o  ruminante  soíTreria  de  attaques  epile- 

VOL.    III  2 


18  IIISTOIIIA   NATURAL 

cticos,  usando  para  a  cura  do  processo  singular  de  arranhar  as  orelhas 
até  ellas  verterem  sangue! 

O  ouvido  e  a  vista  do  alce  maior  são  sentidos  perfeitíssimos;  o  ol- 
lato  é  menos  apurado.  Não  é  intelhgente,  mas  não  tem  também  a  timi- 
dez dos  veados  propriamente  ditos. 

Vive  em  boa  harmonia  com  os  seus  congéneres,  excepto  na  epocha 
do  cio,  em  que  entre  os  machos  se  trava  uma  lucta  tremenda  para  a 
posse  das  fêmeas  e  direcção  dos  bandos.  O  cio  nas  costas  do  Báltico  rea- 
lisa-se  em  fins  de  Agosto,  na  Rússia  asiática  em  Setembro  e  Outubro. 
Durante  esse  tempo  de  excitação,  o  alce  maior  é  perigoso  até  para  o 
homem,  attacando,  se  é  ferido,  o  caçador  que  não  logrou  matal-o. 

A  gestação  dura  trinta  e  seis  a  quarenta  semanas.  O  primeiro  parto 
dá  geralmente  origem  á  apparição  de  um  filho  só  e  os  que  se  lhe  se- 
guem á  de  dois,  de  ordinário  de  sexos  differentes.  Ao  terceiro  ou  quarto 
dia  de  vida  extra-uterina,  os  recemnascidos  seguem  já  a  mãe;  a  ama- 
mentação prolonga-se  até  á  primeira  epocha  de  cio  que  depois  do  parto 
tem  logar  para  as  mães.  Estas  defendem  corajosamente  os  filhos,  che- 
gando a  proteger-lhes  o  cadáver. 


INIMIGOS 


Os  principaes  são  o  lobo,  o  lynce,  o  urso  e  o  glutão.  O  lobo  dà-lhe 
caça  no  inverno,  quando  o  gelo  é  muito;  o  urso  apenas  attaca  indiví- 
duos isolados;  o  lynce  e  o  glutão  lançam-se  das  arvores  sobre  o  dorso 
do  ruminante  que  passa,  agarram-se-lhe  ao  pescoço  e  abrem-lhe  as  ca- 
rótidas. São  estes  últimos  os  mais  terríveis  inimigos  do  alce.  Do  urso  e 
do  lobo  defende-se  com  os  cornos;  em  face  do  glutão  e  do  lynce  que  o 
attacam  d'alto,  fica  desarmado. 


CAGA 


N'outro  tempo  fazia-se  a  este  ruminante  uma  grande  caça  a  tiro, 
com  laços  e  com  armadilhas.  Hoje  essa  caça  diminuiu  e  ha  mesmo  toga- 
res em  que  está  prohibida,  como  em  Noruega,  onde  por  matar  um  alce 


mamíferos  em  especial 


19 


maior  se  paga  ou  se  pagava  não  ha  muitos  annos  a  multa  de  duzentos 
e  vinte  francos. 


GAPTIVEIRO 


Gomo  todos  os  ruminantes  da  vasta  familia  dos  veados,  este  domes- 
tica-se  bem  emquanto  novo,  mas  acaba  por  se  tornar  mao,  com  os  pro- 
gressos da  idade.  Ao  principio  parece  prosperar  no  captiveiro,  mas  de- 
pois começa  a  emagrecer  e  muitas  vezes  morre  dentro  de  um  curto  es- 
paço de  tempo.  É  diíficil  conserval-o  captivo  por  mais  de  trez  a  quatro 
annos;  como  o  provam  numerosos  casos  narrados  pelos  naturalistas,  por 
melhores  que  sejam  as  condições  de  vida  do  alce  captivo,  por  maiores 
que  sejam  os  cuidados  do  homem,  por  mais  abundante  que  seja  o  ali- 
mento, o  animal  não  resiste  á  perda  de  liberdade. 


usos  E  PRODUCTOS 


No  alce  maior  teem  utilidade  a  carne,  a  pelle  e  os  cornos.  A  carne 
é  melhor,  mais  tenra  que  a  dos  veados  propriamente  ditos  e  a  pelle  é 
melhor  e  mais  solida.  Os  ossos  duros  e  de  uma  grande  alvura,  são  tam- 
bém muito  estimados.  N'outro  tempo  as  differentes  partes  do  corpo  d'este 
animal  entravam  na  manipulação  de  diversíssimos  medicamentos.  É  de 
notar  que  todas  estas  utihdades  do  animal  estão  abaixo  dos  estragos  que 
elle  produz.  Nas  florestas  é  um  verdadeiro  flagello. 


20  HISTORIA   NATURAL 


O  ALCE  ORIGINAL 


É  assim  que  denominam  em  França  o  ruminante  de  que  vamos  occu- 
par-nos.  Não  nos  foi  possivel  saber  se  existe  em  portuguez  algum  nome 
especial  para  designal-o;  por  isso  conservamos  a  designação  estran- 
geira. * 


CARACTERES 


Distingue-se  da  espécie  anterior  pela  existência  de  chanfraduras 
mais  profundas  nos  cornos,  por  menor  abundância  de  pêilo  comprido 
sobre  o  pescoço  e  ainda  porque  a  côr  do  manto  é  mais  escura.  No  en- 
tanto a  independência  especifica  do  alce  original  tem  sido  mais  do  que 
uma  vez  contestada. 

É  mais  alto  que  o  cavallo.  A  cabeça  tem  mais  de  sessenta  e  seis 
centímetros  de  comprido  e  é  pezada.  Os  olhos  são  pequenos  e  encova- 
dos; as  orelhas  assemelham-se  ás  do  jumento;  são  como  as  d'este  com- 
pridas e  peitudas. 

É  esta  a  descripção  que  do  animal  faz  Hamilton-Smith. 


COSTUMES 


Os  hábitos  de  vida  d'este  ruminante  são  os  mesmos  que  caracteri- 
sam  a  espécie  anteriormente  estudada.  O  alce  original  muda  os  appen- 


1  A  cada  passo  lactamos  com  a  diflSculdade  de  saber  a  designação  portugueza 
das  espécies.  Conhece-se  muitas  vezes  a  descripção  de  um  animal,  mas  não  se  lhe 
conhece  o  nome  em  lingua  portugueza.  As  averiguações  n'este  sentido  são  difficeis 
de  fazer. 


mamíferos  em  especial  21 

dices  frontaes  mais  tarde  que  o  alce  maior,  em  Janeiro  ou  Fevereiro  e 
mesmo,  quando  os  invernos  são  rigorosos,  em  Março. 


DISTRIBUIÇÃO   rrEOCxRAPHICA 


Enconlra-se  ao  norte  e  um  pouco  a  leste  da  America. 


CAÇA 


O  preconceito  indigena  de  que  quem  come  a  carne  do  alce  original 
fica  habilitado  a  correr  trez  vezes  melhor  do  que  ingerindo  outra  carne 
qualquer,  faz  com  que  este  ruminante  seja  tenazmente  perseguido.  Os 
indígenas  dando  caça  a  este  animal,  procuram  principalmente  fazel-o 
entrar  na  agua  onde  o  seguem  em  canoas  e  onde  lhes  é  fácil  matal-o. 


CAPTIVEIRO 


h 


Gomo  todos  os  ruminantes  da  famiha,  o  alce  original  domestica-se 
facilmente  em  quanto  novo,  chegando  a  conhecer  dentro  de  poucos  dias 
o  dono  e  a  seguil-o  por  toda  a  parte;  pouco  e  pouco  porém,  á  medida 
que  avança  em  idade,  torna-se  selvagem,  colérico,  perigoso.  Andubon 
conta  o  facto  de  um  alce  original  captivo  que,  ainda  novo,  parecia  ser 
absolutamente  indomesticavel.  O  caso  é  certamente  excepcional. 


22  HISTORIA  NATURAL 


USOS  E  PRODUCTOS 


A  carne  é  um  alimento  bom;  com  os  cornos  fabricam-se  colheres  e 
outros  utensílios  domésticos;  a  pelle  contribuo  para  a  formação  de  ca- 
noas. Ha  uma  praça  celebre  entre  os  indígenas  onde  se  eleva  uma  alta 
pyramide  formada  na  maior  parte  por  cornos  de  alce  original. 


OS  RANGIFEROS 


Na  família  dos  rangiferos  ambos  os  sexos  apresentam  cornos,  con- 
sistindo em  uma  haste  cylindrica,  muito  curta,  ramificada  em  dois  gran- 
des galhos  achatados,  dos  quaes  um  se  eleva  para  o  ar  ramíficando-se 
a  seu  turno  e  o  outro  se  estende  horisontalmente.  Os  cascos  são  muito 
largos.  As  formas  são  pezadas;  a  cabeça  é  sobretudo  desgraciosa. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHIGA 


Pertencem  exclusivamente  ás  regiões  frigidas  do  hemispherio  bo- 
real. 


mamíferos  em  especial 


o  RANGIFEKO  DA  AMERICA 


Ha  naturalistas  que  concedem  ao  rangifero  da  America  as  honras  de 
espécie  á  parte.  Para  fundamento  d'esta  opinião  allegam  que  o  rangi- 
fero da  Europa  diífere  do  rangifero  da  America  pela  estatura,  pela  côr  e 
pelo  género  de  vida. 

Será  completamente  assim?  Não  podemos  dizel-o.  O  rangifero  ame- 
ricano é  certamente  maior  que  o  europeu,  tem  os  cornos  mais  pequenos 
e  o  manto  mais  escuro;  segundo  naturalistas  auctorisados,  elle  viveria 
solitário  nas  florestas  e  não  emigraria.  Ha  porém  observadores  que  con- 
sideram todos  estes  caracteres  como  secundários  e  insignificantes  e  por 
isso  não  crêem  possivel  uma  distincção  de  espécies.  Tal  é  o  estado  da 
questão. 


O  RANGIFERO  DA  EUROPA 


Este  ruminante  é  conhecido  desde  uma  remota  antiguidade.  Júlio 
César  deixou-nos  d'elle  uma  descripção  muito  exacta.  Em  1675  Schefler, 
de  Strasburgo,  pubKcou  um  livro  de  grande  merecimento  sobre  a  Lapo- 
nia,  onde  o  animal  é  muito  bem  estudado.  Linneu  que  o  observou,  elle 
próprio,  minuciosamente,  legou-nos  a  seu  respeito  um  trabalho  impor- 
tante que  outros  naturalistas  completaram  depois.  Hoje  pode  conside- 
rar-se  este  ruminante  como  completamente  conhecido,  ainda  nas  maiores 
minuciosidades  dos  seus  hábitos  de  vida. 


24  HISTORIA    NATURAL 


CARACTERES 


Mede  um  metro  c  setenta  centímetros  a  dois  metros  de  comprido, 
tendo  a  cauda  quatorze  centímetros.  A  altura,  medida  ao  nível  da  espá- 
dua é  de  um  metro  e  quinze  centímetros.  Os  cornos  são  mais  pequenos 
e  menos  bellos  que  os  dos  veados  propriamente  ditos. 

O  tronco  do  rangifero  não  differe  do  tronco  do  veado  senão  em  affe- 
ctar  posteriormente  mais  largura;  mas  o  pescoço  e  a  cabeça  são  mais 
pezados,  menos  graciosos,  os  membros  são  mais  curtos  e  os  cascos  me- 
nos elegantes.  De  resto,  o  rangifero  está  longe  de  ter  o  porte  do  veado. 

Na  fêmea  os  cornos  são  mais  pequenos  e  menos  divididos  que  no 
macho,  affectando  sempre  uma  forma  mais  ou  menos  irregular. 

O  manto  do  rangifero  europeu  é  mais  denso  que  o  de  qualquer  ou- 
tro ruminante  da  família.  Os  pêllos  são  ondulados,  rijos  e  quebradiços; 
são  mais  compridos  e  mais  flexíveis  na  cabeça,  no  pescoço  e  nos  mem- 
bros do  que  em  qualquer  outra  parte.  Na  parte  anterior  do  pescoço, 
estes  péllos  formam  uma  espécie  de  crina  que  algumas  vezes  desce  até 
ao  peito.  No  inverno  o  péllo  cresce  muito  e  isto  explica  por  que  o  ran- 
gifero supporta  frios  excessivos,  rigorosíssimos.  O  rangifero  selvagem 
muda  de  pêllo  duas  vezes  por  anno.  O  rangifero  domestico  apresenta-se 
de  verão  com  o  manto  extremamente  escuro;  de  inverno,  pelo  contrario, 
a  côr  geral  do  manto  é  clara. 


DISTRIBUIÇÃO    GEOGRAPHICA 


Habita  o  norte  da  Europa  sendo  ahi  vulgar  em  muitas  regiões. 


COSTUMES 


Vive  exclusivamente  nas  montanhas,  nos  pontos  mais  elevados  e 
desguarnecidos  de  vegetação,  onde  a  custo  medra  alguma  rara  planta. 


mamíferos  em  especial 


25 


Evita  os  logares  baixos  e  as  florestas.  Apenas  na  Sibéria,  segundo  infor- 
mação de  Palias  e  Wrangel,  o  rangifero  habitaria  as  florestas,  os  logares 
largamente  arborisados.  No  dizer  d'esle  ultimo  naturalista,  o  rangifero 
emprehende  em  Maio  uma  verdadeira  emigração,  abandonando  as  flores- 
tas onde  se  abrigou  do  frio,  para  partir  em  bandos  para  as  regiões  se- 
ptentrionaes,  mais  abundantes  em  musgos  e  lichens,  e  onde  o  não  per- 
seguem os  insectos.  Nas  florestas,  com  effeito,  os  mosquitos  e  outros 
animalculos  aliados,  egualmente  incommodos,  atroam  os  ares.  Os  rangi- 
feros  são  ás  vezes  forçados  a  attravessar  cursos  d'agua;  escolhem  então 
os  logares  menos  largos  e  passam  encostados  uns  aos  outros,  cobrindo 
quasi  toda  a  superfície  d'agua.  Vistos  de  longe  n'estas  condições,  pare- 
cem florestas  errantes. 

Em  a  Noruega  não  se  reahsam  estas  emigrações.  Quando  muito,  o 
rangifero  ahi  passa  do  topo  de  uma  montanha  a  um  outro. 

O  rangifero  selvagem  é  um  animal  em  extremo  sociável;  vive  de 
ordinário  em  bandos  muito  mais  numerosos  que  os  formados  por  quaes- 
quer  outros  ruminantes  da  familia.  Solitários,  encontram-se  apenas  ve- 
lhos machos  expulsos  dos  bandos. 

O  rangifero  é  um  animal  admiravelmente  apropriado  á  vida  dos 
paizes  do  Norte.  Graças  á  conformação  dos  cascos,  elle  pode  perfeita- 
mente correr  pelos  pântanos  e  pelo  gelo  e  bem  assim  trepar  com  extraor- 
dinária facilidade  pelos  flancos  das  montanhas. 

Um  facto  muito  curioso,  muito  interessante  e  que  ainda  hoje  não  tem 
uma  explicação  defínitiva  é  que  o  rangifero  em  marcha  faz  ouvir  a  cada 
passo  um  ruido  particular  comparável  ao  produzido  por  uma  faisca  elé- 
ctrica. Teem-se  emittido  acerca  d'este  phenomeno  muitas  opiniões,  accei- 
tando  hoje  alguns  naturahstas  a  hypothese  de  que  o  ruido  seja  articular. 
É  talvez  a  conjectura  mais  acceitavel. 

O  rangifero  caminhando  sobre  os  terrenos  pantanosos  e  sobre  o 
gelo,  alarga  os  cascos  resultando  d'ahi  uma  pista  muito  mais  parecida 
com  a  da  vacca  do  que  com  a  do  veado  propriamente  dito. 

O  rangifero  selvagem  nada  com  facihdade  extrema;  attravessa  rios 
larguissimos.  O  rangifero  domestico,  pelo  contrario,  não  entra  na  agua 
sem  uma  repugnância  manifesta. 

Sob  o  ponto  de  vista  dos  sentidos,  o  rangifero  é  um  animal  admiravel- 
mente dotado.  O  olfato  é  muito  fino,  tendo  o  poder  de  apreciar  os  cheiros 
á  distancia  de  quinhentos  ou  seiscentos  passos;  o  ouvido  é  tão  apurado 
como  o  dos  veados  propriamente  ditos;  a  vista  é  de  tal  modo  prespicaz 
que  toda  a  prudência  ó  pouca  ao  caçador,  mesmo  quando  mais  occulto  se 
imagina.  O  tacto  é  de  uma  sensibihdade  extrema;  o  mais  ligeiro  insecto 
que  pouse  sobre  o  dorso  do  ruminante  é  por  elle  sentido.  O  palladar  é  apu- 
rado; por  elle  consegue  o  animal  fazer  uma  rigorosa  selecção  de  plantas. 


26  HISTORIA  NATURAL 

O  rangifero  selvagem  possue,  no  dizer  de  todos  os  caçadores,  uma 
grande  prudência  e  até  bastante  astúcia.  Não  tem  medo  dos  outros  ani- 
maes;  o  terror  que  o  homem  liie  inspira  não  6  de  modo  nenhum  ins- 
tinctivo,  mas,  pelo  contrario,  um  resultado  da  experiência.  Ora  para  que 
a  experiência  logre  produzir  n'um  animal  os  seus  benéficos  effeitos,  é 
mister  admittir  da  parte  d'elle  uma  certa  intelHgencia. 

No  estio,  quando  os  pastos  são  abundantes,  o  rangifero  preocupa-se 
pouco  com  a  alimentação;  tem  logar  então  de  escolher  plantas  succu- 
lentas.  No  inverno,  porém,  carece  para  alimentar-se  de  desligar  com  os 
cascos  os  lichens  e  musgos  que  cobrem  as  paredes.  Em  Noruega,  mesmo 
de  inverno,  evita  as  florestas,  e  busca  os  pântanos.  Nunca  remexe  o  solo 
com  os  cornos,  como  erradamente  se  tem  dito,  mas  só  com  os  cascos.  É 
de  madrugada  e  ao  fim  da  tarde  que  o  rangifero  procura  o  alimento. 
Durante  o  dia  deita-se  e  rumina  ou  sobre  o  gelo  ou  perto  d'elle. 

Em  Noruega  a  estação  do  cio  para  o  rangifero  é  nos  fins  de  Setem- 
bro. Ha  então  entre  os  machos  longos  combates  impetuosos  e  terríveis. 
A  gestação  dura  até  meiados  de  Abril;  o  parto  produz  um  filho  apenas, 
muito  gracioso,  que  a  fêmea  aleita  durante  muito  tempo  e  a  que  tributa 
uma  enorme  aíTeição.  Na  primavera  é  vulgar  encontrarem-se  famihas 
compostas  exclusivamente  de  um  macho,  uma  fêmea  e  um  recemnascido. 
Só  quando  os  filhos  são  grandes  é  que  as  famílias  se  reúnem  em  bandos 
de  cuja  direcção  se  encarregam  naturalmente  os  velhos  machos.  Os  ran- 
giferos  velam  cuidadosamente  pela  mutua  segurança:  em  quanto  o  bando 
repousa  e  rumina  um  d'entre  todos  conserva-se  erguido  e  vigilante;  se 
este  precisa  de  deitar-se,  levanta-se  logo  um  outro  que  o  substitue. 


CAÇA 


Não  é  fácil  emprehender  a  caça  do  rangifero;  Brehm  diz  que  é  pre- 
ciso ser-se  um  apaixonado  naturalista  para  ter  animo  de  arcar  com  as 
difficuldades  de  todo  o  género  que  a  perseguição  a  este  ruminante  acar- 
reta. É  necessário,  primeiro  que  tudo,  possuir  uma  constituição  robus- 
tíssima; são  precisos  valentes  pulmões  para  ascender  aos  topos  elevados 
das  montanhas,  membros  musculosos  que  resistem  ás  longas  caminha- 
das, estômago  que  permitia  soff'rer  prívações  alimentares  sem  quebra 
immediata  da  saúde,  um  largo  dorso  emfim  que  permitia  accommodar 
sobre  elle  as  provisões  de  muitos  dias,  porque  n'esta  caça,  como  na  do 
dromedário,  é  indispensável  levar  o  mantimento  que  em  parle  alguma 


mamíferos  em  especial 


se  encontra.  E  ainda  não  é  tudo.  Para  caçar  o  rangilero  é  preciso  ter  a 
coragem  de  viver  dias  seguidos  em  plena  solidão  e  de  dormir  sem  com- 
modidades  na  primeira  gruta  ou  na  primeira  cabana  de  pedra  que  se 
encontra. 

Para  se  deitar  n'uma  cabana  de  pastor,  seria  preciso  ao  que  anda 
em  caça  descer  quatrocentos  ou  quinhentos  metros  e  subil-os  na  manhã 
do  dia  immediato.  Seria  um  trabalho  absolutamente  impossível;  as  com- 
modidades  por  tal  preço  degeneram  naturalmente  em  violências.  De 
resto,  na  caça  do  rangifero  é  indispensável  da  parte  do  caçador  um 
enorme  dispêndio  de  atlenção:  é  preciso  observar  cuidadosamente  a  di- 
recção do  vento,  a  altura  do  sol,  o  bom  ou  mau  tempo,  conhecer  os 
legares  favoritos  do  ruminante,  saber-lhe  perfeitamente  os  costumes,  se- 
guir-lhe  escrupulosamente  a  pista,  emfim  não  descurar  a  observação  da 
circumstancia  ainda  a  mais  fútil  na  apparencia — :uma  pedra  deslocada, 
uma  folha  partida  ou  arrancada  do  tronco,  etc.  É  pois  como  dissemos  e 
como  acaba  de  provar-se,  uma  caça  diíTicil  pelo  conjunto  enorme  de  con- 
dições que  exige  da  parte  do  que  a  emprehende.  Ha  ainda  a  conspirar 
com  todas  as  outras,  uma  difficuldade  grande  n'esta  caça:  é  a  circums- 
tancia de  se  harmonisar  admiravelmente  a  cor  do  rangifero  com  a  do 
solo  por  forma  a  ser  precisa  da  parte  do  caçador  uma  vista  extrema- 
mente prespicaz  para  descobrir  o  ruminante  a  distancia  de  podel-o  ferir. 

Quando  se  encontra  um  bando  de  rangiferos  é  precisa  toda  a  pru- 
dência; o  menor  movimento  bruscamente  executado  é  motivo  bastante 
para  pôr  os  animaes  em  debandada.  Para  evitar  este  inconveniente,  que 
implica  nem  mais  nem  menos  que  a  annulação  completa  de  todo  o  tra- 
balho anterior,  é  necessário  que  o  caçador  saiba  esconder-se  á  vista  dos 
ruminantes  e  marchar  para  elles,  rastejando,  sem  ruido.  Os  caçadores 
norueguezes  procedem  assim  e  não  atiram  sobre  os  ruminantes  senão  á 
distancia  máxima  de  cento  e  vinte  passos,  o  que  pode  exphcar-se  pela 
pouca  perfeição  das  armas  de  que  usam. 

Na  Sibéria  o  processo  de  caça  é  outro.  Ahi  os  caçadores,  para  quem 
a  maior  ou  menor  quantidade  de  rangiferos  mortos  decide  da  abundân- 
cia ou  miséria  da  vida  durante  o  anno,  esperam  o  periodo  de  emigra- 
ção do  ruminante  para  procederem  ao  attaque.  Sabendo  que  os  rangife- 
ros teem  de  attravessar  em  bandos  um  certo  curso  d'agua,  occultam-se 
sob  a  folhagem  marginal  ou  por  traz  de  rochedos  próximos  e  ahi  aguar- 
dam pacientemente  o  momento  de  chegada  dos  animaes.  Então,  no  ins- 
tante em  que  os  rangiferos  penetram  na  agua,  os  caçadores,  abando- 
nando os  escondrijos,  penetram  rapidamente  em  pequenos  barcos  e  cer- 
cam o  bando  dos  emigrantes;  em  quanto  uns  tomam  a  passagem  aos 
quadrúpedes,  procurando  suspendel-os,  fazel-os  parar,  outros  ferem-os 
com  piques,  espécie  de  lanças  compridas. 


28  HISTORIA  NATURAL 

Esta  caça,  geralmente  productiva,  não  deixa  de  offerecer  grandes 
perigos.  Os  rangiferos  perseguidos  na  agua  tentam  defender-se,  arreme- 
tendo contra  os  barcos  e  procurando  voltal-os.  Se  o  conseguem,  a  silua- 
pão  dos  caçadores  torna-se  desgraçada,  porque  é  então  muito  raro  que 
consigam  escapar  a  nado,  tal  é  a  perseguição  que  lhes  movem  os  ran- 
giferos, servindo-se  dos  cornos  e  dos  cascos  para  os  obrigarem  a  mer- 
gulhar. Wrangel,  que  descreve  esta  caça,  reputa  desesperada  a  situação 
do  caçador  caído  á  agua;  é-lhe  quasi  impossível,  diz  o  escriptor  citado, 
sair  do  meio  da  massa  d'estes  animaes. 


INIMIGOS 


Além  do  homem,  tem  o  rangifero  outros  inimigos.  D'entre  todos  é 
o  lobo  o  mais  temivel,  principalmente  no  inverno.  Se  o  gelo  é  muito  e 
forma  sobre  o  solo  uma  camada  muito  espessa,  o  rangifero  não  receia 
muito  o  lobo;  mas  se  o  gelo  é  em  pequena  quantidade,  se  tem  caído  de 
pouco  tempo,  então  a  marcha  é  para  o  rangifero  muito  fatigante  e  o  re- 
ceio de  encontrar  o  lobo  torna-se  absorvente.  Quando  nas  altas  monta- 
nhas, os  rangiferos  se  juntam  em  bandos,  os  lobos  agremiatn-se  também 
e  travam-se  então  entre  as  espécies  luctas  vigorosas,  tremendas.  Os  car- 
niceiros seguem  os  ruminantes  que  emigram,  fazendo-lhes  constante- 
mente uma  guerra,  cujo  resultado  é  a  diminuição  do  numero  d'estes. 

O  glutão,  o  lynce  e  o  urso  são  também  inimigos  perigosíssimos  do 
rangifero. 

Os  inimigos  porém  que  incontestavelmente  devemos  reputar  mais 
perigosos  para  o  rangifero  são  trez  pequenos  insectos:  uma  mosca  de 
ferrão  comprido,  perfurante  e  duas  espécies  de  tabão  ou  moscardo.  Ou- 
çamos o  que  a  este  respeito  diz  Brehm:  «São  estas  moscas  que  deter- 
minam a  emigração  dos  rangiferos;  é  para  lhes  fugir  que  os  míseros  ru- 
minantes buscam  as  costas  do  mar  ou  os  topos  das  montanhas;  são  ellas 
que  os  atormentam  noite  e  dia,  ou  antes  durante  o  longo  dia  que  dura 
o  verão  inteiro.  Para  comprehender  os  tormentos  por  que  passam  os  po- 
bres rangiferos,  seria  necessário  ter-se  experimentado  uma  applicação 
constante  de  ventosas  durante  dias  e  semanas.  Os  moscardos  produzem 
aos  rangiferos  tormentos  ainda  maiores,  mais  cruéis.  Uma  das  espécies 
deposita  os  ovos  na  pelle  do  dorso  dos  pobres  ruminantes  e  a  outra  nas 
narinas;  as  larvas  criam-se  ahi.  As  da  primeira  espécie  furam  a  pelle, 
penetram  no  tecido  cellular,  alimentam-se  ahi  do  pús  que  a  sua  pre- 


mamíferos  em  especial 


29 


sença  determina,  originam  abcessos  dolorosissimos,  abrem  caminhos  sub- 
cutâneos e  apparecem  á  superfície  no  momento  de  experimentarem  as 
ultimas  metamorpboses.  As  larvas  da  segunda  espécie  mergulham  nas 
fossas  nasaes,  furam-as,  penetram  no  cérebro,  determinando  diíferentes 
formas  de  modorra  ou  coma  ou  attingem  o  palatino  e  impedem  o  ran- 
gifero  de  comer  até  que  consiga  expulsal-as  á  força  de  espirros.  É  em 
Julho  ou  começos  de  Agosto  que  a  fêmea  doestes  moscardos  deposita  os 
ovos  e  é  em  Abril  ou  Maio  que  as  larvas  se  desenvolvem.  A  doença  pode 
reconhecer-se  desde  o  começo  pela  diíFiculdade  que  os  rangiferos  expe- 
rimentam em  respirar;  nos  animaes  novos  a  morte  sobrevem  rapida- 
mente. Para  os  desgraçados  rangiferos  ha  uma  espécie  de  gralha  que  se 
torna  então  um  verdadeiro  bemfeitor.  Caindo  sobre  o  dorso  do  rumi- 
nante, extrae-lhe  dos  abcessos  os  vermes;  os  rangiferos  que  sabem 
quanto  isto  lhes  aproveita,  deixam  a  ave  levar  tranquillamente  a  cabo  a 
melindrosa  operação.»  * 


GAPTIVEIRO 


Quando  se  captiva  novo  ainda,  o  rangifero  domestica-se  depressa. 
No  entanto  não  pode  nunca  ser  comparado  aos  outros  animaes  domésti- 
cos; aíTirma  Brehm  que  mesmo  os  descendentes  de  rangiferos  que  se 
encontram  reduzidos  ao  captiveiro  desde  tempos  immemoriaes,  perma- 
necem ainda  n  um  estado  de  semi-selvageria.  Para  a  direcção  dos  reba- 
nhos não  podem  dispensar-se  nem  os  homens,  nem  os  cães. 

Observemos  desde  já  que  a  vida  do  rangifero  domestico  differe 
completamente  da  que  passa  o  rangifero  selvagem.  O  animal  em  domes- 
ticidade  é  mais  pequeno  e  mais  feio;  os  cornos  caem-lhe  mais  tarde;  a 
reproducção  faz-se  n'uma  estação  differente;  finalmente  vive  em  perma- 
nentes viagens.  Ás  vezes  vive  inteiramente  sob  o  dominio  do  homem; 
outras  porém,  procura  elle  próprio  a  liberdade,  sendo  então  o  dono  for- 
çado a  procural-o.  O  dono  de  um  rebanho  de  rangiferos  passa  uma  vida 
tormentosa,  porque  em  vez  de  ser,  como  parece,  o  senhor  dos  seus  ani- 
maes, é,  pelo  contrario,  o  escravo  d^elles,  sendo  forçado  a  emigrar 
quando  elles  emigram,  a  viver  nas  alturas  ou  á  beira  do  mar  consoante 
apraz  aos  ruminantes  e,  o  que  muito  custa,  a  defendel-os  contra  os  atta- 
ques  do  lobo.  O  que  vale  ao  homem  n'estes  trabalhos  é  o  cão,  que  lhe 


Brehm,  Obr.  ciL,  vol.  2.°,  pg.  486. 


30  HISTORIA   NATURAL 

presta  enormes  serviços.  Sem  elle,  o  homem  não  conseguiria  decerto 
manter  em  ordem  rebanhos  de  rangiferos  superiores  muitas  vezes  a  tre- 
zentas ou  quinhentas  cabeças.  É  o  cão,  que  correndo  vigilante  em  torno 
do  rebanho,  consegue  impedir  que  alguns  individues  se  percam  ou  fazer 
que  retomem  o  seu  logar  os  que  se  tresmalharam.  Ás  vezes,  completa- 
mente fatigado,  exhausto  inteiramente  pelas  viagens  forçadas,  o  homem 
deixa-se  repousar,  adormecer,  entregando  exclusivamente  aos  cães  a 
guarda  dos  preciosíssimos  rebanhos. 

Os  serviços  enormes  que  o  rangifero  captivo  presta  á  nossa  espé- 
cie serão  estudados  no  capitulo  que  segue. 


usos  E   PRODUGTOS 


A  propósito,  escreve  L.  Figuier:  «O  rangifero  é  um  animal  precioso 
para  as  populações  desherdadas  que  vivem  dispersas  pelo  circulo  polar. 
Sem  elle,  a  existência  do  homem  seria  impossível  n'estes  rudes  climas. 
Custa  a  fazer  uma  idéa  exacta  dos  serviços  que  o  rangifero  presta  a  al- 
gumas populações  septentrionaes,  nomeadamente  aos  Lapões.  Para  estes 
o  rangifero  representa  simultaneamente  de  cavallo,  de  boi  e  de  car- 
neiro. Com  eífeito,  reduzido  ao  estado  domestico,  atrela-se  como  um  ca- 
vallo e  arrasta  com  rapidez  trenós  e  carros;  a  velocidade  de  que  dis- 
põe é  mesmo  superior  á  do  cavallo,  apesar  de  correr  sobre  o  gelo. 
Sobre  um  terreno  solido,  o  rangifero  pode  percorrer  sete  a  oito  léguas 
por  hora;  geralmente  percorre  quatro  ou  cinco  sem  esforço  n'aquelle 
espaço  de  tempo.  No  palácio  do  rei  da  Suécia  existe  o  retrato  de  um 
rangifero  que  transportou  um  official  encarregado  de  despachos  urgentes, 
á  distancia  de  trezentas  e  vinte  léguas  em  quarenta  e  oito  horas,  o  que 
representa  uma  velocidade  constante  de  seis  léguas  e  meia  por  hora. 
Chegado  ao  seu  destino,  o  pobre  animal  caiu  morto. 

«...  Não  assignalamos  ainda  a  qualidade  verdadeiramente  essencial 
d'este  ruminante  das  regiões  árcticas.  A  fêmea  dá  um  leite  superior  ao 
da  vacca,  do  qual  se  faz  uma  manteiga  e  um  queijo  de  excellente  gosto. 
A  carne,  que  é  magnifica,  constitue  um  precioso  recurso .  ahmentar, 
quasi  o  único  nas  regiões  polares.  O  pôUo  do  rangifero  fornece  cober- 
turas espessas  e  quentes  e  a  pelle  transforma-se  em  um  coiro  macio  e 
forte,  que  serve  admiravelmente  para  a  fabricação  de  calçado.  Com  os 
pêllos  rijos  das  patas  do  rangifero  guarnece-se  as  solas  dos  sapatos  para 
impedil-os  de  escorregar.  Os  péllos  compridos  do  pescoço  utiUsam-se 


mamíferos  em  especial 


31 


para  a  costura  e  os  tendões  fornecem  um  fio  resistente.  Com  os  cornos 
velhos  cio  rangifero  fabricam-se  utensílios  diversos,  taes  como  colheres, 
cabos  de  facas,  etc;  e,  se  são  novos,  extrae-se  d^elles  gelatina,  fazen- 
do-os  ferver  em  agua.  Os  próprios  excrementos  do  animal,  depois  de 
seccos,  servem  ainda  para  se  queimarem.  Alguns  povos  aproveitam 
mesmo  os  lichens  amolecidos  que  contem  o  estômago  do  ruminante.  Os 
esquimós  e  os  groelandezes  junctam  a  estes  lichens  carne  picada,  sangue 
e  gordura  e  põem  a  fumar  esta  mistura  que  para  elles  é  uma  verdadeira 
delicia.  Os  tongousas,  habitantes  nómades  da  Sibéria  adicionam  á  mis- 
tura bagas  e  fazem  assim  espécies  de  bolos  por  que  dão  um  grande 
apreço.»  * 

Em  vista  das  utilidades  que  tem  para  a  nossa  espécie  o  rangifero, 
comprehende-se  perfeitamente  a  razão  de  um  facto  archivado  por  Brehm; 
é  que  os  lapões  sendo  incapazes  de  roubar  ouro  ou  qualquer  objecto 
precioso,  não  são  todavia  superiores  á  tentação  de  roubarem  o  rangifero. 
Tudo  se  pode  confiar  d 'esses  desgraçados  habitantes  dos  climas  frigidis- 
simos,  menos  um  rangifero.  Resistem  á  sedução  do  ouro,  á  sedução  das 
pedras  preciosas,  á  de  tudo  quanto  a  maioria  dos  homens  appetecem;  não 
resistem  á  tentação  de  roubar  os  rangiferos.  Não  os  condemnemos  em 
nome  de  uma  moral  absoluta  e  irracionalmente  inflexível;  attenteraos 
bem  nas  duras  condições  de  vida  d^esses  desherdados  e  tenhamos  para 
elles  um  intimo  perdão.  Roubando  o  rangifero,  o  lapão  procura  apenas 
— um  companheiro. 


OS  GAMOS 


Este  género  é  caracterisado  pela  existência  de  cornos  redondos  na 
base  e  espalmados  nas  extremidades.  Nos  gamos  a  cauda  é  muito  com- 
prida e  o  péllo  é  malhado  tanto  nos  indivíduos  novos  como  nos  adultos 
ou  nos  velhos.  Na  fêmea  não  ha  cornos. 


1     L.  Figuier,  Obr.  cít.,  pg.  2(VJ. 


32  HISTORIA  NATURAL 


O  GAMO 


Este  luminaiile  é  de  menores  dimensões  que  aquelles  de  que  nos 
lemos  occupado.  Desde  o  focinho  até  á  raiz  da  cauda  não  mede  mais  que 
um  metro  e  sessenta  e  cinco  centímetros  de  comprimento,  tendo  de  al- 
tura um  metro.  Distingue-se  dos  veados  propriamente  ditos  pelos  mem- 
bros que  são  mais  curtos  e  menos  fortes,  pelo  tronco  que  é  menos  ro- 
busto, pelo  pescoço  que  é  mais  curto,  pelas  orelhas  e  pela  cauda  que 
são  menos  compridas  e  finalmente  pela  cor  do  manto.  No  estio,  o  dorso, 
as  coxas  e  a  extremidade  da  cauda  são  de  um  ruivo  trigueiro;  o  ventre, 
a  face  interna  das  pernas  são  brancos  e  os  olhos  cercados  de  escuro; 
os  pêllos  do  dorso  são  brancos  na  raiz,  ruivos  no  meio  e  negros  na 
ponta.  No  inverno,  a  cabeça,  o  pescoço  e  as  orelhas  são  de  um  pardo 
trigueiro,  o  dorso  e  os  lados  do  tronco  negros  e  o  ventre  cinzento,  por 
vezes  com  cambiantes  ruivas.  Ha  gamos  brancos,  durante  todo  o  anno. 
Os  gamos  inteiramente  negros  são  raros. 


Crêem  alguns  naturaUstas  ser  o  gamo  originário  das  costas  do  Me- 
diterrâneo, tendo-se  pouco  espalhado  para  o  norte.  Wagner,  fundado  em 
sólidos  documentos,  faz  remontar  a  apparição  d'este  ruminante  aos  tem- 
pos ante-historicos.  Hoje  o  bello  animal  encontra-se  em  França,  na  Itália, 
na  península  ibérica  e  sobretudo  na  Inglaterra,  onde  existe  em  grande 
numero. 


COSTUMES 


Diz-se  geralmente  que  o  nome  latino  cervus  dama,  por  que  este 
animal  é  conhecido,  o  deve  á  circumstancia  de  ser  ou  ter  sido  uma  caça 
favorita  das  senhoras. 


L 


mamíferos  em  especial  33 

O  gamo  prefere  as  regiões  accidentadas,  onde  ha  charnecas,  bos- 
ques de  terreno  pedregoso  ou  florestas  cujo  solo  se  cobre  de  herva 
curta.  Nos  hábitos  de  vida  assemelha-se  um  pouco  aos  veados  propria- 
mente ditos.  Tem  os  sentidos  perfeitos  como  os  d'estes  últimos,  mas  não 
a  agihdade  d'elles.  Os  modos  são  graciosíssimos:  trota  ligeiramente, 
salta  barreiras  de  dois  metros  de  altura  e  nada  muito  bem.  O  regimen 
alimentar  do  gamo  é  o  mesmo  que  o  dos  veados  propriamente  ditos; 
tem  no  entanto  uma  maior  inclinação  a  roer  as  cascas  das  arvores,  o 
que  o  torna  extremamente  prejudial.  Faltando  do  regimen,  um  facto  de- 
vemos mencionar:  é  que  o  gamo  come  muitas^ vezes  plantas  venenosas 
que  o  matam.  Ou  o  instincto  n'este  ruminante  nunca  possuiu  aquelle  grão 
de  subtil  desenvolvimento  que  o  torna  para  o  animal  um  guia  seguro, 
o  melhor  de  todos  os  guias,  ou,  por  uma  circumstancia  qualquer,  pela 
approximação  do  homem  talvez,  elle  perdeu  esse  poder.  Brehm  conta 
que  no  jardim  zoológico  da  Prússia  um  rebanho  inteiro  de  gamos  suc- 
cumbira  á  mgestão  de  cogumelos. 

O  gamo  é  de  ordinário  fiel  á  morada  que  uma  vez  escolheu;  em- 
bora a  abandone  por  algum  tempo,  volta  a  ella. 

Durante  o  período  do  cio,  o  gamo  reune-se  aos  companheiros  para 
formar  bandos  ou  rebanhos  que  se  confundem  por  algum  tempo,  sepa- 
rando-se  depois.  N'essa  epocha  o  animal  apresenta-se  excitadíssimo; 
brame  a  noite  inteira  e  entrega-se  a  combates  encarniçados  com  os  co(n- 
panheiros.  Assim,  nos  jardins  zoológicos  é  impossivel  manter  junclos  os 
machos  de  edade  superior  a  trez  annos.  Ordinariamente,  um  macho  co- 
pula oito  fêmeas.  A  quadra  agitada  dos  amores  é  de  curta  duração;  não 
excede  quinze  dias  e  reahsa-se  em  melados  de  Outubro. 

A  gestação  dura  oito  mezes;  o  parto  tem  pois  logar  em  Junho,  pro- 
duzindo um  só  filho,  raras  vezes  dois,  pelos  quaes  a  mãe  revela  uma 
extraordinária  sollicitude.  Aos  seis  mezes  apparecem  no  gamo  as  saUen- 
cias  frontaes  e  aos  oito  rompem  os  cornos,  que  se  vão  lentamente  des- 
envolvendo e  complicando. 


CACA 


Caça-se  o  gamo  pelo  processo  da  montaria  e  pelo  da  embuscada.  É 
necessária  n'esta  caça  uma  extraorninaria  prudência,  porque  o  rumi- 
nante em  questão  é  dos  mais  vigilantes  e  tímidos.  Uma  circumstancia 
interessante  e  da  qual  muitas  vezes  se  aproveitam  os  caçadores,  é  que 

VOL.    III  3 


34  HISTORIA   NATUKAL 

O  animal  não  foge  diante  dos  homens  que  assobiam  e  cantam,  assim 
como  não  foge  diante  dos  cavallos  ou  dos  carros. 

Esperar  o  animal  de  embuscada  para  matal-o,  não  é  difficil,  desde 
que  se  conhece  a  pronunciada  tendência  que  elle  tem  a  voltar  á  morada 
primitiva,  ao  logar  primeiro  escolhido  para  habitação. 

O  processo  da  montaria  emprega-se  fazendo  levantar  em  torno  dos 
sitios  habitados  pelo  gamo  altas  estacarias  n'uma  extensão  circular  de 
mais  de  uma  milha,  e  perseguindo  depois  o  animal  no  interior  de  modo 
a  que  elle  não  encontre  por  onde  sair.  Este  género  de  caça,  aíRrma  Sa- 
muel Hearne,  é  ás  veze^  extraordinariamente  productivo. 


GAPTIVEIRO 


O  gamo  vive  perfeitamente  nos  jardins  zoológicos.  Nem  é  astuto, 
nem  mau,  mas,  ao  contrario,  alegre  e  amigo  de  brincar;  apenas  durante 
o  mau  tempo  se  conserva  inquieto.  Parece  que  o  impressiona  agradavel- 
mente a  musica.  Na  epocha  do  cio  apresenta-se  um  pouco  irritável;  de 
resto,  este  estado  é  transitório,  dura  muito  pouco  tempo. 


usos  E    PRODUCTOS 


A  pelle  do  gamo  é  nos  usos  industriaes  preferível  á  dos  veados 
propriamente  ditos.  A  carne  é  boa,  principalmente  desde  Julho  a  mela- 
dos de  Setembro;  na  epocha  do  cio  impregna-se  de  um  forte  cheiro  a 
bodum,  motivo  por  que  então  se  não  deve  abater  o  ruminante. 


MAMÍFEROS   EM   ESPECIAL  35 


OS  VEADOS  PROPRIAMENTE  DITOS 


N'este  grupo  só  o  macho  apresenta  prolongamentos  frontaes.  As 
fossas  lacrimaes  são  apparentes.  Nos  machos  velhos  e  ás  vezes,  embora 
mais  raramente,  nas  fêmeas  velhas  os  caninos  superiores  são  proemi- 
nentes. 


I 


O  VEADO  ORDINÁRIO 


É  um  dos  mais  bellos  exemplares  do  grupo.  É  forte,  elegante,  de 
um  porte  altivo  e  nobre.  Tem  dois  metros  e  trinta  centímetros  de  com- 
primento, não  contando  a  cauda  que  mede  quinze  centímetros.  A  altura 
é,  ao  nivel  da  espádua,  de  um  metro  e  cincoenta  e,  ao  nivel  do  sacro, 
superior  um  pouco.  N'este  ruminante  o  peito  é  largo,  as  espáduas  são 
salientes,  o  dorso  é  recto  e  chato,  a  região  do  sacro  arredondada,  o 
pescoço  comprido,  fino  e  comprimido  lateralmente,  a  cabeça  comprida, 
o  focinho  fino,  o  dorso  do  nariz  recto,  os  olhos  expressivos,  de  pupilla 
oval  e  alongada.  As  fossas  lacrimaes  são  dirigidas  obhquamente  para  o 
angulo  da  bocca;  são  grandes  e  formam  uma  cavidade  estreita,  alon- 
gada, cujas  paredes  segregam  uma  certa  porção  de  massa  gordurosa, 
que  o  animal  expulsa  exercendo  atritos  do  corpo  contra  as  arvores.  Os 
cornos  são  extensos  e  muito  ramificados.  A  haste  principal  ou  tronco  da 
arborisação  córnea  apresenta  sulcos  longitudinaes,  uns  rectos,  outros  si- 
nuosos, existindo  entre  elles  tubérculos  alongados,  arredondados  ou  irre- 
gulares. Os  membros  são  de  comprimento  médio,  finos,  mas  vigorosos; 
as  patas  apresentam  cascos  direitos,  finos  e  ponteagudos.  A  cauda  é  có- 
nica, de  extremidade  aguda.  O  corpo  é  coberto  de  duas  espécies  de 
pêllo:  um  fino,  outro  sedoso,  grosseiro  e  espesso.  No  estio  o  péllo  ó 
mais  raro  e  mais  curto  do  que  no  inverno.  A  cor  do  animal  varia  se- 
gundo as  estações,  a  edade  e  o  sexo.  De  inverno  os  pêllos  ásperos  são 
de  um  pardo  trigueiro  e  no  estio  ruivos  trigueiros;  os  péllos  finos  são 


36  HISTORIA  NATURAL 

cinzentos  com  a  ponta  ruiva.  Os  pêllos  que  cercam  a  Locca  são  negros 
e  os  que  contornam  o  anus,  amarellados.  O  animal  nos  primeiros  tem- 
pos de  existência  é  ruivo  trigueiro  com  manchas  brancas.  De  sexo  para 
sexo,  as  variantes  de  cor  são  notáveis  também.  Os  veados  completa- 
mente brancos  ou  maculados  de  branco  são  raros. 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPHICA 


O  veado  ordinário  existe  em  toda  a  Europa,  excepção  feita  para  o 
extremo  norte,  e  bem  assim  n'uma  grande  parte  da  Ásia.  Nos  paizes  ha- 
bitados tem  diminuído  consideravelmente,  havendo  alguns,  como  a 
Suissa,  d'onde  tem  completamente  desapparecido.  Na  Polónia,  na  Galiza, 
na  Bohemia,  na  Moravia,  na  Hungria,  na  Transylvania  e  no  Tyrol  não  é 
raro,  antes  abundante;  existe  em  grande  numero  no  Cáucaso. 


COSTUMES 


O  veado  ordinário  prefere  sempre  as  montanhas  ás  planícies;  mas 
o  que  principalmente  e  acima  de  tudo  estima  são  as  florestas  de  gran- 
des arvores  copadas.  É  ahi  que  se  organisam  os  grandes  bandos  em  que 
entram  individues  de  todas  as  edades  e  d'ambos  os  sexos,  assim  como 
as  pequenas  agremiações  simplesmente  formadas  de  machos  já  velhos. 
De  inverno,  o  veado  desce  á  planície,  porque  a  isso  o  forçam  circums- 
tancias  superiores;  no  estio  porém,  sobe  de  novo  ás  montanhas.  Em  ge- 
ral, e  a  menos  que  o  não  perturbem  ou  que  lhe  não  falte  o  alimento,  o 
veado  conserva-se  íiel  á  habitação  primeiro  escolhida;  na  estação  do 
cio,  é  verdade,  aífasta-se  d'ella,  mas  sempre  para  voltar  desde  que  a 
excitação  genésica  passa. 

O  veado  ordinário  conserva-se  geralmente  recolhido  durante  o  dia 
inteiro  no  seu  escondrijo;  de  tarde  sac  a  procurar  o  ahraento,  o  que 
faz  mais  cedo  de  verão  do  que  de  inverno.  Observemos  no  entanto  que 
nos  legares  perfeitamente  tranquillos  em  que  sabe  que  ninguém  irá  per- 
turbal-o,  o  veado  ordinário  vagueia  mesmo  durante  o  dia.  Ouando  sae  á 
busca  de  alimento,  caminha  a  trote;  de  madrugada,  volta  marchando 


mamíferos  em  especial  37 

lentamente.  No  dizer  de  alguns  naturalistas,  o  orvalho  é-lhe  extrema- 
mente desagradável. 

No  veado  ordinário  todos  os  movimentos  são  graciosos,  elegantes  e 
ao  mesmo  tempo  revestidos  de  um  certo  caracter  de  nobreza.  Marcha 
lentamente,  trota  com  grande  rapidez  e  corre  com  uma  velocidade  es- 
pantosa; quando  trota,  alonga  o  pescoço  e  quando  gallopa,  lança-o  para 
traz.  Dá  saltos  prodigiosos,  vence  os  maiores  obstáculos  e  attravessa 
sem  hesitação  rios  e  até  braços  de  mar. 

O  caçador  experimentado  reconhece  pela  inspecção  da  pista  o  veado 
e  reconhece  se  se  trata  de  um  macho  ou  de  uma  fêmea  e  até  mesmo 
determina  com  pequeno  erro  a  idade  do  animal  cujos  vestigios  no  solo 
examina.  Para  os  cálculos  em  questão  serve  não  só  a  inspecção  dos  ves- 
tigios que  as  patas  deixam  no*  solo,  senão  também  a  distancia  reciproca 
d'esses  vestigios. 

O  veado  ordinário  possue  os  sentidos  do  ouvido,  da  vista  e  do  ol- 
fato  extremamente  desenvolvidos.  Parece  que  os  sons  de  alguns  instru- 
mentos musicaes  lhe  produzem  uma  impressão  agradável,  porque  quando 
os  ouve  suspende  a  marcha,  deixa-se  ficar  parado  no  logar  d'onde  prin- 
cipiou a  escutal-os. 

O  veado  é  extremamente  timido.  Parece  porém,  que  a  timidez  não 
constituo  n'este  ruminante  um  caracter  original,  mas  é  simplesmente  o 
resultado  da  experiência  que  lhe  ensina  a  precaver-se  do  homem,  de 
quem  ha  muitos  séculos  se  habituou  a  esperar  apenas  a  dureza  das  per- 
seguições. O  que  nos  confirma  n'esta  opinião  é  o  facto  de  que  os  veados 
nos  togares  em  que  os  não  attacam,  em  que  lhes  não  fazem  caça,  estão 
muito  longe  de  oíTerecer  a  timidez  de  que  vimos  faltando  e,  pelo  contra- 
rio, consentem  que  o  homem  se  approxime  d'elles  até  á  distancia  de 
trinta  passos;  ha-os  mesmo  que  levam  a  confiança  até  se  acercarem  do 
homem,  lambendo-lhe  as  mãos. 

No  tempo  do  cio  o  veado  é  de  uma  irritabilidade  extraordinária.  É 
então  um  animal  perigoso,  porque  chega  a  arremetter  contra  o  homem; 
os  livros  de  historia  natural  archivam  muitos  d'estes  factos  desgraçados, 
succedidos  uns  nos  bosques,  em  liberdade,  outros  cm  captiveiro,  nos 
jardins  zoológicos.  A  fêmea  nunca  experimenta  estes  acccssos  de  fúria. 
Segundo  Dietrich  de  Winckell,  a  estação  do  cio  começa  em  Setembro  e 
termina  em  melados  de  Outubro;  mas,  segundo  o  mesmo  auctor,  já  em 
fins  de  Agosto  os  machos,  quando  estão  muito  gordos,  entram  em  cio, 
fazendo  ouvir  altos  gritos  de  uma  tonalidade  desagradável.  É  então  tam- 
bém que  entre  os  machos  se  ferem  os  grandes  combates  de  que  deriva 
a  posse  da  fêmea.  Ás  vezes  os  combatentes  enlaçam,  prendem  os  cornos 
por  modo  que  se  lhes  torna  impossível  separarem-se  e  acabam  por  mor- 
rer de  fome  no  logar  do  combate. 


38  HISTORIA  NATURAL 

A  gestação  dura  quarenta  a  quarenta  c  uma  semanas,  parindo  a  fê- 
mea, conforme  foi  fecundada  no  começo  ou  no  fim  da  epocha  do  cio,  em 
Maio  ou  Junho  um  filho,  raras  vezes  dois.  O  reccmnascido  6  nos  primei- 
ros trcz  dias  de  vida  muito  fraco;  a  mãe  tem  por  elle  uma  extraordiná- 
ria sollicitude.  Ao  fim  da  primeira  semana  porém,  o  filho  encontra-se  já 
perfeitamente  apto  para  seguir  a  mãe  por  toda  a  parte;  a  amamentação 
dura  até  á  mais  próxima  quadra  do  cio  que  se  realisa. 


INIMIGOS 


Além  do  homem  que  lhe  move  guerra,  tem  o  veado  por  inimigos 
naturaes  o  lobo,  o  lynce,  o  glutão  e  o  urso.  De  todos,  os  mais  perigosos 
são  o  lobo  e  o  lynce;  o  primeiro,  porque  em  matilhas  persegue  o  veado 
no  tempo  das  neves  e  o  segundo,  porque  do  alto  das  arvores  se  lhe  atira 
de  improviso  sobre  o  dorso. 


CACA 


Foi  uma  diversão  muito  vulgar  n'outro  tempo  a  caça  do  veado.  Hoje 
é  rara  e  onde  existe,  parece  ter-se  tornado  privilegio  exclusivo  de  ricos 
proprietários.  O  abandono  da  caça  do  veado  é  hoje  tal  que  os  naturalis- 
tas contemporâneos  nem  a  descrevem. 


CAPTIVEIRO 


Nas  primeiras  edades,  o  veado  domestica-sc  facilmente.  Os  machos 
porém,  á  medida  que  envelhecem,  tornam-se  mãos  c  perigosos  para  as 
pessoas  que  d^ehes  se  approximam;  as  fêmeas  são  dóceis  sempre.  Po- 
de-se  ensinar  ao  veado  muitos  jogos  de  destreza;  ha  saltimbancos  que 
os  exibem  perfeitamente  educados  n'esta  especiahdade. 


mamíferos  em  especial  39 


DOENÇAS 


O  veado,  do  mesmo  modo  que  o  rangifero,  é  vivamente  atormen- 
tado por  algmis  insectos  que  lhe  depositam  os  ovos  na  pelle,  mais  tarde 
dilacerada  pelas  larvas.  Ainda  o  incommodam  cruelmente  alguns  episoa- 
rios,  para  escapar  aos  quaes  o  ruminante  se  vê  forçado  muitas  vezes  a 
passar  horas  inteiras  mcttido  em  agua.  Além  d'estes  males,  que  por  si  só, 
seriam  sufficientes  para  tornal-o  infehz,  o  veado  soíTre  outros  muitos, 
entre  os  quaes  avultam  a  gangrena  do  íigado,  a  dysenteria,  a  carie  den- 
taria e  a  phtysica.  Estas  doenças  fazem  nos  rebanhos  incalculáveis  es- 
tragos. 


usos  E   PRODUGTOS 


^. 


Segundo  alguns  naturalistas,  a  utilidade  que  o  veado  pode  ter  para 
a  nossa  espécie  não  compensa  de  modo  nenhum  os  estragos  de  que  é 
auctor.  É  precisamente  por  esta  razão  que  em  algumas  locahdades  se 
tem  julgado  conveniente  destruil-o.  «Por  elevado  que  seja,  diz  Brehm, 
o  preço  da  carne,  da  pelle  ou  da  armação  do  veado,  por  maior  que  seja 
o  prazer  de  caçal-o,  este  animal  será  sempre  mais  nocivo  do  que  útil.»  * 
O  mesmo  escriptor  que  acabamos  de  citar  affirma  que  houve  um 
tempo  em  que  a  superstição  fazia  considerar  todas  as  partes  orgânicas 
do  veado  e  ate  mesmo  as  suas  excreções  como  de  capital  vantagem  na 
cura  de  muitas  doenças.  E  então,  como  facilmente  se  comprehende,  o 
valor  do  veado  era  muito  maior  do  que  é  hoje. 


1    Brehm,  Ohr.  ciL,  vol.  2.%  pg."500. 


40  IIISTORTA  NATURAL 


O  VEADO  DA  BARBARIA 


A  dislincção  morpliologica  a  estabelecer  entre  esta  espécie  e  a  pre- 
cedente deriva  apenas  da  armação  que  ó  no  veado  da  Barbaria  menos 
complicada  que  no  veado  ordinário. 

Sob  o  ponto  de  vista  dos  costumes  ha  entre  as  duas  espécies  uma 
semelhança  perfeita. 


BTSTRIEriÇAO    fiEOGRAPnTCA 


Habita  as  florestas  do  noroeste  d'Africa,  sendo  ahi  muito  commum: 
com  efleito  os  cornos  constituem  um  artigo  importante  de  exportação. 


O  VEADO  DE  BENGALA 


Difl^ere  do  veado  commum  em  possuir  uma  estatura  mais  alta  c  um 
pêllo  mais  comprido. ,  Os  cornos  tomam  n'esta  espécie,  a  certa  altura, 
uma  direcção  vertical. 

Os  costumes  não  diff*erem  dos  que  caracterisam  as  espécies  estuda- 
das do  mesmo  crenero. 


mamíferos  em  especial 


41 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPHIGA 


Representa  o  veado  commum  nas  planícies  de  Nepol. 


O  VEADO  AMERICANO 


Distingue-se  das  espécies  precedentes  em  ser  de  mais  avultadas 
proporções.  Mede  de  altura,  ao  nivel  da  espádua,  metro  e  meio  e  a  ar- 
mação tem  mais  de  um  metro  de  comprimento. 

Os  costumes  não  oíferecem  em  relação  ás  espécies  precedentes  dif- 
ferenças  sensíveis. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPIIICA 


A  America  septentrional  é  a  pátria  d'este  ruminante. 


OS  ZORLITOS 


Não  teem  dentes  caninos.  A  cauda  é  quasi  nulla  e  os  pêllos  da  re- 
gião posterior  do  tronco  são  susceptíveis  de  se  erriçarem  sob  a  influen- 


42  HISTORIA  NATURAL 

cia  da  contramão  dos  músculos  culiculares.  Os  cornos  não  são  muito  ex- 
tensos, nem  experimentam  mudanças  bruscas  de  direcção;  de  resto, 
apresentam  de  ordinário  apenas  dois  galhos  terminaes,  um  anterior  e 
outro  posterior. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPIIICA 


Pertencem  á  Europa  e  ás  regiões  quentes  da  Ásia. 


O  ZORLITO  COMMUM 


Podemos  consideral-o  o  typo  do  género.  Por  isso  o  descreveremos 
minuciosamente  sob  o  ponto  de  vista  morphologico. 


CARACTERES 


Mede  cerca  de  um  metro  e  quinze  cenlimetros  de  comprimento  so- 
bre setenta  e  quatro  centimetros  de  altura;  a  cauda  encontra-se  redu- 
zida a  um  coto  de  dois  centimetros  de  extensão,  apenas.  A  altura  de  oi- 
tenta centimetros  e  o  comprimento  de  um  metro  e  trinta  centimetros 
que  o  animal  chega  a  attingir,  são  dimensões  excepcionaes. 

O  zorlito  commum  é  elegante.  Differe  do  veado  ordinário  cm  ser 
mais  pequeno  e  ter  a  cabeça  curta  e  obtusa.  A  parte  anterior  do  corpo 
do  zorlito  commum  é  mais  vigorosa  que  a  posterior,  o  dorso  é  quasi  re- 
cto, a  espádua  acha-se  collocada  a  um  nivel  menos  elevado  que  o  sacro, 
o  pescoço  é  alongado,  os  membros  são  altos  e  delgados  e  os  cascos  finos, 
pequenos  c  ponteagudos.  As  orelhas,  de  comprimento  médio  são  bastante 


MAMÍFEROS    EM  ESPECIAL  43 

separadas  c  os  olhos  grandes  e  vivos.  A  armação  córnea  c  sustentada 
por  largas  saliências  frontaes,  sendo  as  hastes  fortes.  Segundo  Orlasius, 
para  avahar  pela  armação  a  edade  do  animal  é  mais  importante  atten- 
der  á  forma  d'ella  e  às  suas  inflexões  angulares  do  que  ao  numero  de 
galhos  ou  ramos  que  varia  muito  de  individuo  para  individuo.  De  resto,  é 
quasi  inútil  observal-o,  ha  enormes  deformações  nos  cornos  do  ruminante; 
muitas  vezes,  nas  colleções  apparecem  formas  extraordinárias  e  impre- 
vistas. A  fêmea  não  costuma  ter  armação;  no  entanto  Radde  viu  uma 
que  apresentava  um  corno  collocado  ao  meio  da  região  frontal  e  Block 
viu  outra  que  ofl^crecia  aos  lados  do  coronal  duas  hastes  do  comprimento 
de  seis  centímetros.  Factos  d'esta  natureza  são  excepcionaes,  raríssimos. 
O  péllo  do  zorlito  é  macio  e  varia  com  as  estações.  De  inverno  é 
mais  comprido,  especialmente  nas  partes  inferiores,  do  que  de  verão. 
Os  membros,  o  dorso  e  os  lados  do  corpo  são  ruivos  no  estio  e  pardos- 
trigueiros  no  inverno;  o  ventre  e  a  face  interna  das  coxas  são  sempre 
de  uma  cor  mais  clara  que  a  do  resto  do  corpo.  A  região  frontal  e  a 
parte  mais  anterior  do  focinho  são  quasi  negros,  os  lados  da  cabeça  de  um 
ruivo  amarellado  e  o  mento  é  branco.  De  cada  um  dos  lados  do  lábio 
superior  existe  uma  pequena  mancha  branca  e  no  meio  do  lábio  inferior 
uma  outra  trigueira.  A  face  externa  das  orelhas  é  sempre  de  uma  cor 
mais  accentuada  que  a  de  qualquer  outra  parte;  a  face  interna  é  co- 
berta de  pêllos  de  um  branco  amarellado.  A  parte  posterior  do  corpo  é 
amarellada  no  estio  e  branca  no  inverno.  De  resto,  a  cor  varia  extraordi- 
nariamente; assim  existem  zorlitos  perfeitamente  negros,  outros  inteira- 
mente brancos,  etc. 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPHICA 


Existe  na  Europa,  excepto  nos  paizes  do  norte,  e  n'uma  parte  con- 
siderável da  Ásia.  Tem  desapparecido  de  muitas  regiões  onde  vivia. 


COSTT'MES 


Habita  de  preferencia  as  grandes  florestas,  qualquer  que  seja  a  col- 
locação  d'enas,  ou  na  montanha  ou  na  planície.  A  espessura,  a  sombra 
parecem  ser  o  seu  meio. 


44  HISTORIA    NATURAL 

Comparando  o  zorlito  commum  com  o  veado  ordinário,  encontram-se 
^Tandes  semelhanças  e  grandes  differenças.  Os  movimentos  do  zorlito 
são  vivos  e  graciosos  como  os  do  veado;  como  este,  dá  saltos  enormes, 
salta  grandes  barreiras  e  nada  perfeitamente.  A  vista,  o  ouvido  e  o  ol- 
fato  são  no  zorlito,  como  no  veado,  excellcntes.  Emfim  o  zorlito  é,  como 
o  veado,  de  uma  grande  timidez.  Só  quando  muito  novo  se  domestica. 
Quando  é  surpreliendido,  solta  gritos  de  terror  e  começa  a  correr  desa- 
tinado sem  saber  para  onde,  indo  assim  facilmente  cair  nas  mãos  dos 
inimigos.  Acerca  d'esta  timidez  do  zorlito  pode  repetir-se  o  que  foi  dito 
a  propósito  do  veado:  que  ella  é,  pelo  menos  em  grande  parte,  um 
eíTeito  da  experiência  que  ao  animal  revela  os  perigos  immensos  que  o 
cercam.  E  tanto  assim  é  que  nos  legares  tranquillos,  socegados,  em  que 
se  não  faz  a  caça  do  zorlito,  a  approximação  do  homem  não  é  para  este 
motivo  de  receio. 

A  voz  do  zorlito  varia  muito  de  tonalidade  e  de  expressão  com  as 
idades. 

O  zorlito  juntando-se  aos  seus  congéneres  não  chega  nunca  a  for- 
mar bandos  ou  rebanhos  tão  numerosos  como  os  dos  veados  ordinários. 
A  maior  parte  do  anno  vive  em  pequenas  familias  compostas  em  geral 
de  macho,  fêmea  e  filhos.  O  macho  é  o  guia,  o  guarda  e  o  defensor  da 
familia. 

A  alimentação  do  zorlito  é  semelhante  á  do  veado  ordinário;  gosta 
de  folhas,  de  gomos,  de  cereaes  ainda  verdes,  de  hervas  e  em  geral  de 
todas  as  plantas  delicadas.  Dá  também  uma  grande  importância  ao  sal  e 
á  agua  fresca. 

Os  zorhtos,  quando  em  grande  numero,  podem  causar  estragos  im- 
portantes nas  culturas  que  ficam  nas  visinhanças  das  florestas.  Se  pene- 
tram nos  campos,  escavam  o  solo  para  collocar  a  nu  as  batatas,  exacta- 
mente como  o  faz  o  veado. 

Relativamente  ao  cio  do  zorlito,  parece  dever  admittir-se  que  elle 
se  realisa  em  duas  epochas  diíferentes  do  anno,  ou  antes  que  ha  um 
verdadeiro  cio  no  verão,  em  Agosto,  e  um  falso  cio  no  inverno,  em  No- 
vembro. A  fêmea  quando  está  para  parir  distanceia-se  do  macho,  isola-se 
d'elle  completamente  e  vae  procurar  um  sitio  retirado,  solitário,  tran- 
quillo  onde  dá  á  luz.  As  fêmeas  ainda  novas  não  teem  de  ordinário  mais 
que  um  filho  por  parto;  as  velhas  produzem  dois  ou  trez.  A  mãe  é  de 
uma  sollicitude  extraordinária  pelos  filhos;  procura  com  cuidado  extremo 
collocal-os  ao  abrigo  de  inimigos  e  se  sente  que  estes  se  approximam, 
avisa  disto  os  filhos  batendo  com  as  patas  no  chão  ou  soltando  um  grito 
particular,  característico.  Se  alguém  rouba  á  fêmea  um  filho,  a  inquie- 
tação d'ella  é  extrema.  Dietrích  de  Winckell  affirma  que  muitas  vezes, 
impressionado  pela  viva  inquietação  das  mães,  se  vira  constrangido  a 


mamíferos  em  especial  •     45 

dar  a  liberdade  a  pequenos  zorlitos  que  apanhara;  compensava-o  do  sa- 
crifício feito  o  espectáculo  da  alegria  extraordinária  da  pobre  fêmea,  de 
novo  em  posse  do  filhinho. 

Ao  fim  de  oito  dias  os  novos  seres  estão  aptos  a  acompanharem  a 
mãe  aos  pastos  e  ao  fim  de  dez  ou  doze  acompanham-a  já  por  toda  a 
parte.  É  então  que  a  fêmea  volta  a  encontrar-se  com  o  macho  de  que  se 
separara  na  occasião  do  parto  e  que  agora  retoma  a  direcção  da  fami- 
ha.  Os  novos  zorlitos,  nascidos  em  Maio,  mamam  até  Agosto  ou  Setem- 
bro; no  entanto  comem  desde  o  segundo  mez  de  existência  hervas  que 
a  mãe  lhes  ensina  a  escolher.  Estes  novos  seres  aos  quatorze  mezes  es- 
tão aptos  para  a  reproducção  e  tornam-se  então  chefes  de  uma  família. 

É  ao  quinto  mez  de  existência,  isto  é  em  Outubro,  que  apparecem 
as  saliências  frontaes  no  zorUto;  no  inverno  próximo  apresentam-se  os 
primeiros  galhos  da  extensão  de  oito  a  dez  centímetros.  Em  Março  é  a 
primeira  muda  de  péllo  e  em  Dezembro  a  primeira  queda  dos  cornos.  A 
muda  do  péllo  e  a  queda  da  armação  relacionam-se  com  a  actividade  das 
funcções  genitaes,  porque  se  reahsam  depois  do  cio.  A  nova  armação 
apparece  no  inverno  e  acha-se  completamente  desenvolvida  quando  o 
animal  possue  já  o  manto  de  estio. 


CACA 


A  caça  do  zorhto  faz-se  pelos  mesmos  processos  que  servem  á  do 
veado  commum.  Na  epocha  do  cio,  os  caçadores  attraem  muitas  vezes  o 
animal,  imitando  o  grito  da  fêmea. 


INIMIGOS 


O  lynce 
rapozo  ., 
novos. 


e  o  lobo  são  os  principaes;  no  entanto  o  gato  montez,  o 
e,  muitas  vezes  também,  a  doninha  destroem  os  zorhtos  ainda 


46  mSTORIA  NATURAL 


GAPTIVEIRO 


Quando  se  apanha  alguns  dias  apenas  depois  do  nascimento,  o  zor- 
lito  domestica-se  com  facilidade.  É  de  notar  que  em  capliveiro  nunca 
chega  a  atlingir  as  proporções  que  o  caracterisam  em  hberdade.  Win- 
ckell  narra  minuciosamente  o  caso  de  um  zorUto-femea  captivo  que  per- 
tencia a  um  dos  seus  irmãos;  este  ruminante  acompanhava  as  pessoas 
da  casa,  como  se  fora  um  cão,  e  vivia  n'uma  completa  paz  com  todos  os 
animaes  domésticos.  Na  epocha  do  cio,  embora  se  retirasse  para  a  flo- 
resta, o  bello  animal  não  deixava  de  visitar  todos  os  dias  o  dono;  desde 
que  se  encontrava  no  estado  de  prenhez  voltava  deMtivamente  para 
casa.  O  famoso  ruminante  teve  um  fim  desastrado,  como  quasi  todos  os 
que  vivem  em  captiveiro  e  não  receiam  approximar-se  do  homem:  foi 
morto  a  tiro. 

,  Os  naturahstas  estão  de  accordo  em  aífirmar  que  para  a  domestica- 
ção são  preferíveis  sempre  as  fêmeas  aos  machos,  porque  estes  á  pro- 
porção que  envelhecem  se  vão  tornando  mãos,  irasciveis,  impudentes, 
perigosos  até  para  as  creanças.  Além  d'isto,  o  zorlito  macho  não  vive  em 
captiveiro  de  boa  harmonia  com  os  animaes  domésticos. 


usos  E  PRODUGTOS 


o  zorlito  fornece-nos  a  carne,  a  pelle  e  os  cornos  e  é  menos  preju- 
dicial que  o  veado  ordinário. 


A  Girafa 


Maçalhães  8:  Moniz  ,  Editore; 


mamíferos  em  especial 


47 


AS  GIRAFAS 


Gomquanto  ligadas  aos  veados  e  ás  antílopes  por  numerosos  cara- 
cteres aífins,  as  girafas  constituem  no  entanto  uma  familia  distincta.  Dão- 
Ihes  direito  a  isso  a  singularidade  das  formas  exteriores  e  a  natureza 
dos  cornos  que  são  permanentes  e  cobertos  de  pelle. 

Esta  familia  comprehende  um  género  único  que  a  seu  turno  abrange 
uma  só  espécie.  D'esta  passamos  a  occupar-nos. 


A  GIRAFA  AFRICANA 


O  grande  poeta  latino,  Horácio,  via  na  girafa  um  mixto  de  panthera 
c  de  camelo  e,  segundo  lirehm,  escriptores  que  vieram  depois,  encon- 
trando-a  representada  nos  monumentos  do  antigo  Egypto,  consideraram-a 
como  simples  producto  da  imaginação  artística.  Júlio  Gcsar  fazendo  appa- 
recer  este  singular  animal  nos  circos  produziu  uma  viva  impressão  entre 
os  romanos  do  seu  tempo.  A  Miguel  Baudier  e  a  Belon,  dois  escriptores 
francezes  do  ultimo  quartel  do  século  xvi,  se  devem  as  primeiras  des- 
cripções  exactas  do  animal. 


CARACTERES 


Esta  espécie  distingue-se  por  um  pescoço  de  comprimento  desme- 
surado, por  membros  altos,  por  um  tronco  volumoso,  por  um  dorso  in- 
clinado, mais  alto  na  região  anterior,  por  uma. cabeça  elegante,  emfim 
por  dois  cornos  curtos  e  cobertos  de  pellc.  A  grande  altura  dos  mem- 


48  HISTOHIA   NATUIUL 

bros  e  a  extensão  desmesurada  do  pescof.o  fazem  parecer  a  girafa,  nota 
Figuier,  um  dos  animaes  mais  altos  e  ao  mesmo  tempo  mais  curtos  da 
classe  dos  mamíferos.  A  girafa  mede  com  eífeito  còrca  de  trez  metros  e 
trinta  centímetros  de  altura  ao  nivel  da  espádua  e  de  cinco  a  seis  me- 
tros e  vinte  e  tantos  centímetros  ao  nivel  da  cabeia;  comludo  o  tronco 
apresenta  de  comprimento  nada  menos  de  dois  metros  e  trinta  centíme- 
tros. A  cauda  mede  oitenta  centímetros  de  comprimento,  não  incluindo 
os  pèllos  terminaes  que  a  excedem  muito.  A  parte  posterior  do  dorso  é 
sessenta  centímetros,  pouco  mais  ou  menos,  mais  baixa  que  a  anterior 
ao  nivel  da  espádua.  Da  extremidade  do  focinho  á  raiz  da  cauda  a  ex- 
tensão é  de  quatro  metros  e  trinta  centímetros. 

Além  das  dimensões,  outras  particularidades  existem  que  devemos 
fazer  notar.  Horácio  quando  dizia  que  a  girafa  era  um  composto  de  pan- 
tliera  e  de  camelo,  tinha  um  certo  fundo  de  razão;  somente  o  notável 
poeta  devera  ter  ido  mais  longe  ainda  e  ter  aíTirmado  que  na  girafa  ha 
todo  um  composto  de  muitos  outros  animaes  differentes.  Ella  tem  com 
elleito,  a  cabeça  e  o  corpo  do  cavallo,  o  pescoço  e  as  espáduas  do  ca- 
melo, as  orelhas  do  boi,  a  cauda  do  jumento,  os  membros  da  antílope 
e  o  péllo'  da  panthera.  Esta  mistura  dá  ao  ruminante  em  questão  um  as- 
pecto monstruoso.  A  girafa  é  com  effeito  um  animal  desproporcionado, 
deselegante,  em  que  tudo  é  feio  excepto  os  olhos  c  o  manto. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHICA 


A  girafa  habita  hoje  a  Africa  central  e  meridional  entre  o  decimo 
sétimo  grão  de  latitude  norte  e  o  vigessimo  quarto  de  latitude  sul;  o  h- 
mite  de  dispersão  a  oeste  é  desconhecido.  No  Gongo  e  na  Senegambia 
não  existe,  talvez  porque  estas  regiões  são  montanhosas. 


COSTUMES 


A  girafa  capliva  nos  jardins  zoológicos  não  pode  bem  ser  avahada. 
É  em  liberdade,  é  nas  bellas  florestas  do  sul  d'Africa  que  eha  deve  ser 
vista  para  bem  se  estudar,  diz  Gordon  Gumming.  A  girafa  é  o  exemplo 


mamíferos  em  especial  49 

mais  frisante  que  existe  da  conformidade  ou  adaptação  de  um  animal  ao 
meio  em  que  vive.  O  auctor  que  acabamos  de  citar,  aílirma  que  é  mui- 
tas vezes  difficil  e  até  em  certas  condições  impossivel  distinguir  as  gira- 
fas dos  troncos  d'arvores  visinhas.  Os  selvagens  mesmo,  a  despeito  de 
uma  vista  excepcionalmente  perfeita,  teem  muitas  occasiões  de  se  illu- 
direm,  confundindo  as  girafas  com  os  troncos  e  os  troncos  com  as  gi- 
rafas. 

Este  ruminante  é  sociável;  encontra-se  sempre  aos  grupos  de  seis 
a  oito  individues.  Nos  legares  tranquillos  e  seguros  reunem-se  as  girafas 
em  maior  numero,  vinte  e  seis  a  trinta  individues,  segundo  Gordon  Gum- 
ming.  Brehm  entretanto  affirma  que  nunca  ouviu  fallar  senão  de  peque- 
nos grupos.  Os  movimentos  da  girafa,  affirmam-o  quantos  teem  visto 
este  ruminante,  oíferecem  alguma  coisa  de  singular. 

A  marcha  é  lenta  e  a  corrida  é  um  galope  pezado,  mas  rápido  em 
virtude  do  comprimento  desmesurado  dos  membros.  O  pezo  da  parte 
anterior  do  corpo  é  tal  que  o  ruminante  para  se  levantar  precisa  de 
pender  o  longo  pescoço  para  traz,  deslocando  assim  o  centro  de  gravi- 
dade. De  resto,  o  pescoço  da  girafa  anda  em  constante  movimento,  di- 
zendo Lichtenstein  que  elle  pode  comparar-se  ao  mastro  de  um  navio 
açoutado  pelas  vagas.  Para  alcançar  uma  girafa  em  corrida  é  preciso  um 
bom  cavallo;  e  quasi  sempre,  senão  sempre  o  cavallo  se  fatiga  muito 
antes  da  girafa.  Quando  bebe  ou  quando  apanha  qualquer  coisa  do  solo, 
a  girafa  toma  uma  posição  singularmente  extravagante.  Não  se  ajolha, 
como  algumas  vezes  se  tem  dito,  mas  abre  ou  alfas  ta  consideravelmente 
os  membros  anteriores  e  estende  o  pescoço  até  tocar  o  chão  com  os 
lábios. 

A  girafa  ordinariamente  não  repousa  senão  de  noite;  deita-se  como 
o  dromedário,  caindo  primeiro  sobre  as  articulações  dos  membros  de 
diante  e  dobrando  depois  os  posteriores.  Para  dormir  deita-se  de  lado, 
incurva  os  membros  anteriores  e  inclina  o  pescoço  para  traz,  repousando 
a  cabeça  sobre  as  coxas.  O  somno  do  ruminante  é  curto  e  leve;  pode 
durante  alguns  dias  seguidos  deixar  de  deitar-se,  repousando  em  pé. 

A  girafa  tem  um  regimen  vegetal;  em  virtude  da  sua  conformação 
particular  não  procura  a  herva  do  solo,  mas  as  folhas  d'arvores.  Gompre- 
hende-se  perfeitamente,  pelo  que  acima  dissemos,  quanta  difficuldade 
teria  o  animal  em  procurar  á  superfície  do  solo  a  ahmentação;  pelo  con- 
trario, é-lhe  extremamente  fácil  apanhar  as  folhas  das  arvores,  ainda 
das  mais  elevadas. 

A  hngua  da  girafa  é  de  uma  extrema  mobihdade,  o  que  certamente 
tem  grande  importância  para  o  eífeito  de  apanhar  as  folhas.  De  resto, 
como  se  sabe,  a  lingua  é  na  maioria  dos  ruminantes  um  órgão  que  serve 
para  a  prehensão  das  substancias  alimentares.  Na  girafa  este  órgão  é  de 

VUL.    111  i 


50  HISTORIA  NATURAL 

uma  importância  capital  e  tem  para  cila  os  mesmos  usos  que  para  o  ele- 
phante  a  tromba.  O  ruminante  estende-a  c  apanha  com  ella  os  objectos 
ainda  os  mais  pequenos  e  delicados. 

Quando  procura  o  alimento,  a  girafa  é  guiada  mais  pela  vista  do 
que  pelo  olfato;  e  a  prova  c  que  não  poucas  vezes  se  deixa  cair  em  illu- 
sões  como  a  de  apanhar  uma  flor  artificial  confundindo-a  com  um  pro- 
ducto  da  natureza. 

Ao  sul  da  Africa  as  mimosas  de  espinhos  constituem  o  principal  ali- 
mento da  girafa.  Quando  tem  folhas  frescas  pode,  como  o  dromedário, 
passar  longo  tempo  sem  beber;  no  tempo  secco  porém,  quando  as  arvo- 
res se  encontram  já  despidas  de  folhas  e  quando  não  ha  senão  hervas 
amarellentas,  então  percorre  distancias  grandes,  de  léguas  ás  vezes,  para 
encontrar  um  curso  d'agua  onde  possa  mitigar  a  sede. 

A  girafa  rumina  de  pé  e  parece  executar  esta  funcção  por  um  es- 
paço de  tempo  menor  que.  qualquer  outro  animal  da  mesma  ordem. 

A  girafa  é  intelhgente  e  vive  em  boa  harmonia  não  só  com  as  con- 
géneres, mas  ainda  com  outros  animaes,  se  estes  a  não  perturbam.  Em 
occasiões  de  perigo,  se  algum  carniceiro  a  attaca,  a  girafa  defende-se 
vigorosamente,  não  com  os  cornos,  mas  a  coice.  Lembrando  o  vigor  e 
comprimento  dos  membros  da  girafa,  facilmente  se  acredita  que  este  ru- 
minante possa,  como  aflirma  Brehm,  com  uma  pancada  das  largas  patas 
matar  um  leão. 

Na  epocha  do  cio,  os  machos  combatem  para  a  conquista  da  fêmea. 
A  gestação  dura  quatorze  mezes  e  uma  semana  a  quatorze  mezes  e  meio. 
Nos  jardins  zoológicos  de  Londres  e  Vienna  observou-se  da  parte  das 
mães  pelos  recemnascidos  uma  grande  indifferença,  a  ponto  de  ter  de 
fazer-se  alimentar  os  novos  ruminantes  por  vaccas.  Dez  horas  depois  do 
nascimento  a  girafa  corre  já  e  ao  terceiro  dia  principia  a  saltar. 


GAPTIVEIRO 


A  girafa  é  geralmente  estimada  por  toda  a  parte;  d'aqui  o  desejo 
de  mantel-a  captiva.  Não  é  difficil  obter  a  reahsação  de  tal  desejo;  não 
ha  animal  que  melhor  se  domestique.  Cria  aífeição  ao  homem  e  revela 
em  todos  os  seus  actos  uma  intelligencia  notável  e  uma  ilhmitada  con- 
fiança por  quantos  a  cercam.  Infelizmente  o  ruminante  não  pode  subsis- 
tir por  muito  tempo  nos  cHmas  da  Europa;  attaca-o  uma  doença  que 
affecta  o  systema  ósseo  e  que  tem  mesmo  o  nome  de  doença  das  girafas, 


mamíferos  em  especial  51 

a  qual  se  deve  talvez  attribuir  á  falta  de  movimentos  e  de  alimentação 
apropriada.  Brehm  crê  que  para  atalhar  ao  mal  seria  necessário  fornecer 
ao  ruminante  o  tanino  em  altas  doses,  porque,  diz  este  naturalista  «as 
folhas  de  mimosa  de  que  ellc  se  alimenta  na  pátria,  são  muito  ricas 
d'esta  substancia.»  * 


usos  E  PRODUGTOS 


A  carne  da  girafa  serve  para  alimento,  a  pelle  dá  um  excellente 
coiro,  os  cornos  e  os  cascos  emfim  servem  para  a  confecção  de  differen- 
tes  utensílios. 


AS  antílopes 


Esta  família,  constituída  por  géneros  na  apparencia  tão  distinctos 
uns  dos  outros  como  os  de  que  nos  vamos  occupar,  é  conhecida,  pelo 
menos  n'algumas  das  suas  espécies,  desde  a  mais  alta  antiguidade. 


CARACTERES 


Dada  a  extrema  variedade  de  géneros  e  espécies  que  esta  familia 
abrange  e,  que  estão  longe  de  manter  entre  si  grandes  analogias  de 
apparencia,  é  diíTicil  estabelecer  de  um  modo  geral  os  caracteres  mor- 
phologicos.  lia  com  effeito  na  familia  em  questão  animaes  que  recordam 


Brehm,  Obv.  cit.,  vol.  2.»,  pg.  527. 


52  HISTORIA  NATURAL 

O  boi,  outros  que  lembram  o  zorlito,  outros  o  cavallo,  outros  ainda  o  al- 
miscareiro. 

Em  geral,  pode  no  entanto  dizer-se  que  as  antilopes  são  animaes 
elegantes,  de  péllos  curtos  e  de  cornos  mais  ou  menos  tortuosos.  A  nuca 
é  coberta  de  péllo  comprido  que  de  ordinário  se  alonga  em  torno  da 
bocca  de  modo  a  constituir  uma  verdadeira  barba  como  nas  cabras. 

A  conformação  interior  das  antilopes  recorda,  pode  isto  dizer-se  de 
um  modo  geral,  a  dos  veados. 

A  fêmea  tem  duas  ou  quatro  mamas,  raras  vezes  cinco.  Dá  á  luz 
um  filho  por  cada  parto,  muito  raras  vezes  dois.  A  gestação  dura  seis 
mezes  e  os  filhos  ao  cabo  de  quatorze  ou  dezoito  mezes,  e  ás  vezes 
mesmo  de  menos,  encontram-se  já  perfeitamente  aptos  para  a  repro- 
ducção. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHIGA 


As  antilopes  encontram-se  em  toda  a  Africa,  na  Ásia  e  na  Europa 
centraes  e  meridionaes  e  na  America  do  Norte. 


COSTUMES  ' 


Na  sua  grande  maioria,  as  antilopes  vivem  nas  florestas;  ha  espé- 
cies no  entanto  que  preferem  as  altas  montanhas,  elevando-se  até  ao  li- 
mite extremo  das  neves  perpetuas.  Umas  procuram  as  florestas  pouco 
densas,  outras  as  de  arvores  mais  copadas,  muitas  emfim  os  pântanos 
ou  as  visinhanças  dos  cursos  d'agua.  As  espécies  de  grandes  dimensões 
reunem-se  em  bandos  muito  numerosos;  as  de  pequenas  dimensões  vi- 
vem em  sociedades  menores,  de  ordinário  duas  a  duas. 

Os  hábitos  das  antilopes  são  ao  mesmo  tempo  diurnos  e  nocturnos; 
n'isto  se  distinguem  estes  ruminantes  dos  veados.  Os  movimentos  são 
vivos  e  graciosíssimos.  Um  bando  ou  rebanho  de  antilopes  constituo  sem- 
pre para  nós  um  espectáculo  encantador,  tanta  é  a  belleza  de  formas 
d'estes  animaes  e  tanta  a  elegância  de  todas  as  attitudes  que  tomam, 
de  todos  os  movimentos  que  executam.  A  deselegancia  de  contornos,  o 
pezado  dos  movimentos  são  com  eíTeito  uma  excepção  n'esta  famiha. 


mamíferos  em  especial  53 

Os  sentidos  são  nas  antílopes  notavelmente  desenvolvidos,  princi- 
palmente a  vista,  o  ouvido  e  o  olfato.  Não  são  decerto  animaes  muito 
intelligentes ;  são-o  comtudo  mais  que  muitos  outros  ruminantes.  São 
curiosas,  vigilantes  e  nunca  se  abandonam  a  um  repouso  descuidado; 
sabem  aproveitar  as  lições  da  experiência.  Desde  que  se  sentem  perse- 
guidas, as  antílopes  não  se  entregam  ao  somno  sem  que  alguma  fique  de 
sentinella  para  avisar  do  menor  perigo. 

O  regimen  das  antílopes  é  exclusivamente  vegetal:  comem  folhas, 
hervas,  gommos,  rebentos,  etc.  Algumas  espécies  são  de  uma  grande 
sobriedade;  contentam-se  com  lichens.  Se  encontram  plantas  verdes,  po- 
dem passar  muito  tempo  sem  beber.  As  espécies  que  habitam  o  deserto 
oíTerecem  disto  um  exemplo  frisante. 


CAPTIVEIRO 


A  maior  parte  das  antílopes  supportam  bem  o  captiveiro,  reprodu- 
zem-se  n'estas  condições  e  são  agradáveis  ao  homem.  Algumas  tornam-se 
verdadeiros  animaes  domésticos. 


usos  E  PRODUGTOS 


As  antílopes  são  animaes  utiUssimos.  Não  é  possível  estabelecer  con- 
fronto entre  os  estragos  que  podem  causar  e  que  são  diminutos  e  os 
benefícios  que  nos  prestam  fornecendo-nos  a  carne,  um  bom  alimento,  a 
pelle  e  os  cornos,  de  grande  préstimo  industrial. 


54  HISTORIA   NATURAL 


A  CERVICABRA 


Asscmelha-se  um  pouco  ao  gamo,  sendo  comludo  mais  pequena, 
mais  elegante  e  mais  graciosa  ainda  do  que  elle.  Tem  pouco  mais  ou 
menos  um  metro  e  trinta  centimetros  de  comprido,  a  cauda  mede  deze- 
seis  centimetros  e  a  altura,  ao  nivel  da  espádua,  é  de  oitenta  centime- 
tros. O  corpo  é  delgado,  o  dorso  recto  e  a  parte  posterior  do  tronco 
mais  alongada  que  a  anterior.  A  cabeça  é  arredondada,  alta  atraz,  alon- 
gada adiante;  os  olhos  são  grandes  e  muito  vivos.  As  orelhas  são  gran- 
des, ponteagudas,  e  as  fossetas  lacrimaes  formam  uma  bolsa  que  o  ani- 
mal abre  ou  fecha  á  vontade.  Os  membros  são  delgados,  compridos,  os 
posteriores  mais  altos  um  pouco  que  os  anteriores.  Os  cornos  são  muito 
compridos;  medem  quarenta  e  quatro  centimetros,  são  dirigidos  de 
diante  para  traz  a  direito  e  contornados  em  passo  de  espiral.  Muito  pró- 
ximos um  do  outro  na  raiz,  separam-se  na  extremidade  por  um  espaço 
de  trinta  centimetros.  Ao  longo  d'estes  cornos  existem  saUencias  annula- 
res  que  são  tanto  mais  numerosas  quanto  mais  velhos  são  os  animaes. 

A  cor  do  animal  varia  também  muito  segundo  a -idade  e  o  sexo.  Os 
velhos  machos  são  muito  escuros,  quasi  negros;  as  fêmeas  são  pardas  e 
os  indivíduos  muito  novos  são  trigueiros  ou  ruivos.  Em  torno  dos  olhos 
existe  um  largo  circulo  branco.  Os  pêllos  são  curtos,  lisos,  espessos,  um 
pouco  rijos  e  crespos,  como  na  maior  parte  dos  veados.  Os  cascos  são 
de  um  comprimento  médio,  ponteagudos  e  elegantes. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPITTCA 


A  cervicabra  é  originaria  das  índias,  onde  habita  em  grande  nu- 
mero; encontra-se  principalmente  em  Bengala. 


mamíferos  em  especial 


55 


costumes 


A  cervicabra  é  um  animal  sociável,  vivendo  aos  grupos  de  quinze 
a  dezeseis  individues,  pouco  mais  ou  menos.  Estas  pequenas  sociedades 
são  geralmente  guiadas  por  um  só  macho  e  habitam  de  preferencia  os 
legares  descobertos. 

Este  ruminante  é  de  uma  prudência  extrema.  Affirmam  os  observa- 
dores que,  emquanto  um  rebanho  pasta  ou  descança,  ha  sempre  alguns 
machos  ainda  novos  ou  algumas  fêmeas  já  velhas  que  se  conservam  de 
sentinella,  prestes  a  avisarem  os  companheiros  do  menor  perigo. 

A  cervicabra  alimenta-se  exclusivamente  de  hervas  e  plantas  sabo- 
rosas; pode  passar  muito  tempo  sem  beber. 

Acerca  da  reproducção  não  encontramos  informações  exactas.  Pa- 
rece que  não  existe  uma  epocha  determinada  de  cio,  mas  que  o  coito 
se  reahsa  indiíTerentemente  em  qualquer  estação  ou  em  qualquer  mez 
do  armo.  Nove  mezes  depois  da  approximação  sexual,  a  fêmea  dá  á  luz 
um  filho  que  nasce  completamente  desenvolvido.  A  mãe  esconde  o  filho 
em  um  logar  coberto  d'arvores  e  amamenta-o,  conduzindo-o  depois  para  o 
rebanho  onde  fica  até  ter  a  idade  precisa  para  a  reproducção.  Por  esse 
tempo,  o  macho  que  dirigia  o  rebanho,  tomado  de  ciúmes  contra  o  in- 
truso, repelle-o,  obriga-o  a  procurar  outro  rebanho.  A  fêmea  está  apta 
para  a  reproducção  aos  dois  annos  e  o  macho  aos  trez. 

Mao  grado  todos  os  cuidados  de  que  se  cerca  e  de  que  falíamos 
atraz,  a  cervicabra  é  victima  não  poucas  vezes  da  panthera  e  do  tigre. 


CAÇA 


A  caça  á  cervicabra  pelos  meios  ordinários,  como  é  fácil  deduzir 
do  que  dissemos  sobre  a  timidez  e  prudência  d'este  ruminante,  seria 
quasi  impossivel.  O  mais  leve  ruido  desperta  este  animal  o  mais  pe- 
queno perigo  obriga-o  a  fugir.  O  indígena  não  emprega  pois  os  meios 
usuaes,  vulgares;  elle  que  conhece  bem  o  animal  não  poderia  fazel-o. 
Para  a  caça  do  famoso  ruminante,  o  indígena  serve-se  de  um  meio  en- 
genhosíssimo:  toma  um  macho  domesticado,  prende-lhe  aos  cornos  mui- 


56  HISTORIA  NATURAL 

los  laços  corredios,  dá-llic  depois  a  liberdade  e  procura  approximal-o  de 
um  rebanho  selvagem;  desde  que  o  ruminante  domestico  se  defronta 
com  os  seus  congéneres  livres,  estes,  machos  e  fêmeas,  atiram-se  contra 
elle  n'um  combate  pertinaz,  do  que  resulta  que,  no  calor  da  acção,  mui- 
tos se  prendem  aos  nós  corredios  c  são  então  facilmente  aprisionados. 
É  este  o  melhor  género  de  caça  conhecido. 


CAPTIVFJRO 


Domestica-se  facilmente  a  cervicabra  desde  que  se  apanha  nos  pri- 
meiros tempos  de  existência.  Supporta  bem  e  por  muito  tempo  o  capti- 
veiro,  mesmo  na  Europa,  vivendo  em  harmonia  com  os  seus  congéneres, 
com  todos  os  animaes  domésticos  e  dando  provas  de  dedicação  ao  ho- 
mem. Quando  se  lhe  concede  um  grande  espaço,  vive  prosperamente; 
confinada,  pelo  contrario,  dentro  de  estreitos  limites,  a  cervicabra  defi- 
nha, torna-se  má  e  attaca  muitas  vezes  os  guardas. 

Nas  índias,  este  ruminante  é  tido  na  conta  de  sagrado.  São  encar- 
regadas mulheres  de  lhe  darem  o  ahmento,  paga-se  a  músicos  que  tocam 
em  sua  honra  e  só  os  bhramanes  podem  comer-lhe  a  carne. 


usos   E   PRODUGTOS 


A  única  utiUdade  que  retiramos  da  posse  da  cervicabra  é  a  do 
agrado  que  nos  produz,  das  boas  horas  que  passamos  ao  pé  d'ella.  No 
estômago  d'este  ruminante  existem  bezoartes  ou  concreções  calcareas 
que  n'outro  tempo  eram  consideradas  medicamentos  poderosos. 


mamíferos  em  especial 


A  SAIGA 


Pertence  a  um  género  de  antílopes  que  habita  a  Europa. 


CARACTERES 


Tem  a  estatura  do  gamo,  o  nariz  de  notável  proeminência  anterior, 
as  orelhas  muito  curtas  e  largas  e  o  focinho  curto  também.  O  péllo  é  es- 
pesso, molle,  um  pouco  mais  comprido  na  região  da  nuca,  no  dorso  e 
na  parte  anterior  e  inferior  do  pescoço  que  em  qualquer  outra  parte.  A 
cabeça  e  o  pescoço  são  de  ordinário  cinzentos;  as  espáduas,  o  dorso  e 
os  flancos  de  um  branco  ou  cinzento  amarellado;  o  ventre  e  a  face  in- 
terna dos  membros  são  brancos;  finalmente  a  parte  media  do  dorso  é 
de  um  trigueiro  accentuadamente  escuro. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHICA 


Habita  a  Europa  oriental  desde  a  Polónia  até  aos  montes  Altai. 


COSTUMES 


A  saíga  é  sociável;  no  outomno  agremia-se  em  bandos  de  alguns 
milhares  de  individues  que  se  dirigem  ás  regiões  mais  quentes  para  pas- 
sarem o  inverno,  e  voltam  ao  ponto  de  partida  na  primavera. 

Outubro  é  a  epocha  do  cio;  travam-se  então  entre  os  machos  gran- 
des combates  violentos  para  a  conquista  das  fêmeas.  Em  Maio  realisa-se 


58  HISTORIA    NATURAL 

O  parto,  dando  a  fêmea  á  luz  um  filho  único.  Ao  fim  do  primeiro  mez  ap- 
pareccm  os  cornos  c  ao  quarto  cncontram-se  já  com  metade  do  compri- 
mento que  deverão  attingir  definitivamente. 

A  saíga,  como  muitos  outros  animaes,  gosta  immensamente  de  sal  e 
procura-o  com  tenacidade.  Strabon,  naturalista  antigo,  disse  que  a  saíga 
(juando  bebe  aspira  a  agua  não  só  pela  bocca  como  pelo  nariz;  Brehm, 
confirma  esta  informação. 

Se  um  rebanho  se  apascenta,  ha  sempre  uma  saíga  que  vigia  pelos 
companheiros;  se  esta  se  deita,  ergue-se  uma  outra  que  a  substitue. 

A  vista  não  é  boa  n'este  ruminante;  em  compensação  porém,  o  ou- 
vido e  o  olfato  são  muito  desenvolvidos.  Á  menor  suspeita  de  perigo,  a 
saíga  junta-se  ás  companheiras,  olha  em  torno  de  si  com  inquietação  e 
foge  o  menos  ruidosamente  possível;  o  macho  caminha  na  frente,  ve- 
lando pela  segurança  do  bando. 


INIMIGOS 


Os  mais  terríveis  são  o  lobo  e  um  insecto,  o  tabão.  O  lobo  attaca  os 
bandos,  destroe-os  ás  vezes  completamente  e  devora  os  indivíduos,  dei- 
xando-lhes  apenas  o  craneo.  O  tabão  deposita  sobre  a  pelle  da  saíga  os 
ovos,  às  vezes  em  quantidade  tal  que  as  larvas  correspondentes  deter- 
minam uma  gangrena  e  produzem  a  morte  do  animal.  Entre  as  aves  en- 
contra também  a  saíga  um  poderoso  inimigo,  a  águia. 


CACA 


Não  é  diíficil  a  caça  da  saíga,  por  dois  motivos  diíTerentes:  porque 
este  animal  se  cança  com  facilidade  e  porque  o  menor  ferimento  é  para 
elle  fatal.  Persegue-se  a  cavallo  e  com  o  auxilio  dos  cães;  o  cavallo  fati- 
ga-o  pela  corrida  e  os  cães  matam-o  ás  dentadas.  Também  se  caça  a 
saíga  com  armas  de  fogo  e  com  aves  de  rapina.  Quando  este  ultimo  caso 
tem  logar,  não  é  o  falcão  que  se  emprega,  mas  a  águia  real  que  é  por 
instincto  um  dos  mais  implacáveis  inimigos  do  ruminante  om  questão. 


mamíferos  em  especial 


59 


GAPTIVEIRO 


Nos  primeiros  tempos  de  existência  a  saiga  domeslica-se  perfeita- 
mente. Segue  o  dono  como  um  cão,  não  tendo  mesmo  duvida  em  attra- 
vessar  atraz  d'elle  rios  a  nado.  Diante  dos  seus  congéneres  selvagens,  a 
saíga  domesticada  foge  precipitadamente. 


A  CERVICABRA  DE  PATAS  NEGRAS 


É  um  animal  elegante,  de  dois  metros  de  comprimento  sobre  um  de 
altura.  Tem  os  cornos  extensos,  negros,  caminhando  até  certa  altura  ver- 
ticalmente e  formando  depois  um  arco  de  concavidade  interna.  O  pêllo 
é  ruivo  ou  amarello  carregado;  o  ventre,  o  peito,  a  face  interna  dos 
membros  e  das  orelhas,  os  lábios,  uma  pequena  macula  sub-occular  e  a 
face  inferior  da  cauda  são  brancos.  Ao  longo  do  dorso  corre  uma  facha 
escura  que  se  divide  na  origem  da  cauda  e  desce  para  as  coxas. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPUICA 


Habita  o  sul  da  Africa. 


60  HISTORIA  NATURAL 


COSTUMES 


É  muito  sociável  este  ruminante;  encontram-se  ás  vezes  bandos  que 
os  caçadores  aífirmam  conter  alguns  centos  de  cabeças.  De  resto,  não 
encontramos  esclarecimentos  de  qualidade  alguma  sobre  os  hábitos  de 
vida  d'este  ruminante  africano. 


AS  GAZELLAS 


São  animaes  de  extrema  elegância,  de  uma  graça  sem  egual,  de 
uma  agilidade  incomparável.  «No  deserto,  diz  Brelim,  a  gazella  é  uma 
apparição  encantadora,  poética;  não  admira  pois  que  desde  os  mais  re- 
motos tempos  a  tenham  cantado  com  amor  os  poetas  do  Oriente.  O  es- 
trangeiro, o  habitante  das  frias  regiões  do  Norte,  comprehendem,  ao 
vôl-a  em  liberdade,  porque  é  que  tanto  lhe  querem  os  árabes.»  *  E  na 
verdade  os  árabes  estimam  a  gazella  acima  de  tudo;  n'ella  encontram 
um  termo  de  comparação  para  tudo  quanto  é  bello,  para  tudo  quanto  é 
encantador:  um  olhar  que  os  fascina  é  um  olhar  de  gazella,  um  pescoço 
bem  contornado,  elegante  é  um  pescoço  de  gazella,  etc. 

Os  antigos  Egypcibs  consagravam  a  Isis  uma  gazella.  É  também  a 
este  ruminante  que  se  refere,  comparando-o  a  um  amigo,  o  auctor  do 
Cântico  dos  Cânticos. 


Brehm,  Ohr.  cit.,  vol.  2.",  pg.  532. 


'in    dei 


Jmp   Lamoureui,  a,  Taris 


Çaq}l 


A  Gazella 2.  O  Arguli. 


Ma^alhãtes  &  Moniz,  editores. 


mamíferos  em  especial  61 


CARACTERES 


*ks  gazellas  teem  os  cornos  em  anneis,  as  orelhas  compridas  e  pon- 
teagudas  e  a  cauda  curta,  terminada  por  um  tuffo  de  péllos. 
Estudaremos  uma  espécie  única. 


A  GAZELLA 


A  grandeza  máxima  da  gazella  parece  ser  de  metro  e  meio  de  com- 
prido, incluida  a  cauda,  sobre  sessenta  e  seis  centimetros  de  alto,  ao  ni- 
vel  da  espádua.  O  corpo  é  refeito  embora  a  altura  dos  membros  o  faça 
parecer  delgado.  A  parte  posterior  do  tronco  é  um  pouco  mais  elevada 
que  a  anterior;  a  cauda  é  curta,  os  membros  são  altos  e  íinos  e  os  cas- 
cos elegantes.  O  pescoço  é  comprido.  As  orelhas  teem  uma  extensão 
pouco  mais  ou  menos  egual  a  trez  quartos  da  cabeça;  os  olhos  são  gran- 
des, vivos  e  ao  mesmo  tempo  de  uma  extraordinária  doçura.  N'esta  es- 
pécie ambos  os  sexos  apresentam  armação;  os  cornos  do  macho  são  po- 
rém, mais  fortes  que  os  da  fêmea.  N'um  e  n'outro  sexo,  estes  appendi- 
ces  frontaes  são  inclinados  para  cima  e  para  traz,  mas  com  a  extremi- 
dade livre  voltada  para  diante  e  para  dentro  de  modo  a  darem  idéa  de 
uma  lyra.  A  cor  do  péllo  é  um  amarello  arenoso,  em  geral;  no  dorso  e 
nos  membros  porém  predomina  o  ruivo  e  no  ventre,  o  branco.  De  resto, 
parece-nos  inútil  insistir,  como  fazem  alguns  auctores,  sobre  as  cambian- 
tes mais  ou  menos  pronunciadas  ou  hgeiras  de  cor,  oflerecidas  por  esta 
ou  por  aqueha  região  do  corpo,  por  isso  mesmo  que  existem  na  espécie 
muitas  variedades  sob  este  ponto  de  vista  especial. 


62  HISTORIA  NATURAL 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHICA 


Habita  o  norte  da  Africa,  o  alto  Egypto,  a  Arábia,  o  centro  da  «Ásia. 


COSTUMES 


A  gazella  encontra-se  sempre  nos  legares  desertos,  nas  planicies; 
nas  montanhas  e  á  beira  dos  rios  é  raríssima.  Em  Kordofahm  encon- 
Iram-se  muitas  vezes  rebanhos  ou  bandos  de  gazellas  de  quarenta  a  cin- 
coenta  cabeças;  nos  legares  favoritos  do  elegantíssimo  ruminante  é,  to- 
davia, muito  raro  encontrar  sociedades  de  mais  de  trez  a  oito  indiví- 
duos. D'estas  sociedades,  as  mais  pequenas  compoem-se  ordinariamente 
de  macho,  fêmea  e  um  filho — que  os  acompanha  até  á  mais  próxima 
estação  do  cio. 

A  gazella  vive  em  movimento  quasi  constante  e  é  por  isso  que  quem 
viaja  pelo  deserto  tem  a  certeza  de  encontral-a  passado  pouco  tempo; 
exceptuando  na  epocha  do  grande  calor  o  tempo  que  vae  do  meio  dia 
ás  quatro  horas  da  tarde,  em  que  o  animal  rumina  tranquillamente  á 
sombra  das  mimosas,  todo  o  resto  do  dia  o  passa  em  movimento.  Note- 
mos com  L.  Figuier  que,  apesar  de  se  encontrar  a  cada  passo  no  de- 
serto, não  é  tão  fácil  como  poderia  parecer  o  vél-a  distinctamente,  pela 
razão  de  que  o  manto  tem  uma  cor  muito  parecida  com  a  do  solo.  E 
com  eíTeito,  o  leitor  decerto  se  recorda  de  que  atraz  dissemos  que  a 
cor  fundamental  do  pêllo  da  gazella  é  um  amarello  arenoso.  É  por  isso 
que  a  vista  de  um  europeu  não  pôde  distinguil-a  á  distancia  relativa- 
mente curta  de  um  kilometro;  os  árabes,  cuja  vista  tem  um  grande 
exercido  nas  percepções  a  distancia,  percebem  a  gazella  a  oito  kilome- 
tros. 

As  gazellas  quando  ruminam  á  sombra  das  mimosas  procedem  sem- 
pre com  a  cautella  excessiva  que  a  timidez  naturalmente  lhes  inculca; 
d 'entre  todas  ha  uma  que  faz  sentinella  e  que,  emquanto  as  outras  estão 
deitadas,  se  conserva  de  pé,  attenta  a  quanto  se  passa  para  avisar  do 
menor  perigo.  A  um  signal  da  sentinella  todo  o  bando  se  pòe  em  fuga. 

A  vista,  o  ouvido  e  o  olfato  são  sentidos  perfeitíssimos  na  gazella; 


MAMÍFEROS  EM  ESPECIAL  63 

a  memoria  é  excellente,  o  que  lhe  permitte  tirar  immeiísos  recursos  da 
experiência. 

A  gazella  é  inoffensiva  e  naturalmente  timida,  o  que  de  modo  ne- 
nhum significa  que  lhe  falte  a  coragem  nos  momentos  precisos.  Nos  ban- 
dos ou  rebanhos  é  frequente,  sobretudo  na  epocha  do  cio,  ferirem-se 
tremendos  combates  em  honra  das  fêmeas.  No  entanto  a  gazella  vive  em 
paz  com  os  outros  animaes  e  não  é  mesmo  muito  raro  encontral-a  arre- 
banhada com  outras  espécies  de  antílopes.  A  timidez  da  gazella  é  antes 
prudência. 

O  tempo  do  cio  é  variável  segundo  as  condições  climatéricas.  Ao 
norte  d'Africa  realisa-se  no  mez  de  Agosto  e  prolonga-se  até  Outubro; 
nos  trópicos  principia  ao  declinar  de  Outubro  e  prolonga-se  até  fins  de 
Dezembro.  É  por  este  tempo  que  se  travam  as  luctas  sangrentas  e  tena- 
císsimas em  que  não  é  raro  que  os  machos  combatentes  partam  a  arma- 
ção. O  vencedor,  o  mais  forte  é  o  preferido  pela  fêmea.  Ao  norte  o  parto 
tem  logar  nos  fins  de  Fevereiro  ou  começos  de  Março  e  ao  sul  desde 
Março  até  Maio.  A  gestação  dura  cinco  a  seis  mezes  e  o  producto  é  um 
filho  único,  extremamente  fraco  nos  primeiros  dias- de  existência.  Esta 
fraqueza  dos  filhos  impõe  aos  pães  o  dever  de  uma  sollicitude  continua, 
se  me  consentem  a  phrase.  E  de  facto  macho  e  fêmea  vigiam  o  recem- 
nascido  e  o  protegem  contra  os  animaes  ferozes.  Esta  vigilância,  este 
amor,  esta  sollicitude,  forçoso  é  confessal-o,  nem  sempre  dão  o  resul- 
tado a  que  miram;  metade  talvez  das  gazellas  nos  primeiros  dias  de 
vida  são  victimas,  afíirma  Brehm,  dos  carniceiros,  o  que  não  deixa  de 
ser-nos  útil,  porque  a  reproducção  illimitada  da  gazella  implicaria  a  ruina 
de  toda  a  vegetação. 


CAÇA 


Caça-se  a  gazella  com  ardor,  com  verdadeira  paixão.  Isto  explica- 
nos  a  multiplicidade  de  meios  empregados  na  perseguição  do  animal. 
Com  effeito,  caça-se  o  animal  usando  das  armas  de  fogo,  empregando  o 
falcão,  recorrendo  ao  auxilio  dos  galgos  ou  ainda  ao  das  águias. 

A  caça  com  o  falcão  e  com  a  águia  é  simples,  é  fácil:  o  caçador 
leva  preza  a  ave  de  rapina  até  avistar  a  gazella  e  larga-a  então;  a  ave 
eleva-se  na  atmosphera  até  uma  certa  altura,  fita  d'ahi  a  preza  e  desce 
sobre  ella  lançando-se-lhe  ao  pescoço,  abrindo-lhe  as  artérias,  sangran- 
do-a  até  á  morte.  O  homem  n'este  caso  torna-se  mero  espectador;  in- 
tervém apenas  para  apanhar  e  conduzir  comsigo  o  animal  abatido.   A 


64  HISTORIA   NATUKA.L 

caça  pelas  armas  de  fogo  é  um  pouco  mais  diíficil,  o  que  naturalmente 
se  comprehende  recordando  o  que  dissemos  da  prudência  da  gazella. 
N'este  processo  de  caça,  todos  os  cuidados  são  poucos  da  parte  do  ho- 
mem para  não  se  fazer  sentir  pelo  ruminante  antes  de  ter  attingido  uma 
distancia  a  que  possa  com  segurança  atirar.  Brehm,  no  entanto,  conta 
que  n'uma  excursão  ao  norte  da  Abyssinia  lograra  simplificar  este  pro- 
cesso de  caça  por  um  meio  engenhoso.  O  naturalista  ia  a  cavallo  na  com- 
panhia de  um  amigo  e  levando  um  creado:  desde  que  avistavam  um 
bando  de  gazellas,  o  naturalista  desmontava,  fazendo-se  substituir  na 
sella  do  cavaho  pelo  creado;  o  naturahsta  seguia  a  pé,  rastejando  na  di- 
recção dos  ruminantes,  em  quanto  os  dois  cavalleiros,  companheiro  e 
creado,  continuavam  o  caminho.  As  gazellas  attentas  á  marcha  dos  ca- 
vallos,  esqueciam-se  de  vigiar  em  torno;  assim  Brehm  conseguia  appro- 
ximar-se  d'ellas  até  uma  pequeníssima  distancia.  A  caça  por  este  meio 
tornava-se  ás  vezes  muito  productiva. 

Em  alguns  togares,  quando  muitos  caçadores  em  perseguição  das 
gazellas  fazem  ouvir  de  momento  a  momento  as  detonações  dos  tiros,  é 
bello  ver  os  ruminantes  correrem  para  as  collinas,  para  os  pequenos 
montes  cobrindo-lhes  rapidamente  as  eminências,  expiando  d'ahi  como 
de  um  observatório  todos  os  movimentos  dos  perseguidores.  Sobre  o  azul 
do  ceu  desenham-se  então  nitidamente  os  contornos  elegantíssimos  do 
animal  è  todas  as  suas  formas  se  apreciam  exactamente  a  distancia. 

Nos  desertos  não  é  raro  que  a  gazeUa  perseguida  se  esconda  por 
traz  de  pequenas  coUinas  de  areia  tão  communs  ahi. 

É  digno  de  observar-se  que  a  gazella  quando  perseguida  pelo  ho- 
mem, não  foge  com  toda  a  velocidade  de  que  é  capaz;  a  carreira  do  ru- 
minante só  se  faz  com  toda  a  rapidez  quando  a  perseguição  é  a  de  um 
cão  de  caça.  N'este  caso,  a  fuga  é  extraordinariamente  rápida;  parece 
que  a  gazella  voa. 

Os  meios  que  acabamos  de  expor  são  os  principalmente  emprega- 
dos na  caça  do  ruminante  em  questão;  no  entanto  no  interior  da  Africa 
emprega-se  também  as  armadilhas.  Cada  um  d'estes  apparelhos  é  for- 
mado, segundo  a  descripção  de  Brehm,  de  um  circulo  de  madeira  oíTe- 
recendo  um  certo  numero  de  ouriflcios  nos  quaes  penetram  outros  tantos 
paus  em  direcção  inclinada  e  convergente  para  baixo,  sendo  na  extremi: 
dade  livre  ponteagudos.  A  cada  uma  d'estas  armadilhas  prende-se  um 
nó  corrente  hgado  a  um  grosso  pau.  A  armadilha  colloca-se  n'um  pe- 
queno fosso  cavado  na  areia,  nos  togares  que  são  transito  habitual  da 
gazella.  O  ruminante  ao  passar  colloca  uma  pata  sobre  qualquer  dos  paus 
da  armadilha,  resvaUa,  cae  ao  fosso,  magoa-se,  procura  desprender-se 
agitando-se,  e  assim  serra  o  nó.  Vendo-se  preza  a  um  grosso  pau  que  a 
incommoda,  a  gazella  foge,  corre  com  toda  a  velocidade  possível,  arras- 


mamíferos  em  especial  65 

ta  o  pau  e  consegue  apenas  partir  a  perna  enleiada.  O  caçador,  quando 
vae  examinar  as  armadilhas  e  descobre  que  uma  gazella  se  deixou  pren- 
der, colloca-lhe  na  pista  um  cão  adestrado  que  vae  descobrir  o  animal 
guiado  pelo  sulco  que  o  pau  deixou  sobre  o  solo. 


liNIMIGOS 


Além  do  homem,  conta  a  gazella  entre  os  seus  inimigos  mais  terri- 
veis  o  cuguar  e  os  cães  do  deserto. 


GAPTIVEIllO 


A  gazella,  apanhada  quando  nova,  supporta  bem  o  captiveiro  e  do- 
mestica-se  mesmo  com  uma  certa  faciUdade.  Nas  casas  dos  europeus  ao 
norte  e  este  d'Africa  véem-se  quasi  constantemente  gazellas  domestica- 
das. Estas  gazellas  seguem  o  dono  por  toda  a  parte,  como  fazem  os  cães, 
entram  pelas  salas,  rodam  em  torno  da  meza  de  jantar,  implorando  ali- 
mento, saem  de  casa,  fazem  excursões  no  deserto,  mas  voltam  ao  fim  da 
tarde  ou  quando  ouvem  a  voz  do  dono. 

Nos  chmas  europeus  é  também  possível  conservar  a  gazella  longo 
tempo  em  captiveiro,  desde  que  se  lhe  dá  sufíiciente  campo  e  os  cuida- 
dos precisos,  especialmente  os  que  se  referem  a  preserverar  o  animal 
dos  rigores  dos  frios.  No  estio  é  preciso  fornecer  ao  ruminante  espaço 
suíTiciente  para  que  elle  possa  desenvolver-se,  caminhar  em  liberdade; 
no  inverno  é  necessário  fornecer-lhe  um  aido  quente.  Não  ha  decerto 
melhor  ornato  para  um  parque  do  que  um  bando  de  gazellas. 

Alimenta-se  a  gazella  captiva  de  pão,  feno,  cevada,  trevo  e  hervas 
verdes,  se  as  ha.  Gosta  muito  de  agua  com  mistura  de  farello,  como  é 
uso  vulgar  dar  ás  cabras.  Bebe  pouco;  um  simples  copo  d'agua  basta- 
Ihe  para  um  dia.  Aprecia  muito  o  sal. 

A  gazella  reproduz-se  em  captiveiro  principalmente  ao  sul,  desde 
que  é  bem  tratada.  Fornecem-nos  a  prova  os  jardins  zoológicos  euro- 
peus. 


VOL.    III 


66  mSTOlllA  NATURAL 


AS  CAMURÇAS 


Tecm  o  porte  das  cabras,  de  que  adiante  havemos  de  occupar-nos, 
e  são  caracterisadas  pela  posse  de  cornos  lisos,  immediatamente  coUo- 
cados  acima  das  orbitas,  verlicaes  até  certa  altura  e  bruscamente  recur- 
vos para  traz  na  extremidade.  Nas  camurças,  os  appendices  frontaes 
existem  nos  dois  sexos  e  quasi  com  a  mesma  forma.  A  cauda  é  curta  e 
as  glândulas  mamarias  duas. 

Conhece-se  uma  espécie  única  de  que  passamos  a  fazer  a  des- 
cripção. 


A  CAMURÇA  DA  EUROPA 


Assemelha-se  muito  ás  cabras,  distinguindo-se  todavia  por  um  corpo 
curto,  refeito,  pernas  compridas  e  fortes,  pescoço  alongado,  orelhas 
ponteagudas  e  pela  forma  dos  cornos.  Mede  um  metro  e  vinte  a  um 
metro  e  vinte  oito  centímetros  de  comprimento,  não  incluindo  a  cauda 
cuja  extensão  é  de  oito  centímetros;  a  altura,  ao  nivel  da  espádua,  é 
de  setenta  e  seis  centímetros  e  a  extensão  dos  cornos  de  vinte  e  oito  a 
trinta.  A  região  posterior  do  tronco  é  um  pouco  mais  elevada  que  a  an- 
terior. Um  macho  velho  pode  pezar  quarenta  a  cincoenta  kilogrammas, 
sendo  todavia  certo  que  raras  vezes  excede  trinta.  O  macho  tem  os  cor- 
nos um  pouco  maiores  e  mais  afastados  que  os  da  fêmea. 

O  manto  da  camurça  da  Europa  varia  muito  de  estação  para  esta- 
ção. No  estio  é  de  um  trigueiro  arruivado,  passando  a  amarello  claro 
no  ventre.  Ao  meio  do  dorso  ha  uma  Unha  de  um  trigueiro  carregado. 
A  garganta  é  amarella  e  a  nuca  de  um  branco  amarellado.  As  espáduas, 
as  coxas,  o  peito  e  as  partes  lateraes  do  tronco  são  de  um  pardo  es- 
curo; a  parte  posterior  do  tronco  é  branca.  A  face  superior  e  a  raiz  da 
cauda  são  de  um  pardo  arruivado;  a  face  inferior  e  a  extremidade  são 


mamíferos  em  especial  67 

negras.  Uma  facha  negra,  perfeitamente  delimitada,  parte  da  orelha  e 
passa  por  diante  dos  olhos.  Manchas  de  um  amarello  ruivo  encontram-se 
no  angulo  anterior  do  olho,  entre  as  narinas  e  o  lábio  superior. 

No  inverno  a  camurça  é  de  um  trigueiro  muito  escuro,  tendo  po- 
rém o  ventre  branco.  A  parte  inferior  dos  membros  é  mais  clara  que  a 
superior  e  oíTerece  reflexos  ruivos.  Os  pés  e  a  cabeça  são  de  um  branco 
amarellado  Uma  facha  longitudinal  negra  estende-se  da  ponta  do  focinho 
até  ás  orelhas. 

A  muda  de  pêllo  faz-se  tão  insensivelmente  que  o  animal  só  durante 
muito  pouco  tempo  apresenta  o  manto  de  inverno,  ou  o  manto  de  verão, 
taes  como  acabamos  de  descrevêl-os. 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGIUPIIICA 


«A  pátria  da  camurça,  diz  Brehm,  são  os  Alpes.  Encontra-se  este 
ruminante  desde  a  Sabóia  até  Abruzzes  passando  pelo  sul  da  França; 
depois,  para  o  sudoeste,  atravez  das  montanhas  da  Dalmácia  até  á  Gré- 
cia, sobre  os  rochedos  de  Veluzi;  para  o  norte  até  aos  Carpathos,  em 
Tatra.  Diff'erirão  especificamente  as  camurças  dos  Pyrineus,  de  Hespanha 
e  dos  Alpes?  Não  sabemos  responder.  Nos  Alpes  as  camurças  são  vulga- 
res, exceptuando  a  Baixa-Austria  onde  se  lhes  faz  uma  guerra,  uma  per- 
seguição continua. 

«Encontram-se  ainda  as  camurças  no  Cáucaso,  na  Geórgia,  na  Sibé- 
ria; são  porém  pouco  conhecidas,  motivo  por  que  nos  abstemos  de  fa- 
zer-lhes  a  descripção.))  *■ 


COSTUMES 


A  camurça  prefere  para  viver  as  regiões  elevadas,  principalmente 
no  estio.  Ao  amanhecer,  a  camurça  desce,  procurando  pastos,  pelos  flan- 
cos das  montanhas;  ao  meio  dia  deita-se  á  sombra  de  um  rochedo  ou 


Brehmj  Obr.  cii.,  vol.  2.",  pg.  552. 


68  HISTORIA  NATURAL 

de  uma  arvore  e  depois  de  um  certo  tempo,  sobe  de  novo  a  montanha 
era  demanda  de  um  logar  onde  repouse  mais  longamente  e  onde  ru- 
mine. Á  noite,  abriga-se  entre  os  rochedos,  nas  grutas  ou  sob  as  sahen- 
cias  que  elles  oíFerecem,  na  vertente  septentrional  ou  occidental  da  mon- 
tanha, se  é  no  estio,  na  meridional  ou  oriental,  se  é  no  inverno.  Quando 
a  noite  é  clara,  quando  ha  luar,  vô-se  a  camurça  pastar;  não  é  pois  um 
animal  exclusivamente  diurno. 

A  camurça  vive  sohtaria,  excepto  no  tempo  do  cio.  Então,  reune-se 
ás  congéneres,  formando-se  bandos,  que  foram  em  outro  tempo  muito 
mais  numerosos  do  que  são  hoje. 

Pela  rapidez  dos  movimentos,  a  camurça  rivaUsa  com  qualquer  outro 
antílope  das  montanhas.  Trepa  com  destreza,  salta  com  segurança,  corre 
com  facilidade  pelos  legares  ainda  os  mais  perigosos,  n'aquelles  mesmos 
que  as  cabras  se  não  atrevem  a  pisar.  Quando  marcha  de  vagar,  tem 
alguma  coisa  de  pezada,  de  deselegante;  quando  corre  porém,  quando 
foge,  torna-se  bella,  graciosa,  elegantíssima.  Os  saltos  que  dá  são  admi- 
ráveis; Wolten  viu  uma  camurça  captiva  saltar  um  muro  de  quatro  me- 
tros e  meio  de  altura.  O  mesmo  observador,  medindo  a  distancia  que  de 
um  salto  pode  percorrer  a  camurça,  encontrou  sete  metros.  Corre  com 
segurança  extrema  por  cima  dos  rochedos  mais  escarpados.  Mesmo 
quando  ferida,  mesmo  com  uma  perna  quebrada,  a  camurça  marcha  por 
caminhos  perigosos  com  assombrosa  agihdade. 

Somente  no  gelo,  diz  Tschudi,  a  camurça  marcha  devagar,  com 
precaução.  É  também  ahi  que  a  sua  caça  se  torna  relativamente  fácil. 

Schinz  diz  que  ás  vezes  a  camurça  se  aventura  tanto  na  ascensão 
dos  rochedos  que  chega  a  ponto  de  não  poder  nem  continuar  a  marcha, 
nem  retrogradar,  sendo  forçada  pelo  cansaço,  pela  fadiga  a  deixar-se 
cair  nos  precipícios.  Tschudi  contesta  isto  e  assegura  que  em  casos  taes 
a  camurça  se  não  deixa  cair,  mas  se  atira  ao  precipício,  qualquer  que 
seja  a  altura,  forcejando  por  tocar  o  solo  de  modo  a  molestar-se  o  menos 
possível;  para  isso  estende  violentamente  o  pescoço  para  traz.  Embora 
presinta,  como  deve  presentir,  que  o  salto  lhe  será  fatal,  nem  por  isso 
deixa  de  díil-o;  é  ainda  Tschudi  que  o  aífirma. 

A  camurça  tem  admiravelmente  desenvolvida  a  memoria  dos  lega- 
res. Conhece  todos"  os  caminhos  que  uma  vez  trilhou;  conhece,  pode  di- 
zer-se,  todas  as  pedras  dos  seus  domínios. 

Os  sentidos  são  excepcionalmente  perfeitos  n'esta  espécie;  a  vista, 
o  ouvido  e  olfato  attingem  com  effeito,  na  camurça  o  mais  alto  grão  de 
desenvolvimento.  Assim  dotado,  o  famoso  ruminante  pode  exercer,  e 
exerce,  em  torno  de  si  uma  vigilância  constante;  mesmo  dormindo,  pa- 
rece que  os  seus  órgãos  continuam  a  funccionar.  Para  descançar,  raras 
vezes  se  deita;  de  ordinário  toma  a  posição  mais  conveniente  para  poder 


mamíferos  em  especial  C9 

fugir  ao  mais  leve  perigo  sentido.  Geralmente  é  sob  as  saliências  dos  ro- 
chedos que  se  esconde,  com  o  dorso  coberto  e  os  lados  do  corpo  livres, 
de  modo  a  abranger  em  torno  de  si  um  largo  espaço.  Quando  um  bando 
ou  rebanho  pasta,  ha  sempre  uma  camurça  que  faz  sentinella,  destacada 
ao  longe,  a  distancia;  essa  sentinella  que  pasta  só,  ergue  de  instante  a 
instante  a  cabeça,  olha  em  todas  as  direcções,  fareja  em  todos  os  senti- 
dos. Se  sente  um  homem  (e  é  capaz  de  senlil-o  a  uma  distancia  consi- 
derável) não  socega  em  quanto  não  consegue  vél-o.  O  bando,  conhece- 
dor do  perigo,  agita-se,  inquieta-se,  corre  de  um  lado  para  o  outro, 
farejando,  olhando  sempre,  procurando  calcular  a  fuga.  Se  descobre  o 
homem,  a  camurça  olha-o  com  curiosidade  e,  se  ehe  se  não  move,  eUa 
não  se  move  também.  Mas  desde  que  o  caçador  executa  a  mais  hgeira 
deslocação,  a  camurça  foge,  corre  com  espantosa  velocidade  em  busca 
de  um  asylo  qualquer,  de  um  escondrijo  próximo.  «Quando  o  guia  pre- 
sente um  perigo,  escreve  Tschudi,  assobia,  como  faz  a  marmota,  bate 
no  chão  com  uma  das  patas  de  diante  e  deita  a  fugir;  os  outros  se- 
guem-o  a  galope.»  * 

Sob  o  ponto  de  vista  das  faculdades  intellectuaes,  a  camurça  é  tam- 
bém perfeitamente  dotada;  é  prudente,  examina,  considera,  calcula  an- 
tes de  executar  qualquer  movimento.  Tem  uma  memoria  excellente; 
mesmo  decorridos  muitos  annos,  sabe  onde  a  perseguiram,  reconhece  o 
logar  onde  encontrou  abrigo.  Ha  regiões  em  que  a  caça  da  camurça  é 
prohibida;  ahi  o  ruminante  é  atrevido,  cheio  de  confiança  e  abeira-se  do 
homem  como  se  quizesse  conhecel-o  de  perto,  tomar  com  ehe  relações. 
Pelo  contrario,  nas  locahdades  em  que  a  perseguem,  a  camurça  foge  do 
homem  desde  que  o  vê,  embora  a  uma  enorme  distancia. 

No  estio  a  camurça  alimenta-se  de  plantas  alpinas,  nomeadamente 
das  que  crescem  perto  do  hmite  das  neves,  rebentos  de  pinheiros  e  de 
abetos.  No  inverno  é  forçada  a  contentar-se  com  hervas  que  atravessam 
o  gelo,  com  musgos  e  lichens.  Não  é  exigente  na  alimentação  e  supporta 
ás  vezes  por  muito  tempo  a  fome.  A  agua  porém  é-lhe  sempre  indispen- 
sável. Gosta  muito  de  sal.  Se  os  pastos  são  bons,  a  camurça  engorda 
consideravelmente;  na  epocha  do  cio  porém,  e  no  inverno,  quando  uma 
espessa  camada  de  gelo  cobre  o  solo,  emagrece  muito.  Então  desce  ás 
florestas  e  ahi  come  os  lichens  que,  como  barbas,  pendem  das  arvores. 
Estabelece-se  perto  dos  pinheiros  e  desde  que  o  tempo  o  permitte,  vae 
d'arvore  em  arvore  procurando  ahmento.  Ha  quem  affirme  que  nos  in- 
vernos rigorosos,  as  camurças  morrem  á  mingua  de  sustento.  Tschudi 
aflirma  também  que  ás  vezes  a  camurça  procurando  os  lichens  prende 


Tschudi,  Ob)\  cit,  pg.  440. 


70  IIISTORTA   NATURAL 

OS  gallios  aos  ramos  de  alguma  arvore,  fica  suspenso  e  ahi  morre.  O  na- 
turalista que  acabamos  de  citar  encontrou  o  esqueleto  de  uma  camurça 
assim  morta. 

O  cio  principia  em  fins  do  outomno.  Os  velhos  machos  que  durante 
todo  o  inverno  tinham  vivido  solitários,  reunem-se  então  em  bandos.  É 
também  então  que  teem  logar  as  luctas  tremendas  dos  machos,  luctas 
em  que  de  ordinário  algum  dos  contendores  é  morto,  se  ellas  se  dão 
nas  montanhas  ou  sobre  precipicios.  O  mais  forte  consegue  n'estas  con- 
dições despenhar  o  mais  fraco.  O  vencedor  seguido  da  fêmea  isola-se 
para  viver  com  ella  até  ao  meio  do  inverno,  epocha  em  que  todos  os 
pffix^s  se  agremiam  em  bandos.  Vinte  semanas  depois  do  coito,  em  fins 
de  Abril  ou  Maio,  a  fêmea  pare  um,  raras  vezes  dous  filhos.  Poucas  ho- 
ras depois  de  nascida,  a  pequenina  camurça  encontra~se  já  apta  para  se- 
guir a  mãe  e  ao  fim  de  alguns  dias  é  quasi  tão  ágil  como  ella.  A  solli- 
citude  da  mãe  é  extrema;  pelo  contrario,  o  pae  não  liga  á  prole  a  mí- 
nima importância.  A  camurça  conserva-se  na  companhia  da  mãe  até  ao 
fim  de  Maio. 

Antes  de  parir,  a  camurça  tem-se  separado  do  rebanho  e  procurado 
um  logar  próprio,  solitário,  no  qual  permanece  com  a  prole.  E'  de  ver 
como  ella  ensina  pelo  exemplo  ao  filhinho  tudo  quanto  elle  carece  de  sa- 
ber: trepar,  correr,  saltar.  De  resto,  o  filho  paga  em  dedicação  todos 
os  desvelos  maternos.  Muitos  caçadores  aífirmam  ter  visto  os  filhinhos 
immoveis  deante  do  cadáver  da  mãe.  Os  orphãos  são  recolhidos  e  cuida- 
dos pela  primeira  fêmea  que  apparece. 

O  crescimento  da  camurça  é  rápido:  aos  trez  mezes  apparecem  os 
cornos  e  aos  trez  annos  está  adulta.  Pode  attingir,  segundo  se  pensa,  a 
idade  de  vinte  ou  trinta  annos. 


INIMIGOS 


São  numerosos'  os  inimigos  da  camurça  e  terríveis  os  perigos  que 
corre,  desde  as  quedas  de  grandes  penedos  que  matam  muitos  d'estes 
ruminantes  até  ás  avalanches  que  sepultam  rebanhos  inteiros.  O  lynce, 
o  lobo  e  o  urso  são,  entre  os  mamíferos,  os  mais  temíveis  perseguido- 
res da  camurça.  Os  carniceiros  aerios,  a  águia  por  exemplo,  são  peiores 
ainda,  porqu-e  o  ruminante  mal  pode  evitar-lhes  o  attaque.  No  entanto, 
segundo  Brehm,  o  homem  subsiste  como  o  mais  cruel  de  todos  os  ini- 
migos pela  teimosia  com  que  persegue  o  pobre  ruminante. 


mamíferos  em  especial  71 


CAÇA 


Está  perfeitamente  averiguado  lioje  que  o  numero  de  camurças  foi 
n  outro  tempo  maior  do  que  é  hoje.  A  introducção  das  armas  de  fogo 
na  caça,  explica  esta  diíTerença.  As  perseguições  á  camurça  teem  uma 
longa  historia.  Desde  os  tempos  mais  remotos  que  taes  perseguições  são 
consideradas,  na  phrase  apaixonada  dos  caçadores,  um  nobre  prazer.  Os 
homens  mais  altamente  collocados  da  gerarchia  social,  imperadores,  ar- 
cebispos, duques,  archiduques,  príncipes,  todos  mais  ou  menos  e  desde 
muito  cultivaram  o  nobre  prazer,  repitamos  a  phrase. 

Ora,  digamol-o  desde  já,  a  caça  da  camurça  não  é  um  exercício  fá- 
cil, ao  alcance  de  todos;  quem  o  tentar  precisa  de  ser  sóbrio,  robusto, 
infatigável,  pratico  nas  montanhas  e  conhecedor  dos  costumes  do  ani- 
mal. «O  caçador  carece,  diz  Tschudi,  de  uma  vista  excellente,  de  uma 
cabeça  ao  abrigo  das  vertigens,  de  um  corpo  solido,  endurecido,  capaz 
de  supportar  os  caprichos  atmosphericos  das  regiões  geladas,  de  cora- 
gem, de  presença  de  espirito,  de  uma  intelligencia  rápida,  de  muita  de- 
cisão, e  emfim  de  bons  pulmões  e  de  músculos  infatigáveis.  Não  lhe 
basta  ser  um  atirador  excehente;  é-lhe  preciso  ser  também  um  trepador 
perfeito,  mais  atrevido  que  a  mais  atrevida  cabra.»  *  Se  nos  lembrar- 
mos das  alturas  a  que  é  forçado  a  subir  o  caçador  de  camurças,  se  por 
um  momento  imaginarmos  as  posições  extravagantes  que  6  obrigado  a 
tomar  e  os  perigos  por  que  passa,  não  acharemos  hyperbohcas  as  pala- 
vras do  auctor  de  Os  Alpes. 

O  caçador,  segundo  Brehm,  veste  um  fato  cinzento  e  quente,  toma 
um  pau  gancheado  e  colloca  ás  costas  um  sacco  com  pólvora,  chumbo  e 
mantimentos,  geralmente  pão,  queijo  e  alguma  bebida  alcoohca.  Ou  ca- 
minha calçando  uns  grossos  sapatos  de  montanha,  ou,  o  que  é  talvez 
melhor,  vae  descalço,  levando  resina  com  que  fricciona  os  pés  para  não 
escorregar.  A  arma  é  geralmente  uma  carabina,  de  coronha  leve.  É  quasi 
indispensável  n'esta  caça  um  bom  occulo  de  alcance. 

O  caçador  antes  de  principiar  a  sua  excursão  venatoria  n'um  dado 
local,  percorre-o  pedindo  informações  aos  pastores;  se  as  pedisse  aos 
caçadores  não  obteria  resposta.  Uma  vez  conhecido  o  local,  que  é  ge- 
ralmente de  algumas  léguas  quadradas,  parte  de  noite  para  a  caça  de 


1     Ohr.  at.,  pg.  450. 


72  mSTOniA    NATURAL 

modo  a  ter  attingido  as  pastagens  da  camurça  antes  do  erguer  do  sol. 
Gaminlia  silencioso  sempre,  lendo  em  vista  a  direcção  dos  ventos,  até 
se  approximar  dos  legares,  antes  reconhecidos,  em  que  a  camurça  re- 
pousa. Então  esconde-se  por  traz  de  algum  rochedo  ou  de  algum  malto, 
até  romper  o  sol.  N'esta  occasião  o  guia  do  rebanho  ergue-se  lenta- 
mente; os  companheiros  imitam-o.  l5  o  momento  em  que  o  caçador  pode 
escolher  a  victima,  geralmente  um  macho  que  facilmente  se  conhece 
pelo  tamanho  e  aíTastamento  dos  cornos.  O  caçador  atira  e  o  animal  cae; 
os  outros  ficam  por  um  momento  espantados  a  olhar  para  o  ponto  d'onde 
parte  o  fumo,  para  fugirem  logo  depois. 

lia  um  outro  processo  de  caça  que  consiste  em  perseguir  a  camurça 
oLrigando-a  a  subir  até  um  ponto  d'onde  lhe  seja  absolutamente  impos- 
sível sair.  Esta  caça,  comprehende-se  bem,  é  diíTicil  e  perigosíssima,  mas 
em  geral  productiva;  o  rebanho  de  camurças,  seguido  pelo  caçador,  che- 
gando a  um  ponto  para  além  do  qual  não  pode  passar,  retrograda  e 
vem  assim  passar  ao  lado  do  homem,  ás  vezes  mesmo  por  cima  do  corpo 
d'elle.  É  então  que  o  caçador  pode  matar  muitos  individues.  N'estas  ex- 
cursões o  homem,  tentado  pela  caça,  commette  verdadeiras  imprudên- 
cias; ás  vezes  encontra-se  em  situações  desesperadas  em  que  toda  a 
presença  de  espirito  é  pouca  para  salvar-se  de  uma  morte  imminente. 

A  caça  da  camurça  pelos  tempos  de  gelo  na  montanha  é  perigosís- 
sima. Quantos  caçadores  mortos  n'estas  inglórias  e  obscuras  excursões! 
O  frio,  a  queda  de  fragmentos  de  gelo,  a  difficuldade  de  caminhar,  o 
somno  irresistível,  eis  os  perigos  princípaes,  as  causas  de  morte  mais 
communs.  De  resto,  um  tal  processo  de  caça  é  sempre  pouco  productívo, 
porque  geralmente  a  camurça  no  tempo  das  neves  abandona  a  montanha 
pelos  largos  descampados. 

Hoje  que  o  numero  de  camurças  é  diminuto,  mal  vale  a  penna  ten- 
tar a  caça.  Tschudi  affirma  que,  mesmo  depois  de  ter  atirado  sobre  uma 
camurça,  se  a  não  feriu  de  morte,  o  caçador  passa  trabalhos  horríveis 
para  a  apanhar.  Se  a  bala  não  partiu  direita  á  cabeça,  ao  pescoço  ou  ao 
coração,  a  camurça  consegue  fugir  com  notável  rapidez  e  o  caçador  é 
forçado  a  seguir  ás  vezes  dias  inteiros  o  rastro  de  sangue  para  apanhar 
o  animal.  Acrescente-se  que  o  caçador  que  leva  ás  costas  uma  camurça 
morta,  carece  de  adoptar  precauções  de  toda  a  ordem  para  não  ser 
visto  pelos  caçadores  das  locahdades  que  vae  attravessando.  Se  é  visto, 
a  inveja  e  as  rivahdades  despertam-se,  o  que,  não  poucas  vezes,  occa- 
siona  luctas  bem  pouco  edificantes.  O  naturahsta  que  vimos  de  citar  diz 
que  os  interesses  colhidos  hoje  na  caça  da  camurça  não  compensam  de 
modo  nenhum  o  trabalho  e  o  tempo  que  ella  exige.  No  entanto  o  ardor, 
o  enthusiasmo  dos  caçadores  parece  não  diminuir,  antes  augmentar  á 
medida  das  diíficuldades  e  da  falta  de  lucros.  Assim  conta  o  mesmo  au- 


mamíferos  em  especial  73 

ctor  a  este  respeito  dois  casos  interessantissimos:  um  refere-se  a  um 
velho  de  setenta  e  um  annos  que  soíTreu  a  amputação  de  uma  perna  e 
que,  não  obstante,  continuou  a  caçar,  enviando  ao  medico  dois  annos 
depois  da  operação  uma  pelle  de  camurça  por  elle  próprio  morta;  o  ou- 
tro caso,  não  menos  curioso  refere-se  a  um  rapaz  que  dizia  a  Saus- 
sure:  «meu  pae  e  meu  avô  morreram  na  caça  da  camurça  e  eu  estou 
perfeitamente  convencido  de  que  me  espera  a  mesma  sorte;  comtudo 
ainda  quando  me  quizessem  dar  uma  fortuna  com  a  condição  de  renun- 
ciar á  caça,  não  acceitaria.» 


CAPTIVEIRO 


A  camurça,  apanhada  em  quanto  nova,  domestica-se  facilmente. 
Alimenta-se  principalmente  de  leite  de  cabra,  de  bervas  saborosas  e  de 
pão.  Dá-se  perfeitamente  com  as  cabras,  de  que  tem  muitos  costumes,  e 
com  os  cães.  Segue  o  dono  e  parece  supportar  muito  bem  o  captiveiro. 
De  resto,  a  sobriedade  que  a  caracterisa,  faz  com  que  seja  fácil,  pouco 
dispendioso  o  sustental-a.  Devemos  observar  que  á  medida  que  a  idade 
progride,  a  camurça  vae-se  tornando  selvagem,  usando  muitas  vezes 
das  armas  naturaes. 

São  muito  raros  os  casos  de  reproducção  em  captiveiro.  A  união 
sexual  da  camurça  com  a  cabra  domestica,  é  fecunda. 


usos  E   PRODUGTOS 


A  camurça  fornece-nos  a  carne  que  é  um  bom  alimento,  a  gordura 
que  é  de  qualidade  superior,  melhor  que  a  da  cabra,  e  emfim  a  pelle 
que,  como  se  sabe,  é  consistente,  macia,  de  muita  utilidade  e  que  n'ou- 
tro  tempo  se  empregava  na  confeição  de  vestidos. 


74  IIISTOniA  NATURAL 


A  CONDOMA 


Esle  animal  não  ó  conhecido  na  Europa  senão  desde  a  ultima  me- 
tade do  século  xviir.  É  certo  que  na  Europa  tinham  apparecido  por  mui- 
tas vezes  e  desde  a  mais  remota  antiguidade  os  cornos  d'este  animal. 
No  entanto  não  se  sahia  qual  elle  fosse,  porque  se  não  vira  um  exem- 
plar completo.  Hoje  o  animal  é  muito  conhecido  e  Brehm  que  o  obser- 
vou vivo  dá  d'elle  uma  descrippão  completíssima,  superior  a  quantas  co- 
nhecemos d^oulros  auctores. 


CARACTERES 


A  condoma  é  uma  antílope  muito  maior  que  o  veado  ordinário.  O 
macho  adulto  mede  três  metros  e  trinta  centímetros  de  comprido  desde 
o  focinho  até  á  extremidade  da  cauda.  A  fêmea  é  mais  pequena;  raras 
vezes  excede  dois  metros  e  sessenta  centímetros  de  comprimento  sobre 
um  e  sessenta  de  altura  ao  nivel  da  espádua. 

Nas  formas  a  condoma  recorda  o  veado.  Tem  o  corpo  refeito,  o  pes- 
coço de  comprimento  médio,  a  cabeça  curta,  a  região  frontal  larga  e  o 
focinho  ponteagudo.  O  lábio  superior  6  coberto  de  péllos,  os  olhos  são 
grandes  e  as  orelhas  mais  compridas  que  metade  da  cabeça.  Os  cornos 
constituem  para  este  animal,  na  phrase  de  Brehm,  um  ornamento  es- 
plendido. N'um  macho  velho  elles  podem  attingir  cento  e  trinta  e  dois 
centímetros  de  comprido.  Custa  até  a  comprehender  como  o  animal  pôde 
com  elles  e  sobretudo  como  com  taes  appendices  consegue  atravessar  os 
togares  arborisados.  Os  cornos  são  inclinados  para  traz  e  um  pouco  para 
fura;  ás  vezes  o  aíTastamento  entre  as  extremidades  livres  dos  cornos 
chega  a  ser  de  um  metro.  Estes  appendices  frontaes  são  conformados 
em  espiral,  comprehendendo  cada  volta  doesta  um  terço  do  comprimento 
total  do  órgão. 

O  manto  d'este  animal,  formado  de  pellos  lisos,  curtos  e  um  pouco 
grossos,  oíferece  uma  certa  belleza.  A  côr  fundamental  é  difficil  de  ex- 
primir: é  um  composto  de  pardo,  trigueiro  e  ruivo.  A  parte  posterior 
do  ventre  e  a  face  interna  das  pernas  são  de  um  liranco  pardacenío.   A 


mamíferos  em  especial  75 

cauda  é  de  um  trigueiro  accentuado  na  face  superior  e  branco  na  iníe- 
rior,  terminando  por  um  tufo  de  pellos  negros.  Os  olhos  offerecem  um 
circulo  ruivo.  Sobre  o  trigueiro  do  tronco  destacam-se  sete  a  nove  fa- 
chas transversaes  brancas,  algumas  bifurcadas.  Collocadas  a  egual  dis- 
tancia umas  das  outras,  estas  fachas  descem  do  dorso  para  as  partes 
latcraes  do  tronco;  as  das  fêmeas  são  mais  estreitas  que  as  do  macho 
c  as  do  recemnascido  são  mais  numerosas  que  as  do  adulto. 


Habita  a  Africa,  sendo  ahi  abundante  cm  todas  as  regiões.  No  Gabo 
da  Boa-Esperança  foi  n'outro  tempo  mais  vulgar  do  que  e  hoje. 


COSTUMES 


Ora  habita  as  planícies,  ora  as  montanhas,  mas  sempre  as  florestas, 
sobretudo  as  de  arvores  espinhosas.  Os  machos  vivem  sohtarios  e  as 
fêmeas  em  pequenas  agrcmiapões  de  quatro  a  seis  individues.  Comtudo, 
alguns  caçadores  affirmam  que  os  machos  novos,  repellidos  dos  reba- 
nhos pelos  velhos,  formam  pequenos  grupos  onde  invariavelmente  reina 
uma  grande  alegria. 

A  condoma  oíTerece  sob  o  ponto  de  vista  dos  costumes,  notáveis 
semelhanças  com  o  veado.  Percorre  grandes  espaços  e  muda  regular- 
mente de  morada.  O  porte  é  tão  altivo  como  o  do  veado  e  a  marcha  tão 
graciosa  como  a  d'elle.  Emquanto  a  não  perturbam,  a  condoma  segue  ao 
longo  dos  flancos  das  montanhas  ou  nas  planícies,  evitando  cuidadosa- 
mente picar-se  ou  prender  a  armação.  Ahmenta-se  principalmente  de  fo- 
lhas e  gomos  d'arvores,  sem  comtudo  despresar  as  hervas.  Se  por  um 
motivo  qualquer  se  amedronta,  caminha  a  trote,  raras  vezes  a  galope. 
Mesmo  quando  este  ultimo  caso  se  dá,  a  velocidade  nunca  é  muita. 
Nas  florestas,  a  condoma  quando  marcha  ó  forçada  para  se  não  prender 
a  lançar  para  traz  a  cabeça  até  que  as  extremidades  dos  cornos  razem 
a  superfície  do  dorso.  O  macho  não  faz  ouvir  a  voz  senão  na  opoca  do 
cio. 


U)  HISTORIA   NATURAL 

A  quadra  dos  amores  é  em  fins  de  Janeiro.  O  macho  solta  de  tarde 
grarides  gritos  que  altracm  os  rivaes  á  lucla.  A  parturição  realisa-se  em 
fins  de  Agosto;  o  trabalho  de  gestapão  dura  pois  sete  a  oito  mczes.  A 
fêmea  alimenta,  ensina,  vigia  o  recemnascido;  o  macho  não  collabora 
n'esta  empreza  delicada. 

A  condoma  pela  robustez  de  que  é  dotada  tem  poucos  inimigos  a 
temer;  defcndc-se  corajosamente  dos  carniceiros  mais  temíveis. 


CACA 


Ha  um  modo  fácil  para  caçar  a  condoma,  desde  que  se  possue  uma 
boa  arma  de  fogo:  é  a  embuscada.  Depois  do  meio  dia,  a  condoma,  que 
precisa  de  beber  agua  em  grande  quantidade,  desce  das  montanhas  em 
busca  de  um  riacho,  de  uma  corrente  qualquer.  Como  n'estas  excursões, 
a  antilope  segue  sempre  os  mesmos  caminhos,  um  caçador  que  os  co- 
nheça, espera-a  e  atira-lhe.  Sendo  a  condoma  um  animal  vigilante,  muito 
bem  dotado  de  sentidos,  o  caçador  raras  vezes  poderá  fazer-lhe  fogo  a 
uma  distancia  inferior  a  duzentos  passos;  é  por  isso  que  não  pode  dis- 
pensar-se  uma  boa  arma  de  alcance. 

Os  indígenas,  usando  de  armas  primitivas  ou  de  má  quaUdade,  não 
podem  empregar  este  processo  de  caça.  Adoptam  um  outro.  Reunem-se 
a  outros  companheiros  em  grande  numero,  e  perseguem  a  condoma  na 
certeza  de  que  em  pouco  tempo  a  fatigarão.  A  antilope  perseguida  de 
um  lado  foge  para  o  opposto,  onde  todavia  encontra  também  persegui- 
dores; obrigada  a  fugir  de  novo,  acontece-lhe  o  mesmo  que  anterior- 
mente, até  que  o  animal  se  fatiga  e  lucta,  mas  acaba  por  ser  vencido  e 
morto  a  golpes  de  frecha. 


GAPTIVEIRO 


A  domesticação  das  condomas  é  fácil  em  quanto  são  novas.  Os  na- 
turalistas que  as  teem  visto  n'estas  condições  são  concordes  em  nol-as 
apresentar  como  animaes  encantadores,  alegres  e  dóceis.  Nos  jardins 
zoológicos  da  Europa,  estas  antílopes  são  raríssimas. 


mamíferos  em  especial  77 


usos  E  PRODUGTOS 


A  carne  da  condoma  é,  segundo  dizem,  excellente;  Brehm  que  a 
comeu,  compara-a  á  do  veado.  A  medulla  dos  ossos  é  para  certas  popu- 
lações africanas  um  acepipe  de  primeira  ordem.  A  morte  em  caça  de 
uma  condoma  é  para  os  cafres  e  para  os  abyssinios  um  motivo  de  festa. 
A  pelle  é  também  muito  estimada;  fornece  correias,  coberturas  para  sel- 
las,  cliicotes,  etc.  Segundo  Gerbe,  os  hollandezes  pagam  por  altos  pre- 
ços esta  parte  do  animal.  Os  cornos  servem  ainda  em  algumas  povoa- 
ções para  reservatórios  de  mel,  de  sal,  de  café,  etc. 


A  antílope  negra 


Tem  pouco  mais  ou  menos  as  dimensões  do  veado.  A  cor  geral  do 
pêllo  é  um  negro  Insidio,  de  grande  belleza.  Os  cornos  teem  pelo  menos 
duas  vezes  o  comprimento  da  cabeça  e  são  annelados  nos  seus  dois  ter- 
ços inferiores.  Os  cornos  existem  em  ambos  os  sexos,  sendo  na  fêmea 
mais  delgados  que  no  macho. 


DISTRIBUIÇÃO  GE0GRAPHICA 


É  originaria  do  Gabo  da  Boa-Esperança, 


78  IlISTOr.lA   NATUHAL 


COSTUMKS 


Não  encontramos  inclicai^ões  positivas  sobre  o  género  de  vida  da 
antilope  negra.  Não  sabemos  quaes  os  logares  que  babita  de  preferen- 
cia, qual  a  epocba  da  reproducção,  quaes  os  seus  hábitos  emfim.  A  jul- 
gar pelo  numero  de  mamas  deve  dar  á  luz  dois  filhos  por  parto.  Gordon 
Cumming  que  a  viu  liraita-se  a  represental-a  como  um  bello  animal,  vivo, 
magestoso  e  timido. 


AS  antílopes  okyx 


Este  género  é  conhecido  desde  a  mais  aíTastada  antiguidade.  De  uma 
das  suas  espécies  encontramos  a  imagem  em  diversas  posições  nos  mo- 
numentos do  Egypto  e  da  Núbia.  Ahi  apparece  ás  vezes  com  uma  corda 
ao  pescoço  o  que  sem  contestação  indica  que  o  animal  era  objecto  de 
caça  e  de  captiveiro  a  esse  tempo.  As  lyras  dos  gregos  eram  feitas  dos 
cornos  d'esles  animaes. 

Este  género  comprehende  três  espécies,  das  quaes  mencionaremos 
uma  apenas,  por  mais  importante. 


A  antílope  leucoryx 


Esta  espécie  é  também  algumas  vezes  designada  pelo  nome  de  oryx 
da  Nubicc.  É  um  animal  pezado  e  muito  característico.  A  armação  d'este 


MAMIFEIIOS   EM  ESPECIAL  70 

ruminante  differe  por  tal  lorma  da  de  todas  as  outras  antílopes  que  qual- 
quer confusão  é  impossível.  Os  cornos  lêem  pelo  menos  metade  do  com- 
primento do  corpo;  nos  machos  adultos  medem,  termo  médio,  um  metro 
e  quinze  centímetros  de  comprido  e  apresentam  vinte  e  seis  a  quarenta 
anneis  em  toda  a  extensão.  A  espessura  que  é  de  quatro  a  cinco  centí- 
metros na  raiz,  vae  diminuindo  pouco  e  pouco  até  á  extremidade.  Diri- 
gindo-se  para  fora  e  para  traz  n'uma  curva  de  grande  raio  e  de  conve- 
xidade superior,  os  cornos  que  na  origem  são  muito  próximos  affastam-se 
mais  nas  extremidades.  O  péllo  do  animal  é  curto,  grosseiro  e  espesso. 
A  cor  geral  é  um  escuro  fuliginoso  com  cambiantes  ruivas  e  manchas 
trigueiras  mais  ou  menos  numerosas  na  cabeça,  focinho  e  dorso. 


COSTUMES 


Os  hábitos  de  vida  da  antílope  leucoryx  são  os  mesmos  que  os  das 
outras  espécies;  relativamente  ao  captiveiro,  á  caça  e  aos  usos  e  pro- 
ductos  também  o  que  se  diz  de  uma  espécie  diz-se  de  todas.  Assim  as 
considerações  que  seguem  deve  o  leitor  consideral-as  como  relativas  a 
todas  as  espécies  de  oryx. 

As  oryx,  segundo  Brehm,  encontram-se  aos  pares  ou  em  pequenos 
bandos  compostos  de  macho  fêmea  e  filhos.  Os  grandes  bandos  de  vinte 
e  mais  cabeças,  como  um  que  viu  Gordon  Gumming,  são  raros.  Nos  to- 
gares desertos  as  oryx  não  são  raras;  comtudo,  porque  as  caracterisa 
uma  grande  timidez,  é  diíficil  vêl-as;  geralmente  conseguem  fugir  antes 
que  o  observador  tenha  tempo  ao  menos  de  avistal-as.  Parece,  ainda  se- 
gundo o  observador  citado,  que  estas  antílopes  evitam  as  florestas  e  pro- 
curam os  descampados,  as  largas  planícies,  onde  encontram  ahmento  em 
abundância.  Quando  chega  o  inverno  e  com  elle  a  epocha  da  fome,  as 
oryx  teem  conseguido  accumular  uma  tal  quantidade  de  gordura  que 
podem  muito  bem  fazer  face  á  crise  natural,  alímentando-se  quasí  exclu- 
sivamente de  ramos  desfolhados  d'arvores.  Então  com  efí*eito,  as  mimo- 
sas constituem  o  único  alimento  fresco  de  que  lhes  é  possível  utíhsa- 
rem-se.  Quando  se  apascentam,  appoíam  os  membros  anteriores  contra 
os  troncos  d'arvores  para  poderem  attingir  os  ramos  mais  elevados.  As 
oryx  teem  uma  marcha  excessivamente  rápida;  só  os  bons  cavallos  con- 
seguem seguil-as. 

Das  oryx  umas  vivem  em  boa  harmonia  com  as  antílopes,  outras  pelo 
contrario  existem  em  hostihdade  permanente  contra  todas  as  espécies. 


80  HISTORIA  NATURAL 

A  leucoryx  pertence  a  este  ultimo  grupo.  As  oryx  não  são  tão  tímidas 
como  as  outras  antílopes;  desde  que  se  sentem  excitadas,  precípi- 
tam-se  furiosas  contra  o  adversário,  tentando  feril-o.  Deíendem-se  admi- 
ravelmente dos  cães;  pendendo  a  cabeça  para  diante,  agitam  os  cornos 
com  tanta  violência  e  com  tanta  rapidez  para  a  direita  c  para  a  esquerda 
que  se  os  cães  não  conseguem  evitar  a  pancada,  são  traspassados.  As 
oryx  batem-se  mesmo,  não  sem  vantagem  ás  vezes,  com  os  carniceiros 
mais  temíveis,  com  a  panthera  e  o  leão,  por  exemplo. 

A  gestação  no  animal  captivo  dura  duzentos  e  quarenta  e  oito  dias. 
Sobre  a  reproducção  do  ruminante  em  liberdade  faltam  informações. 


CAÇA 


A  caça  das  oryx  só  se  faz  a  cavallo.  Como  estas  antílopes  são  admi- 
ravelmente dotadas  de  sentidos,  particularmente  do  olfato  e  como  teem 
a  marcha  excessivamente  rápida,  a  caça  exige  muitas  precauções.  O  ca- 
çador para  poder  approximar-se  das  oryx  precisa  caminhar  contra  o 
vento  e  sempre  fazendo  o  menor  ruido  possível.  Se  assim  não  proceder, 
as  antílopes  em  questão,  sempre  vigilantes,  conseguirão  fugir  quando  o 
caçador  se  encontra  ainda  a  uma  distancia  superior  a  quinhentos  pas- 
sos. Quando  se  persegue  uma  oryx,  deve  ter-se  a  certeza  de  que  só 
passadas  algumas  horas  e  depois  de  se  terem  cansado  uns  poucos  de 
cavaUos  é  que  se  consegue  fatigal-a  e  attingir  a  approximação  conve- 
niente para  poder  atirar  com  probabilidade  de  êxito. 


GAPTIVEIRO 


Trazidas  ao  captiveiro,  as  antílopes  oryx  chegam  a  conhecer  Ò 
dono;  no  entanto  é  necessário  um  extremo  cuidado  com  ellas,  porque 
são  irritáveis  e  fazem  dos  cornos  um  uso  pouco  agradável.  Vivem  em 
desharmonia  permanente  com  todos  os  outros  animaes  captivos,  ainda 
quando  da  própria  espécie.  São  teimosas;  se,  por  exemplo,  não  lhes  ap- 
petecer  andar,  nada  ha  capaz  de  fazel-as  deslocar.  Se  se  emprega  a 
violência,  o  único  resultado  que  se  colhe  é  o  irrital-as,  fazendo-as  em- 


mamíferos  em  especial  81 

pregar  os  terríveis  meios  de  defeza  que  possuem.  Emfim,  são  animaes 
perigosos  em  captiveiro.  Tem^se  conseguido  na  Europa  a  reproducfão 
de  alguns  individuos. 


usos  E  PRODUGTOS 


A  carne  das  oryx  utilisa-se  como  alimento  e  dos  cornos  fazem-se 
no  Cabo  pontas  de  lanpa. 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPHICA 


Todas  as  antílopes  oryx  habitam  os  togares  mais  seccos  e  mais  ári- 
dos da  Africa.  A  espécie  leucoryx  encontra-se  na  Africa  central  e  septen- 
trional;  as  outras  espécies  vivem  ao  sul  d*o  mesmo  continente. 


O  NYLGO 


Este  ruminante  é  geralmente  considerado  entre  os  naturalistas  como 
a  transição  do  veado  para  o  boi.  É  notável  tanto  pelo  porte  como  pela 
cor.  Tem  o  corpo  alongado,  refeito  e  a  parte  anterior  do  corpo  um  pouco 
mais  alta  e  mais  larga  que  a  posterior.  Entre  as  espáduas  apresenta  uma 
pequena  bossa.  O  pescoço  é  de  comprimento  médio,  a  cabeça  pequena, 
fina;  as  narinas  são  largamente  fendidas,  os  olhos  vivos  e  as  orelhas  gran- 
des e  compridas.  Os  cornos  são  pequenos,  cónicos,  de  vinte  centímetros 
de  comprido  e  recurvados  em  semi-circulo;  na  fêmea,  quando  existem, 
são  mais  curtos  que  no  macho.  As  pernas  são  altas  e  fortes,  os  cascos 

VOL,   III  .6 


82  IllSTOlUA  NATURAL 

grandes  e  largos,  a  cauda  qiic  desce  até  á  articulação  tibio-tarsica  é  co- 
berta de  pêllos  curtos  em  cima  e  compridos  na  parte  inferior.  A  fêmea 
apresenta  duas  mamas.  Os  péllos  em  geral  são  curtos  e  rijos;  os  da 
parte  superior  do  pescoço  formam  uma  crina  levantada  e  os  da  parte 
inferior  constituem  ao  meio  um  tufo  comprido  e  pendente. 

A  cor  geral  6  um  pardo  trigueiro  com  um  ligeiro  reflexo  azulado. 
A  parte  anterior  do  ventre,  as  pernas  de  diante,  a  face  externa  das  co- 
xas são  escuras  e  as  pernas  de  traz  são  negras;  os  dous  terços  poste- 
riores do  ventre  e  a  face  interna  das  coxas  são  brancos. 

Os  machos  adultos  teem  mais  de  dois  metros  de  comprimento  e  um 
metro  e  trinta  centímetros  de  altura  ao  nivel  da  espádua. 

/ 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHICA 


Habita  as  índias  orientaes.  Raro  nas  costas,  é  vulgar  no  interior  das 
terras. 


COSTUMES 


O  que  se  sabe  da  vida  do  nylgó  é  muito  pouco.  Tem-se  dito  que  elle 
vive  perto  dos  juncaes,  em  cujo  interior  porém  se  não  aventura,  receioso 
do  tigre.  Sabe-se  que  os  machos  luctam  pela  posse  das  fêmeas  em  com- 
bates sempre  mortíferos.  O  nylgó  é  talvez  o  mais  resoluto  dos  represen- 
tantes da  grande  família  das  antílopes.  Quando  o  perseguem,  volta-se  ar- 
rojadamente contra  o  caçador,  procurando  feril-o,  a  despeito  de  todos 
os  golpes  de  que  o  tornem  victima.  Mesmo  submettido  ao  captiveiro,  o 
nylgó  é  o  terror  dos  guardas;  embora  se  mostre  dócil,  a  verdade  é  que 
não  devemos  confiar  em  apparencias,  sobretudo  na  epocha  do  cio. 

Segundo  informações  dos  viajantes,  o  nylgó  vive  o  dia  inteiro  na 
floresta.  Só  de  madrugada  ou  depois  do  pôr  do  sol  procura  o  alimento. 
Produz  grandes  estragos  nas  florestas,  motivo  por  que  é  geralmente  de- 
testado. 

A  gestação  dura  oito  mezes;  a  primeira  produz  um  filho  e  as  outras 
dois.  Em  captiveiro  o  cio  realisa-se  em  Março;  em  liberdade  o  parto  tem 
logar  no  mez  de  Dezembro. 


mamíferos  em  especial  83 


CAÇA 


Os  indígenas  fazem  a  caça  do  nylgó  com  verdadeira  paixão.  Os  pro- 
cessos variam  segundo  a  posição  social  do  que  se  propõe  caçar;  uns  vão 
a  cavallo,  outros  a  pé,  uns  sós,  outros  com  grandes  séquitos,  uns  muni- 
dos das  armas  primitivas,  outros  com  famosas  espingardas  modernas. 
Recordando  o  que  dissemos  do  caracter  do  nylgó,  facilmente  se  compre- 
hende  que  a  caça  d'este  animal  não  é  destituída  de  perigos. 


CAPTIVEIRO 


Dissemos  a  propósito  dos  costumes  o  bastante  para  dar  idéa  dos 
inconvenientes  ligados  ao  captiveiro  do  nylgó.  A  domesticação  é  anti- 
quíssima nas  índias.  Na  Europa  o  primeiro  par  domesticado  que  se  viu 
foi  em  1767,  na  Inglaterra.  Antes  do  fim  do  século  xviii  foram  vistos 
outros  na  França,  na  Hollanda  e  na  Allemanha.  Hoje  raro  será  o  jardim 
zoológico  europeu  em  que  o  nylgó  se  não  encontre. 


O  GNOU 


Constituo  a  única  espécie  de  um  género  que  os  antigos  denomina- 
ram catoblepas.  É  um  animal  curioso,  verdadeiro  mixto  de  antilopc,  de 
boi  e  de  cavallo  ou,  segundo  a  expressão  de  Brehm,  «verdadeira  cari- 
catura de  todos  estes  animaes  tão  graciosos  e  tão  nobres.»  De  resto, 
pelos  costumes  é  tão  singular  como  pela  forma. 


84  mSTOIUA  NATURAL 


CARACTERES 


O  adulto  mede  dois  metros  c  meio  de  comprimento,  incluida  a 
cauda  que  tem  cincoenta  centímetros  de  extensão;  a  altura  ao  nivel  da 
espádua  é  de  um  metro  e  quinze  centímetros.  A  fêmea  é  um  pouco  mais 
pequena.  N'esta  espécie  os  cornos  existem  em  ambos  os  sexos  e  são 
achatados  e  recurvados,  primeiro  para  baixo  e  depois  para  cima  e  um 
pouco  para  fora.  Na  fêmea  são  mais  fracos  do  que  no  macho.  A  cor  do 
manto  é  um  trigueiro  mais  ou  menos  carregado  consoante  as  regiões  e 
passando  ora  para  o  ruivo,  ora  para  o  amarello,  ora  para  o  negro. 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPHIGA 


Habita  o  sul  da  Africa  até  perto  do  equador.  Foi  n'outro  tempo 
muito  vulgar  no  Cabo,  d'onde  todavia  desappareceu  quasi.  É  commum 
ainda  no  paiz  dos  hottentoles. 


COSTUMES 


O  gnou  é  um  exemplo  notável  de  mamíferos  emigrantes.  Todos  os 
annos  com  eífeito,  reahsa  uma  emigração  que  Smith  attribue  a  um  ins- 
tincto  e  que  Brehm  faz  depender  simplesmente  da  falta  de  alimentos  no 
logar  d'onde  se  retira. 

O  gnou  é  muito  ágil,  admiravelmente  conformado  para  viver  nas 
vastas  planícies. 

Príngle  aífirma  que  o  gnou  fica  como  doido  quando  lhe  mostram 
uma  bandeira  vermelha  presa  na  extremidade  de  uma  haste.  Caminha 
para  o  homem,  arremettendo,  foge  á  menor  ameaça,  volta  para  de  novo 
fugir  e  assim  sempre  emquanto  a  bandeira  encarnada  se  agita.  Ha  n'isto 
alguma  coisa  que  recorda  as  corridas  dos  toiros. 


mamíferos  em  especial  85 

Gordon  diz  que  o  gnou  não  foge  quando  perseguido  pelo  homem. 
Segundo  este  escriptor  os  gnous  cercam  o  perseguidor,  saltando  em 
torno,  executando  movimentos  de  um  grande  cómico. 

Parece  que  os  velhos  machos  vivem  isolados  ou  em  pequenos  gru- 
pos de  quatro  a  cinco  individues.  A  voz  do  gnou  adulto  recorda  a  do 
boi. 

Os  sentidos  da  vista,  do  ouvido  e  do  olfato  são  desenvolvidos  n'este 
ruminante.  A  intelhgencia  não  é  muito  grande. 

Nada  se  sabe  relativamente  á  reproducção;  nem  se  conhece  a  epo- 
cha  do  cio,  nem  o  numero  de  fdhos  dados  á  luz  em  cada  parto. 


CAÇA 


O  gnou  corre  com  extrema  velocidade  e  por  muito  tempo,  o  que 
torna  difficil  a  caça.  Diz-se  que,  perseguido  desperto,  investe  contra  o 
homem  procurando  feril-o  com  os  cornos  e  com  as  patas  e  que  até,  uma 
vez  convencido  de  que  não  pode  escapar  pela  fuga,  se  atira  a  precipí- 
cios ou  á  agua,  para  terminar  por  uma  vez  os  soíTrimentos. 

Os  hottentotes  matam  o  gnou  com  tiros  de  frechas  envenenadas  e 
os  cafres  esperam-o  de  traz  das  arvores,  attravessando-lhe  o  peito  com 
lanças  quando  elle  passa.  Não  é  vulgar  o  emprego  de  armadilhas  ou 
de  fossos  contra  o  gnou. 


CAPTIVEIRO 


O  gnou  depois  de  velho  é  perfeitamente  indomeslicavel;  conserva 
até  morrer  a  selvageria  do  estado  Hvre.  Mesmo  em  novo,  embora  perca 
um  pouco  da  rudeza  brutal  que  o  distingue,  é  sempre  um  máo  compa- 
nheiro e,  sobretudo,  um  companheiro  perigoso.  É  indiíferente  ás  caricias, 
é  desagradável  de  vêr-se  e  não  chega  a  reconhecer  ou,  pelo  menos,  a 
dar  provas  de  que  reconhece  quem  lhe  distribuo  os  alimentos.  Preso,  o 
gnou  perde  a  faculdade  de  trotar  e  de  dar  os  grandes  saltos  que  no  es- 
tado de  liberdade  lhe  são  tão  próprios. 


86  IIISTOniA  NATURAL 


USOS   E   PRODUGTOS 


A  utilidade  que  retiramos  do  gnou  é  a  mesma  que  retiramos  de  to- 
dos os  animaes  selvagens  da  Africa.  Fornece-nos  uma  carne  que  é  tenra 
e  succulenta,  uma  pelle  de  que  se  faz  um  bom  couro  e  emfim  cornos  que 
servem  para  cabos  de  facas,  de  garfos  e  para  análogos  usos  industriaes. 


AS   CABRAS 


Os  ruminantes  d'esta  familia  teem  um  tamanho  regular,  o  corpo  re- 
feito e  vigoroso,  as  pernas  fortes  e  pouco  elevadas,  o  pescoço  grosso,  a 
cabeça  relativamente  curta,  a  região  frontal  larga,  os  olhos  grandes  e 
vivos  e  as  orelhas  direitas,  terminadas  em  ponta  e  muito  moveis.  Ambos 
os  sexos  apresentam  cornos  com  estrias,  ora  recurvados  para  traz  em 
semi-circulo  ora  contornados  no  vértice  em  forma  de  lyra.  Gomo  quasi 
sempre,  os  cornos  são  no  macho  muito  mais  fortes  que  na  fêmea. 

Paliando  das  diíferentes  espécies,  completaremos  o  estudo  dos  ca- 
racteres morphologicos. 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPHICA 


IlabilaraxTi  originariamente  o  sul  da  Ásia,  a  Europa  e  o  norte  da 
Africa.  Hoje  ha  espécies  espalhadas  em  toda  a  superfície  do  globo.  Existe 
uma  espécie  própria  da  America  do  Norte. 


mamíferos  em  especial  87 


COSTUMES 


Vivem  de  ordinário  nas  montanhas,  onde  procuram  os  logares  mais 
selvagens,  mais  solitários.  É  espantosa  a  altura  a  que  ascendem  algumas 
espécies.  Onde  quer  que  existam  rochedos  elevados  é  certo  encontra- 
rem-se  estes  ruminantes.  De  inverno  porém,  descem  ás  planícies. 

Brehm  descreve  as  cabras  como  animaes  sociáveis,  ágeis,  vivos,  pru- 
dentes, astutos  mesmo.  Correm,  saltam  constantemente  e  apenas  se  dei- 
tam para  ruminar.  Marcham  com  extraordinária  seguranpa  nos  logares 
ainda  os  mais  perigosos.  Incapazes  de  sentirem  a  vertigem  collocam-se 
nas  arestas  de  rochedos  e  fitam  indifferentes  os  abysmos  mais  profundos. 
São  muito  vigorosas  e  resistem  por  longo  tempo  á  fadiga.  E  é  por  isto 
exactamente  que  ellas  são  próprias  para  habitar  logares  ingratos,  onde  o 
alimento  só  se  obtém  á  custa  de  grandes  esforços.  Não  deve  confundir-se 
a  prudência  das  cabras  com  medo;  porque  a  verdade  é  que,  quando  ha 
necessidade  d'isso,  ellas  combatem  com  denodo,  com  coragem,  com  va- 
lentia, talvez  até  com  prazer. 

Os  hábitos  das  cabras  são  mais  diurnos  do  que  nocturnos. 

Alimentam-se  de  plantas  que  brotam  nas  montanhas.  Sabem  esco- 
Ihel-as  e  para  encontrarem  bons  pastos  obrigam-se  muitas  vezes  a  ver- 
dadeiras emigrações.  Carecem  muito  d'agua  e  não  podem  viver,  por  isso, 
nos  logares  seccos. 

Os  sentidos  da  vista,  do  olfato  e  do  ouvido  são  desenvolvidos  nas 
cabras;  o  primeiro  d'estes  porém,  é  talvez  menos  perfeito  que  qualquer 
dos  outros.  São  intelhgentes  e  sabem  perfeitamente  utiKsar-se  das  lições 
da  experiência  para  evitar  os  perigos. 

O  numero  de  filhos  varia  entre  um  e  quatro.  Os  novos  seres,  pou- 
cos minutos  depois  de  dados  á  luz,  encontram-se  em  condições  de  segui- 
rem os  pães  ainda  nos  logares  mais  alcantilados  e  cheios  de  perigos.  A 
epocha  do  cio  e  da  parturição  variam  com  as  diíferentes  espécies,  como 
veremos. 


usos  E  PRODUCTOS 


Comparando  os  prejuizos  que  as  cabras  nos  causam  com  os  benefí- 
cios que  nos  proporcionam,  ve-se  que  estes  predominam.  As  cabras  são- 


88  HISTORIA  NATURAL 

nos  úteis  pela  carne,  pela  pelle,  pelos  cornos,  pelos  pêllos  e  ainda  pelo 
leite  que  nos  fornecem. 

Tem  sido  objecto  de  vivas  discussões  entre  os  naturalistas  o  esta- 
belecer o  numero  de  géneros  e  espécies  comprehendidos  na  vasta  famí- 
lia das  cabras.  A  nós  que  não  temos  em  vista,  nem  podemos  estudar  to- 
dos os  géneros,  nem  todas  as  espécies,  essa  discussão  não  nos  preoc- 
cupa.  Trataremos  apenas  de  descrever  as  espécies  consideradas  como 
mais  importantes  ou  pela  variedade  dos  costumes  que  nos  apresentam, 
ou  pelos  productos  que  nos  ministram  ou  emfim  porque  habitam  togares 
mais  conhecidos  e  mais  accessiveis. 


O  BODEQUIM  DOS  ALPES 


É  um  formoso  e  elegantíssimo  animal  de  um  metro  e  quarenta  e 
cinco  a  um  metro  e  sessenta  centímetros  de  comprimento  sobre  um  me- 
tro de  altura,  pouco  mais  ou  menos.  O  corpo  é  refeito,  vigoroso,  o  pes- 
coço de  comprimento  médio  e  a  cabeça  relativamente  pequena;  as  per- 
nas são  vigorosas,  os  cornos  extensos,  recurvados  para  traz,  fortes,  e  os 
olhos  vivos,  de  uma  expressão  intelligente.  O  péllo  que  é  espesso,  varia 
segundo  as  estações,  sendo  grosseiro,  crescido  e  encrespado,  no  inverno, 
e  curto,  fino  e  brilhante  no  estio.  A  cor  do  manto  varia  também  com  as 
idades  e  as  estações.  No  inverno  predomina  o  pardo  arruívado  e  no  es- 
tio o  pardo  amarellado.  No  dorso  existe  uma  raia  trigueiro-clara,  pouco 
pronunciada.  A  região  frontal,  o  vértice  da  cabeça,  o  nariz  e  o  peito  são 
de  um  trigueiro  acentuado.  Na  maxílla  inferior,  por  baixo  das  orelhas  e 
por  traz  das  narinas,  apparece  um  amarello  arruívado.  As  orelhas  são 
trigueiro-amarellas  por  fora  e  brancas  por  dentro.  As  pernas  são  escu- 
ras e  a  linha  mediana  inferior  do  corpo  é  branca.  Á  proporção  que  o  ani- 
mal envelhece,  a  cor  do  manto  vae-se  tornando  mais  uniforme.  Existem 
cornos  em  ambos  os  sexos,  sendo  os  do  macho  notáveis  pelo  tamanho  e 
pelo  vigor.  Estes  appendices  são  na  raiz  muito  approximados;  subindo, 
recurvam-se  para  traz  em  semi-circulo  e  afíastam-se  nas  extremidades. 
Na  raiz  são  consideravelmente  mais  grossos  do  que  na  ponta.  Uma  se- 


mamíferos  em  especial  89 

cção  horisontal  d'estes  órgãos  representa  um  quadrilátero  alongado;  os 
círculos  de  crescimento  são  representados  por  nós  e  saliências  muito 
pronunciadas,  sobretudo  na  face  anterior  e  na  parte  media  do  órgão.  Os 
cornos  crescem  indefinidamente;  no  entanto,  o  crescimento  que  nas  pri- 
meiras idades  se  faz  de  um  modo  rápido,  é  muito  vagaroso  depois  que 
o  animal  se  torna  velho.  Esses  appendices  frontaes  chegam  a  attingir 
um  metro  e  quinze  centímetros  de  comprimento  e  quinze  kilogrammas 
de  pezo.  Na  fêmea  os  cornos  parecera-se  mais  com  os  da  cabra  domes- 
tica que  com  os  do  bodequim  macho  e  são  pequenos,  cyhndricos,  hgei- 
ramente  recurvados  para  traz.  Os  appendices  frontaes  apparecem  ao  fim 
do  primeiro  mez  de  existência;  a  idade  d'elles.e,  portanto,  do  animal 
pode  avahar-se  pelo  comprimento  e  pelo  numero  de  sahencias  circula- 
res que  no  adulto  chegam  a  ser  vinte  e  quatro. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHICA 


O  nome  de  bodequim  dos  Alpes  com  que  designamos  este  animal  não 
quer  de  modo  nenhum  dizer,  como  á  primeira  vista  pareceria,  que  elle 
é  abundante  n'estas  montanhas.  Damos-lhe  aquelle  nome  principalmente 
para  o  distinguir  de  uma  outra  espécie  que  habita  a  Hespanha.  O  bodequim 
de  que  nos  estamos  occupando  não  só  não  é  vulgar  nos  Alpes,  mas  mesmo 
é  ahi  tão  raro  que  durante  alguns  annos  se  suppoz  extincto.  A  espécie 
existe  ainda  nos  Alpes,  mas  em  numero  limitadissimo.  Já  no  século  xv  e 
no  século  passado  foi  preciso-  tomar  algumas  medidas  para  obstar  a  que 
o  formosíssimo  ruminante  desapparecesse  totalmente. 

Sabe-se  por  informação  de  historiadores  antigos  que  o  bodequim  exis- 
tiu algum  tempo  cm  toda  a  immensa  cordilheira  dos  Alpes.  Era  então 
vulgar,  porque  muitas  vezes  appareceram  nos  circos  romanos  cem  e  du- 
zentos indivíduos.  Mas  depois,  porque  a  caça  era  muito  activa,  a  espé- 
cie foi  rareando,  sendo  já  difficil  na  Suissa,  no  século  xv,  apanhar  al- 
guns indivíduos.  A  caça  foi  n'essa  epocha  prohibida,  sob  penas  impor- 
tantes, o  que  de  nada  valeu,  porque,  a  despeito  das  medidas  tomadas, 
continuou  sempre.  No  século  xvi  foram  de  novo  tomadas  algumas  medi- 
das de  protecção  ao  bodequim  dos  Alpes;  a  caça  era  permittida  apenas 
a  um  numero  hmitado  de  pessoas.  Gomo  porém  se  acreditava  então  que 
as  differentes  partes  do  animal  possuíam  enérgicas  virtudes  therapeuti- 
cas,  a  caça  continuou  ainda,  máo  grado  as  multas  impostas  aos  caçado- 
res. O  numero  de  indivíduos  foi  decrescendo  sempre  e  no  século  passado 


00  HISTORIA  NATURAL 

foram  retomadas  as  antigas  medidas  prohibitivas  da  caça,  com  pouco  re- 
sultado, decerto,  se  nos  lembrarmos  de  que  no  começo  do  nosso  século 
se  chegou  a  crer  que  a  espécie  desapparecera  completamente.  Hoje  exis- 
tem ainda  alguns,  segundo  Tschudi,  n'uma  parte  muito  restricta  dos  Al- 
pes. Mas,  como  observa  um  notável  naturalista,  são  taes  os  prémios  of- 
ferecidos  pelos  muzeus  zoológicos  por  um  exemplar,  que  a  caça  conti- 
nua sempre  e  é  bem  possível  que  n'um  futuro,  talvez  não  remoto,  os  úl- 
timos representantes  da  espécie  tenham  desapparecido.  Sendo  o  bode- 
quim  dos  Alpes  tão  bello  como  é,  custa  pensar  que  um  dia  virá  em  que 
tenha  deixado  de  existir.  Hoje  que  o  preconceito  das  suas  virtudes  the- 
rapeuticas  parece  ter  cessado,  cremos  que  o  único  incentivo  á  caça  do 
animal  provém  exclusivamente  dos  prémios  dados  pelos  muzeus  zoológi- 
cos. Ora  parece-nos  e  parecerá  a  toda  a  gente  verdadeiramente  estra- 
nho que  sejam  os  próprios  naturalistas,  tão  empenhados  em  conservar  a 
espécie,  os  mesmos  que  indirectamente  estão  contribuindo  para  extin- 
guil-a ! 


COSTUMES 


O  bodequim  dos  Alpes  é  sociável;  hoje  porém,  como  o  numero  é 
muito  restricto,  não  se  encontram  senão  pequeníssimos  bandos.  O  logar 
que  o  animal  prefere  são  sempre  as  alturas  inacessíveis  a  quasi  todos 
os  outros  animaes.  Os  machos,  sobretudo,  attingem  elevações  verdadei- 
ramente espantosas.  Á  noite  os  bandos  descem  para  as  florestas  e  vol- 
tam ao  romper  do  dia  para  as  alturas.  No  estio  procuram  as  vertentes 
dos  montes  expostas  ao  norte;  no  inverno  preferem  as  vertentes  meri- 
dionaes. 

Todos  os  movimentos  do  bodequim  são  vivos  e  ágeis.  Corre  com 
grande  rapidez  e  trepa  com  uma  hgeireza  extraordinária.  Não  é  raro  que 
o  animal  suba  ao  longo  de  paredes  quasi  verticaes.  A  mais  Hgeira  rugo- 
sidade, a  aspereza  mais  insignificante  c  que  á  vista  do  homem  passa 
desapercebida,  é  para  o  bodequim  um  como  degrao.  Não  é  susceptível 
de  vertigens;  fita  com  indifferença  os  precipícios,  os  abysmos  mais  pro- 
fundos e  salta  pelos  rochedos  collocados  a  seis  mil  metros  de  altura  com  a 
mesma  segurança  e  a  mesma  distracção  com  que  nós  andamos  pelas  ruas. 

Acerca  d'este  famoso  ruminante  espalharam  os  antigos  as  fabulas 
mais  disparatadas,  algumas  das  quaes,  transmittidas  pela  tradição  oral, 
chegaram  até  nós.  Segundo  uma  d'essas  phantasias,  o  bodequim  cairia 
sobre  os  cornos. 


mamíferos  EMESPEGIA'L  01 

o  olfato,  a  vista  e  o  ouvido  são  sentidos  muito  perfeitos  no  bodc- 
quim  dos  Alpes;  a  intelligencia  é  também  desenvolvida.  O  bodequim  é 
timido,  o  que,  mesmo  quando  não  fosse  o  eífeito  de  um  instincto,  se  ex- 
plicaria facilmente  como  resultado  da  caça  secular  e  pertinaz  de  que  é 
victima. 

A  alimentação  do  bodequim  dos  Alpes  é-lhe  fornecida  pelas  plantas 
mais  succulentas  e  saborosas  que  crescem  n'estas  montanhas. 

A  quadra  do  cio  tem  logar  em  Janeiro.  Como  acontece  com  muitos 
outros  animaes,  estes  entregam-se  então  ás  grandes  luctas  que  caracte- 
risam  geralmente  a  selecção  sexual.  Attendendo  a  que  estas  luctas  se 
realisam  em  togares  perigosíssimos  pela  altura,  facilmente  se  compre- 
henderá  como  são  terríveis  para  o  mais  fraco  dos  contendores  e  como 
muitas  vezes  a  morte  de  um  é  o  resultado  final.  Cinco  mezes  depois  do 
acto  sexual,  isto  é  em  fins  de  Junho  ou  principies  de  Julho,  a  fêmea  dá 
á  luz  um  filho  único,  pouco  mais  ou  menos  do  tamanho  de  um  cabrito, 
mas  admiravelmente  próprio  já  para  a  vida  das  montanhas  e  dotado  de 
uma  extraordinária  coragem.  A  mãe  é  uma  soberba  educadora,  cheia  de 
desvellos,  de  solhcitude.  O  amor  do  filho  é  também  notável;  se  a  mãe 
foi  ferida,  não  sairá  de  ao  pé  d'ella  e  persistirá  mesmo  junto  do  seu  ca- 
dáver, embora  no  primeiro  momento  tenha  fugido  cheio  de  terror. 


INIMIGOS 


Os  principaes  inimigos  do  bodequim,  sobretudo  em  quanto  pequeno, 
são  a  águia,  o  lynce  e  o  lobo.  D'estes  o  mais  terrível  é  sem  duvida  o 
primeiro.  As  fêmeas  sabem  honrar  o  sentimento  materno,  defendendo 
corajosamente  e  á  custa  da  própria  vida,  os  recemnascidos. 


CAÇA 


A  caça  do  bodequim  dos  Alpes  é  ainda  hoje  duplamente  altractiva 
—  pelo  preço  estipulado  para  cada  exemplar  vivo  ou  morto  e  pelos  pe- 
rigos que  offerece.  Quem  não  é  caçador  mal  pode  comprehender  que  o 
perígo  possa  constituir  um  attractivo;  para  o  homem  que  uma  vez  ex- 


02  HISTORIA   NATURAL 

perimentou  as  sensações  fortes,  inseparáveis  da  caça  aos  ruminantes 
montanbezes,  a  aífirmação  nada  tem  de  estranha.  Rccorde-se  o  leitor  do 
que  atraz  dissemos  fallando  da  perseguição  á  camurça  e  perceberá  que 
não  é  sem  razão  que  os  naturalistas  consideram  os  perigos  de  uma  caça 
como  o  mais  poderoso  incentivo  para  ella.  Tschudi,  o  pittoresco  paisa- 
gista de  Os  Alpes,  dá-nos  uma  idéa  dos  perigos  da  caça  ao  bodequim  nas 
palavras  que  seguem:  «Passar  a  noite  sem  abrigo  de  espécie  alguma 
perto  do  gelo,  não  ser  possível  ao  homem  preserverar-se  do  perigo  de 
morrer  de  frio  senão  entregando- se  a  um  exercício  violento,  são  decerto 
motivos  bastantes  para  tornarem  bem  amargos  os  prazeres  da  caça.  Mas 
mil  outros  perigos  vêem  ainda  juntar-se  a  estes.  Conta  uma  velha  chro- 
nica  que  um  caçador  da  camurça  e  do  bodequim,  ao  attravessar  o  ge- 
leiro de  Simmernalp,  caiu  n'uma  fenda  profunda  aberta  nos  rochedos.  Os 
companheiros  de  caça,  suppondo-o  perdido  para  sempre,  encommenda- 
ram-lhe  a  alma  a  Deus  e  continuaram  a  marcha;  ao  voltarem  da  caça 
porém,  tiveram  a  idéa  de  tentar  um  recurso  qualquer  para  salvar  o  in- 
feliz. Correram  na  direcção  de  uma  casa  que  ficava  a  uma  meia  légua  do 
logar  da  queda,  deitaram  a  mão  a  um  cobertor,  único  recurso  que  en- 
contraram, cortaram-o  em  longas  tiras  e  partiram  com  a  rapidez  possível 
para  junto  do  desgraçado.  Emquanto  isto  se  passava,  Staeri  (era  este  o 
nome  do  caçador  infehz)  soífria  o  mais  tremendo  martyrio:  na  occasião 
de  cair,  havia-se  insinuado  entre  duas  paredes  de  gelo  e  ahi,  fixado  nos 
bordos  pelos  braços,  mergulhado  até  ao  peito  na  agua  gelada,  esperava 
que  cada  instante  fosse  o  ultimo  de  vida  para  elle.  Por  fim  os  compa- 
nheiros chegam,  a  corda  formada  de  tiras  é  atirada  abaixo,  Staeri  con- 
segue amarral-a  cuidadosamente  em  volta  do  corpo  e  principia  a  subir 
de  vagar,  guindado  pelos  companheiros.  Mas  quasi  ao  chegar  acima  as 
tiras  rompem-se  e  o  desgraçado  candidato  d  morte  (assim  lhe  chama  o 
chronista)  recae  no  abysmo.  O  que  restava  da  corda  já  não  era  bastante 
para  chegar  até  ao  fundo  e  Staeri,  além  d'isso,  partira  um  braço  na 
queda.  Os  companheiros  ainda  assim  não  o  abandonam;  cortam  em  tiras 
mais  estreitas  o  que  lhes  resta  do  cobertor  e  atiram  a  nova  corda  ao 
precipício.  Staeri  enrola  este  fraco  hame  em  torno  do  corpo,  tão  sohda- 
mente  quanto  lh'o  permitte  o  braço  partido.  A  ascensão  recomeça,  fa- 
zendo o  infehz  os  mais  desesperados  esforços  para  secundar  os  seus  ami- 
gos. Por  fim  chegou  acima.  Uma  vez  salvo  do  perigo,  o  pobre  caçador 
caiu  desmaiado,  sendo  preciso  transportal-o  até  casa.  Em  toda  a  sua  vi- 
da, fallou  sempre  com  terror  dos  momentos  de  agonia  passados  no  fundo 
do  abysmo,  entre  rochedos.»  * 


1     Tschudi,  Ohr.  ciL,  pg.  650. 


mamíferos  em  especial  93 

• 

Devemos  notar  com  o  naturalista  a  quem  pedimos  a  citação  ante- 
rior, que  a  caça  do  bodequim,  dados  os  perigos  sem  numero  que  oíTe- 
rece,  não  está  em  relação  com  os  lucros  que  produz.  É  pois  incontestá- 
vel que  são  esses  perigos  mesmos  que  sollicitam  o  caçador,  que  é  uma 
verdadeira  paixão  que  o  incita  á  perseguição  do  animal.  Não  insistire- 
mos mais  sobre  este  ponto;  o  que  escrevemos  acerca  da  caça  da  ca- 
murça é  o  bastante  para  comprehender-se  quantos  perigos,  quantas  pri- 
vações, quantas  desesperanças,  quantas  hostilidades  da  natureza  tem 
diante  de  si  o  que  se  aventura  á  perseguição  do  bodequim  dos  Alpes. 


GAPTIVEIRO 


O  bodequim  adulto  não  pode  reduzir-se  ao  captiveiro.  O  novo  apa- 
nha-se  e  conduz-se  das  montanhas  para  as  casas,  fazendo-o  preceder 
por  uma  cabra  domestica  que  o  amamenta  pelo  caminho.  É  fácil  domes- 
tical-o.  Vive  harmonicamente  com  os  outros  animaes  captivos,  nomeada- 
mente com  a  cabra.  As  relações  sexuaes  entre  o  bodequim  e  a  cabra 
são  fecundas.  Os  mestiços  que  d'ahi  resultam,  são  fortes  e  assemelham-se 
mais  ao  primeiro  que  ao  segundo  d'estes  ruminantes.  Quanto  á  cor,  ora 
se  parecem  com  o  pae,  ora  com  a  mãe.  Os  mestiços  são  também  fecun- 
dos; entrando  em  relações  reproductivas  com  as  cabras  produzem  filhos 
que,  como  elles,  se  parecem  principalmente  com  o  bodequim.  Emfim  os 
mestiços  da  segunda  geração  fecundados  por  um  bodequim,  dão  filhos 
que  a  custo  se  diíTerençam  d'este. 

É  de  notar  que  o  bodequim  á  medida  que  avança  em  annos  vae  per- 
dendo as  boas  qualidades  que  o  caracterisam  emquanto  novo  para  se 
tornar  selvagem,  intratável  e  muito  perigoso  até. 


94  HISTORIA   NATURAL 


O  BODEQUIM  DE  HESPANHA 


É  conhecido  também  pelo  nome  de  cabra  dos  montes  ou  cahra  mon- 
tez.  A  denominação  de  bodequim  de  Hespanha  não  é  perfeitamente  justa, 
porque  o  animal  não  vive  só  n'este  paiz,  mas  ainda  em  Portugal;  deve- 
ria chamar-se  antes  bodequim  da  peninsula  hispânica,  porque  existe  effe- 
ctivamente  e  é  até  vulgar  em  quasi  todas  as  altas  montanhas  de  Hespa- 
nha e  Portugal.  Na  serra  Morena,  na  serra  Nevada,  nas  montanhas  de 
Andaluzia,  na  serra  da  Estrella,  em  todas  estas  paragens  se  encontra 
com  frequência. 

Os  costumes  d'esta  espécie  são  análogos  aos  da  espécie  que  acaba- 
mos de  estudar  e  não  merecem  menção  especial. 

Os  mezes  mais  próprios  para  a  caça  d'este  ruminante  são  Julho  e 
Agosto,  porque  é  então  que  se  torna  possível  passar  as  noites  á  altura 
de  trez  mil  metros  ou  mais,  sem  receio  do  frio. 

A  carne  do  bodequim  de  Hespanha  é  um  bom  alimento  e  a  pelle, 
segundo  Brehm,  paga-se  em  Granada  por  vinte  ou  trinta  francos. 


AS  CABRAS  PROPRIAMENTE  DITAS 


São  mais  pequenas  que  o  bodequim.  Teem  os  cornos  prismáticos, 
de  bordos  cortantes,  sem  nodosidades  na  face  anterior,  divergentes  e 
munidos  de  saUencias  transversaes.  Pelos  demais  caracteres  asseme- 
Iham-se  ao  bodequim. 


mamíferos  em  especial  05 


A  CABRA  SYLVESTRE 


É  este  o  ruminante  que,  com  taes  ou  quaes  probabilidades,  se  consi- 
dera geralmente  como  o  ascendente  primitivo  da  cabra  domestica. 

A  cabra  sylvestre  tem  com  effeito  os  mesmos  caracteres  essenciaes 
que  a  domestica,  diíferindo  d'ella  apenas  pelo  tamanho  e  pela  direcção 
dos  cornos.  As  relações  sexuaes  de  uma  com  outra  são  fecundas;  o  cru- 
zamento dá  um  typo  intermediário  aos  dois. 


caracteres 


A  cabra  sylvestre  é  mais  pequena  que  o  bodequim  e  maior  que  a 
cabra  domestica.  Mede  cento  e  sessenta  centímetros,  comprehendida  a 
cauda  que  tem  vinte  e  dois,  e  um  metro  de  altura  ao  nivel  da  espádua; 
o  sacro  fica  um  pouco  mais  elevado.  O  corpo  é  alongado,  a  cabeça  cur- 
ta, a  região  frontal  larga,  o  focinho  obtuso  e  o  dorso  do  nariz  quasi  re- 
cto. Os  membros  são  relativamente  altos  e  os  cascos  obtusos.  Os  olhos 
são  pequenos  e  as  orelhas  de  tamanho  médio;  a  cauda  é  muito  curta.  Os 
cornos  chegam  a  attingir  nos  velhos  machos  um  metro  e  trinta  centíme- 
tros de  extensão;  são  porém  fracos  e  descrevem  um  arco  de  concavi- 
dade posterior.  São  muito  approximados  na  raiz  e  divergem  nas  extre- 
midades, ficando  separados  por  uma  distancia  de  cerca  de  vinte  e  cinco  a 
vinte  e  nove  centímetros.  O  manto  é  composto  de  duas  ordens  de  pêHos: 
um  fino,  curto  e  outro  comprido  e  rijo.  Em  ambos  os  sexos  existe  \in\ 
tufo  volumoso  de  péllos  por  baixo  da  mandíbula  e  que  constituo  o  que  vul- 
garmente se  chama  barba.  A  cor  geral  do  manto  é  um  pardo  arruivado 
ou  um  amarello  trigueiro  com  reflexos  ruivos,  mais  claro  aos  lados  do 
tronco  e  no  ventre.  Sobre  a  linha  media  do  dorso  estende-se  uma  tira 
negra  perfeitamente  delimitada.  Os  membros  anteriores  são  de  um  tri- 
gueiro escuro  na  face  de  diante  e  dos  lados;  por  cima  dos  cascos  exis- 
tem de  ordinário,  tanto  nos  membros  anteriores  como  nos  posteriores 
porções  de  pe!lo  brancas.  Os  lados  da  cabeça  são  de  um  pardo  arruiva- 
do, a  região  frontal  é  trigueiro-escura,  bem  como  o  são  a  raiz  do  nariz, 
o  queixo  e  a  barba. 


96  HISTORIA   NATURAL 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHICA 


Encontra-se  principalmente  a  oeste  e  ao  centro  da  Ásia.  Procura 
sempre  os  togares  elevados,  as  montanhas  onde  ha  neves  perpetuas. 


COSTUMES 


A  cabra  sylvestre  é,  como  todos  os  animaes  da  familia,  muito  so- 
ciável. Encontra-se  geralmente  em  rebanhos  de  dez  a  vinte  individues 
submettidos  á  direcção  de  um  velho  macho  experimentado. 

Os  hábitos  de  vida  da  cabra  sylvestre  teem  uma  grande  analogia 
com  os  do  bodequim.  Gomo  elle,  corre  pelos  caminhos  mais  perigosos 
com  toda  a  segurança,  fita  durante  horas  seguidas  os  precipícios,  sem 
vertigem,  trepa  admiravelmente  e  dá  saltos  assombrosos.  É  muito  timida 
e  muito  vigilante,  o  que  lhe  permitte  evitar  numerosos  perigos. 

O  olfato  e  o  ouvido  são  órgãos  apuradissimos  n'esta  espécie. 

A  aUmentação  da  cabra  sylvestre  consiste  principalmente  em  plan- 
tas saborosas  que  crescem  na  montanha  e  em  folhas  d'arvores.  De  ma- 
nhã, muito  cedo,  o  ruminante  abandona  a  floresta  em  que  passou  a  noite, 
sobe  aos  legares  mais  altos  das  montanhas  onde  se  apascenta  o  dia  in- 
teiro até  que,  ao  declinar  da  tarde,  retoma  o  caminho  da  floresta. 

O  coito  reahsa-se  em  Novembro.  A  fêmea  pare  em  Abril  dois  filhos, 
raras  vezes  um  só.  Poucas  horas  depois  do  nascimento,  os  filhos  encon- 
.tram-se  já  em  condições  de  seguir  a  mãe  pelas  montanhas.  Crescem  ra- 
pidamente e,  uma  vez  reduzidos  ao  captiveiro,  domesticam-se  facilmente. 
Se  na  casa  em  que  estão  captivos  ha  cabras  domesticas,  a  educação 
faz-se  mais  rapidamente  ainda.  Os  captivos  habituam-se  facilmente  aos 
novos  companheiros  cujos  hábitos  imitam,  saindo  a  pastar  quando  elles 
saem  e  entrando  em  casa  quando  elles  entram. 


mamíferos  em  especial 


CAÇA 


A  perseguição  da  cabra  sylvestre  oíferece  diíficuldades  grandes  que 
alguns  naturalistas  chegam  a  comparar  ás  da  caça  do  bodequim.  Os  to- 
gares perigosos  que  o  ruminante  habita,  a  timidez  de  que  é  dotado  e 
principalmente  a  vigilância  que  sem  cessar  exerce  em  torno  de  si,  são 
os  motivos  das  diíficuldades  que  andam  inherentes  a  esta  caça. 

Vamos  passar  em  revista  as  principaes  variedades  ou  raças  de  ca- 
bras. 


A  CABRA  ANA 


Não  mede  mais  de  sessenta  e  seis  centímetros  de  comprimento  so- 
bre cincoenta  de  altura,  ao  nivel  da  espádua.  Tem  o  corpo  refeito,  as 
pernas  curtas  e  fracas,  a  cabeça  larga  e  o  focinho  comprido.  Os  cornos 
existem  nos  dois  sexos  e  são  do  comprimento  de  um  dedo  apenas,  re- 
curvados primeiro  para  traz  e  para  fora  e  depois,  no  terço  final,  um 
pouco  para  diante.  O  corpo  é  coberto  por  um  pêllo  curto,  espesso,  de 
côr  geralmente  escura  e  algumas  vezes  com  espaços  brancos.  Os  exem- 
plares completamente  negros  são  muito  raros. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPIIICA 


Habita  uma  larga  extensão  do  interior  da  Africa.  Os  limites  de  dis- 
[persão  geographica  não  são  bem  conhecidos. 


98  IIÍSTOIUA    iNATLllAL 


COSTLMES 


Nas  povoações  margiriaes  do  Nilo  Branco  é  vulgar  encontrar-se  a 
cabra  anã  no  estado  domestico.  É  um  ruminante  alegre  e  que  trepa  ao 
longo  dos  troncos  d'arvores  com  grande  facilidade.  Hrehm  que  a  viu  de 
perto  nas  suas  viagens  á  Africa,  exprime-se  assim:  «Foi  a  cabra  anã  a 
que  primeiro  me  provou,  com  grande  admiração  minha,  que  os  ruminan- 
tes podem  trepar  ás  arvores.  Nada  mais  gracioso  do  que  ver  oito  a  dez 
d'estes  pequenos  animaes  comendo  sobre  o  topo  de  uma  grande  mimosa. 
Muitas  vezes  as  vi  em  posições  que,  se  não  fosse  testemunha  presencial, 
me  pareceriam  impossíveis.  Pousavam  as  quatro  patas  sobre  um  ramo 
de  modo  que,  por  mais  que  se  agitasse,  guardavam  sempre  o  equilí- 
brio.» * 

Os  donos  d'estas  cabras  não  teem  grandes  cuidados  nem  grandes 
trabalhos  com  ellas.  Deixam-as  sair  de  manhã  muito  cedo  e  conservam- 
Ihes  á  tarde  a  porta  das  cortes  aberta  para  recolherem. 

Estas  cabras,  apezar  de  pequenas,  produzem  muito  leite. 


A  CABRA  DE  ANGORA 


Constituirá  uma  simples  raça  da  cabra  domestica,  como  querem  al- 
guns, ou  uma  espécie,  como  pretendem  outros?  Não  nos  parece  possível 
decidir  desde  já  esta  questão.  Os  que  dão  á  cabra  de  Angora  o  titulo  de 
typo  especifico  baseam-se  sobre  o  facto  negativo  de  serem  estéreis  as 
relações  sexuaes  d^ella  com  a  cabra  domestica.  Estes  naturalistas  acham- 
se  dispostos  a  consideral-a  como  descendente  do  bodequim  habitante  das 
montanhas  do  Thibet  com  que  tem  muitas  analogias  morphologicas. 


Brchm,  Obr.  cíC,  vul.  2/^,  pg.  ÕDÕ. 


mamíferos  EMESPEGIA-L  DD 


CARACTERES 


A  cabra  de  Angora  é  um  ruminante  formoso  e  grande,  de  corpo  re- 
feito, pernas  fracas,  pescoço  e  cabeça  curtos,  de  pêllo  e  cornos  inteira- 
mente differentes  dos  que  nas  outras  cabras  se  observam.  Os  cornos 
existem  em  ambos  os  sexos;  no  macho  são  fortemente  comprimidos,  tem 
os  bordos  cortantes,  a  extremidade  obtusa,  separam-se  ou  afastam-se  ho- 
risontalmente,  descrevem  em  toda  a  extensão  uma  dupla  espiral  e  teem 
a  ponta  dirigida  para  cima.  Os  da  fêmea  são  mais  pequenos,  mais  arre- 
dondados, de  simples  contorno  e  voltados  para  baixo,  na  direcção  das 
orelhas  que  são  pendentes,  e  também  um  pouco  para  fora.  Os  pêllos  do 
manto  são  compridos,  espessos,  moUes,  luzidios  e  um  pouco  crespos.  Só 
no  focinho,  orelhas  e  parte  inferior  dos  membros  é  que  os  pêllos  são 
curtos  e  lisos.  Ambos  os  sexos  apresentam  uma  barba  muito  comprida, 
formada  de  pêllos  rijos.  De  ordinário  estas  cabras  são  inteiramente  bran- 
cas; os  individues  com  manchas  escuras  são  muito  raros. 

Os  pêllos  extensíssimos  d'esta  cabra  não  são,  como  algum  tempo  se 
suppoz,  verdadeiras  sedas;  pelo  contrario,  elles  encobrem  as  sedas.  É 
precisamente  o  inverso  do  que  tem  logar  n'outras  espécies  de  longo 
pêllo  e,  como  observa  Brehm,  este  caracter  pode  servir  para  fazer  dis- 
tinguir a  cabra  de  Angora.  No  estio  o  pêllo  cae  por  camadas,  mas  cresce 
logo  depois  com  extrema  rapidez.  O  pêllo  d'esta  cabra  tem  um  pezo  que 
osciUa  entre  mil  duzentas  e  cincoenta  e  duas  mil  e  quinhentas  grammas. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGIIAPIIIGA 


Parece  que  os  antigos  não  conheceram  esta  espécie.  Belon  é  o  pri- 
meiro que  no  século  xvi  a  menciona.  O  nome  que  designa  este  rumi- 
nante vem-lhe  da  pequena  cidade  Angora,  na  Turquia  Asiática,  que  ella 
habita  e  d'onde  se  tem  espalhado  pela  Europa. 


lUU  IllSTOKlA  NATURAL 


COSTUMES 


A  pátria  d'este  ruminante  é  secca  e  quente.  Vem  d'alii  a  impossi- 
bilidade de-  conserval-o  em  regiões  frias  e  tiumidas  onde,  a  despeito  de 
todos  os  cuidados,  não  pode  subsistir,  ileduzida  desde  muito  á  domesti- 
cidade  a  cabra  de  Angora  é  admiravelmente  bem  tratada.  Durante  o  es- 
tio o  dono,  para  conservar-lhe  a  belleza  do  pèllo,  não  foge  ao  cuidado 
de  laval-a  e  penteal-a  algumas  vezes  por  dia. 


usos  E   PRODUGTOS 


o  pêllo  d'esta  cabra  é  empregado  em  muitos  usos  industriaes  e 
serve  para  a  fabricação  de  luvas  e  de  meias,  de  estofos,  etc.  O  valor  de 
uma  cabra  varia,  diz  Gerbe,  segundo  os  legares  entre  quarenta  e  cinco 
a  sessenta  francos.  A  tosquia  tem  logar  no  mez  de  Abril.  O  commercio 
do  pêllo  d'esta  cabra  é  importantíssimo.  Segundo  Gerbe,  em  Angora 
quasi  todos  os  habitantes  negoceiam  em  pelles,  fazendo-se  só  ahi  uma 
exportação  no  valor  de  quatro  milhões  e  cincoenta  mil  francos  e  ficando 
ainda  para  consumo  do  paiz  um  numero  de  pelles  orçadas  em  quatro 
centos  e  cincoenta  mil  francos. 

A  finura  do  pêllo  diminuo  com  a  idade  do  animal.  O  péllo  da  cabra 
de  um  anno  é  o  melhor  e  que  mais  caro  se  paga;  o  péllo  da  cabra  de 
seis  annos  cessa  de  ter  cotação  em  mercado,  reputa-se  inútil. 


A  CCLl  MATACÃO 


Em  vista  do  alto  valor  d'este  ruminante  teem  sido  feitas  muitas  ten- 
tativas para  o  accUmar  na  Europa,  e  algumas  com  extraordinário  resul- 
tado. É  assim  que,  segundo  informações  de  Brehm,  alguns  centos  de  in- 
dividues transportados  em  1787  para  os  Baixos-Alpes  francezes  ahi  prós- 


mamíferos  em  especial  101 

peraram  admiravelmente.  Cem  cabras  que  Fernando  vir  comprou  e  fez 
conduzir  para  perto  de  Madrid,  mulliplicaram-se  alii  por  forma  tal  que 
foi  necessário  transportal-as  para  as  montanhas  do  Escurial.  Levadas  mais 
tarde  para  a  Carolina  do  Sul,  deram-se  ahi  perfeitamente.  A  Sociedade 
imperial  de  acclimatação  importou  para  França  um  grande  numero  de  ca- 
bras de  Angora,  que  ahi  teem  prosperado.  Diz-se  mesmo  que  o  pello 
d'estas  cabras  é  melhor  ainda  em  França  que  no  paiz  natal. 

A  influencia  do  clima  francez  fez-se  sentir  apenas  sobre  a  epocha  do 
cio,  que,  sendo  primitivamente  em  Outubro,  passou  a  ter  logar  em  Se- 
tembro. 

O  alimento  d'estas  cabras  consiste  essencialmente  em  feno,  palha  e 
farello;  preferem  os  alimentos  seccos  aos  pastos.  São-lhes  indispensáveis 
o  sal  e  a  agua  pura  e  boa.  É  preciso  preserveral-as  da  humidade  e  do 
frio,  principalmente  depois  da  tosquia.  A  falta  de  cuidado  n'esta  occasião 
implica  a  morte  de  muitos  individues. 

Os  hvros  de  historia  natural,  que  tivemos  occasião  de  consultar,  não 
se  referem  a  tentativas  de  acchmação  em  Portugal.  Não  sabemos  se  teem 
sido  feitas  ou  não;  o  que  porém  pode  aíflrmar-se  com  probabilidade  é 
que  essa  acclimatação  devia  reaUsar-se  entre  nós  perfeitamente,  melhor 
mesmo  do  que  em  França  ou  na  Hespanha. 


A  CABRA  CACHEMIRA 


Ê  de  pequenas  dimensões:  o  macho  adulto  mede  um  metro  e  vinte 
e  cinco  centímetros  de  comprimento  sobre  sessenta  e  seis  centímetros  de 
altura.  Tem  o  corpo  alongado,  o  dorso  arredondado,  a  região  do  sacro 
ligeiramente  mais  elevada  que  a  da  espádua,  as  pernas  fortes,  grossas, 
os  cascos  terminados  em  ponta,  o  pescoço  curto,  a  cabeça  volumosa,  os 
olhos  pequenos,  e  as  orelhas  pendentes  tendo  de  comprimento  metade 
da  cabeça.  Os  cornos  são  compridos,  contornados  em  espiral,  comprimi- 
dos e  apresentando  na  face  anterior  um  sulco  em  toda  a  extensão.  Sepa- 
ram-se  a  partir  da  raiz,  tomando  uma  direcção  obhqua  para  cima  e  para 
traz;  a  ponta  dobra-se  para  dentro.  Apresenta  esta  cabra  duas  ordens  de 
pêllos:  um  curto,  extremamente  fino  e  molle  e  um  outro,  que  cobre  o 
primeiro  e  que  é  formado  de  sedas  compridas,  rijas,  finas  e  lisas.  A  face 


102  HISTORIA   NATURAL 

e  as  orelhas  são  cobertas  de  péllo  curto.  A  cor  do  manto  varia  muito, 
lia  cabras  cachemiras  negras,  trigueiras,  c  amarelladas;  os  exemplares 
mais  communs  são  brancos.  Algumas  vezes  as  partes  lateraes  da  cabeça 
são  de  uma  côr  diíTerente  da  do  resto  do  corpo. 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPIIICA 


Esta  espécie  c  vulgar  nas  montanhas  do  Thibct.  Foi  acclimada  cm 
Bengala,  onde  existe  comtudo  em  menores  proporções. 


usos   E    PRODUCTOS 


O  péllo  d'este  animal  é  verdadeiramente  precioso.  Fabricam-se  com 
elle  tecidos  finíssimos  de  grande  valor.  A  tosquia  faz-se  em  Maio  ou  Ju- 
nho. Depois  d'esta  operação,  separam-se  cuidadosamente  as  duas  espé- 
cies de  péllos  a  que  acima  nos  referimos;  as  sedas  reservam-se  para 
tecidos  grosseiros  c  os  péllos  mais  finos  para  tecidos  mais  delicados  e, 
por  isso  mesmo,  de  muito  mais  valor.  O  péllo  utiUsavel  que  uma  cabra 
cachemira  produz  eleva-se  de  ordinário  a  cem  ou  cento  e  vinte  gram- 
mas;  cento  e  oitenta  ou  duzentas  e  cincoenta  grammas  é  já  um  pezo  ex- 
cepcional. O  pôllo  do  macho  é  mais  abundante  que  o  da  fêmea,  mas  de 
qualidade  inferior  a  este.  Houve  tempo  em  que  as  pelles  de  cabra  ca- 
chemira constituíram  um  importantíssimo  artigo  de  commercio;  hoje,  me- 
didas coercitivas  de  toda  a  ordem,  restricções  á  liberdade  de  vender 
teem  feito  baixar  consideravelmente  este  ramo  de  actividade  mercantil. 
O  mesmo  tem  acontecido,  e  por  eguaes  motivos,  á  industria  de  tecela- 
gem, outr'ora  importantíssima  e  hoje  tão  decaída  que  os  operários  emi- 
gram por  falta  de  obra. 

Para  fazer-se  idéa  do  valor  d'esta  cabra  basta  lembrar  que,  segundo 
Gerbe,  um  chaile  de  cachemira  vale  bem  mil  e  quinhentos  a  mil  e  no- 
vecentos francos.  Na  Europa  tem-se  já  conseguido  fabricar  chailes  com 
a  verdadeira  lã  de  cachemira  e  é  isto  o  que  tem  feito  baixar  o  preço  de 
tal  vestido  á  quantia  que  mencionamos;  antes  da  concorrência  europeia, 
os  preços  eram  outros,  muito  mais  altos. 


mamíferos  em  especial 


Í03 


ACCLIMATAÇAO 


O  valor  da  cabra  cacbemira  estimulou  naturalmente  o  desejo  de  ac- 
climalal-a  na  Europa,  semelhantemente  ao  que  se  fizera  em  relação  á  ca- 
bra de  Angora.  Jaubert,  posto  ao  serviço  de  Ternaux,  introductor  em 
França  do  fabrico  de  chailes,  partiu  em  1818  para  a  compra  das  cabras 
cachemiras;  adquiriu  mil  e  trezentas  cabeças  mas  apenas  pode  desem- 
barcar em  Marselha,  em  1819,  quatrocentas;  as  outras  morreram  na  via- 
gem. As  mesmas  quatrocentas  que  chegaram,  vinham  muito  doentes.  Pela 
mesma  epocha  Diard  e  Duvaucel,  naturalistas  francezes,  enviavam  ao 
Jardim  das  Plantas  uma  cabra  cacbemira,  macho;  esta  cabra  deu-se  bem 
no  chma  francez  e  copulando-se  com  as  fêmeas  compradas  por  Jaubert, 
teve  uma  extensa  prole. 

As  cabras  cachemiras  ahmentam-se  como  as  cabras  de  Angora.  Exi- 
gem calor  no  inverno  e  movimento  no  eslio.  Crescem  tão  rapidamente 
que  ao  fim  de  um  anno  se  encontram  perfeitamente  aptas  para  a  repro- 
ducção. 


f      A  CABRA  DA  THEBAIDA 


É  também  conhecida  pelo  nome  de  cabra  do  Egypto.  Pode  conside- 
rar-se  até  certo  ponto  como  constituindo  a  transição  entre  as  cabras  e 
os  carneiros. 

É  mais  pequena  que  a  cabra  vulgar  de  que  em  seguida  nos  occupa- 
remos,  embora  tenha  os  membros  mais  altos.  O  pêllo  é  mais  curto  que 
o  d'esta  ultima.  O  que  n'este  ruminante  ha  de  mais  característico  é  a  ca- 
beça. O  dorso  do  nariz  apresenta  ao  meio  uma  forte  elevação  que  dá  ao 
focinho  uma  apparencia  inteiramente  desagradável.  A  pelle  que  cobre  a 
maxiha  superior  e  o  lábio  são  por  este  facto  arrepanhados  para  traz  de 
forma  que  os  dentes  incisivos  inferiores  ficam  á  vista,  desnudados.  Os 
olhos  são  pequenos  e  as  orelhas  pendentes  e  muito  alongadas,  do  tama- 


104  HISTORIA  NATURAL 

nho  da  cabeça.  Os  cornos  ou  não  existem  cm  nenhum  dos  sexos  ou,  se 
existem,  são  muito  curtos,  perfeitamente  rudimentares.  Não  ha  barba 
n'esta  espécie.  Comprehende-se  pelo  que  deixamos  dito  quanto  ha  de  re- 
pulsivo n'este  animal.  A  cor  mais  vulgar  do  manto  é  o  trigueiro  ruivo 
quasi  uniforme.  Os  individues  que  apresentam  maculas  pelo  manto  são 
muito  raros.  As  mamas  nas  fêmeas  que  aleitam,  affectara  a  forma  de  um 
sacco  estreito  em  cima  e  largo  em  baixo  e  teem  um  comprimento  ex- 
traordinário, quasi  egual  ao  dos  membros. 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPIIICA 


Habita  desde  a  mais  remota  antiguidade  o  Alto  Egypto, 


CAPTIVEIRO 


O  primeiro  exemplar  vivo  d'este  estranho  ruminante  veio  á  Europa 
no  começo  d'este  século.  Hoje  a  espécie  é  frequente  nos  jardins  zooló- 
gicos. 

Sobre  os  seus  costumes  sabemos  apenas  que  é  um  animal  sóbrio, 
dócil  e  que  reclama  poucos  cuidados. 


A  CABRA  DOMESTICA  OU  VULGAR 


Esta  cabra  differe  da  cabra  sylvestre  pelos  cornos  que,  depois  de  se 
terem  elevado  e  recurvado  para  traz,  como  n'esta,  incurvam  horisontal- 


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mamíferos  em  especial  105 

mente  para  fora  e  um  pouco  para  diante  de  modo  a  figurarem  um  co- 
meço de  espiral.  Estes  appendices  frontaes  são  arredondados  nas  duas 
faces,  assim  como  nos  bordos  posterior  c  externo;  o  bordo  anterior  po- 
rém é  cortante,  desegual,  e  algumas  vezes  tuberculoso  de  espaço  a  es- 
paço. A  superfície  dos  cornos  apresenta  em  quasi  toda  a  extensão  anncis 
transversaes  muito  approximados.  A  fêmea  apresenta  ás  vezes  cornos 
como  os  do  macho,  apenas  menos  fortes  e  menos  extensos;  outras  vezes 
não  apresenta  nenhuns.  As  cores  mais  vulgares  n'esta  espécie  são  o 
branco  e  o  negro,  ora  isolados,  ora  misturados.  O  pcllo  é  duro  e  de  com- 
primento desegual  nas  diíferentes  partes  do  corpo. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHIGA 


A  cabra  domestica  encontra-se  hoje  em  toda  a  superfície  da  terra. 


COSTUMES 


A  cabra  vulgar  é  um  animal  essencialmente  diurno.  Passa  a  manhã 
e  a  tarde  pelos  montes  procurando  alimento  e  ao  approximar  da  noite 
recolhe-se  a  casa,  entrega-se  á  protecção  do  homem.  É  possível  conser- 
val-a  captiva,  como  se  faz  na  AKemanha,  durante  o  dia  inteiro;  n  estas 
condições  todavia,  por  abundante  que  seja  a  alimentação,  o  animal  ema- 
grece, perde  constantemente  pezo,  torna-se  emfím,  na  phrase  signifíca- 
tiva  de  um  auctor  allemão,  «a  sombra  de  si  mesma.»  Isto  comprehen- 
de-se  facilmente.  A  cabra  tem  por  meio  próprio  e  habitual  a  montanha; 
quanto  mais  árida,  quanto  mais  selvagem  esta  for,  melhor  o  animal  ahi 
se  encontra.  Gosta  dos  legares  desertos,  das  paisagens  tristes.  Retel-a  cm 
casa  é  contrariar-lhe  os  instinctos. 

A  cabra  domestica  c  um  animal  vivo,  muito  ágil,  disposto,  sobre- 
tudo em  quanto  novo,  aos  folguedos  de  toda  a  ordem  e  admiravelmente 
adaptado  á  vida  rude  e  hostil  das  montanhas.  É  sóbria,  é  vigorosa,  re- 
siste á  fadiga  e  desconhece  inteiramente  a  vertigem.  A  cabra  domestica, 
como  todas  as  cabras,  caminha  com  extraordinária  segurança  pelos  ro- 
chedos mais  altamente  collocados  em  montanhas  como  os  Alpes;  fíta  os 


100  TIISTOTIÍA   NATTIRAL 

precipícios  com  incliíTercnça  e  sol)C  ás  vezes  a  pontos  que  ao  homem 
parecem  absolutamente  inacessíveis. 

A  disposição  aos  folguedos  que  caracterisa  a  cabra  domestica  nos 
primeiros  tempos  de  existência,  não  pode  dizer-se  que  cesse  no  animal 
adulto;  embora  com  menor  intensidade,  essa  disposição  alegre  contínua, 
a  despeito  dos  progressos  da  idade,  persiste,  pode  dizer-se,  durante 
toda  a  vida  do  animal.  É  esta  disposição  particular  que  a  leva  a  promo- 
ver ás  suas  congóneres,  aos  outros  animaes  e  até  mesmo  ao  homem  pe- 
quenas luctas  nas  quaes  intenta,  não  ferir  ou  mostrar  recursos  de  va- 
lentia, mas  simplesmente  agitar-se,  fazer  agitar  os  outros,  diverlir-se 
em  fim. 

A  cabra  domestica  é  dócil  e  revela  mesmo  pelo  homem  uma  ex- 
trema dedicação.  Se  é  tratada  com  desvello,  se  é  acariciada  pelo  dono, 
este  pode  fazer  d'ella  quanto  quizer,  pode  exigir-lhe  toda  a  ordem  de 
serviços  na  certeza  de  que  será  obedecido.  É  assim  que  se  faz  com  que 
uma  cabra  puche  durante  horas  inteiras  um  carro  de  creanças. 

A  cabra  domestica  é  muito  intellígente  e  chega  a  comprehender  a 
voz  humana,  submettendo-se  ás  ordens  que  recebe.  Esta  inteUigencia 
fal-a  sentir  amargamente  a  mais  pequena  injustiça  de  que  a  tornem  vi- 
ctima.  Se  a  maltratam,  se  a  castigam  sem  razão,  torna-se  má,  hostil,  fa- 
cilmente colérica.  Emfim,  podemos  fazer  da  cabra  domestica  um  typo  de 
docilidade  e  de  paciência  ou  de  rudeza  e  hostilidade,  segundo  o  modo 
por  que  a  tratarmos. 

Nas  montanhas  hespanholas  e  nos  Alpes  francezes  emprega-se  a  ca- 
bra domestica  como  guia  dos  rebanhos  de  carneiros.  Prestam  n'esta  ta- 
refa serviços  importantíssimos  e  tornam-se  auxihares  indispensáveis  dos 
pastores. 

Em  alguns  togares,  nos  Alpes  por  exemplo,  deixam-se  as  cabras  en- 
tregues a  si  mesmas.  Um  creado  condul-as  ás  pastagens,  abandona-as 
ahí  e  só  volta  a  buscal-as  no  outomno;  apenas  uma  vez  por  dia  ou  mesmo 
por  semana  vae  um  pastor  levar-lhes  uma  certa  quantidade  de  sal  que 
ellas,  pelo  costume,  vêem  buscar  a  um  logar  e  a  uma  hora  determi- 
nados. 

No  interior  d'Africa  as  cabras  pastam  livremente;  mas  ao  dechnar 
da  tarde  voltam  para  casa  a  recolherem-se  n'um  abrigo,  que  já  tivemos 
occasião  de  descrever  n'esta  obra,  e  onde  ficam  resguardadas  do  attaque 
nocturno  dos  carniceiros.  Como  o  leitor  já  sabe  pelo  que  dissemos  a  pro- 
pósito do  leão  e  do  lynce,  esse  abrigo  nem  sempre  é  tão  seguro  como  o 
indígena  quereria;  já  n^outro  logar  mostramos  que  não  é  absolutamente 
raro,  máo  grado  todos  os  cuidados,  que  uma  ou  muitas  cabras  sejam 
roubadas  durante  a  noite  pelos  carniceiros. 

A  cabra  domestica  foi  levada  para  a  America  pelos  europeus  e  ada- 


mamíferos  em  especial 


07 


ptou-se  alii  perfeitamente.  Brehm  observa  que  a  creapão  (Veste  utilíssimo 
ruminante  é  muito  descurada  no  Brazil,  no  Perií  e  no  Paraguay,  mere- 
cendo, pelo  contrario,  extrema  attenção  no  Chili. 

Relativamente  ao  regimen  alimentar  é  digno  de  menção  este  facto: 
muitas  plantas,  que  para  outros  animaes  são  venenos,  nas  cabras  não 
produzem  o  menor  eíTeito  deletério;  estão  n'este  caso,  entre  outras,  a 
cicuta  e  o  tabaco.  A  cabra  em  liberdade  bebe  apenas  agua  pura;  em  casa 
porém  acceita  agua  tépida  com  farello  em  suspensão. 

A  cabra  ao  fim  de  seis  mezes  de  existência  está  cm  condições  de 
reproduzir-se.  O  cio  na  fêmea  realisa-se  duas  vezes  por  anno:  uma  em 
Setembro  ou  Novembro  e  uma  outra  em  Março.  Estas  epochas  são  para 
a  cabra  domestica  de  uma  grande  agitação.  Se  a  copula  não  chega  a 
realisar-sa  a  fêmea  adoece.  O  cio  no  macho  dura  todo  o  anno,  ou  melhor 
—  não  ha  para  elle  epocha  do  cio,  antes  está  apto  sempre  a  satisfazer 
as  necessidades  sexuaes  das  companheiras.  Um  macho  vigoroso,  entre 
os  dois  e  os  oito  annos,  basta  para  copular  cem  fêmeas.  Depois  de  uma 
gestação  que  dura  vinte  e  uma  a  vinte  e  duas  semanas,  a  fêmea  dá  á 
luz  um  ou  dois  filhos,  raras  vezes  trez  e  muito  excepcionalmente  quatro 
ou  cinco.  Quando  este  ultimo  caso  se  dá,  geralmente  a  mãe  ou  alguns 
dos  filhos  morrem  depois  da  parturição.  Os  cabritos  ao  fim  de  dois  dias 
acompanham  a  mãe  por  toda  a  parte.  Crescem  muito  rapidamente;  ao 
fim  de  dois  mezes  teem  cornos  e  ao  fim  de  um  anno  estão  adultos. 


usos  E  PRODUGTOS 


A  utilidade  da  cabra  domestica  é  immensa;  em  muitas  regiões  é 
ella,  segundo  a  expressão  de  um  escriptor  francez,  «a  riqueza  dos  po- 
bres». É  um  ruminante  cuja  alimentação  custa  muito  pouco  no  inverno, 
não  custa  nada  no  verão  e  que,  quando  bem  nutrido  pode,  segundo 
os  cálculos  de  Lenz,  produzir  oitocentos  e  cincoenta  htros  de  leite  por 
anno.  Este  beho  ruminante  fornece-nos  ainda  a  carne,  os  cornos  e  a 
pelle,  productos  de  indiscutível  utihdade.  A  carne,  com  quanto  um  pouco 
secca,  é  sa])orosa;  a  pelle  serve  para  luvas,  em  algumas  terras  para 
calças  c  na  Grécia  para  odres  em  que  se  conserva  o  vinho;  os  cornos 
emfim,  torneados,  servem  para  usos  diversíssimos  nas  industrias,  ha- 
vendo até  togares  em  que  a  medicina  os  aproveita  á  maneira  de  vento- 
sas para  obter  cífeitos  revulsivos. 


08  ITTSTORTA    NATÍJRAL 


OS  CARNEIROS 


Os  ruminantes  que  constituem  esta  família  distinguem-se  das  cabras 
pela  região  frontal  que  é  cliata,  pelos  cornos  que  são  angulosos,  trian- 
gulares, de  rugosidades  transversaes  contornadas  em  espira  e  pela  au- 
sência de  barba.  São  em  geral  animaes  elegantes,  de  corpo  fino,  pernas 
altas  e  delgadas,  cauda  curta,  olhos  e  orelhas  grandes  e  pêllo  crespo, 
lanoso. 

A  comparação  entre  o  esqueleto  d'estes  animaes  e  os  das  cabras 
não  faz  descobrir  diíTerenças  muito  salientes.  Os  carneiros  teem  treze 
vértebras  dorsaes,  seis  lombares  e  sagradas  e  trez  a  vinte  e  duas  coccy- 
gianas. 

A  direcção  dos  cornos  é  caracteristica :  n'uns,  o  corno  do  lado  es- 
querdo é  contornado  para  a  direita  e  o  direito  para  a  esquerda,  ficando 
as  extremidades  voltadas  para  fora  e  divergentes;  n'outros,  o  corno  di- 
reito é  contornado  para  a  direita  e  o  esquerdo  para  a  esquerda,  conver- 
gindo então  as  pontas  para  traz.  Esta  ultima  forma  recorda  a  das  ca- 
bras. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHICA 


Os  carneiros  selvagens  babitam  as  montanhas  do  hemispberio  norte. 
Encontram-se  na  Europa,  na  Ásia  central  e  septentrional,  ao  norte  da 
Africa  e  na  America  septentrional.  Pertencem  na  maior  parte  ao  antigo 
continente.  Cada  grupo  de  montanhas  apresenta  as  suas  raças  ou  varie- 
dades particulares,  distinctas  d'outras  raças  ou  variedades  principalmente 
pela  conformação  dos  cornos. 


COSTUMES 


São  animaes  montanhezes;  alguns  parece  não  viverem  bem  senão 
nas  regiões  mais  elevadas.  Ascendem  muitas  vezes  a  uma  altura  de  seis 


mamíferos  em  especial 


lUÍ) 


mil  e  seiscentos  metros.  Nas  planicies  só  vivem  os  carneiros  domésticos. 
Estes  mesmos  comtuclo,  preferem  as  montanhas,  vivem  melhor  ahi. 

Os  carneiros  selvagens  procuram  os  togares  em  que  ha  hervas  e  é 
por  isso  que  no  inverno  se  encontram  muitas  vezes  nas  planicies.  No 
estio  as  montanhas  oíFerecem-lhes  plantas  saborosas;  no  inverno  porém 
são  forçados  a  contentar-se  com  lichens,  musgos  e  hervas.  Sabendo  per- 
feitamente escolher  os  alimentos,  se  os  ha  variados  e  em  abundância, 
dão  todavia  provas  de  extrema  sobriedade  em  epochas  pouco  férteis; 
hervas  seccas  e  cascas  d'arvores  parece  bastarem-lhes  então. 

Brehm  faz  notar  que  nos  carneiros,  melhor  talvez  do  que  em  qual- 
quer outra  espécie,  é  visivel  a  influencia  degradante  do  captiveiro.  Na 
expressão  d'este  naturalista  «o  carneiro  domestico  é  apenas  a  sombra 
do  carneiro  selvagem.  A  cabra,  mesmo  na  domesticidade  conserva  o  ca- 
racter independente;  o  carneiro,  esse  degenera  n'um  verdadeiro  es- 
cravo. O  carneiro  selvagem  é  vivo  e  ágil,  reconhece  e  evita  os  perigos, 
é  corajoso  e  gosta  dos  combates,  das  luctas.  No  carneiro  domestico  tudo 
isto  desapparece :  a  vivacidade  é  substituída  pela  indolência,  a  prudência 
por  uma  incondicional  confiança  no  homem,  a  coragem  emfim  por  um 
medo,  por  uma  espantosa  pusilanimidade.  O  carneiro  domestico,  por 
grande  que  seja,  tem  medo  de  um  cãosito  e  o  mais  inoíTensivo  animal 
basta  para  atterrar  um  rebanho  inteiro.  Os  carneiros  domésticos  mar- 
cham cegamente  atraz  do  guia;  se  este  o  conduzir  para  um  precipício, 
irão  confiados,  embora  os  espere  a  morte.  Nenhum  animal  se  domina, 
nenhum  se  guia  tão  facilmente  como  este;  parece  que  a  feUcidade  para 
elle  consiste  em  encontrar  quem  tome  sobre  si  todos  os  cuidados  que 
lhe  deveriam  pertencer. 

Os  carneiros  multiplicam-se  rapidamente.  Depois  de  uma  gestação 
de  vinte  a  vinte  e  cinco  semanas  a  fêmea  dá  á  luz  um  a  dois  filhos  já 
suíficientemente  fortes  para  a  seguirem  por  toda  a  parte.  A  mãe,  no  es- 
tado selvagem,  defende-os  de  todos  os  perigos,  mesmo  á  custa  da  pró- 
pria vida;  no  estado  domestico,  pelo  contrario,  a  mãe  não  tem  pelos 
recemnascidos  senão  a  indifferença  que  a  distingue  acerca  de  tudo  quanto 
a  cerca.  Os  filhos  ao  fim  de  um  anno  encontram-sc  aptos  para  a  rcpro- 
ducção. 


CAPTIVEIRO 


Os  carneiros  selvagens  trazem-se  rapidamente  ao  estado  domestico 
e  conservam  ainda  atravez  de  algumas  gerações  a  vivacidade  nativa. 


IIU  HISTORIA   NATURAL 

Reproduzcm-se  bem  no  capliveiro  o  liaLituam-sc  rapidamente  ás  pessoas 
que  d'elles  se  occupam,  obedecendo-liies  quando  esculam  a  sua  voz  e  re- 
cebendo com  prazer  as  caricias  que  lhes  fazem. 

Os  carneiros  propriamente  domésticos  vivem  sujeitos  ao  homem 
desde  tempos  immemoriaes.  Não  sabemos  quaes  fossem  os  antepassados 
d'esta  espécie,  nem  o  primeiro  logar  que  occuparam  no  globo;  sabemos 
só  que  hoje  se  encontram  em  toda  a  terra,  como  companheiros  constan- 
tes da  nossa  espécie. 


usos  E   PRODLCTOS 


Tudo  no  carneiro  tem  utilidade:  a  pehe,  a  lã,  os  cornos,  a  carne  e 
até  os  excrementos. 


O  MUFLAO  AFRICANO 


Ha  naturaUstas  que  incluem  esta  espécie  na  famiUa  das  cabras,  por- 
que d'estas  tem  muitos  caracteres.  O  muflão  africano  pode  ser  collocado 
ao  lado  da  cabra  da  Thebaida,  como  constituindo  a  transição  entre  a  fa- 
mília das  cabras  e  a  dos  carneiros.  Os  cornos  d'este  animal  recordam  os 
das  cabras,  differindo  d'elles  comtudo:  são  primeiro  horisontaes,  incur- 
vando  depois  muito  rapidamente  para  baixo  e  para  traz.  Apresenta  ao 
longo  .da  face  inferior  do  pescoço,  desde  a  maxiUa  inferior  até  á  origem 
dos  membros  anteriores,  uma  porção  de  péllos  compridos  perfeitamente 
distinctos  dos  que  cobrem  o  resto  do  corpo,  que  são  muito  mais  curtos 
e  menos  claros.  Os  péUos  da  face  inferior  do  pescoço,  chegando  á  raiz 
dos  membros  de  diante,  como  são  muito  extensos,  prolongara-se  até  ás 
articulações  dos  joelhos,  cnvolvendo-as;  é  por  isso  que  ao  muílão  afri- 
cano se  dá  cm  França  o  nome  de  laufíão  de  folhos.  Os  cornos  teeni  ses- 


MAMIFEHOS  EM   ESPECIAL  1  1  1 

senla  e  seis  centimetros  de  comprimento  e  apresentam  na  base  quatro 
faces.  O  pèlio,  exceptuando  o  da  face  inferior  do  pescoço  e  o  da  extre- 
midade da  cauda,  é  semelhante  ao  da  cabra  domestica.  O  dorso  é  ruivo 
ou  amarello  carregado  e  apresenta  manclias.  O  ventre  e  a  face  interna 
dos  membros  são  brancos;  ao  meio  do  dorso  estende-se  uma  linlia  es- 
cura. 

O  macho  adulto  mede  dois  metros  de  comprimento  sobre  um  melro 
e  quinze  centimetros,  approximadamente,  de  altura. 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPHICA 


A  área  de  dispersão  geographica  d'este  ruminante  é  muito  extensa. 
Vive  nas  montanhas  das  cercanias  do  Cairo,  nas  margens  do  Nilo,  na 
Abyssinia,  no  Sinai,  no  Atlas,  em  Marrocos,  na  Algéria,  etc. 


COSTUMES 


Segundo  as  informações  do  Dr.  Buvry,  o  muQáo  africano  habita  de 
preferencia  os  rochedos  das  montanhas  elevadas.  Não  vive  em  bandos  ou 
rebanhos  como  a  maior  parte  dos  carneiros,  mas  isolado.  Só  no  tempo 
do  cio,  que  tem  logar  em  Novembro,  é  que  algumas  fêmeas  se  juntam 
temporariamente  a  um  macho.  Durante  esta  epocha  ha  entre  os  machos 
os  combates,  a  que  tantas  vezes  nos  temos  referido,  para  a  posse  ou  do- 
mínio da  fêmea  durante  a  excitação  genésica.  Quatro  ou  cinco  mezes  de- 
pois da  copula,  a  fêmea  dá  á  luz  um  ou  dois  filhos  que  se  conservam  na 
companhia  d'ella  durante  quatro  mezes  e  que  a  abandonam  antes  de  um 
novo  periodo  de  excitação  genital. 

No  estio,  o  mufião  africano  alimenta-se,  como  as  cabras,  de  plantas 
nascidas  nas  montanhas;  no  inverno,  come  lichens,  musgo  e  hervas. 


12  IIISTORÍA   NATUUAL 


GAGA 


O  mesmo  naturalista  a  quem  pedimos  as  informações  anteriores,  as- 
severa que  a  caça  do  muílão  africano  é  diíficii,  não  só  porque  o  animal 
vive  a  grandes  alturas,  mas  ainda  porque  é  muito  vigilante  e  se  lhe  torna 
fácil,  no  meio  do  silencio  que  reina  de  ordinário  nas  grandes  elevações, 
ouvir  a  distancia  o  mais  leve  rumor  produzido  pelos  movimentos  de  quem 
caça.  lia  ainda  uma  outra  circumstancia  que  difficulta  a  caça  d'este  ru- 
minante: é  que,  tendo  uma  extraordinária  resistência  vital,  ainda  depois 
de  gravemente  ferido  é  capaz  de  fugir  com  extrema  rapidez  e  por  largo 
tempo  ás  perseguições  do  caçador.  O  Dr.  Buvry  diz  que,  tendo  lançado 
por  terra  com  dois  tiros  um  muflão,  se  dispunha  a  apanhal-o  quando  elle 
deitou  a  correr  precipitadamente;  o  naturahsta  guiado  pelo  traço  de  san- 
gue do  animal  caminhou  horas  e  horas  antes  que  podesse  encontral-o. 
E  depois  de  todo  este  trabalho,  depois  d'esta  immensa  caminhada  por 
atalhos  e  rochedos,  em  meio  de  perigos,  foi  o  naturahsta  dar  com  o  ani- 
mal no  fundo  de  ura  precipício  onde  caíra  ou  onde  se  atirara  sendo  pre- 
ciso que  um  companheiro  indígena  descesse  cautelosamente  para  trazer 
acima  o  cadáver  de  que  apenas  se  utilisou  a  peUe. 


CAPTIVEIRO 


o  muflão  africano  dá-se  bem  em  captiveiro  e  habitua-se  perfeita- 
mente ao  homem,  como  se  vé  nos  jardins  zoológicos.  Supporta  o  clima 
da  AUemanha  do  Norte  e  reproduz-se  captivo,  como  se  tem  visto  por 
muitas  vezes  em  diíferentes  paizes,  nomeadamente  em  Bruxehas  onde 
existe  um  par  quQ  todos  os  annos  invariavelmente  produz  dois  filhos. 
Brchm  diz  ter  observado  alguns  exemplares  que  em  captiveiro  conser- 
vam toda  a  selvageria,  toda  a  desconfiança  que  os  caracterisa  no  estado 
da  liberdade.  A  inteUigencia  do  muflão  africano  é  muito  limitada. 


MAMÍFEROS  EM  ESPECIAL  1  1 


USOS   E   PRODUCTOS 


Os  árabes  estimam  muito  a  carne  d'este  ruminante;  Brelim,  que  a 
comeu,  acha-a  excellente,  mais  delicada,  superior  mesmo  á  do  veado. 
O  pêllo  serve  nas  mãos  dos  Árabes  para  o  fabrico  de  cobertores  e  tape- 
tes; da  pelle  fazem,  pela  tanificação,  marroquim. 


O  MUFLAO  EUROPEU 


Tem  de  comprimento  um, metro  e  trinta  centimetros,  incluida  a  cauda, 
que  mede  oito  ou  dez;  a  altura  é  oitenta  centimetros  e  o  pezo  varia  de 
vinte  e  cinco  a  quarenta  kilogrammas.  Os  cornos  teem  um  comprimento 
de  sessenta  e  seis  centimetros  e  um  pezo  de  quatro  a  seis  kilogrammas. 
O  corpo  é  muito  refeito,  muito  vigoroso.  O  pêllo  é  curto  e  muito  denso, 
principalmente  no  inverno.  Não  tem  barba;  os  péllos  do  peito  são  mais 
compridos  que  os  d'outras  partes  do  corpo.  A  côr  geral  do  péllo  é  um 
ruivo  que  faz  lembrar  o  da  rapoza.  A  cabeça  é  cinzenta,  o  focinho,  os 
bordos  da  cauda,  os  pés  e  o  ventre  são  brancos.  A  linha  media  do  dorso 
é  escura. 

De  ordinário  só  o  macho  tem  cauda;  ás  vezes,  porém,  a  fêmea  tam- 
bém os  apresenta  em  estado  rudimentar.  No  macho  estes  appendices  são 
compridos  e  fortes,  muito  espessos  na  base  e  delgados  na  extremidade. 
Na  raiz  são  muito  approximados;  do  meio  por  diante  recurvam-se  em 
forma  de  gancho.  O  corno  direito  é  contornado  para  a  esquerda  e  o  es- 
querdo para  a  direita ;  os  cornos  apresentam  trinta  a  quarenta  rugosida- 
des  irregulares  que  se  estendem  até  á  ponta.  Na  fêmea,  os  cornos,  quando 
existem,  affectam  a  forma  de  pyramides  obtusas  de  cinco  a  oito  centi- 
metros de  altura. 


VOL.    III 


114  HISTORIA  NATURAL 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPIIICA 


O  muílão  europeu  habita  ainda  hoje  as  montanhas  pedregosas  da 
Córsega  e  da  Sardenha.  Cré-se  geralmente  que  elle  viveu  outr'ora  em 
outros  pontos  do  meio  dia  da  Europa.  O  muílão  selvagem  da  ilha  de 
Chypre  é  uma  espécie  distincta. 

Apezar  da  caça  activa  de  que  é  victima,  o  muílão  europeu  é  abun- 
dante; encontram-se  ainda  rebanhos  de  cincoenta  a  cem  cabeças. 


COSTUMES 


Houve  tempo  em  que  a  espécie  abundava  por  tal  forma  que  n'uma 
só  caçada  se  matavam  quatro  a  cinco  mil  indivíduos;  hoje,  pondo  em  pra- 
tica todos  os  meios,  deve  considerar-se  fehz  quem  conseguir  matar  trinta 
ou  quarenta. 

O  muílão  da  Europa,  distanciando-se  muito  n'este  ponto  do  muílão 
africano,  vive  em  sociedades,  cujo  commando  pertence  ao  macho  mais 
velho  e  mais  forte  do  rebanho.  Na  epocha  do  cio  estas  sociedades  decom- 
poem-se  em  pequenas  famihas,  formadas  ordinariamente  de  um  macho 
e  de  algumas  fêmeas  por  elle  conquistadas  em  combate.  A  quadra  dos 
amores  que  tem  logar  em  Dezembro  e  Janeiro,  ó  agitadíssima.  As  luctas 
dos  machos  são  terríveis,  acabam  geralmente  pela  morte  de  um  dos  ad- 
versários que  é  precipitado  n'um  abysmo. 

A  gestação  dura  vinte  e  uma  semanas;  em  Abril  ou  Maio  a  fêmea 
dá  á  luz  dois  filhos  suíTicientemente  vigorosos  para  correrem  desde  logo 
atraz  da  mãe  que,  poucos  dias  passados,  egualam  em  temeridade  e  prom- 
ptidão  de  movimentos.  Ao  fim  de  quatro  mezes  apparecem  os  cornos  nos 
pequenos  machos,  que  da  idade  de  um  anno  estão  aptos  para  a  repro- 
ducção.  No  fim  de  trez  annos  teem  attingido  o  máximo  desenvolvimento. 

O  muílão  é  um  excellente  trepador;  nas  planícies  fatiga-se  muito  ra- 
pidamente e  por  isso  um  cão  o  apanha  dentro  de  muito  pouco  tempo. 

Os  principaes  inimigos  do  adulto  são  o  lobo  e  o  lynce;  os  recem- 
nascidos  são  victimas  ainda  da  águia  e  do  abutre. 


mamíferos  em  especial  115 


CAÇA 


A  perseguição  do  homem  a  este  ruminante  é  porfiada.  A  melhor  epo- 
cha  de  caça  são  os  mezes  do  cio;  imitando  a  voz  da  fêmea,  o  caçador 
consegue  attrair  os  maclios  até  á  distancia  de  poder  atirar-lhes.  Os  adul- 
tos só  por  acaso  se  podem  apanhar  vivos;  os  recem-nascidos  captivam-se 
facilmente,  matando  a  mãe. 


gaptiVeiiio 


o  mufião,  uma  vez  preso,  habitua-se  rapidamente  ás  relação  com 
a  nossa  espécie,  conservando  sempre  a  agilidade  e  viveza  que  o  cara- 
cterisam  no  estado  livre.  Chega  a  um  gráo  de  domesticidade  tal  que 
acompanha  o  homem  por  toda  a  parte  como  o  cão.  É  no  entanto  um  ani- 
mal desagradável  sempre  no  captiveiro,  por  dois  motivos  capitães:  por- 
que percorre  constantemente  a  casa  atirando  tudo  ao  chão,  mexendo  em 
tudo  e  porque,  á  medida  que  avança  em  idade,  vae  readquirindo  a  sel- 
vageria  primitiva,  vae-se  tornando  mau,  usando  dos  cornos  contra  o  ho- 
mem, não  só  para  se  defender,  como  por  prazer  de  attacar,  de  fazer 
mal.  De  resto,  é  pouco  inteUigente,  mal  dotado  de  memoria. 

As  relações  sexuaes  d'esta  espécie  com  outras  do  mesmo  grupo  são 
fecundas;  os  mestiços  que  d'ahi  resultam  são  fecundos  também.  As  ten- 
tativas de  cruzamento  com  a  cabra  domestica,  ensaiadas  em  muitos  jar- 
dins zoológicos,  teem  sido  até  hoje  frustradas. 

Um  facto  digno  de  notar-se  é  que  algumas  vezes  os  mestiços  re- 
sultantes do  cruzamento  do  muílão  europeu  com  o  carneiro  domestico, 
apresentam  quatro  cornos. 

As  espécies  mais  visinhas  do  muflão  europeu,  quer  morphologica- 
mente,  quer  pelos  costumes,  são : 

o  MUFLÃO  de  giiypre,  quc  só  n'esta  ilha  se  encontra; 

o  MUFLÃO  DA  PÉRSIA,  quc  habita  principalmente  a  provincia  de  Ma- 
candarim  e  as  montanhas  da  Arménia; 

o  MUFLÃO  DO  iiiMALAYA,  quc  vívc  uo  Pcqucno  Thibct  e  em  Cabul; 

Finalmente  o  muflão  do  gabo,  que  vive  a  este  do  Cabo  e  na  Serra 


IIG  HISTORIA   NATURAL 

Moreh.  Estas  espécies  distinguem-se  pela  curvatura  dos  cornos  e  não 
merecem  descripção  especial. 


O    ARGALI 


É  o  carneiro  selvagem  da  Ásia  e  é  lambem  o  maior  representante 
da  familia. 


CARACTERES 


É  um  animal  forte  de  dois  metros  e  quinze  centimetros  de  compri- 
mento sobre  um  metro  e  trinta  de  altura.  Os  cornos  são  tão  grandes 
que  o  raposo  azulado  pode  introduzir-se  na  cavidade  d'elles.  A  estatura 
do  animal  indica  força  e  vigor.  Os  cornos  dão-lhe  uma  physionomia  es- 
pecial. Na  raiz  cobrem  completamente  a  parte  posterior  da  cabeça.  Muito 
approximados  no  começo,  recurvam-se  a  pequena  altura  formando  ver- 
dadeiros ss.  O  comprimento  d'estes  órgãos  é  de  um  metro  e  quinze  cen- 
timetros a  um  metro  e  trinta  e  a  circumferencia,  na  base,  é  de  dezeseis 
a  vinte  centimetros.  Estes  appendices  são  cobertos  em  toda  a  extensão 
de  rugosfdades  muito  approximadas.  O  manto  oíTerece  péllos  compri- 
dos e  rijos  que  cobrem  outros  finos,  moUes  e  espessos.  A  cor  varia 
com  as  estações;  é  trigueira  escura  no  inverno  e  ruiva  no  verão.  A  fê- 
mea apresenta  também  cornos,  mas  mais  delgados  que  os  do  macho  e 
quasi  rectos. 

DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHICA 


Habita  todas  as  regiões  desertas  das  montanhas  da  Ásia  central. 
Existiu  outr'ora  em  alguns  pontos  da  Rússia  asiática  d'onde  todavia  des- 
appareceu  completamente  desde  1832. 


MAMÍFEROS   EM  ESPECIA-L  1  I 


COSTUMES 


Evita  as  montanhas  húmidas  e  muito  arborisadas,  assim  como  as 
grandes  alturas.  Prefere  ás  elevações  extraordinárias,  em  que  tão  bem 
se  dão  as  cabras,  as  montanlias  de  seiscentos  a  mil  metros  de  altura 
apenas.  É  ahi  que  elle  vive  de  inverno  e  de  verão. 

É  sociável;  por  isso  se  encontram  bandos  de  oito  a  dez  indivíduos, 
cuja  direcção  pertence  sempre  ao  macho  mais  vigoroso. 

Na  epocha  do  cio  os  combates  dos  machos  são  violentos;  se  o  mais 
fraco  não  toma  o  expediente  de  fugir,  será  inevitavelmente  atirado  a  um 
precipício  onde  encontra  a  morte. 

A  fêmea  dá  á  luz  em  Março  um  ou  dous  filhos,  de  pêllos  pardos  e 
crespos.  Estes  seguem  desde  o  primeiro  dia  a  mãe  e  com  ella  se  con- 
servam até  á  primeira  estação  de  cio,  posterior  ao  nascimento.  No  ma- 
cho os  cornos  apparecem  aos  dois  mezes. 

De  verão,  o  argah  ahmenta-se  de  plantas  que  crescem  nos  valles 
adjacentes  ás  montanhas  que  habita;  no  inverno,  come  musgos,  hchens 
e  hervas  seccas.  O  frio  não  o  incommoda  muito;  o  manto  que  é  espesso 
basta  para  o  preserverar. 

É  muito  tímido;  desde  que  vê  um  homem,  deita  a  fugir,  correndo 
com  extraordinária  velocidade  por  togares  alcantilados,  perigosíssimos. 


CACA 


Comprehende-se  pelo  que  acabamos  de  dizer  que  a  caça  do  argali 
seria  diíTicihma  se  a  curiosidade  extrema  do  animal  o  não  compromet- 
tesse  a  cada  instante.  Os  caçadores  suspendem  ás  vezes  a  roupa  a  uma 
haste  vertical  e  emquanto  o  ruminante,  levado  pela  curiosidade,  íixa 
attentamente  o  espantalho,  vão  elles  por  outro  lado  approximando-se. 
Nas  planícies  a  caça  faz-se  com  auxilio  de  cães,  que  suspendem  a  mar- 
cha do  ruminante  até  que  o  caçador  chegue.  O  uso  das  armadíllias  é 
também  frequente. 


HISTORIA  NATURAL 


GAPTIVEIRO 


Emquanto  novo,  o  argali  domesíica-se  facilmente.  É  diííicil  porém 
conserval-o  em  captiveiro  e  muito  mais  fazel-o  viajar.  Não  existe  na  Eu- 
ropa, pelo  menos  nos  jardins  zoológicos  conhecidos. 


usos  E   PRODUGTOS 


A  carne  do  argali  é  magnifica,  a  pelle  serve  para  a  fabricação  de 
vestidos  de  inverno  e  outros  agasalhos  e  dos  cornos  íazem-se  utensihos 
de  cosinha. 


O  MUFLAO  AMERICANO 


O  macho  adulto  mede  dois  metros  de  comprimento  total  e  um  me- 
tro e  quinze  centímetros  de  altura.  A  fêmea  é  mais  pequena:  não  ex- 
cede metro  e  meio  de  comprido  e  um  metro  e  dez  centímetros  de  alto. 
O  corpo  é  refeito  e  vigoroso  e  a  cabepa  assemelha-se  muito  á  do  hode- 
quim.  Tem  o  dorso  do  nariz  recto,  os  olhos  grandes,  as  orelhas  peque- 
nas, o  pescoço  curto,  o  dorso  alongado,  o  peito  forte  e  largo,  a  cauda 
curta,  medindo  apenas  quatorze  centímetros  de  comprido,  as  coxas  vi- 
gorosas, as  pernas  fortes  e  curtas,  os  cascos  curtos  também  e  talhados 
quasi  a  direito  anteriormente.  Os  cornos  são  fortíssimos  e  extensos;  me- 
didos ao  longo  da  curvatura  que  formam,  sobre  o  bordo  externo,  teera 
setenta  centímetros  de  comprimento.  A  circumferencia  é,  na  base  de 
trinta  e  sete  centimetros  e  no  meio  de  trinta  e  um.  A  distancia  de  uma 


mamíferos  em  especial 


110 


extremidade  á  oulra  é  de  cincoenta  e  oito  centimetros.  Os  cornos,  muito 
approximados  na  raiz,  dirigem-se  para  fora  e  para  diante,  voUam-sc 
para  Iraz  e  recurvam-se  quasi  circularmente  para  baixo  e  para  diante, 
voltando-se  de  novo  a  ponta  para  cima  e  para  fora.  Não  são  comprimi- 
dos e  achatados,  como  os  de  tantos  outros  animaes,  mas  largos,  cobertos 
de  muitas  rugosidades  transversaes  e  apresentando  saliências  finas  em 
toda  a  extensão.  O  pcllo  é  semeltiante  ao  do  bodequim.  A  cor  geral  é 
também,  como  a  d'este  ruminante,  um  trigueiro  escuro.  Os  machos  ve- 
lhos são  muitas  vezes  cinzentos  claros  ou  mesmo  brancos.  A  fêmea  apre- 
senta também  cornos,  que  diíferem  dos  do  macho  em  serem  mais  fracos, 
menos  extensos,  menos  recurvados  e  semelhantes  aos  das  cabras;  recur- 
vam-se para  traz  e  para  fora  e  terminam  em  ponta  adelgaçada. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHIGA 


Segundo  Richardson  e  Audubon  este  animal  é  vulgar  na  Califórnia. 


COSTUMES 


O  muílão  americano  povoa  sempre  os  logares  mais  selvagens  da  re- 
gião que  habita,  parecendo  dar-se  ahi  admiravelmente.  Nas  montanhas 
encontra  cavernas  que  lhe  servem  de  abrigo  e  vegetaes  para  a  alimen- 
tação. 

Este  ruminante  é  muito  sociável  e,  como  a  espécie  é  ainda  abun- 
dante, não  é  raro  cncontral-o  em  bandos  numerosos,  de  trinta  cabeças 
segundo  uns,  Richardson  por  exemplo,  de  oitenta  segundo  outros,  como 
o  príncipe  de  Wied,  notável  naturalista  muitas  vezes  citado  n'esta  obra. 
As  fêmeas  com  os  filhos  constituem  na  maior  parte  do  anno  bandos  á 
parte.  Os  velhos  machos,  a  seu  turno,  vivem  em  bandos  separados.  Em 
Dezembro  porém,  que  é  o  tempo  do  cio,  os  bandos  de  machos  c  fêmeas 
confundem-se,  travando-se  então  entre  os  primeiros  as  grandes  luctas 
características  da  excitação  genésica. 

A  fêmea  dá  á  luz  em  Junho  ou  Julho;  o  primeiro  parlo  produz  ape- 
nas um  filho,  os  outros  produzem  dois  regularmente. 


Í20  HISTORIA    NATURAL 

O  muflão  americano  é,  como  o  bodequim,  um  excellentc  trepador; 
é  também,  como  todos  os  animaes  da  família,  excessivamente  timido. 


CAÇA 


Para  formar  idéa  das  diíTiculdades  de  toda  a  ordem  que  se  ligam  a 
perseguição  d'este  animal,  basta  lembrar  que  elle  habita  montanhas  onde 
os  perigos  se  deparam  a  cada  instante  e  que  tem  pelo  homem  tanto  hor- 
ror como  pelo  lobo.  Nunca  foi  possível  apanhar  um  d'estes  ruminantes 
vivos,  nem  adulto,  nem  recem-nascido.  Isto  explíca-se  pelo  facto  de  que 
a  mãe,  desde  que  o  parto  acaba,  marcha  com  os  filhos  para  logares 
inaccessíveis  ao  homem.  Debalde  muitos  naturahstas  teem  promettido  va- 
hosos  prémios  aos  caçadores  indígenas  por  um  exemplar  vivo.  Mao  grado 
esforços  de  toda  a  ordem  empregados  por  estes  homens,  de  sobejo  ex- 
perimentados na  caça  do  animal,  nenhum  conseguiu  até  hoje  o  promet- 
tido e  desejado  premio. 


usos  E  PRODUCTOS 


A  carne  é  utilisada  como  alimento;  a  do  macho,  principalmente  na 
epocha  do  cio,  tem  um  gosto  semelhante  á  do  carneiro  domestico.  Os  in- 
dígenas servem-se  da  pelle  para  fazer  camisas;  eha  é  forte  e  solida,  mas 
muito  macia. 


OS  CARNEIROS  PROPRIAMENTE  DITOS 


Sob  a  designação  de  carneiros  propriamente  ditos  comprehende-se 
em  historia  natural  o  conjuncto  das  raças  ou  variedades  do  género  que 


mamíferos  em  especial  121 

SC  lornaram  domesticas  desde  uma  data  impossível  de  fixar-sc  e  que 
deve  ser  muito  remota,  attendendo  a  que  os  caracteres  que  apresentam 
são  profundamente  distinctos  dos  que  distinguem  as  espécies  selvagens. 
Milne-Edwards  cré  que  todos  os  carneiros  domésticos  se  derivam  do  mu- 
ílão  europeu  ou  do  argali.  P.  Gervais  no  seu  livro  Historia  natwral  dos 
mamiferos  *  aíTirma,  pelo  contrario,  que  os  carneiros  domésticos  são  ani- 
maes  de  que  é  impossível  encontrar  algures  os  representantes  selva- 
gens. Segundo  este  ultimo  escriplor,  os  caracteres  mais  salientes,  que 
distinguem  os  carneiros  propriamente  ditos  das  espécies  selvagens,  são: 
o  comprimento  da  cauda,  que  de  ordinário  desce  até  abaixo  da  curva 
das  pernas  e  a  natureza  dos  cornos  que  são  cheios  e  mais  affastados  na 
raiz  do  que  nos  muílões.  Em  algumas  variedades  faltam  os  cornos,  mesmo 
nos  machos. 

Acerca  da  origem  dos  carneiros  domésticos  existem,  além  das  opi- 
niões que  acabamos  de  apresentar,  outras  ainda,  segundo  as  quaes  elles 
descenderiam  do  muflão  africano  ou  de  uma  espécie  já  extincta.  A  ver- 
dade é  que  nada  de  positivo  se  sabe  sobre  o  assumpto.  Acontece-nos 
aqui  o  mesmo  que  quando  tratamos  do  cão  e  em  geral  de  todas  as  es- 
pécies domesticas;  a  origem  escapa-nos  inteiramente. 

O  carneiro,  como  a  cabra,  como  o  boi,  como  o  cão,  existe  sob  o 
domínio  do  homem  desde  os  tempos  ante -históricos;  é  d'ahi  que  vem  a 
nossa  ignorância  sobre  a  origem  do  animal.  De  resto,  de  todas  as  hypo- 
theses  emittidas  uma  nos  parece  desde  logo  inadimissivel :  a  que  faz  pro- 
ceder os  carneiros  domésticos  de  uma  espécie  única,  extincta.  E  recusa- 
mos à  priori  uma  tal  hypothese  não  só  porque  se  não  baseia  n'um  único 
facto  positivo  de  pre historia,  senão  porque  é  impossível  acreditar  que 
todos  os  carneiros  domésticos,  tão  diversos  uns  dos  outros,  tenham  at- 
tingido  uma  tal  differenciação  pela  simples  acção  accidental  do  meio  cli- 
matérico e  da  selecção  artificial.  Seja  como  for,  sobre  o  assumpto  em 
questão  é  melhor  declararmo-nos  ignorantes  do  que  fazer  conjecturas 
sem  fundamento  e  sem  verificação  possível. 

A  base  para  estabelecer  a  difi^erenciação  entre  as  variedades  ou  ra- 
ças dos  carneiros  domésticos  consiste  no  exame  dos  appendices  córneos, 
do  manto  ou  velo  e  do  comprimento  e  forma  da  cauda. 

Os  appendices  córneos  fazem  differenças  verdadeiramente  notáveis 
e  características  entre  as  raças;  o  velo  afi^ecta  também  differenças  notá- 
veis derivadas  do  comprimento,  finura  e  molleza  dos  péllos;  emfim  a 
cauda  pelas  extensões  differentes  que  apresenta  é  também  um  caracter 
differencial  digno  de  attenção. 


Vid.  Loc.  dt.,  tom.  ii,  pg.  192  e  aeguinteá. 


122  HISTORIA   NATURAL 

Já  acima  dissemos  que  era  notável  a  influencia  da  domesticidade 
sobre  os  carneiros;  que  se  os  comparamos  ás  espécies  selvagens  sob  o 
ponto  de  vista  dos  costumes,  somos  quasi  tentados  a  descrer  que  devam 
ser  uns  e  outros  egualmente  contidos  n'um  ramo  único  de  ruminantes. 

É  aqui  o  logar  de  acrescentar  ao  que  dissemos  algumas  indicações 
importantes. 

Os  carneiros  domésticos  são  animaes- sóbrios,  pacíficos,  soffredores 
e,  sobretudo,  medrosos  e  cobardes.  Segundo  Brehm,  só  na  epocha  do 
cio  é  que  estes  animaes  apresentam  alguma  coisa  de  semelhante  ás  es- 
pécies selvagens.  Fora  d'essa  quadra,  são, entes  incaracterísticos,  incon- 
dicionalmente submettidos  á  direcção  do  homem,  degradados,  sem  intel- 
ligencia,  sem  iniciativa.  O  mais  leve  ruido  apavora  estes  animaes;  e  nos 
dias  de  temporal,  de  trovoada  e  de  relâmpagos,  muitos  correm  como 
doidos  e  chegam  a  atirar-se  à  agua.  Brehm  conta  que  nas  vastas  planí- 
cies da  Rússia  e  da  Ásia  os  pastores  são  victimas  da  timidez  ridícula  dos 
carneiros:  estes  com  eííeito,  na  occasião  das  grandes  tormentas  de  neve, 
ora  correm  desesperados  a  atirar-se  à  agua,  ao  mar  até,  ora  se  que- 
dam imraoveis  n'um  sitio  e  se  deixam  com  resignação  cobrir  de  neve; 
assim  perdem  os  pastores  n'um  só  dia  milhares  de  cabeças.  Quando  um 
incêndio  se  declara  n'um  curral,  é  difficil,  diz  Lenz,  salvar  alguns  carnei- 
ros; atterrados,  ou  se  encostam  uns  aos  outros  de  modo  que  é  quasi 
impossível  separal-os,  ou  se  atiram  ás  chammas.  O  mesmo  auctor  conta 
que  tendo  dois  cães  de  caça  entrado  n'um  estabulo,  os  carneiros  que 
ahi  se  encontravam  se  atterraram  tanto  e  se  apertaram  de  tal  modo  uns 
contra  os  outros  que  a  maior  parte  d'elles  succumbiram  á  asphixia. 

Os  carneiros  preferem  os  legares  altos  e  seccos  aos  baixos  e  húmi- 
dos. Presentem  com  grande  antecedência  as  variantes  de  tempo.  Já 
n'outro  logar  falíamos  da  alimentação  d'estes  animaes. 

O  tempo  mais  apropriado  ás  relações  sexuaes  d'estes  ruminantes 
é,  entre  nós,  Outubro.  Nos  paizes  quentes  ha  duas  epochas  de  cio  em 
cada  anno.  A  gestação  é  approximadamente  de  cento  e  cincoenta  dias. 
Cada  parto  produz  geralmente  um  filho;  o  numero  de  dois  é  raro.  Os 
borregos  que  nos  paizes  quentes  nascem  de  verão  mamam  de  ordinário 
dois  mezes,  os  que  nascem  no  inverno  mamam  três  e  mais. 

Até  aos  seis  mezes,  a  cria  chama-se  anho,  cordeiro  ou  borrego;  de- 
pois do  primeiro  anno  malato;  o  que  fica  para  a  cobrição  toma  o  nome 
vulgar  de  sementão. 

A  quaUdade  dos  ahmentos  dados  aos  carneiros  deve  variar  conforme 
se  tem  em  vista  obter  boa  carne  ou  boa  lã.  Ha  paizes  em  que  a  carne 
é  considerada  como  o  producto  principal;  é  o  que  acontece  na  Inglaterra. 
N'outros  paizes,  ao  contrario,  como  em  França,  a  lã  é  o  producto  mais 
importante  e  a  carne  é  um  producto  de  menor  importância. 


mamíferos  em  especial 


123 


A  lã,  segundo  Figuier,  ^  pode  ser  fincij  entrcfma  ou  grosseira,  O  fio 
de  diâmetro  egual  em  toda  a  extensão  é  o  mais  estimado;  se  é  recto  a 
lã  chama-se  lisa  e  se  é  flexuoso  a  lã  diz-se  ondulada.  Se  as  flexuosida- 
des  são  muito  approximadas  umas  das  outras,  a  lã  é  frisada.  Na  boa  lã 
exigem-sc  como  qualidades  essenciaes  a  flexibilidade,  a  macieza,  a  exten- 
sibilidade e  a  elasticidade.  Estas  condições  favorecem  a  fabricação  dos 
estofos  de  lã.  Segundo  Figuier,  a  maior  parte  das  propriedades  a  que 
acabamos  de  referir-nos  parece  dependerem  da  gordura  que  penetra 
mais  ou  menos  no  íio  da  lã  e  que  se  chama  bedum.  Se  este  é  abundante 
á  superfície  do  pêllo,  communica  á  lã  macieza  e  flexibilidade;  se  é  es- 
pesso e  fortemente  corado  torna  as  lãs  rudes,  ásperas,  grosseiras. 

As  lãs  são  brancas,  ruivas  e  pretas.  Estas  ultimas  são  consideradas 
de  pouco  valor;  as  primeiras  porém,  as  brancas,  são  muito  apreciadas. 

Dos  carneiros  poucos  são  os  que  se  aproveitam  para  a  reprodu- 
cção ;  os  outros  castram-se  e  a  epocha  própria  para  esta  operação  é  a 
que  decorre  entre  o  quinto  e  sexto  mez  do  animal. 

De  Março  ou  Abril  em  diante  ordenham-se  as  ovelhas  para  o  fabrico 
de  manteiga  e  dos  queijos,  operação  que  se  prolonga  até  Agosto,  de  or- 
dinário. 

A  tosquia  tem  logar  geralmente  em  Maio.  É  n'este  tempo  que  são 
precisos  da  nossa  parte  maiores  cuidados  em  relação  ao  animal,  que 
então  sente,  como  é  fácil  prever,  muito  mais  que  em  qualquer  outra 
epocha  as  mudanças  atmosphericas. 

O  cordeiro  logo  depois  de  nascido  apresenta  oito  dentes  incisivos; 
ao  fim  de  um  anno  ou  de  um  anno  e  meio,  os  dois  anteriores  caem  e 
são  substituídos  por  outros.  No  segundo  anno  caem  os  dois  outros  imme- 
diatos,  no  terceiro  anno  mais  dois  e  assim  até  que  todos  os  primitivos 
tenham  sido  substituídos  por  outros.  Os  novos  dentes  vão-se  tornando 
amarellos  com  a  idade  e  ao  mesmo  tempo  vão-se  descarnando. 

Dos  usos  e  productos  dos  carneiros  já  n'outro  logar  tivemos  occa- 
sião  de  fallar. 

Resta-nos  estudar  algumas  das  raças  mais  importantes. 


Vid.  /ve.«?  Mammifhrc.!^,  jDg.  23 


IIISTOIUA   NATURAL 


O  CARNEIRO  MERINO 


É  sem  contestação  a  raça  mais  importante.  Muito  descurada  até  ao 
século  passado,  tem  sido  de  então  para  cá  objecto  de  extraordinários 
cuidados. 


CARACTERES 


É  de  proporções  regulares,  refeito,  solidamente  organisado.  Tem  a 
cabeça  grande,  o  focinho  obtuso,  a  região  frontal  chata,  o  nariz  um 
pouco  arqueado,  os  olhos  pequenos  e  as  orelhas  de  tamanho  médio  e  de 
ponta  obtusa.  Os  cornos  são  muito  fortes,  recurvos  em  c  e  tendo  ses- 
senta e  seis  centimetros,  medida  a  extensão  segundo  a  curvatura.  As  fê- 
meas muito  raras  vezes  apresentam  estes  appendices  frontaes.  O  pescoço 
é  curto  e  oíferece  inferiormente  uma  dilatação  semelhante  á  papeira. 
Os  membros  são  baixos,  mas  fortes  e  soHdos  e  os  cascos  obtusos.  O 
mais  importante  n'este  animal  é  a  lã,  que  é  curta,  macia,  fina,  crespa  e 
branca  amarellada. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHICA 


SuppÔe-se  que  o  carneiro  merino  é  originário  do  norte  d'Africa, 
donde  veio  para  a  Europa.  A  espécie  é  vulgar  ha  muito  tempo  em  Hes- 
panha  e  Portugal.  E,xiste  também  em  abundância  na  Austrália. 


Os  naturaUstas  costumam  dividir  o  carneiro  merino  em  duas  gran- 
des classes:  viajantes  e  sedentários.  Suppoz-se  muito  tempo  que  os  car- 


mamíferos  em  especial  125 

neiros  viajantes  tinham  uma  lã  superior  á  dos  sedentários,  mas  não  é 
verdade. 


O  CARNEIRO  DE  CORNOS  PONTEAGUDOS 


Uma  raça  também  importante  é  a  do  carneiro  de  cornos  ponteagu- 
dos.  Este  animal  é  de  tamanho  regular  e  apresenta  cornos  muito  exten- 
sos, muito  divergentes,  contornados  em  espira  n'uma  direcção  rectilínea 
e  terminados  em  ponta  aguda.  O  manto  é  claro;  a  cabeça  e  as  pernas 
são  escuras.  O  velo  d'este  carneiro  é  formado  por  duas  ordens  de  pêl- 
los:  uns  compridos  e  rijos,  outros  finos,  curtos;  só  estes  últimos  se  apro- 
veitam e  ainda  assim  em  estofos  grosseiros  apenas.  Este  carneiro  cria-se, 
tendo  em  vista  mais  a  carne  que  a  lã. 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPHIGA 


Habita  exclusivamente  a  Turquia  da  Europa  e  o  Danúbio.  Vive  em 
rebanhos  numerosos,  principalmente  nas  montanhas. 


O  CARNEIRO  DE  GRANDES  NÁDEGAS 


É  uma  raça  curiosa.  Este  carneiro  é  um  animal  de  grandes  propor- 
ções e  de  apparencia  repulsiva.   Gomo  o  nome  indica,  6  caracterisado 


126  IIISTOIUA    NATIJJIAL 

pela  grandeza  extraordinária  dos  músculos  nadegueiros,  o  que  não  pouco 
contribuo  para  dar-lhe  um  aspecto  altamente  desagradável.  A  cabeça  é 
escura,  volumosa  e  muito  curta.  Não  apresenta  lã  capaz  de  fiar-se.  O  manto 
é  formado  por  um  pôUo  curto  e  grosseiro  como  o  das  espécies  selva- 
gens. Só  cmquanto  novo  apresenta  pello  lanoso.  Os  cornos  são  muito 
curtos. 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPHIGA 


É  vulgar  em  toda  a  Africa  central. 


Não  nos  occuparemos  aqui  das  diversas  raças  francezas  e  inglezas. 
Mencionaremos  somente  as  nossas. 

As  raças  portuguezas  são : 

o  BORDALEiRO  SERRANO  OU  GALLEGo,  prcto  OU  brauco,  pcqucuo,  de 
lã  feltrosa,  isto  é  em  que  predominam  os  péllos  lanosos,  ou  churra,  em 
que  existem  em  maior  abundância  os  péllos  rijos,  semelhantes  aos  das 
cabras; 

o  BORDALEIRO  coMMUM,  de  maiorcs  dimensões  e  de  lã  muito  fri- 
sada, vivendo  nos  mattos  do  Alemtejo; 

Emfim  o  CARNEIRO  poRTUGUEz  DE  TYPO  MERINO,  muito  Semelhante 
aos  merinos  hespanhoes  e  vivendo  também  no  Alemtejo. 


OS  BOVIDIOS 


Este  grupo  de  ruminantes,  ao  qual  pertence  o  nosso  boi  domestico, 
é  sem  contestação  o  que  abrange  os  animaes  de  maior  utihdade  de  toda 


MAMÍFEROS   EM   ESPECIAL  1  J  ', 

a  classe.  Vivos  ou  mortos,  teem  sempre  utilidade  para  nós:  vivos,  collo- 
cam  a  nosso  serviço  todas  as  enormes  forças  de  que  dispõem;  mortos, 
offerecem-nos  ainda  em  cada  órgão  um  incontestável  valor.  São  mais  do 
que  auxiliares  e  collaboradores  do  homem;  chegam  a  ser  importantes 
companheiros. 


CARACTERES 


São  animaes  fortes,  grandes  e  pezados.  Teem  cornos  lisos  e  arre- 
dondados, focinho  largo,  de  narinas  separadas,  e  cauda  fina  e  comprida, 
terminada  por  um  tufo  de  pôllos  extensos.  O  pescoço  que  é  forte  c  grosso 
apresenta  inferiormente  uma  certa  porção  de  pelle  solta  e  pendente  que 
que  se  chama  papada. 

O  esqueleto  d'estes  animaes  é  forte  e  pezado,  e  a  região  frontal 
larga;  as  orbitas  são  muito  separadas  e  as  saKencias  frontaes  de  que 
nascem  os  cornos  encontram-se  nas  partes  lateraes  e  posteriores  do  cra- 
neo.  O  sacro  é  formado  por  quatro  ou  cinco  vértebras  soldadas;  as  vér- 
tebras caudaes  podem  attingir  o  numero  de  dezenove.  Os  dentes  incisi- 
vos são  grandes  e  largos,  mas  gaslam-se  depressa  pelo  altributo.  Os 
mollares  são  em  numero  de  quatro  pares  e  extraordinariamente  desen- 
volvidos; a  forma  ^a  superfície  de  mastigação  varia  para  as  diíTerentes 
espécies.  Os  cornos  são  muito  característicos.  Gomo  deixamos  dito,  são 
hsos  arredondados;  se  algumas  vezes  apresentam  rugosidades  transver- 
saes  é  apenas  na  raiz.  De  ordinário  os  pcllos  são  curtos;  ha  espécies  po- 
rém em  que  são  muito  compridos,  pelo  menos  em  alguns  pontos. 


DISTRIBUIÇÃO    GEOGRAPIIICA 


A  Africa,  a  Ásia  central  e  meridional,  a  Europa  e  a  parte  septeii- 
trional  da  America  do  Norte,  podem  ser  consideradas  como  a  pátria  dos 
bovidios.  Hoje  porém,  encontram-se,  ao  menos  no  estado  domestico,  em 
toda  a  superíicie  da  terra. 


128  HISTORIA  NATURAL 


GOSTUMKS 


As  espécies  selvagens  habitam  logares,  os  mais  diversos:  as  flores- 
tas ou  os  campos  nús  e  desertos,  as  planícies  ou  as  montanhas  até  uma 
'altura  de  cinco  mil  c  quinhentos  metros  acima  do  nivel  do  mar,  os  loga- 
res pantanosos  ou  os  logares  seccos,  emfim  as  regiões  mais  differente- 
mente  caracterisadas.  Uns  levam  uma  vida  errante;  outros,  em  menor 
numero,  são  sedentários.  As  espécies  que  vivem  nas  montanhas  descem 
aos  valles  no  inverno;  as  que  vivem  ao  norte  dirigem-se,  por  esse 
mesmo  tempo,  para  o  sul,  impellidas  como  as  primeiras  pela  falta  de 
alimento. 

Os  bovidios  são  animaes  sociáveis,  que  se  reúnem  sempre  em  re- 
banhos numerosos,  por  vezes  de  milhares  de  individues.  Estes  rebanhos 
são  dirigidos  sempre  por  um  chefe,  o  mais  forte  e  mais  experimentado 
dos  membros  do  rebanho.  Os  mãos  chefes  são  muitas  vezes  expulsos 
dos  rebanhos. 

Estes  ruminantes  teem  hábitos  diurnos. 

Apesar  de  pezados,  podem  mover-se  rapidamente;  ás  vezes  mani- 
festam uma  agilidade  bem  pouco  a  esperar  d'enes.  De  ordinário  porém, 
como  é  natural  á  corpulência  que  apresentam,  marcham  a  passo,  lenta- 
mente. Os  que  habitam  as  montanhas  são  hábeis  trepadores  e  dão  saltos 
de  uma  extensão  relativamente  notável.  Todos  nadam  bem  e  todos  dis- 
põem de  uma  força  considerável. 

De  todos  os  sentidos  é  o  olfato  o  mais  perfeito;  a  vista  é  de  ordi- 
nário má  e  o  intendimento  limitadíssimo,  principalmente  nas  espécies 
domesticas,  que  não  precisam  de  fazer  esforços  intellectuaes,  porque  o 
homem  lhes  supre  a  todas  as  necessidades. 

De  ordinário  os  bovidios  são  de  um  caracter  dócil,  cheio  de  con- 
fiança; ha-os  porém  selvagens,  teimosos  e  de  grande  coragem.  Excita- 
dos, attacam  sem  vacillar  os  mais  poderosos  mamíferos;  servem-se  dos 
cornos  com  tamanha  agihdade  que,  mesmo  em  lucta  com  os  animaes 
mais  perigosos,  são,  não  raro,  vencedores. 

Normalmente  os  bovidios  vivem  entre  si  nas  melhores  relações  de 
harmonia;  na  epocha  do  cio  comtudo,  entregam-se  a  combates  temíveis. 

N'algumas  espécies  selvagens,  o  macho  apresenta  um  cheiro  de  al- 
míscar suíficientementa  forte  para  impregnar  toda  a  carne  tornando-a 
impossível  de  comer-se.  Nos  bovidios  domésticos  este  cheiro  é  quasi  ina- 
preciável. 


mamíferos  em  especial  129 

Estes  ruminantes  alimentam-se  de  plantas  de  qualidades  muito  diíTe- 
rentes.  Comera  folhas,  goramos,  rebentos,  ramos,  hervas,  cascas,  lichens, 
musgos  e  plantas  aquáticas  e  dos  pântanos. 

Era  captiveiro  comem  hervas  de  todas  as  qualidades.  Gostam  muito 
de  sal,  como  quasi  todos  os  ruminantes  e  não  podem  passar  sem  agua 
em  abundância;  alguns  chegam  mesrao  a  perraanecer  deitados  durante 
horas  inteiras  era  cursos  d'agua  ou  era  tanques. 

Nove  a  doze  mezes  depois  da  copula,  a  feraea  dá  á  luz  ura  filho, 
muito  raras  vezes  dois.  O  bezerro  ou  novilho  nasce  completamente  for- 
mado e  em  condições  de  seguir  desde  logo  a  mãe,  que  o  aleita,  que 
o  trata  cora  extraordinário  carinho  e  que  o  defende  nos  perigos  com 
uma  coragem  visinha  da  temeridade.  O  bezerro  torna-se  adulto  entre  os 
trez  e  os  oito  annos;  é  esta  a  idade  era  que  se  encontra  apto  para  a  re- 
producção. 

A  duração  raedia  da  vida  dos  bovidios  é  de  quarenta  e  cinco  a  cin- 
coenta  annos. 


CAPTIVEIRO 


As  espécies  selvagens  trazem-se  cora  facihdade  ao  estado  doraes- 
tico.  Subraettem-se  rapidaraente  ao  dorainio  do  homera  e  chegara  a  obe- 
decer a  uma  creança.  Não  teem  maior  dedicação  pelo  dono  do  que  por 
qualquer  outra  pessoa;  uma  vez  domesticados,  os  bovidios  são  egual- 
mente  dóceis  e  carinhosos  para  todos. 


CAÇA 


A  caça  ás  espécies  selvagens  é  perigosíssima.  Dizem  os  naturalistas 
mais  conhecedores  do  assumpto  que  nera  ura  leão,  nera  ura  tigre  são 
raais  terríveis  que  um  touro  furioso,  cego  de  raiva.  É  por  isto  mesmo 
que  a  caça  é  porfiada  e  constituo  para  alguns  povos  uma  verdadeira 
paixão  ou,  como  dizera  os  caçadores,  uraa  nobre  paixão. 


VOL.    III 


30  lilSTOIllA   NATLIlAL 


USOS  E  PllODUCTOS 


Os  bovidios  selvagens  causam,  é  incontestável,  uns  certos  estragos 
na  cultura,  roendo  as  cascas  das  arvores,  devastando  os  prados,  maltra- 
tando as  plantações.  Se  comparamos  porém  estes  prejuízos  ás  vantagens 
de  toda  o  ordem  que  as  espécies  domesticas  nos  prestam,  pondo  á  nossa 
disposição  as  suas  forças,  fornecendo-nos  a  sua  carne,  os  seus  ossos,  a 
sua  pelle,  os  seus  cornos,  o  seu  leite,  o  seu  pello,  até  mesmo  os  seus 
excreta^  soberbo  adubo  para  as  terras,  é  impossível  deixar  de  ter  os  bo- 
vidios  na  conta  de  animaes  utilíssimos.  Perfilhamos  sem  restricções  a 
opinião  de  Brehm  quando  diz  que,  se  se  classificassem  os  animaes  pela 
utilidade  que  teem,  daria  aos  bovidios  o  primeiro  logar  entre  os  rumi- 
nantes. * 


/ 

Os  bovidios  encontram-se  hoje  divididos  em  dez  espécies  perfeita- 
mente authenlicas,  ou  melhor — acceites  por  todos.  Além  d'estas  porém, 
uma  outra  existe,  que  parece  fazer  a  transição  entre  os  carneiros  e  os 
bois  e  para  comprehender  a  qual  se  estabeleceu  um  género  á  parte. 

Começaremos  por  ella. 


O  BOI  ALMISCARADO 


Este  ruminante  tem  a  cabeça  volumosa  e  larga,  o  focinho  curto  e 
obtuso,  inteiramente  coberto  de  pêllo,  os  lábios  finos  e  o  pescoço  muito 


Vid.  Ohr.  ciL,  vol.  2.%  pg.  268. 


MAMÍFEROS  EM  ESPECIAL  131 

curto.  Os  cornos  são  primeiro  recurvados  para  baixo  e  para  fora  e  de- 
pois para  diante,  ficando  as  extremidades  dirigidas  para  fóra  e  para 
cima.  Estes  appendices  cobrem  a  região  frontal  e  quasi  toda  a  parte  su- 
perior do  craneo  do  ruminante;  são  comprimidos  e  grosseiros  na  raiz, 
lisos  e  arredondados  na  ponta.  As  pernas,  que  são  grossas,  terminam 
por  cascos  estreitos.  O  manto  compõe-se  em  grande  parte  de  sedas 
muito  compridas  no  pescoço  e  nas  espáduas  e  muito  curtas  no  dorso  e 
na  região  lombar.  Nos  membros  estas  sedas  cobrem  um  péllo  fino,  cin- 
zento, que  se  forma  no  inverno,  persiste  durante  toda  esta  estação  e  cae 
no  estio  para  ser  logo  substituído  por  um  outro.  A  côr  geral  é  um  tri- 
gueiro muito  escuro,  quasi  negro  nas  partes  inferiores  do  animal;  no 
dorso  ha  uma  pequena  mancha  clara  e  a  extremidade  do  focinho,  os  lá- 
bios e  o  mento  são  brancos. 

As  dimensões  do  animal  não  são  grandes;  podem  dizer-se  intermé- 
dias entre  os  grandes  carneiros  e  os  pequenos  bois. 


DISTRIBUIAO   GEOGRAPmCA 


o  boi  almiscarado  é  próprio  das  regiões  do  norte  da  America 
septentrional.  Este  ruminante  é  conhecido  desde  as  primeiras  explora- 
ções do  Novo-Mundo. 


COSTUMES 


O  conhecimento  dos  costumes  d'este  ruminante  deve-se  principal- 
mente aos  naturahstas  Hearne,  Richardson,  Parry  e  Franklin.  Segundo 
elles,  a  espécie  habita  essas  tristes  steppes  cobertas  de  musgo  que  na 
Sibéria  se  designam  pelo  nome  de  tundra  e  que  não  são  senão  immen- 
sos  pântanos,  cheios  de  poços,  attravessados  em  todos  os  sentidos  por 
cursos  d'agua,  mais  ou  menos  consideráveis,  e  de  quando  em  quando 
interrompidos  por  algumas  pequenas  colhnas.  É  ahi  n'esses  lugares  in- 
fectos, inhospitos,  onde  voejam  milhares  de  insectos  importunos  e  onde 
vivem  perigosas  espécies,  é  ahi  que  o  boi  almiscarado  habita  em  mana- 
das de  vinte  c  trinta  cabeças  cada  uma.  O  manto  espesso  prolcge-os 
contra  os  rigores  do  frio. 


132  IIISTOIIIA  NATURAL 

Durante  o  estio,  este  ruminante  alimenta-se  das  liervas  dos  pânta- 
nos e  no  inverno  de  lichcns. 

O  numero  de  machos  é  sempre  muito  inferior  ao  das  fêmeas  em 
cada  manada.  No  periodo  de  excitação  genérica  são,  apezar  d'essa  cir- 
cumstancia,  terriveis  os  combates  que  de  ordinariamente  acabam  pela 
morte  do  vencido. 

A  despeito  da  apparencia,  este  ruminante  é  ágil,  rápido  em  todos 
os  movimentos;  trepa  e  salta  como  as  cabras. 

É  mal  dotado  de  sentidos  e  por  isso  pouco  vigilante.  É  fácil  ao  ca- 
çador, marchando  contra  o  vento,  approximar-se  d'elle  quando  pasta. 
Quando  dois  ou  trez  caçadores  cercam  a  manada  de  modo  a  fazerem 
fogo  em  differentes  direcções,  os  sitiados,  em  vez  de  dispersarem, 
unem-se  uns  contra  os  outros,  fornecendo  assim  occasião  propicia  a  no- 
vas descargas.  O  boi  almiscarado  que  apenas  é  ferido,  precipita-se  con- 
tra o  caçador  e  é  perigosíssimo  porque  sabe  admiravelmente  usar  dos 
cornos.   No  dizer  dos  indígenas,  mata  muitas  vezes  os  lobos  e  os  ursos. 

A  epocha  do  cio  é  para  esta  espécie  em  fins  de  Agosto. 

O  boi  almiscarado  em  quanto  não  attinge  a  idade  adulta  apresenta 
a  cor  geral  do  manto  muito  mais  clara  que  depois. 


CACA 


Os  esquimós  caçam  com  ardor  este  ruminante,  principalmente  no 
outomno.  Os  processos  de  caça  variam.  Uns  empregam  o  arco  e  a  fre- 
cha. Este  meio  produz  poucos  resultados,  porque,  mesmo  a  pequena  dis- 
tancia, é  difflcil  attravessar  com  a  frecha  o  manto  espesso  do  animal. 
Outros  approximam-se  valentemente  das  manadas,  provocam  o  touro  até 
que  avance  colérico  para  elles  e  então,  negando-lhe  o  corpo,  enterram- 
Ihe  uma  lança  nos  flancos.  Este  meio,  mais  perigoso  e  mais  cheio  de 
difficuldades,  porque  exige  uma  grande  coragem  e  uma  grande  agilidade, 
é  todavia  o  único  verdadeiramente  productivo.  Um  processo  que  não  é 
usado  pelos  indígenas,  mas  que  um  inglez  ensaiou  com  successo,  con- 
siste em  fazer  perseguir  o  touro  por  cães,  atirando  sobre  elle  a  tiro  em 
quanto  dura  a  lucta  do  ruminante  desesperado  com  os  carnívoros  que 
agilmente  lhe  evitam  os  golpes.  Este  meio  parece  efficaz  e  não  apresenta 
em  tão  alto  grão  os  perigos  inherentes  ao  processo  anterior. 


mamíferos  em  especial  133 


[;SOS   E    PRODUCTOS 


o  cheiro  de  almíscar  é  tão  forte  no  animal  que  impregna  toda  a 
carne,  tornando-a  inacceitavel  aos  paladares  finos.  Note-se  porém,  que 
nem  a  vacca  nem  o  novilho  apresentam  esse  cheiro;  por  isso  os  euro- 
peus lhes  comem  o.  musculo.  Os  indígenas  de  um  paladar  grosseiro  e  fá- 
cil de  satisfazer,  utilisam  egualriíente  toda  a  carne,  venha  ou  não  impre- 
gnada do  vivo  cheiro  do  almíscar.  A  pelle,  a  lã  e  o  péllo  grosseiro  do 
ruminante  constituem  para  os  indígenas  outros  tantos  artigos  de  com- 
mercio,  porque  todas  estas  partes  do  corpo  são  utilisaveis:  a  primeira 
para  o  fabrico  de  calçado,  a  segunda  para  vestidos  e  a  ultima  para  ca- 
belleiras. 


OS  lACKS 


Este  género  representa  a  transição  entre  os  bovidios  e  os  búfalos. 
Os  cornos  do  iacks  tem  uma  forma  semelhante  á  dos  bois;  o  craneo  o 
arredondado  na  parte  superior  como  o  dos  búfalos.  A  cauda  é  curta, 
mas  terminada  por  pellos  muito  extensos. 

O  género  comprchcnde  uma  espécie  única  que  vamos  descrever. 


34  HISTORIA  natt:ral 


o  lACK  GRUNIÍIDOK 


Este  ruminante,  que  os  antigos  ciiamavam  pcephagus  grimniens,  é 
conhecido  desde  um  tempo  remotissimo.  Eliano  conhecia-o  e  deixou-nos 
d'elle  uma  descripção,  mencionando  mesmo  o  processo  de  caça  empre- 
gado pelos  indigenas  para  o  matarem.  Palias,  que  aqui  temos  citado 
mais  de  uma  vez,  descreveu-o  também  no  estado  de  captiveiro. 


CARACTERES 


Mede,  pouco  mais  ou  menos,  dois  metros  a  dois  metros  e  trinta 
centímetros  de  comprimento.  A  cauda,  incluindo  os  pêllos  que  a  termi- 
nam, offerece  uma  extensão  de  meio  metro.  Pelo  porte  é  como  que  um 
intermediário  do  búfalo  e  do  boi  domestico.  Sob  um  ponto  de  vista  mor- 
phologico,  parece  um  composto  do  boi,  do  cavallo  e  da  cabra.  Do  cavallo 
tem  a  redondeza  do  corpo,  a  cauda  e  a  maneira  de  pisar,  do  boi  a  ca- 
beça e  da  cabra  os  longos  pêllos  sedosos  que  dos  lados  do  tronco  lhe 
descem  até  aos  pés.  O  iack  grunhidor  é  negro,  excepto  nos  pêllos  com- 
pridos que  em  torno  do  corpo  lhe  formam  uma  como  franja  e  nos  da 
cauda  que  são  perfeitamente  brancos. 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPHICA 


A  espécie  encontra-se  no  estado  selvagem  em  uma  parte  muito  ex- 
tensa da  Ásia  central,  nomeadamente  na  Mongoha,  no  Thibet  e  no  Tur- 
kestan. 


I 


mamíferos  em  especial  \:\o 


COSTUMES 


o  ruminante  quando  no  estado  livre  ou  selvagem  vive  em  logares 
elevados,  embora  para  n'elles  obter  uma  alimentação  suíficiente  llie  seja 
preciso  percorrer  enormes  extensões.  Parece  que  o  iack  não  pode  viver 
bem  a  uma  altura  inferior  a  dois  mil  e  seiscentos  metros  acima  do  nivel 
do  mar.  Ora,  como  justamente  observa  Brehm,  a  presença  de  um  bovi- 
dio  a  uma  tal  altura  tem,  decerto,  muito  de  excepcional,  desdiz  do  que 
sabemos  dos  hábitos  de  vida  das  outras  espécies.  Á  altura  de  dois  mil 
e  seiscentos  metros  a  pressão  atmosplierica  é  metade  da  que  se  observa 
ao  nivel  do  mar. 

Os  movimentos  do  iack  são  rápidos.  Os  sentidos  são  perfeitos:  des- 
cobre de  muito  longe  o  inimigo.  O  iack  é  extremamente  timido;  mesmo 
nos  logares  em  que  não  é  perseguido,  foge  do  homem  como  se  d'elle 
esperasse  alguma  grande  adversidade. 

O  epitheto  de  grunhidor  com  que  se  designa  este  ruminante,  foi-lhe 
dado  em  attenção  á  voz,  que  em  verdade  se  não  parece  nem  com  o  mu- 
gir do  boi,  nem  com  o  balar  do  carneiro,  nem  com  o  relinchar  do  ca- 
vallo,  mas  precisamente  com  o  grunhir  do  porco. 

O  cio  parece  ser  na  primavera.  A  fêmea  pare  em  cada  parto  um  só 
filho  que  nasce  tão  ágil  e  tão  cheio  de  vivacidade  que  acompanha  desde 
logo  a  mãe  pelas  maiores  elevações  e  atravez  dos  mais  perigosos  cami- 
nhos. 


CAÇA 


l^ara  obter  os  pellos  extensos  que  franjam  o  corpo  do  iack,  faz-se- 
Ihe  uma  caça  pertinaz,  ora  perseguindo-o  com  cães,  ora  atirando-lhe 
frechas.  A  caça  é  perigosa;  porque,  se  o  animal  6  apenas  ferido,  atirar- 
se-ha  sobre  o  caçador  com  rapidez  assombrosa  e  extraordinária  coragem. 


3C  HISTORIA   NATURAL 


CAPTIVEIRO 


Quando  velho,  este  ruminante  6  perfeitamente  indomável;  em  novo, 
pelo  contrario,  domestica-se  com  grande  facilidade.  Na  Ásia  o  iack  copu- 
la-se  com  os  outros  bovidios,  melhorando-se  assim  as  raças  domesticas. 
Marco  Polo  conhecia  já  este  facto  e  aíTirmava  que  se  reduzia  o  iack  ao 
captiveiro,  precisamente  para  este  fim.  O  iack  grunhidor  domestico  não 
differe  physicamente  dos  seus  congéneres  selvagens  a  não  ser  na  cor. 
Na  domesticidade  este  animal  não  reclama  senão  pequenos  cuidados, 
como  são:  ter  sempre  agua  pura  e  ter  sempre  sal,  quando  se  conserva 
nos  estábulos.  Mas  de  ordinário,  vivendo  quasi  todo  o  dia  fora  de  casa, 
elle  próprio  se  encarrega  de  procurar  quanto  lhe  é  preciso,  sem  o  mais 
hgeiro  incommodo  para  o  homem. 


usos  E  PRODUCTOS 


Para  os  thibetanos  o  iack  é  um  animal  utihssimo  em  domesticidade. 
Servem-se  d'elle  como  de  um  cavallo  para  o  montar  e  ainda  como  besta 
de  carga.  Obedece  ao  dono,  mas  mostra-se  desconfiado  para  com  os  es- 
tranhos, que  sentem  sempre  uma  grande  diíficuldade  em  o  montar  e  em 
o  carregar. 

O  iack  grunhidor  supporta  facilmente  uma  carga  de  cem  a  cento  e 
vinte  kilogrammas,  attravessando  com  ella  os  togares  mais  perigosos  e 
accidentados. 

Os  viajantes  que  montam  pela  primeira  vez  este  valente  ruminante, 
ao  verem-se  por  elle  transportados  á  beira  mesmo  de  terríveis  precipi- 
cios,  e  por  togares  estreitos  e  perigosíssimos,  não  podem  ser  superiores 
a  um  grande  terror  que  os  avassala;  só  a  experiência  consegue  intro- 
duzir no  espirito  do  homem  uma  perfeita  confiança  nos  admiráveis  ins- 
tinctos  d'este  bello  animal. 

Segundo  Gérard,  ha  regiões  em  que  se  obriga  o  iack  a  puxar  pela 
charrua. 

A  carne  d'este  ruminante  é,  no  dizer  dos  que  a  teem  provado,  ex- 
cellente,  sobretudo  quando  o  animal  c  ainda  muito  novo,  porque  é  en- 


mamíferos  em  especial 


tão  muito  mais  delicada,  muito  mais  tenra.  Da  pelle  fazem-se  correias  e 
dos  pôllos  fazem-se  cordas.  A  parte  porem,  mais  preciosa  do  animal  ó  a 
cauda,  que  ha  muito  se  toma  como  emblema  de  guerra  e  que  no  Oriente 
se  paga  por  preços  verdadeiramente  fabulosos. 


DOENÇAS 


Todos  os  annos  morrem  numerosos  iacks  grunliidores,  victimas  prin- 
cipalmente dos  epizoarios.  A  alimentação  insufficieate  ou  variada  de  mais 
é  também  uma  causa  mórbida  frequente.  Os  exemplares  trazidos  para  a 
Europa  teem  cá  prosperado  admiravelmente;  provam-o  sobretudo  os  jar- 
dins zoológicos  de  Amsterdam,  de  Francfort,  de  Munich,  de  Hamburg  e 
o  Jardim  das  Plantas  de  Paris. 


OS  BÚFALOS 


Estes  ruminantes  approximam-se  mais  do  verdadeiro  boi  que  os 
iacks.  Teem  o  corpo  refeito,  a  região  frontal  curta  e  redonda.  Os  cornos 
inserem-se  nos  ângulos  posteriores  do  craneo,  são  comprimidos  lateral- 
mente, arredondados  nas  extremidades  e  cobertos  de  saliências  tuber- 
culosas ou  de  anneis  irregulares  na  base;  curvam-se  primeiro  para  baixo 
e  para  traz,  depois  para  fora,  e  por  fim  para  cima  e  um  pouco  para 
diante.  Em  algumas  espécies,  estes  appendices  dirigem-se  quasi  directa- 
mente para  traz,  descrevendo  apenas  um  pequeno  arco  de  concavidade 
anterior.  O  pôllo  é  grosseiro  e  quasi  completamente  negro.  A  língua  é 
Jisa. 


138  ITlSTOníA    N\T['RAT. 


DISTRIBUIÇÃO    GEOORAPIIICA 


Os  búfalos  pertencem  á  Africa  c  á  Ásia. 


O  BÚFALO  DA  CAFRARIA 


É  o  maior,  o  mais  pezado,  o  mais  forte  e  o  mais  selvagem  dos  bú- 
falos. Os  cornos  (e  é  isto  o. que  de  mais  notável  offerece  o  animal)  são 
muito  largos,  muito  approximados  e  muilo  dilatados  na  base  de  modo  a 
formarem  por  cima  dos  olhos  uma  espécie  de  coifa  protectora  da  cabeça. 
Os  olhos  são  incovados  e  as  orelhas,  de  mais  de  trinta  centímetros  de 
comprido,  pendentes.  O  corpo  é  pezado,  volumoso  e  os  membros  são 
fortes  e  vigorosos.  A  cauda  é  nua  em  toda  a  extensão,  excepto  na  extre- 
midade onde  apresenta,  como  o  nosso  boi  domestico,  pêllos  extensos.  A 
cor  geral  do  ruminante  ó  um  trigueiro  muito  escuro. 


DISTUIBUICAO   GEOGRAPIIíCA 


Este  búfalo  encontra-se  no  Cabo  e  nas  florestas  do  interior  da  Africa. 
Ao  sul  de  Rordophan  e  nas  florestas  virgens  das  margens  do  Nilo  Azul 
aprcsenta-se  muitas  vezes  em  manadas  consideráveis. 


^lAMIFKROS   KM   ESPECIAL 


COSTUMES 


O  búfalo  da  Cafraria  ó  um  animal  furioso,  máo.  Os  indigenas  le- 
mem-o  mais  que  ao  leão  ou  ao  elephante.  Em  Kordopban  ninguém  se 
atreve  a  caçal-o,  máo  grado  o  valor  que  tem.  Os  cafres  teem  por  elle 
o  mesmo  receio  que  os  habitantes  de  Kordophan.  Kolbe  escreve  a  res- 
peito d'estes  búfalos:  «São  animaes  perigosíssimos.  O  que  os  incitar, 
mostrando-lhes  um  panno  vermelho  ou  perseguindo-os,  não  pode  contar 
com  a  vida;  começam  a  mugir,  a  escarvar  o  solo  e  sem  modo  por  coisa 
alguma,  nada  será  capaz  de  retel-os.  Qualquer  que  seja  o  numero  d'ho- 
mens  armados  que  se  lhe  opponham,  precipita-se  contra  ehes  atravez  da 
agua  e  do  fogo.»  Conta  este  mesmo  auctor  que  um  búfalo  seguiu  um  dia 
um  rapaz  vestido  de  vermelho,  atirando-se  ao  mar  atraz  d'elle  e  percor- 
rendo a  nado  uma  distancia  de  meia  légua.  Se  o  não  matam  a  tiro  de 
um  navio,  quem  poderia  prever  o  desenlace  d'esta  situação  deUcada? 

Quando  mata  um  homem,  o  búfalo  da  Cafraria  leva  ainda  a  malva- 
dez até  ao  ponto  de  o  calcar  aos  pés  e  de  o  rasgar  com  os  cornos.  Este 
búfalo  é  de  uma  extraordinária  resistência  vital;  não  morre  aos  primei- 
ros golpes.  Ainda  depois  de  gravemente  ferido,  vive  muitas  horas  e  ataca 
violentamente  o  perseguidor. 

O  búfalo  da  Cafraria  gosta  muito  de  se  espojar  na  vasa  e  passa 
muitas  vezes  horas  seguidas  deitado  na  agua. 

Segundo  Drayson,  a  pelle  d'este  búfalo  é  tão  espessa  que  uma  baila 
não  a  attravessa  senão  quando  o  tiro  é  dado  a  uma  pequena  distancia. 
Dos  búfalos  da  Cafraria,  ainda  segundo  o  mesmo  escriptor,  uns,  os  mais 
novos,  vivem  juntos  com  as  fêmeas  em  grandes  bandos  ou  manadas,  ao 
passo  que  outros,  os  velhos,  repelhdos  por  aquelles,  vivem  sohtarios 
nas  florestas.  Os  primeiros  não  attacam  o  homem  que  os  não  persegue; 
os  segundos,  pelo  contrario,  sendo  de  uma  selvageria  immensa,  atiram-se 
de  improviso  sobre  quem  quer  que  vêem,  ou  seja  um  caçador  ou  um 
simples  passageiro  inofensivo.  São  estes  últimos  que  inspiram  aos  cafres 
um  enorme  terror.  O  búfalo  da  Cafraria  é,  além  de  máo,  muito  astuto. 
Simula-se  ás  vezes  morto  para  deixar  approximar  o  caçador  e  feril-o  en- 
tão á  vontade.  Drayson  conta  a  propósito  que  um  cafre,  andando  á  caça 
na  floresta,  encontrara  um  velho  macho  soHtario  sobre  o  qual  atirou.  O 
búfalo  ferido  deitou  a  correr.  O  cafre  na  persuasão  de  que  o  ferimento 
tivesse  sido  mortal,  foi-lhe  no  encalço  sem  precauções  de  espécie  al- 
guma, seguindo  attentamcnte  a  pista  do  ruminante.  Teria  dado  cem  pas- 


Í40  HTSToniA  nati:ral 

SOS,  quando  de  repente  ouviu  por  traz  d'elle  um  grande  ruido  e  recebeu 
ao  mesmo  tempo  um  embate  violentíssimo  dos  cornos  do  animal,  sendo 
arrojado  a  grande  altura.  Por  felicidade  caiu  sobre  os  ramos  entrelaça- 
dos de  uma  arvore,  de  sorte  que  o  búfalo  julgandó-o  perdido,  desappa- 
receu  na  floresta.  O  pobre  homem  que  na  queda  partiu  duas  costellas, 
desistiu  para  sempre  de  novas  capadas.  D'esta  curta  narrativa  de  Dray- 
son  deprehende-se  que  o  búfalo  ferido,  simulara  fugir  para  tomar,  quando 
o  caçador  menos  o  esperasse,  uma  direcção  nova  e  vingar-se  assim  trai- 
çoeiramente. Algumas  vezes  acontece  também,  como  o  mesmo  Drayson  faz 
notar,  que  o  búfalo  mortalmente  ferido  emitte  um  grito  que  serve  de  si- 
gnal  a  outros  búfalos,  os  quaes  se  precipitam  então  furiosamente  sobre 
o  caçador. 


CAPTIVEIRO 


Th.  de  Heuglin,  chefe  de  uma  expedição  scientifica  á  Africa  central, 
trouxe  para  a  Europa  um  pequeno  búfalo  da  Gafraria,  que  obtivera  ao 
sul  de  Kordophan.  Este  búfalo,  que  ao  tempo  em  que  Brehm  escrevia  as 
Maravilhas  da  Natureza  vivia  ainda  no  Jardim  zoológico  de  Sch(jenbrunn, 
era  de  uma  extraordinária  docilidade  e  deixava-se  afagar  não  só  por 
Heuglin,  mas  por  todos.  Casanova  trouxe  também  para  a  Europa  um  bú- 
falo da  mesma  espécie  e,  como  o  primeiro,  muito  dócil. 


O  BÚFALO  ARNI 


É  notável  pelas  dimensões;  ó  o  gigante  da  família.  Mede  dois  me- 
lros e  trinta  centímetros  de  altura  ao  nivel  da  espádua  e  trcs  metros  e 
quarenta  e  cinco  centímetros  de  comprimento  desde  o  focinho  até  á  raiz 
da  cauda.  No  British  Museum  existe  um  par  de  cornos  que  teem,  medi- 
dos de  ponta  a  ponta  segundo  a  curvatura,  dois  metros  de  extensão.  São 


MAMÍFEROS  EM   ESPECIAL  141 

triangulares,  rugosos,  rectos  nos  primeiros  dois  terços  e  recurvos  de- 
pois, ficando  as  pontas  dirigidas  para  dentro  e  para  traz. 

Dos  costumes  d'este  curioso  animal,  sabe-se  apenas  que  em  liber- 
dade é  ferocíssimo,  passando  a  caça  d^elle  pela  mais  perigosa  de  todas. 
Em  captiveiro  perde  toda  a  selvageria  primitiva;  na  índia  é  empregado 
na  agricultura  e  montado  como  o  cavallo. 


O  BÚFALO  ORDINÁRIO 


Tem  o  corpo  alongado,  um  tanto  redondo,  o  pescoço  curto,  grosso, 
liso  e  vigorosíssimo.  A  cabeça  é  mais  larga  e  mais  curta  que  a  do  boi 
domestico.  O  focinho  é  também  curto  e  as  pernas,  de  comprimento  mé- 
dio, são  fortes,  vigorosas.  A  cauda  é  muito  comprida,  a  espádua  quasi 
elevada  em  forma  de  bossa,  o  dorso  inclinado,  o  peito  fino  e  o  ventre 
volumoso.  Os  olhos  são  pequenos,  de  expressão  selvagem  e  má  e  as 
orelhas  compridas  e  largas  com  péHos  curtos  na  face  externa  e  compri- 
dos na  interna  e  dispostos  horisontalmente.  Os  cornos  são  compridos, 
fortes,  muito  espessos  na  raiz  e  depois  successivamente  adelgaçados, 
terminando  em  ponta  obtusa.  Estes  appendices  são  dirigidos  primeiro 
para  baixo  e  para  fora,  depois  para  cima  e  para  traz  e  por  ultimo  para 
dentro  e  para  diante  formando  assim  um  triangulo;  só  no  terço  final  são 
arredondados.  Na  primeira  metade  toda  a  superfície  apresenta  rugosida- 
des  transversaes;  a  ponta  e  a  face  posterior  são  hsas.  Os  péllos  são  ra- 
ros, rijos,  quasi  sedosos;  os  das  espáduas,  da  parte  anterior  do  pescoço, 
da  região  frontal  e  da  extremidade  da  cauda  são  alongados.  A  cor  geral 
do  corpo  d'este  ruminante  é  o  pardo  escuro  ou  o  negro;  os  exemplares 
brancos  ou  maculados  são  raros. 


142  IIISTOIUA   NATURAL 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPIIICA 


Esta  espécie  é  originaria  da  índia. 


COSTUMES 


O  búfalo  ordinário  gosta  muito  da  agua;  é  por  isso  fácil  encontral-o 
em  logares  baixos  e  pantanosos,  onde  se  alimenta  de  plantas  más,  des- 
presadas  por  outros  animaes.  Os  movimentos  são  pezados,  mas  enérgi- 
cos e  firmemente  sustentados  por  muito  tempo.  A  natação  é  para  elle 
um  exercício  sobre  todos  fácil. 

O  ouvido  e  o  olfato  são  os  sentidos  mais  perfeitos  n'este  ruminante; 
a  vista  é  má. 

O  búfalo  ordinário  não  cede  a  nenhum  outro  bovidio  em  selvageria 
e  malvadez;  nem  mesmo  em  captiveiro  chega  a  perder  completamente 
estes  dotes  nativos. 


CACA 


Slolz  informa-nos  de  que  na  índia  o  processo  geralmente  empre- 
gado na  caça  do  búfalo  ordinário  consiste  em  circumdar  um  certo  espaço 
de  terreno  por  uma  paliçada  na  qual  existe  uma  abertura  apenas  e  de- 
pois dispor,  a  partir  d'essa  abertura,  em  duas  linhas  formando  angulo, 
um  certo  numero  de  homens  que,  postados  em  cima  de  arvores,  agitam 
violentamente  os  ramos  e  fazem  um  grande  ruido  desde  que  um  bando 
de  búfalos  se  approxima  e  se  interna  no  espaço  comprehendido  pelas 
duas  hnhas.  Os  animaes,  espantados  pelo  inesperado  ruido,  penetram 
pela  abertura  única  no  espaço  fechado  pela  pahçada  e  ahi  são  prezos 
com  laços  e  depois  vendados. 


MAMIFEKOS  EM  ESPECIAL  143 


COMBATES 


O  búfalo  é  o  inimigo  natural  do  tigre;  em  combate  com  elle  sae  de 
ordinário  vencedor.  É  tal  a  confiança  na  valentia  e  coragem  do  rumi- 
nante, que  os  pastores  de  búfalos  domesticados  não  teem  o  minimo  re- 
ceio de  attravessar,  montados  n'estes  animaes,  os  legares  infestados  pelo 
tigre. 

Conta  o  naturalista  Johnson  que  tendo  um  tigre  attacado  o  ultimo 
homem  de  uma  caravana,  um  pastor  de  búfalos  que  estava  perto  correu 
em  soccorro  do  desgraçado,  ferindo  o  carniceiro  com  um  sabre;  este 
largou  a  primeira  victima  e  atirou-se  contra  o  pastor:  os  búfalos  porém, 
vendo  o  dono  em  perigo,  precipitaram-se  sobre  o  tigre  e  começaram  a 
atiral-o  ás  cornadas  uns  para  os  outros,  como  se  atira  uma  pella,  aca- 
bando por  matal-o. 

Os  príncipes  indianos  aproveitando  a  natural  animosidade  entre  bú- 
falos e  tigres,  teem  instituído  combates  horrivelmente  commoventes  d'es- 
tas  duas  espécies,  tão  distinctas  no  logar  hierarchico  da  serie  zoológica, 
mas  tão  próximas  na  ferocidade  e  na  exaltação  da  lucta.  Gõrtz  descreve 
estes  combates  estranhos.  N'uma  arena,  onde  existem  togares  reserva- 
dos para  as  damas  e  para  os  grandes  da  terra,  collocam-se  duas  jaulas, 
uma  contendo  um  tigre,  outra  um  búfalo  selvagem.  Abertas  as  jaulas  a 
um  signal  dado,  o  tigre,  saindo,  precipita-se  sobre  o  búfalo  que  se  con- 
serva dentro  das  suas  grades.  O  tigre,  com  a  agihdade  de  felino,  trepa 
ao  pescoço  do  búfalo  e  consegue  feril-o  gravemente;  este  porém,  batendo 
vigorosamente  com  o  carnívoro  contra  as  grades  fortíssimas  da  jaula, 
quebra-lhe  os  ossos,  obriga-o  a  retirar-lhe  as  garras  do  pescoço,  atira-o 
ao  chão  e  acaba  por  matal-o,  varando-o  com  os  cornos  extensos  e  pode- 
rosíssimos. No  Japão  a  jaula  do  búfalo  nunca  excede  muito  o  tamanho 
do  ruminante,  precisamente  para  que  ehe  saia  victorioso;  os  japonezes 
que  fazem  do  tigre  o  representante  dos  europeus  e  do  búfalo  o  emblema 
da  sua  raça,  teem  o  máximo  empenho  em  que  seja  este  o  vencedor. 
N'uma  vasta  arena  em  que  os  combatentes  fossem  um  tigre  e  um  só  bú- 
falo, o  tigre  triumpharia,  sem  duvida,  do  contendor.  Nas  florestas  a  van- 
tagem constante  do  búfalo  sobre  o  tigre  provem-lhe  da  possibilidade  que 
tem  de  chamar  a  si  os  companheiros,  reforçando  e  multiplicando  assim 
a  própria  valentia. 


Ui  HISTORIA  NATURAL 


DOMESTIGIDADE 


Com  quanto,  segundo  o  dizer  de  naturalistas  auctorisados,  se  não 
possa  pôr  em  duvida  que  o  búfalo  domestico  é  originário  da  índia,  o  que 
é  certo  é  que  já  ahi  se  não  encontra  no  estado  selvagem.  Hoje  encon- 
tra-se  em  outros  paizes  do  Oriente,  na  Pérsia,  no  Egypto,  na  Syria  e  tam- 
bém na  Europa,  na  Itália,  na  Grécia  e  na  Turquia. 

O  búfalo  domestico  gosta  principalmente  dos  legares  pantanosos, 
que  na  Itália,  felizmente  para  elle  e  infelizmente  para  os  habitantes  do 
paiz,  encontra  em  abundância.  No  Egypto  é  um  animal  estimado.  Em  to- 
das as  casas  existe  um  tanque  onde  os  búfalos  passam  uma  grande  parte 
do  dia  mergulhados  até  ao  pescoço;  as  inundações  tão  vulgares  n'este 
paiz  e  que  são  tantas  vezes  o  desespero  dos  habitantes,  são  para  o  bú- 
falo um  motivo  de  prazer.  Foge  então  para  os  campos  cobertos  d'agua 
e  só  volta  para  casa  quando  as  fêmeas,  incommodadas  pelo  excesso  do 
leite,  sentem  a  necessidade  de  ser  mugidas.  O  búfalo  domestico  é  bom 
nadador;  segundo  a  opinião  dos  que  uma  vez  tiveram  occasião  de  assis- 
tir a  um  tal  espectáculo,  nenhum  ha  superior  ao  de  um  grande  numero 
de  búfalos  attravessando  a  nado  um  largo  rio.  Os  pequenos  pastores  de 
oito  a  dez  annos  montam-se  no  dorso  dos  animaes  e  assim  se  deixam  ir 
sem  medo,  quando  mesmo  as  aguas  estão  agitadas.  É,  com  effeito,  per- 
feitamente admirável  a  habihdade  com  que  os  búfalos  nadam.  «A  agua 
parece  ser,  diz  Brehm,  o  seu  verdadeiro  elemento;  brincam,  mergu- 
lham, deitam-se  de  lado,  um  pouco  mesmo  sobre  o  dorso,  deixam-se  ar- 
rastar pela  corrente  sem  mover  os  membros  ou  a  attravessam  de  lado 
a  lado.  Passam  pelo  menos  seis  a  oito  horas  por  dia  na  agua;  ahi  estão, 
ahi  ruminam  á  vontade.»  *  Se  o  privam  d'agua  por  muito  tempo,  o  bú- 
falo domestico  torna-se  inquieto  e  até  mao.  E  prefere  a  agua  pura  e  pro- 
funda á  vasa  dos  legares  pantanosos.  No  Egypto,  diz  Brehm,  vé-se  mui- 
tas vezes  este  ruminante  partir  a  galope  (o  que  só  faz  quando  enfure- 
cido) na  direcção  do  Nilo  e  atirar-se  á  agua.  Segundo  o  escriptor  que 
acabamos  de  citar,' na  índia  e  na  Itália  não  poucas  pessoas  teem  sido 
victimas  d'esta  attracção  do  búfalo  domestico  pela  agua;  ahi,  onde  é  cos- 
tume atrelar-se  o  búfalo  aos  carros,  tem  acontecido  que,  ao  passar  por 


1     Brehin,  Ohr.  cit.,  vol.  2.«,  pg.  642. 


1 


mamíferos  em  especial  145 

perto  de  um  rio,  o  ruminante  se  atira  a  elle,  desapparecendo  sob  a 
agua  com  carro  e  passageiros. 

Em  terreno  firme,  o  búfalo  não  é  tão  ágil  como  na  agua.  A  marcha 
é  então  pezada  e  a  corrida,  com  quanto  rápida,  sempre  mais  ou  menos 
penosa.  Quando  se  enfurece  ou  procura  a  agua,  caminha  galopando,  ou 
melhor — caminha  rapidamente  por  uma  successão  de  saltos  bruscos  e 
deselegantes;  não  sustenta  porém  esta  marcha  para  além  de  duzentos 
passos. 

O  búfalo  domestico  é  para  quem  o  vê  pela  primeira  vez  uma  causa 
de  terror,  tanta  é  a  selvageria  do  seu  aspecto.  Ninguém  deixa  de  jul- 
gal-o  um  animal  ferocíssimo.  No  entanto,  a  opinião  formada  sob  a  influen- 
cia das  primeiras  impressões  é  perfeitamente  illusoria.  No  Egypto,  por 
exemplo,  o  búfalo  domestico  é  tão  dócil  que  a  guarda  d'elle  se  confia  a 
creanças.  Brehm,  diz  ter  visto  infinitas  vezes  rapariguitas  montadas  so- 
bre o  dorso  do  ruminante  attravessarem  o  Nilo  e  acrescenta  que  nunca 
ouviu  fallar  de  um  accidente  qualquer.  De  resto,  o  valente  animal  sub- 
mette-se  resignadamente  a  todos  os  serviços  que  lhe  impõem,  aos  tra- 
balhos agrícolas,  á  conducção  de  carga,  ao  transporte  de  pessoas,  exi- 
gindo apenas  em  troca:  ahmento  e  agua  em  que  possa  banhar-se  algu- 
mas horas  por  dia.  E  não  se  pense  que  reclama  uma  alimentação  abun- 
dante; é  sóbrio,  tão  sóbrio  que  nem  o  camelo,  nem  o  jumento  o  exce- 
dem. Não  toca  nas  hervas  tenras  e  saborosas  que  são  o  attrativo  dos 
outros  bovidios;  procura  antes  os  vegetaes  mais  seccos,  mais  duros, 
mais  insípidos.  Também  se  satisfaz  com  vegetaes  dos  pântanos,  qualquer 
que  seja  a  espécie  a  que  pertençam.  E  o  que  é  certo  é  que  um  tal  género 
de  alimentação,  por  insufíiciente  que  pareça,  lhe  convém  admiravelmente, 
como  o  prova  a  quantidade  e  boa  quahdade  do  leite  que  produz  a  fê- 
mea, leite  de  que  se  faz  exceli  ente  manteiga  em  abundância. 

Este  animal  tão  útil,  tão  paciente,  tão  justamente  considerado  no 
Egypto,  tem  uma  qualidade  antipathica:  é  sujo;  espoja-se  na  lama  e  fica 
depois  tão  satisfeito  como  se  saísse  de  um  banho.  Os  turcos  odeiam  este 
animal  porque  elle  se  atira  furioso  contra  os  estandartes  vermelhos  do 
propheta;  julgam-o  um  animal  maldito,  que  despreza  as  leis  divinas. 
Pelo  contrario,  outros  povos  ha  que  o  teem  na  conta  de  sagrado  e  lhe 
attribuem  virtudes  semelhantes  ás  que  os  christãos  concedem  ao  cordeiro 
symbohco,  qui  tolit  peccata  mundi^  como  diz  a  invocação. 

O  búfalo  domestico  é  silencioso;  só  as  fêmeas  quando  aleitam  e  os 
touros  em  fúria  fazem  ouvir  a  voz  onde  ha  misturado  o  mugido  do  boi 
e  o  grunhido  do  porco. 

Ao  Norte  os  búfalos  entregues  a  si  copulam-se  na  primavera,  isto 
é  em  Abril  ou  Maio.  Dez  mezes  depois,  que  tanto  é  o  tempo  que  dura  a 
gestação,  a  fêmea  pare  um  filho  único  a  que  dedica  uma  sollicitude 

VOL.  III  *  10 


146  HISTOniA  NATURAL 

enorme  e  que  defende  nos  perigos  com  extraordinária  coragem.  Aos 
qualro  ou  cinco  annos  o  animal  é  adulto;  a  media  da  vida  é  para  esta 
espécie  de  dezoito  a  vinte  annos. 

O  único  inimigo  sério  da  espécie  é,  como  dissemos  já,  o  tigre.  Além 
d'este,  poucos  se  atrevem  a  accommettel-o  e  os  que  o  fazem  ás  vezes, 
como  o  lobo,  são  victimas  da  sua  temeridade. 


usos  E   PRODUCTOS 


Naturalistas  ha  que  chegam  a  considerar  o  búfalo  domestico  mais 
vahoso  ainda  que  o  boi;  fundam  a  sua  opinião  em  que  o  búfalo  presta 
os  mesmos  serviços  e  dá  os  mesmos  productos  que  o  boi,  sem  exigir 
nem  o  alimento  nem  os  cuidados  d'este  ultimo.  Encontro  n'este  modo  de 
vêr  um  exagero.  A  carne  do  búfalo  adulto  é  insupportavel,  ao  passo  que 
a  do  nosso  boi  é  em  todas  as  idades  excellente.  Para  ter  carne  de  bú- 
falo capaz  de  ser  comida  é  preciso  malar  o  animal  em  pequeno,  o  que 
equivale  a  ter  de  prescindir  de  todos  os  serviços  que,  ii'uma  idade  pos- 
terior, poderia  prestar-nos.  Não  acontece  o  mesmo  com  o  boi  domestico; 
e  este  facto  parece-me  de  uma  alta  importância  e  de  certo  modo  atte- 
nuante  da  opinião  que  dá  maior  valimento  ao  búfalo  do  que  ao  boi,  este 
dócil  e  paciente  companheiro  para  o  qual  toda  a  nossa  gratidão  é  pouca. 


v<4 


OS  BISONTES 


Foram  conhecidos  dos  antigos  que  d'elles  nos  legaram  descripções 
minuciosas  e  exactas.  São  animaes  feios  e  disformes,  grandes  como  os 
bois  selvagens,  negros  e  de  cornos  muito  affastados.  A  descripção  que 
temos  de  fazer  das  espécies  mais  importantes  dispensa-nos  de  proseguir 
em  indicações  relativas  à  generahdade. 


mamíferos  em  especial  14' 


o  BISONTE  DA  EUROPA 


É,  depois  do  elephante,  do  rhiaoceronte  e  da  girafa,  o  maior  ma- 
mifero  terrestre  que  actualmente  existe.  Este  animal  mede  hoje  ordina- 
riamente um  metro  e  sessenta  e  cinco  centímetros  de  altura  sobre  dois 
metros  e  meio  de  comprimento;  o  pezo  médio  é  de  seiscentos  kilogram- 
mas.  Na  Prússia  porém,  em  1555  matou-se  um  macho  que  tinha  dois 
metros  e  dezeseis  centímetros  d'alto  sobre  quatro  metros  e  dezesete  mil- 
limetros  de  comprido;  o  pezo  d'este  gigante  era  de  novecentos  e  cin- 
coenta  e  dois  kilogrammas.  EstasJ dimensões  e  este  pezo  não  são  já  hoje 
attingidos.  A  cabeça  d'este  ruminante  é  volumosa  e  larga,  muito  maior 
que  a  do  boi  ordinário. 

O  bisonte  europeu  é  forte,  refeito;  a  porção  anterior  do  corpo  é 
muito  desenvolvida  e  faz  parecer  a  posterior  delgada.  A  espádua  eleva-se 
em  bossa  de  modo  que  o  dorso  desce  em  declive  sensível  até  á  região 
sagrada.  O  pescoço  é  curto  e  grosso  e  a  cabeça,  como  dissemos,  volu- 
mosíssima. Os  cornos,  que  medem  cincoenta  centímetros  de  extensão, 
devem  considerar-se  curtos  relativamente  á  cabeça.  Nascidos  quasi  ao 
meio  do  craneo,  estes  appendices  recurvam-se  para  fora  e  para  baixo, 
depois  para  cima  e  para  diante,  apresentando  as  pontas  dirigidas  para 
dentro  e  para  traz;  na  raiz  oíferecem  rugosidades  annulares,  na  ponta  são 
perfeitamente  lisos.  Os  membros,  sem  serem  grandes,  são  todavia  mais 
extensos  e  mais  elegantes  que  os  do  boi  ou  do  búfalo;  os  cascos  são 
grandes,  largos  e  altos.  A  cauda  com  os  extensos  péllos  terminaes  passa 
abaixo  da  articulação  tibio-tarsica.  Desprovida  dos  péllos  terminaes  que 
medem  trinta  e  tantos  a  quarenta  centímetros,  a  cauda  chega  apenas  ao 
meio  da  tibia.  Os  péllos  do  manto  são  em  geral  compridos;  os  da  cabeça 
e  das  pernas  são  crespos,  como  que  frisados.  Ao  longo  da  maxilla  infe- 
rior, o  bisonte  europeu  apresenta  uma  longa  barba.  Os  péllos  da  parte 
posterior  do  corpo  são  lanosos.  De  resto,  as  quahdades  do  péllo  variam 
com  as  estações;  no  verão  o  péllo  é  menos  comprido,  menos  espesso  e 
menos  luzidio  que  no  inverno.  A  cor  do  péllo  é  no  estio  mais  clara  que 
na  estação  dos  frios  em  que  predomina  o  escuro. 

O  macho  differe  da  fêmea  apenas  na  grandeza  e  na  extensão  dos 
cornos. 


148  HISTORIA  NATUIIAL 


COSTUMES 


O  bisonte  da  Europa  habita  no  estio  e  no  outorano  os  logares  mais 
húmidos  e  occultos  das  florestas.  No  inverno  prefere  os  logares  elevados, 
expostos  e  seccos.  Os  machos  velhos  vivem  solitários;  os  novos  vivem 
em  manadas  de  quinze  a  vinte  individues,  no  verão,  e  de  trinta  a  qua- 
renta, no  inverno.  Cada  uma  d'estas  manadas,  como  nota  Figuier,  tem 
uns  certos  domínios  fixos,  que  não  ultrapassa  nunca.  Dentro  de  cada 
manada  existe  de  ordinário,  até  á  epocha  do  cio,  a  máxima  harmonia; 
entre  manadas  distinctas,  pelo  contrario,  as  relações  não  são  boas,  ven- 
do-se  geralmente  a  menos  numerosa  obrigada  a  separar-se,  tanto  quanto 
possível,  da  mais  forte. 

Não  pode  dizer-se  que  o  bisonte  europeu  tenha  hábitos  nocturnos; 
no  entanto  prefere  pastar  de  madrugada  e  ao  fim  da  tarde  ou  mesmo  de 
noite.  Cascas  d'arvores,  folhas,  gommos  e  hervas,  parecem  constituir  a 
sua  ahmentação.  É-lhe  indispensável  a  agua  fresca. 

Todos  os  movimentos  do  bisonte  da  Europa  parecem  pesados;  o  ani- 
mal porém  é  vivo.  O  passo  é  acelerado,  e  o  galope  um  tanto  pezado, 
mas  rápido;  quando  corre  abaixa  a  cabeça  e  levanta  a  cauda. 

O  bisonte  da  Europa  não  accommette  um  homem  inofensivo  e  mes- 
mo, no  verão,  evita  encontrar-se  com  a  nossa  espécie;  mas  se  o  ferem, 
se  o  incitam,  encolerisa-se  e  é  um  perigosíssimo  inimigo.  Enfurecido  es- 
tende a  lingua  para  fora  da  bocca,  move  nas  orbitas  os  olhos  injectados 
de  sangue  e  atira-se  com  extrema  valentia  sobre  quem  quer  ou  o  quer 
que  seja  que  o  tenha  exasperado.  Como  acontece  nos  búfalos,  os  machos 
sohtarios  n'esta  espécie  são  também  aquelles  que  mais  ha  a  receiar;  at- 
tacam  mesmo  quem  os  não  incita. 

O  cio  começa  em  Agosto  ou  Setembro  e  dura  duas  a  trez  semanas. 
Os  combates  dos  machos  para  a  posse  das  fêmeas  são,  como  facilmente 
se  prevê,  dadas  as  forças  extraordinárias  do  animal,  horríveis  e  tenacís- 
simos. A  morte  dos  contendores  mais  fracos  não  é  um  acontecimento 
raro.  A  gestação  dura,  como  na  espécie  humana,  nove  mezes;  em  Maio 
pois,  ou  começos  de  Junho,  a  fêmea  reaUsa  o  parto. 

Antes  do  parto,  a  fêmea  tem-se  separado  dos  companheiros,  procu- 
rando um  logar  sohtario  e  perfeitamente  tranquillo.  Ahi  occulta  o  filho 
durante  os  primeiros  dias  da  existência  d'elle.  A  mãe  defende  o  seu  pro- 
ducto  com  enorme  coragem,  com  risco  mesmo  da  própria  vida;  é  então 


mamíferos  em  especial  149 

perigosíssimo  approximar-se  alguém  da  fêmea,  ainda  mesmo  que  a  não 
hostilise,  porque  se  enfurece  e  é  terrível. 

Nos  primeiros  tempos  de  existência,  o  bisonte  é  um  animal  alegre 
e  agradável  mesmo,  embora  os  instinctos  de  ferocidade  que  mais  tarde 
o  hão-de  caracterisar  principiem  desde  logo  a  apparecer.  Cresce  lenta- 
mente; só  ao  fim  de  nove  annos  pode  considerar-se  adulto.  Em  compen- 
sarão attinge  a  idade  de  trinta  a  cincoenta  annos.  As  fêmeas  duram  or- 
dinariamente dez  annos  menos  que  os  machos.  Estes,  quando  envelhe- 
cem, tornam-se  cegos  ou  perdem  os  dentes.  Não  podendo  então  alimen- 
tar-se  bem,  caem  em  progressivo  abatimento  e  morrem  dentro  de  pouco 
tempo. 

A  reproducção  n'esta  espécie  é  muito  lenta.  A  fêmea  só  pare  de 
trez  em  trez  annos  um  filho  único;  e  ha  uma  epocha  de  alguns  annos 
em  que  se  conserva  absolutamente  estéril,  antes  que  de  novo  entre  em 
gestação. 


INIMIGOS 


Os  que  merecem  pela  sua  importância  mencionar-se  são  o  urso  e 
o  lobo.  O  bisonte  defende-se  porém,  admiravelmente.  O  urso  e  o  lobo  só 
conseguem  matal-o,  se  o  encontram  só  e  esgotado  pelas  fadigas,  dete- 
riorado pelas  fomes  em  tempo  de  gelo.  Deve  pois  ter-se  como  phantas- 
tica,  perfeitamente  falsa  na  generalidade,  a  crenpa  de  que  trez  lobos  ma- 
tam um  bisonte,  attraindo-lhe  a  attenção  um  d'elles  que  se  lhe  coUoca 
na  frente,  emquanto  os  outros  dois  o  mordem  no  ventre.  Trez  ou  mesmo 
quatro  lobos  são  poucos  para  fazerem  frente  ao  hercúleo  ruminante;  só 
muitos  conseguiriam  (e  parece  que  excepcionalmente  conseguem)  trium- 
phar  de  um  só  bisonte. 


CAÇA 


No  tempo  em  que  as  armas  de  fogo  eram  inteiramente  desconheci- 
das, considerava-se  um  grande  feito,  que  os  poetas  celebravam,  matar  um 
bisonte  da  Europa.  Gomprehende-se  perfeitamente  quanta  coragem  era 
precisa  para  attacar  um  animal  tão  possante  e  tão  feroz.  Hoje  que  sobre 
elle  se  pode  fazer  fogo  a  distancia,  a  morte  dada  em  caça  a  um  d'estes 


150  HISTORIA   NATURAL 

ruminantes,  sem  deixar  de  ser  na  maioria  dos  casos  uma  prova  de  cora- 
gem, perdeu  mui  lo  do  antigo  valor. 

Na  caça  do  bisonte  europeu,  empreza  geralmente  tentada  apenas 
por  gente  rica,  emprega-se  um  numero  considerável  de  homens  e  um 
apparato  verdadeiramente  espantoso.  No  século  passado  estas  caçadas 
foram  ainda  mais  apparatosas  do  que  são  hoje.  Mesmo  actualmente,  po- 
rém estas  caçadas  são  de  um  extraordinário  apparato;  entram  n'ellas 
centos  de  pessoas  e  centos  de  cães.  Já  alguns  dias  antes  de  principiar 
um  d'estes  exercícios,  centos  de  aldeãos  são  obrigados  a  afugentar  os  bi- 
sontes para  o  logar  em  que  terá  de  reahsar-se  a  caçada.  Os  caçadores 
téem  sempre  o  cuidado  de  procurar  uma  collocação  suíficientemente  res- 
guardada para  não  poderem  ser  attingidos  pelo  animal  que  perseguem. 
É  por  isso  que  Brehm  chama  á  morte  dada  ao  bisonte  n^estas  condições 
um  assassinato. 

N'outro  tempo  a  gente  do  povo,  quando  se  propunha  caçar  o  bi- 
sonte, ia  a  pé,  tendo  por  única  arma  uma  lança.  Os  caçadores  plebeus 
caminhavam  sempre  em  numero  de  dois:  um  procurava,  gritando  e  agi- 
tando um  panno  vermelho,  attrair  a  atten^-ão  do  ruminante;  o  outro  era 
o  encarregado  de  dar  o  golpe  mortal.  Os  cães  eram  de  ordinário  um 
auxiUar  d'esta  ordem  de  caçadas,  tão  pouco  apparatosas,  mas  tão  cheias 
de  perigos  e  tão  férteis  em  movimentos  de  assombrosa  coragem. 


CAPTIVEIRO 


O  bisonte  europeu  tem  sido  muitas  vezes  reduzido  ao  captiveiro, 
mas  não  inteiramente  domesticado.  Por  maiores  que  sejam  os  cuidados 
e  attenções  do  homem  por  este  ruminante,  por  longo  que  seja  o  tempo 
de  captiveiro,  a  verdade  é  que  ehe  não  attinge  nunca  um  perfeito  es- 
tado de  domesticidade  e  que  nem  mesmo  aquelles  que  lhe  dão  de  co- 
mer se  podem  julgar  a  salvo  de  qualquer  tentativa  de  aggressão. 

Um  facto,  inesperado  talvez,  é  que  o  bisonte  em  captiveiro  se  re- 
produz mais  rapidamente  que  em  liberdade.  Observações  feitas  nos  jar- 
dins zoológicos  vieram  provar  que  era  falsa  a  opinião  geralmente  acre- 
ditada de  que  o  bisonte  entrava  como  causa  das  modificações  operadas 
nas  raças  dos  nossos  bois.  A  verdade  é  que  o  bisonte  se  não  copula  com 
as  espécies  domesticas;  pelo  contrario,  existe  de  uns  pelos  outros  um 
ódio  nativo,  uma  invencível  repugnância  instinctiva. 


mamíferos  em  especial  1 5 1 


usos  E  PRODUGTOS 


A  carne  do  bisonte  europeu  é  geralmente  muito  estimada  e,  no  di- 
zer dos  que  a  teem  provado,  no  gosto  d'ella  ha  alguma  coisa  que  lem- 
bra a  do  boi  e  ao  mesmo  tempo  a  do  veado.  A  carne  da  fêmea  ou  do 
animal  quando  ainda  muito  novo,  é,  sobretudo,  considerada  excellente. 
Esta  carne  depois  de  salgada  é  na  Polónia  tida  em  conta  de  uma  iguaria 
delicadíssima. 

A  pelle  do  animal  dá  um  coiro  de  grande  duração,  mas  muito  po- 
roso, que  apenas  serve  para  fazer  correias. 

Dos  cornos  e  dos  cascos  ha  paizes  em  que  se  fabricam  vasos  para 
bebidas;  houve  tempo  em  que  a  estas  partes  do  animal  se  attribuiam 
virtudes  therapeuticas. 


O  BISONTE  DA  AMERICA 


É  o  maior  de  todos  os  mamíferos  do  continente  americano.  O  macho 
attinge  trez  metros  de  comprido,  não  incluindo  a  cauda  que  é  de  ses- 
senta e  seis  centímetros  ou  mais  com  os  pêllos  que  a  terminam.  A  al- 
tura é  de  dois  metros  ao  nivel  da  espádua  e  de  um  metro  e  sessenta  e 
seis  centímetros  no  sacro.  O  pezo  varia  entre  seiscentos  e  mil  kilogram- 
mas.  A  fêmea  é  mais  pequena;  não  excede  quatro  quintos  d'estas  dimen- 
sões. 

Este  ruminante  assemelha-se  um  pouco  ao  seu  congénere  europeu; 
comtudo  é  fácil  distinguil-os.  O  bisonte  americano  tem  os  membros  e  a 
cauda  relativamente  curtos,  a  "parte  anterior  do  corpo  mais  desenvolvida, 
mas  a  posterior  mais  estreita  e  os  pêllos  do  manto  mais  extensos.  Tem 
a  cabeça  proporcionalmente  maior,  a  região  frontal  mais  larga,  o  pes- 
coço curto,  a  espádua  muito  elevada,  a  parte  posterior  do  tronco  estrei- 
ta, fraca  e  a  cauda  curta.  Os  cornos  são  curtos  e  grossos,  recurvados 


152  HISTORIA   NATURAL 

para  cima  e  para  fora  e  tondo  a  ponta  dirigida  um  pouco  para  dentro; 
as  orellias  são  curtas  c  finas  e  os  olhos  grandes,  escuros. 

Os  pelios  da  caljeça,  do  pescoço,  das  espáduas,  do  peito,  da  parte 
superior  das  coxas  e  da  cauda  são  muito  compridos;  os  péllos  da  cabeça 
são  crespos  e  os  que  circumdam  a  maxilla  inferior  formam  uma  barba. 
Os  péllos  que  cobrem  o  resto  do  corpo  são  espessos,  mas  muito  curtos. 
Ao  principiar  a  primavera  os  péllos  caem  e  os  que  os  substituem  mudam 
de  cor.  As  partes  do  corpo  em  que  os  péllos  são  mais  compridos  aíTe- 
ctam  a  cor  negra;  as  outras  partes  são  de  um  pardo-trigueiro  uniforme. 
O  manto  do  estio  6  mais  claro;  é  de  um  trigueiro  amarellado.  Os  cornos, 
os  cascos  e  o  focinho  são  de  ura  negro  accentuado.  Os  indivíduos  bran- 
cos ou  malhados  de  branco  são  muitíssimo  raros. 

É  esta  a  descripção  que  Brehm  faz  do  bisonte  da  America. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHIGA 


Este  bisonte,  outr'ora  espalhado  em  abundância  por  todo  o  conti- 
nente da  America  do  Norte  não  existe  hoje  senão  n'uma  parte  muito  li- 
mitada, muito  restricta  d'ene.  Todos,  os  annos  é  forçado  a  recuar  diante 
dos  homens,  negros  e  brancos,  e  diante  dos  lobos;  assim  se  encurta 
sempre  e  progressivamente  a  sua  área  de  dispersão  geographica.  Ainda 
assim,  a  oeste  do  continente  americano  existe  por  milhares.  Houve  tempo 
em  que  este  ruminante  era  vulgar  nas  costas  do  Atlântico;  nos  começos 
do  século  XVIII  já  ahi  era  raríssimo.  No  fim  d'esse  mesmo  século  era 
ainda  commum  em  Kentucky  e  a  oeste  da  Pensylvania;  hoje  é  raro  tam- 
bém n'estas  paragens.  Desde  que  os  europeus  começaram  de  estabele- 
cer-se  na  America  do  Norte,  o  animal  rareia  constantemente;  e  se  existe 
ainda  hoje  por  milhares,  como  dissemos,  nas  pradarias  extensíssimas  de 
oeste,  maior  é,  segundo  Brehm,  o  numero  de  cadáveres  que  cobrem  o 
solo. 


COSTUMES 


o  bisonte  americano  é  talvez  o  mais  sociável  de  todos  os  bovídios. 
Observemos  comtudo  que  os  sexos  se  não  misturam  senão  na  epocha  do 


mamíferos  em  especial 


153 


cio  e  que  de  ordinário  os  machos  formam  agrupamentos  separados  d'ou- 
tros  exclusivamente  constituidos  pelas  fêmeas  e  os  filhos  não  adultos. 
Estes  agrupamentos  seguem  uns  aos  outros;  e  é  por  isso  que  á  primeira 
vista  parecem  constituir  todos  uma  única  manada  de  milhares  de  cabe- 
ças. 

O  bisonte  americano  não  vive  sempre  no  mesmo  logar,  antes  muda 
de  sede  segundo  as  estações.  No  estio  procura  os  descampados;  no  in- 
verno busca  de  preferencia  as  florestas.  Além  d'isto,  emprehende  to- 
dos os  annos,  regularmente,  grandes  viagens,  descendo  em  Julho  para  o 
sul  e  voltando  na  primavera  para  o  norte.  Estas  emigrações  fazem-se 
desde  o  Canadá  até  ás  costas  do  golpho  México  e  desde  o  Messuri  até  ás 
Montanhas  Pétreas.  Os  bandos  emigrantes  são  constantemente  acompa- 
nhados de  longe  por  lobos  que  vão  marchando  na  esperança  de  apanha- 
rem algum  retardatário  cujos  músculos  lhes  offereçam  lauto  banquete. 
Nuvens  d'aguias  e  de  abutres  voam,  seguindo  os  emigrantes;  soUicita 
estes  carniceiros  do  ar  a  mesma  esperança  que  anima  os  de  terra.  Os 
caminhos  que  seguem  os  bisontes  n'estas  viagens  são  os  mesmos  sem- 
pre, e  são  por  isso  conhecidos  pela  designação  de  estradas  dos  búfalos. 
Eu  advirto  para  comprehensão  d'esta  designação  que  na  America  o  bi- 
sonte indígena  é  conhecido  pelo  nome  de  búfalo.  Estas  estradas  são  ge- 
ralmente parallelas  entre  si  e  extensíssimas. 

Brehm  explica  a  sociabilidade  do  bisonte  como  o  effeito  de  duas 
causas  concorrentes;  a  mudança  das  estações  e  a  reproducção.  A  prima- 
vera dispersa  os  bisontes  e  se  o  anno  fosse  uma  permanente  primavera 
não  os  veríamos  juntos;  mas  o  outomno  reune-os.  A  reproducção  inci- 
tando os  sexos  a  procurarem-se,  é  uma  causa  de  sociabihdade  mais  po- 
derosa ainda.  É  em  Julho  oju  Agosto  que  os  machos  se  misturam  com  as 
fêmeas,  procurando  cada  um  a  sua  companheira.  É  também  então  a  epo- 
cha  dos  combates  e  das  luctas,  terríveis  decerto,  mas  que,  no  dizer  de 
Audubon,  nunca  terminam  pela  morte  de  algum  dos  contendores.  Ha 
muitas  espécies  em  que  o  contrario  é,  como  sabemos,  vulgar.  O  vence- 
dor, uma  vez  conquistada  a  fêmea,  separa-se  com  ella  dos  companheiros 
e  procura  um  logar  tranquillo  e  isolado,  onde  se  conserva  até  ao  mo- 
mento da  parturição. 

O  cio  dura,  termo  médio,  um  mez;  os  machos  que  não  lograram 
encontrar  fêmea  n'essa  epocha  de  ardor  sexual,  conservam-se  ainda  por 
muito  tempo,  por  algumas  semanas,  furiosos  e  mãos.  Na  quadra  do  cio, 
o  macho  exala  um  enérgico  cheiro  a  almíscar  que  de  longe  o  denuncia 
ao  caçador;  este  cheiro,  impregnando  a  carne  do  animal,  torna-a  detes- 
tável, incapaz  de  ser  comida  por  um  europeu.  A  excitação  nervosa  d'essa 
epocha  esgota  o  animal  que  se  esquece  de  comer  e  emagrece  então  con- 
sideravelmente. 


101  HISTORIA   NATURAL 

Em  Março  ou  Abril,  isto  ó  nove  mezes  depois  da  copula,  a  íemea 
pare  um  filho  único.  Algum  lempo  antes  a  fêmea  separa-se  do  compa- 
nheiro e  reune-se  a  outras  fêmeas,  como  eha  gravidas.  Gomo  em  todas 
as  espécies  de  bovidios,  n'esta  os  cuidados  maternos  são  de  uma  extraor- 
dinária sollicitude;  a  mãe  desconhece  inteiramente  toda  a  ordem  de  pe- 
rigos quando  se  trata  de  salvar  o  filho  ameaçado.  Este  é  sempre  um 
animal  vivo,  alegre,  disposto  a  todos  os  exercícios  infantis. 

O  bisonle  americano,  apesar  da  apparencia  de  preguiça  e  da  estru- 
ctura  do  corpo,  é  um  animal  de  uma  agilidade  relativamente  notável. 
Percorre,  a  despeito  da  pouca  extensão  dos  membros,  grandes  espaços 
com  prodigiosa  rapidez;  nunca  marcha  lentamente  como  o  boi  domes- 
tico :  o  passo  é  apressado,  o  trote  vivo  e  o  galope  tão  rápido  como  o  de 
um  bom  cavallo.  Nada  vigorosamente  e  por  um  grande  espaço  de  tempo; 
não  vacilla  em  attravessar  uma  corrente  d'agua,  ainda  quando  ella  apre- 
sente uma  extensão  de  dois  ou  mais  kilometros. 

No  bisonte  americano  o  ouvido  e  o  olfato  são  os  sentidos  mais  per- 
feitos; a  vista  é  má. 

Este  ruminante,  com  quanto  habitualmente  timido,  se  o  excitam  en- 
colerisa-se,  tornando-se  então  corajoso,  temivel,  ardente  na  vingança. 
De  resto,  longe  de  ser  indomável,  como  erradamente  se  tem  dito,  do- 
mestica-se  com  facilidade  e  chega  a  sentir  por  quem  o  trata  uma  grande 
dedicação. 

A  voz  do  bisonte  americano  consiste  n'um  mugido  surdo;  quando 
muitos  d'estes  animaes  soltam  a  voz  ao  mesmo  tempo  ouve-se  ura  ruido 
só  comparável  á  trovoada. 

O  regimen  alimentar  d'este  bisonte  varia  um  pouco  com  as  estações : 
no  estio  o  animal  nutre-se  de  hervas  succulentas;  no  inverno  é  forçado 
a  contentar-se  com  hervas  seccas,  hchens  e  musgos.  De  resto,  o  animal 
é  sóbrio;  satisfaz-se  completamente  com  pouco  e  não  escolhe  mesmo  a 
quahdade. 

Além  do  homem  e  de  alguns  carniceiros,  tem  o  bisonte  da  America 
um  terrível  inimigo  —  o  inverno.  Esta  estação  não  é  hostil  ao  animal  so- 
mente porque  é  fria,  mas  ainda  porque  durante  ella  se  torna  difficil  achar 
alimento.  É  então  que  a  lucta  para  a  vida  se  torna  mais  difíicultosa, 
mais  áspera;  o  gelo,  cobrindo  os  pastos,  deixa  o  animal  em  penosas  con- 
dições. E  embora  o  bisonte,  com  uma  previdência  que  faz  honra  ás  suas 
faculdades  intellectuaes,  tenha  feito  para  esta  penosa  estação  uma  forte 
reserva  de  gordura,  é  certo  que  ella  se  esgota  e  que  o  ruminante,  for- 
çado a  uma  alimentação  mesquinha,  abate  e  emagrece  consideravel- 
mente. Também  muitas  vezes  acontece  que  o  bisonte,  caminhando  por 
sobre  a  agua  coberta  de  uma  espessa  camada  de  gelo,  porque  este  parte 
sob  o  pezo  do  corpo,  vem  a  morrer  aíTogado.  Outros  que  vêem  cami- 


mamíferos  em  especial 


155 


nhando  atraz  d'elle,  lêem  a  mesma  sorte;  assim  se  perdem  n'um  só  dia 
algumas  dezenas  de  indivíduos. 


CAÇA 


Além  do  urso  escuro  e  do  lobo,  devemos  contar  o  homem  como  um 
terrivel,  o  mais  terrivel  inimigo  do  bisonte  americano.  «N'outro  tempo, 
escreve  Moellhausen,  quando  o  hufalo  podia  ser  de  certo  modo  conside- 
rado como  o  animal  domestico  dos  indigenas,  não  se  notava  que  as  ma- 
nadas diminuíssem,  antes  a  multiplicação  era  crescente  e  prospera.  Desde 
o  momento  porém,  em  que  os  europeus,  apparecendo  na  America  do 
Norte,  tomaram  o  gosto  á  carne  do  ruminante  e  acharam  que  lhes  con- 
vinha o  manto  d'elle,  espesso  e  abundante,  trataram  desde  logo  de  es- 
tabelecer sobre  estes  dados  um  ramo  de  commercio.  Ao  mesmo  tempo 
despertaram  nos  indigenas  o  desejo  de  possuírem  alguns  objectos  bri- 
lhantes que  inventaram  e  que  começaram  a  oíTerecer-lhes  em  troca  dos 
productos  da  caça  ao  ruminante;  desde  então  a  perseguição  começou. 
Milhares  de  bisontes  foram  mortos  desde  logo  para  que  os  europeus  lhes 
aproveitassem  o  largo  manto.  Em  poucos  annos  diminuiu  de  um  modo 
espantoso  o  numero  de  ruminantes.  Talvez  não  venha  longe  o  tempo  em 
que  o  bello  animal  exista  apenas  na  memoria  dos  homens  e  em  que 
trezentos  mil  indigenas  se  vejam  privados  de  alimento.  Arrastados  pela 
fome  tornar-se-hão,  com  milhões  de  lobos,  um  flagello  para  a  civihsação 
visinha  e  será  preciso  então  destruil-os.»  É  triste  sem  duvida  este  qua- 
dro, mas  verdadeiro,  decerto. 

O  modo  mais  vulgar  por  que  os  indigenas  fazem  a  caça  ao  bisonte 
americano,  é  a  cavallo  e  á  frecha.  O  cavallo  deve  ser  bom,  vigoroso, 
capaz  de  galopar  horas  inteiras  sem  fadiga;  de  ordinário  o  indígena  es- 
colhe um  que  elle  próprio  tem  encontrado  em  estado  selvagem  nas 
steppes.  O  cavalleiro  carece  de  ser  vigorosíssimo  também  e  de  conhecer 
perfeitamente  a  arte  de  equihbrar-se  sobre  o  animal  quando  este,  para 
fugir  ao  bisonte  enfurecido,  pula  e  galopa  tremendo  de  susto.  Deve 
também  o  cavaUeiro  ser  um  admirável  atirador,  porque  tem  de  fazer 
pontaria  ao  bisonte  de  cima  do  cavallo  que  se  agita  em  todas  as  direc- 
ções e  procura  evitar  o  embate  do  terrivel  ruminante  em  cólera. 

Actualmente  na  caça  do  bisonte  empregam-se  também  as  armas  de 
fogo  e  assim  se  consegue  matar  um  grande  numero  d'estes  ruminantes 
n'uma  só  excursão. 


156  HISTORIA  NATURAL 

O  emprego  do  laço  é  também  muito  vulgar;  o  bom  caçador  atira-o 
com  inacreditável  destreza  de  cima  do  cavallo  em  galope. 

Os  diíferentes  processos  de  caça  que  acabamos  de  mencionar,  ofle- 
recem  um  grande  risco.  Ás  vezes  o  ruminante  ferido  atira-se  contra  o 
cavallo  que  assustado  salta  e  cospe  da  sella  o  cavalleiro;  este  umas  ve- 
zes é  victima  da  queda,  outras  do  bisonte,  que  não  lhe  dando  tempo 
para  que  se  levante  se  precipita  sobre  elle  e  o  mata  ás  cornadas.  Os 
naturalistas  Wyeth  e  Richardson  contam  alguns  d'estes  casos  funestos. 

Os  lobos  perseguem  o  bisonte  americano;  raras  vezes  porém  con- 
seguem sair  da  lucta  triumphantes,  mesmo  quando  em  grande  numero. 
O  cão  bull-dog  é  também  um  irreconciliável  inimigo  do  bisonte  da  Ame- 
rica; mas  poucas  vezes  logra  vencel-o.  O  bull-dog,  adestrado  n'estas  lu- 
ctas,  procura  prender  o  bisonte  pelos  lábios,  porque  é  esta  sem  duvida 
a  situação  mais  perigosa  para  este;  ainda  assim  o  ruminante  encontra 
muitas  vezes  meio  de  salvar-se,  erguendo  os  membros  posteriores  e 
deixando-se  cair  para  diante  com  todo  o  pezo  do  corpo  sobre  o  carni- 
ceiro que  esmaga. 


GAPTIVEIRO 


A  introducção  do  bisonte  americano  nos  jardins  zoológicos  da  Eu- 
ropa não  é  antiga;  no  de  Hamburgo  só  ha  um  anno  existe  um  par.  O 
bisonte,  com  quanto  timido  nos  primeiros  tempos  de  captiveiro,  acaba 
por  adquirir  confiança  nos  que  d'elle  se  occupam  e  por  se  ligar  ao  ho- 
mem por  laços  de  aíTeição.  Prospera  notavelmente  desde  que  se  lhe  mi- 
nistra agua  em  abundância  e  se  lhe  permitte  viver  ao  ar,  n'uma  certa 
liberdade,  n'uma  independência  que  elle  aprecia  mais  que  tudo.  O  bi- 
sonte tem-se  reproduzido  em  captiveiro  na  Inglaterra  e  em  Colónia.  Os 
mestiços  copulam-se  com  o  boi  domestico,  sendo  os  filhos  fecundos. 
Comprehende-se  que  o  bisonte  americano  podesse  tornar-se  um  excel- 
lente  animal  domestico. 


usos   E   PRODUCTOS 


O  bisonte  é  utiKssimo.  A  carne  secca,  tal  como  se  prepara  na  Ame- 
rica, é  um  artigo  importante  de  exportação  n'este  paiz.  A  lingua  gosa 


MAMÍFEROS  EM  ESPECIAL  157 

da  reputação  de  um  excellente  prato.  Da  pelle  fazem  os  indígenas  vesti- 
dos, coberturas,  sellas,  cintos,  etc.  Dos  ossos  fazem  facas  e  dos  tendões 
cordas  d'arco  e  fio  resistente.  Aproveitam-se  ainda  os  cascos,  a  lã  e  até 
os  excrementos  que  são  um  soberbo  combustivel. 


OS  BOIS 


Os  bois  propriamente  ditos  tem  a  região  frontal  chata  e  extensa,  os 
cornos  grandes,  pouco  desenvolvidos  e  inseridos  na  base  á  altura  da 
crista  frontal.  Teem  de  ordinário  treze  vértebras  dorsaes,  seis  lombares 
e  quatro  sagradas.  O  pêllo  é  curto,  mas  espesso.  É  esta  divisão  dos  bo- 
vidios  a  que,  sem  contestação,  abrange  as  espécies  mais  úteis  ao  ho- 
mem. 

Decomporemos,  á  maneira  de  Brehm,  este  grande  grupo  em  trez: 
— bois  selvagens  ou  bravos,  bois  que  se  tornaram  selvagens  e  bois  do- 
mésticos. 


I.  BOIS  SELVAGENS 


o  GAYAL 


Mede  trez  metros  de  comprido  e  um  metro  e  sessenta  centímetros 
de  altura,  ao  nivel  da  espádua.  A  cauda  é  de  oitenta  centímetros.  Tem 
o  corpo  volumoso  e  forte,  o  pescoço  curto,  a  cabeça  grande  e  larga  pos- 


158  HISTORIA  NATURAL 

teriormente,  os  cornos  curtos,  mas  fortes,  muito  espessos  na  base,  recur- 
vando-se  em  semi-circulo  primeiro  para  cima  e  para  fora,  depois  um 
pouco  para  dentro,  achatados  de  diante  para  traz  na  raiz,  cheios  de  ru- 
gosidades  transversaes,  redondos  e  lisos  na  ponta.  O  pôUo  é  curto  e  es- 
pesso. Este  boi  tem  quatorze  pares  de  costellas,  ao  passo  que  as  outras 
espécies  teem  dezesete.  Oííerece  cinco  vértebras  lombares,  cinco  sagra- 
das e  cinco  caudaes. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHICA 


A  espécie  habita  as  montanhas  arborisadas  do  sul  e  do  centro  da 
índia  e  da  ilha  de  Ceylão  a  uma  altitude  de  mil  a  mil  e  trezentos  metros 
acima  do  nivel  do  mar. 


COSTUMES 


O  gayal  é  vivo  e  ágil  como  todos  os  animaes  montanhezes.  O  gé- 
nero de  vida  d'este  ruminante  não  differe  notavelmente  do  que  caracte- 
risa  os  outros  bovidios.  Vive  em  grupos  com  os  seus  congéneres.  Evita 
o  calor  excessivo  do  sol  e  procura  alimento  de  madrugada,  ao  fim  da 
tarde  e  de  noite,  quando  ha  luar;  rumina  á  sombra  das  arvores.  Gosta 
muito  da  agua,  mas,  ao  contrario  de  outros  bovidios,  evita  a  vasa  e  os 
legares  pantanosos.  É  dócil,  evita  o  homem  e  nunca  o  attaca.  Defende-se 
com  notável  coragem  dos  carniceiros,  pondo  em  debandada  o  tigre  e 
a  panthera. 


CAÇA 


A  carne  do  gayal,  que  passa  por  ser  excellente,  constitue  uma  das 
causas,  a  principal  talvez,  da  caça  pertinaz  que  os  indígenas  lhe  fazem. 
Não  é  diíficil  apanhar  o  animal  vivo.  Para  o  conseguirem,  os  indígenas 
n'uma  certa  epocha  do  anno  permittem  a  juncção  dos  que  possuem  do- 


mamíferos  em  especial 


59 


mesticados  com  os  selvagens,  lançando  pelos  caminhos  umas  bolas  do 
tamanho  de  cabeças  humanas,  compostas  de  uma  certa  terra  e  de  sald- 
os animaes  selvagens  misturam-se  alegremente  com  os  domésticos  e  for- 
mando assim  um  bando  único  principiam  a  lamber  as  bolas  salinas  que 
são  para  elles  um  verdadeiro  manjar.  Os  indígenas  todos  os  dias,  por 
espaço  de  um  mez,  continuam  renovando  a  doze  das  bolas  e  vão-se 
pouco  e  pouco  aproximando  dos  ruminantes  que,  entretidos  como  andam, 
não  se  lembram  de  fugir.  Os  domésticos  deixam-se  naturalmente  afagar 
pelos  donos  e  os  selvagens,  seguindo-lhes  o  exemplo,  manifestam  ao  fim 
de  poucos  dias  uma  grande  confiança  pelo  homem,  permittindo  que  elle 
os  acaricie  também.  Obtido  isto,  o  indígena  procura  trazer  a  casa  os 
animaes  domésticos;  atraz  doestes  seguem  os  selvagens.  Eis  ura  processo 
bem  simples  de  apanhar  um  boi  bravo,  valente,  ágil  e  vivo  como  é  o 
gayal. 

Pela  observação  dos  indivíduos  reduzidos  ao  captiveiro,  sabe-se  que 
n'esta  espécie  a  gestação  dura  oito  a  nove  mezes  e  que  a  fêmea  dá  á 
luz  em  cada  parto,  um  filho  somente.  O  anno  que  segue  ao  da  parturi- 
ção  é  sempre  de  esterilidade. 


O  GAURO 


A  semelhança  entre  o  gauro  e  o  gayal  é  tão  grande  que  as  duas 
espécies  teem  andado  desde  muito  confundidas.  No  entanto  a  confusão 
deve  cessar,  porque  o  gauro  tem  treze  vértebras  dorsaes,  seis  lombares, 
trez  sagradas  e  dezenove  caudaes  e  aíTecta  uma  conformação  craneana 
muito  diíTerente  da  que  caracterisa  o  gayal.  O  tamanho  do  gauro  é  tam- 
bém maior  que  o  do  gayal.  Um  gauro  ainda  não  adulto  pode  medir  trez 
metros  e  sessenta  centímetros  de  comprimento  e  mais  de  um  metro  e 
oitenta  centímetros  de  altura;  os  cornos  d'este  mesmo  individuo  podem 
medir  quarenta  centímetros  de  extensão  e  terem  na  raiz  uma  circumfe- 
rencia  de  trinta  e  trez  ou  mais. 

O  gauro  distingue-se  em  geral  dos  outros  bois  pelas  pernas  altas  e 
pela  elegância  relativa.  Os  péllos  são  em  quasi  todo  o  corpo  curtos  c  es- 
pessos; mas  os  da  cabeça  e  da  cauda  são  alongados.  A  cor  geral  do 


160  HISTORIA   NATURAL 

manto  é  um  trigueiro  escuro.  As  extremidades  e  a  fronte  são  geralmente 
Lrancas.  Os  individuos  ruivos  são  raros. 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPHICA 


A  área  de  dispersão  geographica  do  gauro  parece  ser  limitadissima. 
Este  ruminante  com  eífeito,  existe  confinado  na  montanha  Myn-Pâd  da 
província  Sergoja,  na  Ásia. 


COSTUMES 


O  gauro  vive  nas  florestas  espessas  e  junto  dos  cursos  d'agua  da 
montanha  que  acabamos  de  mencionar.  É  sociável  e  vive  sempre  em 
grupos  de  cem  a  cento  e  vinte  individuos.  Os  velhos  machos,  expulsos 
das  sociedades,  passam  uma  vida  errante  e  absolutamente  sohtaria. 

O  gauro  é  timido;  diante  da  nossa  espécie  foge  invariavelmente. 
Mas  se  é  attacado,  o  medo  cessa,  e  defende-se  corajosamente  do  ho- 
mem ou  dos  mais  terríveis  carniceiros. 

A  epocha  do  cio  é  em  Agosto.  Quanto  tempo  dura  a  gestação?  Não 
se  sabe  ao  certo:  muitos  crêem  que  doze  mezes. 


CAPTIVEIRO 


Tem-se  tentado  muitas  vezes  domesticar  este  ruminante,  mas  balda- 
damente.  Os  indivíduos  velhos  são  absolutamente  indomáveis  e  os  novos 
morrem  ao  fim  de  um  curto  tempo  de  captiveiro. 


mamíferos  em  especial 


II,  BOIS  QUE  SE  TORNARAM  SELVAGENS 


Esta  divisão  pode  ainda  dar  logar  á  formação  de  pequenos  grupos 
ou  a  uma  subdivisão  como  a  que  faz  Brehm  nas  Maravilhas  da  Natm^eza: 
bois  da  Europa  que  se  tornaram  selvagens  ou  errantes  e  bois  da  Ame- 
rica do  Sul  tornados  também  errantes  ou  selvagens. 

O  estudo  de  todas  as  espécies  compreliendidas  n'esta  divisão  tor- 
nar-se-hia  extraordinariamente  extenso  e  a  utilidade  que  d'ahi  poderia 
resultar  para  o  leitor  não  o  compensaria,  decerto,  do  trabalho  que  im- 
plica a  leitura  de  trinta  ou  quarenta  paginas.  Limitar-nos-hemos  por  isso 
á  descripção  de  uma  única  espécie  ha  muito  tornada  celebre,  mercê  de 
um  certo  concurso  particular  de  circumstancias. 


O  TOURO  HESPANHOL 


O  touro  de  Hespanha  tão  estimado  n'este  paiz  para  os  combates, 
para  as  decantadas  corridas,  descende,  affirmam  os  naturahstas,  de  bois 
domésticos.  Vive  porém  uma  vida  perfeitamente  selvagem;  com  quanto 
dependente  do  homem  que  o  vigia  e  que  o  prende  quando  é  preciso  fa- 
zel-o  figurar  como  principal  actor  nos  combates  dos  circos,  o  touro  hes- 
panhol  não  penetra  nos  estábulos  nem  acceita,  senão  forçado,  o  jugo  da 
nossa  espécie,  lia  pegureiros  na  Hespanha,  é  certo,  encarregados  de  o 
velarem;  esses  mesmos  porém  conservam-se  sempre  a  respeitosa  distan- 
cia e  sabem  melhor  do  que  ninguém  quanto  a  presença  do  homem  o 
irrita.  Só  acompanhado  de  numerosos  e  valentes  cães  e  munido  de  uma 

VOL,    III  11 


162  HISTORIA   NATURAL 

funda  que  sabe  manejar  com  extraordinária  facilidade  e  admirável  des- 
treza, é  que  o  pegureiro  se  permitte  defrontar  com  o  louro. 

É  principalmente  na  Andaluzia  e  nas  províncias  bascas  que  este  ani- 
mal se  cria.  Não  é  grande,  mas  em  compensação  é  elegantíssimo,  ó 
vivo,  é  muito  vigoroso  c  apresenta  cornos  compridos,  ponleagúdos,  re- 
curvados para  fora.  As  grandes  manadas  são  constituídas  exclusivamente 
por  machos;  a  existência  n'ellas  de  fêmeas  seria  na  epocha  do  cio  uma 
causa  inevitável  de  destruição. 

O  touro  hespanhol  não  é  somente  vigoroso  e  valente;  é  também 
vingativo.  Se  alguém  lhe  bate,  guarda  por  largo  tempo  a  memoria  da 
oíTensa  e  mata,  desde  que  pode  fazel-o,  o  aggressor.  O  pegureiro  que 
vigia  ou  guarda  as  manadas  conhece  todos  os  individues  um  por  um  e 
sabe  dizer  com  precisão  qual  o  mais  apropriado  para  um  combate. 

No  estio  o  touro  hespanhol  procura  as  montanhas,  d'onde  se  retira 
apenas  quando  as  neves  a  isso  o  forçam;  encontra-se  muitas  vezes  a 
uma  altura  de  trez  mil  metros  e  mais  acima  do  nivel  do  mar.  Evita  cau- 
telosamente os  legares  povoados  e  se  acontece  de  penetrar  n'uma  aldêa 
arremette  com  os  que  passam,  quando  mesmo  o  não  provoquem. 

Quando  é  preciso  conduzir  um  d'estes  touros  para  qualquer  cidade 
onde  tem  um  logar  reservado  n'uma  corrida,  é  preciso  para  isso  recor- 
rer ao  auxiho  de  bois  domésticos.  O  pegureiro  caminha  á  frente  mon- 
tado n'um  cavallo,  logo  atraz  seguem  os  bois  domésticos  e  por  ultimo  o 
touro  selvagem. 

Faz-se  geralmente  remontar  a  origem  dos  combates  dos  touros  aos 
tempos  Romanos,  considerando-se  estes  espectáculos  brutaes  como  um 
resto  dos  combates  de  circo  com  que,  diz  Brehm,  «os  vencedores  do 
mundo  procuravam  distrair  os  povos  subjugados  dos  ferros  com  que  os 
sobrecarregavam».  *  Até  ao  tempo  da  conquista  dos  Mouros,  os  circos  de 
Hespanha  não  eram  exclusivamente  consagrados  aos  combates  dos  touros, 
como  hoje,  mas  a  toda  a  ordem  de  animaes  ferozes  e  de  gladiadores.  Os 
Mouros  conseguindo  exterminar  no  solo  hespanhol  a  máxima  parte  d'es- 
ses  combates  cruéis  e  desmoralisadores,  não  conseguiram  fazer  desappa- 
recer  esse  resto  de  primitiva  barbárie :  a  corrida  dos  touros.  Ha  ainda 
hoje  na  Hespanha  toda  uma  enorme  multidão  de  refractários  aos  pro- 
gressos da  civihsação  europeia,  todo  um  mundo  de  homens  atrazados  e 
irrequietos  que  exigem  o  espectáculo  do  sangue,  que  se  enthusiasmam, 
que  se  exaltam,  que  berram  e  gritam  cheios  de  paixão  nas  corridas^  esse 
velho  residuo  de  tempos  bárbaros,  esse  triste  legado  de  uma  epocha  em 


1     Brelmi,  Obr.  ciL,  vol.  2.",  pg.  670. 


mamíferos  em  especial  163 

que  o  povo  se  commovia  mais  com  a  brutalidade  das  luctas  que  com  a 
leitura  dos  poemas.  Os  touros  da  Hespanha  actual  são  apenas  os  repre- 
sentantes dos  leões  da  Libia  e  dos  crocodillos  do  Nilo  que  a  velha  Hes- 
panha comprava  a  pezo  d'oiro  para  divertir  nos  circos  ao  mesmo  tempo 
a  plebe  miserável  e  a  corte  luxuosa. 

Não  nos  deteremos  aqui  descrevendo,  como  Brehm  o  faz  extensa- 
mente, um  d'esses  bárbaros  espectáculos  que  se  chamam — corridas  de 
touros.  Brehm,  escrevendo  na  AUemanha,  tem  razões  para  se  alongar  na 
exposição  de  um  tal  espectáculo.  Para  nós,  que  o  temos  presenceado, 
embora  suavisado  um  pouco,  seria  inútil  uma  semelhante  exposição.  Co- 
nhecemos de  visu  o  espectáculo  em  miniatura;  ampliando  o  que  temos 
presenceado,  ficamos  sabendo  tudo.  Imagine  o  leitor  que  em  vez  de  tou- 
ros com  os  cornos  embolados,  como  os  que  se  exibem  nas  nossas  praças, 
tem  diante  de  si  animaes  capazes  de  attacarem  e  de  se  defenderem  com 
as  pontas  agudas  e  perfurantes,  taes  como  lh'as  concedeu  a  natureza; 
imagine  também  que  o  pequeno  enthusiasmo  da  nossa  plebe  se  incen- 
deia e  propaga  até  ás  altas  camadas  sociaes  attingindo  as  proporções 
de  um  verdadeiro  delirio,  e  terá  feito  idéa  do  que  seja  uma  tourada, 
uma  corrida  em  Hespanha.  As  scenas  barbaras  e  repugnantes  de  cavallos 
que  caem  na  arena  deixando  sair  os  intestinos  atravez  de  largas  feridas 
abdominaes,  os  casos  dolorosos  de  toureiros  que  morrem  na  praça,  o 
espectáculo  odiento  das  damas  que  applaudem  freneticamente  todas  es- 
tas misérias,  arrancando  dos  cabellos  as  suas  flores  para  as  atirar  aos 
cavalleiros  do  circo,  tudo  isto  se  imagina  bem  e  tudo  isto,  porque  é  um 
pouco  abjecto,  dispensa  naturalmente  os  apparatos  de  uma  descripção 
demorada  e  minuciosa. 

Os  touros  que  se  procuram  para  estes  combates  são  os  mais  selva- 
gens, aquelles  precisamente  que  os  pegureiros  experimentados  indicam 
como  os  mais  ferozes.  Ainda  n'este  ponto  ha,  como  o  leitor  percebe, 
uma  certa  diff^erença  entre  as  corridas  de  Hespanha  tão  cheias  de  com- 
moções  vivas  e  as  corridas  portuguezas,  cómica  reducção  das  primeiras. 


164  HISTORIA  NATURAL 


III,  BOIS  DOMÉSTICOS 


As  espécies  domesticas  do  vastissimo  grupo  dos  bois  são  duas  ape- 
nas: uma,  o  Loi  ordinário  ou  commum,  animal  cosmopolita,  verdadeiro 
auxiliar  de  todo  o  homem,  outra,  que  vive  apenas  na  Ásia  e  na  Africa  e 
que  alguns  naturalistas  consideram  uma  simples  variedade  da  primeira 
— o  boi  gebo  ou  o  boi  de  giba. 

Passamos  a  estudar  estas  espécies. 


O  BOI  GEBO 


Ao  numero  dos  naturalistas  que  não  vêem  no  boi  gebo  mais  que  uma 
simples  variedade  do  boi  commum,  pertence  Cuvier.  Este  erudito  inves- 
tigador acreditando  que  os  dois  animaes  não  differiam  nem  pela  forma, 
nem  pela  estructura  e  não  estando  disposto  a  vêr  na  giba  do  ruminante 
africano  um  caracter  especifico,  juntou-os  n'uma  só  espécie.  Investiga- 
ções posteriores,  demonstrando  que  o  boi  gebo  tem  menos  uma  vértebra 
sagrada  e  duas  vértebras  caudaes  que  o  boi  ordinário,  vieram  dar  a  al- 
guns naturalistas  o  direito  de  combater  a  opinião  de  Cuvier.  Brehm  é 
dos  que  consideram  o  boi  gebo  como  uma  espécie  independente;  diz 
este  naturalista  que,  não  estando  para  elle  provado  que  a  selecção  e  a 
domesticidade  sejam  capazes  de  modificar  a  estructura  de  um  osso,  se  con- 
sidera no  direito  de  encontrar  no  esqueleto  dos  animaes  os  seus  cara- 
cteres especiíicos,  ou  esses  animaes  sejam  selvagens  ou  sejam  domés- 
ticos. 

Mas  não  é  só  no  esqueleto  que  o  boi  giboso  differe  do  boi  ordiná- 
rio; diífere  d'elle  ainda  pela  presença  de  um  bossa  na  região  da  espá- 
dua e  pelos  cornos  que  são  achatados  e  muitíssimo  curtos. 


Imp    Ch  Chíwao"  n 


1    O  Touro 2   AVacca 3   O  Novilho 


Magalhães  8c  Moniz  ,  Editores  . 


MAMÍFEROS   EM  ESPECIAL  1  Gi 


A  pátria  do  boi  gcbo  é  Bengala;  d'alii  se  espalhou  na  Ásia  e  n'uma 
grande  parte  da  Africa. 


O  BOI  ORDINÁRIO 


O  Jjoi  ordinário  assim  como  o  boi  gebo  acbam-se  reduzidos  á  do- 
mesticidade  desde  os  tempos  ante-historicos.  Qual  é  a  origem  d'estes 
ruminantes?  Accumulam-se  as  hypotheses,  mas  não  ha  resposta  positiva 
ao  problema.  Buffon  inclinava-se  a  acreditar  que  o  bisonte  europeu  fosse 
o  ascendente  das  espécies  domesticas;  Cuvier  preferia  dar  estas  honras 
ao  boi  fóssil,  bos  primigenius,  cujo  craneo  tem  sido  encontrado  pelas 
excavações  na  Allemanha,  na  Inglaterra  e  na  França  c  que  parece  ter 
dcsapparecido  somente  no  século  xvr. 

Outros  naturaUstas,  Brelim  por  exemplo,  entendem  que  a  larga  dis- 
persão do  boi  ordinário  é  bastante  para  por  si  só  combater  a  hypothesc 
de  uma  origem  única  e  crêem  mais  razoável  admittir  uma  pluralidade 
de  espécies  ascendentes.  Mas  tudo  isto  são  conjecturas  e  a  verdade  é 
que  nós  desconhecemos  a  origem  do  boi  commum,  como  desconhecemos 
a  de  todas  as  espécies  domesticas. 

O  boi  ordinário  já  em  tempos  prehistoricos  vivia  sob  o  dominio  do 
homem,  como  o  provam  irrecusáveis  documentos.  Nos  tempos  históricos 
faliam  d'elle  os  mais  antigos  monumentos;  no  Egypto  era  objecto  de  um 
culto.  Em  todos  os  paizes  antigos  que  honravam  a  agricultura,  o  boi  era 
considerado  como  um  objecto  de  veneração,  havendo  mesmo  leis  civis  e 
religiosas  destinadas  a  protegel-o.  Matar  um  boi  foi  nas  civilisações  pri- 
mitivas considerado  um  crime.  No  Egypto  o  boi  era  um  animal  sagrado 
que  só  em  sacrifícios  podia  ser  immolado;  ao  que  morria  depois  de  ter 
experimentado  o  jugo  e  de  ter  trabalhado  na  agricultura,  faziam-sc  fu- 
neraes.  Na  Libya  não  se  matava  o  boi.  Para  os  celtas  bater  n  uma  vacca 


1GC)  iTiSTORTA  nati:ral 

era  um  grande  crime.  Na  Índia  existem  ainda  hoje  populações  em  que 
aquelle  que  mala  uma  vacca  soffre  a  pena  capital. 

Estas  ligeiras  informações  bastam  certamente  para  dar  idéa  do  modo 
por  que  o  boi  domestico  foi  considerado  na  antiguidade.  Hoje  ainda,  dis- 
sipadas as  superstições  dos  períodos  theologicos,  o  boi  6  justamente  con- 
siderado em  toda  a  parte  como  um  animal  dos  mais  dignos  da  nossa 
attenção. 


CARACTERES 


o  boi  ordinário  apresenta  dimensões  muito  variáveis  mesmo,  como 
observa  Brelim,  em  paizes  limitrophes.  Emquanto  n'um  certo  logar  uns 
offerecem  notável  estatura,  outros,  muito  perto,  pouco  excedem  o  tama- 
nho de  um  carneiro. 

Pode  dizer-se  de  um  modo  geral  que  o  corpo  é  volumoso,  refeito  e 
os  membros  curtos  e  robustos.  A  cor  do  pêllo  é  muito  variável;  a  pelle 
é  forte  e  elástica. 

A  região  frontal  é  chata  e  mais  comprida  do  que  larga.  Os  cornos, 
collocados  nas  extremidades  da  linha  sahente  que  separa  as  regiões 
frontal  e  occipital,  existem  nos  dois  sexos;  são  occos,  redondos,  hsos  e 
communicantes  na  base  com  os  seios  frx)ntaes.  Variam  muito  na  direcção 
e  no  comprimento. 

Na  parte  inferior  do  pescoço  do-  boi  commum,  como  nos  outros  bo- 
vidios,  a  pelle  é  pendente  formando  o  que  se  chama  papada.  O  esterno 
apresenta  anteriormente  uma  peça  óssea  de  articulação  móbil. 

A  vacca  tem  apparentemente  apenas  uma  teta,  munida  de  quatro 
mamilos  dispostos  de  modo  que  distando  lateralmente  entre  si  só  de  cin- 
coenta  e  cinco  millimetros,  anteriormente  distam  de  doze  centímetros  e 
posteriormente  de  oito.  A  dissecção  da  teta  revela  a  existência  de  duas 
glândulas  mamarias  distinctas,  embora  ligadas  por  tecido  cellular. 

Os  dentes  incisivos  são  oito;  os  mollares  são  seis  de  cada  lado  das 
maxillas  e  o  seu  vo-lume  augmenta  do  primeiro  até  ao  ultimo,  de  modo 
que  o  espaço  occupado  pelos  três  anteriores  é  apenas  metade  do  que 
occupam  os  três  posteriores. 


mamíferos  em  especial 


167 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHICA 


Não  existe  hoje  parte  do  mundo  onde  o  boi  ordinário  se  não  en- 
contre. 


costumes 


Os  movimentos  do  nosso  boi  domestico  são  de  ordinário  lentos,  va- 
garosos, pezados;  excitado  porém,  o  que  raríssimas  vezes  acontece,  o 
animal  corre  e  salta  com  rapidez.  Nada  muito  bem.  O  boi  ordinário  é  o 
animal  mais  dócil  que  pode  imaginar-se.  Goníia-se  a  guarda  d'elle  a  uma 
creança  de  oito  annos  que  o  encaminha,  que  o  dirige  para  onde  quer, 
que  lhe  bate  mesmo,  sem  que  o  sympathico  ruminante  se  lembre  de 
reagir,  sem  que  tente  insurgir-se  contra  a  dominação  pondo  em  exercí- 
cio as  enormes  forças  de  que  dispõe.  Esta  docilidade  a  que  estamos  ha- 
bituados, mas  que  nem  por  isso  deixa  de  ser  extraordinária  se  nos  lem- 
bramos das  proporções  do  animal  e  da  ferocidade  que  caracterisa  as  es- 
pécies bravas,  é  o  eífeito  da  castração,  operação  que  tira  ao  animal  os 
attributos  do  seu  sexo.  Os  que  não  soffrem  esta  operação,  aquelles  que 
se  reservam  para  executarem  as  funcções  reproductoras,  estão  muito 
longe  de  apresentar  a  docihdade  a  que  acabamos  de  nos  referir.  O  nome 
de  boi  serve  entre  nós  para  designar  particularmente  o  animal  castrado 
e  o  de  touro  para  designar  o  que  se  destina  para  a  reproducção.  O  boi 
e  o  touro  teem  condições  de  caracter  e  costumes  muito  diíFerentes:  ao 
passo  que  o  primeiro  é  dócil,  como  dissemos,  e  se  presta  a  toda  a  or- 
dem de  serviços  que  d'ene  exijamos,  o  segundo  é  hostil,  desconfiado, 
naturalmente  aggressivo  e  incapaz  por  isso  de  ser  submettido  a  um  tra- 
balho qualquer. 

Sob  o  ponto  de  vista  dos  sentidos  e  das  faculdades  intellectuaes,  as 
diíferenças  não  são  menos  accentuadas.  O  touro  é  mais  intelHgente  e  tem 
os  órgãos  dos  sentidos  mais  perfeitos  que  o  boi. 


168  HISTORIA  NATURAL 

Sobre  os  costumes  do  boi  níio  precisamos  de  insistir,  porque  o  lei- 
tor decerto  os  conhece:  ó  uma  verdadeira  machina  de  trabalho  que  o 
homem  dirige  como  quer.  Acerca  do  touro  porém,  carecemos  de  fallar 
sobre  a  reproducção.  O  touro  ao  íim  de  dous  annos  está  apto  para  a  co- 
pula. A  gestação  ó  de  duzentos  e  oitenta  e  cinco  dias;  o  filho  é  objecto 
de  carinhos  de  toda  a  ordem  por  parte  da  mãe,  desde  que  nasce  até 
que  esta  entra  novamente  em  cio.  A  cria  chama-se  bezerro  ou  vitello. 

A  idade  do  boi  ou  do  touro  pode  perfeitamente  avaliar-se  ou  pelo 
numero  de  anneis  que  apresentam  na  raiz  dos  cornos  ou  pelos  caracte- 
res dos  dentes.  A  contar  dos  trez  annos  o  bezerro  apresenta  annualmente 
um  novo  annel;  assim  acrescentando  trez  ao  numero  de  anneis  que  of- 
ferece  n'uma  epoclia  qualquer,  temos  a  idade  do  animal.  Os  dentes  in- 
cisivos com  que  o  animal  nasce  são  oito.  Nos  primeiros  annos  os  dois 
medianos  caem  e  são  substituídos,  aos  dous  annos  cae  o  par  seguinte, 
aos  trez  o  terceiro  e  ao  quarto  o  ultimo.  Os  dentes  primitivos  ou  do  leite 
são  muito  brancos  ao  passo  que  aquelles  que  os  substituem  são  amarel- 
lados  e  caem  ou  partem  entre  os  dezeseis  e  os  dezoito  annos.  A  vacca 
cessa  então  de  dar  leite  e  o  touro  torna-se  incapaz  de  executar  as  func- 
ções  de  reproducção.  Vê-se  pelo  que  deixamos  dito  que  dentro  de  cer- 
tos hmites,  a  idade  pode  conhecer-se  pela  inspecção  dos  dentes.  A  dura- 
ção média  do  boi  é  de  vinte  e  cinco  a  trinta  annos. 

A  idade  em  que  de  ordinário  se  submette  o  boi  domestico  ao  traba- 
lho é  a  dos  trez  annos. 

O  boi  contenta-se  com  hervas  mais  grosseiras  que  aqucUas  que  se 
fornecem  ao  cavallo  e  ao  carneiro;  é  todavia  necessário  que  essas  her- 
vas sejam  compridas,  porque  a  grossura  dos  lábios  e  a  ausência  de  in- 
cisivos na  maxilla  superior  impedem  o  boi  de  cortar  hervas  muito  cur- 
tas. Assim  para  bem  explorar  um  campo  dlierva  deve  fazer-se  pastar 
n'elle  o  boi,  depois  o  cavallo  e  por  ultimo  o  carneiro  que  ainda  ahi  en- 
contra alimento  abundante.  A  agua  pura  e  o  sal  são  indispensáveis  ao 
boi  domestico. 


usos  E   PRODUCTOS 


Desde  a  origem  das  sociedades  humanas  que  o  boi  presta  serviços 
relevantes  á  nossa  espécie  como  indispensável  auxihar  dos  trabalhos 
agrícolas.  É  possível  mesmo  que  este  ruminante  contribuísse  notavel- 
mente para  a  fundação  das  primeiras  colónias  agrícolas  e,  por  isso,  para 
a  civilisação  primitiva.  Otto  de  Kotzebue  fez  notar  que  para  as  ilhas 


mamíferos  em  especial  IGÍ) 

Sandwich  principiou  depois  que  alii  foi  introduzido  o  boi  uma  era  nova, 
um  verdadeiro  começo  de  civilisação.  Nos  povos  primitivos  por  ventura 
aconteceria  a  mesma  coisa.  O  que  o  boi  domestico  é  para  nós  sabem-o 
todos  e  pode  resumir-se  n'uma  phrase — um  instrumento  de  trabalho  e 
uma  machina  de  productos.  Ainda  pela  morte  nos  é  ulil,  porque  nos  for- 
nece a  pelle  e  a  carne  e  os  cornos. 


DOENÇAS 


Poucos  animaes  estarão  sujeitos  a  tantas  doenças  como  o  boi:  a 
gastro-interite,  a  corysa,  a  laryngite,  a  bronchite,  a  congestão  pulmonar, 
o  tetanos,  a  pústula  maligna,  o  rheumatismo,  a  pneumonia,  a  tuberculose 
pulmonar,  a  epilepsia,  a  encephahte,  etc,  são  outras  tantas  doenças  que 
aíTectam  esta  espécie. 


O  boi  ordinário  está  dividido  em  um  numero  indefinido  de  raças; 
todos  os  paizes  teem  as  suas.  Não  estudaremos  este  assumpto  de  um 
modo  completo,  porque,  se  o  tentássemos,  seriamos  forçados  a  escrever 
volumes.  Não  podemos  todavia  dispensar-nos  de  mencionar  aqui  as  raças 
portiiguezas  mais  bem  caracterisadas,  seguindo  n'este  ponto  um  traba- 
lho do  snr.  Pedro  Posser  baseado  sobre  o  Recenseamento  geral  dos  ga- 
dos em  1870  do  professor  de  Zootechnia  no  Instituto  de  Agricultura,  o 
snr.  Sylvestre  Bernardo  Lima. 


170  IIISTOííTA    VATURAL 


RAÇAS  BOVINAS  PORTUGUEZAS 


1 .  Raça  minlhota  ou  gallega 


Os  bois  d'esta  raça  teem,  pouco  mais  ou  menos,  a  altura  de  um  me- 
tro e  quarenta  centímetros  e  as  vaccas  a  de  um  metro  e  dezoito.  A  ca- 
beça é  comprida  e  os  cornos,  de  comprimento  regular,  são  na  origem 
projectados  quasi  horisontalmente  voltando-se  depois  para  cima  e  para 
fora  no  ultimo  terço.  A  cor  geral  é  mais  ou  menos  aloirada. 

Esta  raça,  como  o  nome  indica,  tem  por  área  geographica  toda  a 
província  do  Minho.  É  eminentemente  apropriada  aos  serviços  de  lavoura 
e  á  conducção  de  carros  destinados  ao  transporte  de  pedra,  de  ferro, 
emfim  de  enormes  cargas,  que  trez  ou  quatro  cavallos  a  custo  supporta- 
riam  por  espaço  de  horas  e  que  dois  bois  somente  supportam  dias  intei- 
ros pelas  calçadas  Íngremes  das  cidades  e  villas  do  Minho.  Com  vinte  e 
cinco  litros  de  leite  de  uma  vacca  d'esta  raça  fabrica-se  um  kilogramma 
de  manteiga,  que  vale,  termo  médio,  700  réis,  e  que  tem  um  largo  con- 
sumo dentro  e  fora  da  província. 


2.  Raça  barrozã 


A  altura  media  é  n'esta  raça  de  um  metro  e  dezoito  centímetros  a 
a  um  metro  e  vinte  e  trez.  A  cabeça  é  curta,  a  região  frontal  quadrada 
e  o  focinho  negro;  os  cornos,  com  mais  de  cincoenta  e  seis  centímetros 
de  extensão,  apresentam  a  forma  de  uma  lyra.  Estes  cornos  que  nascem, 
muito  próximos,  do  alto  da  nuca,  divergem  depois  de  modo  a  existir  en- 
tre as  extremidades  uma  distancia  de  noventa  e  cinco  centímetros.  A 
côr  geral  é  um  castanho  ora  claro,  ora  escuro. 

Esta  raça  habita  as  montanhas  de  Barrozo,  nos  concelhos  de  Monta- 
legre e  Boticas.  É  apta  para  o  trabalho;  as  vaccas  são  pouco  leiteiras. 
Ha  indivíduos  que  chegam  a  attingir  o  pezo  de  novecentos  e  oitenta  ki- 
logrammas. 


mamíferos  em  especial 


171 


3.   Raça  mirandeza 


É  uma  das  mais  corpulentas.  A  vacca  mede  um  metro  e  vinte  e  sete 
centímetros  de  altura  e  o  boi  um  metro  e  sessenta.  A  cabeça  é  comprida 
e  o  focinho  negro,  orlado  de  pêllos  brancos.  Os  cornos,  de  extensão  re- 
gular, são  primeiro  projectados  para  baixo,  voltando-se  depois  para 
diante  em  sentido  horisontal,  levantando-se  as  pontas  e  revirando-se 
para  fora  divergentemente.  A  cor  geral  é,  como  na  raça  anterior,  um 
castanho  claro  ou  escuro. 

Abunda  esta  raça  em  Miranda  do  Douro,  achando-se  porém  o  typo 
generahsado  por  outros  pontos  do  paiz  e  dando  as  sub-raças :  bragancez, 
mirandcz  beirão  e  mirandez  estremenho  ou  ratinho  serrano.  É  uma  raça 
vigorosíssima.  As  vaccas  são,  como  as  de  que  anteriormente  falíamos, 
pouco  leiteiras. 


4.  Raça  arouqueza 


A  altura  media  é  para  os  bois  de  um  metro  e  quarenta  e  nove  cen- 
tímetros e  para  as  vaccas  de  um  metro  e  dezoito  a  um  metro  e  vinte  e 
quatro.  A  cabeça  é  de  comprimento  médio,  os  olhos  são  suaves,  bondo- 
sos e  orlados  de  branco,  o  focinho  é  grosso  e  negro,  e  os  cornos,  de 
extensão  media,  são  grossos  na  base  e  hgeiramente  recurvos  para  fora 
e  para  cima.  A  cor  é  aloirada. 

Gomo  indica  o  nome,  o  solar  d'esta  raça  é  em  Arouca,  districto  de 
Aveiro.  Os  bois  d'esta  raça  são  vigorosos  e  alguns  ha  que  attingem  o 
pezo  de  mil  kilogrammas.  x\s  vaccas  dão  pouco  leite,  mas  em  condições 
taes  que  quinze  a  dezoito  Utros  bastam  para  produzir  um  kilogramma  de 
manteiga.  É  uma  das  nossas  raças  mais  formosas. 


5.  Raça  brava  do  Ribatejo 


A  altura  não  excede  n'esta  raça  um  metro  e  onze  centímetros  a  um 
metro  e  dezenove.  A  cabeça  é  comprida  e  estreita  na  região  frontal,  os 
olhos  são  pequenos,  os  cornos  curtos,  hgeiramente  recurvos  e  o  fo- 
cinho é  muito  negro.  A  cor  dominante  é  o  preto;  ha  muitos  indivíduos 
malhados.  Os  exemplares  castanhos  ou  amarellados  são  raros.  O  cara- 
cter dos  indivíduos  d'esta  raça,  que  vivem  no  campo,  expostos  á  intcm- 


172  HISTORIA  NATURAL 

pcrie,  é  bravio,  desconOado,  indómito.  É  esta  raça  que  fornece  os  touros 
para  as  nossas  corridas. 

A  producção  do  leite  ó  nas  vaccas  d'esta  raça  tão  limitada  que  ape- 
nas chega  para  as  crias. 

O  solar  doesta  raça  ó  o  valle  do  Tejo  nas  lezirias  contíguas  ao  rio 
desde  a  Oollegã  até  Alcochete,  desde  a  Charneca  até  Povoa  de  Santa  Iria. 


G.  Raça  turina 


A  altura  media  é  de  um  metro  e  vinte  e  sele  a  um  metro  e  trinta 
e  cinco  centímetros.  A  cabeça  é  comprida  e  larga  na  região  frontal  e  o 
focinho  curto  e  negro;  os  cornos  são  pouco  extensos,  delgados  e  negros 
na  ponta.  Os  indivíduos  d'esta  raça  são  ordinariamente  malhados  de 
branco  e  preto,  havendo-os  também  malhados  de  branco  e  ruivo  e,  em- 
bora mais  raramente,  quasi  todos  brancos  ou  quasi  todos  negros. 

Esta  nossa  raça  deriva  de  uma  raça  hollandeza  e  a  creação  d'ella 
limita-se  a  Lisboa  e  subúrbios. 

A  vacca  é  a  mais  leiteira  que  possuímos.  Dá  por  dia  dez  a  dezoito 
litros  de  leite,  conforme  a  alimentação. 


7.  Raça  alemtejana 


Um  metro  e  vinte  e  nove  centímetros  e  um  metro  e  quarenta  e 
cinco  são  alturas  medias  referentes  a  duas  variedades  geralmente  co- 
nhecidas pelos  nomes  de  raça  pequena  e  raça  grande.  A  cabeça  é  com- 
prida, estreita  na  fronte,  quasi  plana  e  direita  desde  o  alto  até  á  ponta 
do  focinho.  Os  cornos  são  compridos,  inclinados  na  origem  para  baixo  e 
para  traz  e  depois  para  cima  e  para  fora,  sendo  a  distancia  que  separa 
as  extremidades  maior  na  raça  grande  que  na  pequena. 

Esta  raça  vive  em  toda  a  provinda  do  Alemtejo,  predominando  a 
variedade  grande  no  districto  de  Évora  e  a  pequena  no  districto  de  Beja. 
Os  bois  são  robustos  e  proprissimos  para  os  trabalhos  pezados.  As  vac 
cas  dão  uma  quantidade  de  leite  que  apenas  chega  para  as  crias. 


mamíferos  em  especial 


173 


8.  Raça  algarvia 


A  media  cia  altura  não  excede  um  metro  e  quinze  centímetros  a  um 
metro  e  trinta.  A  cabeça  é  regular,  de  comprimento  proporcionado  e  o 
focinho  estreito  pardo  ou  negro.  Os  cornos  são  de  comprimento  mediano. 
A  cor  geral  é  um  castanho  claro  ou  aloirado. 

Esta  raça  habita  toda  a  província  do  Algarve.  As  vaccas  dão  somente 
o  leite  preciso  para  as  crias. 


No  que  acaba  de  ser  lido  não  se  encontram  certamente  descriptas 
todas  as  raças  bovinas  portuguezas,  mas  apenas,  como  dissemos  já,  as 
mais  bem  caracterisadas.  Quer  tomemos  a  palavra  raça  no  sentido  lati- 
tudinario  em  que  o  vulgo  a  emprega,  quer  na  accepção  mais  restricta 
que  a  sciencia  lhe  concede  de  ordinário,  existe  indubitavelmente  em  Por- 
tugal um  maior  numero  de  raças  bovinas  que  as  que  descrevemos.  As 
que  mencionamos  são  as  que  mais  nitidamente  se  differenceiam  pela  cor- 
poratura,  pelo  tamanho  e  direcção  dos  cornos  e  ainda  pela  quantidade 
de  leite  produzido. 


Resumimos  em  seguida  n'um  quadro  eschematico  as  espécies  aqui 
estudadas  da  vasta  ordem  dos  ruminantes,  seguindo  a  disposição  que 
lhes  dá  Figuier,  o  qual  no  seu  livro  Os  Mamíferos  catalogou  todos  os  ru- 
minantes em  cinco  tribus:  os  camelianos,  os  ruminantes  sem  comos,  os 
de  cornos  lisos  e  persistentes,  os  de  cornos  caducos  e  os  de  cornos  occos. 
Segue  o  quadro: 


CAMELIANOS 


HISTORIA  NATURAL 

DKOMEDABIO 
] CAMELO 


LHAMA 


TKIBU  SEM  CORNOS 
TRIBU   DE   CORNOS   LI- ( 


SOS  E  persistentes! 


MOSCHOS 


GIKAFAS 


f  alpaca 
vicunha 

Íalmiscareiro 
Moscho  menor 


a  Girafa  Africana 


I  os  EANGiFEKos [  ^^^  Amerlca 

\  da  lÍMropa 


TRIBU  DE  CORNOS  CA- 
DUCOS   


os    ALCES 


JOS    VEADOS 


!  menor 
original 

ordinário 
I  da  Barbaria 
I  de  Bengala 

Americanos 


os    ZOBLITOS 
os    GAMOS 

(a  camurça 
' as  gazellas 

Ias  antílopes. 


a  saiga 
a  cervicabra 
)  a  cervicabra  de  patas 

negras 
a  antilope  negra 
a  antilope  lencorix 


]o  nylgó 
TRIIÍU  DE  CORNOS   OC- 

C^OS \  A  COXDOMA 

lo  GAGU 


O  BODEQUIM 


AS  CAUKAS 


idos  Alpes 
\da  Ilespanha 

I  sylvestre 

Í  domestica 
de  Angora 
cachemira 
da  Thehaida 
'  anà 


MAMÍFEROS  EM  ESPECIAL 


175 


TRIBU  DE  CORNOS  OC- 
COS 


d^  Africa 

os  MUFLÕES Ida  America 

'  da  Europa 

o    AKGALI 

Í  merino 
de  cornos  ponteagvdoí 
de  grandes  nádegas 

o  BOI  ALMISCARADO 


os  BÚFALOS 


da  Cafraria 

arni 

ordinário 


BOIS  SELVAGENS O  gayoL 

liOIS    QUE    SE    TORNARAM    SELVA- 


BOIS  DOMÉSTICOS 


RAÇAS  DE  BOIS  PORTUGUEZES  , 


touro  de  Ilespanha 

\  de  giba 
\  ordinário 

Minhota 
Barrozã 
Mirandeza 
]Arouqiieza 
\Do  Ribatejo 
Turina 
Alemtejana 
Algarvia 


-•-o®o»- 


-oe|<<®>^|s)c- 


PACHYDERMES 


CONSIDERAÇÕES    GERAES 


Os  pachydermes  são  os  representantes  de  toda  uma  serie  d'animaes 
gigantescos,  outr'ora  abundantes  e  hoje  em  via  de  desapparecimento. 
Muitos  gigantes  que  foram  seus  contemporâneos,  deixaram  lia  muito  de 
existir;  elles  subsistiram  porém,  como  o  vivo  testemuniio  d'essas  creapões 
extraordinárias  d'epoclias  geológicas  anteriores  á  nossa.  Mortos  os  com- 
panheiros, esses  typos  descommunaes  de  grandeza  e  de  força,  cujos  es- 
queletos nós  fitamos  com  assombro  nos  museus  archeologicos,  elles  fica- 
ram e  existem,  não  sabemos  por  quanto  tempo  ainda,  assim  como  isola- 
dos em  meio  da  vasta  creação.  Do  desapparecimento  dos  companheiros, 
resultou  que  as  espécies  hoje  existentes  differem  muito  entre  si;  extin- 
guiram-se  os  termos  de  transição.  Extinguiram-se,  mas  não  se  perderam; 
e  a  sciencia  que  investiga  o  passado  com  tanto  ardor  como  o  presente, 
descobrindo  esses  typos  mortos  veio  mais  uma  vez  provar  o  velho  apho- 
rismo  de  Linnco:  a  natureza  não  procede  descontinuamente. 


12 


178  UISTOIUA    NATUHAL 


CARACTERES 


Os  pachydermes  são  os  maiores  mamiíeros  terrestres  que  aclual- 
mcnte  existem.  Distinguem-se  pela  estatura  pezada,  deselegante.  Os  mem- 
bros são  relativamente  curtos  e  volumosos;  os  pés  terminam  por  Irez  a 
cinco  dedos.  Cada  um  dos  dedos  é  cercado  de  um  casco  especial.  Em 
quasi  todos  a  região  facial  é  alongada;  n'alguns,  o  nariz  é  prolongado 
em  forma  de  tromba.  O  pescoço  é  curto  e  mal  se  distingue  do  tronco. 
A  cauda  raras  vezes  attinge  a  articulação  tibio-tarsica.  A  grandeza  das 
orelhas  varia  muito;  os  olhos  são  geralmente  pequenos.  O  corpo  é  co- 
berto por  uma  pelle  forte,  espessa,  que  dá  á  ordem  o  nome  por  que  é 
conhecida;  esta  pelle  é  nua  em  grande  extensão  ou  coberta  aqui  e  além 
de  sedas  rijas  e  pouco  numerosas.  Uma  familia  existe  apenas,  que  re- 
corda ainda  hoje  os  pachydermes  de  manto  abundante  anteriores  á  actual 
epocha  geológica. 

Os  ossos,  como  naturalmente  se  prevê,  são  fortes,  volumosos.  As 
vértebras  dorsaes  são  treze  a  vinte  e  uma,  as  lombares  trez  a  oito,  as 
sagradas  quatro  a  oito,  ordinariamente  soldadas,  e  as  caudaes  sete  a 
vinte  e  sete.  As  costellas  são  largas,  de  curvatura  pouco  pronunciada. 
A  clavícula  não  existe. 

É  muito  variável  a  dentição:  de  ordinário  existem  trez  espécies  de 
dentes;  muitas  vezes  porém,  os  incisivos  e  os  caninos  faltam,  ao  menos 
em  parte.  O  estômago  é  simples  e  o  tubo  intestinal  tem  dez  vezes  o  com- 
primento do  individuo. 


DISTRIBUIÇÃO    GEOGRAPHIGA 


A  apparição  dos  pachydermes  fez-se  na  epocha  terciária;  grande 
parte  d'elles  haviam-se  extinguido  antes  da  epocha  diluviana.  Outr^ora 
estes  animaes  povoaram  toda  a  superfície  da  terra;  hoje  encontram-se 
apenas  nos  paizes  quentes,  nas  florestas  virgens  das  regiões  Iropi- 
caes. 


mamíferos  em  especial 


COSTUMES 


É  diííicil  senão  impossível  fallar  em  geral  dos  costumes  dos  pacby- 
dermes,  porque  as  diíferenças  existentes  n'este  ponto  de  espécie  a  espé- 
cie são  certamente  maiores  que  as  semelhanças.  Paliaremos  pois  d'este 
ponto  na  especialidade. 


usos  E   PRODUCTOS 


A  observação  que  acabamos  de  fazer  a  propósito  dos  costumes,  re- 
petimol-a  aqui.  Na  especialidade  teremos  occasião  de  saber  que  utilidade 
nos  pode  provir  dos  animaes  d'esta  ordem. 


PACHYDERMES  EM  ESPECIAL 


OS  PROBOSCIDEOS  OU  ELEPHANTES 


Mao  grado  as  diíficuldades  que  hoje  se  encontram  na  classificação 
dos  pachydermes,  todos  os  naturalistas  estão  de  accordo  na  formação  da 
familia  dos  proboscideos  de  cujas  espécies  vamos  occupar-nos. 


OS  MASTODONTES 


Pertencem  á  fauna  extincta.  Eram  contemporâneos  do  mammouth  e 
assemelhavam-se  muito  aos  elephantes  negros  ainda  existentes.  Pelos  es- 
queletos que  se  tem  encontrado  na  Europa,  na  America  e  na  Ásia,  com- 
prehende-se  que  foi  extensíssima  a  área  de  dispersão  d'este  proboscideo. 
Pelas  differenças  reconhecidas  entre  os  esqueletos  encontrados  tem-se 
chegado  á  determinação  de  dez  a  doze  espécies. 


182  IIISTOIUy\    NATIMAL 


OS  ELEPHANTES  PROPRIAMENTE  DITOS 


As  espécies  vivas  são  caracterisadas  por  uma  tromba  muito  móbil  e 
pelas  defezas,  consistindo  em  dentes  incisivos  enormemente  extensos. 

Teem  o  corpo  curto  e  volumoso,  o  pescoço  pequeno,  a  cabeça  re- 
donda e  cheia  de  bossas  produzidas  por  elevações  dos  ossos  craneanos. 
As  pernas  são  altas,  fortes;  os  dedos  são  cinco,  soldados  em  cascos. 

O  órgão  mais  importante,  mais  característico  dos  elephantes  pro- 
priamente ditos  é  a  tromba  que  consiste  n'um  prolongamento  do  nariz, 
notável  pelo  comprimento,  pela  mobilidade,  pela  sensibilidade  e  princi- 
palmente pela  presença  de  um  appendice  digitiforme  que  o  termina.  A 
tromba  é  ao  mesmo  tempo  um  órgão  de  olfato,  de  tacto  e  de  prehensão. 
Segundo  Cuvier,  os  feixes  de  músculos  longitudinaes  e  circulares  que  a 
compõem  são  em  numero  de  quarenta  mil;  é  a  esta  estructura  que  o 
animal  deve  o  poder  de  alongar  ou  encurtar  e  dirigir  a  tromba  em  to- 
dos os  sentidos.  A  inserção  d'este  órgão  tão  importante  faz-se  nos  ossos 
largos  da  face.  Esta  tromba  que  superiormente  é  connexa,  inferiormente 
é  plana  e  vae  diminuindo  de  volume  desde  a  inserção  até  á  extremidade 
livre;  interiormente  apresenta  um  scepto,  como  o  nasal,  que  a  divide 
em  duas  cavidades,  em  toda  a  extensão. 

A  dentição  é  notável.  A  maxilla  superior  é  armada  de  dois  incisivos 
convertidos  em  defezas  e  apresenta,  como  a  maxilla  inferior,  cinco  ou 
seis  pares  de  mollares.  Os  dentes  n'estes  curiosos  animaes  renovara-se 
seis  vezes.  Esta  renovação  não  se  realisa  como  na  espécie  humana  pela 
queda  de  um  dente  e  lenta  apparição  posterior  do  que  o  substituo;  nos 
elephantes,  quando  um  dente  se  gasta  pelo  uso,  um  outro  principia  desde 
logo  a  formar-se  por  traz  d'elle,  funccionando  antes  mesmo  da  queda  do 
primeiro. 

As  defezas,  esses  enormes  dentes  incisivos,  crescem  constantemente; 
chegam  a  attingir  uma  extensão  considerável  e  um  pezo  de  setenta  e 
cinco  a  noventa  kilogrammas. 

N'este  género  estão  comprehendidas  espécies  vivas  e  espécies  extin- 
ctas.  Estudaremos  estas  em  primeiro  logar. 


mamíferos  em  especial 


\h:\ 


O  MAMMOUTH 


Encontram-se  as  sepulturas  (reste  clephante  no  paiz  dos  ostiacos, 
dos  tongousas  e  dos  samoíedos,  nas  margens  do  Obi,  do  lénisée,  de 
Léna,  rios  da  Sibéria  cujas  aguas  vão  perde r-se  no  mar  Glacial.  Quando 
o  desgelo  principia  n'estas  margens  arenosas,  descobrem-se,  na  phrase 
de  Brehm,  montanhas  inteiras  de  dentes  gigantescos  a  que  se  misturam 
ossos  enormes.  Ás  vezes  esses  dentes  encontram-se  ainda  solidamente 
implantados  nas  maxillas  e  até  cercados  de  carne  e  de  péllos. 

Aos  naturalistas  do  século  passado,  Palias  e  Adams,  se  deve  o  co- 
nhecimento exacto  dos  restos  fosseis  do  mammouth.  Sabe-se  pelos  estu- 
dos d'estes  investigadores  que  o  elephante  em  questão  era  de  uma  grande 
estatura,  que  a  pelle  era  coberta  de  péllos  abundantes,  dos  quaes  os  do 
pescoço  attingiam  setenta  centímetros,  o  que  prova  serem  destinados  a 
habitar  os  paizes  frios.  Os  incisivos  ou  defezas  eram  muito  mais  curvos 
que  os  dos  elephantes  actuaes,  chegando  alguns  a  representar  trez 
quartos  de  circulo.  O  comprimento  era  enorme;  Adams  viu-os  que  tinham, 
planificados,  sete  metros  de  extensão. 


O  DINOTIIERIO 


Calcula-se  que  tivesse  seis  metros  de  extensão.  As  defezas,  que  eram 
enormes,  tinham  origem  na  maxilla  inferior  e  recurvavam-se  para  o  solo. 
O  omoplata  era  análogo  ao  dos  animaes  que  escavam  a  terra. 


Contam-se  ainda  no  numero  das  espécies  extinctas— o  clcphas  an- 


184  HISTORIA   NATURAL 

tiquus  e  o  clephas  meridionalis^  dos  quacs  o  primeiro  se  sabe  que  cooexis- 
liu  com  o  homem. 


As  espécies  vivas  são,  segundo  geralmente  se  admitte,  duas:  o  ele- 
phanto  da  Ásia  c  o  eloplianle  da  AíVica. 


O  ELEPHANTE  DA  ÁSIA  E  O  ELEPHANTE  DA  AFRICA 


Gomprehendemos  n'um  só  artigo  a  descripção  das  duas  espécies, 
não  porque  os  seus  caracteres  morpliologicos  ou  os  seus  costumes  sejam 
precisamente  os  mesmos,  mas  porque  as  semeltianças  são  muitas  e  as 
diíTerenças  fáceis  de  notar. 


CONSIDERAÇÕES  HISTÓRICAS 


Os  antigos  conheceram  muito  bem  as  duas  espécies  de  que  vamos 
occupar-nos.  Os  ethiopes  faziam  desde  os  mais  remotos  tempos  um  largo 
commercio  do  marfim  extraido  dos  dentes  d'estes  pachydermes.  Heródoto 
mencionou-os  muitas  vezes  e  Gtésias,  medico  de  Artaxerxes  Mnémon, 
descreveu-os  d'après  nature.  Foi  este  auctor  que  espalhou  o  erro,  ainda 
hoje  recebido  pelos  ignorantes,  de  que  os  elephantes  tinham  pernas  sem 
articulações,  em  resultado  do  que  não  podiam  deitar-se  e  dormiam  de 
pé.  Dário  serviu-se  dos  elephantes  para  a  guerra.  Aristóteles  viu  alguns 
e  legou-nos  d'elles  uma  descripção  muito  exacta.  A  partir  d'esta  epocha 
apparecem  muitas  vezes  nos  livros  referencias  a  estes  animaes.  Figura- 
ram muito,  tendo  um  grande  papel  a  desempenhar,  nas  guerras  do 
mundo  antigo.  Os  romanos  serviram-se  d'elles  nos  combates  dos  circos 


o 


mamíferos  em  especial  i85 

e  em  exhibições  publicas  onde  mostraram  até  que  ponto  se  podia  levar 
a  educação  d'estes  animaes.  Estes  espectáculos  ainda  hoje  nos  são  pro- 
porcionados pelos  donos  de  collecções  d'animaes;  ainda  hoje  vemos  com 
pasmo  as  provas  de  intelhgencia  e,  o  que  mais  é,  da  agilidade  d'estes 
pachydcrmes  de  apparencia  tão  pezada,  tão  deselegante,  tão  pouco  pro- 
mettedora. 


caracteres 


Das  duas  espécies  a  africana  é  a  maior. 

O  elephante  d'Africa  tem  a  cabeça  chata,  a  região  frontal  inclinada, 
as  orelhas  grandes  e  immoveis,  as  defezas  compridas  e  as  laminas  de 
esmalte  dos  mollares  em  forma  rhomboidal. 

O  elephante  d'Asia  tem  a  cabeça  mais  alta,  a  fronte  vertical,  as  ore- 
lhas pequenas  e  moveis,  as  defezas  menores  que  as  da  espécie  anterior 
e  as  laminas  de  esmalte  dos  mollares,  transversaes. 

A  pelle  dos  elephantes  é  ora  clara,  ora  escura;  a  cor  mais  commum 
é  a  de  ardósia  ou  de  terra. 

Tem-se  exagerado  um  pouco  a  estatura  dos  elephantes,  que  é  ahás 
notável.  De  ordinário  o  elephante  da  Ásia  não  mede  mais  de  trez  metros 
de  altura,  ao  nivel  da  espádua  ou  do  pescoço;  o  elephante  d'Africa  é 
maior  e  mede,  ao  mesmo  nivel,  cinco  metros.  O  comprimento,  compre- 
hendida  a  cauda  e  excluída  a  tromba,  varia  entre  trez  e  cinco  metros; 
d'esta  extensão  um  metro  e  trinta  centímetros  pertencem  á  cauda.  A 
tromba  tem  um  metro  ou  um  metro  e  sessenta  centímetros  de  comprido. 
O  pezo  ordinário  dos  elephantes  adultos  oscilla  entre  quatro  m\\  e  qui- 
nhentos e  cinco  mil  kilogrammas.  Muitas  vezes  porém,  excedem  este 
pezo;  Darwin  viu  um  que  pezava  seis  mil  e  quinhentos  kilogrammas.  O 
pezo  da  pelle,  só  esse,  era  de  mil  kilogrammas.  As  defezas  do  elephante 
d'Africa  pezam  mais  de  mil  e  quinhentos  kilogrammas. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHICA 


O  elephante  d'Africa  encontra-se  em  todo  o  centro  d'este  continente, 
desde  o  Oceano  Indico  até  ao  Oceano  Atlântico,  desde  o  decimo  sexto 


IHI;  I11ST0I\1A   NATI  IIAL 

grão  de  Jaliludc  riorlc  alé  ao  vií,^cssirno  quinto  de  lalilude  sul.  Existiu 
também  no  Cabo;  hoje  porém,  desappareceu  d'ahi. 

O  elepliante  d'Asia  enconlra-se  nas  índias,  na  Gonchinchina,  em  Sião, 
em  Pegu,  no  Induslão  e  na  ilha  de  Ceylão. 

O  que  vive  em  Sumatra  é  por  alguns  naturahstas  considerado  uma 
espécie  distincta,  clephas  sumatrensis. 


COSTUMES 


No  que  respeita  aos  hábitos  de  vida  dos  elepbantes,  os  antigos, 
apesar  de  terem  tido  muitas  occasioes  de  os  observarem,  legaram-nos 
descripções  cheias  d'erros.  Muitas  fabulas  espalhadas  por  elles  vieram 
até  nós;  e  pode  dizer-se  que  só  ha  poucos  annos  é  que  a  historia  dos 
elepbantes  nos  é  conhecida  de  um  modo  completo  e  exacto.  Alguns  au- 
ctores  antigos  legaram-nos,  já  o  dissemos,  descripções  muito  minuciosas 
e  muito  perfeitas  d'estes  pachydermes  morphologicamente  considerados; 
quanto  aos  costumes  porém,  ou  não  faltaram  ou  disseram  inexactidões, 
algumas  das  quaes  de  um  verdadeiro  cómico. 

A  espécie  asiática  é  melhor  conhecida  que  a  africana. 

Os  elepbantes  encontram-se,  senão  de  um  modo  exclusivo,  pelo  me- 
nos de  preferencia  nas  grandes  florestas;  e  quanto  mais  ricas  estas  são 
em  agua  mais  elles  abi  abundam.  Em  Geylão  encontram-se  principalmente 
nas  regiões  montanhosas.  Vivem  bem  a  uma  altitude  de  dois  mil  e  seis- 
centos metros. 

Contrariamente  á  opinião  geralmente  recebida,  os  elepbantes  evitam 
quanto  possível  os  raios  do  sol,  procurando  os  legares  ensombrados,  es- 
curos. Os  hábitos  doestes  pachydermes  são  mais  nocturnos  do  que  diur- 
nos; com  quanto  procurem  muitas  vezes  o  alimento  durante  o  dia,  é 
certo  que  elles  preferem  sempre  para  este  fim  a  noite. 

Um  facto  realmente  singular  que,  no  dizer  de  Tennent,  surprehende 
muito  o  viajante  é  o  dos  movimentos  estranhos  que  os  elepbantes  exe- 
cutam: assim  uns  agitam  a  cabeça  circularmente,  outros  abaixam  e  le- 
vantam alternativamente  e  de  um  modo  perfeitamente  mechanico  um  dos 
membros  anteriores,  alguns  agitam  as  orelhas  de  um  modo  continuo, 
emfim  outros  balançam  pendularmente  um  pé  no  sentido  antero-poste- 
rior.  O  mesmo  observador  que  vimos  de  citar  aífirma  que  o  simples  as- 
pecto d'um  elepbante  basta  para  convencer-nos  da  falsidade  completa 
das  narrações  que  fazem  d'estes  pachydermes  animaes  ferozes,  mãos, 


mamíferos  em  especial 


18' 


vingativos.  Eiies  tcem,  pelo  contrario,  sentimentos  de  bondade  que  se 
Itics  traduzem  fielmente  no  olhar;  de  resto,  são  tímidos  até  ao  ponto  de 
fugirem,  mesmo  quando  são  muitos,  diante  de  um  só  homem. 

O  que  deixamos  dito,  applica-se  egualmente  ás  duas  espécies.  O 
clephante  d'Africa  encontra-se  ás  vezes,  como  o  da  Ásia,  a  altitudes  de 
dois  mil  e  seiscentos  ou  mesmo  de  trez  mil  metros  acima  do  nivel  do 
mar. 

Nas  florestas  virgens,  os  caminhos  seguidos  pelos  elephantes  são 
caracteristicos  e  distinguem-se  perfeitamente  dos  que  abrem  outros  ani- 
maes,  pela  forma  particular  dos  excrementos  ahi  depositados;  só  seguindo 
estes  caminhos  é  possível  penetrar  nas  florestas.  «Os  elephantes  repre- 
sentam ahi,  diz  Brehm  píttorescamente,  toda  a  administração  de  pontes 
e  calçadas.))  * 

A  falta  de  agilidade  dos  elephantes  é  apparente  apenas.  Embora  ge- 
ralmente apresentem  um  andar  vagaroso,  lento,  pezado,  ehes  podem, 
desde  que  Sentem  necessidade  d'isso,  correr  com  notável  velocidade. 
Além  d'isso  teem  a  faculdade  de  marchar  sem  ruído.  Quando  sobem  ter- 
renos de  grande  declive,  apresentam-se  como  verdadeiros  animaes  tre- 
padores. Dobram  então  prudentemente  as  articulações  carpianas,  abai- 
xando assim  a  parte  anterior  do  corpo  e  deslocando  para  diante  o  centro 
de  gravidade;  depois  como  que  deslisam  sobre  as  patas  assim  dobradas, 
estendendo  as  posteriores.  Para  descer,  ajoelham-se  no  alto  da  montanha 
de  modo  que  o  peito  lhes  toque  o  chão,  depois  estendem  as  patas  ante- 
riores, fixam-as  na  terra  e  por  um  esforço  chamam  adiante  as  poste- 
riores; como  que  rastejam  e  conseguem  assim  descer  perfeitamente  sem 
deslocar  o  centro  de  gravidade,  o  que  fatalmente  aconteceria  se  mar- 
chassem em  declive  como  por  um  plano. 

Não  obstante  todas  estas  precauções,  dão  algumas  vezes  os  ele- 
phantes formidáveis  quedas. 

Já  atraz  fizemos  notar  que  ha  muito  quem  creia  que  os  elephantes 
se  não  podem  deitar  e  são  por  isso  forçados  a  dormir  de  pé.  O  que  aca- 
bamos de  escrever  sobre  o  modo  por  que  estes  pachydermes  sobem  e 
descem  as  montanhas,  é  bastante  para  desmentir  essa  fabula  espalhada 
por  auctores  antigos,  menos  conscienciosos  nas  suas  observações.  Os 
elephantes  podem  dormir  e  dormem  muitas  vezes  de  pé,  como  outros 
pachydermes  o  fazem;  no  entanto  está  provado  que  eUes  se  deitam  to- 
das as  vezes  que  querem.  É  mesmo  para  notar  que,  a  despeito  do 
enorme  peso  que  teem,  os  elephantes  se  deitam  e  levantam  com  uma 
agilidade  relativamente  notável. 


Brehm,  Ohr.  cif.,  vol.  2.»,  pp:.  710. 


188  HISTORIA    NATURAL 

Os  clepbanles  nadam  muito  Lcm;  fica-lhcs  de  fora  da  agua  mais 
corpo  que  aos  outros  quadrúpedes,  vantagem  que  devem  sem  contesta- 
ção, á  amplitude  das  formas  e  á  capacidade  do  peito.  Levantando  a 
tromba,  podem  mergulhar  por  largo  tempo  sem  receio  de  asphixia.  As- 
sim, attravessam  rios  de  grande  largura  sem  liesitafão,  antes  com  ver- 
dadeira voluptuosidade. 

É  com  a  tromba  que  os  elephantes  executam  os  mais  extraordiná- 
rios e  variados  movimentos:  com  este  órgão  elles  podem  egualmente 
apanhar  uma  tira  de  papel  sem  a  amarrotarem  ou  partir  o  grosso  tronco 
de  uma  arvore.  Esta  variedade  assombrosa  de  movimentos  da  tromba, 
explica-se  pelo  numero  immenso  de  músculos  que  a  formam  e  pelo  ap- 
pendice  digitiforme  que  a  termina.  O  appendice  digitiforme  dá-nos  conta 
da  segurança  e  delicadeza  com  que  estes  pachydermes  apanham  e  ta- 
cteiam  os  mais  finos  objectos;  os  músculos  da  tromba  explicam-nos  a 
força  extraordinária  e  a  multiplicidade  pasmosa  dos  movimentos  d'este 
órgão. 

As  defezas,  que,  como  dissemos,  não  são  mais  do  que  dentes  inci- 
sivos extraordinariamente  desenvolvidos,  empregam-as  os  elephantes 
para  fins  muito  diversos.  Servem-lhes  para  levantarem  fardos,  para  deslo- 
carem enormes  pedras,  para  cavarem  a  terra  e  ainda  para  armas  ofíensivas 
e  defensivas.  Gomtudo  os  elephantes  poupam-as  tanto  quanto  possível, 
porque  sabem  bem  que  não  é  n'ellas  que  reside  a  sua  grande  força. 
Acontece  ás  vezes  que  nas  luctas  de  dois  elephantes  um  parte  uma  de- 
feza  ao  outro  com  pancadas  da  tromba. 

Os  sentidos  do  elephante,  exceptuando  a  vista,  são  muito  perfeitos. 
O  tacto,  o  gosto,  o  olfato  e  o  ouvido  são  apuradissimos.  Da  perfeição  dos 
três  primeiros  encontramos  as  provas  mesmo  nos  animaes  captivos;  o 
gosto  é  notável,  o  olfato  é  tão  apurado  como  o  dos  ruminantes  e,  se- 
gundo alguns  naturalistas,  o  appendice  digitiforme  que  termina  a  tromba 
pode  comparar-se  ao  dedo  exercidg  de  um  cego.  Da  perfeição  do  ouvido 
nos  elephantes  dão-nos  testemunho  quantos  os  teem  observado  em  es- 
tado natural  ou  selvagem. 

As  faculdades  intellectuaes  dos  elephantes  são  altamente  desenvol- 
vidas e  chegam  a  rivalisar  com  as  do  cão  e  do  cavallo.  E  esta  affirma- 
ção  produzida  por  todos  os  naturalistas  não  se  baseia  apenas  sobre  do- 
cumentos colhidos  no  estado  selvagem,  mas  ainda  e  sobretudo  nas  pro- 
vas que  dão  no  estado  domestico,  a  que  rapidamente  se  adaptam.  A  fa- 
cilidade extrema  com  que  os  elephantes  aprendem  quanto  se  lhes  ensina 
e  a  concihação  d'elles  com  a  sociedade  dos  homens  são  provas  de  um 
grande  intendimento  essencialmente  progressivo  e  perfectivel.  Como  ani- 
maes intelhgentes,  os  elephantes  são  dotados  também  de  uma  notável 
sensibihdade  moral. 


MAMU^^EROS  EM   ESPECIAL  189 

Figuier  cita  muitos  exemplos  comprovativos  do  que  aífirmamos. 
Transladaremos  d'esses,  alguns.  Um  certo  elephante  que  vivia  captivo 
em  Sumatra  tinha  por  costume,  ao  attravessar  as  ruas  da  ilha  em  direc- 
ção a  um  riacho  em  que  um  criado  Iodas  as  manhãs  o  lavava,  ir  es- 
tendendo a  tromba  até  á  altura  das  janellas  para  que  lhe  dessem  alguns 
fructos  ou  raizes.  Um  dia  levantando  a  extremidade  da  tromba  até  á  ja- 
nella  da  casa  de  um  alfaiate,  este,  em  vez  de  dar  ao  pachyderme  o  que 
elle  naturalmente  pedia,  picou-o  com  uma  agulha.  O  elephante  simulou 
supportar  com  paciência  o  bárbaro  insulto  e  continuou  o  costumado  ca- 
minho para  o  riacho.  Chegado  ahi  aspirou  uma  grande  quantidade  d'agua 
que  conservou  na  tromba  e  ao  passar  de  novo  pela  casa  do  alfaiate,  ati- 
rou-lhe  pela  janella  dentro  tão  grande  e  tão  impetuoso  jacto  que  o  ho- 
mem e  todos  os  officiaes  que  o  rodeavam  cahiram  das  cadeiras  e  ficaram 
cheios  de  terror.  Um  outro  elephante  procedeu  de  modo  semelhante  con- 
tra um  guarda  que  tentava  impedir  o  publico  de  dar-lhe  ahmentos.  Buf- 
fon  relata  um  facto  não  menos  curioso.  Um  certo  pintor,  desejando  de- 
senhar o  elephante  da  ménagerie  de  Versailles  com  a  tromba  levantada 
e  a  bocca  aberta,  encarregou  um  creado  de  manter  o  pachyderme  n'esta 
posição  singular.  Para  isso  o  moço  atirava  á  bocca  do  elephante  alguns 
fructos;  mas  as  mais  das  vezes  apenas  fazia  menção  de  lh'os  atirar.  O 
elephante  indignou-se  com  a  simulação  e,  percebendo  que  o  culpado  era 
o  pintor,  dirigiu-se  a  elle  e  projectou-lhe  sobre  o  papel  uma  certa  por- 
ção d'agua  que  lhe  inutilisou  o  desenho.  O  Dr.  Franklin  aífirma  que  os 
elephantes  são  de  uma  extraordinária  sollicitude  pelas  creanças  e  diz  ter 
elle  próprio  colhido  presencialmente  as  provas.  Este  auctor  viu  na  índia 
um  elephante  guardando  uma  creancinha  que  a  mãe  lhe  tinha  confiado. 
A  sollicitude  do  enorme  pachyderme  era  commovente;  ora  com  a  tromba 
partia  os  ramos  e  aífastava  todos  os  obstáculos  que  punham  impedimento 
á  marcha  da  creança,  ora  a  tomava  no  mesmo  órgão  com  immenso  cari- 
nho, se  eUa  chorava  ou  caia.  A  susceptibilidade  dos  elephantes  é  conhe- 
cida. O  menor  castigo,  o  mais  ligeiro  signal  de  mao  humor  que  provo- 
quem no  homem  é  motivo  para  se  entristecerem,  para  se  sentirem  pro- 
fundamente. Apreciam  muito  a  musica  e  marcam  o  compasso  fazendo  os- 
cillar  rythmicamente  a  tromba.  Mesmo  em  estado  selvagem  tís  elephan- 
tes dão  provas  de  um  intendimento  que  lhes  permitte  aproveitar  as  li- 
ções da  experiência.  É  assim  que,  no  dizer  de  Tennent,  clles  fogem  em 
bandos  das  florestas  para  os  largos  campos  sem  arvores,  nas  occasiOes 
de  trovoada;  ahi  se  conservam  até  que  cesse  a  fusilaria  dos  relâmpagos. 
Os  elephantes  selvagens  possuem,  esses  mesmos,  uma  certa  doçura  de 
caracter  que  os  leva  a  não  aggredirem  nunca  outras  espécies  mas  antes 
a  evitar  toda  a  espécie  de  lucta  mesmo  com  animaes  fracos  que  natural- 
mente venceriam.  Conscientes  da  enorme  força  de  que  são  dotados,  os 


190  IllSTUUIA    NATURAL 

elephantcs  não  a  empregam  senão  quando  isso  é  de  absoluta  necessi- 
dade. Devem  ser  tidas  na  conta  de  fabulas  todas  essas  descripções  que 
correm  escriptas  e  que  se  ouvem  da  bocca  dos  domadores  de  feras,  des- 
cripções  segundo  as  quaes  os  elephantes  luctariam  habitualmente  com  o 
leão,  com  o  tigre,  com  a  panthera.  Nem  os  carniceiros  se  attrevem  a 
attacar  os  elephantes,  nem  estes,  essencialmente  pacíficos  e  amigos  da 
ordem,  dão  a  nenhum  animal  motivo  para  cólera  ou  para  desejos  de  vin- 
gança, lia  mesmo  animaes,  aves  principalmente,  que  vivem  n'uma  intima 
harmonia  com  os  elephantes.  Algumas  d'estas  aves  vivem,  habitam  quasi, 
podemos  dizel-o,  sobre  o  dorso  d'esles  pachydermes  entretendo-se  a  ex- 
plorar-lhes  a  pelle,  a  catar-lhes  os  insectos  e  vermes  que  se  insinuam  nas 
suas  dobras  como  parasitas  epizoarios.  Um  facto  análogo  se  dá  com  os 
búfalos,  sobre  cujo  dorso  pousam  aves  que  os  collocam  ao  abrigo  da 
vermina. 

Os  elephantes  vivem  em  famílias  compostas  desde  dez  até  cem  ou 
duzentos  indivíduos;  os  agrupamentos  que  mais  vezes  se  encontram,  cons- 
tam de  trinta  até  cincoenta  associados.  O  mais  prudente  é  unanimemente 
reconhecido  como  chefe  do  bando.  Tanto  pode  ser  um  macho  como  uma 
fêmea;  as  funcções  que  lhe  competem  podem  todas  resumir-se  n'isto:  ve- 
lar pela  segurança  geral.  Este  cargo  é  penoso;  em  compensação  aquelle 
que  o  exerce  tem  o  incondicional  respeito  de  todos  os  subordinados.  O 
chefe  marcha  em  todas  as  excursões  na  frente  e  a  uma  grande  distancia 
dos  restantes  membros  da  famiha,  para  explorar  terreno  e  examinar  as 
condições  de  segurança.  Só  depois  que  o  chefe  ou  arbitro  dos  destinos 
do  bando  (porque  o  é  na  reahdade,  tão  submissamente  o  seguem  os 
companheiros)  se  tem  assegurado  da  não  existência  de  perigos,  é  que 
os  outros  se  precipitam,  confiados,  na  direcção  que  se  propunham.  A 
propósito  transcrevemos  de  Skinner  o  trecho  que  segue :  « Nas  occasiões 
de  grande  sécca  estancam-se  os  riachos,  os  pântanos  e  os  poços.  Os 
animaes  da  índia,  soíTrendo  então  muito  com  a  privação  da  agua,  reu- 
nem-se  em  grande  numero  em  torno  dos  poços  não  seccos  ainda.  Na  pro- 
ximidade de  um,  tive  eu  occasião  de  observar  a  prudência  surprehen- 
dente  dos  elephantes.  De  um  dos  lados  do  poço  havia  uma  espessa  flo- 
resta virgem;  do  outro  estendia-se  uma  vasta  planície  descoberta.  Era 
por  uma  noite  de  luar  explendido,  tão  claro  como  um  dos  nossos  dias  do 
Norte;  resolvi  observar  os  elephantes.  O  logar  era  propicio:  uma  arvore 
gigantesca,  cujos  ramos  se  estendiam  por  cima  do  poço,  devia  servir-me 
de  observatório;  trepei  a  ella  muito  cedo  e  esperei. 

«Os  elephantes  estavam  apenas  a  uma  distancia  de  quinhentos  pas- 
sos; no  entanto  só  ao  flm  de  duas  horas  logrei  ver  o  primeiro.  Um  grande 
elephante  saiu  da  floresta  a  uns  trezentos  passos,  pouco  mais  ou  menos, 
do  poço  e  parou  para  escutar.  Tinha  avançado  sem  produzir  o  mais  li- 


31AM1FEK0S   EM    ESPECIAL 


191 


geiro  ruido  e  conservou-se  muitos  minutos  immovel  como  um  rocliedo. 
Avançou  mais  um  pouco,  parou  de  novo,  e  isto  por  trez  vezes  successi- 
vas,  conservando-se  de  cada  uma  immovel  alguns  minutos  e  erguendo 
as  orelhas  para  ouvir  melhor.  Chegou  assim  até  junto  da  agua.  Eu  via- 
Ihe  a  imagem  reflectida  na  superfície;  o  pachyderme  não  bebeu,  conser- 
vou-se apenas  alguns  instantes  em  observação.  Depois,  voltando-se  silen- 
ciosa e  prudentemente,  tornou  a  entrar  para  a  floresta  pelo  ponto  por 
que  tinha  saído. 

«Não  tardou  porém  a  reapparecer  e  d'esta  vez  com  cinco  compa- 
nheiros. Todos  caminhavam  com  egual  prudência,  mas  menos  silenciosa- 
mente. O  guia  ou  chefe  cohocou  os  cinco  elephantes  de  sentinella,  vol- 
tou á  floresta  d'onde,  passado  pouco  tempo,  saiu  seguido  de  todo  o  bando, 
isto  é  de  oitenta  a  cem  companheiros.  Caminhavam  todos  silenciosamente; 
eu  via-os  bem  moverem-se,  mas  não  os  ouvia.  Pararam  a  meio  do  cami- 
nho. O  guia  adiantou-se  um  pouco,  conferenciou  com  as  sentinellas  e,  con- 
vencido emfim  de  que  havia  segurança,  deu  ordem  para  avançar.  Então 
o  bando,  dissipado  todo  o  receio  de  perigo,  precipitou-se  na  direcção  da 
agua.  Todo  o  medo,  toda  a  timidez  tinham  desappar^cido;  todos  confia- 
vam no  guia. 

«Entregaram-se  então  ao  prazer  de  apagar  a  sede  e  de  tomar  ba- 
nho. Nunca  vi  tantos  animaes  juntos  em  tão  pequeno  espaço.  Parecia-me 
que  elles  iam  esvaziar  o  poço.  Observei-os  com  interesse  até  que  todos 
se  dessem  por  satisfeitos.  Desejando  ver  então  que  eífeito  produziria  um 
ruido  insignificante,  quebrei  um  pequeno  ramo;  immediatamente  o  bando 
deitou  a  correr  para  a  floresta.» 

Quando  procuram  o  alimento,  os  elephantes  procedem  com  egual 
prudência.  As  florestas  que  habitam  são  tão  ricas  que  ehes  nunca  che- 
gam a  sentir  fome.  É  esta  abundância  de  alimento  que  lhes  tira  toda  a 
voracidade,  tão  característica  n'outros  animaes.  Os  elephantes  engolem 
ramos  da  grossura  de  um  braço.  «Nos  seus  excrementos,  diz  Brehm,  da 
forma  de  morcellas,  com  cincoenta  centímetros  de  comprido  e  quatorze 
a  dezeseis  de  espessura,  encontrei  pedaços  de  ramos  de  onze  a  qua- 
torze centímetros  de  extensão  e  de  quatro  a  seis  de  diâmetro.» 

Todas  as  regiões  apresentam  umas  certas  arvores  que  são  as  pre- 
feridas pelos  elephantes.  A  Africa  central,  por  exemplo,  tem  a  chamada 
arvore  dos  elephantes,  vegetal  espinhoso  que  preferem  a  todos;  os  espi- 
nhos são  molles  e  não  ferem  a  bocca  dos  pachydermes.  É  de  notar  que 
os  elephantes  preferem  ás  hervas  os  ramos  e  raizes  d^arvores.  Ás  vezes 
nas  longas  peregrinações  nocturnas  que  emprehendem,  os  elephantes  pe- 
netram nas  plantações  e  ahi  produzem  grandes  estragos.  Observe-se  po- 
rém que  um  simples  espantalho,  uma  paliçada,  por  fraca  que  ella  seja, 
bastam,  as  mais  das  vezes,  para  aífaslar  estes  pachydermes.  Na  Ásia 


192  IIISTOIIIA   NATURAL 

OS  indígenas  deixam  pelo  meio  dos  campos  largos  caminhos  que  ser- 
vem de  passagens  aos  elephanles  que  vão  beber,  cercando  as  partes 
cultivadas  de  um  muro  de  bambus.  Uma  só  pancada  da  tromba  de  um 
elephante  seria  bastante  para  atirar  a  terra  esse  muro;  a  verdade  po- 
rém ó  que  nunca  os  elephantes  se  propozeram  fazel-o.  Este  comporta- 
mento é  no  Sudan  attribuido,  não  a  timidez  ou  prudência,  mas  a  um  sen- 
timento innato  de  justiça,  que,  diz  Brelim,  os  indígenas  suppoem  existir 
em  alto  grão  nos  elephantes. 

A  mudança  de  estações  c  a  falta  d'agua  são  causas  frequentes  de 
verdadeiras  emigrações  d'estes  pachydermes;  tacs  emigrações  só  se  rea- 
lisam  de  noite. 

Os  elephantes  servem-se  da  tromba  para  beber.  Aspiram  a  agua, 
enchem  a  tromba  e  esvaziam-a  depois  dentro  da  cavidade  da  bocca. 

A  multiplicação  d'estes  enormes  pachydermes  é  muito  hmitada.  A 
epocha  do  cio  reconhece-se,  além  d'outros  caracteres,  pelo  facto  de  se- 
gregarem os  machos  um  hquido  fétido  por  duas  glândulas  coUocadas 
atraz  das  orelhas.  N'esta  quadra  os  elephantes  perdem  a  habitual  tran- 
quiUidade  e  tornam^se  perigosos  para  o  homem.  Segundo  observações  de 
Corse,  o  cio  tem  logar  em  mezes  diíTerentes,  em  Fevereiro,  em  Abril,  em 
Junho  e  mesmo  mais  tarde  ás  vezes,  em  Setembro  ou  Outubro.  A  gesta- 
ção dura  vinte  e  dois  mezes  e  meio.  A  fêmea  não  dá  á  luz  por  cada 
parto  mais  do  que  um  filho,  que  apparece  com  noventa  e  seis  centíme- 
tros de  altura. 

Os  elephantes  crescem  continuamente  até  aos  vinte  ou  vinte  e  qua- 
tro annos;  mas  aos  desasseis  estão  já  aptos  para  a  reproducção. 

Relativamente  à  dentição,  sabe-se  que  a  primeira  muda,  a  dos  cha- 
mados dentes  do  leite,  tem  logar  aos  dous  annos,  a  segunda  aos  seis  e  a 
terceira  aos  nove. 

A  duração  dos  elephantes  é  assombrosa;  no  estado  selvagem  attin- 
gem  a  edade  de  cento  e  cincoenta  a  duzentos  annos  e,  segundo  alguns 
observadores,  podem  chegar  á  de  cem  ou  cento  e  vinte  em  captiveiro. 


CAÇA 


Os  elephantes  pertencem  ao  numero  dos  animaes  em  via  de  com- 
pleto desapparecimento.  Reproduzem-se  com  diíficuldade,  como  vimos,  e 
são  objecto  de  uma  guerra  de  destruição  tenacíssima  que  a  nossa  espé- 
cie lhes  move  com  o  fim  de  adquirir  o  marfim  precioso  das  defezas.  E 


mamíferos  em  especial  193 

esta  guerra,  esta  perseguição  faz-se  por  tal  modo,  por  processos  de  tal 
natureza,  tão  cruéis  e  tão  exageradamente  destructivos  que  a  desappa- 
rição  d'estes  sympathicos  pachydermes  que,  prudentemente  poupados, 
poderiam  ser-nos  utilíssimos,  não  deve  estar  distante.  Quando  pensamos 
na  perseguição  cannibalesca  e  perfeitamente  cobarde  de  que  são  victi- 
mas  os  generosos  elephantes  de  que  podíamos  fazer  verdadeiros  animaes 
domésticos,  companheiros  úteis,  serviçaes  tanto  mais  preciosos  quanto 
mais  intelligentes,  e  nos  lembramos  de  que  uma  sórdida  e  estúpida  am- 
bição é  o  móbil  único  de  toda  a  guerra,  chegamos  a  sentir  pela  sorte 
dos  famosos  animaes  tanta  piedade  quanta  é  a  repulsão  que  sentimos 
pelos  que  os  matam.  Pois  o  valor  do  marfim  que  podem  fornecer  as  de- 
fezas  é  motivo  que  justifique  uma  guerra  traiçoeira  e  indisciplinada  em 
que  se  matam  novos  e  velhos,  machos  e  fêmeas  e  que,  mais  cedo  ou 
mais  tarde,  ha  de  forçosamente  accarretar  a  extincção  das  espécies?  E 
não  se  creia  que  é  o  sentimento  que  nos  revolta;  colloquemo-nos  n'um 
campo  exclusivamente  utiUtario  e  veremos  quanto,  mesmo  sob  este  novo 
ponto  de  vista,  é  injustificável  a  perseguição  aos  elephantes.  Não  é  certo 
que  poderíamos,  se  ouvíssemos  os  conselhos  da  prudência  e  do  simples 
bom  senso,  utiUsar  dos  elephantes  uma  enorme  multidão  de  serviços  que 
no  estado  captivo  elles  são  capazes  de  nos  fornecer  pela  inteUigencia  e 
pela  força  e  ainda,  depois  d'elles  mortos,  adquirirmos  o  marfim  ?  E  mesmo 
matando-os  para  obter  esse  producto  precioso,  não  valeria  mais  poupar 
as  fêmeas,  estabelecer  á  caça  um  tempo  defeso  e  proceder  do  modo  me- 
nos cruel  possível?  Podíamos  e  decerto  devíamos  fazel-o.  A  ignorância 
porém  é  ainda  na  espécie  humana  uma  triste  fataUdade  contra  a  qual 
reagiremos  baldadamente  por  muito  tempo. 

Os  processos  de  caça  aos  elephantes  variam  muito;  um  ha  porém 
absolutamente  revoltante :  o  que  consiste  em  fazer  convergir  para  ura 
certo  espaço  limitado  um  grande  numero  de  indivíduos  sobre  os  quaes 
se  despejam  balas  de  um  logar  elevado.  A  bondade  generosa  do  va- 
lente elephante  que  protege  uma  creancinha  deve  fazer-nos  corar  de 
pejo,  ao  lembrar  o  espectáculo  mesquinho  do  homem  fraco  que  á  trai- 
ção e  a  sangue  frio  aponta  sobre  o  que  não  provoca.  E  note-se  que  este 
processo  repugnante  de  caça  nem  sempre  é  empregado  com  o  fim  de 
obter  as  defezas  do  elephante;  fazem  uso  d'elle  alguns  caçadores  euro- 
peus simplesmente  para  poderem  escrever  na  carteira  de  viagem:  «No 
dia...  do  mez...  matei  20  elephantes.»  Pensam  cobrir-se  de  gloria! 
Gordon  Gumming  conta  que  tendo  atirado  sobre  um  elephante  e  partin- 
do-lhe  o  omoplata  por  forma  que  inutiKsou  todos  os  movimentos  do  ani- 
mal e  o  atirou  por  terra,  desejou  saber  quaes  os  pontos  mais  vulnerá- 
veis do  pachyderme  e  approximando-se  lhe  despejou  em  regiões  diffe- 
rentes  do  corpo  um  grande  numero  de  balas.   «Lagrimas  abundantes, 

VOL.   III  13 


194  HISTORIA   NATURAL 

diz  O  mesmo  viajante,  correram  em  fio  dos  olhos  do  pachyderme;  abriu 
lentamente  as  pálpebras  e  fecliou-as  de  novo.  Algumas  convulsões  agi- 
taram-lhe  o  corpo;  depois  deixou  pender  a  cabeça  para  o  lado  e — mor- 
reu.» Como  isto  é  revoltante  e  deplorável!  Que  se  faça  soífrer  um  ani- 
mal para  tirar  d'esse  soffrimento  uma  conclusão  scientifica,  que  se  lhe 
retalhem  em  vida  as  carnes  e  se  lhe  mergulhe  um  escalpello  nos  órgãos, 
como  se  faz  nos  gabinetes  de  physiologia,  para  esclarecer  uma  questão 
biológica,  para  encontrar  uma  base  de  discussão  pathologica,  para  ex- 
plicar phenomenos  ignorados  ou  para  descobrir  uma  verdade,  compre- 
hende-se  e  justifica-se:  é  um  mal  relativamente  pequeno  e  em  troca  de 
um  bem  enorme.  E,  de  resto,  o  vivissector,  postos  os  olhos  do  intendi- 
mento  no  fim  scientifico  das  suas  experiências,  esquece-se  das  dores  do 
animal,  como  o  operador  não  ouve  os  gritos  do  operado,  fixa,  como  tem, 
a  attenção,  no  resultado  humanitário  da  sua  obra.  Tudo  isto,  que  os 
ignorantes  chamam  crueldade,  se  justifica  e  merece  um  outro  nome. 
Mas  ferir  um  animal  sem  um  fim  alto,  sem  uma  utihdade  qualquer,  vêl-o 
muribundo,  perdido  e  incapaz  de  uma  lucta  e  ir  ainda  n'eslas  condições 
perturbar-lhe  e  tornar-lhe  mais  dolorosa  a  lenta  agonia  para  friamente 
examinar  as  lagrimas  abmidantes  que  elle  chora,  o  abrir  e  fechar  das 
pálpebras  que  precede  a  morte  e  a  convulsão  final  que  lhe  saccode  o 
corpo  ao  expirar,  é,  sem  duvida,  revoltante,  é  cruel. 

O  caçador  de  elephantes,  digno  d'este  nome,  procura  os  animaes 
nas  florestas,  vae-lhes  ao  encontro.  N'estas  condições,  o  caçador  expõe 
a  vida,  porque  nada  lhe  garante  que  todos  os  tiros  serão  empregados  e 
que  não  ha  de  ser  victima  da  cólera  do  animal  que  tenha  ferido  sem  con- 
seguir matal-o.  A  caça  é  assim  uma  perseguição  e  não  um  assassinato. 

Na  Africa,  segundo  Ghaillu,  os  negros  entrelaçam  ramos  de  cipó  á 
maneira  de  nós  corredios  onde  os  elephantes  são  apanhados;  feito  isto 
matam  a  golpes  de  lança  os  maiores  e  mais  fortes.  O  processo  empre- 
gado n'outras  regiões  consiste  em  abrir  fossos  onde  caem  os  elephantes 
em  perigrinações  nocturnas  e  onde  morrem  de  fome  ou  são  abatidos  a 
golpes  de  lança  pelos  negros. 

Existem  ainda  outros  processos  de  caça  que,  todavia,  não  merecem 
descripção  especial,  porque  fundamentalmente  se  approximam  dos  que 
acabamos  de  mencionar. 

Attrahentes  e  dignos  de  menção  especial  são  os  processos*  empre- 
gados para  reduzir  ao  captiveiro  os  elephantes  selvagens  de  que  o  ho- 
mem deseja  utihsar  todos  os  serviços  de  que  são  capazes,  era  troca  de 
boa  alimentação  e  de  bom  tratamento.  O  fim  a  que  visam  esses  proces- 
sos é,  como  se  vê,  essencialmente  humano  e  civiKsador.  Civilisador,  di- 
zemos, na  rigorosa  accepção  da  palavra,  porque  um  dos  meios  empre- 
gados para  se  reconhecer  o  estado  do  adiantamento  de  um  povo  é  o  de 


mamíferos  em  especial  195 

inquirir  até  que  ponto  chegou  o  dominio  d'esse  povo  sobre  os  elementos 
da  fauna  indigena. 

Os  Índios  passam  justamente  por  mestres  n'esta  arte;  entre  elles  os 
caçadores  de  elephantes  formam  uma  verdadeira  casta.  É  admirável  a 
prudência,  a  astúcia  e  o  arrojo  com  que  procedem.  Para  dar  idéa  da  ha- 
bilidade d'estes  homens,  basta  dizer  que  elles  roubam  um  elephante  ao 
bando  ou  família;  parece  incrível  que  isto  se  faça,  mas  a  verdade  é 
que  o  conseguem  os  caçadores  indianos.  A  sagacidade  d'elles  é  perfeita- 
mente admirável.  «Seguem  a  pista  de  um  elephante,  diz  Brehm,  como  um 
bom  cão  segue  a  de  um  veado.  Reconhecem  desde  logo  a  força  do  bando, 
quaes  as  dimensões  dos  maiores  e  quaes  as  dos  menores  elephantes  que 
o  compõem.  Signaes  que  escapam  ao  olho  de  um  europeu  são  para  elles 
como  um  livro  em  que  lêem  correntemente.))  *  O  mesmo  auctor  accres- 
centa:  ((N'elles  a  coragem  rivahsa  com  a  prudência;  fazem  do  elephante 
o  que  querem:  espantam-o  ou  encolerisam-o  á  vontade.))  ^ 

A  única  arma  de  que  estes  caçadores  se  munem  é  um  laço  solido 
de  pelle  de  veado  ou  de  peUe  de  búfalo  que  elles  prendem  ao  pé  do  ele- 
phante que  querem  apanhar.  É  admirável  e  constituo  para  nós  um  ver- 
dadeiro enygma  o  saber  como  é  que  estes  homens  conseguem  desUsar 
até  junto  de  um  animal  tão  limido  como  é  o  elephante.  Em  quanto  um 
dos  caçadores  prende  o  pé  do  elephante  com  o  laço,  outro  fixa  a  extre- 
midade livre  do  mesmo  laço  a  uma  arvore.  O  elephante,  uma  vez  ca- 
ptivo,  torna-se  furioso;  não  obstante  os  caçadores  conseguem  domal-o 
em  pouco  tempo.  Primeiro  empregam  os  meios  atterradores  e  depressi- 
vos, acendendo  fogueiras,  privando  o  pachyderme  de  comida  e  de  be- 
bida, não  lhe  consentindo  um  momento  de  repouso,  fatigando-o  por  to- 
dos os  processos  imagináveis.  Mais  tarde  mudam  de  plano  e  principiam  a 
usar  em  relação  ao  pachyderme  do  melhor  tratamento  possível.  Pelo  em- 
prego alternado  d'estes  processos,  conseguem  os  caçadores  reduzir  á 
domesticidade  os  elephantes  que  os  primeiros  dias  de  captiveiro  tinham 
enfurecido.  Os  europeus  não  podem  acompanhar  os  caçadores  indígenas 
nas  excursões  que  acabamos  de  mencionar;  a  falta  de  perícia  transtor- 
naria todos  os  planos  d'estes  últimos.  O  naturaUsta  é  pois  forçado,  em 
parte,  a  contentar-se  com  simples  narrações. 

Ha  um  outro  género  de  caçadas  em  que  se  apanham  ás  vezes  cen- 
tenas àe  elephantes;  n'estas  pode  o  europeu  tomar  uma  parte  activa. 
Tennent  descreve-as  assim :  «Para  estas  caçadas  destina-se  a  epocha  que 
succede  á  colheita  do  arroz,  porque  então  é  menor  o  destroço  nos  cam- 


1  Brehm,  Ohr.  ciL,  vol.  2.o,  pg.  717. 

2  Ibid. 


196  HISTORIA  NATURAL 

pos.  O  povo,  além  da  diversão  que  naturalmente  lhe  proporcionam  estas 
caçadas,  tem  todo  o  interesse  em  ver  diminuir  o  numero  de  elephantes, 
por  causa  dos  estragos  que  elles  ás  vezes  lhes  causam  nas  herdades  e 
nos  campos.  Pelo  seu  lado,  os  sacerdotes  incitam  os  caçadores  porque 
os  elephantes  lhes  comem  as  folhas  de  uma  arvore  tida  em  conta  de  sa- 
grada e,  além  d'isso,  porque  desejam  possuir  alguns  d'estes  pachyder- 
mes  para  o  serviço  dos  templos. 

«Os  ricos  ostentam  orgulhosamente  n'estas  caçadas  não  só  o  grande 
numero  de  creados  que  os  servem,  mas  ainda  as  qualidades  de  elephan- 
tes domésticos  que  emprestam  sempre  n'estas  occasiões.  A  gente  pobre 
emprega-se  durante  semanas  em  metter  estacas  na  terra,  em  abrir  ca- 
minhos por  entre  os  juncaes  ou  em  substituir  os  batedores. 

«O  logar  da  caçada  escolhe-se  sempre  nas  visinhanças  dos  caminhos 
mais  frequentados  pelos  elephantes,  perto  de  logares  em  que  haja  agua 
para  que  os  animaes  possam  beber  durante  o  cerco  e  tenham  onde  se 
banhar  em  quanto  se  procede  á  sua  domesticação.  Quando  n'um  logar 
se  trata  da  conslrucção  do  corral,  *  poupam-se  as  arvores  e  o  matto, 
sobretudo  do  lado  da  entrada,  pela  necessidade  de  encobrir  a  paliçada 
que  o  fecha.  As  estacas  que  se  empregam  teem,  pouco  mais  ou  menos, 
trez  metros  e  trinta  centímetros  de  espessura;  enterram-se  a  um  metro 
de  profundidade,  ficando  acima  do  solo  uma  altura  de  quatro  ou  cinco 
metros.  De  uma  estaca  a  outra  medeia  o  espaço  preciso  para  poder  pas- 
sar um  homem;  as  estacas  entrelaçam-se  depois  com  bambus  e  cipós  e, 
para  maior  soUdez,  escoram-se.  O  recinto  em  que  estive  tinha  pouco 
mais  ou  menos,  cento  e  cincoenta  metros  de  comprido  sobre  setenta  e 
cinco  de  largo.  N'uma  das  extremidades  ficava  a  entrada  que  em  poucos 
momentos  se  podia  fechar;  os  dois  lados  da  paliçada  que  fechava  o  cor- 
ral, continuavam-se  até  uma  certa  distancia  para  além  da  entrada,  com 
o  fim  de  obrigar  os  elephantes,  caso  elles  não  entrassem  logo  e  se  des- 
viassem, a  penetrarem  pela  abertura  que  lhes  dava  ingresso.  Em  um  re- 
cinto cheio  de  arvores  tinha-se  construído  um  estrado  para  o  governador  e 
seus  convidados,  d'onde  se  dominava  completamente  a  scena  e  d'onde 
era  possível  assistir  a  todas  as  peripécias  da  caçada,  desde  o  momento 
em  que  os  pachydermes  penetrassem  no  espaço  que  os  esperava. 

«É  quasi  inútil  dizer  que  a  paliçada,  por  mais  forte  que  ella  fosse 
não  resistiria  ao  elephante  que  de  encontro  a  ella  se  precipitasse  com 
toda  a  força  de  que  pode  dispor.  O  caso  tem-se  dado  algumas  vezes,  re- 
sultando d'ahi  escapar  todo  o  bando  que  se  conseguira  fazer  entrar  no 


1    Nome  com  que  se  designa  o  recinto  destinado  a  receber  os  elephantes  sel- 
vagens, que  ahi  se  fecham  e  conservam  presos  para  domesticar. 


mamíferos  em  especial  197 

recinto;  a  verdade  porém,  é  que  em  geral  se  conta  mais  com  a  timidez 
dos  elephantes  e  com  a  habilidade  dos  caçadores  do  que  com  a  solidez 
dos  tapumes. 

«Uma  vez  concluído  o  corra],  poem-se  em  campo  os  batedores,  que 
muitas  vezes  teem  de  estabelecer  um  cordão  de  muitas  léguas  de  com- 
prido, para  que  o  numero  de  elephantes  seja  grande.  Os  batedores  pre- 
cisam de  ser  prudentes  e  cautelosos,  precisam  de  marchar  cuidadosa- 
mente para  não  espantar  os  pachydermes  e  não  os  fazer  seguir  direcção 
differente  da  que  se  quer  que  elles  sigam. 

«Como  os  elephantes,  essencialmente  pacificos  e  desejosos  de  que 
os  deixem  tranquillamente  pastar,  fogem  mal  se  sentem  perseguidos,  é 
preciso  aproveitar  esta  circumstancia  para  pouco  e  pouco  os  conduzir  na 
direcção  do  corral.  Quando  se  apresentam  muito  inquietos,  muito  agita- 
dos, promptos  a  fugirem,  é  então  necessário  empregar  meios  mais  enér- 
gicos; em  torno  do  logar  que  occupam  accende-se  de  dez  em  dez  passos 
uma  fogueira  que  se  alimenta  constantemente,  de  dia  e  de  noite. 

«O  numero  de  batedores  empregados  n'estes  preparativos  de  caçada 
eleva-se  de  dois  mil  a  cinco  mil.  Abrem  caminhos  atravez  dos  juncaes 
para  que  a  linha  dos  batedores  seja  contínua;  os  chefes  vigiam  constan- 
temente que  cada  um  se  conserve  no  seu  posto,  porque  uma  negligen- 
cia, o  abandono  de  um  ponto  pode  dar  logar  a  que  escape  um  bando 
inteiro,  inutilisando-se  assim  todo  o  trabalho  de  muitas  semanas.  Quando 
se  suspeita  que  os  elephantes  tentam  forçar  um  ponto  qualquer  da  linha, 
concentra-se  ahi  um  numero  sufficiente  d'homens  para  os  repellir.  Quando 
as  duas  hnhas  de  batedores  chegam  ao  corral  e  se  fecham,  ficam  estes 
esperando  o  signal. 

«Todos  estes  preparativos  tinham  consumido  dois  mezes;  tinham 
acabado  precisamente  quando  chegamos,  indo  tomar  assento  no  estrado 
d'onde  podíamos  ver  a  entrada  do  corral.  Perto  de  nós,  á  sombra,  es- 
tava um  grupo  de  elephantes  domesticados,  que  os  sacerdotes  e  os  prín- 
cipes tinham  emprestado  para  auxiliarem  a  captura  dos  elephantes  bra- 
vos. Trez  bandos  diíTerentes,  prefazendo  o  numero  de  quarenta  ou  cin- 
coenta  indivíduos,  estavam  cercados  pelas  linhas  dos  batedores  e  occul- 
tos  entre  os  juncaes  visinhos  do  corral.  Era  interdicto  o  ruido;  só  se 
fallava  a  meia  voz  e  o  silencio  dos  batedores  era  tal  que  se  ouvia  o 
ruido  de  um  elephante  colhendo  folhas  de  uma  arvore. 

«De  repente  foi  dado  o  signal,  e  o  silencio  que  até  então  se  manti- 
vera na  floresta  foi  perturbado  pelos  gritos  das  sentinellas,  pelo  rufar 
dos  tambores  e  pelas  detonações  das  armas  de  fogo.  O  estrépito  come- 
çou no  ponto  mais  retirado  para  se  obrigarem  os  elephantes  a  tomar  a 
direcção  do  corral.  Os  batedores  que  se  tinham  conservado  silenciosos 
até  ao  momento  de  passarem  por  diante  d'elles  os  animaes,  juntavam 


198  HISTORIA  NATURAL 

então  os  seus  gritos  aos  dos  outros,  por  forma  que  o  estrépito  crescia 
sempre;  os  elepliantes  tentaram  por  mais  de  uma  vez  romper  o  cordão, 
sendo  porém  constantemente  repellidos  pelos  gritos,  pelos  rufos  dos  tam- 
bores e  pelas  detonações  das  armas  de  fogo. 

«Por  fim,  o  estalar  dos  ramos  e  do  matto  advertio-nos  de  que  se 
approximava  o  bando,  e  vimos  então  o  guia  sair  d'entre  os  juncaes  e 
vir  até  uns  vinte  metros  da  entrada  do  corral,  seguido  pelos  companhei- 
ros. Passados  instantes,  todos  deveriam  entrar  no  corral;  mas  de  súbito 
desviaram-se  para  a  direita  e  voltaram  para  os  juncaes.  O  chefe  dos  ba- 
tedores veio-nos  explicar  o  caso,  como  resultado  da  apparição  inespe- 
rada de  um  javali  que  passara  na  frente  do  guia  do  rebanho.  Acrescen- 
tou que  em  vista  da  excitação  extraordinária  dos  elephantes,  os  caçado- 
res pediam  que  se  adiasse  o  trabalho  para  a  noite,  porque  podiam  então 
ser-lhes  de  utihdade  o  escuro,  as  fogueiras  e  os  archotes. 

«Ao  pôr  do  sol  o  espectáculo  redobrou  de  interesse.  As  fogueiras 
que  durante  o  dia  apenas  se  denunciavam  pelo  fumo,  começaram  então 
a  brilhar,  espalhando  nas  trevas  um  clarão  avermelhado  que  se  proje- 
ctava phantasticamente  sobre  os  diíTerentes  grupos.  O  fumo  subia  em 
turbilhões  atravez  das  folhas  d'arvores.  Ouvia-se,  apenas  o  volitar  dos 
insectos.  Subitamente  ouvio-se  rufar  um  tambor  e  logo  depois  um  tiro: 
era  o  signal  para  recomeçar  a  caçada.  Os  batedores  principiaram  então 
a  caminhar,  soltando  gritos.  As  fogueiras,  alimentadas  com  folhas  seccas, 
levantavam  enormes  labaredas,  formando  um  vasto  cordão  luminoso;  só 
o  corral  estava  mergulhado  na  mais  densa  obscuridade. 

«Por  fim  os  elephantes  chegaram.  O  guia  appareceu  à  entrada,  pa- 
rou um  instante,  olhou  em  volta  e  por  fim,  com  a  cabeça  baixa,  preci- 
pitou-se  no  recinto,  seguido  de  todo  o  bando.  De  repente  e  como  por  en- 
canto, o  corral  illuminou-se,  porque  os  caçadores  convergiram  para  elie 
com  archotes  que  acendiam  nas  fogueiras  mais  próximas. 

«Os  elephantes  avançaram  até  ao  fundo  do  corral  e,  encontrando 
um  obstáculo,  recuaram  e  procuraram  ganhar  a  porta;  mas  acharam-a 
fechada  e  o  terror  attingio  n'elles  o  maior  grão.  Principiaram  então  a 
correr  em  torno  do  cerrado;  mas  o  fogo  cercava-os  de  todos  os  lados. 
Procuraram  derrubar  a  estacada;  mas  os  caçadores,  agitando  os  archo- 
tes, obrigaram-os  a  recuar.  Em  todos  os  pontos  de  que  se  approxima- 
vam,  ouviam  estrondo,  detonações  d'armas  de  fogo.  Junctavam-se  então 
em  um  grupo,  conservavam-se  immoveis  um  instante,  para  de  novo  ar- 
remetterem  como  se  tivessem  descoberto  uma  abertura.  Repellidos  po- 
rém ainda  uma  vez,  juntavam-se  para  repousar  no  meio  do  corral. 

«Este  espectáculo  interessava  não  só  os  espectadores,  mas  ainda  os 
elephantes  domésticos.  Á  chegada  do  bando  selvagem,  excitaram-se; 
dois  principalmente  que  estavam  presos  adiante,  entraram  n'uma  tal  agi- 


mamíferos  em  especial  199 

tacão  que  ura  d'elles,  partindo  as  correntes,  se  precipitou  ao  encontro 
dos  companheiros  selvagens,  derrubando  uma  arvore  bastante  grande 
que  lhe  impediu  a  passagem. 

«Por  espapo  de  mais  de  uma  hora  percorreram  os  elephantes  o  cor- 
ral  e,  sem  que  o  insuccesso  os  desanimasse,  procuraram  abalar  a  esta- 
caria. A  cada  tentativa  frustrada,  rugiam  de  raiva.  Esforçavam-se  cada 
vez  mais  por  derribar  a  porta;  dir-se-hia  estarem  convencidos  de  que 
no  logar  por  onde  tinham  entrado  devia  haver  uma  saída;  mas,  aturdi- 
dos pelo  estrépito,  recuavam  de  novo.  Assim  as  tentativas  foram-se  tor- 
nando cada  vez  mais  raras  e  por  fim  apenas  alguns  elephantes  corriam 
para  um  ou  outro  lado,  vindo  depois  junctar-se  aos  companheiros.  Em- 
fim,  todo  o  bando,  já  fatigado  e  exhausto,  se  reuniu  n'um  único  grupo, 
ficando  os  mais  novos  no  centro,  e  se  conservou  assim,  perfeitamente 
immovel,  no  meio  do  corral. 

c(Tomaram-se  as  precauções  precisas  para  a  noite.  O  nuraero  das 
sentinellas  foi  tripUcado  em  volta  do  recinto  em  que  ficavam  os  elephan- 
tes e  ahmentaram-se  successivamente  as  fogueiras  para  que  ardessem 
até  ao  romper  da  manhã. 

«Os  batedores  tinham  levantado  trez  bandos  de  elephantes,  que  toda- 
via se  conservavam  afíastados  uns  dos  outros.  Um,  apenas,  tinha  pene- 
trado no  corral;  e  como  a  porta  tivesse  sido  fechada,  os  outros  conser- 
vavam-se  fora,  occultos  nos  juncaes.  Para  impedir  que  fugissem,  orde- 
nou-se  aos  batedores  que  occupassem  o  seu  posto;  accenderam-se  de 
novo  as  fogueiras  e,  uma  vez  tomadas  todas  estas  medidas  de  precau- 
ção, retiramo-nos  para  a  nossa  pousada  que  ficava  a  uns  trinta  passos, 
pouco  mais  ou  menos,  do  corral.  O  primeiro  somno  foi-nos  muitas  vezes 
interrompido  pelo  estrépito  dos  homens  na  floresta,  pelos  gritos  com 
que  repelUam  as  tentativas  dos  elephantes  para  se  escaparem.  Ao  rom- 
per do  dia  tudo  estava  tranquillo  no  corral  e,  quando  o  sol  appareceu 
no  horisonte,  deixaram-se  extinguir  as  fogueiras.  As  sentinellas  rendidas 
dormiam  perto  da  paliçada;  em  torno  d'esta  havia  uma  enorme  multi- 
dão d'homens  e  de  creanças,  armados  de  chuços  e  de  grandes  varas,  e 
ao  centro  os  elephantes  immoveis,  sem  forças,  exhaustos  e  assombrados 
pelo  terror.  Eram  nove  somente  os  prisioneiros,  sendo  trez  muito  gran- 
des e  dois  pequenos,  de  alguns  mezes  apenas.  Dos  grandes,  um  era  um 
vagabundo,  que  não  fazia  parte  do  bando  e  que  não  fora  recebido  no 
grupo,  conservando-se  por  isso  a  uma  certa  distancia. 

«Tratou-se  então  de  fazer  penetrar  no  corral  os  elephantes  domés- 
ticos, para,  com  auxilio  d'enes,  se  prenderem  os  selvagens.  Prepara- 
ram-se  os  laços,  levantaram-se  cautelosamente  as  traves  que  fechavam 
a  entrada,  e  dois  elephantes  domésticos  penetraram  silenciosamente  no 
recinto,  cada  qual  montado  pelo  seu  cornaco  e  por  um  creado  e  levando 


200  HISTORIA   NATURAL 

ao  pescoço  uma  forte  colleira  de  que  pendiam  duas  correias  de  pelle  de 
antílope  terminadas  em  nó  corredio.  Ao  mesmo  tempo,  occulto  por  traz 
d'elles,  entrou  o  chefe  dos  laçadores  de  elephantes,  ancioso  por  apanhar 
o  primeiro  animal.  Era  um  homem  baixo,  vivo,  de  setenta  annos  apro- 
ximadamente e  que  linha  recebido  já  duas  distincções  honorificas  como 
recompensa  de  bons  serviços.  Era  acompanhado  por  um  filho,  tão  cele- 
bre como  elle  pela  coragem  e  pela  destreza. 

«N'esla  capada  entraram  dez  elephantes  domésticos:  dois  perten- 
ciam a  um  templo  das  visinhanças,  tendo  sido  um  d'estes  apanhado  no 
anno  anterior,  quatro  eram  propriedade  de  principes  que  moravam  nas 
proximidades  e  os 'restantes  pertenciam  ao  estado.  Dois  d'estes  últimos 
foram  os  que  primeiro  entraram  no  corral. 

«Um  d'estes  elephantes  domésticos  era  muito  velho  e  havia  mais 
de  um  século  que  estivera  ao  serviço  do  governo  hollandez  e  depois  ao 
dos  inglezes.  O  outro,  por  nome  Sinheddi,  tinha  pouco  mais  ou  menos 
cincoenta  annos  e  distinguia-se  pela  dociUdade  de  caracter  e  pela  intel- 
ligencia;  era  uma  perfeita  sereia  e  tinha  um  gosto  decidido  por  estas  ca- 
çadas. Adiantou-se  silenciosamente  no  corral,  cora  ar  de  indiíTerença,  em 
direcção  aos  elephantes  bravos,  colhendo  pelo  caminho  algumas  folhas 
ou  algum  pedaço  de  herva.  Assim  se  approximou  dos  elephantes  selva- 
gens que  lhe  vieram  ao  encontro;  o  guia  d'estes  últimos  acariciou-lhe  a 
cabeça  com  a  tromba  e  voltou  lentamente  na  direcção  dos  companheiros. 

iiSiriheddi  seguiu  vagarosamente  o  guia  do  bando  selvagem  e  foi 
postar-se  perto  d'elle;  o  velho  laçador  pôde  então,  passando  por  baixo 
do  ventre  de  Sinheddi,  e  sem  ser  visto  pelo  elephante  guia,  prender  a 
uma  perna  d'este  o  laço  que  já  trazia  preparado.  O  pachyderme  deu  logo 
pelo  perigo  e,  sacudindo  o  laço  voltou-se  contra  o  caçador,  que  teria 
pago  cara  a  temeridade  se  Siribeddi  o  não  protegesse  com  a  tromba,  re- 
pellindo  ao  mesmo  tempo  o  aggressor.  Ainda  assim,  ficou  ligeiramente 
ferido,  sendo  forçado  a  retirar-se  e  vindo  substituil-o  o  filho,  por  nome 
Raughanie. 

«Os  elephantes  selvagens  dispozeram-se  em  circulo,  com  a  cabeça 
voltada  para  o  centro;  dois  elephantes  domésticos  introduziram-se  cora- 
josamente no  meio  do  grupo,  indo  cada  um  d'elles  coUocar-se  ao  lado 
do  maior  dos  congéneres  selvagens,  que  era  um  macho.  Este  não  oppoz 
resistência  á  visinhança  dos  companheiros  domésticos  e  limitou-se  a  ma- 
nifestar o  seu  descontentamento  levantando  alternadamente  os  membros. 
Raughanie  avançou  então,  levando  entre  as  mãos  o  nó  corredio  de  que 
uma  das  extremidades  se  achava  presa  á  colleira  de  Siribeddi.  Aprovei- 
tando o  momento  em  que  o  elephante  levantava  um  dos  membros  pos- 
teriores, passou-lhe  o  nó,  apertou-o  e  fugiu.  Siribeddi,  aíTastando-se  do 
grupo  e  puxando  pela  corda,  conseguiu  aíTastar  o  animal  preso  dos  com- 


mamíferos  em  especial  201 

panheiros,  ao  mesmo  tempo  que  o  outro  elephante  domestico  se  mettia 
de  permeio  entre  o  prisioneiro  e  os  outros  pacliydermes  selvagens. 

«Era  preciso  prender  o  elephante  laçado  a  uma  arvore;  mas  isso 
não  podia  conseguir-se  sem  o  arrastar  a  uns  vinte  metros  de  distancia, 
o  que  se  não  fez  sem  uma  enérgica  resistência  da  parte  d'elle,  que  ru- 
gia e  calcava  aos  pés  pequenas  arvores  como  se  fossem  caniços.  Siri- 
heddij  puxando-o  para  si,  conseguiu  passar  a  corda  em  volta  de  uma 
arvore,  mantendo-a  sempre  tensa.  Para  enrolar  a  corda  foi-lhe  preciso 
usar  de  muita  prudência.  N'esta  operação  era  forçado  a  passar  entre  a 
arvore  e  o  elephante  que  devia  conservar-se  immovel;  isto  parecia  im- 
possível de  obter-se,  mas  o  segundo  elephante  domestico,  notando  a  dif- 
ficuldade,  veio  prestar-lhe  auxilio.  Obrigando  o  captivo  a  recuar,  conser- 
vou-o  distante  da  arvore,  em  quanto  Siribeddi  enrolava  a  corda,  sempre 
tensa,  ao  tronco,  vindo  o  homem  depois  acabar  de  prendel-o.  Um  se- 
gundo laço  foi  ainda  passado  em  torno  do  outro  membro  posterior  e  en- 
rolado também  á  mesma  arvore.  Por  fim  as  duas  pernas  foram  hgadas 
com  cordas  embebidas  de  gordura  para  evitar  ferimentos  e  uma  suppu- 
ração  ulterior. 

((Os  dois  elephantes  domésticos  deram  ainda  occasião  a  que  Rau- 
ghanie  passasse  o  laço  em  torno  dos  membros  posteriores  do  mesmo  pa- 
chyderme  e  que  o  prendesse  a  uma  outra  arvore.  Terminada  a  captura, 
caçadores  e  elephantes  domésticos  marcharam  em  procura  de  nova  vi- 
ctima.  Emquanto  os  dois  elephantes  domésticos  se  conservaram  junto 
d'ene,  o  pobre  captivo  conservou-se  immovel,  sem  fazer  tentativas  de 
resistência;  logo  porém  que  se  viu  só,  procurou  soltar-se  para  reunir-se 
aos  companheiros  do  bando.  Tratava  de,  com  a  tromba,  desfazer  os  nós 
e  ora  recuava  para  desprender  os  membros  anteriores,  ora  avançava 
para  desprender  os  de  traz;  os  ramos  da  arvore  tremiam,  como  se  os 
agitasse  a  tempestade.  Rugia,  e  umas  vezes  levantava  ao  ar  a  tromba, 
outras  deitava  ao  chão  a  cabeça  e  fazia  pressão  com  a  tromba  sobre  o 
solo  como  se  quizesse  enterral-a.  Ainda  por  algumas  horas  se  debateu, 
erguendo  a  cabeça  e  os  membros  anteriores;  por  fim,  perdida  de  todo 
a  esperança,  deixou-se  ficar  immovel,  verdadeiro  symbolo  da  prostração 
e  do  desespero. 

((Raughanie,  no  entretanto,  approximára-se  do  estrado  do  governa- 
dor para  receber  o  premio  concedido  ao  que  prendesse  o  primeiro  ele- 
phante; recebeu-o  uma  chuva  de  rupias,  depois  do  que  voltou  á  sua  pe- 
rigosa tarefa. 

((O  bando  formava  como  que  um  todo  compacto.  Apenas  de  quando 
em  quando,  algum  elephante,  mais  impaciente,  se  separava  dos  compa- 
nheiros alguns  passos  e  olhava  em  torno.  Os  outros  seguiam-o  primeiro 
devagar,  depois  mais  rapidamente  e  por  fim  todo  o  bando  tentava  mais 


202  HISTORIA   NATURAL 

uma  vez  transpor  a  paliçada.  Estas  tentativas  tinham  simultaneamente 
alguma  coisa  de  magesloso  e  de  ridículo;  apesar  de  toda  a  força  empre- 
gada, a  marcha  dos  elephanles  era  pczada  e  vacillantc,  e  o  impeto  da 
investida  transformava-se  subitamente,  de  cada  vez,  n'uma  retirada  tí- 
mida. Arremcssavam-se  com  o  dorso  arqueado,  a  cauda  levantada,  as 
orelhas  reLezadas,  a  tromba  no  ar,  rugindo  e  soprando:  um  passo  mais, 
e  teriam  atirado  por  terra  a  paliçada;  de  súbito  porém  estacavam  diante 
de  umas  varas  brancas  que  lhes  punham  em  frente  e,  espavoridos  pelos 
gritos  dos  caçadores,  corriam  em  torno  do  corral,  acabando  por  volta- 
rem ao  primitivo  pouso.  Os  sitiantes,  pela  maior  parte  rapazes  e  crean- 
ças,  denotavam  uma  grande  perseverança,  correndo  promptamente  ao 
ponto  atacado  pelos  elephantes,  apresentando-lhes  as  varas  ás  trombas 
e  obrigando-os  a  fugir  á  força  de  gritos. 

«O  segundo  elephante  que  se  separou  do  bando  era  uma  fêmea  e 
foi  apanhado  como  o  primeiro;  mas  quando  lhe  passavam  a  corda  por 
um  dos  membros  anteriores,  apanhou-a  com  a  tromba,  levou-a  á  bocca 
e  tel-a-hia  cortado  se  um  dos  elephantes  domésticos  lhe  não  tivesse 
posto  um  pé  em  cima,  baixando  assim  a  laçada.  Os  caçadores  escolhiam 
sempre,  para  prender,  o  elephante  que  commandára  os  companheiros  na 
ultima  tentativa  de  fuga;  a  captura  d'elle  não  levava,  termo  médio,  mais 
de  trez  quartos  d'hora. 

«Um  facto  verdadeiramente  singular  é  que  os  elephantes  bravos  não 
procuram  nunca  attacar  ou  atirar  a  terra  os  cornacas  que  vão  montados 
nos  elephantes  domésticos,  de  sorte  que  embora  estes  se  introduzam  no 
meio  do  bando  selvagem,  o  cavalleiro  nada  tem  a  sofFrer.  «Parece,  diz 
o  capitão  Skinner  n'uma  carta,  que  se  pode  penetrar  n'um  corral,  fican- 
do-se  completamente  ao  abrigo  de  qualquer  attaque  por  parte  dos  ele- 
phantes bravos,  desde  que  se  vae  montado  n'um  individuo  domestico. 
Eu  vi  uma  vez  no  meio  de  um  bando  de  elephantes  selvagens  o  velho 
príncipe  xMoUegadde  montado  n'um  elephante  domestico  tão  pequeno  que 
a  cabeça  do  príncipe  mal  se  nivelava  com  o  dorso  dos  pachydermes.  Eu 
tremia  pela  sorte  do  velho;  nada  porém  lhe  aconteceu.» 

«O  bando,  uma  vez  perdidos  os  chefes,  redobrou  de  excitação;  mas, 
qualquer  que  fosse  o  pezar  d'estes  animaes  ao  verem  os  companheiros 
presos,  a  verdade  é.  que  não  fizeram  uma  única  tentativa  para  os  solta- 
rem. Approximavam-se  d'elles,  entrelaçavam-se  mutuamente  as  trombas, 
lambiam-lhes  o  pescoço  e  os  membros,  davam  as  mais  inequívocas  pro- 
vas de  tristeza,  mas  não  tentaram  uma  só  vez  partir  os  laços  que  os 
prendiam. 

«Era  então  que  podiam  vêr-se  as  differenças  de  caracter  d'estes 
animaes.  Uns  desistiam,  deixavam-se  ficar  prostrados  depois  de  uma 
fraca  resistência;  outros  atiravam-se  ao  chão  com  tamanha  violência  que 


mamíferos  em  especial  203 

qualquer  outro  animal  teria  morrido.  Descarregavam  sobre  as  arvores 
próximas  toda  a  cólera;  arrancavam-as  pela  raiz,  partiam-lhes  os  ramos, 
destacavam-lhes  as  folhas  e  dispersavam  tudo  isto  em  volta  de  si.  Alguns 
conservavam-se  perfeitamente  silenciosos;  outros  rugiam  com  fúria,  ex- 
pelliam  gritos,  até  que  por  fim  exhaustos,  desesperados,  deixavam  ouvir 
apenas  uns  sons  surdos  e  pungitivos.  Muitos  conservavam-se  deitados, 
immoveis,  deixando  perceber  o  intimo  soíTrimento  apenas  pelas  lagrimas 
choradas.  Outros,  no  cumulo  da  raiva,  executavam  os  mais  singulares 
movinrentos  e  tomavam  altitudes  que  a  nós  nos  pareciam  tanto  mais  sur- 
prehendentes  quanto  é  certo  que  tínhamos  o  elephante  na  conta  de  um 
animal  pezado  e  pouco  ágil.  Vi  um  que  tinha  a  cabeça  em  terra,  os  mem- 
bros anteriores  alongados  para  diante  e  o  corpo  dobrado  de  modo  tal 
que  os  membros  posteriores  encontravam-se  também  adiante. 

«Agitavam  a  tromba  para  todos  os  lados,  mas  sem  nunca  se  ferirem, 
ora  batendo  com  ella  no  solo,  ora  alongando-a,  ora  recurvando-a  como 
uma  mola.  Quasi  todos  calcavam  o  chão  com  as  patas  de  diante  e  apa- 
nhavam com  a  tromba  porções  de  terra  com  que  se  cobriam. 

«O  comportamento  dos  elephantes  domésticos  era  verdadeiramente 
notável;  revelavam  a  mais  perfeita  intelligencia  em  todos  os  movimen- 
tos, sabiam  o  fim  que  se  deviam  propor  e  os  meios  a  pôr  em  pratica 
para  o  conseguir.  Esta  caçada  parecia  divertil-os  muito,  não  por  mal- 
dade, mas  porque  constituía  para  elles  um  passatempo.  Não  era  me- 
nos surprehendente  a  prudência  de  que  usavam.  Nunca  o  seu  zelo 
foi  em  demasia,  nunca  provocaram  desordem,  nunca  se  enredaram  nos 
laços,  nunca,  emfim,  nas  luctas  que  foram  obrigados  a  sustentar  feri- 
ram uma  só  vez  os  elephantes  captivos.  Mais  de  uma  vez,  quando  al- 
gum d'estes  estendia  a  tromba  para  agarrar  o  laço  no  momento  de  lh'o 
passarem  aos  membros,  Siribeddi  desviava-o.  Um  dos  elephantes  que  já 
estava  preso  por  uma  perna,  não  consentia  que  lhe  prendessem  a  outra, 
porque  no  momento  em  que  lhe  iam  a  passar  o  laço  pousava  o  pé  em 
terra.  Então  Siribeddi,  aproveitando  uma  das  occasiões  em  que  o  pachy- 
derme  levantou  a  perna,  coUocou-lhe  o  pé  por  baixo  e  assim  deu  tempo 
a  que  o  caçador  preparasse  o  nó  e  prendesse  o  insubordinado.  Dir-se-hia 
que  os  elephantes  domésticos  se  divertiam  com  o  terror  dos  companhei- 
ros selvagens,  mettendo  a  ridículo  a  resistência  d'estes.  Se  os  elephantes 
bravos  não  queriam  marchar  para  diante,  os  domésticos  empurravam-os, 
se  queriam  fugir,  retinham-os  e  se  algum  se  deitava  ao  chão,  immedia- 
tamente  um  dos  elephantes  domésticos  ajoelhava  sobre  ehe  e  o  subju- 
gava até  que  houvesse  tempo  de  prendel-o. 

«De  todos  os  elephantes  domésticos,  um  só,  o  mais  temido  pelo 
bando  selvagem,  possuía  inteiras  as  defezas.  Todavia  nunca  d'ellas  se 
serviu  como  armas  oífensivas  e  apenas  as  empregava  ou  para  separar 


204  HISTORIA   NATURAL 

dois  elephantes  por  cnlre  os  quaes  não  podia  introduzir  a  cabcfa  ou  para 
mais  facilmente  levantar  algum  que  se  tivesse  deitado.  Ás  vezes,  se  al- 
gum companheiro  não  conseguia  dominar  qualquer  dos  elephantes  selva- 
gens, approximava-se  elle  e  isto  bastava  para  aterrar  o  insubordinado  e 
vencer  toda  a  resistência. 

c(N'cstas  caçadas  a  coragem  e  a  pericia  dos  homens  occupa  um  lo- 
gar  secundário;  o  primeiro,  o  mais  proeminente  pertence  sem  contesta- 
ção aos  elephantes  domésticos  pelas  altas  qualidades  que  os  caracteri- 
sam.  É  verdade  que  os  caçadores  precisam  de  ter  uma  vista  perspicaz 
para  aproveitar  o  mais  ligeiro  movimento  do  animal  e  passar-lhe  o  laço, 
manobra  que  requisita  uma  enorme  destreza;  não  é  menos  verdade  po- 
rém que  o  mais  hábil  e  o  mais  ousado  dos  caçadores  não  conseguiria, 
sem  o  auxilio  dos  elephantes  domésticos,  levar  a  cabo  a  empreza. 

«Estavam  presos  já  todos  os  elephantes  bravos,  quando  ao  longe  se 
ouviu  o  som  de  uma  flauta,  que  sobre  muitos  dos  captivos  produziu  uma 
singular  sensação.  Fitavam  as  orelhas  na  direcção  do  instrumento  e  os 
accordes  musicaes  calmavam-lhes  a  agitação.  Os  mais  novos  apenas  con- 
tinuavam a  mugir,  lastimando  a  liberdade  perdida,  erguiam  a  tromba, 
apanhavam  tudo  o  que  encontravam  ao  seu  alcance  e  levantavam  em 
torno  de  si  nuvens  de  pó. 

«Ao  principio  os  mais  velhos  recusaram  o  alimento;  alguns  porém 
não  souberam  resistir  á  tentação  que  lhes  apparecia  sob  a  forma  appe- 
titosa  de  uma  arvore  bem  copada  e  começaram  desde  logo  a  partir  os 
ramos  e  a  mastigal-os  tranquillamente. 

«Se,  por  um  lado,  a  prudência,  o  socego  e  a  intelligencia  dos  ele- 
phantes domésticos  nos  surprehenderam,  por  um  outro,  não  nos  admi- 
rou menos  o  comportamento  digno  dos  prisioneiros.  Tivemos  occasião  de 
presenciar  o  contrario  do  que  nos  costumam  afflrmar  os  caçadores, 
quando  nos  pintam  estes  animaes  como  seres  traiçoeiros,  indomáveis  e 
vingativos.  De  certo  que,  irritados  e  atormentados  pelos  inimigos,  elles 
fazem  uso  da  força  e  da  inteUigencia  para  escaparem  ou  para  se  defen- 
derem; mas  no  corral  manifestaram  apenas  innocencia  e  timidez.  Depois 
de  uma  lucta  em  que  não  manifestaram  a  menor  disposição  para  actos 
de  violência  e  de  vingança,  abandonaram-se  passivamente  e  sem  espe- 
rança á  sua  sorte.  A  sua  attitude  fazia  piedade,  a  sua  dor  commovia  e 
os  surdos  gemidos  que  soltavam  iam  direitos  ao  coração.  Ninguém  teria 
consentido  que  os  atormentassem  inutilmente  ou  que  os  maltratassem. 

«Os  outros  bandos  foram,  como  o  primeiro,  impellidos  para  o  cor- 
ral; e  a  entrada  d'elles  inquietou  muito  os  captivos.  O  segundo  bando 
entrou  de  dia  e  mais  rapidamente  que  o  primeiro;  era  conduzido  ou 
guiado  por  uma  fêmea  de  trez  metros  de  altura.  N'uma  tentativa  que 
esta  fez  para  fugir,  só  foi  possivel  detel-a,  atirando-lhe  á  cabeça  um  ar- 


mamíferos  em  especial  205 

chote  acceso.  Os  que  vinham  chegando  não  prestavam  a  mínima  atten- 
ção  aos  prisioneiros  por  cima  de  cujo  corpo  passavam. 

«A  fêmea  que  conduzia  o  bando  foi  a  primeira  que  se  prendeu  a 
laço.  Quando  lhe  amarraram  uma  das  pernas,  reconheceu-se  que  ella  pos- 
suía uma  força  superior  á  de  Siriheddi.  Este,  para  poder  aguentar  com 
a  corda  que  a  prendia,  viu-se  forçado  a  deitar-se-lhe  em  cima  com  todo 
o  corpo.  No  entretanto  o  elephante  domestico  que  tinha  defezas,  obser- 
vando isto,  foi  collocar-se  diante  do  animal  captivo,  forçando-o  a  recuar 
passo  a  passo,  até  que  fosse  possível  prendel-o  a  uma  arvore. 

((Por  ultimo,  tratou-se  de  deshgar  os  prisioneiros  e  de  conduzil-os 
ao  rio.  Tendo-se-lhes  lançado  ao  pescoço  colleiras  feitas  de  fio  de  coco, 
cada  um  d'elles  foi  collocado  entre  dois  elephantes  domésticos,  também 
munidos  de  fortes  colleiras,  aos  quaes  se  ligavam  os  prisioneiros.  Depois 
tiraram-se  a  estes  as  cordas  dos  pés  e  conduziram-se  para  o  rio  onde 
se  lhes  deu  banho;  trazidos  depois  á  floresta,  foram  presos  ás  arvores, 
ficando  cada  um  entregue  a  um  guarda  encarregado  de  lhe  dar  de  comer. 

<(0  elephante  não  é  diíficil  de  domar.  Ao  fim  de  três  dias  começa  a 
comer  com  appetite,  e  dá-se-lhe  então  para  companheiro  um  elephante 
domestico.  Dois  homens  acariciam-lhe  o  dorso  e  fallam-lhe  com  bondade. 
A  principio  enfurece-se  e  dá  com  a  tromba  para  todos  os  lados;  mas  os 
homens  aparam-lhe  a  pancada  na  ponta  de  chuços  até  que  a  tromba  seja 
ferida  de  modo  que  o  animal  renuncie  a  empregal-a  como  arma  offensiva 
e  aprenda  a  reconhecer  a  superioridade  do  homem.  Os  elephantes  do- 
mésticos auxiliam-nos  grandemente  na  tarefa  de  educar  o  recempreso. 
Ao  fim  de  trez  semanas  basta  mostrar-lhe  o  chuço  com  que  tem  sido  cas- 
tigado para  o  conduzir  ao  banho.  As  dimensões  do  animal  parece  que 
não  influem  sobre  o  tempo  preciso  para  o  educar;  os  machos  resistem 
mais  aos  processos  educativos  do  que  as  fêmeas.  Os  que  se  insubordi- 
nam mais  ao  principio  são  precisamente  os  que  melhor  e  com  mais  faci- 
lidade se  domam  e  que  de  ordinário  se  conservam  mais  submissos  e 
obedientes. 

<(Ao  fim  de  dois  mezes,  termo  médio,  a  presença  dos  elephantes 
domésticos  torna-se  inútil  e  o  cornaca  pode  sem  receio  montar  o  ani- 
mal; ao  fim  de  quatro  mezes  pode-se  submetter  o  animal  ao  trabalho,  o 
que  é  preciso  nunca  fazer  antes,  porque  mais  de  uma  vez  se  tem  visto 
elephantes,  aliás  fortes,  caírem  mortos  quando  pela  primeira  vez  se  car- 
regam. ((Parte-se-lhes  o  coração»,  dizem  os  indígenas;  nós  ignoramos  a 
causa  d'este  facto  singular.»  * 


Vid.  Brehm,  Obr.  oit.,  vol.  2.o,  pg.  717  e  segaintes. 


206  mSTORIA  NATURAL 


CAPTIVEIRO 


O  elephante  captivo  é  um  animal  obediente  c  que  á  ordem  do  ho- 
mem cliega  a  Leber  os  mais  horriveis  medicamenlos  que  os  alveitares 
llie  propinam  e  se  submette  resignadamente  ás  mais  dolorosas  ^opera- 
ções cirúrgicas.  A  voz  do  conductor  habitual  é  suíficiente  para  o  guiar 
por  toda  a  parte. 

Quando  é  preciso  submetter  conjunctamente  dois  elephantes  a  um 
mesmo  trabalho,  o  guia  consegue  harmonisar-lhes  os  movimentos  por 
meio  de  um  canto  particular. 

Quando  se  utilisa  o  elephante  como  besta  de  carga,  é  preciso  tra- 
tal-o  com  muita  doçura  e  com  muito  cuidado,  por  que  a  pelle  doeste  pa- 
chyderme  é  extremamente  sensível,  fere-se  com  faciUdade  e  são  terrí- 
veis e  muito  duradouras  as  suppurações  consecutivas. 

Houve  um  tempo  em  que  na  Europa  eram  muito  vulgares  os  ele- 
phantes da  Africa;  hoje  são  raríssimos.  Os  que  mais  se  encontram  são 
da  Ásia.  Isto  provém  de  que  actualmente  a  caça  dos  elephantes  na  Africa 
se  faz  de  ordinário  com  armas  de  fogo,  não  se  apanhando  estes  animaes 
vivos,  ao  passo  que  na  Ásia  persistem  as  caçadas  que  descrevemos,  ci- 
tando as  palavras  de  testemunha  presencial. 


usos  E  PRODUGTOS 


Os  elephantes  prestaram  n'outro  tempo  ao  homem  serviços  que  já 
hoje  não  prestam,  porque  se  lhes  não  exigem.  Estão  n'este  caso  os  ser- 
viços de  guerra  outr'ora  tão  importantes  e  hoje  nullos. 

Em  geral  os  elephantes  empregam-se  na  caça,  nas  cerimonias  reli- 
giosas dos  templos  da  Ásia,  e  ainda,  as  mais  das  vezes  em  trabalhos 
grosseiros,  pezados,  como  o  transporte  de  materiaes.  Desempenham  sem- 
pre as  tarefas  que  lhes  incumbem,  com  intelligencia,  com  cuidado,  sem 
ser  necessário  que  o  cornaca  os  excite  ao  trabalho.  Hoje  porém  os  ele- 
phantes são  pouco  procurados  como  auxiUares  do  trabalho  do  homem; 
são  sobretudo  perseguidos  e  mortos,  como  dissemos  já,  por  causa  do 
marfim  dos  dentes  incisivos  superiores,  ou  defezas. 


mamíferos  em  especial  207 

Tempo  houve  em  que  os  príncipes  afrícanos  cercavam  os  seus  pa- 
lácios com  verdadeiras  sebes  de  dentes  d'elephanles;  lioje  porém  essas 
muralhas  preciosas  tornaram-se  raras,  porque  o  marfim  é  principalmente 
mandado  para  a  Europa  onde  tem  um  largo  consumo. 

A  maior  parte  do  marfim  que  existe  no  commercio  provém  da 
Africa;  a  Sibéria  fornece  também,  mas  em  menor  quantidade,  o  marfim 
fóssil,  de  que  já  falíamos.  A  Ásia  exporta  uma  pequena  quantidade. 


OS  TAPIROS 


Esta  familia  comprehende  um  género  único  e  trez  espécies,  cujos 
indivíduos  se  distinguem  por  dimensões  relativamente  pequenas  e  um 
corpo  bem  proporcionado.  Teem  a  cabeça  comprida  e  estreita,  o  pescoço 
fino,  a  cauda  rudimentar  e  os  membros  vigorosos  e  de  comprimento  mé- 
dio. As  orelhas  são  levantadas,  curtas  e  muito  largas  e  os  olhos  peque- 
nos e  obhquos;  o  lábio  superior  é  um  pouco  prolongado  em  forma  de 
tromba.  A  pelle  é  espessa  e  lisa,  sem  escamas  nem  pregas  profundas, 
como  nos  outros  pachydermes  se  encontram.  Os  pellos  são  curtos  e  es- 
pessos. 

Os  tapiros  teem  quarenta  e  dois  dentes:  trez  pares  de  incisivos  e 
um  par  de  caninos  em  cada  maxilla,  sete  pares  de  mollares  na  maxilla 
superior  e  seis  na  inferior.  O  esqueleto  é  semelhante  ao  dos  outros  pa- 
chydermes, diíTerindo  apenas  pela  conformação  menos  pezada  dos  ossos. 
Teem  vinte  vértebras  dorsaes,  quatro  lombares,  sete  sagradas  e  doze 
caudaes.  A  caixa  thoracica  é  constituída  por  oito  pares  de  costelias;  tem 
ainda  mais  doze  falsas  costelias.  A  região  facial  é  mais  extensa  que  a  re- 
gião craneana,  que  é  muito  reduzida.  Os  ossos  nasaes  são  muito  sahen- 
tes,  as  arcadas  zygomaticas  fortemente  recurvadas  para  baixo  e  para 
diante,  as  orbitas  muito  grandes  e  as  fossas  temporacs  muito  profundas. 


208  HISTORIA    NATURAL 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPIIIGA 


O  género  unico  da  família  abrange  Irez  espécies,  das  quaes  uma  é 
conhecida  ha  muito  tempo  e  as  outras  ha  poucos  annos.  Duas  das  espé- 
cies habitam  a  America  e  a  terceira  a  Ásia.  Uma  das  espécies  só  desde 
1830  é  conhecida  como  tal;  até  ahi  era  considerada  uma  simples  varie- 
dade do  tapiro  americano. 


O  TAPIRO  ASIÁTICO  OU  DE  DORSO  BRANCO 


É  o  maior  de  todos  os  animaes  da  famiUa.  Differe  dos  seus  congé- 
neres principalmente  em  ter  a  face  mais  estreita,  a  cabeça  mais  arre- 
dondada, a  tromba  mais  forte  e  mais  comprida,  os  membros  mais  vigo- 
rosos e  a  pelle  branca  n'uma  parte  da  sua  extensão.  Segundo  Brehm,  a 
estructura  da  tromba  é  também  característica,  porque  ao  passo  que  a  do 
tapiro  americano  procede  evidentemente  do  nariz  e  é  arredondada  ou 
tubulada,  a  da  espécie  asiática  constituo  uma  continuação  insensível  da 
parte  superior  do  focinho  e,  como  a  do  elephante,  é  arredondada  supe- 
riormente e  plana  na  face  inferior;  além  d'isso  ella  termina  por  um  pro- 
longamento digitiforme  bem  saliente,  o  que  é  mais  um  ponto  de  seme- 
lhança com  a  tromba  do  elephante. 

A  cor  do  tapiro  asiático  é  muito  especial:  a  tinta  fundamental  é  o 
negro;  no  entanto  o  dorso  é  branco  e  alguns  pontos  do  corpo  são  acin- 
zentados. O  negro  e-  o  branco  do  manto  formam  um  contraste  que  des- 
perta a  attenção. 

Brehm  que  possuía  uma  fêmea  viva,  animal  tão  raro  nas  collecções, 
dá-nos  as  seguintes  dimensões,  colhidas  por  elle  no  seu  exemplar: 
dois  metros  e  quarenta  centímetros  de  comprido  desde  a  extremidade  da 
tromba  (estando  esta  contraída)  até  á  extremidade  da  cauda;  setenta  e 
oito  centímetros  de  comprimento  da  cabeça,  medida  desde  a  ponta  da 


mamíferos  em  especial  209 

tromba  até  atraz  das  orelhas;  seis  centimelros  de  extensão  para  a  tromba, 
quando  contraída  e  quinze,  quando  alongada;  sete  centimetros  de  exten- 
são para  a  cauda;  emfim,  noventa  e  sete  centimetros  de  altura  ao  nivel 
da  espádua  e  cento  e  dois  ao  nivel  do  sacro. 


costumes 


Os  hábitos  de  vida  do  tapiro  asiático  em  liberdade  são  inteiramente 
desconhecidos  e  as  observações  dos  seus  costumes  em  captiveiro  insuf- 
ficientissimas.  Já  não  acontece  o  mesmo  em  relação  ao  tapiro  americano, 
cujos  costumes  estão  hoje  minuciosamente  descriptos  em  muitos  livros. 


O  TAPIRO  OU  ANTA  D'AMERICA 


Esta  espécie  é  conhecida  ha  muito  mais  tempo  que  qualquer  das 
outras  do  mesmo  género.  Pouco  depois  da  descoberta  do  novo-mundo, 
faltaram  os  viajantes  d'este  animal  embora  de  um  modo  extremamente 
incorreto.  A  primeira  descripção  exacta  do  tapiro  americano  data  do  sé- 
culo XVIII.  A  essa  descripção,  feita  por  Marcgrav  de  Liebstadt,  juntaram 
naturalistas  posteriores  observações  e  minuciosidades  notáveis,  de  sorte 
que  a  espécie  é  hoje  uma  das  mais  bem  conhecidas  entre  todas  as  da 
ordem  dos  pachydermes. 


U 


210  HISTORIA   NATURAL 


CARACTERES 


Estabelecendo  anteriormente  as  diíferenças  capitães  entre  o  tapiro 
asiático  e  o  da  America,  dissemos  uma  parte  dos  caracteres  d'este  ul- 
timo animal.  Pouco  nos  resta  acrescentar. 

O  tapiro  americano  é  coberto  por  um  pêllo  muito  uniforme,  prolon- 
gado apenas  sobre  a  nuca  em  forma  de  uma  crina  curta  e  áspera.  A  cor 
geral  e  dominante  é  um  pardo  escuro.  Os  lados  da  cabeça,  o  pescoço  e 
o  peito  são  um  pouco  mais  claros;  os  pés,  a  cauda  e  a  linha  media  do 
dorso  e  da  cabeça  são  bastante  escuros  e  as  orelhas  apresentam  uma 
cercadura  de  um  pardo  muito  claro.  Encontram-se  também  exemplares 
amarellados,  completamente  pardos  e  cobreados  ou  trigueiros.  Nos  indi- 
vidues muito  novos  só  o  dorso  é  escuro;  a  face  superior  da  cabeça  é 
coberta  de  manchas  brancas,  arredondadas  e  de  cada  lado  do  corpo  en- 
contram-se quatro  ordens  ou  series  não  interrompidas  de  pontos  claros 
que  se  prolongam  pelos  membros.  Á  medida  que  o  animal  cresce,  estas 
manchas  alongam-se  primeiro  e  acabam  ao  fim  de  dois  annos  por  desap- 
parecer  completamente.  Segundo  Tschudi,  este  tapiro  pode  attingir  dois 
metros  de  comprimento  e  um  de  altura.  Um  facto  curioso:  n'esta  espé- 
cie a  fêmea  é  maior  que  o  macho. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHIGA 


Esta  espécie  encontra-se  n'uma  grande  parte  da  America  do  Sul, 
desde  o  isthmo  de  Panamá  até  perto  de  Buenos-Ayres  e  desde  o  Oceano 
Atlântico  até  ao  Oceano  Pacifico.  É  muito  vulgar  no  Brazil. 


mamíferos  em  especial  211 


COSTUMES 


o  tapiro  ou  anta  da  America  pertence  ao  numero  dos  animaes  que 
evitam  cautelosamente  os  legares  descobertos  e  vivem  de  preferencia 
nas  florestas. 

«Abre  atravez  dos  mattos,  diz  Brehm,  veredas  que  difficilmente  se 
distinguem  das  praticadas  pelos  indígenas;  um  viajante  inexperiente  pode 
bem  ser  tentado  a  seguil-as.  Desgraçado  porém,  se  tal  fizer!  Poderá  ca- 
minhar dias  e  semanas  sem  encontrar  uma  choça,  uma  cre  atura  humana 
e  ainda  deverá  considerar-se  feliz  se  não  morrer  á  fome  e  á  sede  pelo 
caminho.  Os  tapiros  percorrem  estes  caminhos  em  quanto  se  não  sentem 
perseguidos;  mas,  se  presentem  algum  perigo,  precipitam-se  na  parte 
mais  espessa  da  floresta,  derrubando  quantos  obstáculos  se  lhes  oppo- 
nham  á  passagem.»  * 

Os  tapiros  são  animaes  nocturnos.  Tschudi  affirma  ter  percorrido  du- 
rante muitos  mezes  florestas  virgens  habitadas  por  milhares  d'estes  ani- 
maes, sem  nunca  ter  visto  um  único  durante  o  dia.  Parece  que  durante 
as  horas  de  sol  se  escondem  nos  legares  mais  espessos  da  floresta,  os 
mais  sombrios  e  os  que  ficam  perto  de  pântanos  onde  gostam  de  se  es- 
pojar. O  príncipe  de  Wied  aífirma-nos  que  nas  florestas  mais  sombrias  e 
completamente  inexploradas  onde  sabem  que  ninguém  irá  perturbal-os, 
os  tapiros  americanos  vagueiam  mesmo  durante  o  dia.  Brehm  acceita 
esta  aflirmação  e  diz  que  lhe  parece  encontrar  uma  confirmação  d'ella  no 
facto  de  passearem  os  tapiros  captivos  durante  o  dia  nos  cerrados  em 
que  vivem.  Verdade  é,  acrescenta  o  naturahsta  allemão,  que  elles  evi- 
tam os  raios  do  sol,  procurando  a  sombra  para  fugirem  ao  calor  ou  tal- 
vez mais  ainda  aos  insectos  que  os  atormentam. 

Diz  o  príncipe  de  Wied  que  os  tapiros  para  evitarem  as  picaduras 
dos  insectos  se  espojam  na  vasa,  cobrindo-se  assim  de  uma  forte  porção 
de  terra  que  lhes  adhere  á  pelle,  constituindo  uma  verdadeira  couraça. 
Tschudi  é  mesmo  de  opinião  que  as  variedades  de  cor  que  se  notam 
n'estes  pachydermes  não  teem  outra  origem:  são  devidas  á  maior  ou  me- 
nor porção  de  terra  que  lhes  cobre  a  pelle. 


Brehm,  Obr.  ciL,  vol.  2.",  pg.  730. 


212  HISTORIA  NATURAL 

Como  animaes  nocturnos,  os  lapiros  da  America  saem  somente  ao 
fim  da  tarde  em  busca  do  alimento  e  vagueiam  toda  a  noite,  no  que  fa- 
zem lembrar  o  javali. 

Os  tapiros  da  America  não  são  sociáveis;  não  se  reúnem  em  grandes 
bandos,  antes  vivem,  como  o  rhinoceronte,  solitários.  O  macho  só  no 
tempo  do  cio  se  junta  á  fêmea.  É  tão  raro  encontrar  famílias  de  tapiros 
que,  se  acaso  deparamos  com  mais  de  trcz  d'estes  pachydermes  junctos, 
podemos  estar  certos  de  que  foi  uma  pastagem  abundantíssima  que  os 
attrahiu  simultaneamente  e  sem  que  uns  soubessem  dos  outros.  A  agua 
pode  dar  o  mesmo  resultado:  ás  vezes  á  beira  de  uma  corrente  encon- 
tram-se  muitos  tapiros  junctos,  sem  que  a  reunião  se  explique  por  mo- 
tivos de  sociabilidade,  mas  de  precisão  de  satisfazer  necessidades  idên- 
ticas. 

Nos  modos,  nos  movimentos  os  tapiros  da  America  recordam  os  por- 
cos. Teem  a  marcha  lenta  e  prudente;  caminham  com  a  cabeça  muito 
perto  do  chão,  agitando  continuamente  a  tromba  que  fareja  para  a  direita 
e  para  a  esquerda  e  mexendo  sem  cessar  as  orelhas.  Ao  menor  indicio 
de  perigo  param  um  instante  agitando  febrilmente  as  orelhas  e  a  tromba 
e  depois  fogem  em  linha  recta  sempre,  atravez  dos  mattos,  dos  pântanos, 
dos  cursos  d'agua.  Por  mais  rápida  que  seja  a  marcha  d'estes  animaes, 
um  bom  cão  apanha-os  dentro  de  pouco  tempo. 

Os  tapiros  americanos  são  bons  nadadores  e  mergulhadores;  attra- 
vessam  rios  de  uma  grande  largura  e  teem  o  poder  de  caminhar  pelo 
fundo  d'agua  como  o  hippopotamo.  É  o  que  se  tem  visto  em  animaes  ca- 
ptivos. 

Relativamente  aos  sentidos,  não  pode  dizer-se  que  os  tapiros  da  Ame- 
rica sejam  mal  dotados,  porque,  se  a  vista  não  é  boa,  como  a  pequenez 
dos  olhos  mesmo  indica,  o  ouvido,  o  olfato  e  o  tacto  são  desenvolvidos. 
O  órgão  d'este  ultimo  é  a  tromba.  A  sensibilidade  geral  é  também  grande, 
como  o  prova  não  só  o  receio  do  sol  e  dos  insectos,  mas  ainda  o  vivo 
prazer  que  sentem  quando  se  lhes  coça  a  pelle. 

A  voz  dos  tapiros  é  um  assobio  agudo,  particularíssimo  que,  segundo 
Azara  não  está  de  modo  algum  em  relação  com  as  dimensões  d 'estes  ani- 
maes. Este  naturalista  pensa  que  os  tapiros  só  se  fazem  ouvir  na  epocha 
do  cio;  Schomburgk,  pelo  seu  lado,  aíTirma  que  só  os  tapiros  muito  no- 
vos assobiam.  Segundo  Brehm  nenhuma  d'estas  opiniões  é  exacta;  por- 
que, diz  este  naturahsta,  que  os  tapiros  tanto  americanos  como  asiáticos, 
que  possuiu  em  captiveíro,  assobiavam  em  todas  as  idades  e  em  todas 
as  epochas. 

Todos  os  tapiros  são  animaes  tímidos  e  socegados  que  só  em  casos 
extremos  fazem  uso  das  suas  armas.  Fogem  diante  de  todos  os  inimigos, 
mesmo  de  um  cãosito.   O  homem,  cujo  poder  por  experiência  conhece, 


mamíferos  em  especial  213 

inspira-lhe  um  grande  terror.  Perto  das  plantações  são  mais  prudentes  e 
mais  desconfiados  do  que  nas  florestas  onde  os  não  perturbam. 

Ha  casos  porém  em  que  os  tapiros  se  defendem  com  extraordinária 
coragem  e  se  precipitam  sobre  o  inimigo  com  fúria,  procurando  atiral-o 
a  terra  e  servindo-se  contra  elle  dos  dentes,  como  faz  o  javali.  É  assim 
que  a  fêmea  defende  os  filhos  quando  os  vê  ameaçados  pelos  caçadores ; 
expõe  a  vida  então,  esquece  toda  a  prudência,  perde  toda  a  timidez. 

De  ordinário  os  tapiros  da  America  alimentam-se  de  plantas,  princi- 
palmente de  folhas  d'arvores.  No  Brazil  preferem  as  folhas  novas  e  tenras 
das  palmeiras;  quando  ás  vezes  penetram  nos  campos  cultivados,  mani- 
festam um  gosto  extraordinário  pelas  cannas  de  assucar,  pelos  melões  e 
outros  fructos.  Nas  grandes  florestas  alimentam-se  ás  vezes  durante  mui- 
tos mezes  consecutivos  de  fructos  que  caem  das  arvores  e,  nos  pânta- 
nos, de  plantas  aquáticas.  Gostam  muito  de  sal  e  é  por  isso  que  nas  re- 
giões baixas  do  Paraguay  onde  o  solo  contem  sulphato  de  soda  ou  clo- 
roreto  de  sódio,  se  encontram  os  tapiros  em  grande  numero;  ahi  vivem 
lambendo  a  terra  impregnada  de  saes. 

O  cio  realisa-se  antes  da  estação  das  chuvas.  Quatro  mezes  depois 
do  coito  a  fêmea  pare  um  filho  que  apresenta  maculas  e  listras  como  as 
dos  javalis;  aos  quatro  mezes  estas  manchas  principiam  a  desapparecer 
e  aos  seis  o  novo  animal  apresenta  o  mesmo  manto  que  os  pães. 


CAÇA 


Para  obter  a  pelle  e  a  carne  dos  tapiros  faz-se-lhes  uma  caça  per- 
tinaz. Os  processos  empregados  variam  muito.  Umas  vezes  utihsam-se 
os  cães  que  espantam  os  tapiros  e  os  forçam  a  sair  para  fora  da  flo- 
resta, dando  assim  logar  a  que  se  lhes  atire  melhor;  outras  vezes  espe- 
ram-se  de  embuscada  n'algum  dos  legares  por  que  costumam  passar,  fa- 
zendo-se  fogo  sobre  elles  a  uma  pequena  distancia.  Também  é  d'uso  no 
Brazil  surprehender  estes  animaes  de  noite  ou  de  madrugada  quando  na- 
dam nos  grandes  cursos  d'aguas;  os  caçadores  embarcam  em  pequenas 
canoas  que  dirigem  a  remo  na  direcção  dos  nadadores;  estes,  sentindo-se 
perseguidos,  mergulham  e  os  caçadores  esperam  a  occasião  de  elles  vi- 
rem á  superfície  respirar  para  então  fazerem  fogo.  Ora,  como  em  vez  de 
bala  se  emprega  o  chumbo,  acontece  que  este  processo  de  caça  é  mo- 
roso e  que  os  tapiros  resistem  ás  vezes  por  muito  tempo  ao  fogo.  Os  in- 
dígenas empregam  também,  em  vez  de  espingardas,  as  frechas. 


214  HISTORIA  NATURAL 


CAPTIVEIRO 


Os  tapiros  teem  uma  apparencia  cie  grande  estupidez;  em  realidade 
porém,  são  mais  intelligcntes  do  que  seriamos  levados  a  crer  pelo  as- 
pecto exterior.  Brehm  aílirma  que  todos  os  que  teem  lidado  com  tapiros 
captivos  chegam  a  convencer-se  de  que  estes  animaes  offerecem  um  des- 
envolvimeuto  intelleclual  superior  ao  dos  rliinocerontes  e  dos  hippopota- 
mos  e  que  lhes  permitte  rapidamente  distinguir  as  pessoas  e  reconhecer 
entre  muitas  o  guarda.  Segundo  Rengger  poucos  dias  de-  captiveiro  são 
precisos  para  que  os  tapiros  quando  novos  se  habituem  ao  homem  e  á 
casa  que  elle  habita,  d'onde  não  tornarão  a  sair. 

Os  tapiros  em  captiveiro  mudam  muito  os  seus  hábitos  de  vida: 
principiam  a  dormir  durante  a  noite  e  habituam-se  á  alimentação  do  ho- 
mem. De  resto,  são  animaes  dóceis  e  que  vivem  n'uma  inalterável  har- 
monia com  os  outros  animaes,  companheiros  de  prisão.  O  que  lhes  fica 
sempre,  como  residuo  dos  tempos  hvres,  é  uma  grande  preguiça  e  uma 
necessidade  imperiosa  d'agua,  em  que  se  banham  por  largo  tempo  e  com 
verdadeira  voluptuosidade  todos  os  dias.  Sendo  bem  cuidados  e  collo- 
cando-os  no  inverno  n'um  logar  quente,  ao  abrigo  das  intempéries,  po- 
dem supportar  por  muito  tempo  a  perda  de  liberdade. 

Não  se  tem  até  hoje  conseguido  fazer  reproduzir  os  tapiros  em  ca- 
ptiveiro. 


usos  E  PRODUGTOS 


A  pelle  do  tapiro  americano  é  muito  estimada  por  causa  da  resistên- 
cia e  da  espessura  que  oíTerece.  Tanificada  e  partida  em  tiras  serve  para 
chicotes  e  cordas  de  arcos  de  frechas. 

Os  orientaes  com  a  pelle  dos  tapiros  da  Ásia  fazem  coberturas  e  col- 
chões. EUes  crêem  geralmente  que  esta  pelle  não  só  preserva  da  humi- 
dade, mas  ainda  dos  mãos  ares.  Estes  mesmos  povos  attribuem  ainda  ás 
unhas  e  aos  pêUos  do  tapiro  virtudes  medicamentosas.  Os  cascos  são 
aproveitados  para  castanhetas. 


mamíferos  em  especial 


215 


O  TAPIRO  VELLOSO 


A  descoberta  d'esta  espécie  pertence  a  Hernandez;  no  entanto,  pos- 
teriormente, em  1829  Roulin  no  seu  livro  Historia  Natural  e  Recordações 
de  Viagem  descreveu-a  como  nova. 


caracteres 


o  tapiro  velloso  deve  o  nome  por  que  é  conhecido  ao  pêllo  abun- 
dante que  lhe  cobre  o  corpo.  A  cor  geral  é  um  trigueiro  escuro;  mas  a 
metade  do  lábio  superior,  o  bordo  do  inferior  e  o  mento  são  brancos  e 
as  orelhas  apresentam  uma  orla  ou  cercadura  clara.  Aos  lados  do  sacro 
existe  uma  pequena  mancha  amarella.  O  tronco  e  o  pescoço  são  cylin- 
dricos.  O  animal  tem  um  metro  e  oitenta  centímetros  de  comprimento  e 
noventa  de  altura. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHIGA 


A  área  de  disperção  geographica  do  tapiro  velloso  não  está  deter- 
minada. Sabe-se  porém  que  este  animal  não  é  raro  no  Peru  a  uma  alti- 
tude de  dois  mil  e  trezentos  a  dois  mil  e  seiscentos  metros.  Ahi  o  matam 
os  indígenas  que  lhe  chamam  vulgarmente  vaca  dos  montes. 


216  HISTORIA   NATURAL 


COSTUMES 


Nada  se  sabe  ao  cerlo  dos  hábitos  de  vida  do  tapiro  velloso;  alguns 
auctores,  fundados  sobre  as  analogias  que  tem  com  o  tapiro  americano, 
crcem  que  os  costumes  devem  ser  os  mesmos. 


OS    HYRACES 


«Nas  montanhas  desertas  e  pedregosas  da  Africa  e  da  Ásia  desco- 
bre-se  em  certos  pontos  uma  população  animada.  Mamíferos  do  tamanho 
de  coelhos  aquecem-se  ao  sol  sobre  os  rochedos.  A  apparipão  do  homem 
espanta-os;  e  então,  soltando  um  grito  como  o  do  macaco,  deshsam  ra- 
pidamente ao  longo  das  pedras,  escondem-se  em  buracos  e  d'ahi  obser- 
vam curiosos  e  inofensivos,  essa  extraordinária  apparição.  São  os  hyra- 
ces,  também  chamados  teixugos  ou  baixotes  dos  moiiteSy  os  mais  peque- 
nos exemplares  dos  pachydermes  ainda  vivos.»  *  Assim  principia  Brehm 
a  descripção  d'estes  animaes  tão  pequenos  que  á  primeira  vista  ninguém 
os  diria  representantes  de  uma  classe  que  abrange  os  elephantes  e  os 
rhinocerontes. 


1    Brehm,  Ohr.  cit,  vol.  2.°,  pg.  735. 


mamíferos  em  especial 


217 


CARACTERES 


A  classificação  dos  liyraces  foi  por  muito  tempo  um  problema  obs- 
curo, uma  questão  agitada.  Estes  animaes,  mal  conhecidos  ao  principio 
nos  seus  caracteres  essenciaes,  foram  alternativamente  incluídos  na  or- 
dem dos  roedores  e  na  dos  marsupiaes.  Tanto  basta  para  que  nos  con- 
vençamos de  que  não  havia  sobre  elles  um  estudo  sério.  Foi  Guvier  quem 
detidamente  os  estudou,  incluindo-os  definitivamente  na  ordem  dos  pachy- 
dermes. 

As  indecisões  taxonomicas  a  propósito  dos  hyraces  comprehendem-se 
perfeitamente,  justificam-se  quasi.  Elles  são  indubitavelmente  pachyder- 
mes.  Mas  quem  havia  de  acreditar,  antes  de  um  minucioso  estudo,  que 
á  ordem  que  em  si  contem  os  maiores  mamíferos  terrestres,  os  gigantes 
da  creação,  como  os  elephantes,  os  hippopotamos,  os  rhinocerontes,  per- 
tenceriam animaes  da  grandeza  de  um  coelho,  de  pêllo  molle  e  fino,  de 
lábio  superior  fendido  e  tendo  por  habito  deshsar  pelos  rochedos  como 
ura  lagarto?  Para  os  naturahstas  se  convencerem  de  que  essa  incorpora- 
ção dos  hyraces  na  ordem  dos  pachydermes  é  legitima,  era  preciso  que 
elles  conhecessem  morphologicamente  as  espécies  extinctas,  das  quaes 
umas  possuíam  um  manto  abundante  e  outras  tinham  as  dimensões  mí- 
nimas da  lebre  ou  do  coelho.  Restabelecida,  ao  menos  em  parte,  a  serie 
dos  pachydermes  pela  descoberta  dos  fosseis,  a  opinião  de  Guvier  foi 
acceite  pelos  zoologistas. 

O  manto  dos  hyraces  é  formado  por  duas  ordens  de  pôllo:  um  rijo, 
sedoso,  outro  fino,  molle.  A  columna  vertebral  é  formada  de  dezenove  a 
vinte  e  uma  vértebras  dorsaes,  nove  lombares,  cinco  sagradas  e  dez  cau- 
daes.  Nos  membros  anteriores  os  hyraces  apresentam  cinco  dedos,  sendo 
o  pollegar  rudimentar  e  sem  unha;  nos  membros  posteriores  os  dedos 
são  apenas  trez.  Quanto  á  dentição  os  hyraces  apresentam  dois  incisivos 
triangulares,  separados  por  uma  lacuna  e  sete  moUares  augmentando  de 
volume  de  diante  para  traz. 


218  HISTORIA  NATURAL 


O  HYRACE  DA  ABYSSINIA 


A  família  ou  género  dos  hyraces  comprehende  muitas  espécies  que 
entre  si  não  apresentam,  ao  menos  sob  o  ponto  de  vista  dos  costumes, 
grandes  differenpas.  Por  isso  é  quasi  indiíTerente  descrever  uma  ou  outra. 

Estudaremos  o  hyrace  da  Abyssinia. 


CARACTERES 


Este  animal  tem  meio  metro  de  comprimento.  O  péllo  é  molle  e  denso; 
o  dorso  é  pardo  trigueiro  e  o  ventre  da  mesma  cor,  mas  menos  accen- 
tuada,  mais  clara.  As  orelhas  e  a  cauda  desapparecem  quasi  completa- 
mente no  meio  do  péllo.  Os  olhos  são  grandes,  vivos  e  de  uma  expressão 
suave.  O  nariz  é  nú,  negro  e  conserva-se  constantemente  húmido.  Os  de- 
dos são  curtos,  largos,  envolvidos,  cada  um,  n'um  casco  fino,  arredon- 
dado, não  sahente;  comtudo  o  dedo  interno  dos  pés  posteriores  tem  ape- 
nas uma  unha  obhqua  e  recurva.  As  variações  na  cor  são  muito  nume- 
rosas. Muitas  vezes  o  ventre  é  branco  amarellado  e  uma  listra  branca 
estende-se  pela  parte  anterior  das  espáduas. 


COSTUMES 


O  hyrace  da  Abyssinia  é,  como  todos  ôs  congéneres,  um  habitante 
das  montanhas,  principalmente  d'aquenas  em  que  abundam  os  rochedos. 


mamíferos  em  especial  219 

Ahi  passa  os  seus  dias;  ahi  o  ve  quem  passa  pelos  valles,  deitado  volu- 
ptuosamente ao  sol.  N'isto  diíTere,  como  o  leitor  vê,  d'outros  pachyder- 
mes,  uns  nocturnos,  outros,  que  não  o  sendo,  evitam  comtudo  cuidado- 
samente o  sol,  a  luz  directa. 

O  hyrace  da  Abyssinia  é  timido;  o  mais  ligeiro  ruido  o  amedronta. 
Ás  vezes,  todos  os  individues  d'uma  grande  sociedade  fogem  assustados 
pela  presença  de  um  europeu  e  desapparecem  n'um  momento.  E  dizemos 
de  um  europeu,  porque  realmente  elles  não  temem  os  indígenas.  Na 
Abyssinia,  com  effeito,  ninguém,  nem  mahometanos,  nem  chistãos,  perse- 
gue o  hyrace ;  o  animal  sabe-o  bem  por  experiência  e  por  isso  se  appro- 
xima  das  habitações  humanas.  Os  cães  e  os  outros  animaes  inspiram-lhe 
em  geral  um  grande  terror;  e  até  as  pequeninas  aves,  uma  pega  ou  uma 
andorinha,  por  exemplo,  são  motivo  suíficiente  para  o  obrigar  a  fugir. 
O  peor  inimigo  da  espécie  é  o  leopardo. 

O  hyrace  da  Abyssinia  não  abandona  os  rochedos,  senão  forçado; 
quando  a  herva  está  toda  comida  e  é  impossível  já  encontrar  ahmento 
nas  rochas  das  montanhas,  famihas  inteiras  de  hyraces  descem  aos  valles, 
onde  passam  a  viver  por  algum  tempo,  tendo  o  cuidado  de  deixar  sen- 
tinellas  por  todas  as  elevações  próximas;  ao  menor  signal  de  perigo  to- 
dos fogem  precipitadamente  para  os  rochedos. 

O  hyrace  da  Abyssinia  é  um  excellente  trepador,  o  que  se  expUca 
pela  conformação  especial  dos  pés,  cuja  planta*  é  molle  e  rugosa;  ascende 
um  plano  fortemente  inclinado  ou  até  uma  parede  vertical  com  a  mesma 
segurança  e  agilidade  com  que  o  faz  um  reptil.  É  também  um  bom  sal- 
tador; atira-se  de  rochedo  a  rochedo,  attravessando  de  um  salto  distan- 
cias de  cinco  metros  ou  mais.  N"uma  planície  porém,  a  marcha  do  hyrace 
é  pezada  e  lembra  a  dos  grandes  pachydemes. 

O  hyrace  da  Abyssinia  é  um  animal  dócil  e  extremamente  sociável. 
Assemelha-se  aos  seus  gigantescos  congéneres  em  comer  extraordinaria- 
mente. N'um  certo  movimento  de  laterahdade  que  dá  á  maxiUa  inferior 
quando  mastiga,  lembra  os  ruminantes.  Bebe  muito  pouco  ou  mesmo,  se- 
gundo alguns,  não  bebe.  Esta  aíTirmação  basea-se  no  facto  de  habitar  ás 
vezes  o  hyrace  da  Abyssinia  montanhas  separadas  dos  cursos  d'agua  por 
vastas  planícies  que  nunca  ninguém  o  viu  attravessar.  O  orvalho  que 
cobre  as  hervas  é-lhe  hquido  bastante  para  occorrer  á  sede. 

Sobre  a  reproducção  d'este  animal  nada  se  sabe  de  positivo;  uns  af- 
firmam  que  a  fêmea  pare  um  grande  numero  de  filhos  de  cada  vez,  ou- 
tros asseveram  que  pare  um  somente.  Brehm  declara  não  ter  podido 
obter  a  este  respeito  esclarecimentos  dos  indígenas. 


220  HISTORIA  NATURAL 


CAÇA 


A  caça  ao  hyrace  é  fácil,  principalmente  nas  regiões  cm  que  não 
está  habitualmente  exposto  a  perseguições.  A  caça  faz-se  por  processos 
(liíTerentes,  consoante  se  pretende  obter  o  individuo  vivo  ou  morto;  em- 
pregam-se  as  armas  de  fogo  e  as  armadilhas.  De  resto,  a  perseguição  a 
esta  espécie  é  pouco  pertinaz,  está  muito  pouco  generahsada. 


GAPTIVEIRO 


Tem-se  visto  algumas  vezes  na  Europa  hyraces  captivos.  São  seres 
inoífensivos,  extremamente  hmpos  e  que  na  convivência  do  homem  con- 
servam de  ordinário  a  timidez  que  em  liberdade  as  caracterisa.  Dei- 
xam-se,  é  certo,  acariciar  pelo  dono  ou  por  quem  lhes  dá  o  alimento, 
chegam  mesmo  a  corresponder  ao  chamamento  d'essas  pessoas;  mas  em 
face  de  outras  quaesquer  amedrontam-se  e  fogem.  O  conde  Mellin  com- 
para o  hyrace  domesticado  a  um  urso  que  tivesse  as  dimensões  de  um 
coelho. 


usos  E   PRODUCTOS 


A  guerra  que  n'algumas  regiões  se  move  ao  hyrace,  a  caça  que  se 
lhe  faz  é  promovida  particularmente  pelo  gosto  que  teem  os  indígenas 
d'essas  regiões  pela  carne  fresca  ou  secca  do  animal. 

Os  habitantes  do  Cabo  faziam  e  fazem  ainda  hoje  uma  massa  produ- 
zida pelo  conjuncto  dos  excrementos  e  da  urina  do  hyrace,  considerada 
e  empregada,  mesmo  na  Europa  para  onde  era  exportada,  como  remé- 
dio contra  as  doenças  nervosas  I 


mamíferos  em  especial 


221 


OS  POKCINOS 


As  formas  exteriores  doestes  aaimaes  são  geralmente  conhecidas; 
não  insistiremos  na  sua  descrippão. 

Estudemos  o  esqueleto  e  alguns  órgãos  internos  de  maior  impor- 
tância. 

Na  columna  vertebral  dos  porcos  ou  porcinos  encontra-se  treze  ou 
quatorze  vértebras  dorsaes,  cinco  ou  seis  lombares,  quatro  a  seis  sagra- 
das e  nove  ou  vinte  caudaes. 

O  diaphragma  insere-se  á  decima  primeira  vértebra  dorsal. 

As  costellas  são  estreitas  e  arredondadas.  As  maxillas  apresentam 
trez  ordens  de  dentes,  como  em  todos  os  omnívoros.  Os  incisivos  são  em 
numero  de  dois  a  trez  pares;  caem  geralmente  quando  o  animal  enve- 
lhece. Os  caninos  apresentam  ás  vezes  um  extraordinário  desenvolvi- 
mento; são  triangulares,  fortes,  recurvos  para  cima  e  os  inferiores  mais 
vigorosos  que  os  superiores.  Constituem  a  mais  terrível  arma  d'estes 
animaes.  Os  moUares  são  comprimidos,  multituberculados  e  em  numero 
muito  variável. 

As  glândulas  salivares  são  notavelmente  desenvolvidas;  o  estômago 
é  arredondado  e  o  intestino  dez  vezes  mais  comprido  que  o  corpo. 


DISTRIBUIÇÃO   GE0GRAPHICA 


Vivem  em  todos  os  pontos  do  globo,  exceptuando  a  Nova-Hollanda. 


COSTUMES 


Tendo  de  estudar  estes  pachydermes  em  especial,  limitar-nos-hemos 
aqui  a  indicações  muito  ligeiras. 

Quando  vivem  em  liberdade,  preferem  sempre  as  grandes  florestas 


222  riiSTOiuA  natural 

húmidas  e  as  regiões  panlaiiosas.  Procuram  sempre  as  visinbanças  da 
agua,  porque  o  seu  maior  prazer,  a  sua  irresislivel  tendência,  que  nem 
mesmo  na  domesticidade  perdem,  é  espojarem-se  na  vasa. 

São  animaes  sociáveis;  no  entanto  nunca  as  suas  aggremiações  são 
muito  numerosas. 

Teem  liabitos  geralmente  nocturnos,  de  modo  que  nos  togares  em 
que  se  encontram  em  liberdade,  só  de  noite  vagueiam.  A  corrida  é  mais 
rápida  do  que  naluralmenle  se  inferiria  das  formas  pezadas,  deselegan- 
tes que  aífectam.  Nadam  bem,  com  quanto,  de  ordinário,  não  possam 
prolongar  por  muito  tempo  este  exercício. 

Dos  sentidos,  o  ouvido  e  o  olfato  são  os  mais  desenvolvidos;  a  vista, 
o  olfato  e  o  gosto,  são  muito  obtusos.  São  estúpidos;  e  a  domesticidade 
não  implica  para  elles,  como  toda  a  gente  sabe,  um  desenvolvimento  no- 
tável de  faculdades. 

São  timidos;  é  certo  porém  que  attacados  de  frente  se  defendem  co- 
rajosamente. Se  lhes  perseguem  a  fêmea  e  os  filhos,  manifestam  um  arrojo 
enorme,  usando  então  dos  caninos  com  tanta  destreza  como  valentia. 

São  rigorosamente  omnívoros  e  são  vorazes.  Não  podem  passar  sem 
agua. 

Entre  os  mamíferos  de  grandes  proporções  distinguem-se  pela  grande 
fecundidade. 


CAÇA 


Os  individues  selvagens  causam  estragos  notáveis  nos  campos  culti- 
vados e  é  por  isso  que  se  lhes  faz  uma  guerra  desapiedada.  Da  Europa 
teem  desapparecido  quasi  completamente. 

Não  é  somente  o  homem  que  os  persegue;  os  grandes  felinos,  nas 
regiões  do  sul,  são-lhes  inimigos  terríveis. 


CAPTIVEIRO 


Poucos  animaes  se  reduzem  ao  estado  domestico  com  tanta  facilidade 
como  os  porcinos;  mas  também  poucos  passam  tão  rapidamente,  desde 
que  são  collocados  em  liberdade,  ao  estado  selvagem.  Tem-se  mesmo 


^^ 


p    iiu. 


1.  o  Porco -z.  O  Javatí 


LgaJhães  &  Aíoniz  .Editores- 


mamíferos  em  especial 


223 


observado  que  os  que  viveram  captivos  e  readquiriram  a  liberdade  são 
mais  ferozes  e  mais  corajosos  que  os  propriamente  selvagens. 


usos   E   PRODUCTOS 


No  estado  selvagem  os  estragos  que  produzem  são,  indubitavelmente, 
superiores  á  utilidade  que  d'elles  podemos  tirar.  Em  captiveiro  porém, 
são-nos  somente  úteis,  pelo  que  se  tornaram  animaes  estimados,  quasi 
indispensáveis  na  economia  domestica. 


A  classe  dos  porcinos  está  dividida  em  dois  grandes  grupos:  os 
porcos  bravos  ou  javalis  e  os  porcos  domésticos. 


1 .  Os  porcos  bravos  ou  javalis 


As  differentes  espécies  d'este  grupo  assemelham-se  tanto  na  confor- 
mação e  nos  costumes,  que  apenas  estudaremos  a  que  segue. 


O  JAVALI  ORDINÁRIO  OU  JAVARDO 


Mede  dois  metros  de  extensão,  não  contando  a  cauda  que  tem  mais 
de  trinta  centímetros;  a  altura  é  de  um  metro,  ao  nivel  da  espádua. 
Estes  números  exprimem  apenas  approximações,  porque  o  tamanho  dos 


224  IIISTOIIIA   NATURAL 

javardos  varia  segundo  as  dilTcrentcs  regiões  que  occupam  e  segundo  o 
alimento  que  encontram. 

O  javali  ordinário,  considerado  por  muitos  naturalistas  o  ascen- 
dente do  porco  domestico,  assemelha-se  muito  a  este;  as  diíTerenças 
que  apresenta  e  que  são  insignificantes  resumem-se  todas  em  que  pos- 
sue  um  maior  desenvolvimento  e  um  maior  vigor  em  todas  as  partes  do 
organismo  do  que  o  porco  domestico.  A  cor  do  manto,  que  se  compõe 
de  sedas  rijas  e  de  pôllos  macios,  varia  muito:  ha  indivíduos  completa- 
menl^  pretos,  o  que  é  o  caso  vulgar,  e  ha-os  também  pardos,  ruivos, 
brancos  ou  maculados.  Na  face  inferior  do  pescoço  e  no  baixo-ventre  as 
sedas  são  dirigidas  para  diante;  no  resto  do  corpo  dirigem  para  traz  e 
são  mais  abundantes  sobre  o  dorso. 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPHIGA 


O  javali  ordinário  é  o  único  pachyderme  da  Europa. 

Diz  Brehm  que,  com  grande  alegria  dos  cultivadores  e  com  grande 
magua  dos  caçadores,  o  javardo  está  ameaçado  de  uma  próxima  desap- 
parição.  Outr'ora  existiu  muito  espalhado;  hoje  porém  existe  em  numero 
relativamente  pequeno.  Na  Europa  existe  somente  em  alguns  pontos,  na 
Africa  vive  só  ao  norte;  na  Ásia  é  ainda  hoje  vulgar.  Falta  absolutamente 
em  todos  os  paizes  que  ficam  ao  norte  das  costas  do  Báltico,  n'uns,  por- 
que foi  destruído,  n'outros,  porque  nunca  existiu.  Na  Allemanha  é  raro; 
é-o  menos  na  Polónia,  na  Galliza,  na  Hungria,  no  sul  da  Rússia,  na  Gré- 
cia e  na  Hespanha. 


COSTUMES 


O  javardo  procura  de  preferencia  os  locaes  húmidos  e  pantanosos, 
as  florestas  e  as  regiões  em  que  abundam  os  cannaviaes.  Gosta  muito  de 
se  espojar  na  lama  e  é  isto  precisamente  o  que  exphca  a  decidida  pre- 
ferencia que  concede  aos  legares  húmidos,  onde  faz  o  seu  covil.  O  ja- 
vah  é  sociável;  apenas  os  velhos  machos  teem  hábitos  sohtarios. 

No  estio  penetra  muitas  vezes  nos  campos  cultivados,  em  que  faz 
incalculáveis  destroços  e  d'onde  não  é  fácil  obrigal-o  a  sair. 


mamíferos  em  especial  225 

O  javali  ordinário  é  omnivoro;  tanto  lhe  servem  para  alimento  os 
vegetaes  como  as  carnes  dos  cadáveres  que  encontra,  quando  mesmo 
sejam  dos  seus  congéneres.  É  certo  porém  que  nunca  attaca  nem  aves 
nem  mamiferos  vivos  para  os  devorar. 

O  javali  offerece  muitos  pontos  de  contacto  ou  de  analogia  com  o 
porco  domestico.  Tem,  como  este,  movimentos  impetuosos,  bruscos,  em- 
bora deselegantes  e  pezados.  Marcha  sempre  com  a  cabeça  baixa,  com  o 
focinho  perto  do  solo,  farejando  em  todos  os  sentidos.  Nada  muito  bem: 
a  conformação  do  corpo  e  a  espessa  camada  subcutânea  de  tecidqjgor- 
duroso  permitte-lhe  suster-se  na  agua  com  extraordinária  facilidade,  de 
modo  que  um  ligeiro  movimento  de  membros  é  o  bastante  para  que 
possa  rapidamente  avançar. 

O  javali  ordinário  é  prudente  e  vigilante,  mas  não  é  timido  e  sabe 
bem  confiar  na  própria  força,  nas  armas  formidáveis  que  possue.  Ouve 
bem  e  tem  um  olfato  apurado,  mas  vê  mal;  se  o  caçador  se  conserva 
perfeitamente  tranquillo  e  contra  o  vento  é  fácil  que  um  javali,  não  dando 
pela  presença  d'elle,  se  lhe  approxime  até  uma  pequeníssima  distancia. 
Isto  prova  a  deficiência  da  vista;  os  guias  únicos  do  animal  são  o  ouvido 
e  o  olfato.  O  paladar  e  o  tacto  são  sentidos  obtusos  no  javaH  ordinário. 
A  intelligencia  é  muito  limitada;  menos  porém  do  que  teem  dito  alguns 
auctores,  dispostos  naturalmente  a  fazer  d'este  animal  o  typo  da  estu- 
pidez. 

O  javali  ordinário  não  é  propriamente  o  que  se  pode  chamar  um 
animal  feroz;  não  attaca  nem  o  homem,  nem  os  outros  animaes  quando 
a  elle  o  não  attacam  também.  Pode  uma  pessoa  passar-lhe  t-ranquilla- 
mente  por  perto,  na  certeza  de  que  não  o  irritando,  o  javali  lhe  não 
fará  mal. 

Excitado  porém,  é  um  inimigo  terrível,  porque  é  corajoso  e  valente. 
Quando  um  homem  tem  inconsideradamente  irritado  um  javali,  para  evi- 
tar-lhe  o  attaque  precisa  de  esconder-se  por  traz  de  uma  arvore  ou, 
quando  o  animal  arremette,  saltar  para  os  lados,  aproveitando  assim  a 
diíficuldade  com  que  o  javah  se  volta  ou  emfim,  se  estes  meios  não  po- 
deram  ser  empregados,  deitar-se  ao  chão;  o  javaH,  se  é  um  macho,  não 
fere  com  os  terríveis  dentes  de  cima  para  baixo,  mas  só  de  baixo  para 
cima. 

A  fêmea  encolerisa-se  mais  difficilmente  do  que  o  macho,  mas  não 
é  menos  corajosa  do  que  elle;  diante  da  fêmea  não  vale  ao  homem  o  re- 
curso de  atirar-se  ao  chão. 

Os  dentes  do  javali  são  armas  terríveis.  Apparecem  aos  dois  annos 
e  aos  trez  os  da  maxilla  inferior  atlingem  um  grande  desenvolvimento, 
dirigindo-se  para  cima  e  recurvando-se  ligeiramente;  os  superiores  re- 
curvam-se  também  para  cima,  separando-se  da  maxilla,  mas  não  chegam 

VOL.    III  15 


226  IllSTOlUA   NATUllAL 

a  ler  metade  da  extensão  dos  inferiores.  Os  dentes  são  muito  brancos  e 
ponteagudos.  Quanto  mais  velho  é  o  animal,  mais  pronunciada  é  a  cur- 
vatura e  mais  fortes  e  compridos  são  os  dentes.  Os  ferimentos  produzi- 
dos por  estas  armas  são  perigosíssimos. 

Os  javalis  grandes,  quando  se  encolerisam,  chegam  a  attacar  ani- 
maes  muito  mais  maiores  do  que  elles,  por  exemplo  um  cavallo  a  que 
podem  rasgar  o  peito  e  o  ventre. 

Nos  casos  de  risco  os  javalis  prestam-se  mutuo  auxilio.  A  mãe  de- 
íení^n  sempre  com  coragem  os  fdhos  ameaçados  por  um  perigo. 

A  voz  do  javali  ordinário  é  perfeitamente  semelhante  á  do  porco 
domestico.  Quando  caminha  faz  ouvir,  como  este,  um  grunhido  constante. 
As  fêmeas  e  filhos,  quando  os  ferem,  soltam  gritos  de  dor.  O  macho 
adulto,  pelo  contrario,  conserva-se  silencioso  qualquer  que  seja  o  feri- 
mento de  que  o  tenham  tornado  victima. 

A  quadra  do  cio  começa  no  fim  de  Novembro  e  dura  quatro,  cinco 
e,  ás  vezes,  seis  semanas.  As  fêmeas  de  origem  selvagem  não  entram 
em  cio  mais  que  uma  vez  cada  anno;  mas  as  que  provêem  de  porcos 
domésticos  que  se  tornaram  selvagens,  que  readquiriram  a  liberdade, 
essas  entram  em  cio  e  parem  duas  vezes  por  anno.  É  esta  a  opinião  ge- 
ralmente recebida.  Os  filhos  encontram-se  aptos  para  a  reproducção  ao 
fim  de  dezoito  ou  dezenove  mezes.  Quando  a  epocha  da  excitação  gené- 
sica se  approxima,  os  machos  solitários  reunem-se  aos  bandos  e,  repel- 
lindo  os  machos  mais  fracos,  assenhoream-se  das  fêmeas.  Quando  se  en- 
contram machos  de  força  egual,  ferem-se  luctas  horríveis  e  prolongadas. 
A  gestação  dura  de  ordinário  dezoito  a  vinte  semanas.  A  fêmea  ainda 
nova  pare  quatro  a  seis  filhos,  a  velha  onze  a  doze.  Antes  do  parto  a 
fêmea  tem  tido  o  cuidado  instinctivo  de  preparar  n'um  logar  solitário 
uma  espécie  de  ninho  alcatifado  de  musgo  e  folhas,  onde  posteriormente 
se  conserva  com  a  prole  durante  meio  mez.  Terminado  este  prazo,  a  fê- 
mea sae,  levando  comsigo  os  filhos.  Ás  vezes  encontram-se  muitas  fêmeas 
com  a  prole;  então  reunem-se  e  guardam  em  commum  os  filhos.  Brehm 
affirma  que  se  morre  alguma  d'ellas,  as  outras  tomam  sobre  si  a  creação 
dos  orphãos. 

Os  javalis  pequenos  teem  tanto  de  vivos  e  de  interessantes  como 
os  pães  de  pezados  e  de  preguiçosos;  passam  a  noite  inteira  brincando, 
agitando-se,  fazendo  ruido,  congregando-se  ou  dispersando-se  alternati- 
vamente e  correndo  atraz  das  mães,  forçando-as  a  pararem  para  lhes 
dar  leite.  De  dia  mesmo,  não  conservam  por  muito  tempo  a  immobili- 
dade. 

Avalia-se  em  trinta  annos  a  idade  máxima  que  o  javaH  ordinário 
pode  attingir. 


mamíferos  em  especial  227 


INIMIGOS 


O  lobo,  o  lynce  e  todos  os  grandes  felinos  são  inimigos  irreconciliá- 
veis do  javali;  a  rapoza  consegue  também  pela  astúcia  apoderar-se,  uma 
ou  outra  vez,  de  algum  recemnascido. 

O  gelo  que  ás  vezes  chega  a  cobrir  inteiramente  os  pastos  e  que 
produz  assim,  indirectamente,  a  morte  de  um  grande  numero  de  indivi- 
dues, merece  ser  contado  entre  os  inimigos  do  javali. 


CAÇA 


De  todos  os  inimigos  da  espécie  o  mais  perigoso  e  o  mais  terrível  é 
sem  duvida  o  homem,  porque  a  capa  do  javaU  foi  sempre  e  é  ainda  hoje 
tentada  com  prazer. 

Os  processos  de  perseguição  ao  javah  ordinário  teem  variado  con- 
sideravelmente com  o  decorrer  dos  tempos.  Antes  da  descoberta  das  ar- 
mas de  fogo,  a  capa  não  era,  como  hoje,  um  exercício  em  que  o  homem 
pouco  se  arrisca;  era  sim  um  verdadeiro  combate  em  que  toda  a  agili- 
dade e  toda  a  coragem  eram  poucas  para  sair  triumphante.  Houve  tempo 
em  que  o  homem  partia  para  a  caça  do  javali  armado  exclusivamente  de 
uma  faca  e  de  uma  vara  extensa,  terminada  em  lamina  de  ferro  de  dois 
gumes  e  munida  de  um  gancho.  Procurava-se  o  javah,  provocava-se  e  de- 
pois, sustendo  a  vara  solidamente  com  uma  das  mãos  contra  o  corpo  e 
dando-lhe  direcção  com  a  outra,  fazia-se  face  ao  animal  em  cólera,  espe- 
rava-se  que  elle  arremettesse.  Então  dirigia-se  a  arma  que  acabamos  de 
descrever  contra  o  javali,  de  modo  que  o  ferisse  acima  do  esterno  e  lhe 
vazasse  o  corapão.  Também  se  empregava  muitas  vezes  uma  faca  ape- 
nas. O  capador  diante  do  javali  collocava  em  terra  o  joelho  esquerdo  c 
firmava  sobre  o  direito  o  punho  da  faca  que  mantinha  sohdamente  na 
mão;  o  javah  precipitava-se  contra  o  capador  e  encontrava  a  morte  no 
fio  cortante  da  arma  branca.  Gomprehende-se  bem  quanta  coragem, 
quanta  presenpa  de  espirito  e  quanta  agihdade  eram  precisas  para  obter 
a  victoria  n'estas  luctas  face  a  face,  em  que  o  menor  dcsíaUccimento,  o 
mais  hgeiro  descuido  podiam  decidir  da  vida  do  capador. 


228  HISTORIA   NATURAL 

Os  beduínos  do  Saliara  caçam  o  javali  a  cavallo  e  armados  de  lan- 
ças. Ás  vezes  ferem  apenas  o  animal  que  se  precipita  sobre  elles;  esca- 
pam á  vindicta  do  pachyderme,  graças  ao  galope  do  cavallo,  e  logo  de- 
pois voltam  ao  attaque  até  que  tenham  conseguido  matar  o  javali. 

Actualmente  a  arma  de  fogo  representa  o  principal  papel  na  caça 
do  javali,  como  de  resto  na  da  maior  parte  dos  animaes.  Os  perigos  di- 
minuem por  este  processo  até  ao  ponto  de  quasi  desapparecerem.  Como 
L.  Figuier  observa,  n'este  género  de  caça  os  cães  prestam  grandes  ser- 
viços, não  só  porque  descobrem  os  javalis  e  pelos  latidos  annunciam 
a  sua  presença  ao  caçador,  mas  ainda  porque  seguem  os  que  fogem 
feridos  denunciando  o  logar  em  que  foram  expirar. 


GAPTIVEIRO 


AíTirma  Figuier  que  o  javali,  apanhado  quando  novo,  é  susceptível 
de  uma  certa  domesticação;  chega  a  reconhecer  o  dono  e  a  seguil-o. 


usos   E    PRODUGTOS 


A  carne  do  javali  é  muito  estimada;  a  dos  recemnascidos,  sobre- 
tudo, é  excellente.  Os  mahometanos,  que  teem  a  carne  d'este  animal  na 
conta  de  impura,  não  a  comem,  mas  vendem-a  por  altos  preços. 

A  pelle  e  as  sedas  do  javah  teem  também  applicações  á  industria. 

É  de  observar  todavia  que  a  utiUdade  do  javah  está  muito  longe  de 
compensar  os  estragos  que  produz. 


mamíferos  em  especial  229 


O  JAVALI  DO  JAPÃO 


Differe  do  javali  ordinário  apenas  nas  dimensões  e  na  cor.  Tem  o 
tronco  curto,  a  cabeça  alongada  e  as  orelhas  pequenas  e  muito  cobertas 
de  pôllo.  O  corpo  é  em  geral  de  um  trigueiro  escuro;  o  ventre  é  branco. 
Dos  ângulos  da  bocca  parte  ao  longo  das  faces  uma  estria  clara. 


O  JAVALI  DA  índia 


Esta  espécie  é  mais  pequena  que  o  nosso  porco  domestico.  O  tronco 
é  coberto  de  sedas  pouco  abundantes,  muito  disseminadas;  o  ventre  e 
um  grande  espaço  que  fica  por  traz  das  orelhas  são  mis.  Os  pêllos  da 
parte  posterior  das  faces  constituem  uma  espécie  de  barba  e  os  da  fronte 
e  da  nuca  simulam  uma  crina.  Os  péllos  são  em  geral  negros  com  a 
ponta  de  um  trigueiro  amarellado,  o  que  dá  ao  manto  do  animal  a  cor 
trigueira  amarellada  com  manchas  negras.  Os  pés  e  o  focinho  são  tri- 
gueiros claros;  o  ventre  é  de  um  branco  pardacento. 


O  JAVALI  DO  PA PUS 


É  esta  a  espécie  mais  elegante  de  todas.  Tem  um  metro  de  compri- 
mento e  meio  de  altura.  A  face  e  o  ventre  são  quasi  nUs.  Os  péllos  são 


230  HISTORIA  NATURAL 

finos  e  pouco  abundantes.  O  focinho  é  negro  e  o  dorso  negro  e  ruivo; 
os  membros  são  de  um  trigueiro  accentuado,  as  faces,  a  região  inferior 
do  pescoço  e  o  ventre  brancos.  Os  olhos  oíTerecem  uma  cercadura  negra. 
O  macho  não  apresenta  os  dentes  desenvolvidos  que  n'outras  espé- 
cies constituem  verdadeiras  defezas. 


As  trez  ultimas  espécies  que  acabamos  de  enumerar  vivem  na  Ásia 
tanto  em  estado  perfeitamente  selvagem  como  em  captiveiro. 


O  JAVALI  DE  ORELHAS  EM  FORMA  DE  PINCEL 


Como  o  nome  indica,  o  que  ha  de  característico  n'esta  espécie  é  a 
forma  especial  das  orelhas  que  são  compridas,  aguçadas  para  a  parte 
superior  e  terminadas  por  pêllos  compridos  e  rijos  como  de  pincel.  Este 
animal  é  mais  pequeno  que  o  javali  ordinário.  O  dorso  é  coberto  de  pál- 
ios finos  e  eguaes;  os  do  ventre  e  das  partes  lateraes  do  corpo  são  com- 
pridos e  um  pouco  crespos.  Os  membros  são  quasi  mis.  O  dorso  é  ruivo 
e  amarello;  o  focinho,  os  membros  e  a  cauda  são  pardos  escuros.  Os 
péllos  terminaes  das  orelhas  são  brancos  e  os  olhos  apresentam  um  cir- 
culo amarellado. 


mamíferos  em  especial  231 


O  JAVALI  DOS  BOSQUES 


As  dimensões  cVesta  espécie  são  as  da  anterior.  Os  péllos  que  co- 
brem o  corpo  d'este  animal  são  muito  eguaes  em  geral;  os  das  faces 
constituem  uma  barba  forte  e  os  da  nuca  uma  verdadeira  crina.  A  cor 
geral  é  um  pardo  trigueiro  cora  reflexos  ruivos;  a  barba  e  a  crina  são 
de  um  pardo  esbranquiçado  e  as  orelhas  e  patas  de  um  trigueiro  escuro. 
Os  olhos  são  orlados  de  negro. 


As  duas  ultimas  espécies  de  que  falíamos  e  que  são  ainda  hoje  pouco 
conhecidas,  habitam  o  sul  da  Africa. 


2.  Porcos  domésticos 


Os  porcos  domésticos  consideram-se  como  derivados  das  espécies 
selvagens  que  acabamos  de  enumerar.  De  uma  só  ou  de  todas?  Do  ja- 
vali ordinário  apenas,  ou  das  espécies  asiáticas  e  africanas?  Eis  o  que 
se  não  sabe  precisamente. 

Actualmente  os  porcos  domésticos  existem  espalhados  por  uma  enorme 
superfície  da  terra.  Ao  Norte  estendera-se  tão  longe  como  a  agricultura; 
ao  Sul  vivem  de  ordinário  em  pleno  campo.  Dão-se  bem  nos  togares  pan- 
tanosos. Degeneram  um  pouco  nas  montanhas,  tornando-se-lhes  o  corpo 
mais  refeito,  a  cabeça  mais  curta  e  menos  ponteaguda,  a  região  frontal 
mais  larga,  o  pescoço  menos  extenso  e  mais  espesso,  a  parte  posterior 
do  dorso  mais  arredondada  e  as  patas  mais  fortes;  a  producção  da  gor- 
dura e  a  fecundidade  diminuem,  tornando-se  porém  a  carne  mais  tenra 
e  mais  delicada. 

O  clima,  a  natureza  do  solo  e  os  cruzamentos  influem  na  cor.  Assim 


232  ilISTOIlIA  NATURAL 

é  que  em  Portugal  e  Ilcspanha  são  vulgarissimos  os  porcos  negros,  ao 
passo  que  nos  paizes  do  Norte  são  muito  raros. 

São  communs  n'estes  pachydermes  os  vicios  de  conformarão,  prin- 
cipalmente em  relação  aos  cascos,  existindo  alguns  individues  que  apre- 
sentam um  único  e  outros  que  chegam  a  apresentar  cinco. 


GREAÇAO 


Griam-se  e  engordam-se  os  porcos  ou  ministrando-lhes  alimento  nos 
curraes  ou  deixando-os  em  liberdade  procurar  aquillo  de  que  preci- 
sam. Estes  dois  processos  dão  resultados  um  pouco  differentes:  pelo  pri- 
meiro, os  animaes  engordam  mais  rapidamente  e  tornam-se  maiores;  pelo 
segundo,  engordam  menos,  mas  tornam-se  em  compensação  mais  vigo- 
rosos e  menos  sujeitos  a  doenças  do  que  os  primeiros.  O  primeiro  pro- 
cesso é,  entre  nós  seguido  em  toda  a  província  do  Minho;  o  segundo  é 
seguido  no  Alemtejo.  Ha  ainda  um  processo  mixto  que  consiste  em  deixar 
livres  e  errantes  os  porcos  durante  o  estio  e  prendel-os  nos  curraes  du- 
rante o  inverno;  entre  nós  este  processo  não  é  seguido. 

Acredita-se  geralmente  que  a  immundicie  é  indispensável  á  prospe- 
ridade do  gado  suino.  Brehm  insurge-se  contra  esta  idéa  a  que  chama 
um  preconceito.  Affirma  o  eminente  naturalista  que  experiências  recentes 
demonstraram  que  o  porco  mantido  em  limpeza  prospera  muito  mais  que 
aquelle  que  se  conserva  na  immundicie  repugnante  dos  curraes.  Diz  mais 
o  naturalista  allemão  que  os  creadores  inteUigentes  substituiram  já  os  to- 
gares infectos,  as  pocilgas  destinadas  até  aqui  para  o  gado  suino  por 
porqueiros  vastos,  arejados  e  fáceis  de  lavar,  obtendo  assim  exemplares 
mais  fortes  e  mais  sadios. 

Os  porcos  domésticos  assemelham-se  notavelmente  nas  qualidades 
moraes  ás  espécies  selvagens  de  que  descendem.  São  glutões,  desobe- 
dientes e  não  manifestam  pelo  homem  uma  grande  dedicação. 

Esta  é  a  regra  geral;  ha  porém  excepções.  Brehm  cita  o  caso  de  um 
pequeno  porco  de  raça  chineza  que  seguia  o  dono  á  maneira  dos  cães, 
que  dava  pelo  nome,  correndo  ao  chamamento  e  que  dentro  de  casa  se 
comportava  convenientemente.  Este  porco  estava  adestrado  n'alguns  exer- 
cícios; tinham-o  encarregado  de  buscar  tortulhos  na  floresta  e  desempe- 
nhava-se  da  tarefa  com  cuidado.  Mantinha-se  em  pé  durante  alguns  mo- 
mentos e  curvava-se  quando  se  lhe  dizia:  vem  cá,  que  vaes  morrer. 

Brehm  para  provar  a  intelUgencia  de  alguns  porcos  cita  ainda  ou- 


mamíferos  em  especial  233 

Iros  casos  curiosos.  Conta  o  naturalista  que  estando  doente  Luiz  xi  e 
porfiando  os  vassallos  em  dissipar-ltie  a  tristeza,  sem  o  conseguirem,  al- 
guém se  lembrou  de  um  meio  que  deu  o  appetecido  resultado.  Esse  al- 
guém ensinou  alguns  bácoros  a  dançarem  ao  som  de  musica,  vesliu-os 
de  moços  fidalgos  ou  coisa  parecida,  adestrou-os  no  exercício  de  fazerem 
cumprimentos  e  exhibiu-os  deante  do  rei.  Em  face  das  habilidades  cómi- 
cas dos  pequenos  pachydermes,  a  magestade  teve  uns  accessos  hilarian- 
tes que  encheram  de  jubilo,  naturalmente,  os  fieis  cortezãos. 

Tem-se  ensinado  porcos  a  puxarem  a  carros;  um  aldeão  das  cerca- 
nias de  Saint-Alban  apparecia  muitas  vezes  nos  mercados  dentro  de  ura 
carro  tirado  por  quatro  porcos.  Também  se  conhecem  exemplos  de  por- 
cos que  se  deixam  montar  e  conduzir  pelo  cavalleiro.  Brehm  cita  o  caso 
de  um  outro  aldeão  que  apostara  percorrer  no  espaço  de  uma  hora 
quatro  milhas,  montado  no  seu  porco  e  que  ganhou  a  aposta. 

Wood  conta  que  na  Inglaterra  existiu  um  porco  adestrado  na  caça  e 
que  prestava  tantos  serviços  como  o  melhor  dos  cães.  Passámos  em  claro 
outros  casos  que  nos  não  parecem  authenticos  e  segundo  os  quaes  o 
porco  seria  capaz  por  exemplo,  de,  tendo  collocadas  no  chão  as  lettras 
do  alphabeto  e  sendo  pronunciada  uma  palavra,  procurar  as  lettras  con- 
venientes e  dispol-as  por  ordem  de  maneira  a  formar  o  vocábulo  que  se 
proferiu. 

Um  facto  muito  curioso  e  que  geralmente  se  aponta  é  o  do  horror 
dos  porcos  pelos  cães.  «Selvagens  ou  domésticos,  diz  Brehm,  os  porcos 
não  fazem  escrúpulo  algum  de  comer  as  carnes  dos  cadáveres;  comtudo 
nenhum  se  atreve  a  tocar  na  carne  de  um  cão  morto.»  *  Lenz  escreve 
também:  «No  porqueiro  de  Gobourg  lançam-se  muitas  vezes  aos  animaes 
cavallos  mortos  que  eUes  devoram  com  avidez;  mas  se  se  lhes  atira  um 
cão,  nenhum  lhe  toca.»  ^ 

Os  porcos  domésticos  são  animaes  omnívoros;  tanto  lhes  convém  a 
aUmentação  animal  ou  vegetal,  como  a  mixta.  Tudo  o  que  o  homem 
come  podem  elles  comel-o  com  aproveitamento. 

Aos  porcos  que  se  destinam  á  matança  e  que  é  preciso  engordar 
convém  impedir-lhes  os  movimentos  ou  pelo  menos  restringil-os,  cir- 
cumscrevendo  estes  animaes  em  curtos  espaços;  aos  que  se  utihsam  na 
reproducção  é  preciso,  pelo  contrario,  dar  espaço  largo,  é  indispensável 
conceder-lhes  que  se  exercitem. 

O  coito  reahsa-se  duas  vezes  por  anno:  em  Abril  e  em  Setembro. 
A  gestação  dura  dezeseis  a  dezoito  semanas  ou  cento  e  quinze  a  cento  e 


1  Brohm,  Obr.  dt.,  vol.  2.",  pg.  780. 

2  Citado  por  Brcliin,  ibid. 


2M  HISTORIA  NATURAL 

dezoito  dias;  o  parto  produz  um  numero  muito  variável  de  filhos,  lia 
fêmeas  que  chegam  excepcionalmente  a  parir  vinte  ou  vinte  e  quatro  fi- 
lhos; os  casos  mais  vulgares  são  de  quatro  a  seis.  Não  são  communs, 
mas  não  pode  dizer-se  também  que  sejam  extremamente  raros  os  partos 
que  produzem  doze  a  quinze  indivíduos.  De  ordinário,  as  primiparas  dão 
menos  fdlios  que  as  multíparas,  o  que  também  se  realisa  nas  espécies 
selvagens.  Muitas  vezes,  quando  a  progenitura  é  extremamente  nume- 
rosa, a  fêmea  mata  alguns  filhos,  esmaga-os  e  devora-os.  Fêmeas  ha  que 
é  preciso  vigiar  cuidadosamente  e  privar  de  alimentos  animaes  antes  do 
parto.  Os  filhos  deixam-se  mamar  por  espaço  de  quatro  semanas,  depois 
do  que  se  afTastam  da  mãe;  principia-se  a  dar-lhes  então  uma  alimenta- 
ção solida,  pouco  abundante.  Crescem  rapidamente;  aos  oito  mezes  estão 
aptos  para  se  reproduzirem. 

O  nome  de  porco  dá-se  indifíerentemente,  de  ordinário,  ao  indivi- 
duo castrado  ou  não  castrado;  este  ultimo  tem  comtudo  para  os  crea- 
dores  os  nomes  especiaes  de  marrão  ou  varrasco. 


usos  E   PRODUGTOS 


o  porco  é  um  animal  mais  útil  depois  de  morto  do  que  em  vida; 
sabem  todos  que  famosa  carne  elle  nos  fornece,  conhecem  todos  as  múl- 
tiplas apphcações  da  gordura  que  lhe  extraímos.  É  certo  porém,  que 
mesmo  em  vida  o  porco  tem  uma  certa  utilidade :  penetrando  nas  terras 
de  pousio,  revolve-as  e  cata-as  completamente  de  todos  os  pequenos  roe- 
dores, de  todos  os  vermes,  collocando-as  assim  nas  melhores  condições 
de  cultura. 


OS  PHACOCHEROS 


Na  Africa  existem  uns  representantes  monstruosos  da  família  dos 
porcinos  ou  suidios:  são  os  phacocheros. 


mamíferos  em  especial  235 


CARACTERES 


Estes  pachydermes  são  muito  mais  altos  que  os  porcos  domésticos  e 
os  javalis;  as  pernas  são  relativamente  compridas.  A  cabeça  é  horrivel. 
Os  olhos  e  as  orelíias  são  pequenos.  O  focinho  é  largo  e  a  face  coberta 
de  verrugas  cutâneas  espessas.  Os  dentes  caninos  da  maxilla  superiores 
são  muito  grandes,  voltados  para  cima  e  recurvos  para  dentro  e  para 
diante;  os  da  maxilla  inferior  são  muito  mais  curtos  mas  teem  precisa- 
mente a  mesma  direcção  que  os  outros. 

Gonhecem-se  duas  espécies  d'este  género. 


O  PHACOCHERO  OU  JAVALI  ENGALLA  DE  ANGOLA 


É  indubitavelmente  o  mais  feio  representante  dos  suidios.  Tem  o 
pescoço  curto,  grosso,  o  dorso  largo,  as  patas  fortes,  a  cabeça  pezada,  o 
focinho  largo,  achatado,  de  extremidade  volumosa,  as  narinas  muito  se- 
paradas, o  lábio  superior  espesso,  saliente,  os  olhos  pequenos,  coUocados 
muito  superior  e  posteriormente  e  as  orelhas  curtas  e  muito  cobertas  de 
pêllo.  A  pelle  é  espessa,  rugosa  e  de  sedas  raras;  comtudo  desde  o  alto 
da  nuca  até  ao  meio  da  columna  vertebral  existem  sedas  em  numero  e 
comprimento  bastante  para  formarem  uma  espécie  de  crina.  A  côr  geral 
é  o  trigueiro;  as  orelhas  são  brancas. 

Este  pachyderme  não  possue  dentes  incisivos. 


236  HISTORIA    NATURAL 


COSTUMES 


Descrevendo  a  espécie  seguinte,  diremos  o  que  se  sabe  sobre  este 
assumpto;  sob  o  ponto  de  vista  de  regimen  e  hábitos  de  vida  as  duas 
espécies  não  diíTerem  uma  da  outra. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHICA 


Encontra-se  o  javali  engalla  de  Angola  desde  o  Cabo  até  ao  golpho 
de  Guiné. 


O  PHACOCHERO  OU  JAVALI  DE  ELIANO 


Este  animal  é  também  conhecido  na  historia  natural  pelo  nome  de 
phacochero  de  incisivos.  Esta  denominação  indica  desde  logo  um  dos  ca- 
racteres que  o  diíFerenceiam  da  espécie  anteriormente  descripta.  Um  outro 
caracter  differencial  é  a  pequenez  relativa  dos  caninos.  Os  incisivos  são 
dois.  Aparte  estas  pequenas  differenças,  esta  espécie  assemelha-se  inteira- 
mente á  congénere. 


DISTRIBUIÇÃO    GEOGRAPHICA 


O  phacochero  de  EKano  encontra-se  provavelmente  em  toda  a  Africa 
central. 


mamíferos  em  especial  237 


COSTUMES 


Da  vida  e  costumes  d'esta  espécie,  bem  como  da  precedente,  sa- 
be-se  muito  pouco.  Resumiremos  o  que  ha  de  averiguado. 

Os  phacocheros  são  animaes  sociáveis;  encontram-se  sempre  aos 
bandos  de  dez  a  quinze  individuos  nas  florestas  e  brenhas,  logares  a  que 
dão  preferencia.  Nas  florestas  que  cobrem  as  montanhas  da  Abyssinia 
são  communs  estes  bandos.  Segundo  Riippel,  os  phacocheros  alimen- 
tam-se  exclusivamente  de  raizes,  o  que,  diz  Brehm,  explicaria  as  fortes 
e  extensas  defezas  que  possuem.  Quando  marcham,  fazem-o  rastejando, 
de  modo  que  deixam  sulcos  profundos  no  solo;  d'ahi  vêem  as  callosida- 
des  que  apresentam  na  face  anterior  do  corpo.  É  realmente  singular  este 
modo  de  progressão! 

Na  Abyssinia  tanto  os  christãos  como  os  mahometanos  consideram 
impura  a  carne  d'estes  animaes  e  por  isso  não  lhes  dão  caça. 

Segundo  a  opinião  de  Smith,  estes  animaes  são  tão  temerários  como 
mãos.  Raras  vezes  fogem;  acceitam  de  ordinário  o  combate  de  quem 
quer  que  os  persiga. 


CAPTIVEIRO 


Em  1775  appareceu  na  Europa  o  primeiro  phacochero  vivo,  prove- 
niente do  Cabo.  Viveu  muito  tempo  no  jardim  zoológico  de  La  Haye,  onde 
era  considerado  como  um  animal  muito  dócil.  Um  dia  porém  a  malvadez 
ingénita  manifestou-se;  o  phacochero  atirou-se  sobre  o  guarda  e  feriu-o 
mortalmente  com  uma  dentada.  Rasgou  também  o  ventre  a  uma  porca 
domestica  que  lhe  haviam  juntado  na  esperança  de  um  coito.  O  alimento 
d'este  pachyderme  captivo  era  análogo  ao  de  todos  os  porcos. 

Brehm  diz  ter  visto  um  par  d'estes  animaes  em  Anvers,  verificando 
então  o  que  Riippel  afíirma  relativamente  á  marcha  que  os  caracterisa. 


238  HISTORIA  NATURAL 


OS  TAJAÇUS 


Como  observam  os  naturalistas,  a  America  não  é  rica  em  suidios; 
as  espécies  que  possue  são  poucas  e,  além  d'isso,  muito  mais  pequenas 
que  as  do  antigo  continente.  Essas  espécies  constituem  o  género  dos  ta- 
jai'us,  animaes  que  se  caracterisam  pela  presença  de  trez  dedos  apenas 
nos  pés  posteriores,  por  uma  cauda  rudimentar,  pela  existência  sobre  o 
dorso  de  uma  glândula  especial  secretora  de  um  liquido  fétido  e  emíim 
pelo  numero  de  dentes  que  é  de  trinta  e  oito:  dois  pares  de  incisivos 
na  maxilla  superior  e  trez  na  inferior,  um  par  de  caninos  e  seis  de  mol- 
lares  em  cada  maxilla. 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPHICA 


São  próprios  das  regiões  quentes  da  America. 


O  TAJAÇU  DE  COLLEIRA 


É  um  animal  pequeno  de  metro  e  meio  de  comprido  sobre  trinta  e 
trez  a  quarenta  centímetros  de  altura.  Aos  caracteres  genéricos,  descri- 
ptos  já,  é  preciso  juntar  que  este  animal  possue  a  cabeça  alta,  o  focinho 
obtuso  e  as  sedas  compridas  e  espessas,  de  um  trigueiro  accentuado  na 
raiz  e  na  ponta  e  anneladas  de  fulvo  e  negro  no  meio.  Entre  as  orelhas 
e  ao  longo  do  dorso,  as  sedas  alongam-se  um  pouco.  A  cor  geral  d'este 
pachyderme  é  um  trigueiro  escuro,  passando  a  amarello  dos  lados  e 
apresentando  ahi  cambiantes  de  branco.  O  ventre  é  trigueiro  e  o  peito 


mamíferos  em  especial  239 

branco;  d'esta  região  parte  uma  facha  amarella  que  ascende  até  acima 
das  espáduas,  constituindo  uma  como  coUeira.  D'aqui  o  nome  da  espécie. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHIGA 


O  tajaçu  de  colleira  é  commum  em  todas  as  florestas  da  America  do 
Sul  até  cerca  de  mil  metros  acima  do  nivel  do  mar. 


COSTUMES 


O  tajaçu  de  colleira  é  eminentemente  sociável;  percorre  as  flores- 
tas em  bandos  numerosos  sob  a  direcpão  do  macho  mais  forte.  Todos  os 
dias  varia  de  habitação.  «Nada  é  capaz,  diz  Rengger,  de  os  suspender 
nas  suas  viagens,  nem  os  campos  descobertos  nem  os  cursos  d'agua.  Se 
chegam  a  um  campo,  attravessam-o  a  galope;  se  encontram  uma  cor- 
rente, passam-a  a  nado.  Assim  os  vi  attravessar  o  rio  do  Paraguay  n'um 
ponto  em  que  tinha  mais  de  meia  légua  de  largura.  O  bando  avançava 
compacto  com  os  machos  adiante  e  logo  depois  as  fêmeas  seguidas  dos 
filhos.  Ouviam-se  e  reconheciam-se  de  longe  os  animaes  não  tanto  pelos 
gritos  surdos  e  roucos  que  soltavam  como  pelo  ruido  que  faziam  atravez 
das  brenhas.»  Ás  vezes  os  bandos  são  tantos  e  tão  numerosos  que  nem 
o  tigre  se  atreve  com  elles;  quando  os  vé  passar  esconde-se  por  traz 
de  uma  arvore.  São  estas,  pelo  menos,  as  informações  colhidas  por  Ilum- 
boldt  da  bocca  dos  indígenas. 

O  tajaçu  procura  indifferentemente  de  dia  ou  de  noite  o  ahmento. 
Come  fructos  e  raizes  que  desenterra  com  o  focinho. 

Nos  togares  habitados  penetra  muitas  vezes  nas  plantações  fazendo 
ahi  grandes  estragos.  Faz  uma  guerra  de  morte  ás  serpentes,  aos  lagar- 
tos e  aos  vermes. 

Em  muitos  dos  seus  hábitos  assemelha-se  aos  javahs;  não  é  todavia 
glutão  e  sujo  como  estes  animaes.  Não  come  senão  o  preciso  para  matar 
a  fome  e  não  se  suja  nos  charcos  senão  em  tempos  de  excessivo  calor. 

De  dia  occulta-se  ordinariamente  nas  cavidades  das  arvores,  entre 
as  raizes;  quando  se  lhe  faz  caça  é  ahi  que  se  refugia  sempre. 


240  IIISTOKJA    NATUllAL 

Relativamente  aos  sentidos,  sabe-se  que  apresentam  de  ordinário 
pequeno  desenvolvimento;  a  vista  é  má  e  apenas  o  ouvido  e  o  olfato  oíFe- 
recem  uma  certa  perfeição.  A  intelligencia  6  limitadissima. 

A  fêmea  dá  á  luz  em  cada  parto  dois  filhos  que  pouco  depois  de 
nascidos  seguem  a  mãe  por  toda  a  parte. 


CACA 


Tem-se  dito  que  o  tajaçu  é  um  animal  de  incomparável  temeridade, 
tem-se  mesmo  afirmado  que  elle  é  para  o  homem  e  para  os  grandes  car- 
niceiros o  mais  sério  dos  adversários.  Humboldt  e  Rengger  não  subscre- 
vem a  taes  aflirmações.  Dizem  estes  naturalistas  que  um  homem  só,  a  pé 
e  seguido  de  cães,  não  corre  grande  risco  em  se  defrontar  com  um 
bando  de  tajapus.  Pode  ser  hgeiramente  ferido  no  momento  do  encontro; 
comtudo  os  pachydermes  fugirão,  porque  de  ordinário  nem  aos  cães  con- 
seguem fazer  frente. 

Os  meios  empregados  na  caça  são  principalmente  as  armas  de  fogo 
e  a  lança.  Também  se  cavam  grandes  fossos  de  trez  metros  de  profun- 
didade ou  mais,  perto  das  plantações  em  que  os  tajaçus  teem  por  cos- 
tume penetrar;  depois  impellem-se  a  gritos  n'essa  direcção  de  modo  que 
ahi  vão  cair,  em  grande  numero  muitas  vezes.  Wood  diz  que  o  caçador 
sabendo  que  um  bando  de  tajaçus  se  abrigou  na  cavidade  de  uma  ar- 
vore, tem  um  processo  simples  de  os  extinguir:  o  caçador  mata  a  sen- 
tinella  que  é  substituída  por  outra  que  mata  também  e  assim  successi- 
vamente  até  ao  ultimo  tajaçu.  Não  sabemos  o  que  ha  de  verdade  n'esta 
aíTirmação;  parece-nos  porém  que  não  deveremos  acceital-a  sem  uma 
certa  duvida,  porque  Wood  mostra-se  muito  mal  informado  no  que  res- 
peita ao  conhecimento  do  tajaçu. 


CAPTIVEIRO 


Bem  tratado,  o  tajaçu  torna-se  um  verdadeiro  animal  domestico. 
Humboldt  diz  que  elle  supporta  o  captiveiro  tão  bem  como  o  porco  ou  o 
veado;  e  Rengger  aííirma,  pelo  seu  lado,  que  elle  contrae  aíTeição  ao  ho- 


mamíferos  em  especial  241 

mem  e  aos  companheiros  de  captiveiro.  Brehm  contesta  a  aífeição  dos 
tajapus  pela  nossa  espécie,  assegurando  que  os  que  tem  visto  são  coléri- 
cos, mãos,  dispostos  sempre  a  morder. 

O  tajaçu  é  vulgar  nos  jardins  zoológicos  da  Europa,  cujo  clima  sup- 
porta  perfeitamente.  Tem-se  reproduzido  na  Inglaterra.  A  alimentação 
que  se  dá  a  este  pacliyderme  em  captiveiro  é  a  mesma  que  se  distribue 
aos  porcos  domésticos. 


usos  E  PRODUCTOS 


A  pelle  do  tajaçu  serve  para  a  fabricação  de  saccos  e  correias.  A 
carne  de  que  as  classes  pobres  fazem  alimento  é  de  sabor  agradável, 
mas  muito  inferior  á  do  porco  domestico.  Quando  se  quer  comer  a  carne 
de  um  tajaçu  que  acaba  de  matar-se  depois  de  uma  demorada  persegui- 
ção, é  mister  extrair  immediatamente  a  glândula  dorsal;  se  isto  senão 
fizer  o  mao  cheiro  do  hquido  segregado  communicar-se-ha  á  carne,  tor- 
nando-a  insupportavel. 


A  outra  espécie  do  género  dos  tajaçus,  conhecida  pela  designação 
latina  de  dycotiles  labeatus,  não  diíTere  nem  morphologicamente,  nem  sob 
o  ponto  de  vista  dos  costumes,  da  que  acabamos  de  estudar  por  forma 
que  mereça  uma  descripção  especial. 


OS  BABIROSAS 


O  nome  de  babirosas  ethimologicamente  considerado  significa — por- 
cos-veados.  Este  nome  singular  justifica-se  até  certo  ponto  pela  circums- 

VOL.  ui  16 


242  HISTORIA    NATURAL 

lancia  de  serem  os  caninos  crestes  animaes  de  lai  modo  extensos  e  re- 
curvos que  parecem  cornos. 

D'este  género  conhece-se  uma  espécie  única,  que  tem  a  mesma  de- 
signação do  género. 


O  BABIROSA 


Este  animal  apresenta,  termo  médio,  um  metro  de  comprimento  so- 
bre oitenta  centímetros  de  altura;  a  cauda  mede  vinte  e  cinco  centíme- 
tros. 

O  babirosa  assemelha-se  muito  a  todos  os  porcos.  Tem  o  corpo  alon- 
gado, volumoso,  um  pouco  comprimido  lateralmente,  o  dorso  ligeira- 
mente arqueado,  o  pescoço  curto  e  grosso,  a  cabeça  alongada  e  relati- 
vamente pequena,  a  região  frontal  um  pouco  arqueada  e  a  extremidade 
do  focinho  movei  e  obtusa  como  nos  javalis  e  terminada  por  uma  parte 
córnea  de  bordos  callosos  e  excedendo  muito  o  lábio  inferior.  Os  mem- 
bros são  fortes  e  terminados  por  quatro  dedos.  Os  olhos  são  pequenos  e 
não  apresentam  sobrancelhas;  as  orelhas,  de  comprimento  médio,  são 
finas,  estreitas,  ponteagudas  e  rectas. 

O  que,  indubitavelmente,  ha  de  mais  importante  e  de  mais  caracte- 
rístico n'este  pachyderme,  são  os  caninos  da  maxilla  superior.  Finos, 
ponteagudos,  dirigidos  para  cima  e  para  traz,  estes  dentes  tornam-se 
tão  compridos,  diz  Brehm,  nos  animaes  velhos  que  ás  vezes  chegam  a 
penetrar  na  pehe  da  fronte  em  cuja  direcção  se  recurvam  em  semi-cir- 
culo.  A  face  anterior  d'estes  dentes  é  arredondada  e  o  bordo  posterior 
cortante.  Os  caninos  da  maxilla  inferior  são  mais  curtos  e  menos  recur- 
vos. Estes  dentes  são  na  fêmea  muito  menores  que  no  macho. 

O  corpo  do  babirosa  é  coberto  de  pêhos  muito  curtos  e  espalhados, 
mais  abundantes  ao  longo  da  columna  vertebral,  entre  as  pregas  cutâneas 
e  na  extremidade  da  cauda,  onde  formam  um  tufo,  do  que  em  qualquer 
outra  região.  A  pelle  é  dura,  espessa  e  rugosa,  com  pregas  muito  pro- 
fundas no  focinho,  em  torno  das  orelhas  e  no  pescoço.  O  dorso  e  a  parte 
externa  dos  membros  são  cor  de  cinza  e  a  face  interna  dos  membros  cor 


mamíferos  em  especial 


243 


de  ferrugem.  As  extremidades  das  sedas  formam  sobre  a  linha  media 
uma  como  estria  clara,  de  um  amarello  trigueiro.  As  orelhas  são  negras. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPinCA 


É  muito  commum  o  babirosa  nas  ilhas  Celebes,  que  devem  ser  con- 
sideradas a  sua  verdadeira  pátria. 


COSTUMES 


Procura  de  preferencia  para  habitação  as  florestas  pantanosas,  as 
margens  dos  lagos  e  todas  as  regiões  onde  crescem  com  abundância  as 
plantas  aquáticas.  É  sociável;  em  todos  os  pontos  que  acabamos  de  men- 
cionar vive  em  bandos  mais  ou  menos  numerosos.  É  animal  nocturno; 
como  tal,  dorme  o  dia  todo  e  só  depois  que  o  sol  declina  procura  o 
alimento. 

Caminha  mais  rapidamente  que  o  javaU  e  é  um  bello  nadador. 

De  ordinário,  evita  o  homem,  fugindo  e  escondendo-se,  desde  que  o 
presente;  mas  se  é  attacado  de  perto,  se  é  surprehendido  sabe  fazer  face 
ao  perigo  com  immensa  coragem.  Os  dentes  são-lhe  poderosíssimas  armas 
de  defeza. 

Como  explicar  a  forma  especial  dos  caninos  n'esta  espécie?  Tem-se 
dito  que  o  animal  se  prende  por  elles  ás  arvores  e  assim  solidamente 
sustentado  se  balança.  Não  sabemos  até  que  ponto  se  deve  crer  no  facto 
aífirmado. 

O  ouvido  e  o  olfato  são  de  todos  os  sentidos  os  mais  perfeitos.  A 
intelhgencia  é  muito  limitada. 

A  fêmea  pare  em  Fevereiro  um  a  dois  fdhos,  de  dezeseis  a  vinte  e 
dois  centímetros  de  comprimento. 


244  HISTORIA  NATURAL 


GAGA 


Os  indígenas  empregam  a  lança  oa  as  armadilhas  na  caça  do  ba- 
birosa. 


GAPTIVEIRO 


Apanhado  e  reduzido  ao  captiveiro  emquanto  novo  o  babirosa  altinge 
um  certo  grão  de  domeslicidade,  habitua-se  ao  dono  cuja  voz  reconhece 
e  manifesta  por  elle  uma  certa  dedicação.  Tem  apparecido  na  Europa  al- 
guns exemplares  d'esta  espécie,  os  quaes  se  teem  reproduzido;  é  certo 
porém  que  são  ainda  hoje  muito  raros  nos  jardins  zoológicos. 


OS  HIPPOPOTAMOS 


São  os  mais  pesados  e  massudos  dos  mamíferos  terrestres.  As  per- 
nas são  extremamente  curtas  em  relação  ao  tronco;  cada  pata  apresenta 
quatro  cascos.  O  focinho  é  largo,  obtuso  e  não  prolongado  em  forma  de 
tromba;  a  pelle  é  desnudada.  A  dentição  comprehende  dois  a  trez  inci- 
sivos, um  canino  e  sete  mollares. 

O  esqueleto  é  forte.  O  craneo  é  quasi  quadrilátero,  achatado  e  com- 
primido; a  cavidade  cerebral  é  muito  pequena.  Todos  os  ossos  são  pe- 
sados e  volumosos.  Os  dentes  dífferem  consideravelmente  dos  de  todos 


mamíferos  em  especial  245 

os  pachydermes  vivos  e  em  nada  lembram  os  dos  porcinos.  Os  grandes 
caninos  inferiores  são  recurvos  em  semi-circulo  e  cliegam  no  maclio  a  at- 
tingir  a  extensão  de  um  metro;  os  superiores  são  egualmente  recurvos, 
mas  menos  extensos  e  de  pontas  rombas.  Nem  uns,  nem  outros  fazem, 
a  despeito  da  grande  extensão,  saliência  no  exterior. 

Existiram  em  epoclias  anteriores  á  nossa  muitas  espécies  d'este  gé- 
nero. Hoje  apenas  se  conhece  uma  bem  authentica,  que  vive  na  Africa. 


O  HIPPOPOTAMO  AMPHIBIO 


Esta  espécie  foi  muito  conhecida  dos  romanos  que  nos  circos  públi- 
cos apresentaram  diversas  vezes  muitos  exemplares.  Os  gregos  conhe- 
ceram também  o  hippopotamo  amphibio;  a  designação  hippopotamo  é 
mesmo  composta  de  dois  vocábulos  gregos  e  significa,  litteralmente,  ca- 
vallo  do  rio. 

Desde  o  terceiro  século  da  nossa  era  até  1850  não  appareceu  na 
Europa,  aífirma  Brehm,  um  único  hippopotamo. 


CARACTERES 


A  dentição  e  a  cabeça  distinguem  o  hippopotamo  de  todos  os  ma- 
míferos existentes.  Da  dentição  falíamos  acima;  não  insistiremos  n^estc 
ponto.  A  cabeça  é  quadrangular  e  cararterisada  por  um  focinho  alto, 
alongado,  de  uma  largura  espantosa.  Como  todo  o  animal,  o  focinho  6 
disforme.  A  face  superior  é  chata  e  o  lábio  superior,  pendente,  cobre  de 
um  modo  completo  a  bocca.  As  narinas  são  obliquas,  muito  separadas 
uma  da  outra.  O  corpo  é  grosso,  pezadissimo,  alongado  e  quasi  cylin- 
drico. 

A  região  do  sacro  é  mais  elevada  que  a  das  espáduas;  o  ventre  é 
pendente  e  raza  o  solo  quando  o  animal  caminha.  Os  membros  não  ex- 


2  46  HISTORIA  NATURAL 

cedem  muito  sessenta  e  seis  centímetros  de  altura.  A  cauda  é  curta,  del- 
gada, comprimida  lateralmente  e  coberta  na  extremidade  livre  de  sedas 
curtas  e  rijas  como  fios  de  ferro;  o  resto  do  corpo  é  quasi  desnudado. 

A  pelle  apresenta  uma  espessura  superior  a  trez  centímetros  e 
forma  algumas  pregas  muito  profundas  no  pescoço  e  na  parte  anterior  do 
peito.  Sulcos  numerosos  e  entrecruzados  formam  sobre  a  pelle  umas 
como  escamas,  ora  grandes,  ora  pequenas. 

A  côr  geral  da  pelle  é  o  trigueiro  cobreado  que  no  ventre  se  torna 
claro.  Manchas  azuladas  e  outras  de  um  trigueiro  menos  acentuado  que 
o  que  forma  o  fundo  geral  da  pelle,  espalhadas  com  regularidade  dão  ao 
corpo  do  hippopotamo  uma  certa  variedade.  De  resto,  é  mister  observar 
que  a  côr  varia  conforme  o  animal  está  húmido  e  sêcco.  Com  eífeito  ao 
sair  da  agua,  o  animal  parece  mais  claro  do  que  quando  toda  a  humi- 
dade tem  desapparecido. 

Sob  a  pelle  do  hippopotamo  encontra-se  de  ordinário  uma  camada 
de  gordura  de  oito  a  dezeseis  centímetros  de  espessura. 

O  hippopotamo  adulto  pode  attingir  perto  de  cinco  metros  de  com- 
prido, pertencendo  meio  metro  apenas  á  cauda.  A  altura,  ao  nivel  da 
espádua,  é,  quando  muito,  de  um  metro  e  oitenta  centímetros.  A  circum- 
ferencia  do  tronco  é  de  quatro  metros  a  quatro  metros  e  trinta  centíme- 
tros; o  pezo  do  animal  adulto  eleva-se  de  vinte  e  cinco  a  trinta  e  cinco 
quintaes. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHIGA 


Houve  tempo  em  que  na  Africa  oriental  e  central  o  hippopotamo 
amphibío  era  muito  vulgar.  Já  hoje  não  acontece  o  mesmo.  Á  medida 
que  o  homem  estende  no  continente  africano  os  seus  domínios,  o  hippo- 
potamo recua  e  morre  a  tiro.  O  gigante  pachyderme  abandonou  já  o 
Egypto  e  a  Núbia  onde,  no  dizer  de  Ruppel,  era  vulgar  ainda  no  começo 
d'este  século.  Comparando  as  informações  dos  antigos  com  as  dos  moder- 
nos viajantes  e  naturahstas,  ve-se  bem  quanto  está  hoje  reduzido  o  nu- 
mero d'esses  gigantes  informes  e  monstruosos  que  alguns  escríptores 
consideram  últimos  representantes  dos  tempos  fabulosos  e  que  segura- 
mente são  os  restos  de  uma  fauna  destinada  a  desapparecer.  Comtudo 
ainda  hoje  não  é  raro  o  hippopotamo  no  Sudan  oriental. 


mamíferos  em  especial  24' 


COSTUMES 


De  todos  os  auctores  que  se  occupara  da  vida  e  hábitos  do  tiippo- 
potamo,  é  Brehm  o  que  dá  mais  amplas  e  minuciosas  informações.  Este 
naturalista  diz:  «Tive  muitas  occasiões  de  ver  o  hippopotamo;  posso  pois, 
fazer  a  historia  dos  seus  costumes,  guiando-me  por  observações  pró- 
prias.» * 

A  este  auctor  seguiremos  pois  de  preferencia  n'este  artigo. 

A  tendência  que  todos  os  pachydermes  teem  para  a  agua,  a  incli- 
nação que  sentem  para  se  banhar  tornam-se  no  hippopotamo  imperiosas 
necessidades,  attingem  n'ene  o  máximo  grão  de  elevação.  Assim  é  que 
este  pachyderme  vive  quasi  sempre  na  agua,  saindo  para  terra  íirme  só 
excepcionalmente:  de  noite  para  procurar  aUmento  quando  as  margens 
do  rio  não  abundam  em  plantas,  de  dia  para  se  aquecer  de  quando  em 
quando  ao  sol.  Passa  pois  a  maior  parte  do  seu  tempo  mettido  na  agua 
dos  rios  em  que  nada  e  mergulha  com  extraordinária  facilidade,  como  se 
fosse  esse  o  seu  meio  próprio. 

Quando  nos  abeiramos  de  um  rio  em  que  vivem  hippopotamos, 
apercebemo-nos  geralmente  a  distancia  da  existência  d'esses  pachyder- 
mes pelo  som  particular  que  ouvimos  de  agua  projectada  a  distancia  por 
um  sopro  violento.  É  que  o  hippopotamo,  que  se  apraz  em  viver  sob  a 
agua,  sente  de  espaço  a  espaço  a  necessidade  de  respirar  e  fluctua  en- 
tão, despejando  ruidosamente  quando  chega  ao  lume  d'agua,  o  hquido 
que  se  lhe  alojara  nas  espaçosas  narinas.  O  tempo  que  o  hippopotamo 
se  conserva  debaixo  d'agua  é  pequeno  de  ordinário;  e  Brehm  considera 
um  erro  completo  a  affirmação  que  fazem  alguns  naturahstas  de  que  o 
enorme  pachyderme  pode  permanecer  mergulhado  durante  dez  minutos. 
Segundo  Brehm,  o  hippopotamo  não  poderia  conservar-se  debaixo  d'agua 
nem  mesmo  cinco  minutos. 

A  pista  do  hippopotamo  é  fácil  de  reconhecer:  consiste  em  buracos 
collocados  ao  longo  de  um  sulco  como  contas  cm  fio  de  rosário.  Os  bu- 
racos são  formados  pelos  pés  que  se  enterram  no  solo  e  o  sulco  é  o  ves- 
tígio da  passagem  do  ventre  que,  como  dissemos  acima,  rasteja  quando 
o  animal  marcha. 


^     Brehm,  Ohr.  cif,,  vol.  2.»,  pg.  778. 


^48  lilSTORÍA  NAtUàAL 

Nos  rios  em  que  se  não  faz  capa  ao  hippopotamo  aflirma  Brebm  que 
se  pode  navegar  em  grandes  barcos,  porque  o  pachydcrmc  não  os  at- 
taca. 

Como  quasi  todos  os  pacliydermes,  o  hippopotamo  é  sociável;  pou- 
cas vezes  se  encontra  um  só.  Bretim  diz  nunca  ter  visto  bandos  superiores 
a-  seis  individues;  outros  naturalistas  porém,  faliam  de  aggremiações 
muito  mais  numerosas. 

Só  nos  legares  completamente  desertos  é  que  o  hippopotamo  se 
aventura  a  sair  da  agua  durante  o  dia  para  se  deitar  nas  margens,  dor- 
mitando. Então  estende-se  commodamente  na  terra  molle  e  húmida  com 
a  mesma  voluptuosidade  com  que  os  porcos  se  espojam  e  os  búfalos  se 
banham.  De  tempos  a  tempos  o  macho  faz  ouvir  um  grunhido  surdo  ou 
levanta  a  cabeça  para  ver  o  que  se  passa  em  volta. 

No  meio  dos  hippopotamos  agitam-se  muitas  aves.  Uma  ha  conhecida 
na  Africa  pelo  nome  de  ave  das  chuvas  que  volita  constantemente  em 
roda  d'estes  pachydermes,  tirando-lhes  da  pelle  as  sanguesugas  e  os  in- 
sectos que  a  ella  adherem.  Um  esparavâo  caminha  de  ordinário  a  passos 
largos  sobre  o  dorso  d'estes  collossos,  desembaraçando-os  também  dos 
vermes.  Ao  sul  da  Africa  o  ani  substituo  geralmente  estas  aves.  Os  árabes 
de  Sudan  acreditam  que  a  ave  das  chuvas  (hyas  aegyptiacus)  adverte  o 
hippopotamo  da  approximação  dos  perigos;  e  a  verdade  é,  refere  Brehm, 
que  o  pachyderme  presta  attenção  aos  gritos  do  seu  pequeno  e  vigilante 
amigo  e  corre  para  a  agua  desde  que  a  ave  se  mostra  inquieta.  De  resto 
e  exceptuando  este  caso,  o  pachyderme  parece  não  prestar  a  minima 
attenção  ao  mundo  exterior;  só  nas  locahdades  em  que  por  uma  dura 
experiência  própria  aprendeu  a  conhecer  o  homem  e  as  armas  de  fogo,  é 
que  se  conserva  permanentemente  em  guarda  contra  este  terrível  ini- 
migo. Nas  regiões  em  que  o  não  perturbam,  o  hippopotamo  não  se  in- 
quieta com  coisa  alguma;  é  o  verdadeiro  typo  da  indiíferença. 

Provavelmente  o  hippopotamo  dorme  também  na  agua,  á  maneira 
dos  búfalos;  equilibra-se  á  superfície  d'agua  por  meio  de  movimentos 
regulares  dos  membros,  de  modo  que  as  narinas,  os  olhos  e  as  orelhas 
emergem. 

Ao  fim  da  tarde  principia  a  vida  para  o  hippopotamo;  é  então  que 
os  bandos  se  entregam  na  agua  a  toda  a  ordem  de  diversões,  aos  mais 
diíferentes  exercícios.  Se  no  rio  voga  uma  canoa,  os  bandos  de  hippopo- 
tamos permittem*se  o  prazer  de  a  seguirem  de  perto  por  largo  tempo. 
O  enorme  volume  d'agua  que  um  d'estes  pachydermes  desloca  e,  por- 
tanto, o  pezo  que  perde,  explica-nos  a  faciUdade  assombrosa  com  que 
nada  e  mergulha,  rivahsando  em  rapidez  com  o  mais  veleiro  barco  de 
remos. 

O  hippopotamo  quando  nada  tranquillamente  não  agita  os  membros; 


MAMIF^EROS  EM  ESPECIAL  240 

a  agua  em  torno  cVelle,  diz  Brehm,  conserva-se  lisa  e  immovel.  Mas  se  é 
ferido  ou  se  precipita  furiosamente  contra  um  inimigo,  então  projecta 
com  violência  as  patas  posteriores  para  traz,  avança  por  movimentos 
bruscos  e  agita  a  agua  produzindo  verdadeiras  ondas. 

Nos  rios  em  que  as  plantas  aquáticas  abundam,  o  hippopotamo  não 
sae  da  agua  nem  mesmo  de  noite.  Encontrando  na  agua  tudo  aquillo  de 
que  precisa,  o  pachyderme  não  carece  de  vir  a  terra  e  por  isso  muito 
raras  vezes  o  faz.  O  loto^  planta  sagrada  dos  antigos,  irmã  magestosa  do 
gracioso  nenuphar,  constitue  o  alimento  principal  do  hippopotamo.  Era 
caso  de  necessidade  os  juncos  e  as  cannas  servem  também  de  alimento 
ao  informe  pachyderme. 

Que  horrível  espectáculo  o  de  um  hippopotamo  que  abre  a  bocca 
para  comer!  Á  distancia  de  um  kilometro  pode  vér-se  a  bocca  escanca- 
rada  do  pachyderme,  e,  a  alguns  centos  de  passos,  contar  um  por  ura 
os  movimentos  de  mastigação. 

Nos  legares  que  não  ficam  muito  distantes  dos  campos  cultivados,  o 
hippopotamo  dirige-se  de  noite  vagarosamente  e  com  cuidado  para  as 
plantações  onde  no  espaço  de  horas  destroe  um  trabalho  humano  de  me- 
zes.  Com  eífeito,  a  voracidade  dos  hippopotamos  é  extraordinária;  por 
fértil  que  seja  o  paiz  em  que  vivem,  constituem,  se  são  numerosos,  ura 
verdadeiro  flagello.  De  resto,  elles  destroem,  calcam  aos  pés  mais  do 
que  comem;  ainda  depois  de  fartos  rolam-se  por  sobre  as  plantações  á 
maneira  dos  porcos. 

Não  é  só  para  os  campos  cultivados  que  o  hippopotamo  constitue 
um  perigo;  o  homem  e  os  animaes  devem  temel-o,  porque  nas  excursões 
nocturnas,  o  monstro  precipita-se  cegamente  sobre  tudo  que  tem  movi- 
mento. E  calcula-se  bem  quaes  são  as  consequências  de  um  tal  attaque, 
lembrando  que  um  hippopotamo  é  capaz  de  matar  quatro  ou  cinco  bois 
que  encontre  reunidos.  Raro  é  que  o  hippopotamo  fuja  diante  do  homem; 
irritado  nunca  o  faz. 

Os  habitantes  do  interior  d'Africa,  que  não  possuem  armas  de  fogo, 
encontram-se  quasi  sem  defeza  contra  o  hippopotamo  de  que  são  todavia, 
diz  Brehm,  os  únicos  adversários.  Segundo  este  naturahsta,  tudo  quanto 
se  tem  contado  e  escripto  acerca  de  combates  do  hippopotarao  com  o 
crocodilho,  o  elephante,  o  rhinoceronte  e  o  leão,  deve  ser,  sem  exce- 
pção, lançado  á  conta  de  fabula. 

O  homem  procura  proteger-se  de  modos  diíTerentes  contra  o  hippo- 
potamo. No  tempo  das  colheitas  accende  fogueiras  ao  longo  do  rio.  Es- 
sas fogueiras  que  se  ahmentam  toda  a  noite  servem  de  espantalhos  para 
os  hippopotamos.  Em  algumas  regiões  é  de  uso  fazer  durante  a  noite 
Um  estrépito  enorme  de  rufos  de  tambor  para  assustar  o  gigante  pa- 
chyderme. Estes  processos,  que  dão  geralmente  os  resultados  pretendi- 


250  HISTORIA  NATURAL 

dos,   são,  diga-se  de  passagem,    muito  trabalhosos;  obrigam  a  conti- 
nuadas vigílias. 

As  observações  ultimamente  feitas  em  individues  captivos  ensina- 
ram-nos  que  a  fêmea  do  hyppopotamo  6  unipara  e  que  dá  á  luz  no  co- 
meço da  estação  das  chuvas,  precisamente  quando  a  alimentação  6  mais 
abundante  e  mais  succolenta.  A  fêmea  o  perigosíssima  quando  está  cm 
companhia  dos  filhos,  pequenos  ainda.  Inquieta  pela  sorte  dos  recemnas- 
cidos,  ve  perigos  em  toda  a  parte  e  atira-se  cegamente  contra  quem 
quer  que  lhe  pareça  ser  um  inimigo.  Se  lhe  matam  um  fdho,  conserva-se 
agitada  e  prompla  a  vingar-se  por  muito  tempo.  O  barco  que  conduzia 
Levingstone  n'um  dos  rios  africanos  foi  vigorosamente  attacado  por  uma 
fêmea  a  que  alguns  dias  antes  tinham  matado  o  filho;  é  de  notar  que 
ninguém  da  tripulação  excitara  o  animal.  Avalia-se  por  este  facto,  de  que 
ha  muitos  análogos,  quanto  é  grande  a  sollicitude  da  mãe  pelos  filhos. 
Brehm  cré  que  o  macho  toma  como  a  fêmea  a  defeza  do  recemnascido 
em  face  dos  perigos.  O  naturalista  allemão  baseia-se  para  fazer  a  aíTir- 
mação  sujeita  no  facto  "de  encontrar  constantemente  ao  pé  do  pequeno 
hippopotamo  macho  e  fêmea.  Esta  distingue-se  facilmente,  porque  nunca 
tira  os  olhos  de  cima  do  fdho,  cujos  movimentos  segue  sempre  com  ex- 
traordinária attenção.  O  recemnascido  mama  na  agua,  vindo  de  momento 
a  momento  á  superfície  para  respirar. 


CAÇA 


A  caça  do  hippopotamo  produz  magníficos  resultados,  como  adiante 
veremos,  para  os  indígenas  e  europeus  que  a  fazem  activamente.  O  eu- 
ropeu não  persegue  o  hippopotamo  senão  munido  de  uma  boa  arma  de 
fogo.  O  indígena  no  Sudan  emprega  exclusivamente  ainda  hoje  o  arpeo 
e  a  lança.  Ao  norte  da  Africa  empregam-se  armadilhas  fixas  às  arvores 
e  os  negros  das  margens  do  Abiad  cavam  fossos  onde  pela  noite  cae  de 
quando  em  quando  algum  hippopotamo. 

A  caça  pelos  processos  empregados  no  Sudan  demanda  uma  extraor- 
dinária coragem,  astúcia  e  agilidade;  feita,  como  a  fazem  os  europeus, 
ella  exige  apenas  uma  pontaria  firme. 


mamíferos  em  especial  25 


GAPTIYEIRO 


O  hippopotamo  quando,  morta  previamente  a  mãe,  se  traz  ao  capti- 
veiro  nos  primeiros  tempos  de  existência,  chega  a  domesticar-se.  Faz-se 
aleitar  ao  principio  por  trez  ou  quatro  vaccas,  porque  uma  só  não  basta. 

As  observações  feitas  até  hoje  demonstram  que  o  hippopotamo  sup- 
porta  longo  tempo  e  facilmente  o  captiveiro,  mesmo  nos  chmas  da  Eu- 
ropa. GoUocando  um  par,  macho  e  fêmea,  em  logar  conveniente  onde 
possam  viver  ora  em  terra,  ora  na  agua,  pode  esperar-se  que  os  mons- 
truosos pachydermes  se  reproduzam. 

A  ahmentação  do  hippopotamo  captivo  é  análoga  á  dos  porcos  do- 
mésticos. 

Brehm  viu  no  Cairo  um  hippopotamo  captivo  que  vivia  nas  melho- 
res relações  de  amizade  com  o  guarda  e  que  o  seguia  e  se  deixava  di- 
rigir por  ehe  como  um  cão.  Era  alimentado  com  uma  mistura  de  leite, 
arroz  e  farello;  mais  tarde  principiou  a  preferir  as  plantas  frescas.  Esse 
individuo  foi  trazido  á  Europa,  com  destino  a  Londres.  Quando  chegou  a 
esta  capital,  media  dois  metros  e  trinta  centímetros  de  comprimento; 
este  hippopotamo  reproduziu-se  ahi  com  um  outro  chegado  algum  tempo 
depois.  De  resto,  devemos  notar  que  o  hippopotamo,  como  muitos  outros 
animaes,  readquire  a  primitiva  selvageria  á  medida  que  avança  em 
idade. 

A  gestação  dura  dez  mezes;  é  certo  porém  que  ao  fim  de  sete  o 
parto  pode  realisar-se,  como  em  Amsterdam  se  viu,  sendo  o  feto  viável. 

Tem-se  notado  que  em  captiveiro,  ao  contrario  do  que  acontece  em 
liberdade,  a  mãe  maltrata  os  filhos  e  lhes  nega  o  leite,  vendo-se  o  ho- 
mem forçado  a  fazel-os  aleitar  artificialmente. 


usos   E   PRODUGTOS 


Muitas  partes  do  hippopotamo  são  utilisadas.  A  carne  e  a  gordura 
são  muito  estimadas;  e  tempo  houve  em  que  constituíram  para  o  colono 
do  Gabo  o  melhor  dos  manjares.  A  carne  do  hippopotamo  novo  é  mesmo 
para  os  europeus  um  prato  excellente;  a  lingua  passa  por  ser  um  acc- 


2ÔS  HISTORIA  NATURAL 

pipe  delicioso.  Os  hottentotes  bebem  a  gordura  derretida  como  nós  be- 
bemos caldo.  A  pellc  serve  para  fazer  correias;  os  colonos  do  Cabo  ap- 
plicam-a  para  a  fabricação  de  laganles.  Os  dentes  são  um  importante  ar- 
tigo de  commercio;  servem  para  fazer  dentaduras  que  conservam  inalte- 
ravelmente a  brancura  e  o  brilho.  Todas  as  partes  que  mencionamos  va- 
lem muito  dinheiro. 


prejuízos 


Entre  os  numerosos  prejuízos  que  correm  acerca  do  hippopotamo 
alguns  ha  que  não  podemos  deixar  de  mencionar,  porque  são  curiosissi- 
mos.  Na  Biblia  diz-se  que  os  membros  do  hippopotamo  são  duros  e  sóli- 
dos como  ferro  e  todos  os  ossos  resistentes  como  o  bronze.  Os  israelitas 
julgavam  este  animal  capaz  de  beber  toda  a  agua  do  Jordão.  Os  indige- 
nas  do  Sudan  teem  o  hippopotamo  na  conta  de  um  ser  sobrenatural, 
emissário  do  diabo,  plenipotenciário  do  inferno.  Não  respeita  a  lei  do 
propheta  e  não  teme  os  esconjuros.  Debalde  o  cultivador,  affirmam  os 
indígenas,  o  intima  em  nome  de  AUah  para  que  retroceda  quando  ca- 
minha de  noite  em  direcção  ás  searas.  Que  Deus  proteja  os  crentes  da 
vista  d'esse  maldito! . . 


OS  RHINOCERONTES 


Pertencem  a  esta  família  seis  ou,  segundo  alguns  auctores,  sete  es- 
pécies vivas  e  outras  tantas  fosseis. 


mamíferos  em  especial  253 


CONSIDERAÇÕES  HISTÓRICAS 


Os  rhinocer entes  foram  perfeitamente  conhecidos  dos  antigos.  A  Bi- 
blia  refere-se  a  elles  em  passagens  diíferentes.  Os  romanos  fizeram-os  fi- 
gurar nos  jogos  bárbaros  dos  circos.  Plinio  escreve:  «O  rhinoceronte  é 
o  inimigo  natural  do  elephante;  aguça  o  corno  n'uma  pedra'  e  no  com- 
bate volta-o  sempre  para  o  ventre  do  adversário,  sabendo  que  é  este  o 
ponto  mais  fraco.  Assim  mata  o  elephante.»  O  primeiro  auctor  que  des- 
creveu os  rhinocerontes  foi  Agatharchides.  Posteriormente  Strabon  fallou 
d'elles  também.  Marcial  refere-se-lhes  nos  seguintes  versos  que  encon- 
tramos traduzidos  por  Gh.  Maux-St.-Marc  no  Hvro  de  Brehm: 


Cest  pour  vous,  ó  César,  qu'expo3Ô  dans  Tarène 
Ce  fier  rliinoceros  a  lutté  vaillament 
Et  d'uii  coup  de  sa  corne  a  transpercé  sans  peine, 
Comme  un  vil  mannequin,  le  taureau  tout  tremblant. 


Nas  lendas  árabes  os  rhinocerontes  figuram  como  seres  encanta- 
dos. Marco  Pollo  no  século  xiii  fallou  dos  que  encontrou  na  sua  via- 
gem ás  índias.  Em  1513  D.  Manuel  recebeu  em  Lisboa  um  rhinoce- 
ronte vivo  proveniente  da  índia.  Alberto  Durer  pubHcou  d'este  exemplar 
uma  gravura  executada  por  um  desenho  muito  incorrecto  que  lhe  envia- 
ram de  Lisboa.  Em  melados  do  século  xvii  Bontius  fallou  dos  costumes 
do  rhinoceronte.  A  datar  de  então  todos  os  viajantes  teem  descripto  mais 
ou  menos  uma  ou  outra  espécie;  o  rhinoceronte  do  sul  da  Africa  é  par- 
ticularmente conhecido. 


CARACTERES 


Os  rhinocerontes  são  animaes  deselegantes,  sohdamente  construí- 
dos, de  grandes  dimensões,  pezados,  de  pescoço  curto  e  cabeça  alon- 
gada, de  membros  baixos  e  grossos  e  de  pés  terminados  por  trez  dedos 
cobertos  de  cascos  pequenos  e  fracos.  A  peUe  é  espessa;  a  das  espécies 


254  HISTORIA   NATURAL 

fosseis  era  coberta  de  um  pôUo  ou  velo  abundante.  Sobre  o  focinho  apre- 
sentam um  ou  dois  cornos  de  comprimento  desegiial. 

O  esqueleto  ó  forte.  O  craneo  c  comprido  e  mais  baixo  que  o  dos 
outros  pachydermes.  Os  ossos  frontaes  formam  a  quarta  ou  a  terça  parte 
do  comprimento  do  craneo;  soldam-se  aos  ossos  nasaes,  fortes  e  largos. 
Na  base  do  corno  ou  cornos,  estes  ossos  são  cobertos  de  rugosi- 
dades  tanto  mais  pronunciadas  quanto  mais  extensos  são  aquelles  ap- 
pendices.  O  osso  incisivo  é  visivel  somente  nas  espécies  que  teem  inci- 
sivos persistentes;  nas  espécies  em  que  esses  dentes  caem  cedo,  o  osso 
atrophia-se  completamente.  A  columna  vertebral  é  formada  por  vértebras 
fortes,  de  apophyses  espinhosas  muito  compridas;  dezenove  ou  vinte 
vértebras  oíTerecem  inserção  ás  costellas,  que  são  largas,  volumosas  e 
pouco  recurvadas.  O  diaphragma  insere-se  á  decima  quarta  ou  decima 
sétima  vértebra  dorsal.  As  vértebras  sagradas  que  são  cinco,  soldam-se 
muito  cedo.  As  vértebras  caudaes  são  vinte  e  duas  ou  vinte  e  trez. 

Os  dentes  dos  rhinocerontes  diíferem  notavelmente  dos  de  outros 
membros  da  mesma  ordem.  Os  caninos  faltam  sempre;  e  muitas  vezes 
faltam  também  os  quatro  incisivos.  Os  mollares  são  sete  em  cada  ma- 
xilla. 

A  pelle  do  lábio  superior  é  fina,  muito  vascular  e  muito  nervosa.  A 
lingua  é  grande  e  sensível.  O  esophago  tem  um  metro  e  sessenta  centi- 
metros  de  extensão  e  oito  centímetros  de  diâmetro.  O  estômago  é  sim- 
ples, alongado;  mede  um  metro  e  trinta  centímetros  de  diâmetro  longi- 
tudinal e  sessenta  e  seis  centímetros  do  maior  diâmetro  transversal.  O 
intestino  delgado  mede  dezeseis  a  vinte  e  um  metros  de  comprido  e  o 
intestino  grosso  seis  a  oito;  o  recto  mede  um  metro  ou  metro  e  meio. 
Os  olhos  são  pequeníssimos. 

A  pelle  apresenta  sobre  o  dorso  uma  espessura  superior  a  dois  cen- 
tímetros; em  algumas  espécies  é  lisa,  n'outras  apresenta  pregas  profun- 
das e  ainda  em  certas  outras  verdadeiras  escamas. 

O  corno  ou  cornos  são  ora  redondos  ora  angulosos  e  occos.  Estes 
appendices  que  podem  attingir  um  metro  de  comprido  são  dependências 
da  pelle.  Quando  os  cornos  são  dois,  o  posterior  é  sempre  mais  curto 
que  o  anterior. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHIGA 


Os  rhinocerontes  existem  hoje  exclusivamente  na  Ásia  e  na  Africa. 


mamíferos  em  especial  255 


DISTRIBUIÇÃO   GEOLÓGICA 


Em  epochas  geológicas  anteriores  á  nossa  os  rhinocerontes  eram 
muito  mais  numerosos  do  que  actualmente  são;  os  restos  fosseis  denun- 
ciam a  existência  de  um  numero  considerável  de  espécies.  Entre  essas 
figura  o  rliinoceros  tichorhinus  famoso  pachyderme  de  que  se  descobri- 
ram não  só  os  ossos,  mas  ainda  a  pelle  e  os  péllos. 

Hoje  está  perfeitamente  averiguado  que  os  rhinocerontes  habitaram 
na  epocha  diluviana  o  centro  e  o  norte  da  Europa,  sendo  com  o  mam- 
raouth  os  pachydermes  mais  communs  do  nosso  continente.  Do  rhmoceros 
tichorhinus  tem-se  ainda  descoberto  os  ossos,  por  vezes  em  quantidade 
assombrosa,  na  Rússia,  na  Polónia,  na  Allemanha,  na  França  e  na  Ingla- 
terra. Esta  espécie  distinguia-se  de  todas  as  outras  pela  presença  de  um 
septo  nasal  ósseo;  é  sabido  que  este  septo  é  cartilagineo  em  todos  os 
rhinocerontes.  Outras  espécies  ainda  habitavam  a  França  e  o  sul  da  Alle- 
manha. Uma  d'ellas  caracterisava-se  pela  existência  de  quatro  dedos  nos 
membros  anteriores  e  pela  ausência  de  cornos.  Gré-se  que  fosse  essa  a 
espécie  mais  antiga. 

As  espécies  actualmente  existentes  e  que  são  bastantes  ainda,  divi- 
de-as  Brehm  em  trez  grupos :  unicórnios  de  pelle  rugosa  e  escamosa,  bi- 
cornios  de  pelle  rugosa  e  bicornios  de  pelle  lisa.  Figuier  forma  dois  gru- 
pos somente,  descrevendo  em  cada  um  d'elles  uma  espécie  única.  Des- 
creveremos também  duas  espécies  apenas,  o  rhinoceronte  da  Ásia  (uni- 
córnio) e  da  Africa  (bicornio),  hmitando-nos  a  mencionar  as  outras. 


256  HISTORIA   NATURAL 


O  EHINOCERONTE  D'ASIA 


Este  pachyderme  conhecido  também  pelo  nome  de  rhinoceronte  uni- 
córnio é  uma  das  espécies  maiores  do  género.  Mede  trez  metros  de  com- 
prido e  metro  e  meio  d'alto;  a  cauda  é  de  sessenta  e  seis  centimetros  e 
a  circumferencia  do  corpo  excede  trez  metros.  Estes  números  exprimem 
a  media;  mas  tem-se  encontrado  machos  de  perto  de  quatro  metros  e 
meio  de  comprido  sobre  dois  e  trinta  centimetros  de  alto. 

O  corpo  do  rhinoceronte  asiático  é  pezado,  volumoso  e  alongado; 
as  pernas  são  relativamente  curtas.  O  pescoço  é  curto  e  grosso,  a  ca- 
beça de  grandeza  media,  duas  vezes  mais  comprida  que  alta,  apresen- 
tando bossas  frontaes  immediatamente  adiante  das  orelhas  e  outras  acima 
dos  olhos;  o  resto  da  cabeça  é  fortemente  comprimido  e  achatado.  As 
orelhas,  relativamente  compridas,  são  finas,  ponteagudas,  semelhantes  ás 
dos  porcos  e  extremamente  moveis.  Os  olhos  são,  como  os  de  todos  os 
rhinocerontes,  muito  pequenos  e  encovados;  o  animal  raras  vezes  os 
abre  completamente.  As  narinas  são  parallelas  á  abertura  da  bocca.  O 
corno  eleva-se  sobre  a  parte  larga  da  extremidade  do  focinho,  acima  das 
narinas  e  no  sulco  mediano  do  nai;iz.  É  cónico  e  levemente  recurvo  para 
traz;  mede  sessenta  e  seis  centimetros,  termo  médio,  de  comprimento  e 
trinta  e  trez  de  circumferencia  na  base.  O  lábio  superior  largo  e  acha- 
tado prolonga-se  em  tromba  ponteaguda,  quasi  digitiforme,  que  pode  ser 
alongada  ou  encurtada,  medindo  assim  ora  dezeseis  ora  vinte  centime- 
tros. 

Os  membros,  curtos,  grossos,  cylindricos  e  informes  são  recurvados 
como  os  dos  cães  baixotes.  Os  dedos  em  numero  de  trez  e  munidos  de 
cascos  são  em  quasi  todo  o  comprimento  cobertos  pela  pelle. 

A  cauda  vae  diminuindo  de  diâmetro  desde  a  raiz  até  ao  meio,  para 
se  alargar  novamente  na  ponta. 

Os  órgãos  reproductores  são  muito  grandes;  a  fêmea  tem  somente 
um  par  de  mamas. 

A  pelle  que  cobre  o  corpo  do  rhinoceronte  asiático  é  forte,  mais  es- 
pessa, mais  dura  e  mais  secca  que  a  dos  elephantes.  Repousa  sobre  uma 
camada  de  tecido  cellular  pouco  consistente  que  lhe  permitte  deslocar-se 
facilmente.  Forma  para  o  animal  uma  verdadeira  couraça  muito  espessa, 
quasi  córnea  e  dividida  por  pregas  numerosas  e  profundas,  regularmente 


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mamíferos  em  especial  257 

disposta's.  Estas  pregas  permittem  ao  animal  executar  todos  os  movimen- 
tos necessários. 

Nos  velhos  machos  a  pelle  pode  dizer-se  desnudada,  porque  real- 
mente apenas  apresenta  pêllos  na  raiz  do  corno,  nos  bordos  das  orelhas 
e  na  extremidade  da  cauda. 

A  primeira  prega  formada  pela  pelle  desce  perpendicularmente  á  parte 
posterior  da  cabeça  e  ao  pescoço;  por  traz  d'ella  encontra-se  uma  outra, 
obliqua  para  cima  e  para  traz,  muito  profunda  inferiormente.  Doesta  se- 
gunda prega,  na  metade  inferior,  nasce  uma  terceira  que  sobe  obliqua- 
mente ao  longo  do  pescoço.  Por  traz  do  pescoço  encontra-se  uma  quarta 
prega  profunda  que  sobe  ao  longo  do  dorso  e  se  recurva  em  arco  para 
continuar  por  traz  das  espáduas;  passa  por  baixo  e  depois  por  diante 
dos  membros  anteriores  que  contorna  superiormente.  Uma  quinta  prega 
desce  da  região  do  sacro  obhquamente  para  baixo  e  para  diante  ao 
longo  das  coxas  e  chega  aos  flancos  d'onde  envia  um  ramo  que  desce 
pelo  bordo  anterior  dos  membros  posteriores,  attravessa  horisontalmente 
a  tibia  e  sobe  de  novo  até  ao  anus,  voltando  depois  em  direcção  hori- 
sontal  por  cima  das  coxas  em  forma  de  sahencia.  Por  este  modo  fica  a 
pelle  dividida  em  trez  largas  zonas :  a  primeira  que  comprehende  o  pes- 
coço e  as  espáduas;  a  segunda  que  vae  das  espáduas  á  região  lombar; 
e  a  terceira  emfim,  que  abraça  a  parte  mais  posterior  do  tronco. 

A  pelle  é  toda  coberta  de  pequenas  escamas  irregulares,  arredon- 
dadas, mais  ou  menos  lisas  e  córneas.  No  ventre  e  na  face  interna  dos 
membros  encontram-se  muitos  sulcos  ou  rugas  entrecruzadas.  O  focinho 
apresenta  também  rugosidades  transvertaes. 

A  côr  é  muito  variável.  Os  individues  velhos  são  de  ordinário  de 
um  pardo  escuro  uniforme,  de  cambiantes  ruivas  ou  azuladas  aqui  e 
além.  Os  individues  novos  apresentam  em  geral  uma  tinta  mais  clara. 
De  resto  a  poeira  e  a  vasa,  como  nota  Brehm,  fazem  muitas  vezes  pare- 
cer os  rhinocerontes  mais  escuros  do  que  na  reahdade  são. 


k 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPHICA 


Esta  espécie  habita  a  Ásia  nas  regiões  mais  visinhas  da  China.  É 
commum  sobretudo  em  Sião,  na  Conchinchina  e  nas  províncias  mais  oc- 
cidentaes  do  Celeste  Império. 


VOL.    III 


17 


258  HISTORIA  NATURAL 


COSTUMES 


Reservamo-nos  para  tratar  este  ponto  quando  descrevermos  a  espé- 
cie africana,  visto  que  os  costumes  de  todos  os  rhinocerontes  são  seme- 
lhantes. 

A  mesma  observação  podemos  fazer  acerca  dos  inimigos,  da  caça, 
do  captiveiro  e  dos  usos  e  productos. 


O  RHINOCERONTE  D'AFRICA 


Este  pachyderme,  conhecido  também  pelo  nome  de  rhinoceronte  bi- 
cornWj  não  dififere  da  espécie  acima  estudada  a  não  ser  na  existência  de 
dois  cornos  sobre  o  focinho,  j^  descripção  minuciosa  que  fizemos  do 
rhinoceronte  asiático  dispensa-nos  de  voltarmos  sobre  o  assumpto. 


COSTUMES 


A  semelhança,  sob  o  ponto  de  vista  dos  hábitos  de  vida,  não  só  en- 
tre a  espécie  já  estudada  morphologicamente  e  a  que  vamos  descrever 
mas  ainda  entre  todas  as  que  adiante  mencionaremos,  permitte  conside- 
rar este  artigo  como  apphcavel  a  todos  os  rhinocerontes. 

Os  gigantescos  pachydermes  de  que  nos  estamos  occupando  são 
muito  mais  temiveis  que  os  elephantes.  Os  árabes  consideram  os  rhino- 
cerontes seres  infernaes  como  os  hippopotamos.  «O  elephante,  dizem  el- 
les,  é  um  animal  justo  que  honra  as  palavras  do  propheta  Mahomet  (a 
voz  de  Deus  seja  com  elle!)  e  que  respeita  as  cartas  de  protecção  e  os 


mamíferos  em  especial  259 

outros  meios  permittidos  de  defeza.  Os  hippopotamos  e  os  rhinocerontes, 
pelo  contrario,  não  prestam  a  mínima  attenção  aos  amuletos  que  os  nos- 
sos padres  escrevem  para  protegerem  os  campos  e  mostram  assim  que 
desprezam  a  voz  do  Todo-Poderoso.  São  seres  malditos  desde  todo  o 
principio.  Não  foi  o  Creador  que  os  fez,  mas  o  Diabo,  o  destruidor.  Por 
isso  não  é  bom  que  os  crentes  se  approximem  d'elles,  como  fazem  os 
pagãos  e  os  infiéis.  O  verdadeiro  mussulmano  aíTasta-se  d'elles  tranquil- 
lamente  para  não  macular  a  alma  e  não  ser  destituído  da  graça  do 
Senhor.))  * 

Os  rhinocerontes  escolhem  para  habitar  os  togares  abundantes  era 
agua,  os  rios  de  largo  leito,  os  lagos  de  margens  arborisadas  ou  os  pân- 
tanos em  cuja  volta  se  encontram  pastos  abundantes.  Na  Africa  acontece 
que  se  aíTastam  muitas  vezes  da  agua  para  procurar  o  aUmento  nas 
steppes.  Na  Ásia  sobem  ás  vezes  ás  montanhas.  No  entanto  todos  os  dias 
vão  á  agua,  pelo  menos  uma  vez,  para  beberem  e  se  espojarem  na  vasa. 
Esta  ultima  operação  é,  como  se  sabe,  uma  necessidade  para  todos  os 
pachydermes,  cuja  pelle  tem  tanto  de  sensível  como  de  espessa;  no 
estio  os  insectos  atormentam-os  por  tal  modo  que  são  forçados  a  defen- 
der-se  pelo  único  meio  possível :  fazer  adherir  á  pelle  uma  forte  camada 
de  terra  que  lhes  sirva  de  couraça  contra  os  importunos  inimigos.  Antes 
de  se  porem  a  caminho  em  busca  de  alimento,  correm  á  beira  de  um 
lago  ou  de  um  curso  d'agua,  cavam  ahi  com  os  cornos  grandes  buracos 
e  espojam-se  até  se  cobrirem  inteiramente  de  lama;  ao  mesmo  tempo 
fazem  ouvir  grunhidos  de  contentamento.  A  couraça  de  lama  com  que  se 
cobrem  dura  pouco  tempo;  á  medida  que  o  animal  caminha,  vae  ella 
caindo,  nas  coxas  primeiro,  no  tronco  e  na  cabeça  depois.  Desde  que  isto 
acontece,  os  rhinocerontes  ou  se  espojam  de  novo  na  lama  ou,  se  isto 
lhes  não  é  possível  por  estarem  longe  da  agua,  coçam-se  contra  as  ar- 
vores para  se  alliviarem  do  prurido  que  lhes  produzem  os  insectos. 

Os  hábitos  de  vida  dos  rhinocerontes  são  mais  nocturnos  do  que 
diurnos.  O  muito  calor  é-lhes  insupportavel;  por  isso,  ás  horas  em  que 
elle  é  mais  intenso,  dormem  nos  togares  ensombrados,  deitando-se  sobre 
o  ventre  ou  de  lado  e  estendendo  a  cabeça.  O  somno  dos  rhinocerontes 
é,  no  dizer  unanime  dos  naturahstas,  muito  profundo.  É  então  que  se 
torna  possível  ao  homem  avisinhar-se  dos  terriveis  pachydermes  sem 
grandes  precauções.  Refere  Gordon  Gumming  que  nem  mesmo  os  melho- 
res amigos  dos  rhinocerontes,  pequenas  aves  que  os  seguem  sempre, 
conseguiam  despertal-os  quando  o  naturahsta  apontava  sobre  elles  para 
os  matar. 


1    Vid.  Brehm,  Obr.  cU.,  vol.  2.°,  pg.  766, 


260  HISTORIA  NATURAL 

Quando  dormem,  os  rhínocerontes  roncam  de  ordinário  tão  alto  que 
é  impossivel  deixar  de  ouvil-os  a  distancia.  Mas  também  acontece  dormi- 
rem silenciosamente  e  é  fácil  então  ao  homem  encontrar-se  de  repente 
ao  pé  de  um  d'estes  gigantes,  sem  o  pensar. 

Ao  cair  da  tarde  os  rhínocerontes  espojam-se  na  lama  e  partem  de- 
pois em  busca  de  alimento,  que  encontram  em  toda  a  parte,  nas  flores- 
tas ou  nos  campos  descobertos,  nas  montanhas  ou  nos  valles.  Abrem 
com  facilidade  caminho,  ainda  nas  brenhas  mais  impraticáveis.  Nos  lega- 
res em  que  vivem  elephantes,  seguem,  para  poupar  trabalho,  os  cami- 
nhos habituaes  d'estes  pachydermes.  As  passagens  abertas  nas  brenhas 
pelos  rhinocerontes  distinguem-se  facilmente  das  abertas  pelos  elephan- 
tes, porque  estes  quando  encontram  arvores  que  lhes  fazem  obstáculo 
arrancam-as  e  despojam-as  das  folhas,  ahmento  favorito,  ao  passo  que 
aquelles  partem-lhes  os  troncos  e  os  ramos. 

Relativamente  á  alimentação,  diz  Brehm  que  os  rhinocerontes  estão 
para  os  elephantes  como  o  jumento  para  o  cavallo.  Comem  de  preferen- 
cia plantas  duras,  cardos,  giestas,  caniços,  etc.  Na  Africa  alimentam-se 
principalmente  de  mimosas  de  espinhos.  Durante  a  estação  das  chuvas 
abandonam  as  florestas  e  penetram  nas  plantações  onde  fazem  estragos 
que  facilmente  calcula  quem  pensar  na  quantidade  de  ahmento  precisa 
para  encher  estômagos  de  um  metro  e  trinta  centímetros  de  comprimento 
e  oitenta  centímetros  de  diâmetro.  Os  rhinocerontes  captivos  não  se 
satisfazem  com  menos  de  vinte  e  cinco  kilogrammas  de  forragem  por 
dia;  calcule-se  o  que  será  em  liberdade  onde  o  exercido  deve  originar 
naturalmente  maiores  necessidades  alimentícias. 

Gomo  o  esophago  dos  rhinocerontes  é  extremamente  largo  é-lhes 
fácil  enguhr  grandes  porções  de  alimento  sem  muito  trabalho  de  tritura- 
ção. Assim  é  que  chegam  a  fazer  a  deglutição  de  pedaços  de  ramos  de 
trez  a  seis  centímetros  de  diâmetro. 

Um  facto  digno  de  menção  é  que  certas  plantas  que  para  umas  es- 
pécies de  rhinocerontes  são  venenosas  para  outras  são  absolutamente 
innocentes.  O  euphorbio,  por  exemplo,  que  para  o  rhlnoceronte  d' Africa 
é  um  veneno,  pode  ser  comido  sem  inconveniente  pelo  rhlnoceronte 
branco. 

Fazendo  excepção  aos  costumes  dos  pachydermes,  os  rhinocerontes 
não  são  sociáveis.  Vivem  de  ordinário  isolados  ou,  quando  muito  e  pou- 
cas vezes,  em  pequeníssimos  grupos.  Cada  um  vive  por  si  e  para  si. 

A  existência  dos  rhinocerontes  é  perfeitamente  monótona;  comem  e 
dormem.  O  mundo  ambiente  é  para  elles  como  se  não  existisse. 

Os  movimentos  dos  rhinocerontes,  com  quanto  pezados,  são-o  toda- 
via menos  do  que  geralmente  se  pensa.  É  certo  que  se  não  voltam  com 
agihdade  e  que  nas  montanhas  não  saltam  como  outros  animaes  que  ahi 


mamíferos  em  especial  261 

habitam;  todavia  correm  nas  planicies  com  grande  velocidade.  Cami- 
nhando, projectam  para  diante  as  pernas  anterior  e  posterior  oppostas. 
Correndo,  inclinam  a  cabeça  para  o  chão.  Encolerisados,  erguem  a  cauda, 
de  ordinário  pendente,  e  saltam  em  todas  as  direcções  com  grande  agi- 
lidade. Sustentam  o  trote  por  muito  tempo,  chegando  a  tornar-se  peri- 
gosos mesmo  para  um  cavalleiro,  especialmente  nos  logares  arborisados 
em  que  a  cavalgadura  encontra  a  cada  momento  obstáculos  á  marcha. 
Nadam  admiravelmente,  mas  não  mergulham  senão  em  caso  de  necessi- 
dade; n'isto  se  distinguem  dos  hippopotamos. 

A  vista  dos  rhinocerontes  é  má;  de  todos  os  outros  sentidos  o  ou- 
vido é  o  mais  perfeito.  Depois  d'este,  vem  o  olfato  e  em  ultimo  logar  o 
tacto.  Assim,  na  perseguição  de  um  inimigo,  os  rhinocerontes  guiam-se 
pelo  ouvido  e  pelo  olfato. 

Os  rhinocerontes  excitam-se  com  facihdade  e,  uma  vez  em  cólera, 
não  medem  nem  a  força,  nem  o  numero  dos  inimigos.  O  vermelho 
irrita-os,  como  aos  toiros.  Mal  do  que  passar  vestido  de  cores  vistosas 
por  perto  de  um  d'estes  monstros! 

Por  felicidade,  não  é  muito  diíTicil  escapar  aos  rhinocerontes  enfu- 
recidos. Á  distancia  mesmo  de  dez  passos  o  homem  perseguido  por  um 
rhinoceronte  pode  escapar-lhe,  dando  um  salto  para  o  lado;  o  animal  fu- 
rioso perde-lhe  a  pista  e  continua  arremettendo,  sempre  em  linha  recta. 

Os  rhinocerontes  escuros  d'Africa  são  os  mais  temíveis;  os  brancos 
são  menos  ágeis  e  mais  socegados.  Estes  últimos,  segundo  opinião  geral, 
raras  vezes  attacam  o  homem,  mesmo  quando  feridos. 

Relativamente  á  reproducção  dos  rhinocerontes,  sabe-se  que  para 
as  espécies  asiáticas  o  coito  se  reahsa  em  Novembro  e  Dezembro  e  o 
parto  em  Abril  ou  Maio,  durando  pois  a  gestação  dezesete  a  dezoito  me- 
zes.  Antes  do  coito  ha  um  periodo  de  cio  em  que  os  machos  se  dão 
combates  violentos.  A  fêmea  é  unipara.  O  recemnascido  é  geralmente 
das  proporções  de  um  cão  grande.  Nasce  com  os  olhos  abertos  e  sem 
pregas  cutâneas;  o  crescimento  é  ao  principio  muito  rápido.  Nos  primei- 
ros mezes  de  vida  a  pelle  é  de  um  ruivo  accentuado;  mais  tarde  prin- 
cipia a  apresentar  maculas  cada  vez  mais  escuras  que  se  alastram  por 
todo  o  corpo.  Até  aos  quatorze  mezes  os  rhinocerontes  não  apresentara 
indícios  de  pregas  cutâneas;  mas  a  partir  d'esta  idade,  as  pregas  for- 
mam-se  tão  rapidamente  que  ao  fim  de  alguns  mezes  não  é  possível  en- 
contrar diíTerenças  entre  os  indivíduos  velhos  e  os  novos.  Ao  fim  de  oito 
annos  os  rhinocerontes  tem  attingido  as  proporções  medias  da  espécie  a 
que  pertencem. 

As  fêmeas  teem  pelos  filhos  uma  grande  sollicitude;  defendem-os 
corajosamente  dos  inimigos.  A  amamentação  dura  dois  annos.  Ignora-se 
até  que  idade  os  filhos  se  conservam  na  companhia  das  mães. 


262  HISTORIA  NATURAL 


AMIGOS  E  INIMIGOS 


Dizia-se  na  anliguidadc  que  os  rhinocerontes  combatiam  com  os  ele- 
phantes  saindo  sempre  vencedores  da  lucta.  Plínio  reproduziu  nos  seus 
livros  esta  versão  que  6  hoje  tida  na  conta  de  fabulosa. 

Entre  os  amigos  dos  rhinocerontes  figura  em  primeira  linha  uma 
ave,  o  ani  (buphaga)  que  todo  o  dia  os  acompanha  e  lhes  serve  como 
de  sentinella.  «Esta  ave,  diz  Gordon  Gomming,  é  a  companheira  insepa- 
rável do  hippopotamo  e  de  quatro  espécies  de  rhinocerontes.  Alimenta-se 
dos  vermes  que  pululam  sobre  a  pelle  d'estes  animaes;  por  isso  está 
sempre  perto  d'elles  ou  mesmo  sobre  o  seu  dorso. 

«Esta  ave,  sempre  vigilante,  fez-me  muitas  vezes  perder  a  esperança 
de  chegar  perto  de  um  pachyderme,  e  inutiUsou-me  todas  as  tentativas 
emprehendidas  n'este  sentido.  O  ani  é  o  melhor  amigo  do  rhinoceronte ; 
é  elle  que  em  casos  de  necessidade  o  desperta  do  somno  profundo.  O 
pachyderme  comprehende  o  aviso,  ergue-se,  olha  em  todas  as  direcções 
e  foge.»  *  Quando  um  rhinoceronte  é  morto,  o  ani  manifesta  um  vivo 
pezar  soltando  gritos  dilacerantes  em  torno  do  cadáver. 

Se  exceptuarmos  o  homem  e  os  insectos,  pode  dizer-se  que  os  rhi- 
nocerontes não  teem  inimigos.  O  elephante,  como  dissemos  acima,  não 
os  attaca.  O  leão,  o  tigre  e  em  geral  os  grandes  carniceiros  não  se  atre- 
vem a  dar-lhes  combate,  porque  sabem  bem  que  as.  garras  não  seriam 
sufficientes  para  rasgar-lhes  a  pelle  duríssima. 


CAÇA 


Onde  quer  que  o  homem  encontre  os  rhinocerontes,  persegue-os 
tenazmente.  Disse-se  e  escreveu-se  n'outro  tempo  que  a  pelle  d'estes 
pachydermes  se  não  deixava  penetrar  pelas  balas.  Esta  opinião  é  in- 
fundada. 

A  caça  d'estes  animaes  é  perigosíssima,  porque  se  acontece  de  se- 


1    Vid,  Brehm,  Ohr.  ciL,  vol.  2.o,  pg.  770. 


mamíferos  em  especial  263 

rem  feridos  e  o  golpe  não  é  mortal  excitam-se,  acceitam  a  lucta  com  o 
homem  e  são  adversários  que  a  força  torna  temiveis.  Os  indígenas  pro- 
curam surprehendel-os  durante  o  somno;  matam-os  ás  lançadas  ou  a  tiros 
descarregados  a  pequena  distancia. 

Na  Ásia  é  habitual  montarem  os  caçadores  em  elephantes  para  per- 
seguirem os  rhinocerontes.  Esse  processo  offerece  grandes  inconvenien- 
tes, porque  não  é  raro  que  os  elephantes  sejam  gravemente  feridos  pelos 
rhinocerontes  em  fúria.  Cremos  bem  que  não  vale  a  penna  para  matar 
um  rhinoceronte  expor  a  perigos  um  elephante  domestico. 

Muitos  caçadores  teem  tido  a  desventura  de  se  encontrarem  com 
rhinocerontes  a  distancia  de  lhes  não  poderem  fugir.  Quando  isto  acon- 
tece o  único  expediente  a  tomar  consiste  em  tirar  partido  da  diíficuldade 
com  que  o  animal  se  volta  para  lhe  evitar  o  embate  dando  successivos 
saltos  lateraes,  ora  para  a  .direita,  ora  para  a  esquerda  até  que  o  animal 
se  fatigue  ou  alguém  venha  em  soccorro.  Se  ha  próximo  uma  arvore  de 
grosso  tronco  capaz  de  resistir  ao  animal  o  espaço  de  tempo  bastante 
para  carregar  uma  arma  e  fazer  pontaria  certeira,  o  caçador  deve  tre- 
par sem  perda  de  tempo;  é  uma  circumstancia  favorável  que  importa 
aproveitar. 

O  naturahsta  e  viajante  Andreson  narra  nos  seguintes  termos  um 
encontro  que  teve  com  um  rhinoceronte :  «Na  volta  de  uma  caçada  aos 
elephantes,  vi  a  uma  pequena  distancia  de  mim  um  grande  rhinoceronte 
branco.  Ia  eu  montado  n'um  famoso  cavallo  de  caça,  o  melhor  que  em 
minha  vida  possui.  Eu  tinha  por  costume  não  caçar  o  rhinoceronte  a  ca- 
vallo, porque  sabia  ser  mais  fácil  abeirar-me  do  animal  indo  a  pé;  d'essa 
vez  porém,  a  sorte  dicidira  de  outro  modo.  Voltando-me  para  os  meus 
companheiros,  gritei-lhes:  «Magnifico  unicórnio!  vou  dar  cabo  d'elle.)> 
Immediatamente  dei  de  esporas  ao  cavallo,  approximei-me  do  animal  e 
metti-lhe  uma  baha  no  corpo;  mas  não  o  feri  mortalmente.  Em  vez  de 
fugir,  como  de  ordinário  faz,  o  rhinoceronte  ficou  immovel,  com  grande 
espanto  meu;  depois  voltou-se  bruscamente  e,  fixando-me  um  instante, 
avançou  de  vagar  em  direcção  a  mim.  Sem  pensar  em  fugir,  procurei 
comtudo  affastar  prudentemente  o  cavallo.  Este  porém,  de  ordinário  tão 
dócil  que  obedecia  ao  mais  leve  movimento  de  rédeas,  negou-se-me  e 
quando  se  moveu  era  já  tarde :  o  rhinoceronte  estava  perto  e  um  encon- 
tro tornára-se  inevitável.  Com  efíeito,  o  monstro  baixou  a  cabeça,  para  a 
erguer  depois  bruscamente,  enterrando  o  corno  nas  costehas  do  pobre 
cavallo  com  violência  tal  que  lhe  varou  o  corpo  e  com  elle  o' selim,  che- 
gando-me  com  a  ponta  aguda  á  coxa.  O  embate  foi  de  ordem  tal  que  o 
cavallo  deu  uma  verdadeira  volta  no  ar  indo  cair  a  distancia  sobre  o 
dorso.  Eu  fui  cuspido  violentamente  e  mal  me  encontrei  por  terra  des- 
cobri logo  o  animal  ao  pé  de  mim.  Por  felicidade  calmára-se-lhe  o  furor 


264  HISTORIA  NATURAL 

com  O  prazer  da  vingança  exercida  sobre  o  cavallo;  abandonou  pois  a 
pequeno  galope  o  tiíeatro  das  suas  façanhas.  Entretanto  os  meus  compa- 
nheiros haviam  chegado  ao  pé  de  mim.  Dirigindo-me  a  um  d'elles,  pedi- 
Ihe  o  cavallo  que  montava,  saltei  para  o  sehm  e,  mesmo  sem  chapéu, 
com  o  rosto  em  sangue,  corri  sobre  o  rhinoceronte.  Poucos  momentos 
depois,  linha  o  prazer  de  vél-o  estendido  aos  meus  pés.»  A  passagem 
que  acabamos  de  transcrever  desmente  a  opinião,  recebida  por  muitos 
naturalistas,  de  que  o  rhinoceronte  branco  é  um  animal  socegado.  Gor- 
don  Cumming  refere  também  um  caso  desfavorável  á  opinião  que  refe- 
rimos. 

A  titulo  de  fabula  e  para  mostrar  quanto  a  phantasia  tem  entrado 
nas  descripções  de  caçadas,  Brehm  extracta  de  um  periódico  inglez,  Jour- 
nal of  the  Indian  Archipel^  a  narrativa  de  um  processo  de  matar  o  rhi- 
noceronte, processo  segundo  o  qual  os  habitantes  de  Sumatra  (é  ahi  que 
se  passa  o  caso)  se  approximariam  lentamente  do  animal  quando  elle  se 
espoja  na  vasa,  lançando-lhe  por  cima  do  corpo  matérias  combustíveis  a 
que  pegariam  fogo.  Este  meio  simples,  diz  o  periódico  inglez,  teria  a 
dupla  vantagem  de  matar  o  animal  por  asphixia  e  de  assal-o  ao  mesmo 
tempo!  Como  pôde  uma  idéa  d'estas  penetrar  no  espirito  de  alguém?  O 
leitor  sabe  bem  que  é  precisamente  a  impossibilidade  em  que  se  encontra 
o  homem  de  chegar  perto  dos  rhinocerontes  o  que  torna  difficultosa  e 
perigosíssima  a  caça  d'estes  pachydermes. 


CAPTIVEIRO 


Os  rhinocerontes  não  são  tão  difficeis  de  domar  como  poderá  acre- 
ditar-se  pensando  na  irascibihdade  que  os  caracterisa.  Se  são  apanhados 
em  pequenos,  o  que  se  não  consegue,  seja  dito  de  passagem,  sem  matar 
os  pães,  chegam  a  famiharisar-se  com  o  homem  até  ao  ponto  de  rece- 
berem com  manifestações  de  agrado  as  caricias  que  este  lhes  faz.  Al- 
guns individues  que  teem  vivido  na  Europa  revelam  uma  grande  dispo- 
sição para  obedecer  ás  ordens  d'aquelles  que  lhes  distribuem  os  alimentos. 
Em  Anvers  existiu  um  rhinoceronte  asiático,  já  adulto,  que  constituía  o 
encanto  de  quantos  o  viam.  Era  de  uma  pasmosa  docilidade;  deixava-se 
afagar  por  todos  e,  porque  estava  habituado  a  que  lhe  dessem  de  comer, 
estendia  o  focinho  a  quantos  chegavam  perto  d'elle,  mendigando  por  este 
meio  o  obulo  costumado.  O  desenhador,  que  fez  a  copia  d'este  animal 
para  o  livro  de  Brehm,  entrou  na  jaula  para  o  observar  de  todos  os  lados 
e  em  posições  diversas;  o  rhinoceronte  não  protestou. 


mamíferos  em  especial  265 

Desde  que  penetram  n'um  navio,  os  rhinocerontes  tranquilisam-se, 
por  indómitos  que  pareçam.  De  resto,  o  mesmo  acontece  com  todos  os 
animaes,  ainda  os  mais  ferozes.  Parece  que  em  face  da  vastidão  do  mar 
adquirem  o  conhecimento  de  uma  impotência  temporária  e  por  isso  não 
procuram  reagir  contra  o  homem,  soberano  aUi. 


usos  E   PRODUCTOS 


Todas  as  partes  do  corpo  dos  rhinocerontes  teem  uma  certa  utilidade. 
Os  cornos  servem  para  a  fabricação  de  vasos.  Em  certos  pontos  do  globo, 
na  Turquia,  por  exemplo,  ha  a  convicção  de  que  esses  vasos  entram  em 
eífervescencia  desde  que  se  lhes  introduz  um  hquido  venenoso;  compre- 
hende-se  em  que  apreço  serão  tidos  ahi  estes  singulares  utensihos.  Quando 
um  turco  visita  um  outro  de  quem  tem  motivos  de  desconfiança,  acontece 
que  o  primeiro  faz  encher  de  caíTé  o  vaso  de  corno  do  rhinoceronte,  e  o 
oíTerece  ao  segundo  como  signal  de  amisade.  Este  procedimento  tem  uma 
significação  que  pode  exprimir-se  assim:  do  mesmo  modo  que  eu  te  não 
atraiçoo,  espero  que  tu  também  me  não  atraiçoarás  a  mim. 

Dos  cornos  de  rhinocerontes  fazem-se  ainda  cabos  de  sabres. 

Da  pelle  fazem-se  couraças,  vasos  e  muitos  outros  utensihos. 

A  carne  come-se  e  a  gordura  é  muito  estimada  pelos  indígenas.  Ao 
paladar  europeu  porém,  nem  uma  nem  outra  são  gratas. 

Advirta-se  que  a  utilidade  que  pode  tirar-se  dos  rhinocerontes  está 
muito  longe  de  compensar  os  inconvenientes,  os  estragos  enormes  que 
produzem  nos  togares  cultivados. 


OS  SOLIPEDES 


Estes  animaes  que  na  classificação  clássica  de  Cuvier,  que  adoptamos 
por  nos  parecer  a  mais  apropriada  á  Índole  do  nosso  trabalho,  pertencem 


266  HISTORIA  NATURAL 

á  ordem  dos  pachydermes,  fazem  parte,  n'outras  classificações,  de  uma 
ordem  diíTerente — Os  ungulados. 


CARACTERES 


o  que  principalmente  distingue  esses  animaes  é  a  existência  de  um 
casco  inteiro  ou  de  um  só  casco.  É  mesmo  d'esta  circumstancia  que  de- 
riva o  nome  por  que  são  conhecidos.  Existem  entre  todos  os  solipedes 
relações  tão  grandes  de  forma,  de  estructura,  que  se  reuniram  todos 
n'uma  familia  única:  os  equídeos  ou  cavallos. 


OS  equídeos 


Os  representantes  d'este  género  teem  os  membros  fortes,  a  cabeça 
magra  e  alongada,  os  olhos  grandes  e  vivos,  as  orelhas  de  tamanho  mé- 
dio, moveis,  terminadas  em  ponta  e  as  narinas  largamente  abertas.  O 
pescoço  é  forte,  musculoso  e  o  tronco  arredondado,  de  pêllos  macios, 
curtos,  densos,  compridos  sobre  o  pescoço  e  na  cauda. 

O  esqueleto  denuncia  uma  constituição  delicada  e  ao  mesmo  tempo 
vigorosa.  A  columna  vertebral  comprehende  dezeseis  vértebras  dorsaes, 
oito  lombares,  cinco  sagradas  e  vinte  ou  vinte  e  uma  caudaes.  Na  cabeça 
um  terço  apenas  pertence  ao  craneo;  os  dois  terços  anteriores  constituem 
a  face.  Os  dentes  são :  seis  incisivos,  seis  mollares,  rugosos  na  super- 
fície de  mastigação,  e  dois  caninos,  pequenos  e  cónicos.  Entre  os  caninos 
e  os  mollares  existe  um  espaço,  de  um  lado  e  outro,  desguarnecido  de 
dentes:  é  n'esse  espaço  que  se  introduz  o  freio. 

Os  membros  são  terminados  por  um  só  dedo  apparente  e  portanto 
por  um  casco  único  para  cada  pata.  Estyletes  ósseos  collocados  posterior- 
mente por  cima  dos  cascos  representam  dois  dedos  lateraes  rudimen- 
tares. 


mamíferos  em  especial  267 

O  systema  muscular  dos  equídeos  6  muito  desenvolvido,  de  ordi- 
nário. 

O  esophago  é  estreito  e  munido  de  uma  válvula  na  extremidade 
que  communica  com  o  estômago.  Este,  ligeiramente  bilobado  e  constituído 
por  dois  saccos  distinctos,  é  pequeno,  simples  e  alongado.  Os  intestinos 
são  muito  compridos;  apresentam,  segundo  as  espécies,  desde  vinte  e 
trez  até  quarenta  metros.  O  cecum  tem  uma  capacidade  que  varia  tam- 
bém entre  trinta  e  trez  e  sessenta  e  oito  litros. 

Um  facto  muito  para  notar  é  o  de  terem  acreditado  os  antigos  e 
acreditar  ainda  hoje  muita  gente  que  os  equídeos  não  teem  fel.  Esta  idéa 
apresentada  por  Aristóteles  passou  a  ser  authomaticamente  repetida  pe- 
los naturalistas  antigos  e  chegou  até  nós.  A  observação  anatómica  des- 
mente uma  tal  idéa.  Nos  equídeos  existe  vesícula  biliar,  como  em  todos 
os  mamíferos;  somente  ella  é  pouco  desenvolvida  e  pouco  apparente. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHICA 


Os  equídeos  appareceram  na  epocha  terciária,  simultaneamente  no 
antigo  e  novo  mundo.  Na  America,  onde  não  existem  hoje  senão  equí- 
deos proveniente  da  Europa,  encontram-se  em  certos  terrenos  restos  fos- 
seis de  equídeos,  especificamente  distinctos  dos  que  lá  vivem;  o  que  pa- 
rece provar  que  a  existência  de  taes  solipedes  foi  anterior  ahi  ao  esta- 
belecimento do  homem. 

«Na  Europa,  diz  P.  Gervais,  existiam  entre  os  equídeos  fosseis  mui- 
tas espécies  e,  na  que  mais  se  approxímava  do  cavallo  actual,  differen- 
tes  raças  caracterisadas  por  diíTerenças  de  estatura,  comparáveis  ás  que 
hoje  observamos  entre  os  cavallos  domésticos;  os  esqueletos  d'esses  an- 
tigos anímaes  apresentam-nos  as  formas  pezadas  dos  cavallos  alsacianos, 
o  que  parece  approxímal-os  muito  dos  cavallos  que  empregavam  os  guer- 
reiros da  idade  media  e  que  elles  designavam  sob  o  nome  de  palafrens. 
Outros  teem  o  esqueleto  delicado  dos  cavallos  árabes,  cuja  raça  princi- 
piou a  espalhar-se  na  Europa  depois  das  cruzadas;  outros  finalmente  são 
muito  pequenos  (equus  minutus)  e  lembram  as  raças  mínimas  da  Córsega. 
Gomo  é  impossível  demonstrar  os  laços  de  parentesco  que  ligam  os  ca- 
vallos actuaes  áquelles  que  deixaram  os  esqueletos  nas  camadas  diluvia- 
nas, nas  cavernas,  etc,  ninguém  está  auctorísado  a  assegurar  que  a  Eu- 
ropa não  fosse  durante  um  certo  tempo  privada  de  anímaes  d'este  ge- 


2G8  HISTORIA  NATURAL 

nero,  depois  de  os  ter  alimentado  em  maior  numero  ainda  do  que  actual- 
mente.» * 

Considerando  os  cavallos  c  os  jumentos  como  raças  de  duas  únicas 
espécies,  o  numero  actual  d'estas  é  oito. 

Tem-se  considerado  a  Europa  central  e  septentrional,  a  Ásia  central 
e  a  Africa  como  constituindo  a  área  de  dispersão  primitiva  dos  equídeos. 
Hoje  pode  dizer-se  que,  exceptuando  as  regiões  polares,  os  solipedes  co- 
brem seguramente  toda  a  superfície  do  globo. 


COSTUMES 


Nos  descampados  da  Ásia  e  da  Africa  os  equídeos  vivem  em  bandos 
que  percorrem  extensões  vastíssimas  de  terreno  em  busca  de  alimento. 
Gomem  hervas.  Em  captiveiro  porém,  habituaram-se  a  um  outro  género 
de  alimentação:  comem  principalmente  grãos.  Ao  norte  da  Europa  teem 
um  regime  simultaneamente  animal  e  vegetal. 

Os  equideos  são  animaes  vivos,  ágeis  e  prudentes.  Em  liberdade  fo- 
gem do  homem  e  dos  grandes  carniceiros;  mas  em  caso  de  perigo  de- 
fendem-se  corajosamente,  servindo-lhes  d'armas  os  dentes  e  os  cascos. 
Correm  com  rapidez  notável;  a  marcha  mais  vulgar  dos  equideos  em  li- 
berdade é  o  trote. 

A  fecundidade  é  nos  solipedes  muito  limitada.  A  gestação  é  longa  e 
o  parto  produz  ordinariamente  um  filho  único;  entre  duas  gestações  me- 
deia geralmente  um  grande  intervallo.  Todas  as  espécies  de  equideos  se 
fecundam  mutuamente,  dando  mestiços. 


DOMESTICIDADE 


Ha  duas  espécies  de  equideos,  o  cavallo  e  o  jumento  submettidos 
desde  tempos  immemoriaes  ao  domínio  do  homem.  Actualmente  tem-se 


1    P.  Gervais,  Histoire  naturelle  des  mammifhres,  tom.  2.°,  pg.  143, 


mamíferos  em  especial  269 

feito  reiteradas  tentativas  para  tornar  domesticas  algumas  espécies  sel- 
vagens. Essas  tentativas  não  foram  até  hoje  coroadas  de  êxito. 


O   CAVALLO 


Os  caracteres  d'este  género  são  em  grande  parte  os  que  atraz  ex- 
pozemos,  faltando  da  familia  dos  equídeos.  Não  repetiremos  aqui  o  que 
dissemos  já.  Importa  porém  que  estabelepamos  os  caracteres  que  distin- 
guem o  cavallo  propriamente  dito  d'outras  espécies  que  com  elle  formam 
o  grande  grupo  dos  equídeos. 

O  cavallo  distingue-se  do  jumento  e  da  zebra  primeiramente  pela  cor 
uniforme,  ou  quasi,  do  manto  e  depois  pela  existência  de  saliências  cór- 
neas ou  callos  na  face  interna  de  todos  os  quatro  membros.  São  ainda  ca- 
racteres differenciaes  a  existência  de  uma  crina  espessa,  comprida,  flu- 
ctuante  e  uma  cauda  geralmente  coberta  desde  a  raiz  de  pêllos  abundan- 
tes e  extensos,  que  fazem  parecer  este  órgão  maior  do  que  é  em  reali- 
dade. 


considerações  históricas 


Uma  pergunta  que  se  tem  feito  muitas  vezes  e  que  persiste  ainda 
hoje  sem  resposta,  é  esta :  A  que  epocha  remonta  a  domesticidade  do  ca- 
vallo e  qual  foi  o  povo  que  primeiro  a  tentou?  Em  resposta  a  esta  in- 
terrogação, como  a  tantas  outras  análogas  que  se  fazem  a  propósito  do 
cão,  do  boi,  de  todos  os  animaes  domésticos,  existem  conjecturas,  hypo- 
theses,  mas  não  factos  averiguados  e  definitivos.  Apoiados  na  pliilologia 
e  reconhecendo  que  todos  os  nomes  dados  ao  cavallo  nas  diíferentes  lín- 
guas derivam  do  sanscrito,  teem  aíTirmado  alguns  auctores  que  é  aos 
povos  da  Ásia  central  que  nós  devemos  ç  beneficio  da  domestição  com- 
pleta do  cavallo.  Esta  afflrmapão  não  está  isempta  de  objecções.  Da  ori- 
gem sanscrita  das  palavras  que  designam  o  cavallo  a  única  coisa  que  ri- 


270  HISTORIA  NATURAL 

gorosamente  se  pode  concluir  é  que  os  povos  da  Ásia  central  conheceram 
esse  solipede  e  que  foram  os  primeiros  a  conhecel-o.  D'ahi  a  concluir-se 
que  o  domesticaram  vae  uma  distancia  grande — distancia  que  augmenta 
se  se  pretende  do  principio  posto  deduzir  que  fossem  esses  povos  os  pri- 
meiros domesticadores  do  animal. 

O  que  está  perfeitamente  averiguado  é  que  não  existiu  uma  única 
civilisapão  histórica  que  desconhecesse  o  cavallo  domestico;  provam-o 
documentos  irrefutáveis.  Não  quer  isto  dizer  que  todos  os  povos  conhe- 
cessem o  cavallo  domestico  desde  a  origem  das  suas  respectivas  civihsa- 
ções,  mas  sim  que  nenhum  deixou,  n'uma  phase  qualquer  da  sua  exis- 
tência, de  conhecer  e  utiUsar  este  solipede.  Os  Hebreus  por  exemplo, 
não  tiveram  sempre  cavallos;  Abrahão,  Isac  e  Jacob  ennumerando  as  suas 
riquezas,  faltaram  de  jumentos,  mas  não  de  cavallos.  Mas  no  tempo  de 
David  e  de  Salomão  já  os  possuíam. 

Fosse  qual  fosse  a  epocha  da  domesticidade  primitiva  do  cavallo,  o 
que  é  certo  é  que  nos  faliam  d'elle,  como  animal  subordinado  ao  homem, 
os  mais  antigos  monumentos  que  conhecemos. 


COSTUMES  EM  DOMESTICIDADE 


«A  mais  nobre  conquista,  diz  Bufifon,  que  deve  attribuir-se  ao  homem 
é,  certamente,  a  d'este  bravo  e  fogoso  animal  que  comnosco  partilha  das 
fadigas  da  guerra  e  da  gloria  depois  do  combate.  Intrépido  como  o  dono, 
conhece  o  perigo  e  sabe  afrontal-o,  habitua-se  ao  ruido  das  armas,  gosta 
de  ouvil-o,  busca-o  e  se  o  ouve  cresce  em  ímpetos  de  guerra.  Partilha 
também  dos  prazeres  da  caça;  e  nos  torneios  ou  na  carreira,  brilhante  e 
cheio  de  coragem,  mas  submisso  e  dócil,  sabe  reprimir  os  movimentos  e 
não  somente  obedece  á  mão  que  o  guia,  mas  parece  ainda  consultar  a 
vontade  do  cavalleiro.  Obediente  ás  ordens  que  recebe,  estaca  no  meio  do 
mais  impetuoso  galope.  Parece  que  abdicou  da  própria  espontaneidade 
para  viver  do  commando  do  homem,  que  sabe  executar  com  precisação 
incomparável  de  movimentos.  O  cavallo  colloca  ao  serviço  da  nossa  es- 
pécie todas  as  forças  e  prefere  muitas  vezes  a  morte  a  um  acto  de  des- 
obediência *.)) 


BuíFon,  Oeuvres  completes,  tom.  ii,  art.  Le  clieval. 


mamíferos  em  especial  271 

Linneu  caracterisou  o  cavallo  n'estes  termos  concisos: 

Animal  hervivorum,  rarissime  carnivorum ;  generosum,  superbum,  fortissimiim 
in  currendo,  portando,  trahendo;  aptissimum  equitando;  curso  farens*,  sylvis  dele- 
ctatur ;  hinnitu  sociam  vocat ;  calcitrando  pugnat. 

Ao  passo  que  os  cavallos  selvagens  ou  errantes  apresentam  por  toda 
a  parte  o  mesmo  typo  e  os  mesmos  hábitos,  os  cavallos  domésticos,  pro- 
ductos  complexos  da  educação,  do  regime,  das  necessidades  da  civilisa- 
ção,  são  verdadeiras  creações  do  homem  e  diversificam  muito  uns  dos 
outros.  Não  só  ha  raças,  que  se  distinguem  tanto  nas  aptidões  como  na 
espécie  humana  se  distingue  um  negro  de  um  branco,  mas  ainda,  dentro 
da  mesma  raça,  innumeras  variedades.  Aos  agentes  modificadores  natu- 
raes,  como  são  o  regime  alimentar  e  o  solo,  vêem  juntar-se  para  a  dif- 
ferenciação  dos  typos  a  selecção  artificial  empregada  pelos  creadores  de 
gado,  a  educação  particular  a  que  são  submettidos  e  ainda  o  emprego 
que  se  lhes  dá.  E  isto  que  dizemos  em  relação  aos  costumes  e  que  me- 
lhor ficará  estudado  no  artigo  Intelligencia  e  Aptidões ^  pode  egualmente 
affirmar-se,  mesmo  fora  da  consideração  das  raças,  em  relação  ás  con- 
dições morphologicas. 


CARACTERES  DISTINGTIVOS 


Falíamos  de  caracteres  sufficientes  para  distinguir  variedades,  mas 
incapazes  de  servirem  de  base  a  divisão  de  raças.  A  natureza  do  péllo  e 
a  sua  cor  são  os  principaes. 

As  cores  fundamentaes  são  quatro,  correspondentes  na  velha  te- 
chnologia  veterinária  a  quatro  humores  ou  temperamentos:  sanguíneo, 
fleugmatico,  colérico  e  melancoHco. 

Os  sanguíneos  são  os  castanhos.  N'este  grupo  distinguem  os  enten- 
dedores: o  castanho  claro,  o  castanho  escuro,  o  castanho  pezenho,  o 
castanho  rosilho  e  o  castanho  malhado. 

Os  fleugmaticos  são  os  russos.  N'este  grupo  ha:  o  russo  claro,  o 
russo  queimado,  o  russo  rodado,  o  russo  cardão,  o  russo  tordilho,  o 
russo  abatardado,  o  russo  pezenho,  o  russo  rosilho,  o  russo  manchado  e 
o  russo  sabino. 

Os  coléricos  são  os  lazões.  N'este  grupo  comprehendem-se :  o  lazão 


272  HISTORIA   NATURAL 

escuro,  o  lazão  alaranjado,  o  lazão  tostado,  o  lazão  melado,  o  lazão  dou- 
rado e  o  rabicão. 

Os  melancólicos  são  os  murzellos.  Este  grupo  abrange:  o  murzello 
andrino,  o  murzello  rodado,  o  murzello  amelroado,  murzello  acastanhado 
e  murzello  manchado  ou  mosqueado,  de  branco  e  de  castanho. 

O  péllo  n'uns  indivíduos  é  fino  e  lustroso,  de  modo  tal  que  fazendo 
os  cavaUos  um  certo  exercício  apparecem  bem  visíveis  na  cutís  as  rami- 
ficações venosas;  n'outros  o  péllo  é  grosso  e  arrepiado. 

Um  signal  branco  que  alguns  cavallos  teem  no  meio  da  região  fron- 
tal e  que  se  chama  estreita  é  também  um  caracter  distínctivo.  São  egual- 
mente  caracteres  diíTerenciaes  e  de  ura  certo  vahmento  entre  os  enten- 
dedores, os  signaes  conhecidos  pelos  nomes  de  silva  e  frente  aberta.  O 
primeiro  d'estes  signaes  consiste  n'um  laivo  branco  que  principia  acima 
dos  olhos,  no  meio  da  fronte,  e  acaba  nas  ventas;  o  segundo  é  uma  fa- 
cha branca,  larga  e  rectilínea  que  nasce  egualmente  no  meio  da  fronte  e 
se  estende,  sem  tocar  nos  olhos,  até  ás  ventas. 

Os  cavallos  mudam  de  péllo;  estas  mudas  teemlogar  principalmente 
na  primavera.  O  novo  péllo  que  vem  substituir  o  que  cae,  alonga-se  con- 
sideravelmente em  Setembro  ou  Outubro.  Este  novo  péllo  forma  um  re- 
vestimento que  em  domesticidade  é  excessivo,  mais  quente  que  o  pre- 
ciso e  que  tem  o  inconveniente  de  se  impregnar  facilmente  de  suor  e  de 
conservar-se  longo  tempo  humedecido.  É  para  obstar  a  estes  effeitos  que 
se  faz  a  tosquia.  A  muda  não  se  estende  aos  péllos  da  crina  e  da  cauda; 
estes  são  persistentes. 


REGIME 


A  alimentação  dos  cavallos  domésticos  varia  nas  differentes  locali- 
dades; a  base  porém,  é  constituída  sempre  por  plantas  e  grãos.  Herbí- 
voros como  os  bois,  os  cavallos  exigem  todavia  ahmentos  mais  nutriti- 
vos, porque  não  teem  o  estômago  complexo  d'estes  ruminantes,  e  mais 
abundantes  em  princípios  albumínosos  e  fibrínosos.  Os  grãos,  a  aveia  e 
a  cevada  satisfazem  inteiramente.  Os  pastos  seccos  conveem  melhor  aos 
cavallos  que  os  de  legares  pantanosos. 


mamíferos  em  especial  273 


ANDADURAS 


As  naturaes  e  communs,  portanto,  aos  cavaUos  domésticos  e  selva- 
gens, são:  o  passo,  o  trote  e  o  galope. 

O  passo  é  um  movimento  em  quatro  tempos.  Se  o  animal  levanta 
primeiro,  para  romper  a  marcha,  a  mão  direita,  por  exemplo,  ergue  em 
seguida  o  pé  esquerdo,  depois  a  mão  esquerda  e  em  seguida  o  pé  di- 
reito; e  assim  successivamente. 

O  trote  executa-se  em  dois  tempos:  o  animal  levanta  simultanea- 
mente dois  membros,  anterior  e  posterior,  oppostos,  que  caem  no  solo 
também  simultaneamente;  os  dois  outros  fazem  o  mesmo.  A  progressão 
é  n'este  caso  duas  vezes  mais  rápida  que  o  passo. 

O  galope  realisa-se  em  dois  ou  trez  tempos:  o  animal  salta,  erguendo 
ao  mesmo  tempo  as  mãos  ambas  e  seguidamente  os  dois  pés,  ao  mesmo 
tempo  também.  Quando  o  galope  é  rápido  ha  um  momento  em  que  todos 
os  quatro  membros  estão  no  ar. 

A  estas  andaduras,  que  chamamos  naturaes  por  serem,  como  disse- 
mos, communs  a  todos  os  cavallos,  ha  a  acrescentar  as  artificiaes,  que 
são  productos  da  educação.  D'estas,  as  principaes  são:  o  passo  travado, 
o  furta  passo  e  o  entrepasso  ou  traquinado. 

O  passo  travado  executa-se  como  o  passo  ordinário  em  quatro  tem- 
pos: á  mão  direita  segue  o  pé  esquerdo  e  á  mão  esquerda  o  pé  direito; 
no  entanto  os  movimentos  são  muito  mais  rápidos,  mais  desembaraça- 
dos e  os  membros  conservam-se  sempre  muito  debaixo  do  corpo. 

O  furta  passo  é  um  processo  de  locomução  em  que  os  movimentos 
são  mais  rasteiros  e  rápidos  que  no  passo  ordinário.  Reahsa-se  em  dois 
tempos :  o  animal  levanta  simultaneamente  a  mão  e  o  pé  do  mesmo  lado, 
assim  como  também  os  descança  ao  mesmo  tempo;  depois  faz  o  mesmo 
com  os  outros  membros.  Esta  andadura  é  commoda  para  o  cavalleiro  e 
propriissima  para  longos  percursos  em  caminho  plano;  muitas  vezes  os 
cavallos  adquirem  esta  andadura  por  motivo  de  doença  ou  cansaço. 

O  entrepasso  ou  traquinado  é  uma  andadura  em  que  os  membros 
anteriores  se  movem  como  em  furta  passo  e  os  posteriores  como  em  trote 
ou  galope;  esta  andadura  é  commum  nos  cavallos  gastos  e  fracos  dos 
rins. 

A  velocidade  do  cavallo  varia,  diz  Brehm,  entre  um  e  dois  metros  c 
sessenta  cenlimetros  por  segundo. 

VOL,   UI  18 


274  IIISTOHIA   NATUHAL 


SENTIDOS 


Os  órgãos  sensoriaes  do  cavallo  são  todos  desenvolvidos  e  apresen- 
tam uma  notável  perfeição. 

A  conformação  dos  olhos  permitte-lhe  estender  a  vista,  na  direcção 
horisonta],  a  enormes  distancias;  e  comquanto  não  seja  um  animal  no- 
cturno, é  certo  que  vê  de  noite  muito  melhor  que  o  homem.  A  choroidea 
tem  com  eíTeito  no  cavallo  o  mesmo  Lrilho  que  nos  fejinos,  diz  Brehm. 

O  ouvido  é  fino  e  apurado;  a  grandeza  e  mobilidade  extrema  das 
orelhas  permitte-lhe  receber  e  condensar  ainda  os  sons  mais  fracos  e 
distantes. 

O  olfato  é  também  no  cavallo  muito  delicado;  a  amplitude  das  fos- 
sas nasaes  e  a  mobilidade  das  ventas  são  condições  que  tornam  o  órgão 
de  olfação  d'este  solipede  propriissimo  para  receber  as  impressões  odo- 
ríferas. O  cavallo,  com  eíTeito,  presente  o  homem  à  distancia  de  meia 
légua  e  descobre  de  muito  longe  os  togares  em  que  ha  agua.  «É  sabido, 
diz  Brehm,  que  as  caravanas  dos  árabes,  dos  tártaros  e  dos  mongoes, 
assim  como  os  pastores  bespanhoes  na  ilha  de  Caraça  aproveitam,  nos 
calores  do  estio,  o  fino  olfato  dos  cavallos  para  descobrirem  depósitos 
d'agua  ignorados.  Durante  os  quarenta  annos  que  viveram  no  deserto, 
os  hebreus  recorrem  para  o  mesmo  fim  ao  instincto  d'estes  solipedes. 
Os  cavallos  africanos  escarvam  o  solo  para  descobrirem  as  nascentes  cuja 
presença  o  instincto  lhes  denuncia.»  * 

O  gosto  é  também  no  cavallo  apuradissimo.  Menault  escreve:  «A  de- 
licadeza do  cavallo  na  escolha  dos  alimentos  excede  a  de  todos  os  herbí- 
voros. O  paladar  é  desenvolvido  e  o  lábio  superior  dotado  de  uma  grande 
facilidade  de  movimentos,  o  que  permitte  ao  animal  palpar  e  juntar  os 
alimentos.»  ^ 

A  sensibilidade  geral  ou  táctil  é  grande  n'este  solipede.  Mao  grado 
o  péllo  denso  que  a  cobre,  a  pelle  é  delicada  na  apreciação  das  impres- 
sões; a  prova  é  o  incommodo  que  ao  cavallo  produzem  as  picadas  dos 
insectos. 


1  Brehm,  Ohr.  cit.,  vol.  2.",  pg.  331. 

2  Menault,  LHnteUigence  des  animaux,  pg.  2il. 


mamíferos  em  especial  275 


VOZES 


A  voz  do  cavallo,  que  tem  o  nome  de  rincho  ou  relincho,  consiste, 
como  se  sabe,  n'uma  serie  de  sons  entrecortados,  muito  agudos  ao  prin- 
cipio, mais  graves,  claros  e  sonoros  depois.  Esta  voz  modula-se  de  cinco 
maneiras  differentes  para  exprimir  sentimentos  distinctos  e  dá  origem 
assim  a  outras  tantas  vozes. 

Na  voz  ou  relincho  que  exprime  contentamento,  os  sons  crescem 
progressivamente  em  intensidade;  adquirem  n'este  caso  o  tom  mais  forte 
e  o  mais  agudo. 

Na  voz  que  exprime  um  desejo,  os  sons  prolongam-se,  tornando-se 
cada  vez  mais  graves. 

No  relincho  que  denuncia  cólera,  os  sons  são  curtos,  agudos,  muito 
entrecortados. 

Na  voz  produzida  pelo  medo,  os  sons  são  curtos,  graves  e  roucos. 

O  relincho  que  a  dor  produz  é  um  gemido,  espécie  de  tosse  suffo- 
cada,  de  som  grave  e  surdo  que  acompanha  os  movimentos  respiratórios. 


INTELLIGENGIA  E  APTIDÕES 


«O  cavallo,  diz  Scheitlin,  tem  as  noções  do  tempo,  do  espaço,  da 
luz,  das  cores,  da  forma,  da  famiha,  dos  visinhos,  dos  amigos  e  inimi- 
gos, dos  companheiros,  do  homem  e  das  coisas.  Tem  memoria,  intendi- 
mento,  imaginação  e  sensibihdade.  É  susceptível  de  paixões:  de  amor  e 
ódio.  O  intendimento  d'este  animal  aperfeiçoa-se  pela  educação.»  A  me- 
moria do  cavallo  é  grande,  sobretudo  a  memoria  dos  legares.  Reconhece 
melhor  do  que  o  homem  que  o  dirige  um  caminho  que  uma  vez  percor- 
reu. Seguro  de  si,  resiste  teimosamente  ao  dono  que  o  conduz  por  cami- 
nho errado.  Por  estradas  em  que  tenha  passado,  pode  bem  o  cavalleiro 
ou  o  cocheiro  adormecer,  que  o  animal  caminhará  até  ao  termo  da  jor- 
nada, sem  tergiversar.  Ao  fim  de  muitos  annos,  reconhece  o  alpendre 
em  que  uma  vez  se  recolheu  e  pára-lhe  espontaneamente  á  porta. 

A  memoria  das  pessoas  é  também  excellente  no  cavallo;  reconhece, 
passados  annos,  o  antigo  dono  e,  desde  que  o  ve,  procura  manifestar  o 


276  HISTORIA  NATUIIAL 

contentamento  por  todos  os  modos,  relinchando,  estendendo  para  elle  o  fo- 
cinho, saltando-lhe  em  torno.  Se  o  monta  alguém  que  não  seja  o  cavalleiro 
habitual,  o  solipede  reconhece  isto  desde  logo  e  para  certificar-se  volta  a 
cabeça  para  traz.  Conhece  a  voz  e  comprehende  as  palavras  do  dono  e 
dos  creados  que  o  tratam.  Abandonado  no  meio  de  um  caminho,  procura 
a  casa  do  dono  e  entra  só  na  cavallaripa.  «Em  1809,  refere  Huzard,  pro- 
fessor da  escola  de  Alfort,  os  tyrolezes,  por  occasião  de  uma  das  suas 
insurreições,  aprisionaram  quinze  cavallos  bavaros  de  que  principiaram 
a  fazer  uso,  montando-os;  mais  tarde,  tendo  um  encontro  com  um  esqua- 
drão do  regimento  bavaro,  os  cavallos  ao  avistarem  o  uniforme  dos  seus 
antigos  cavalleiros,  metteram  a  toda  a  brida,  levando  sobre  si  os  novos 
possuidores,  a  despeito  de  todos  os  esforços  em  contrario  por  parte  d'es- 
tes,  para  as  fileiras  dos  bavaros,  que  fizeram  prisioneiros  todos  os  tyro- 
lezes.» 

As  quahdades  intellectuaes  do  cavallo  tornam-o  apto  a  aprender 
tudo  quanto  podem  saber  o  elephante  e  o  cão.  Todos  temos  visto  do  que 
este  animal  é  capaz  nos  circos  em  que  o  exhibem  adestrado.  Á  voz  do 
educador  ergue-se  sobre  os  membros  posteriores,  mantendo  alguns  ins- 
tantes uma  posição  quasi  erecta;  obedecendo  á  mesma  voz  ou  ao  sim- 
ples estahdo  de  um  chicote,  ajoelha,  faz  corcovos,  executa  todos  os  pas- 
sos, ainda  os  mais  difficeis,  galopa  e  trota  com  uma  velocidade  maior  ou 
menor  segundo  as  ordens  que  recebe,  deriva  repentinamente  de  um 
passo  a  outro  passo,  de  um  galope  a  um  trote,  do  trote  ao  passo,  estaca 
em  meio  da  corrida  mais  violenta,  finalmente  dança  em  passos  differen- 
tes  e  adequados  ao  som  da  musica.  Um  cavallo  bem  adestrado  é  para 
nós  um  verdadeiro  motivo  de  admiração.  Em  taes  condições  elle  com- 
prehende todos  os  movimentos  das  mãos  e  dos  pés  do  dono,  intrepreta 
todas  as  manobras  do  chicote  e  a  palavra;  elle  tem  dentro  de  si,  como 
diz  Scheithn,  um  pequeno  diccionario.  É  tal  e  tão  progressivo  o  intendi- 
mento  do  cavallo  que,  diz  o  naturalista  citado,  nós  não  devemos  pergun- 
tar o  que  elle  pode  aprender,  mas  sim  que  haverá  que  elle  não  possa 
aprender.  A  sensibihdade  moral  é  também  no  cavallo  um  facto  incontes- 
tável; além  dos  sentimentos,  vulgares  em  outras  espécies,  de  aff^eição  e 
ódio,  manifestam  muitos  outros.  A  emulação  é  um  d'elles.  Os  cavallos  de 
corridas  possuem  em  alto  grão  esta  emoção.  WiUiam  Youatt,  citado  por 
Figuier,  conta  o  caso  de  um  cavallo  corredor,  habituado  a  sair  victorioso 
de  quasi  todos  os  torneios,  mas  que  um  dia,  tendo  a  infelicidade  de  con- 
correr com  um  adversário  sério,  e  vendo  que  este  lhe  ganhava  a  dianteira 
deu  para  elle  um  salto  desesperado  e  o  agarrou  a  dentes  pela  maxilla 
inferior,  obrigando-o  assim  a  parar.  Foi  diíRcil,  acrescenta  o  escriptor 
inglez,  separar  os  dois  animaes.  Um  caso  análogo,  narrado  pelo  mesmo 
escriptor,  é  o  de  um  cavallo  de  corridas  que  vendo  o  adversário  adian- 


mamíferos  em  especial  277 

tar-se  lhe  deitou  os  dentes  a  uma  perna  cora  violência  tal  que  para  o 
obrigar  a  deixar  a  presa  foi  preciso  que  os  jockeys  se  desmontassem.  O 
sentimento  da  emulação  é  tal  no  cavallo  de  corridas  que  elle  só  deve 
bastar  para  estimulo  dos  contendores. 


EDADES 


No  primeiro  anno  de  existência  o  cavallo  apresenta  um  pêllo  lanoso 
e  as  crinas  e  a  cauda  curtas,  hirtas  e  crespas;  no  segundo  anno  o  pêllo 
principia  a  tornar-se  lusidio  e  as  crinas  e  a  cauda  crescem  e  tornam-se 
lisas. 

A  edade  do  cavallo  reconhece-se  pelos  dentes  incisivos ;  este  conhe- 
cimento é  importante,  porque  só  por  si  decide  muitas  vezes  do  valor  do 
animal. 

Os  cavallos  teem  quarenta  dentes  e  as  éguas  trinta  e  seis.  Os  den- 
tes dividem-se  em  doze  incisivos^  quatro  presas  ou  colmilhos  e  vinte  e 
quatro  mollares.  Os  dentes  incisivos  são  seis  em  cada  maxilla,  seguidos 
de  dois  colmilhos,  um  direito,  outro  esquerdo  e  seis  queixaes  por  lado. 
As  presas,  sobretudo  as  da  maxilla  inferior,  faltam  muitas  vezes  nas 
éguas.  Entre  os  colmilhos  e  os  mollares  existem,  de  cada  lado,  espaços 
desguarnecidos,  que  se  chamam  barras  e  que  servem,  como  dissemos, 
para  a  coUocação  do  freio;  estes  espaços  correspondem  aos  ângulos  da 
bocca.  Os  incisivos  teem  denominações  particulares:  chamam-se  pinças 
os  dois  mais  anteriores  de  cada  maxilla,  médios  os  dois  immediatos,  um 
de  cada  lado  e  cantos  ou  dentes  angulares  os  últimos.  De  ordinário  o 
potro  nasce  sem  dentes;  mas  se  alguns  apresenta,  são  dois  mollares, 
nunca  incisivos.  Ao  fim  de  oito  dias  as  pinças  apparecem  c  durante  todo 
o  primeiro  mez  rompe  um  terceiro  mollar;  os  médios  nascem  dos  trinta 
aos  quarenta  dias  e  entre  os  seis  mezes  e  meio  e  os  dez  saem  os  cantos 
e  o  quarto  mollar.  Termina  assim  a  primeira  dentição  ou  dentição  do  leite 
que  se  distingue  da  segunda,  porque  os  dentes  são  n'aquella  mais  pe- 
quenos, mais  brancos  e  mais  estreitos  na  base  do  que  n'esta. 

A  segunda  dentição  principia  entre  os  dois  annos  e  meio  e  os  trez. 
Os  primeiros  dentes  de  leite  que  caem  e  se  substituem  são  as  pinças. 
Dos  trez  annos  e  meio  aos  quatro  são  substituidos  os  médios  e  principiam 
a  apparecer  também  as  presas  inferiores.  Dos  quatro  annos  e  meio  até 


278  HISTORIA  NATURAL 

aos  cinco  os  cantos  são  subslituidos,  rompem  as  presas  superiores  e  ap- 
parece  o  quinto  mollar.  Assim  o  cavallo  de  trez  annos  deve  apresentar 
quatro  incisivos  de  segunda  dentição;  o  de  quatro  annos,  oito;  e  o  de 
cinco,  deve  possuil-os  todos. 

Na  superfície  da  coroa  dos  incisivos  ha  uma  cavidade  que  vae  len- 
tamente desapparecendo,  á  medida  que  o  uso  ou  o  attrito  gastam  estes 
dentes;  este  phenomcno  é  o  que  se  chama  razamento.  Por  elle  podemos 
estabelecer  ainda  caracteres  que  sirvam  para  conhecer  a  edade  do  ca- 
vallo. Com  effeito,  nas  pinças  inferiores  da  primeira  dentição  a  cavidade 
desapparece  aos  dez  mezes,  nos  médios  ao  fim  de  um  anno  e  nos  cantos 
ao  fim  de  dois.  Nos  dentes  da  segunda  dentição  o  desapparecimento  da 
cavidade  ou  completo  razamento  dá-se  para  as  pinças  aos  seis  annos, 
para  os  médios  aos  sete  e  aos  oito  para  os  cantos.  Dizem  então  os  en- 
tendedores que  o  cavallo  está  cerrado.  Dos  oito  annos  em  diante  não  ha 
signaes  certos  para  reconhecer  a  edade  do  cavallo;  pode  apenas  julgar-se 
d'ella,  approximativamente,  pelo  comprimento,  pela  cor  e  configuração 
dos  dentes. 

Não  é  possível  dizer  com  exactidão  o  limite  da  vida  do  cavallo  do- 
mestico, porque  elle  varia  segundo  um  grande  numero  de  condições  entre 
as  quaes  figuram  em  primeira  linha  o  clima,  a  alimentação  e  o  género 
de  trabalho.  Ha  exemplos  de  longevidade  em  que  o  termo  da  vida  foi 
aos  cincoenta  ou  sessenta  annos;  são  raros  taes  casos.  Entre  nós  o  ca- 
vallo de  vinte  annos  está  de  ordinário  estropeado,  incapaz  de  qualquer 
serviço. 

Na  Rússia  e  na  Inglaterra  existem  hospitaes  destinados  aos  cavallos 
invahdos  que  na  edade  do  vigor  e  da  força  se  nobilitaram  por  serviços 
extraordinários. 


DOENÇAS 


O  cavallo  está  exposto  a  um  grande  numero  de  doenças  medicas  e 
cirúrgicas.  As  principaes  são:  o  esparavão,  temor  com  ankilose  ou  im- 
possibilidade de  movimentos  na  articulação  tibio-tarsica;  a  dilatação  in- 
flamatória das  glândulas  submaxillares;  a  sarna,  erupção  secca  ou  hú- 
mida que  faz  cair  o  pêllo;  o  mormo,  inflamação  pustulosa,  mortal  e  de 
grande  contagiosidade,  mesmo  para  o  homem;  a  doidice,  inflamação  do 
cérebro  ou  membranas  envolventes  e  correspondente,  portanto,  na  nossa 


mamíferos  em  especial  279 

espécie  á  encephalite  e  meningite;  a  catarata  e  finalmente  as  doenças 
produzidas  pela  presença  de  entozoarios  e  epizoarios. 


DESTINOS 


Desde  o  cavallo  de  Luciíis  Vérus,  que  vestia  purpuras  e  que  teve 
um  tumulo  de  mármore,  e  o  cavallo  de  Calígula  que  foi  pontífice  e  que 
esteve  para  ser  cônsul  até  aos  míseros  cavallos  de  praça,  um  dia  inteiro 
atrelados  a  um  carro,  que  differenças  de  sortes,  que  variedades  de  des- 
tinos ! 

Já  o  fizemos  notar  nas  considerações  geraes  acerca  dos  mamíferos : 
poucos  animaes  são  tão  infelizes  como  o  cavallo.  Não  que  elle  seja  mais 
mal  tratado  ou  forçado  a  trabalhar  mais  que  o  jumento  ou  o  boi,  por 
exemplo;  mas  porque,  sendo  estimado  na  edade  do  vigor  e  da  elegância, 
é  abandonado  precisamente  quando  mais  carecia  de  um  tratamento  bom. 
Também  não  é  raro,  como  fizemos  notar  n'outro  ponto,  que  o  cavallo 
bem  alimentado  e  cuidado  com  esmero  na  edade  do  aprumo  por  um  pro- 
prietário rico,  venha  a  passar,  desde  que  não  serve  para  as  exhíbíções 
elegantes,  ás  mãos  de  algum  rude  carreteiro  que  o  explora  e  maltrata. 
Esta  transição  do  luxo  á  miséria,  da  vida  elegante  á  servidão  abjecta, 
deve  ser  horrível  para  um  animal  intellígente  e  susceptível  como  o  ca- 
vallo. O  jumento  e  o  boi  trabalham  muito,  trabalham  toda  a  vida  e  são 
muitas  vezes  mal  ahmentados;  mas  também  como  nunca  conheceram  vida 
melhor,  não  teem  a  fina  sensibilidade,  os  resentimentos,  a  consciência 
de  uma  situação  desgraçada.  Vivem  mal,  mas  viveram  sempre  assim  e 
não  aspiram  (perdoem-me  o  termo  os  psycologistas)  a  viver  melhor.  Não 
é  este  muitas  vezes  o  caso  do  cavallo;  por  isso  o  consideramos  mais  in- 
feliz. 


usos   E   PRODUCTOS 


o  cavallo,  como  o  boi,  é  um  companheiro  e  um  collaborador  do  ho- 
mem. Brehm  considera-o,  não  sem  motivo,  um  dos  mais  poderosos  ins- 
trumentos da  civíhsação.  E  com  eífeito,  ou  seja  no  campo  de  batalha,  ou 


280  HISTORIA  NATURAL 

seja  nas  aldeãs  carregando  c  tomando  parte  nos  trabalhos  de  lavoira,  ou 
ainda  nas  cidades  puxando  a  carros  ou  servindo  na  equitação,  o  cavallo 
presta  ao  homem  serviços  consideráveis  e  em  parte  mesmo  insubstituí- 
veis. 

Mas  além  d'estes  serviços  prestados  pelo  animal  durante  a  vida,  de- 
vemos considerar  ainda  que  teem  valor  as  substancias  que  nos  lega, 
morrendo.  Com  effeito,  Parent-Duchâtelet  calcula  nos  Annaes  de  hygiene 
publica  que  um  cavallo,  morto  por  doença  ou  abatido  por  qualquer  mo- 
tivo, pode  ainda  produzir  ao  proprietário,  que  saiba  exploral-o  bem,  uma 
quantia  que  oscilla  entre  sessenta  e  dois  e  cento  e  quatorze  francos.  Pa- 
rent-Duchâtelet faz  o  calculo  minuciosamente,  estabelecendo  parcella  a 
parcella,  os  preços  da  carne,  da  pelle,  dos  ossos,  dos  tendões,  dos  cas- 
cos, das  crinas,  do  sangue,  da  gordura  e  das  vísceras,  porque  de  todas 
estas  partes  tira  proveito  a  industria  e  o  commercio.  Em  Portugal  ura 
cavallo  morto  é  uma  coisa  inútil,  um  pasto  de  cães  vadios. 

A  carne  do  cavallo  é,  no  dizer  de  Larrey  e  de  Amédée  Latour, 
excellente  ao  paladar  e  muito  saudável.  Larrey,  o  cirurgião  celebre,  pres- 
crevia-a  aos  seus  doentes  com  os  melhores  resultados.  Renault,  director 
da  escola  de  veterinária  de  Alfort,  deu  em  Agosto  de  1855  um  jantar  em 
que  todos  os  pratos  eram  de  carne  de  cavallo  ou  de  boi;  os  convivas 
acharam  mais  delicados  os  primeiros.  A  repugnância  que  geralmente  se 
sente  pela  carne  do  cavallo,  ou  antes  pela  idéa  de  a  comer,  porque  pou- 
cos chegam  a  proval-a,  é  um  dos  muitos  preconceitos  da  educação  aca- 
nhada que  recebemos.  Como  os  celtas  sacrificavam  aos  seus  deuses  os 
cavallos  cuja  carne  comiam  depois,  o  clero  catholico,  inimigo  enragé  da 
idolatria,  considerou  essa  carne  immunda.  O  papa  Gregório  iii  escrevia 
a  S.  Bonifácio,  bispo  da  Germânia,  que  prohibisse  o  emprego  da  carne 
do  cavallo  sob  pena  de  severas  penitencias.  Vem  d'ahi  talvez,  como  pre- 
tende Keyssler,  o  desprezo  geral  por  um  alimento  que  quantos  o  teem 
provado  declaram  excellente.  Mas  seja  esta  ou  outra  a  origem  da  nossa 
repugnância  pela  carne  cavallar,  a  verdade  é  que  ninguém  saberá  justi- 
ficar esse  sentimento,  ninguém  .saberá  dizer  porque  come  a  carne  do  boi 
e  não  come  a  do  cavallo.  Ora  quando  pensamos  que  se  abandonam  pelos 
montes  centenas  de  cavallos  velhos  que  a  morte  inutihsa  e  nos  lembra 
ao  mesmo  tempo  a  alimentação  miserável  da  nossa  gente  do  campo  e 
ainda  da  maioria  dos  operários  das  cidades  que  raras  vezes  comem  carne, 
não  podemos  deixar  de  sentir  o  preconceito  geral.  Devemos  convir  em 
que,  se  é  verdade  existir  muita  miséria  real  e  inevitável,  é  verdade 
também  que  ha  muita  outra  que  só  os  prejuízos  e  as  falsas  educações 
sustentam.  O  lavrador  pobre  que  não  come  carne  uma  única  vez  no  anuo 
é  o  mesmo  que  atira  á  margem  um  cavallo  cujo  musculo  Larrey  e  La- 
tour chamam  «salutar,  nutritivo,  aromático  e  magnifico  ao  paladar.»  É  a 


^Sj^ií 


mamíferos  em  especial  281 

prodigalidade  do  mendigo!  Latour  diz:  «Ao  povo  não  falta  carne;  não 
perca  elle  milhões  de  kilogrammas  que  pode  utilisar  como  alimento. 


RAÇAS  CAVALLARES 


Os  cavallos  constituem  uma  espécie  única,  dividida  porém  n'um 
grande  numero  de  raças.  Não  as  estudaremos  todas,  mas  as  mais  notá- 
veis e  mais  estimadas. 


1.  Raças  árabes 


Entre  todas  as  raças  cavallares  do  Oriente  merecem  o  primeiro  logar 
as  raças  árabes.  Estas  raças  são  para  os  indígenas,  apreciadores  e  en- 
tendedores sem  rival,  muito  numerosas.  Em  geral,  tcndo-se  pouco  em 
conta  pequenas  diíferenças  morphologicas  que  á  grande  maioria  passam 
desapercebidas  e  que  só  um  apreciador  sabe  ver,  falla-se  no  singular  do 
cavallo  amhey  como  se  existisse  em  realidade  um  só  typo,  uma  espécie 
nnica.  E  os  próprios  naturalistas,  pondo  de  parte  pequenas  diflerenças 
que  não  conhecem,  descrevem  um  único  typo,  um  pouco  ideal,  cer- 
tamente, porque  é  preciso  que  todas  as  raças  árabes  ahi  se  achem  conti- 
das. Brehm,  por  exemplo  diz  com  inteira  franqueza:  «É-me  impossível 
referir  todas  as  minuciosidades  que  os  árabes  tomam  em  consideração 
para  exaltar  a  bondade  do  cavallo;  nós,  homens  do  norte,  não  as  sabe- 
mos e  os  nossos  maiores  entendedores  são  forçados  a  confessar,  para 
vergonha  nossa,  que  não  conhecem  o  cavallo  árabe.»  * 


Brehm,  Ohr.  ciL,  vol.  2.o,  pg.  361. 


282  HISTORIA  NATURAL 


CARACTERES 


O  cavallo  árabe  é  de  todos  os  do  mundo  o  mais  bello  e  o  mais  ele- 
gante. É  bem  construido,  de  formas  sêccas,  mas  arredondadas  e  agradá- 
veis e  de  pellè  fmissima.  Não  6  grande;  raras  vezes  excede  metro  e  meio 
de  comprimento.  Tem  a  cabeça  larga,  a  região  frontal  quasi  quadrada, 
as  ventas  largas  e. muito  abertas,  a  bocca  pequena,  as  orelhas  curtas, 
direitas  e  muito  moveis,  o  peito  largo,  os  membros  seccos  e  nervosos  e 
os  cascos  rijps.  Sob  a  pelle  lisa  de  péllo  curto  e  macio  desenham-se  ni- 
tidamente as  veias  que  lhe  percorrem  o  corpo  em  todas  as  direcções.  O 
pêllo  é  de  ordinário  russo  e  torna-se  branco  com  a  edade;  ha  porém  in- 
dividues pretos,  baios  e  alazões.  O  pello  fino  e  sedoso,  de  reflexos  dou- 
rados ou  prateados,  tem  o  brilho  do  setim.  A  musculatura  é  poderosa. 
Os  olhos  são  vivos  e  salientes.  A  crina  não  é  muito  abundante;  os  seus 
pellos  são  finíssimos.  A  cauda  é  pouco  coberta  na  origem;  em  compen- 
sação os  pellos  extensos  que  a  formam  são  muito  abundantes  na  parte 
inferior. 

Nenhum  cavallo  possue  como  este  a  belleza,  a  força  e  a  agilidade 
ao  mesmo  tempo.  É  sóbrio;  e  no  entanto  pôde  percorrer  habitualmente 
oitenta  kilometros  por  dia. 

O  árabe  não  estima  o  cavallo  somente  pela  belleza  de  formas,  mas 
ainda  e  principalmente  pelas  qualidades.  Tanto  assim  é  que  os  que  es- 
colhe para  a  propagação  da  raça  nem  sempre  são  os  mais  bem  feitos; 
muitas  vezes  os  mestiços  são  muito  mais  bellos  que  os  cavallos  de  sangue 
puro.  O  famoso  Godolphin,  cavallo  árabe  que  mais  contribuiu  para  a 
creação  da  actual  raça  cavallar  ingleza,  era  feio  e  ligára-se-lhe  tão  pouca 
importância  que  andava  atrelado  a  uma  carroça  de  aguadeiro  em  Paris. 
ViziVj  um  outro  cavallo  celebre  de  cobrição,  era  também  feio;  e  Turck- 
mainati,  o  ascendente  da  raça  tão  estimada  de  Trakenen,  na  Prússia, 
puxava  á  malla  do  correio  entre  Damas  e  Alep.  Ahi  o  descobriu  um  apre- 
ciador que  o  comprou  e  trouxe  para  a  Europa. 

«Os  árabes,  diz  Brehm,  estão  firmemente  convencidos  de  que,  atra- 
vez  dos  séculos,  os  seus  cavallos  se  teem  conservado  puros;  e  na  reali- 
dade é  extremo  o  cuidado  com  que  vigiam  a  reproducção  para  que  não 
haja  mistura  de  sangue  estranho.  O  acto  sexual  e  o  parto  nunca  se  rea- 
Usam  senão  diante  de  testemunhas.  O  proprietário  de  um  bom  cavallo 


mamíferos  em  especial  ,  283 

de  cobrição  deve  emprestal-o  para  copular  égua  de  raça;  sendo  esses 
cavallos  muito  estimados,  os  donos  de  boas  éguas  fazem  muitas  vezes 
viagens  de  centos  de  léguas  para  as  levarem  á  cobriçao.  Em  troca  do 
favor  prestado,  o  dono  do  cavallo  recebe  uma  certa  porção  de  cevada, 
um  carneiro  ou  um  odre  de  leite  que  o  possuidor  da  égua  lhe  leva. 
Nunca  acceita  dinheiro;  se  tal  fizesse  ficaria  sujeito  a  que  o  injuriassem 
dizendo-lhe  que  traficou  com  o  amor  do  cavallo.  Tal  phrase  é  deshonrosa 
para  um  árabe.  Só  quando  ao  possuidor  de  um  bom  cavallo  de  cobriçao  se 
pede  que  o  empreste  para  copular  uma  fêmea  de  raça  inferior  é  que  elle 
tem  o  direito  de  recusar.  Entre  os  árabes,  famosos  conhecedores  de  ra- 
ças, tal  caso  raríssimas  vezes  se  dá.»  *  A  geneologia  dos  cavallos,  entre 
estes  povos,  é  tão  authentica  como  a  das  famílias  mais  distinctas  da  no- 
bresa;  é  o  que  perfeitamente  se  exphca  pela  presença  de  testemunhas 
nos  actos  do  coito  e  da  parturição.  A  égua  é  tratada  durante  a  prenhez 
com  todos  os  desvellos.  O  potro  vive,  desde  os  primeiros  dias,  na  tenda 
do  árabe,  como  se  fizesse  parte  integrante  da  familia;  é  por  isso  que  os 
cavallos  árabes  são  verdadeiros  animaes  domésticos,  como  o  cão.  Po- 
dem-se  com  segurança  deixar  ao  pé  das  creancinhas,  com  que  muitas 
vezes  brincam,  á  maneira  dos  grandes  cães. 

O  potro  recebe  além  do  leite  materno  o  da  fêmea  do  camello.  A  ce- 
vada é-lhe  fornecida,  desde  que  os  dentes  podem  tritural-a;  depois  de 
desmamado  principia  a  dar-se-lhe  a  melhor  herva,  continuando  porém  a 
cevada  a  formar  a  base  de  alimentação. 

A  educação  do  cavaho  árabe  principia  aos  dezoito  mezes  e  prolon- 
ga-se  até  á  edade  adulta.  Ao  principio  é  sempre  uma  creança  que  o 
monta,  que  o  leva  a  beber  ou  ao  pasto,  que  o  limpa,  emfim  que  d'elle 
cuida.  Assim  aprendem  simultaneamente  o  cavallo  e  a  creança:  um  a  ser 
um  dócil  animal  de  sella,  o  outro  um  destro  cavalleiro. 

Aos  dois  annos  pôe-se  pela  primeira  vez  o  selim  e  o  freio  ao  cavallo. 
Procede-se  com  precaução:  o  selim  é  sempre  muito  leve  e  o  freio  guar- 
necido de  lã  e  muitas  vezes  humedecido  em  agua  e  sal  para  que  o  so- 
lipede  se  lhe  habitue  facilmente.  Aos  trez  annos  principia  a  exigir-sc-lhe 
trabalho,  obrigando-o  ao  exercício  das  forças  que  possue  e  não  se  lhe 
negando  quanto  ahmento  quizer.  A  educação  do  cavallo  só  se  considera 
completa  aos  sete  annos. 

O  cavallo  é  para  o  árabe  um  verdadeiro  thesouro;  a  morte  do  ani- 
mal impóe  lucto  de  mezes  ao  dono.  «O  cavallo,  dizem  os  árabes,  é  a 
mais  bella  creatura  depois  do  homem:  o  mais  nobre  mister  é  educal-o; 
o  maior  gozo  montal-o;  a  melhor  das  occupaçôes  domesticas,  tratal-o.» 


Brehm,  Ohr.  ciL,  vol.  2.o,  pg.  3G3. 


284  HISTORIA  NATURAL 

É  diíRcil  obter  do  árabe  um  bom  cavallo  de  cobrição;  mas  mais  diífi- 
cil  6  obter  uma  égua.  A  fcmca  com  eíTeito,  é  tida  em  maior  valor;  não 
ha  dinheiro  que  a  pague  a  um  árabe. 

Na  dedicação  extrema  do  árabe  pelo  cavallo  deve  ter  exercido  uma 
grande  influencia  o  principio  de  Mahomet: — ganharás  tantos  dias  de  in- 
dulgência quantos  os  grãos  de  cevada  que  deres  cada  dia  ao  teu  cavallo. 


2.  Raça  persa 


Os  cavallos  persas  tornaram-se  celebres,  séculos  antes  dos  árabes. 
Eram  tidos  na  conta  dos  melhores  para  a  guerra  e  formavam  a  mais  se- 
lecta cavallaria  do  Oriente.  Os  parthas  quando  queriam  propiciar  os  deu- 
ses por  um  sacrifício  solemne  e  extraordinário,  immolavam-lhes  um  ca- 
vallo persa.  As  raças  conservam-se  ainda  puras. 


CARACTERES 


Os  cavallos  persas  teem  grandes  aíTmidades  com  os  árabes.  São  po- 
rém superiores  a  estes  em  belleza  de  formas.  Teem  a  cabeça  mais  es- 
treita e  a  garupa  mais  bem  feita. 


APTIDÕES  E  EMPREGO 


Satisfazem  a  todos  os  fins  em  que  se  utilisam  os  cavallos  árabes. 
São  mais  velozes  dO  que  estes  na  carreira,  mas  não  a  sustentam  por 
tanto  tempo.  Assim  n'uma  corrida  de  confronto  entre  um  cavallo  árabe  e 
um  cavallo  persa,  vé-se  sempre  que  este  ganha  ao  principio  uma  grande 
dianteira  que  mais  tarde  perde  invariavelmente,  porque  se  fatiga  sempre 
mais  depressa  que  o  adversário. 


mamíferos  em  especial  285 


3.  Raças  turcas 


O  cavallo  turco  é  um  mestiço  que  resulta  do  cruzamento  dos  cavai- 
los  persa  e  árabe. 


caracteres 


Assemelha-se  notavelmente  ao  cavallo  árabe,  principalmente  na  ca- 
beça. Para  o  distinguir  d'este  é  mister  ser-se  um  consumado  entende- 
dor; a  única  diíferença  apreciável  consiste  em  que  é  mais  alto. 


aptidões  e  emprego 


Assim  como  pelas  formas  physicas  se  approxima  mais  do  cavallo 
árabe,  pelas  qualidades  e  aptidões  assemelha-se  mais  ao  cavallo  persa. 
É  de  notar  que  na  Turquia  os  cavallos  inutilisam-se  muito  rapidamente, 
porque  são,  em  geral,  mal  alimentados  e  porque  os  forçam  a  exercícios 
violentos  depois  de  os  terem  conservado  na  immobilidade  durante  muito 
tempo.  Um  costume  irracional  que  existe  na  Turquia  e  que  deve  também 
concorrer  muito  para  estragar  os  cavallos,  é  o  de  os  manterem  nas  ca- 
vallariças  prezos  pelos  quatro  membros.  Depois  d'este  repouso  forçado 
durante  o  qual  os  cavallos  engordam  excessivamente,  vêem  as  marchas 
demoradas  em  que  se  lhes  exige  uma  velocidade  com  que  não  podem^ 
não  só  pelo  enfraquecimento  dos  músculos,  como  pelo  pezo. 


4.  Raça  barba  ou  numida 

O  cavallo  numida  que  muitos  conhecem  mais  pelo  nome  de  cavallo 
argelino  goza  sob  o  ponto  de  vista  das  suas  aptidões  para  a  guerra,  de 
uma  reputação  extraordinária  que  lhe  vem  do  tempo  dos  romanos.  O 
clima,  a  natureza  da  vegetação,  as  condições  do  solo  e  a  educação  espe- 


286  HISTORIA  NATURAL 

ciai  que  recebe  desde  tempos  remotissiraos,  fizeram  d'este  cavallo  o  me- 
lhor para  a  guerra.  As  luctas  quasi  constantes  das  tribus  umas  com  as 
outras,  implicando  o  emprego  frequente  d'este  cavallo,  suggeriu  também 
a  idea  de,  por  meio  de  uma  reproducção  sempre  vigiada  e  de  uma  ali- 
mentação e  educação  próprias,  conservar  inalteráveis  as  suas  famosas 
disposições. 


CARACTERES 


o  cavallo  numida  approxima-se  muito  do  cavallo  árabe.  Tem  a  mesma 
seccura  de  carnes,  a  mesma  força,  o  mesmo  porte  altivo.  As  formas  são 
bellas;  a  volta  do  pescoço  é  graciosíssima. 


APTIDÕES   E   EMPREGO 


O  cavallo  numida  ou  argelino  é,  como  foi  dito,  particularmente  apro- 
priado aos  exercícios  da  guerra.  Mas,  além  d'isto,  a  rijeza  da  muscula- 
tura e  o  vigor  dos  pulmões,  tornam-o  propriissimo  para  a  corrida.  É  ro- 
bustíssimo. Na  guerra  da  Crimeia,  ao  passo  que  os  cavallos  francezes  e 
inglezes  eram  dizimados,  o  cavallo  argelino  resistia. 


5.  Raças  inglezas 


Dos  cavallos  inglezes  o  mais  importante  a  considerar  é  o  cavallo 
das  corridas,  o  thorough  hrecly  o  jpuro  sangue.  Á  opinião  muito  vulgar 
que  faz  derivar  este  cavallo  do  cruzamento  das  raças  árabes  com  as  ra- 
ças do  norte  da  Europa,  oppõe-se  Brehm  vigorosamente.  Segundo  este 
auclorisado  naturalista,  o  cavallo  corredor  inglez  é  o  cavallo  árabe  de 
puro  sangue  que  as  condições  do  clima  insular  e  uma  educação  especia- 
líssima trouxeram  ao  typo  actual.  É  pois  perfeitamente  justa,  segundo  o 
escriptor  citado,  a  denominação  ingleza  de  thorough  brecL  Brehm  adduz 
provas  históricas  em  abono  da  sua  affirmativa;  além  disso  faz  notar  que 
os  cavallos  do  Oriente  cruzados  entre  si,  educados  com  soUicitude  espe- 


mamíferos  em  especial  287 

ciai  e  creados  com  alimentação  succúlenta  adquirem  maior  velocidade 
que  a  normal  e  dão  filhos  de  mais  elevada  estatura  que  a  d'elles. 


caracteres 


O  cavallo  de  corridas  é  o  melhor  de  quantos  a  Inglaterra  possue. 
Aos  caracteres  peculiares  da  raça  árabe  vêem  juntar-se  caracteres  se- 
cundários que  os  distinguem  do  typo  oriental.  O  cavallo  corredor  é  mais 
alto  que  o  cavallo  árabe  e  tem  o  corpo  mais  alongado  e  menos  arredon- 
dado que  elle.  A  gymnastica  do  galope  tornou-lhe  os  membros  mais  al- 
tos, mais  delgados  e  a  garupa  mais  elevada. 


APTIDÕES   E    EMPREGO 


O  cavallo  corredor  inglez  não  possue  nem  a  graça,  nem  a  flexibili- 
dade dos  cavallos  orientaes.  A  dureza  do  seu  trote  é  tal  que  é  preciso 
montal-o  de  um  modo  particular:  d  ingleza.  É  pouco  dócil  ao  manejo  e 
absolutamente  impróprio  para  as  manobras  da  equitação.  A  verdadeira 
aptidão  do  cavallo  inglez  é  a  corrida;  o  seu  destino  é  também  esse  quasi 
exclusivamente. 

O  cavallo  corredor  é  hoje  na  Inglaterra  tratado  com  os  mesmos  cui- 
dados com  que  entre  os  árabes  é  o  seu  congénere  oriental.  A  educação, 
embora  differente,  porquô  visa  a  um  fim  distincto,  é  tão  desvelada  como 
a  do  cavallo  árabe  e  o  tratamento  e  creação  egualmente  sollicitos.  lia 
também  na  Inglaterra,  como  entre  os  árabes,  as  arvores  genealógicas 
que  authentificam  a  pureza  dos  cavallos  de  corridas.  Essas  arvores  ge- 
nealógicas, stud-book^  foram  estabelecidas  ha  sessenta  annos  e  não  ce- 
dem na  exactidão  com  que  estão  feitas  ás  correspondentes  dos  árabes. 

Os  inglezes  apontam  também  com  meticuloso  cuidado  os  nomes  de 
todos  os  cavallos  que  se  tornam  celebres  nas  corridas,  fazendo  minu- 
cioso archivo  dos  prémios  obtidos  em  tal  ou  tal  data,  em  tal  ou  tal  hyp- 
podromo. 

As  corridas  de  cavallos  remontam  seguramente  ao  século  xii;  a  sua 
instituição  regular  porém,  data  do  reinado  de  Carlos  r.  A  mais  celebre 


288  mSTORIA   NATURAL 

das  corridas  inglezas  é  uma  aniíual,  a  Derby-Stakes,  que  se  realisa  em 
Epsom.  Concorrem  a  ella  todas  as  celebridades  do  sport  e  os  melhores 
cavallos  corredores.  O  premio  grande  d'essa  corrida  eleva-se  a  perto  de 
cento  e  oitenta  mil  francos,  ou  mais  de  trinta  e  dois  contos  de  reis. 

William  Youatt  lastima  que  nas  corridas  se  tenha  introduzido  o  bár- 
baro costume  prejudicial  de  esporear  os  cavallos.  Os  jockeys  represen- 
tam hoje  nas  corridas  um  papel  que  devia  pertencer  exclusivamente  aos 
cavallos.  Segundo  este  auctor,  o  cavallo  inglez  possuiu  já  um  sentimento 
de  emulação  e  de  obediência  maior  que  hoje  possue;  e  este  declinar  de 
qualidades  boas  deve  attribuir-se  ás  artificiaes  e  cruéis  excitações  dos 
cavalleiros.  Em  outro  tempo,  o  cavallo,  quando  a  corrida  principiava, 
sabia  bem  o  que  lhe  cumpria  fazer  até  ao  fim;  e  então,  o  chicote  e  a  es- 
pora em  uso  hoje,  eram  objectos  inúteis. 

Além  do  cavallo  de  corridas  possuem  os  inglezes  outras  raças  des- 
tinadas a  fins  differentes;  entre  ellas  merece  menção  especial  o  hunter^ 
o  cavallo  de  caça,  de  construcção  mais  dehcada,  mas  ao  mesmo  tempo 
mais  forte,  mais  vigoroso  ainda  que  o  cavallo  de  corridas. 


6.  Raças  francezas 


Os  cavallos  francezes  gozavam  na  antiguidade  de  uma  grande  fama; 
os  romanos  tiveram  na  mais  alta  estima  os  cavallos  gaulezes.  Na  edade 
media  tinham  universal  reputação  os  cavallos  normandos,  fortes  e  ágeis 
e  os  limosinos,  excellentes  cavallos  de  parada. 

A  extincção  do  feudahsmo  e  o  desapparecimento  das  coudelarias  dos 
ricos  senhores  marcam  na  historia  o  começo  da  degradação  das  raças 
francezas.  Nos  últimos  quarenta  annos,  imitando  a  Inglaterra,  a  França 
tem  procurado  restabelecer  as  famosas  e  antigas  raças  nacionaes  pelo 
cruzamento  com  os  cavallos  árabes  e  barbos.  A  instituição  de  corridas 
periódicas  tem  contribuído  também  para  o  melhoramento  das  raças  fran- 
cezas. 

7.  Raças  allernãs 


Os  cavallos  allemães  são  mestiços :  provêem  do  cruzamento  de  éguas 
indígenas  com  cavallos  de  cobrição  árabes,  inglezes,  barbos  e  hespanhoes. 
Ha  raças  differentes  d'esses  cavallos;  mas  cm  geral  pode  dizcr-se  que 
são  de  elevada  estatura,  sólidos,  hgeiros  e  bem  feitos. 


mamíferos  em  especial  289 


APTIDÕES  E   EMPREGO 


Das  raças  allemãs,  umas  são  exclusivamente  empregadas  para  tirar 
carros,  outras  para  a  cavallaria.  Ha-as  que  se  empregam,  como  o  cavallo 
hanovriano,  indifferentemente  para  os  dois  serviços. 


8.  Raça  hespanhola 
O  typo  mais  notável  de  cavallos  hespanhoes  é  o  andaluz. 

CARACTERES 


É  menos  delgado  e  comprido  que  o  cavallo  inglez,  mas  tem  o  peito 
mais  largo  e  o  pescoço  mais  forte  e  mais  levantado.  Tem  a  região  fron- 
tal curta  e  a  cabeça  volumosa.  No  restante,  é  o  cavallo  andaluz  um  dos 
que  mais  se  approximam  do  typo  árabe. 


APTIDÕES   E   EMPREGO 


É  flexível,  elegante  e  dotado  de  extrema  coragem.  Os  romanos  tive- 
ram este  animal  em  alta  consideração;  e  por  muito  tempo  foi  conside- 
rado o  primeiro  cavallo  da  Europa.  Nos  fins  do  século  xvi  era  conside- 
rado o  cavallo  de  sella  por  excellencia,  porque  reunia  no  mais  alto 
grão  a  flexibilidade  e  o  equilíbrio,  duas  condições  exigidas  pela  alta  es- 
cola de  equitação.  Era  a  este  equideo  que  em  toda  a  parte  se  recorria 
para  a  multiplicação  dos  cavallos  de  guerra.  Ainda  hoje  o  principal  des- 
tino do  cavallo  andaluz  é  o  manejo  de  cavallaria. 

VOL,    III  19 


290  HISTORIA  NATURAL 

9.  Raças  portuguezas 


N'este  ponto,  como  n'aquelle  em  que  tratamos  das  raças  bovinas  do 
nosso  paiz,  reportamo-nos  a  um  trabalho  do  snr.  Pedro  Posser  inserto 
nas  Maravilhas  da  Creação  e  feito  sobre  o  Recenseamento  geral  dos  ga- 
dos em  1870  do  snr.  Silvestre  Bernardo  Lima,  publicação  que  não  pude- 
mos ler.  N'esse  trabalho  os  typos  portuguezes  são  reduzidos  a  dois:  o 
galliziano  e  o  betico-lusitano. 


Typo  galliziano 


Distinguem  este  typo  os  caracteres  seguintes:  «Cabeça  grossa,  pelo 
geral  mais  curta  do  que  comprida,  amartellada,  ganachuda,  de  orelhas 
pequenas  e  direitas;  costado  ligeiramente  arredondado,  dorso  e  rins 
curtos  e  largos:  garupa  um  tanto  horisontal  e  mais  vezes  larga  que  es- 
treita, de  ancas  grossas,  sensivelmente  pontudas;  cauda  de  sabugo  grosso, 
bem  crinada  de  grossas  crinas;  membros  pelo  geral  menos  mal  apruma- 
dos, grossos  de  osso  e  pelle,  de  espáduas  um  tanto  direitas  e  de  ordi- 
nário machinhudos;  estatura  pelo  mais  commum  abaixo  de  um  metro  e 
trinta  e  dois  centímetros.» 

Os  gallizianos  são,  segundo  o  trabalho  citado,  de  rija  tempera,  muito 
ciosos  e  rufões  por  índole. 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPHIGA 


O  solar  d'este  typo  é  ao  norte  do  paiz,  principalmente  na  província 
do  Minho;  este  solar  estende-se,  raias  a  fora,  pela  Galliza,  províncias 
vascongadas  e  Navarra. 

Typo  betico-lusitano 


Afíirma-se  este  typo  pelos  seguintes  caracteres:  «Cabeça  delgada  ou 
secca,  direita  ou  um  tanto  acarneirada,  de  regular  comprimento  (pec- 


mamíferos  em  especial  291 

cando  mais  vezes  por  comprida  que  por  curta),  de  orelhas  regulares, 
bem  coUocadas  e  delgadas;  pescoço  mais  ou  menos  grosso,  direito  e  um 
tanto  rodado,  e  de  boa  volta  e  bem  crinado;  costado  ligeiramente  arre- 
dondado tirante  a  chato,  dorso  um  pouco  ensellado;  garupa  regular,  não 
pontuda  de  ancas  e  um  tanto  descaída;  cauda  de  baixa  inserção  bem  cri- 
nada  e  de  crinas  finas;  ventre  um  pouco  volumoso;  membros  um  tanto 
acurvilhados,  os  de  traz,  espáduas  não  mui  obliquas,  ante-braços  um 
pouco  curtos,  canellas  um  tanto  compridas,  e  assim  também  por  vezes 
as  quartellas;  estatura  variável  entre  um  metro  e  trinta  e  oito  centíme- 
tros e  um  metro  e  cincoenta  centímetros.» 

Os  cavallos  d'este  typo  são  de  boa  Índole,  mas  não  teem  a  rija 
tempera  dos  gallizianos. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHIGA 


O  solar  da  producção  d'este  typo  abrange  toda  a  extensão  da  Betica 
e  Lusitânia  dos  romanos,  a  província  de  Andaluzia  e  Extremadura  hespa- 
nhola  e  todo  o  Portugal  d'hoje,  nomeadamente  as  províncias  do  sul. 

No  typo  betíco-lusítano,  que  é  o  mais  geral  do  nosso  paiz,  ha  ainda 
a  estabelecer  uma  distíncção  entre  as  castas  finas  e  as  communs. 

Nas  castas  finas  comprehendem-se  os  indivíduos  saldos  de  bons  re- 
productores  e  creados  com  esmero.  Nas  castas  communs  comprehendem-se 
principalmente  os  exemplares  em  que  as  influencias  naturaes  se  fazem 
sentir  mais  vivamente  que  a  acção  do  homem. 

Como  exemplo  das  castas  finas  cita-se  o  cavallo  de  Alter.  A  marca  é 
de  cincoenta  e  cinco  a  cincoenta  e  oito  pollegadas;  os  que  não  attingem 
estas  dimensões  chamam-se  facas. 

Entre  as  castas  communs,  menos  esveltas  nas  formas,  os  melhores 
typos  são  os  cavallos  alemtejanos.  Os  beirões  distínguem-se  dos  typos 
das  províncias  do  sul,  principalmente  pelo  maior  comprimento  do  corpo 
e  da  cabeça  que  é  estreita  e  de  olhos  pequenos  e  pouco  aflorados. 


292  HISTORIA   NATURAL 


OS  JUMENTOS 


Zoologistas  ha  que  incluem  os  jumentos  no  grupo  genérico  dos  ca- 
vallos  propriamente  ditos;  á  maneira  porém  de  Brehm  e  de  Figuier,  fa- 
remos d'estes  solipedes  um  género  á  parte,  estabelecendo,  como  esses 
auctores,  os  fundamentos  da  divisão. 


CARACTERES 


Os  cavalios  apresentam,  como  dissemos,  um  manto  uniforme  ou 
quasi  uniforme;  pelo  contrario,  os  jumentos  apresentam  sempre  ao  longo 
da  columna  vertebral  uma  facha  mais  escura  que  a  cor  geral,  facha  que 
muitas  vezes  é  crucialmente  cortada  por  uma  outra  ao  nivel  da  espá- 
dua. Muitos  individues  apresentam  mesmo  nos  membros,  acima  ou  abaixo 
dos  joelhos,  uma  certa  porção  de  pêllo  muito  mais  carregado  na  cor.  As 
orelhas  dos  jumentos  são  extremamente  mais  compridas  que  as  dos  ca- 
valios e  a  cauda  crinada  apenas  na  extremidade  livre  por  pêllos  curtos 
e  rectillineos.  Os  cascos  dos  jumentos  são  mais  ovaes  que  os  dos  cavalios, 
a  espádua  é  menos  elevada  e  o  numero  de  callos  é  de  dois  somente,  um 
em  cada  membro  anterior. 


DISTRIRUIÇÃO  GEOGRAPHIGA 


Com  quanto  largamente  espalhados  hoje  por  toda  a  parte,  os  ju- 
mentos provêem  exclusivamente  da  Ásia  e  da  Africa,  sua  verdadeira  pá- 
tria. 


mamíferos  em  especial  293 


O  ONAGRO 


É  uma  das  espécies  selvagens  do  género.  Sabe-se  pelos  escriptores 
antigos  que  o  onagro  habitou  toda  a  Ásia  Menor,  a  Syria,  a  Pérsia  e  a 
Arábia.  Xenoptionte  affirma  ter  visto  numerosos  bandos  nas  margens  do 
Euphrates.  A  Biblia  faz  menpão  d'este  animal;  Strabão  e  Plinio  faliam 
d'elle  como  tendo-o  observado  de  perto. 

Depois  da  queda  do  império  romano  houve  um  largo  período  de  sé- 
culos em  que  ninguém  se  occupou  d'este  sohpede;  Palias  veio  quebrar 
o  silencio  chamando  sobre  elle  a  attenção  dos  naturaUstas,  no  século 
passado. 


caracteres 


O  onagro  é  um  pouco  mais  pequeno  que  o  hemione,  outra  espécie 
selvagem  de  que  adiante  nos  occuparemos,  mas  maior  e  mais  delgado 
das  pernas  que  o  jumento  domestico.  A  cabeça  é  maior  que  a  do  he- 
mione; os  lábios  espessos  apresentam  bigodes  rijos  e  abundantes.  As 
orelhas  são  compridas,  mas  menos  que  as  do  jumento  domestico. 

A  cor  dominante  do  pêllo  nas  partes  inferiores  e  internas  é  o  branco 
argênteo;  as  partes  superiores  e  externas  são  izabel  ou  cor  de  camurça, 
um  pouco  mais  escura  na  cabeça,  aos  lados  do  pescoço,  nos  flancos  que 
em  qualquer  outra  parte  do  corpo.  Sobre  os  flancos  corre  uma  hstra 
branca  da  largura  de  uma  mão  travessa;  uma  outra  cor  de  café  cora 
leite  estende-se  ao  longo  do  dorso. 

O  pêllo  de  inverno  pode  comparar-se  á  lã  do  camello,  o  de  verão 
é  fino  e  Uso,  mais  macio  ainda  e  mais  sedoso  que  o  dos  cavallos.  Os 
péllos  terminaes  da  cauda  são  lanosos  e  teem  de  comprido  oito  a  dez 
centímetros. 


294  fflSTOBIA  NATURAL 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPHICA 


Parece  habitar  ainda  hoje  as  regiões  visinhas  das  emboccaduras  do 
Indo,  estendendo-se  até  á  Pérsia  e  á  antiga  Mesopotâmia. 


COSTUMES 


O  onagro  é  sociável;  vive  sempre  em  bandos  capitaneados  por  um 
macho  forte.  N'esta  espécie  os  machos  são  menos  ciumentos  que  em  ou- 
tras, porque  se  juntam  muitas  vezes  nas  suas  excursões;  isto  não  quer 
dizer  que  na  epocha  do  cio  se  não  dêem  violentos  combates. 

O  onagro  é  velocíssimo  na  carreira.  Xenophonte  dizia  já  que  elle  ex- 
cede os  mais  céleres  cavallos  e  os  auctores  antigos  partilhavam  todos 
a  mesma  opinião.  Porter  confirma  o  dizer  dos  antigos,  affirmando  que, 
montado  n'um  excellente  cavallo  árabe,  não  pudera  alcançar  um  onagro 
atraz  do  qual  corria,  persuadido  de  que  se  tratava  de  um  antílope. 

Os  sentidos  do  onagro  são  muito  perfeitos;  o  ouvido,  a  vista  e  o 
olfato,  sobre  tudo,  são  de  uma  dehcadeza  inexcedivel.  É  por  isso  difficil 
approximar-se  d'elle  alguém. 

Este  solipede  é  dotado  de  uma  extrema  sobriedade;  não  bebe  agua 
mais  que  uma  vez  de  dois  em  dois  dias.  Prefere  para  ahmento  as  plantas 
salgadas  e  depois  as  de  sueco  amargo.  Não  come  as  plantas  aromáticas, 
as  dos  pântanos,  as  espinhosas  ou  os  cardos  de  que  tanto  gostam  os  ju- 
mentos domésticos.  Prefere  a  agua  salgada  á  agua  pura;  mas  para  beber 
uma  ou  outra  exige  que  tenha  uma  perfeita  hmpidez. 


CAÇA 


Na  Ásia  central  é  muito  vulgar  a  caça  ao  onagro.  Os  processos  em- 
pregados são  differentes:  uns  fazem-lhe  fogo,  outros  limitam-se  a  abrir 


mamíferos  em  especial  295 

fossos  ligeiramente  cobertos  por  uma  ténue  camada  d'herva,  nos  legares 
em  que  o  animal  costuma  transitar.  O  solipede,  que  não  descobre  a  ar- 
madilha, cae  muitas  vezes.  Os  onagros  até  aos  trez  annos  que  assim  se 
captivam,  vendem-se  por  bons  preços  para  as  coudelarias  dos  grandes 
senhores. 


domestigidade 


O  onagro  trazido  á  domesticidade  é  empregado  com  magníficos  re- 
sultados. A  rapidez  da  corrida  é  uma  das  qualidades  que  o  tornam  esti- 
mável e  superior  ao  camelo  e  ao  dromedário;  a  sobriedade  permitte-lhe 
concorrer  com  estes  ruminantes.  Com  uma  alimentação  verdadeiramente 
insignificante,  o  onagro  corre  dias  inteiros  com  uma  velocidade  verda- 
deiramente espantosa,  muito  superior  á  do  dromedário. 

A  domesticidade  d'este  solipede  attinge  um  alto  grão.  Teem  vivido  na 
Europa  alguns  indivíduos  que  seguem  o  dono  por  toda  a  parte  como  o 
cão.  Um  dos  ahmentos  favoritos  do  onagro  captivo  é  o  pão;  com  um  pe- 
daço d'esta  substancia  o  homem  conduz  o  solipede  para  onde  quizer. 


usos  E   PRODUCTOS 


Para  o  habitante  das  steppes  d'Asia,  o  onagro  é  um  animal  utillis- 
simo.  A  carne  d'elle  passa  por  ser  excellente;  os  persas  e  mesmo  os 
árabes,  muito  exigentes  na  questão  de  alimentos,  affirmam  isto.  Os  ro- 
manos davam  também  um  grande  apreço  á  carne  do  onagro,  segundo 
refere  Plinio.  «A  carne  dos  onagros  ainda  novos,  diz  este  auctor,  cons- 
tituo um  aceppipe  delicado.» 

A  bile  d'este  solipede  é  pelos  persas  empregada  contra  doenças 
d'olhos  e  a  pelle  serve,  entre  outros  povos,  para  o  fabrico  de  calçado. 


296  mSTORIA  NATURAL 


O  JUMENTO  D'AFRICA 


O  jumento  das  steppes  d'Africa  é  'alto,  elegante,  de  um  pardo  acin- 
zentado ou  camurça,  com  o  ventre  mais  claro,  a  cruz  dorsal  fortemente 
pronunciada,  a  face  externa  dos  membros  coberta  de  listras  negras  trans- 
versaes,  mais  ou  menos  nitidas.  A  crina  é  muito  curta  e  muito  fraca;  o 
tufo  caudal  é  forte  e  comprido.  Os  membros  raiados  d'este  solipede  cons- 
tituem um  caracter  importante  que  nos  permitte  ver  n'elle  um  typo  in- 
termediário ao  grupo  dos  jumentos  e  das  zebras. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHICA 


É  muito  vulgar  nas  margens  do  Atbara,  confluente  do  Nilo,  e  nos 
descampados  de  Barka.  A  área  de  dispersão  d'este  solipede  estende-se 
até  ás  costas  do  mar  Vermelho. 


COSTUMES 


Vive  como  o  onagro  em  grupos.  Cada  bando,  composto  ordinaria- 
mente de  dez  a  quinze  fêmeas,  é  capitaneado  e  defendido  por  um  macho 
único. 

O  jumento  d'Africa  é  prudente  e  desconfiado;  por  isso  é  difficillima 
a  sua  caça.  Corre  com  notável  rapidez  como  o  onagro. 


mamíferos  em  especial  297 


DOMESTICIDADE 


Reduzido  ao  captiveiro  nos  primeiros  tempos  de  existência,  o  ju- 
mento africano  attinge  um  alto  grão  de  domesticidade.  Torna-se  dócil  e 
submette-se  facilmente  ao  trabalho.  Emfim,  parece  prestar  aos  indígenas 
os  mesmos  serviços  que  a  nós  presta  o  jumento  domestico. 


O  HEMIONE 


A  primeira  descripção  completa  d'este  solipede  foi  feita  no  século 
passado  por  Palias. 


CARACTERES 


Mede  mais  de  metro  e  meio  desde  o  vértice  da  cabeça  até  a  ori- 
gem da  cauda.  O  comprimento  da  cabeça  é  de  cincoenta  e  cinco  centi- 
metros;  o  da  cauda,  sem  péllos,  é  de  quarenta  e  quatro.  Assim  o  com- 
primento total  d'este  solipede  é  de  dois  metros  e  sessenta  centimetros  a 
dois  metros  e  oitenta;  a  altura  é  de  um  metro  e  trinta  centimetros  ao 
nivel  da  espádua. 

A  cabeça  é  maior  que  a  do  cavallo  e  mais  comprimida  lateralmente. 
O  pescoço  é  arredondado,  elegantemente  curvo;  os  membros  são  altos  e 
finos.  A  cauda  assemelha-se  á  das  vaccas;  é  fina  e  coberta  apenas  na 
extremidade  de  pêllos  sedosos  e  escuros  que  formam  um  tufo  de  vinte 
e  cinco  centimetros  de  comprimento.  As  orelhas  são  compridas;  menos 


298  HISTORIA  NATURAL 

porém  que  as  do  jumento  domestico.  As  ventas  são  abertas,  dilatadas 
como  as  dos  cavallos.  Do  vértice  da  cabeça  até  á  espádua  estende-se 
uma  crina  de  péllos  macios,  escuros,  de  sessenta  centimetros  de  compri- 
mento, termo  médio. 

O  manto  varia  com  as  estações.  No  inverno  os  pêllos  são  crespos, 
de  um  pardo  camurça  e  de  seis  centimetros  de  extensão;  no  estio,  não 
excedem  um  centimetro.  O  focinho  e  os  membros  são  geralmente  mais 
claros  que  o  resto  do  corpo.  Da  extremidade  da  crina  parte  uma  facha 
negra  que  se  prolonga  ao  longo  do  dorso  e  da  cauda. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHICA 


O  hemione  vive  nas  planicies  e  nos  platós  seccos  e  descobertos  da 
parte  oriental  da  Ásia  e  da  Mongólia.  Junto  do  lago  Tarei  é  hoje  muito 
vulgar.  A  caça  tem  affastado  este  solipede  de  algumas  regiões,  em  que 
foi  commum  e  onde  actualmente  se  não  encontra  senão  excepcionalmente. 


COSTUMES 


O  hemione  vive,  como  o  onagro  e  como  o  jumento  africano,  aos  ban- 
dos. Os  velhos  machos  capitaneiam  ás  vezes  grupos  de  vinte  fêmeas  e 
pequenos  machos  ainda  não  aptos  cara  a  reproducção;  o  caso  mais  geral 
porém  é  o  de  pequenos  grupos  de  cinco  a  dez  individues.  Na  epocha  do 
cio  ha  grandes  combates  entre  os  chefes  dos  bandos  e  os  que  se  propõem 
a  substituil-os  no  commando. 

No  outomno  reahsa  o  hemione  verdadeiras  emigrações.  É  com  eífeito 
então  que  os  machos  novos,  distanciando-se  dos  bandos,  percorrem  as 
vastas  planicies  em  procura  de  companheiros  que  se  lhes  associem  para 
constituírem  bandos  de  que  serão  os  chefes.  O  hemione  é  então  verdadei- 
ramente indomável.  Corre  por  toda  a  parte  como  furioso,  com  as  ventas 
dilatadas,  a  cauda  erguida,  as  orelhas  inclinadas  para  diante,  em  busca 
de  um  rival.  Se  descobre  um  bando,  precipita-se  sobre  o  chefe  e  trava-se 
entre  elles  uma  lucta  violenta  em  que  é  vulgar  perderem,  um  e  outro, 
alguns  pedaços  de  pelle. 


mamíferos  em  especial  299 

Os  sentidos  do  hemione  são  muito  desenvolvidos;  presente  o  homem 
a  enormes  distancias.  E  é  precisamente  por  isso  que  se  torna  diíTicillimo 
observar  este  solipede  em  liberdade. 

O  hemione  rivahsa  em  rapidez  com  o  onagro. 

A  epocha  da  parturição  é  na  primavera;  a  fêmea  dá  á  luz  um  filho 
único  que  ao  fim  de  trez  annos  está  adulto. 


CAÇA 


A  caça  do  hemione  proseguida  com  verdadeira  paixão  pelos  indíge- 
nas é,  como  dissemos,  diíficil.  O  que  importa  n'esta  caça  é  matar  o  chefe 
do  bando  que  se  persegue;  conseguido  isto,  não  é  raro  que  se  apanhem 
ou  matem  também  os  outros  membros  do  grupo  que,  perdido  o  director, 
correm  espantados  e  sem  destino  em  todas  as  direcções,  não  calculando 
os  perigos  que  podem  correr. 

O  processo  da  embuscada  dá  algumas  vezes  bons  resultados.  O  ho- 
mem, armado  de  uma  boa  espingarda,  espera  o  bando  ou  bandos,  es- 
condido por  traz  de  uma  arvore  e  coUocado  contra  o  vento,  perto  de 
uma  corrente  d'agua.  Quando  um  grupo  se  approxima  para  beber,  o  ca- 
çador faz  pontaria  sobre  o  chefe. 

O  cavallo  é  muitas  vezes  utiUsado  com  grande  vantagem  n'esta  caça. 
O  caçador  parte  de  manhã  muito  cedo  para  o  alto  de  uma  montanha 
d'onde  possa  facilmente  descobrir  os  bandos  dos  hemiones.  Vae  montado 
n'um  cavallo  a  que  tem  o  cuidado  de  ligar  as  crinas  para  que  não  flu- 
ctuem  ao  vento.  Chegado  ao  topo  da  montanha,  apeia-se  e  deixa  o  ca- 
vallo a  pastar,  affastando-se  uns  cem  passos  pouco  mais  ou  menos  da  ca- 
valgadura e  deitando-se  no  chão  em  decúbito  ventral.  O  bando  dos  he- 
miones,  mal  descobre  o  cavallo,  torna-se  inquieto;  e  o  chefe  julgando 
vêr  n'elle  um  jumento  da  sua  espécie  corre-lhe  rapidamente  ao  encontro. 
Quando  chega  a  uma  pequena  distancia  do  cavallo  descobre  o  seu  erro 
e  estaca  a  observar  espantado.  É  então  que  o  caçador  faz  fogo.  É  este 
talvez  o  melhor  de  todos  os  processos  de  caça. 


300  HISTORIA   NATURAL 


CAPTIVEIRO 


«Quando  Palias,  diz  Brehm,  descreveu  o  hemione  não  se  sabia  se 
este  solipede  era  ou  não  susceptivel  de  domesticação.  Palias  ignorava 
pois  que  em  certas  regiões  da  Ásia,  a  espécie  se  encontra  desde  muito 
submettida  ao  dominio  do  homem.»  *  Se,  como  notou  F.  Cuvier,  os  mon- 
goes  se  não  applicarara  nunca  á  domesticação  do  hemione,  porque  o  ca- 
vallo  e  o  camello  bastam  perfeitamente  ás  suas  necessidades,  outros  po- 
vos ha,  de  commercio  e  industrias  numerosas,  para  que  a  sujeição  do 
hemione  constituía  uma  necessidade  que  procuraram  desde  muito  satis- 
fazer. Esses  povos  empregam  principalmente  o  hemione  como  besta  de 
carga. 

O  hemione  trazido  á  Europa  por  differentes  vezes,  tem  manifestado 
ao  fim  de  algum  tempo  de  captiveiro  docilidade  bastante  para  submet- 
ter-se  a  variadíssimos  trabalhos. 

As  uniões  sexuaes  do  hemione  com  a  jumenta  domestica  são  fecun- 
das. O  producto  é  um  jumento  vigoroso,  rápido,  de  formas  muito  elegan- 
tes e  de  uma  mais  fácil  domesticação  que  o  hemione. 


usos  E  PRODUGTOS 


A  caça  do  hemione  é  multo  productlva.  Os  tongusas  apreciam  multo 
a  carne  d'este  solipede  e  os  mongoes  pagam  por  alto  preço  a  pelle.  Se- 
gundo a  crença  popular,  a  cauda  com  os  péllos  termlnaes  gosa  de  ma- 
ravilhosas virtudes  therapeutlcas  na  cura  de  outros  anlmaes. 


1     Brehm,  Obr.  ciL,  vol.  2.»,  pg.  717. 


mamíferos  em  especial  301 


os  MUARES 


Designam-se  por  este  nome  os  productos  hybridos,  infecundos  ou  de 
fecundidade  muito  limitada,  que  resultam  do  cruzamento  das  espécies 
cavallar  e  asinina.  O  muar,  filho  de  égua  e  de  jumento,  é  o  mulo  pro- 
priamente dito  ou  macho,  ou  ainda  eguariço;  o  filho  de  cavallo  e  de  ju- 
menta é  o  asneiro.  O  primeiro  é  muito  mais  vulgar. 


CARACTERES  DO  MULO 


Tem  dimensões  quasi  eguaes  ás  da  égua.  Varia  no  comprimento  en- 
tre metro  e  meio  e  um  metro  e  sessenta  e  cinco  centímetros.  Tem  as 
formas  geraes  da  mãe  e  herda  do  pae  o  comprimento  das  orelhas,  a 
cauda  pouco  provida  de  péllos,  as  pernas  seccas  e  vigorosas,  os  cascos 
estreitos  e  a  saúde  robustíssima. 

A  fêmea  ou  mula  é  mais  estimada  para  todos  os  serviços  e  paga-se 
por  preços  mais  elevados  que  o  macho. 

A  côr  do  pêllo  é  de  ordinário  a  do  pae. 


CARACTERES  DO  ASNEIRO 


É  mais  pequeno  que  o  macho  e  não  tem  as  formas  tão  elegantes. 
Tem  a  cabeça  mais  comprida,  as  orelhas  mais  curtas,  as  pernas  mais 
grossas  e  a  cauda  mais  coberta  que  o  macho  ou  o  jumento.  Relincha 
como  o  cavallo. 


302  HISTORIA   NATURAL 


CONSIDERAÇÕES  GERAES 


Os  muares  em  geral  parecem-se  nas  formas  mais  com  a  mãe  que 
com  o  pae;  nos  costumes  porém  é  a  estes  principalmente  que  se  asse- 
melham. 

O  cruzamento  das  espécies  cavallares  e  asininas  não  se  faz  nunca 
espontaneamente;  é  necessária  a  intervenpão  do  homem  e  o  emprego  de 
uns  certos  artifícios.  Os  jumentos  e  cavallos  que  vivem  no  estado  livre 
teem  uns  pelos  outros  um  ódio  que  vae  até  ao  ponto  de  se  darem  en- 
carniçados combates.  São  pois  necessárias  precauções  especiaes  para 
obter  o  cruzamento. 

O  jumento  de  cobrição  não  manifesta  grande  repugnância  em  copu- 
lar a  égua;  esta  porém  não  o  recebe  facilmente.  Pelo  contrario  a  jumenta 
recebe  com  facilidade  o  cavallo;  este  porém  não  copula  a  jumenta  espon- 
taneamente. De  ordinário  tapam-se  os  olhos  á  égua  que  tem  de  ser  co- 
berta por  um  jumento  depois  de  se  lhe  ter  mostrado  um  cavallo  de  for- 
mas elegantes.  Procede-se  semelhantemente  em  relação  ao  cavallo  que 
tem  de  cobrir  uma  jumenta;  tapam-se-lhe  os  olhos  depois  de  elle  estar 
excitado  pela  vista  de  uma  égua.  É  mais  fácil  obter  o  cruzamento  entre 
animaes  que  se  conhecem  desde  muito  tempo  e  em  que  o  habito  tem  na- 
turalmente obhterado  em  parte  a  antipathia  nativa.  Os  romanos  sabiam 
isto,  juntavam  e  faziam  viver  nas  mesmas  cavallariças  os  cavallos  e  ju- 
mentos de  que  pretendiam  obter  hyb ridos.  Os  hespanhoes  e  os  america- 
nos do  sul  procedem  de  egual  forma. 

Os  muares  reúnem  quasi  sempre  as  qualidades  dos  pães:  teem  a 
sobriedade  e  a  paciência  do  jumento  unidas  á  força  e  á  coragem  do  ca- 
vallo. 

DESTINOS 


Os  muares  são  utilíssimos  como  bestas  de  carga,  de  lavoura,  de  tiro 
e  mesmo  de  sella,  muito  principalmente  nos  togares  montanhosos  e  em 
caminhos  ásperos  e  em  declive.  O  cavalleiro  pode  bem  confiar  na  soUdez 
dos  membros  do  solipede  e  na  sua  rara  prudência. 


mamíferos  em  especial 


303 


O  JUMENTO  DOMESTICO 


Quem  o  não  conhece?  É  o  typo  da  paciência,  do  soffrimento  obscuro, 
do  trabalho  sem  tréguas.  Alvo  das  zombarias  e  dos  maus  tratos  de  todos, 
elle  cumpre  o  seu  dever,  como  se  a  mão  de  um  destino  o  impellisse  á 
desventura  e  ao  trabalho  simultaneamente. 


ORIGEM 


Tem-se  considerado  geralmente  o  onagro  como  o  único  ascendente 
do  jumento  domestico.  Desde  porém  que  se  sabe  que  outras  espécies  sel- 
vagens se  podem  reproduzir  entre  si  dando  origem  a  productos  fecundos, 
passou-se  a  duvidar,  e  com  razão,  de  que  o  jumento  domestico  descen- 
desse exclusivamente  do  onagro.  E  com  effeito,  é  extremamente  provável 
que  o  hemione  e  o  jumento  d'Africa  devam,  com  tantos  tilulos  como  o 
onagro,  ser  considerados  ascendentes  do  jumento  domestico.  Comtudo 
nada  ha  de  positivamente  averiguado  sobre  este  ponto;  repete-se  aqui  a 
mesma  duvida  que  a  propósito  das  outras  espécies  submettidas  desde 
longo  tempo  á  domes ticidade. 


CONSIDERAÇÕES  HISTÓRICAS 


Heródoto  falia  minuciosamente  do  jumento  domestico.  Os  habitantes 
do  Egypto  principiaram  por  odial-o,  por  ser  objecto  de  adoração  para  os 
judeus,  mas  acabaram  por  estimal-o,  reconhecendo  os  serviços  que  o 
pobre  animal  lhes  prestava.  A  biblia  occupa-se  muito  d'este  solipede  que 
foi  a  cavalgadura  preferida  pela  Virgem  na  fugida  para  o  Egypto. 

Do  Egypto  e  da  Judea  o  jumento  domestico  passou  para  a  Grécia, 
depois  para  a  Itália,  para  a  França  e  consecutivamente  para  toda  a 
Europa. 


304  HISTORIA   NATURAL 

O  famoso  animal,  Ião  desprezado  pelos  ignorantes  e  pelos  rudes, 
teem  merecido  era  todos  os  tempos  a  attenção  benévola  e  cheia  de  sym- 
pathia  de  lodos  os  naturalistas  e  ainda  de  alguns  pliilosophos  e  perso- 
nagens celebres.  Motte-Le-Vayer  escreveu  um  livro  intitulado  Dialogo  so- 
bre os  jvmentos  do  meu  tempo  e  Heinsius  em  1629  um  outro  intitulado  o 
Elogio  do  jumento. 

Citam-se  como  celebridades  históricas  da  espécie:  o  jumento  de  Tha- 
les,  o  do  imperador  Commodo,  o  de  Hehogabalo  e  o  de  Buridan  do  qual 
se  conta  que  morreu  de  fome  e  de  sede  preplexo  entre  um  feixe  de  feno 
e  uma  vasilha  d'agua. 

Menault  escreve  acerca  do  jumento :  «Por  ter  sobre  o  dorso  uma 
cruz,  emblema  de  soffrimenlo,  foi  primeiro  venerado.  Por  parecer  que 
gosta  dos  cardos  e  dos  espinhos  foi  corííparado  ao  philosopho  que  sup- 
porta  com  tranquillidade  todas  as  amarguras  da  existência  ou  ao  justo 
que  renuncia  ás  pompas  e  ás  obras  de  Satanaz.  Por  ser  prudente  e  não 
attravessar  senão  com  repugnância  os  togares  perigosos  em  que  uma 
vez  caiu,  comparou-se  ao  sábio  que  teme  ser  apanhado  nas  difficuldades 
de  que  saiu  uma  vez.  Emfim  por  ter  pouca  confiança  nas  aguas  desco- 
nhecidas e  custar-lhe  a  beber  nas  fontes  que  vé  pela  primeira  vez,  foi 
considerado  um  modelo  de  prudência  e  fidehdade  á  Igreja,  um  bello 
ideal  do  crente  que  receia  a  heresia,  as  idéas  novas  e  repelle  o  direito 
de  exame.»  * 


CARACTERES 


Não  descreveremos  aqui  as  formas  exteriores  do  jumento  domestico, 
porque  todos  as  conhecem.  Paliaremos  apenas  dos  sentidos.  Todos  os 
órgãos  sensoriaes  do  jumento  são  desenvolvidos.  O  primeiro  de  todos  é 
o  ouvido;  percebe  sons  distantes  e  os  mais  fracos.  Parece  mesmo  que 
não  é  insensível  ao  rhytmo  musical,  o  que  talvez  podesse  ser  aprovei- 
tado com  intelligencia  para  obrigar  este  animal  á  execução  de  certos 
passos  apropriados  a  trabalhos  especiaes.  J.  Frankhn  conta  o  seguinte: 
«Um  jumento  de  Chartres  tinha  o  costume  de  ir  ao  castello  de  Guerville 
onde  habitualmente  se  tocava.  A  proprietária  do  castello  era  uma  dama 
que  tinha  uma  voz  excellente.  Em  ella  principiando  a  cantar,  o  jumento 


1    Menault,  LHntelligenoe  des  animaux,  pg.  263. 


mamíferos  em  especial  305 

não  deixava  de  approximar-se  até  junto  das  janellas :  d'ahi  escutava  com 
religiosa  attenção.»  * 

Depois  do  ouvido,  é  a  vista  o  melhor  dos  sentidos.  Depois  vem  o 
olfato.  O  tacto  é  muito  limitado  e  o  mesmo  acontece  ao  paladar,  o  que 
explica  a  nenhuma  exigência  do  animal  em  questões  de  ahmentação. 


INTELLIGENCIA 


Reputa-se  de  ordinário  o  jumento  o  typo  da  estupidez.  Esta  opinião 
não  se  justifica.  É  verdade  que  a  grande  maioria  dos  jumentos  domésti- 
cos, mal  tratados,  constantemente  sob  o  regimen  brutal  da  pancada, 
apresentam  uma  grande  obhteração  de  faculdades.  Tomem-se  porém  os 
indivíduos  bem  tratados,  os  raros  exemplares  que  teem  a  boa  sorte  de 
cairem  nas  mãos  de  um  dono  razoável  que  d'elles  cuida  com  sympathia 
e  os  educa,  e  vêr-se-ha  quanto  ha  de  falso  na  opinião  vulgar.  «Podemos 
salvar  a  honra  do  jumento,  diz  Scheithn,  dizendo  que  elle  é  susceptível 
de  aprender  muitas  coisas  que  ordinariamente  se  ensinam  ao  cavallo: 
por  exemplo,  attravessar  arcos,  dar  tiros,  saltar  sem  se  espantar.  En- 
sina-se  ainda  o  jumento  a  marchar  ao  som  da  musica,  a  dançar,  a  abrir 
portas,  servindo-se  da  bocca  como  de  uma  mão,  a  subir  e  descer  esca- 
das, a  designar  tal  ou  tal  pessoa,  a  reconhecer  as  horas,  a  indicar,  ba- 
tendo com  a  pata  no  chão,  o  numero  de  pontos  de  uma  carta  ou  de  um 
dado,  a  responder  sim  ou  não  ás  perguntas  do  dono,  sacudindo  a  ca- 
beça.» O  mesmo  auctor  diz  confrontando  o  intendimento  do  cavallo  e  o 
do  jumento :  «Ha  creanças  que  aprendem  mais  difficilmente,  mas  melhor 
e  de  um  modo  mais  perdurável;  assim  é  o  jumento.))  Pythagoras  já  se 
insurgia  contra  a  opinião  que  não  concede  inteUigencia  ao  jumento. 

O  jumento  tem  uma  grande  memoria,  sobretudo  dos  togares;  cami- 
nho que  uma  vez  tenha  percorrido,  nunca  mais  o  esquece.  Sabem  todos 
que  um  jumento,  ao  qual  uma  vez  se  deu  de  comer  á  porta  de  uma  hos- 
pedaria d'aldéa,  nunca  mais  ahi  passa  sem  que  pare  até  que  lhe  dêem 
ahmento;  resiste  ao  chicote  e  á  espora.  O  único  meio  de  o  fazer  cami- 
nhar é  dar-lhe  de  comer.  Parece  também  que  é  desenvolvida  no  jumento 
a  memoria  das  pessoas.  Somente  os  mãos  tratos  que  geralmente  soífre 
por  parte  do  homem,  fazem  com  que  ao  reconhecer,  passados  annos,  o 


*     J.  Franklin,  La  vie  des  animaux,  t.  ir, 
voL.  III  20 


306  HISTORIA  NATURAL 

antigo  dono,  elle  não  manifeste  o  mesmo  prazer  que  manifesta  o  cavallo, 
de  ordinário  tratado  com  doçura,  e  por  isso  mesmo  naturalmente  agra- 
decido. 

Nas  regiões  infestadas  por  animaes  ferozes,  o  jumento  revela  uma 
grande  prespicacia  c  uma  prudência  demonstrativas  de  um  intendimento 
superior  ao  que  vulgarmente  se  lhe  attribue.  Vista,  ouvido  e  olfato,  t.udo 
põe  em  exercido,  tudo  attentamente  emprega  para  descobrir  os  togares 
em  que  possa  esçonder-se  um  inimigo.  Se  os  sentidos  lhe  revelam  a  exis- 
tência próxima  de  um  perigo,  não  ha  cavalleiro  capaz  de  fazel-o  sair  do 
logar  em  que  se  reputa  mais  seguro. 

De  resto,  é  notável  que  o  jumento  não  caminha  nunca  sem  o  auxi- 
lio dos  sentidos;  se  lhe  tapam  as  orelhas  ou  bandam  os  olhos,  estaca, 
não  dá  um  passo.  Restando-lhe  o  olfato,  caminhará  ainda  n'um  caso 
único :  se  adiante  d'elle  caminhar  uma  fêmea,.  É  este  o  único  meio  a  que 
não  saberá  resistir. 


REGIME  E  TRATAMENTO 


O  jumento  é,  como  dissemos  anteriormente,  muito  sóbrio.  Satisfaz-se 
inteiramente  com  uma  alimentação  exigua  e  má.  A  herva  e  o  feno  que 
uma  vacca  ou  um  cavallo  engeitam,  constituem  ainda  para  o  jumento 
uma  refeição  apreciável.  Os  cardos  e  as  plantas  espinhosas  que  todos 
os  herbívoros,  excepto  o  camello  e  dormedario,  recusam  são  para  elle 
uma  alimentação  que  lhe  basta.  N'uma  só  coisa  é  exigente  o  jumento : 
na  agua.  Bebel-a-ha  salgada  ou  amarga,  mas  nunca  suja  ou  turva.  Seja 
qual  fôr  a  sede  que  tenha,  nunca  mergulhará  o  focinho  senão  em  agua 
pura,  transparente.  É  por  isso  que  nos  desertos  o  jumento  causa  muitas 
vezes  embaraços  sérios  ás  caravanas. 

Á  exiguidade  da  alimentação  correspondem  de  ordinário  os  mãos 
tratos.  «O  homem,  diz  Buffon,  despreza  até  os  animaes  que  melhor  e  com 
menos  dispêndio  o  servem.»  *  A  vida  domestica  do  jumento  confirma  ple- 
namente a  afíirmação  do  naturahsta  francez.  Por  um  preço  relativamente 
insignificante,  quantos  serviços  se  não  obteem  do  jumento?  E  comtudo 
que  tratamento  lhe  dá  o  homem  em  compensação?  O  peior  de  todos:  a 
pancada  por  tudo  e  a  propósito  de  tudo.  Dir-se-ha  que  o  jumento  é  tei- 
moso, é  cheio  de  manhas  e  que  é  preciso  por  isso  castigal-o  com  uma 


1    Buffon,  Oeuvres  ComplHes,  tom.  2.»,  art.  Ane. 


mamíferos  em  especial  307 

severidade  que  o  cavallo,  por  exemplo,  dispensa.  De  certo,  os  dois  ani- 
maes  não  soíTrem  o  confronto,  decerto,  o  tratamento  d' um  não  pode  ser 
o  do  outro;  mas  não  se  esqueça  que  uma  boa  parte  da  teimosia  e  das 
manhas,  que  se  pretendem  debellar  com  os  mãos  tratos,  são  precisa- 
mente a  consequência  d'elles.  Para  nos  convencermos  d'isto,  confronte- 
mos o  jumento  de  um  camponio  estúpido,  que  descarrega  sobre  o  pobre 
animal  todo  o  seu  mao  humor,  com  um  d'esses  jumentos  que  se  exhi- 
bem  adestrados  nos  circos.  Que  enorme  differença,  não  é  verdade?  Ve- 
ja-se  o  tratamento  d'um  e  do  outro.  Ao  passo  que  o  primeiro  é  a  victima 
innocente  dos  máximos  e  desapiedados  castigos,  dos  mais  terríveis  tra- 
balhos, o  segundo,  fartamente  alimentado,  cuidado  com  doçura,  trabalha 
apenas  algumas  horas  por  dia  e  os  exercícios  que  faz  são  os  menos  fa- 
tigantes. Por  isso  um  é  estúpido,  manhoso,  insupportavel  e  o  outro  intel- 
ligente,  dócil,  submisso  á  primeira  ordem  que  recebe. 

Como  queremos  que  não  tenha  defeitos  um  animal  que  só  nos  me- 
rece desprezo  e  escarneo?  O  rústico  faz  do  pobre  jumento  o  que  vulgar- 
mente se  chama  um  folie  de  pancadas.  Se  tem  uma  desavença  com  a 
mulher,  bate  no  jumento;  se  não  tem  pão  para  dar  aos  filhos  descarrega 
na  misera  besta  todo  o  pezo  dos  seus  infortúnios;  se  os  negócios  lhe  não 
correm  bem  é  ainda  o  pacienticissimo  animal  que  o  paga.  Até  as  alegrias 
do  camponio  são  funestas  ao  jumento.  Se  o  rústico  acerta  de  fazer  bons 
lucros  na  cidade,  ao  voltar  para  casa  tem  pressa;  e  quem  o  paga  é  o 
jumento  que  á  força  de  paulada  ha  de  transformar  as  pernas  em  azas. 
Misero  destino!  Eu  tenho  sincera  penna  do  jumento  e  digo-o  sem  receio 
de  que  me  chamem  os  feios  nomes  de  sentimentalista  ou  paradoxal.  Não 
sou  nem  uma  coisa,  nem  outra;  mas  ao  vêr  o  olhar  triste  do  jumento, 
obscuro  coUaborador  das  nossas  obras,  lembra-me  a  enorme  legião  dos 
homens  opprimidos,  dos  explorados,  dos  que  trabalham  sem  alegria  e 
sem  futuro.  Que  final  de  vida  espera  o  laborioso  solipede?  Sabem-o  to- 
dos: a  margem j  as  longas  campinas  de  que  falia  Tolentino.  Que  final  de 
vida  espera  o  miserável  da  industria  humana?  A  margem  tambern:  o 
asylo  e  o  hospital.  Eu  encontro  paridade  n'estes  destinos  e  contristo-me. 
O  leitor  contrista-se  também  e  eu  passo  adiante;  não  vêem  para  aqui 
reflexões  pungitivas. 


REPRODUCÇAO 


A  quadra  dos  amores  é  para  o  jumento  do  norte  da  Europa  em  fins 
da  primavera  ou  começos  do  outomno;  para  o  do  meio  dia  prolonga-se 


308  HISTORIA   NATURA.L 

por  todo  o  anno.  Até  nas  declarações  do  amor  asinino  ha  uma  grande 
tristeza,  uma  terrivel  monotonia:  é  um  ornear  entrecortado,  seguido  de 
suspiros. 

Onze  mezes  depois  do  acto  sexual  a  jumenta  dá  á  luz  um  filho,  ra- 
ras vezes  dois.  A  ternura  da  mãe  pelo  filho  é  immensaj  na  hora  do  pe- 
rigo, nem  agua,  nem  fogo,  nem  a  prespectiva  de  morte  certa  farão  di- 
minuir a  coragem  com  que  a  jumenta  defende  o  filhinho. 

O  jumento  está  adulto  aos  dois  annos;  mas  só  aos  trez  se  encontra 
na  plenitude  das  forças.  Até  ahi  tem  uma  vida  alegre,  elle,  o  filho  da 
tristeza;  depois  as  amarguras  principiam.  O  duro  trabalho  faz  na  Europa 
succumbir  o  jumento  aos  doze  ou  quinze  annos,  de  ordinário;  está  pro- 
vado porém  que  elle  pode  attingir  os  cincoenta  ou  cincoenta  e  seis.  Es- 
tes exemplos  de  longevidade  são  raríssimos,  excepcionaes  mesmo. 


ERROS  E   prejuízos 


Na  antiguidade  acreditava-se  que  o  encontro  com  uma  jumenta  de- 
nunciava felicidade.  Não  nos  admira  que  haja  ainda  essa  crença,  se  a  ha, 
porque  entre  o  nosso  povo  tem  a  mesma  significação  o  encontro  com  um 
preto. 

Conta-se  que  a  vista  de  um  jumento  annunciou  a  Alexandre  a  con- 
quista da  Ásia  e  a  Augusto  o  império  do  mundo.  Ainda  segundo  os  anti- 
gos, a  cabeça  ou  a  pelle  de  um  jumento  preservariam  os  campos  em  que 
estivessem  depostos  das  saraivadas  do  inverno. 


usos  E  produgtos 


O  jumento  fornece-nos  depois  de  morto  dois  productos  estimáveis: 
a  pelle,  de  que  se  fazem  coberturas  para  tambores  e  a  carne,  que  dizem 
ser  boa  e  que,  segundo  Varron,  era  o  prato  favorito  de  Mecenas.  Durante 
a  vida  fornece-nos  o  leite,  tão  substancial  e  tão  grato  ao  paladar.  Se- 
gundo Gerbe,  o  emprego  d'este  leite  com  intuitos  therapeuticos  foi  intro- 
duzido em  França  no  tempo  de  Francisco  i  p&r  um  judeu.  Foi  o  caso  que 
achando-se  o  rei  alquebrado  e  doente  e  constando-lhe  que  um  certo  is- 


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1.  O  Hemione 2.  A  7a\ 


BR  A. 


Maôalháes  &  Moniz  .  edi 


310  HISTORIA   NATURAL 


COSTUMES 


Habitam  tanto  as  montanhas  como  as  planícies;  mas  cada  espécie 
parece  ter  os  seus  domínios  próprios  e  exclusivos. 

São  sóbrias,  ágeis,  corajosas  e  amantes  da  liberdade;  a  domesticação 
d'ellas  é  difficil.  Os  sentidos  d'estes  solipedes  são  muito  desenvolvidos. 

São  sociáveis;  vivem  sempre  em  grandes  bandos. 


Gonhecem-se  trez  espécies  bem  authenticas. 


A    COAGGA 


É  das  espécies  conhecidas  aquella  cujo  manto  é  menos  raiado.  As- 
semelha-se  no  porte,  mais  ao  cavallo  do  que  ao  jumento.  É  bem  cons- 
truída: a  cabeça  é  de  tamanho  regular,  elegante,  as  orelhas  são  curtas 
e  os  membros  vigorosos.  O  pescoço,  bem  contornado,  apresenta  uma 
crina  curta  e  levantada;  a  cauda  é  coberta  de  pêllo  em  toda  a  extensão. 
O  péllo  é  por  todo  o  corpo  curto  e  liso.  No  pescoço  contam-se  dez  listras 
transversaes  que  se  prolongam  na  crina;  quatro  outras  correm  ao  longo 
das  espáduas  e  algumas,  mais  curtas,  mais  desmaiadas  e  mais  distancia- 
das umas  das  outras  sobre  o  dorso  e  flancos.  A  todo  o  comprimento  do 
dorso  até  á  cauda  estende-se  uma  facha  de  um  trigueiro  carregado. 

A  fêmea  não  diff*ere  do  macho  senão  em  ser  mais  pequena  e  ter  a 
cauda  mais  curta.  O  macho  adulto  mede  dois  metros  e  oitenta  centíme- 
tros de  extensão,  comprehendida  a  cauda;  a  altura  é,  ao  nível  da  espá- 
dua, de  um  metro  e  trinta  centímetros,  approxímadamente. 


mamíferos  em  ESPEGLA.L  311 


O  DAUW 


Esta  espécie  pode  considerar-se  como  o  typo  de  transição  entre  a 
coagga  e  a  zebra  propriamente  dita  de  que  adiante  nos  occupamos.  Tem 
com  effeito  caracteres  de  uma  e  outra  das  espécies :  parece-se  tanto  com 
a  zebra  propriamente  dita  que  muitos  naturalistas  o  teem  confundido  com 
ella;  e  da  coagga  diífere  quasi  só  em  ser  mais  pequeno.  A  côr  geral 
d'este  solipede  é  a  de  camurça.  Para  o  distinguir  da  zebra  propriamente 
dita,  ha  a  notar  que  a  cauda  apresenta-se  coberta  de  péllo  em  toda  a 
extensão,  o  que  n'esta  espécie  se  não  realisa.  Para  o  distinguir  da  coagga, 
observe-se  que  ao  passo  que  a  listra  dorsal  d'esta  espécie  é  trigueira,  a 
do  dauw  é  negra.  A  extensão  do  dauw  é  ainda  uns  vinte  e  tantos  centí- 
metros menor  que  a  da  coagga. 


A  ZEBRA  PROPRIAMENTE  DITA 


Diífere  das  espécies  anteriores  principalmente  no  manto  que  é  muito 
mais  listrado.  Para  dar  uma  idéa  approximada  do  porte  da  zebra  pro- 
priamente dita  devemos  comparal-a  não  ao  cavallo  ou  ao  jumento,  mas 
ao  hemione.  É  com  este  animal,  com  effeito,  que  ella  se  parece  mais. 

O  corpo  da  zebra  é  musculoso  e  vigorosíssimo,  a  cabeça  curta  e  o 
focinho  volumoso;  as  pernas  são  delgadas  e  elegantes.  A  cauda,  de  com- 
primento médio,  é  uma  verdadeira  cauda  de  jumento;  só  na  extremidade 
offerece  pellos  extensos,  em  tufo.  A  crina  é  espessa,  mas  muito  curta. 

A  côr  fundamental  do  manto  é  o  branco  ou  o  amarello  muito  claro. 


312  HISTOBIA  NATURAL 

Por  todo  o  corpo,  desde  o  focinho  até  aos  cascos,  correm  listras  trans- 
versaes  de  um  negro  brilhante  ou  de  um  ruivo  trigueiro;  só  a  parte 
posterior  do  ventre  e  a  face  interna  dos  membros  anteriores  são  despro- 
vidos d'estas  listras.  Sobre  o  dorso,  ao  longo  da  columna  vertebral  e  no 
ventre,  pela  região  media,  correm  fachas  longitudinaes  de  um  trigueiro 
accentuado. 


CONSIDERAÇÕES  HISTÓRICAS 


A  zebra  parece  ser  a  espécie  que  os  europeus  primeiro  conheceram. 
Tem-se  supposto  que  o  celebre  cavallo  tigre  apresentado  por  Caracala 
no  circo  romano  fosse,  como  dissemos,  uma  zebra.  Philostorgius,  que 
escreveu  em  425,  falia  de  um  grande  jwmento  selvagem^  raiado;  embora 
a  descripção  feita  seja  um  pouco  vaga  ha  logar  pára  crer  como  prová- 
vel que  se  tratasse  de  uma  zebra.  As  primeiras  noções  exactas  acerca 
das  zebras  são-nos  devidas  a  nós,  portuguezes,  e  datam  do  nosso  esta- 
belecimento na  costa  oriental  da  Africa.  Segundo  Brehm,  em  1666,  um 
embaixador  ethiope  foi  o  primeiro  a  levar  uma  zebra,  de  presente,  ao 
sultão  do  Cairo.  Depois  d'essa  epocha,  grande  numero  de  naturaKstas 
conheceram  e  descreveram  simultaneamente  em  paizes  diíTerentes  este 
animal. 

Os  artigos  que  seguem  sobre  distribuição  geographica,  costumes ^ 
caça  e  captiveiro  teem  applicação  a  todas  as  trez  espécies  descriptas  já 
nos  seus  caracteres  morphologicos. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHIGA 


Apezar  de  extremamente  semelhantes,  é  certo  que  as  trez  espécies 
de  zebras  teem,  como  já  fizemos  notar,  domínios  geographicos  distin- 
ctos.  Habitam  todas  a  Africa;  porém  o  dauw  muito  mais  ao  norte  que  a 
coagga,  e  ambos  nas  planícies,  ao  passo  que  a  zebra  propriamente  dita, 
só  vive  nas  montanhas  do  sul  e  este  do  continente,  desde  o  Gabo  até  á 
Abyssinia. 


mamíferos  em  especial  313 


COSTUMES 


Todas  as  trez  espécies  mencionadas,  a  coagga,  o  dauw  e  a  zebra 
propriamente  dita,  são  extremamente  sociáveis  e  vivem  em  bandos  que 
hoje  são  de  dez  a  trinta  individues,  mas  que  já  foram,  a  dar  credito  aos 
naturalistas  antigos,  de  oitenta  a  cem.  É  de  notar  que  as  espécies  nunca 
se  confundem,  embora  se  encontrem  próximas  umas  das  outras:  cada 
bando  é  exclusivamente  formado  por  individues  de  uma  mesma  espécie. 
Parece  que  se  temem  uns  aos  outros;  e  este  facto  é  tanto  mais  para  no- 
tar quanto  é  certo  que  todas  estas  espécies  são  corajosas  e  afifectam  um 
grande  desdém  pelos  outros  animaes,  ainda  os  mais  fortes.  Tem-se 
mesmo  observado  a  mistura  das  coaggas  com  gazellas,  antílopes  e  abes- 
truzes;  mas  nunca  se  viu  a  mistura  de  coaggas,  dauws  e  zebras  propria- 
mente ditas. 

Dizem  os  viajantes  que  a  coagga  aproveita  consideravelmente  com 
a  visinhança  ou  proximidade  do  abestruz,  porque  tira  um  grande  par- 
tido da  vigilância  constante  d'esta  ave  que  lhe  serve  de  sentinella,  que 
lhe  denuncia  os  perigos.  Nós  já  vimos  a  propósito  do  búfalo,  do  hippo- 
potamo  e  do  rhinoceronte,  alguma  coisa  de  semelhante;  dissemos  todo  o 
beneficio  que  estes  grandes  mamíferos  tiram  da  presença  do  ani  e  ou- 
tras pequenas  aves  que  vivem  perto  d'elles  ou  mesmo  sobre  o  seu  dorso. 

Todas  as  espécies  de  zebras  são  animaes  velocíssimos;  passam,  diz 
Brehra,  com  a  rapidez  do  vento  atravez  das  planícies  e  das  montanhas. 
Todas  são  desconfiadas  e  vigilantes;  se  um  perigo  se  approxima,  tomam 
o  galope  e  em  alguns  minutos  encontram-se  em  logar  seguro.  Um  bom 
cavallo  de  caça  em  terreno  plano  e  solido  consegue  attingil-as,  mas  só  ao 
fim  de  muito  tempo. 

O  cavallo  é  bem  recebido  nos  bandos  de  coaggas;  as  mesmas  boas 
relações  existem  entre  o  dauw  ou  a  zebra  propriamente  dita  e  os  soh- 
pedes  domésticos. 

As  zebras  não  são  exigentes  relativamente  á  alimentação;  com  tudo 
não  podem  ainda  assim,  sob  este  ponto  de  vista,  comparar-se  ao  jumento. 

Quando  á  mingua  d'agua  seccam  as  hervas  de  uma  região  habitada 
pelas  zebras,  estas  emprehendem  verdadeiras  emigrações  e  chegam 
mesmo,  ás  vezes,  até  aos  campos  cultivados  onde  produzem  incalculáveis 
estragos. 

A  voz  das  zebras  assemelha-se  ao  mesmo  tempo  ao  rehnchar  do  ca- 
vallo e  ao  ornear  do  jumento.  G.  Cuvier  diz  que  a  voz  da  coagga  con- 


314  HISTORIA  NATURAL 

siste  na  repetição,  vinte  vezes  seguida,  de  um  grito,  o  mesmo  sempre: 
coa^  coal 

Sob  o  ponto  de  vista  dos  sentidos,  todas  as  zebras  podem  conside- 
rar-se  como  perfeitamente  dotadas.  A  vista,  o  ouvido  e  o  olfato  são  ór- 
gãos muito  apurados  em  todas  as  trez  espécies.  São  também  astutas  e 
corajosas.  Defendem-se  valentemente,  á  dentada  e  ao  coice,  dos  grandes 
carniceiros.  A  hyena  e  o  leopardo  nem  mesmo  se  atrevem  a  acercar-se 
de  um  bando;  quando  muito,  apanham  algum  individuo  desgarrado,  per- 
dido do  seu  grupo. 


CAÇA 


De  todos  os  inimigos  da  zebra,  como  se  infere  naturalmente  do  que 
deixamos  dito,  o  mais  temivel  é  o  homem.  A  diíTiculdade  da  caça  e  a  bel- 
leza  do  manto,  diz  Brehm,  excitam  o  europeu.  Os  colonos  do  Cabo  per- 
seguem com  ardor  a  coagga  e  o  dauw;  os  abyssinios,  o  dauw  e  a  zebra 
propriamente  dita. 

Os  indígenas  empregam  como  processos  de  caça,  a  frecha  e  os  fos- 
sos; os  europeus,  as  armas  de  fogo. 


CAPTIVEIRO 


De  todas  as  espécies  a  que  se  doma  com  mais  facilidade  é  a  coagga. 
O  dauw  vem  immediatamente  depois;  a  zebra  propriamente  dita  é  tão 
selvagem  que  durante  muitos  annos  passou  por  verdadeiramente  indo- 
mável. 

A  coagga,  se  é  apanhada  em  nova,  tratada  e  visitada  por  muitas 
pessoas,  chega  a  habituar-se  ao  homem  e  a  obedecer-lhe  até  ao  ponto 
de  ser  utiUsada,  á  maneira  do  cão,  como  guarda  dos  outros  solipe- 
des  domésticos  quando  vão  aos  pastos;  também  não  é  raro  ver  um  par 
d'estes  animaes  puxando  a  um  carro.  O  dauw,  captivo  também  n'uma 
tenra  idade,  domestica-se  até  um  certo  ponto  e  chega  a  prestar-nos  al- 
guns bons  serviços,  como  A.  Geoífroy  Saint-Hillaire  provou.  Mas  com  a 
zebra  propriamente  dita  não  acontece  o  mesmo.  Umas  certas  tentativas 
feitas  no  sentido  de  a  utilisar  na  conducção  de  carros  ou  em  cavallaria, 


mamíferos  em  especial  315 

foram  ao  principio  seguidas  de  um  insuccesso  tremendo  e  ruidoso;  d'ahia 
idéa  por  muito  tempo  acceite  de  que  a  zebra  é  indomável.  D'essas  pri- 
meiras tentativas  mencionaremos  duas,  uma  das  quaes,  contada  por 
Sparmann  e  a  outra  narrada  por  Fitzinger.  A  primeira  d'estas  tentativas 
refere-se  a  um  rico  colono  do  Cabo  que  tendo  algumas  pequenas  zebras 
muito  domesticas,  ao  que  lhe  parecia,  se  lembrou  um  dia  de  as  atrellar 
a  um  carro.  O  resultado  foi  o  peior  possível;  as  zebras  partiram  o  carro, 
deitando  a  correr  com  elle  aos  pedaços  para  casa.  A  segunda  tentativa 
foi  a  de  um  cavalleiro  atrevido  que  se  lembrou  de  cavalgar  uma  zebra 
que  em  tempo  fora  muito  dócil,  mas  que  por  falta  de  cuidados  e  de  tra- 
tamento regressara  á  selvageria  primitiva.  O  cavalleiro  chegou  a  mon- 
tar; mas  apenas  se  sentou  no  selim,  a  zebra  atirou-se  violentamente  ao 
chão;  depois  erguendo-se  de  salto  arrojou-se,  de  um  logar  escarpado,  á 
agua.  O  cavalleiro  prendeu-se  vivamente  ás  rédeas;  a  zebra  porém,  vol- 
tando para  a  margem,  mal  chegou  a  terra  e  quando  o  cavalleiro  atur- 
dido do  embate  procurava  segurar-se  ao  selim,  arrancou-lhe  uma  orelha 
com  uma  dentada.  Estas  e  outras  tentativas  analogamente  desanimadoras 
deram  curso  á  idéa  de  que  a  zebra  é  indomável.  Tal  opinião  porém,  não 
deve  acceitar-se  de  um  modo  absoluto.  Guvier  cita  o  caso  de  uma  zebra 
fêmea  do  Jardim  das  Plantas^  tão  domestica  que  qualquer  a  podia  montar 
sem  receio.  Rarey,  domador  celebre  de  cavallos,  conseguiu  também  mon- 
tar e  dirigir  algumas  zebras. 

Todas  as  espécies  se  dão  bem  e  chegam  a  reproduzir-se  na  Europa. 
Segundo  Weiland,  o  dauw  tem-se  reproduzido  nos  nossos  climas  dez  ve- 
zes e  a  zebra  duas  desde  1813.  Os  cruzamentos  são  fecundos  com  outros 
solipedes;  isto  que  no  século  passado  era  tido  por  BuíFon  como  sim- 
plesmente provável,  está  provado  hoje.  Nos  cruzamentos,  tem-se  sempre 
notado  que  os  mestiços  se  assemelham  mais  ao  pae  que  á  mãe. 

De  todos  os  ensaios  de  cruzamentos  até  hoje  feitos,  e  que  infehz- 
mente  são  ainda  pouco  numerosos,  resulta,  diz  Brehm,  que  todos  os  so- 
lipedes se  copulam  e  que  os  productos  são  fecundos.  «Este  facto,  conti- 
nua o  naturahsta  allemão,  é  uma  acquisição  importante  para  a  sciencia; 
destroe  a  theoria  da  unidade  da  geração  que  tantos  debates  causou  en- 
tre naturahstas  e  orthodoxos.  Este  aphorismo,  «só  os  animaes  de  uma 
mesma  espécie  podem  produzir  filhos  fecundos»,  não  é  verdadeiro  em 
absoluto.  E  o  naturahsta  não  deve  contentar-se  com  uma  opinião  des- 
mentida pelos  factos.»  * 


1    Brehm,  Ohr,  cit.,  vol.  2.°,  pg.  430. 


316  HISTORIA  NATURAL 


USOS  E  PRODUCTOS 


A  belleza  do  manto  é  um  dos  maiores  attractivos,  como  vimos,  da 
caça  das  zebras.  A  pelle  entra  como  matéria  de  muitas  industrias.  Os  co- 
lonos do  Cabo  ornam  os  pescoços  dos  seus  cavallos  com  colleiras  feitas 
da  pelle  ou  da  crina  das  zebras.  Não  encontramos,  a  propósito  de  usos 
e  productos,  outra  menção  especial.  Ha  porém  logar  para  crer  que  a 
carne  das  zebras  seja  pelo  menos  tão  boa  como  a  dos  cavallos  e  dos  ju- 
mentos. Os  cascos  e  os  tendões  podem  também  servir  para  os  mesmos 
effeitos  em  que  se  empregam  os  dos  cavallos. 


Damos  em  seguida,  semelhantemente  ao  que  temos  feito  para  outras 
ordens,  o  quadro  eschematico  dos  pachydermes,  adoptando  a  disposição 
de  Figuier: 


mamíferos  em  especial 


317 


ELEPH  antes, 


pachydermes  ordinários. 


PACHYDERMES 


SOLIPEDES. 


o  MASTODONTE 
|0  MAMMOUTH 
O  DINOTHEBIO 
O  ELEPHANTE  dVbiA 
O  ELEPHANTE  d'aFEICA 

O  TAPIRO  ASIÁTICO 

O  TAPIRO  d'aMERICA 

O  TAPIEO  VELLOSO 

O  HYRACE  DA  ABYSSINIA 

O  JAVALI  ORDINÁRIO 

O  JAVALI  DO  JAPÃO 

O  JAVALI  DA  ÍNDIA 

O  JAVALI  DOS  PAPÚS 

O   JAVALI  EM  PINCEL 

O   JAVALI  DOS  BOSQUES 

OS  PORCOS    DOMÉSTICOS 

O  PHACOCHERO 

O  JAVALI  ELIANO 

O  TAJAÇU  DE  COLLEIBA 

O  BABIROSA 

O  HIPPOPOTAMO  AMPHIBIO 

O  RHINOCERONTE  d'aSIA 

O  RHINOCERONTE  d'aPRICA 


O  CAVALLO 

RAÇAS  CAVALLARES 

OS  JUMENTOS 
|0  ONAGRO 

|0  JUMENTO  d' AFRICA 
<0  HEMIONE 
los  MUARES 
'o  JUMENTO  DOMESTICO 

A  COAGGA 

o  DAUW 

A    ZEBRA  PROPRIAMENTE  DITA 


►-oso»- 


-0<^«^f)>>^- 


AMPHIBI08 


CONSIDERAÇÕES   GERAES 


Rigorosamente  considerado,  o  nome  de  amphibios  não  deveria  ap- 
plicar-se,  como  nota  Figuier,  senão  aos  animaes  cuja  existência  pode 
passar-se  alternativamente  no  ar  ou  na  agua;  assim  elle  não  compretien- 
deria  verdadeiramente  mais  que  os  Batrachios,  que  respiram  branchial- 
mente  na  agua  e  pulmonarmente  no  ar.  O  termo  porém  foi  desviado  da 
verdadeira  e  rigorosa  accepção,  de  sorte  que  hoje  designam-se  pela  pa- 
lavra amphibios  especialmente  os  mamíferos  organisados  para  a  vida 
aquática  e  que  só  com  muita  difficuldade  podem  mover-se  em  terra. 


CARACTERES 


Os  caracteres  dos  animaes  que  constituem  esta  ordem  estão,  como 
pode  prevêr-se,  em  relação  intima  com  as  condições  especialíssimas  da 
sua  vida. 

O  corpo  é  em  todos  alongado,  cylindrico  e  pisciforme.  Os  membros 
muito  encurtados,  não  são  bem  visíveis  no  exterior  do  corpo  senão  pe- 
las extremidades,  convertidas  em  verdadeiros  remos  por  uma  larga  mem- 
brana natatoria  que  reúne  os  dedos.  As  extremidades  anteriores  esten- 


320  HISTORIA  NATURAL 

dera-se  ao  longo  do  corpo  e  manobram  agitando-se  de  diante  para  traz, 
como  em  quasi  todos  os.  mamíferos  aquáticos;  as  posteriores,  pelo  con- 
trario, estendidas  horisontalmente  e  parallelamente,  encontram-se  dis- 
postas de  maneira  a  cortarem  a  agua  obliquamente. 

O  manto  é  constituído  por  uma  camada  lanosa,  cuja  espessura  au- 
gmenta  com  o  rigor  dos  climas,  e  que  encobre  pêllos  rijos,  cercados  de 
um  enducto  gorduroso  que  tem  por  fim  impedir  a  chegada  da  agua  até 
á  pelle  e  proteger  o  corpo  contra  os  frios  extremos. 

Todos  os  amphibios  teem  a  cabeça  arredondada,  os  olhos  grandes, 
a  concha  auditiva  rudimentar  ou  nulla  e  o  iabio  superior  coberto  de 
grossos  pêllos  compridos. 

A  dentição  é  semelhante  á  dos  carniceiros,  motivo  por  que  muitos 
naturahstas  teem  pretendido  collocar  os  amphibios  logo  depois  d'esta 
ordem. 

As  vértebras  cervicaes  são  claramente  separadas  umas  das  outras 
e  munidas  de  apophyses  fortes;  as  dorsaes  são  quatorze  ou  quinze;  as 
lombares  cinco  ou  seis;  as  sagradas  quatro  ou  cinco,  geralmente  solda- 
das; e  as  caudaes  nove  ou  quinze.  As  cartilagens  costaes  encontram-se 
completamente  ossificadas. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHIGA 


Encontram-se  espalhados  por  todos  os  mares  do  mundo  em  numero 
que  vae  crescendo  á  proporção  que  nos  avisinhamos  dos  poios. 


COSTUMES 


Vivem  em  bandos,  alimentando-se  de  peixes,  de  molluscos,  de  crus- 
táceos, etc,  a  que  juntam  algumas  substancias  vegetaes.  Mergulham  com 
facilidade  e  podem  conservar-se  longo  tempo  debaixo  d'agua,  embora 
precisem  de  emergir  para  respirar.  A  disposição  especial  do  apparelho 
circulatório  explica-nos  a  demora  d'estes  animaes  sob  a  agua.  Este  appa- 
relho é  munido  de  vastos  reservatórios  ou  seios  venosos  em  que  o  san- 
gue se  acumula  durante  todo  o  tempo  em  que  os  pulmões  não  funccio- 


mamíferos  em  especial  321 

nam.  Quando  os  ampliibios  mergulhara,  a  circulação  pulmonar,  graças  ao 
sangue  dos  seios^  não  se  suspende  e  os  animaes  não  podem  por  lanto 
suffocar-se,  porque  a  aspbixia  é  um  phenomeno  produzido  pela  suspen- 
são da  respiração,  consecutiva  á  da  circulação. 

Como  os  seus  membros  são  impróprios  para  a  locomoção  terrestre, 
os  amphibios  não  saem  da  agua  senão  para  dormir,  realisar  um  parto  ou 
aleitar  os  filhos. 


usos   E   PRODUGTOS 


Obrigados,  pela  organisação  dos  membros,  a  rastejarem  pezada- 
mente  na  terra,  se  algumas  vezes  são  apanhados  fora  d'agua,  ficam  in- 
teiramente â  mercê  dos  inimigos.  Assim  é  que  o  homem  mata  todos  os 
annos  um  numero  prodigioso  d'estes  mamíferos  de  que  aproveita  prin- 
cipalmente a  pelle,  a  gordura  e  o  marfim  dos  dentes. 

A  ordem  comprehende  duas  famílias :  as  phocas  e  os  trichecos. 


91 

VOL.    III  ** 


mamíferos  em  especial  323 


AMPHIBIOS  EM  ESPECIAL 


AS    PHOCAS 


Teem  incisivos  em  ambas  as  maxillas;  os  caninos  não  se  alongam 
em  defezas.  O  pavilhão  auricular  falta  completamente. 


DISTRIBUIÇÃO  GE0GRAPHICA 


A  maior  parte  das  phocas  habitam  os  mares  do  Norte;  as  mais  sin- 
gulares vivem  nos  do  Sul.  Existem  mesmo  em  alguns  lagos  interiores  da 
Ásia.  Ha  apenas  uma  espécie  que  deve  considerar-se  verdadeiramente 
cosmopolita. 


costumes 


As  phocas  habitam  principalmente  os  mares;  no  entanto  lambem  so- 
bem os  rios  e  fazem  pequenas  excursões  por  terra  para  chegarem  ás 
aguas  interiores.  Ha  espécies  que  buscam  de  preferencia  o  mar  largo; 
algumas  porém  vivem  principalmente  nas  costas.  As  phocas  não  saem  a 
terra  senão  em  condições  muito  especiaes;  a  agua  é  o  seu  verdadeiro 
elemento.  Em  terra  são  pezadas,  retardatárias  e  como  que  estrangeiras; 
na  agua,  pelo  contrario,  movem-se  com  prodigiosa  rapidez,  com  immensa 
facilidade.  Mergulham  e  nadam  com  extrema  habilidade,  sobre  o  dorso 


324  IlKSTUaiA   NATIJHAL 

como  sobre  o  ventre,  para  diante  como  para  traz.  Em  terra,  o  único 
meio  de  progredirem  é  o  rastejamento;  na  agua  avançam,  recuam,  vol- 
tam-se  com  velocidade  admirável.  Ás  vezes,  estendem-se  sobre  pedaços 
de  gelo  fluctuante,  aquecendo-se  ao  sol;  ao  menor  indicio  de  perigo  po- 
rém, procuram  na  agua  um  refugio. 

As  phocas  são  extremamente  sociáveis;  vivem  constantemente  em 
bandos,  tanto  mais  numerosos  quanto  mais  deserto  é  o  logar  que  habi- 
tam. Nas  regiões  em  que  o  homem  as  persegue,  affastam-se  timida- 
mente para  o  mar  alto,  não  sendo  por  isso  possível  observal-as  senão 
de  longe. 

As  phocas  nem  sempre  vivem  n'uma  mesma  região;  muitas  espé- 
cies ha  que  emprehendem  dilatadas  viagens,  nadando  dia  e  noite,  quasi 
sem  um  intervallo  de  repouso. 

Os  hábitos  das  phocas  são  mais  nocturnos  do  que  diurnos.  É  de  dia, 
com  effeito,  que  ellas  dormem,  se  aquecem  ao  sol  ou  se  movem  com 
verdadeira  preguiça.  De  noite,  pelo  contrario,  agitam-se  com  velocidade, 
com  rapidez  incomparavelmente  maior. 

Nas  primeiras  edades,  as  phocas  são  seres  vivos,  alegres,  dispostos 
sempre  aos  divertimentos;  depois  de  velhas,  tornam-se  preguiçosas. 

De  todos  os  sentidos  das  phocas  o  mais  perfeito  é  o  ouvido,  ao  con- 
trario do  que  poderia  esperar-se  de  animaes  que  não  apresentam  pavi- 
lhão auricular.  A  vista  e  o  olfato  são  menos  perfeitos.  A  voz  é  rouca  e 
recorda  ora  o  uivo  do  cão,  ora  o  bahdo  do  carneiro,  ora  o  mugido 
do  boi. 

Os  agrupamentos  das  phocas  fazem-se  por  famílias.  Em  cada  uma 
d'estas,  um  só  macho  subordina  trinta  ou  quarenta  fêmeas.  Na  epocha 
do  cio,  ha  entre  os  machos  grandes  luctas  que  não  vão  até  á  morte  d'al- 
gum  dos  contendores,  pelo  simples  facto  de  que  a  pelle  e  a  camada  sub- 
jacente de  gordura  são  um  escudo  poderoso  contra  os  ferimentos  que 
podem  receber. 

Decorridos  sobre  o  acto  sexual  oito  ou  dez  mezes,  a  fêmea  dá  á  luz 
um  filho,  raras  vezes  dois.  A  mãe  defende  corajosamente  o  fdho,  que 
aos  dois  mezes  se  desmama.  O  crescimento  é  nas  phocas  muito  rápido; 
ao  fim  de  um  anno  teem  metade  das  dimensões  definitivas  e  entre  os 
dois  e  os  seis  encontram-se  adultas.  A  duração  total  oscilla  entre  vinte 
e  cinco  e  quarenta  annos. 

O  regime  das  phocas  é  animal;  alimentam-se  de  peixes,  de  crustá- 
ceos, de  molluscos  e  zoophytos. 


MAMÍFEROS   EM   ESPECíAE  325 


CACA 


O  mais  cruel  inimigo  das  pliocas,  superior  mesmo  ao  urso  branco, 
é  o  homem.  A  caça  ou  antes,  como  diz  Figuier,  a  guerra  desapiedada 
que  a  nossa  espécie  move  ás  phocas  é  de  tal  natureza  que  estes  animaes 
teem  diminuído  consideravelmente  de  anno  para  anno.  Se  esta  guerra 
continua  a  extincção  d'estes  famosos  mamíferos  não  se  fará  esperar 
muito.  «Dos  bandos  numerosos,  escreve  Brehm,  que  ainda  no  século  pas- 
sado se  viam  nas  ilhas  solitárias,  não  vemos  hoje  mais  que  os  últimos 
representantes.»  * 


CAPTIVEIRO 


As  phocas  submettidas  ao  captiveiro  e  tratadas  com  cuidado  chegam 
a  tornar-se  verdadeiros  animaes  domésticos.  Aprendem  a  seguir  o  ho- 
mem, a  reconhecer-lhe  a  voz;  e  uma  vez  chegada  a  educação  a  este 
ponto,  as  phocas  podem  deixar-se  em  liberdade,  podem  ir  ao  mar  que 
voltarão  a  casa  do  dono  e  trarão  até  alguma  pesca. 


usos  E  PRODUCTOS 


O  óleo,  a  gordura,  a  pelle  e  os  dentes  das  phocas  são  artigos  va- 
hosos  para  a  industria  e  commercio.  É  mesmo  esta  consideração  que  nos 
exphca  o  ardor  com  que  se  lhes  faz  a  caça. 


Brchm,  Ohr.  cif.,  vol.  2.»,  pg.  788. 


326  HISTORIA   NATURAL 

Damos  seguidamente  uma  summaria  noticia  das  principaes  espécies 
do  género. 


A  PHOCA  COMMUM  OU  BOI  MARINHO 


É  a  espécie  mais  conhecida,  sobretudo  nos  costumes.  Mede  metro  e 
meio  a  um  metro  e  oitenta  centímetros  de  comprimento.  As  cores  do 
manto  são  o  branco,  o  negro  e  o  pardo  trigueiro.  Nos  animaes  d'esta 
espécie  o  lábio  superior  é  ornado  de  pêllos  curtos  e  brancos  com  malhas 
trigueiras. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHICA 


Esta  espécie  habita  os  mares  da  Europa. 


A  PHOCA  DA  GROELANDIA 


O  corpo  n'esta  espécie  é  branco  ou  branco  amarellado  com  grandes 
manchas  escuras  e  alongadas;  a  cabeça  e  a  cauda  porém  são  negras. 


mamíferos  em  especial  327 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPHICA 


Vive  esta  espécie  no  Oceano  Glacial  Árctico  e  nos  mares  e  estreitos 
visinhos.  Encontra-se  na  Islândia  e  é  frequente  nas  ilhas  fluctuantes  de 
gelo. 


A  PHOCA  DE  TROMBA 


É  também  conhecida  pelo  nome  de  elephante  mannho.  O  caracter 
distinctivo  dos  animaes  d'esta  espécie  é  a  existência  de  um  prolongamento 
do  nariz  em  forma  de  tromba  com  a  extensão  approximada  de  trinta 
centímetros.  As  dimensões  do  animal  adulto  são:  oito  a  dez  metros  de 
comprido  e  cinco  a  sete  de  circumferencia. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHICA 


Encontra-se  no  extremo  meridional  da  America,  nas  ilhas  de  San- 
dwich, Vaii-Siemen,  em  Nova-Zelandia  e  nas  ilhas  do  Pacifico. 


328  ITISTOniA  NATURAL 


A  PHOCA  DE  CAPUZ 


Os  animaes  d'esta  espécie  não  excedem  dois  metros  e  meio  de  com- 
primento. Distingue-os  e  dá-lhes  o  nome  a  faculdade  que  teem  de  inchar 
a  pelle  da  cabeça,  formando  uma  como  empolla  ou  vesicula  de  ar. 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPHIGA 


Esta  espécie  encontra-se  na  Groelandia,  na  Terra  Nova  e  nas  costas 
septentrionaes  da  Noruega. 


A  PHOCA  URSINA 


É  conhecida  esta  espécie  também  pelo  nome  de  m^so  marinho,  que 
lhe  provém  de  uma  certa  analogia  que  tem  a  sua  cabeça  com  a  dos  ur- 
sos. Mede  dois  metros  a  dois  metros  e  meio  de  comprimento.  O  péllo  é 
comprido  e  grosseiro,  negro  ou  pardo  escuro  e  mais  claro  no  ventre. 


^;^j,,-^,-.;.a>.jy>t*K 


^•^-m^ 


mamíferos  em  especial 


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DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPHIGA 


Encontra-se  frequentemente  esta  espécie  nas  costas  de  Karaschatk  e 
em  todo  o  norte  do  oceano  Pacifico. 


A  PHOCA  CRINADA 


É  também  conhecida  esta  espécie  pelo  nome  de  leão  maiinho.  Este 
nome  justifica-se  pela  existência  de  um  péllo  comprido  amarello  arruivado 
que  se  estende  pelas  costas  e  ao  longo  do  pescoço,  á  maneira  de  crina 
ou  de  juba.  Quatro  metros  é  o  comprimento  approximado  dos  animaes 
d'esta  espécie. 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPHIGA 


Esta  espécie  encontra-se  desde  o  estreito  de  Behring  até  às  costas 
do  Japão  e  da  Califórnia. 


')30  HISTORIA  NATURAL 


OS  TRICHECOS 


É  esta  a  outra  família  da  ordem  dos  ampliibios,  que  apenas  com- 
prehende  as  duas. 

Os  trichecos  teem  a  configuração  geral  das  phocas;  não  obstante 
ofrereccm  caracteres  distinclivos  que  justificam  plenamente  a  sua  sepa- 
ração em  família  especial.  A  face  dos  trichecos  é  mais  curta  que  a  das 
pliocas;  o  focinho  é  mais  largo;  os  mollares  teem  uma  conformação 
muito  differente;  os  incisivos  inferiores  faltam  nos  adultos;  finalmente, 
os  caninos  superiores,  fortíssimos,  alongam-se  e  saem  da  bocca  como 
duas  fortes  defezas. 

A  família  comprehende  um  só  género  e  este  uma  só  espécie  que 
vamos  descrever. 


O  TRICHECO  OU  CAVALLO  MARINHO 


Documentos  históricos  antiquíssimos  se  referem  a  este  animal:  por 
exemplo:  as  descripções  de  Alberto  o  Grande  e  de  Olaiis  Magnus.  Advir- 
ta-se  porém  que  n'estas  descripções  ha  muito  de  fabuloso. 


CARACTERES 


o  tricheco  adulto  tem  seis  a  sete  metros  de  comprimento  e  trez  e 
meio  a  quatro  de  circumferencia  ao  nível  das  espáduas.  O  pezo  chega  a 
mil  e  quinhentos  kilogrammas  nos  indivíduos  maiores.  Os  exemplares 
mais  abundantes  hoje  não  excedem  de  ordinário  quatro  metros  de  ex- 
tensão e  oitocentos  kilogrammas  de  pezo. 


mamíferos  em  espegtal  i^^^F       331 

A  pelle  apresenta  uma  espessura  não  inferior  a  trez  centimelros;  no 
pescoço  é  ainda  mais  considerável.  Os  individues  ainda  novos  são  com- 
pletamente cobertos  de  pêllos  sedosos,  mais  curtos,  mais  rijos  e  mais 
grosseiros  no  dorso  que  no  ventre;  estes  péllos  caem  com  os  progressos 
da  edade.  O  tricheco  nos  primeiros  tempos  de  existência  é  negro;  á  pro- 
porção que  envelhece  torna-se  trigueiro  ou  ruivo,  amarellado  ou  parda- 
cento, ou  ainda  branco. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHICA 


O  tricheco  ou  cavallo  marinho  habita  ainda  hoje  uma  grande  parte 
do  Oceano  Glacial  Árctico.  A  área  de  dispersão  d'este  amphibio  compre- 
hende  uma  parte  oriental  e  outra  occidental.  A  este  encontra-se  princi- 
palmente no  mar  de  Behring  e  ao  longo  das  costas  da  America,  até  ao 
chamado  banco  dos  cavallos  marinhos;  nas  costas  asiáticas,  abaixo  do 
sexuagessimo  grão  de  latitude  norte.  O  limite  da  distribuição  occidental 
e  á  embocadura  do  lénisei.  Encontra-se  vulgarmente  na  Nova-Zembla  e 
nos  gelos  que  ficam  situados  entre  a  ilha  Spitzberg  e  a  Groelandia,  bem 
como  ao  longo  da  costa  oriental  da  parte  mais  septentrional  da  America. 


COSTUMES 


O  tricheco  ou  cavallo  marinho  procura  de  preferencia  os  logares  em 
que  a  agua  se  conserva  a  uma  temperatura  muito  baixa. 

Os  antigos  navegadores  faliam  de  enormes  bandos  de  cavallos  ma- 
rinhos que  já  hoje  se  não  encontram.  Ainda  no  século  xvii  os  marinhei- 
ros de  um  só  navio  podiam  no  mar  Glacial  da  Europa  matar  no  espaço 
de  nove  horas  oitocentos  ou  novecentos  trichecos.  Actualmente  taes  fa- 
ctos não  se  reproduzem;  os  bandos  teem  decrescido  consideravelmente 
em  numero  de  membros. 

O  género  de  vida  do  tricheco  é  muito  semelhante  ao  das  phocas. 
É,  como  estas,  muito  sociável  e  passa  a  maior  parte  da  sua  existência 
na  agua.  Na  epocha  do  cio  porém,  e  na  da  parturição,  acontece  que  este 
animal  se  demora,  por  vezes,  muitos  dias  seguidos  em  terra. 


332  IIISTOniA  NATURAL 

Como  todos  os  ampliibios,  o  Lriclieco  ou  cavallo  marinho  nada  com 
rapidez  e  facilidade  notáveis  e  o  em  terra  pczado,  moroso. 

Os  crustáceos  e  os  molluscos  constituem  o  grosso  da  alimentação 
doeste  amphibio.  Com  as  fortes  defezas  destaca  dos  rochedos  as  conchas 
que  ahi  adherem  e  come-as. 

Nos  logares  em  que  a  experiência  lhe  não  ensinou  a  conhecer  o  ho- 
mem, o  tricheco  passa  indifferente  ao  lado  das  embarcações.  Já  assim 
não  acontece  nas  regiões  em  que  o  homem  se  lhe  denunciou  sob  a  forma 
de  um  terrível  perseguidor.  Ahi  teem  sempre  todos  os  bandos  algumas 
sentinellas  que  previnem  os  companheiros  da  approximação  do  homem 
por  uma  successão  de  gritos  entrecortados  que  fazem  lembrar  o  relincho 
do  cavallo.  Se  algum  dos  membros  de  um  bando  é  ferido,  a  excitação  e 
a  raiva,  rapidamente  communicadas  de  uns  a  outros,  tornam  verdadeira- 
mente terríveis  os  trichecos.  «Se  se  attaca  um,  diz  Scoresby,  os  outros 
correm  a  defendel-o.  Cercam  o  barco,  abrem-lhe  os  flancos  com  os  cani- 
nos, erguem-se-lhe  até  ás  bordas,  ameaçam  submergil-o.  O  melhor  meio 
de  defeza  para  o  homem  é  atirar-lhes  areia  aos  olhos;  por  este  modo 
consegue-se  seguramente  aífastal-os,  ao  passo  que  pelas  armas  de  fogo 
raras  vezes  se  obtém  resultado  n'estas  condições.  Meu  pae  matou  um 
dia  com  uma  lançada  um  tricheco  a  que  antes  fizera  fogo  sobre  a  cabeça. 
Viu-se  depois  que  a  bala  se  achatara  contra  os  ossos  do  craneo.» 

O  acto  sexual  realisa-se  em  Junho  ou  Julho.  N'esta  epocha  os  ma- 
chos dão-se  combates  violentos  em  que  os  dentes  caninos  representam 
um  grande  papel.  Raro  é,  por  isso,  encontrar  um  macho  cujo  corpo  se 
não  ache  coberto  de  cicatrizes.  Em  quanto  dura  o  cio,  os  machos  fazem 
ouvir  constantemente  a  voz. 

Nove  mezes  depois  do  acto  sexual,  em  Abril  ou  Maio,  a  famea  pare 
um  filho  único,  que  trata  e  defende  corajosamente  como  as  phocas. 


CAÇA 


A  caça  ao  tricheco  é  perigosíssima  no  mar  e  facillima  em  terra. 
Nas  praias  mata-se  o  tricheco  como  se  matam  as  phocas.  A  difficuldade 
que  o  animal  tem  de  se  mover  explica  porque  no  espaço  de  algumas 
horas  se  matam  em  terra  dezenas  de  cavallos  marinhos.  Emprega-se  o 
machado  ou  a  lança.  No  mar  são  grandes  os  perigos  d'esta  caça,  em 
que  se  emprega  o  arpeo  ou  a  arma  de  fogo.  Os  perigos  resultam  não 
tanto  da  valentia  do  animal,  que  é  ahás  enorme,  como  do  facto  de  que 


mamíferos  em  especial  333 

os  cavallos  marinhos,  já  o  notamos,  se  auxiliam  uns  aos  outros  no  atta- 
que,  como  na  defeza. 


CAPTIVEIRO 


Não  se  sabe  ao  certo  se  o  cavallo  marinho  é  susceptível  da  alta 
domesticação  que  pode  attingir  a  phoca.  Segundo  Brehm,  á  Europa 
nunca  veio  senão  um  tricheco  vivo  em  1853.  Vivem  nove  semanas  ape- 
nas em  captiveiro. 


usos  E  PRODUGTOS 


Os  dentes  do  cavallo  marinho  fornecem  marfim  mais  branco  e  mais 
rijo  que  o  dos  elephantes.  A  pelle  serve  para  a  fabricação  de  corréas  e 
cordas  de  uma  enorme  resistência.  Os  tendões  servem  de  fios  para  os 
groelandezes.  A  gordura  é  empregada  na  preparação  de  alimentos  ou 
d'ella  se  extrae  um  óleo  superior  ao  da  balea.  A  carne,  ao  que  dizem  os 
que  a  teem  provado,  não  é  má. 


-•■oso-* 


CETÁCEOS 


CONSIDERAÇÕES   GERAES 


Os  cetáceos  são  mamíferos  essencialmente  aquáticos,  em  extremo 
semelhantes  aos  peixes. 

Quem  se  limitasse  a  uma  observação  ligeira  e  superficial  das  formas 
exteriores  d'estes  animaes,  seria  com  effeito  levado  a  crer  que  são  pei- 
xes, tal  é  a  analogia  apparente  que  manteem  com  esta  classe  de  verte- 
brados. É  pois  necessário  insistir  nos  distinctivos  da  viviparidade,  do 
aleitamento  dos  filhos,  da  respiração  pulmonar,  da  existência  de  um  co- 
ração munido  de  dois  ventrículos  e  de  duas  aurículas,  para  que  fique 
bem  assente  e  sem  sombras  de  duvida  a  collocação  dos  cetáceos  na  classe 
dos  mamíferos. 

«Os  cetáceos,  diz  Figuier,  em  vez  de  serem  organisados  para  a  vida 
terrestre,  são,  pelo  contrario,  admiravelmente  adaptados  ás  condições 
do  meio  aquático;  adquirem  dimensões  muitas  vezes  enormes  e  são  os 
gigantes  do  reino  animal.))  *■  Brehm  diz  também:  «Os  cetáceos  são  entre 
os  mamiferos  o  que  os  peixes  são  entre  os  vertebrados,  isto  é  seres  con- 
formados para  uma  vida  exclusivamente  aquática.  As  phocas  passam  um 
terço,  pouco  mais  ou  menos,  da  sua  existência  em  terra;  ahi  nascem, 
ahi  dormem,  ahi  se  aquecem  aos  raios  do  sol.  Os  cetáceos,  esses  não  po- 
deriam viver  fora  da  agua.  As  dimensões  gigantescas  d'estes  animaes 


L.  Figuier,  Obr.  cif.,  pg.  29. 


33 G  HISTORIA   NATURAL 

indicam  já  que  só  no  meio  (]'esle  elemento  lhes  é  possível  movercm-sc; 
além  cFisso,  só  o  mar  com  as  suas  riquezas  infinitas  lhes  pode  fornecer 
alimentação  em  quantidade  suíficicnte.))  *  Abstracção  feita  dos  pontos 
essenciaes  de  organisação  que  determinam  a  entrada  na  classe  dos  ma- 
míferos aos  cetáceos,  em  tudo  o  mais  assemelliam-se  elles  aos  peixes. 
É  o  que  vamos  ver. 

Os  cetáceos  lêem  um  corpo  pezado  e  volumosíssimo.  A  cabeça 
enorme  e  monstruosa  não  se  separa  claramente  do  resto  do  corpo.  Este 
vae  adelgaçando  de  diante  para  traz  e  termina  por  uma  barbatana  cau- 
dal, larga  e  horisontal.  Os  membros  posteriores  faltam  completamente  e 
os  anteriores  transformaram-se  em  verdadeiras  barbatanas  em  que  só 
com  o  auxilio  do  escalpelo  é  possível  descobrir  dedos,  reconhecer  mãos. 
Uma  barbatana  dorsal,  formada  de  tecido  adiposo,  augmenta,  quando 
existe,  o  que  nem  sempre  acontece,  a  semelhança  entre  os  cetáceos  e 
os  peixes.  A  bocca  é  largamente  fendida,  desprovida  de  lábios  e  contem 
um  numero  considerável  de  dentes.  As  mamas  acham-se  collocadas  junto 
dos  órgãos  genitaes. 

A  estructura  interna  oíTerece  também  particularidades  dignas  de 
menção. 

Os  ossos  são  formados  de  ccllulas  espongiosas,  cheias  de  uma  gor- 
dura liquida  que  o  impregna  de  tal  modo  que  elles  parecem  ainda  gordos 
ao  fim  mesmo  de  muitos  dias  de  exposição  ao  ar:  não  teem  canal  me- 
dullar.  O  craneo  é  enorme  e  raras  vezes  proporcionado  ao  resto  do 
corpo.  Os  ossos  estão  ligados  de  um  modo  especialíssimo :  são  embrica- 
dos  e  unidos  apenas  pelas  partes  molles.  Uns  são  rudimentares,  outros 
extremamente  desenvolvidos. 

Na  columna  vertebral  a  porção  correspondente  ao  pescoço  é  princi- 
palmente notável.  As  vértebras  são  ahi  em  numero  de  sete,  mas  reduzidas 
a  finos  anneis  achatados,  muito  pouco  moveis  e,  muitas  vezes  soldados 
entre  si  de  modo  tal  que  apenas  se  lhes  pode  contar  o  numero  pelos  bu- 
racos de  conjugação,  que  dão  passagem  aos  nervos.  As  vértebras  dor- 
saes  são  geralmente  onze  a  dezenove,  as  lombares  dez  a  vinte  e  quatro 
e  as  caudaes  vinte  e  duas  a  vinte  e  quatro.  O  numero  de  verdadeiras 
costellas  é  muito  restricto:  varia  entre  um  e  seis  pares.  As  falsas  costel- 
las  são  muito  mais  numerosas. 

Os  membros  anteriores  são  notáveis  pela  forma  curta  e  achatada 
dos  seus  ossos  e  ainda  pelo  numero  de  phalanges  que  pode  ser  seis, 
nove  ou  mesmo  doze. 

Os  dentes  em  grande  numero,  são  sempre  eguaes  em  cada  maxilla. 


Brehm,  Ohr,  cit,,  vol.  2.o,  pg.  823. 


mamíferos  em  especial  337 

Os  músculos  são  vigorosíssimos  e  proporcionados  ás  dimensões  d'es- 
tes  animaes. 

A  massa  nervosa  é  relativamente  pequena;  n'uma  baleia,  por  exem- 
plo, que  meça  seis  metros  de  comprido  e  tenha  cinco  mil  e  quinhentos 
kilogrammas,  o  cérebro  não  excede  dois  kilogrammas. 

Os  órgãos  sensoriaes  teem  um  pequeno  desenvolvimento.  Os  olhos 
são  pequenos  e  as  orelhas  apenas  indicadas.  O  nariz  não  exerce  func- 
ções  olfativas,  é  um  simples  canal  aerio;  não  se  tem,  com  eífeito,  en- 
contrado n'esta  ordem  nervos  de  olfação.  O  tacto  é  um  sentido  embo- 
tado, fraco,  nos  cetáceos. 

Os  órgãos  respiratórios  offerecem  nos  animaes  d'esta  ordem  modi- 
ficações importantes,  em  relação  e  em  harmonia  com  as  condições  de 
meio  em  que  elles  vivem.  A  larynge  não  é  n'esta  ordem  propriamente 
um  órgão  de  phonação,  mas  sim  uma  cavidade  destinada  a  deixar  pas- 
sar uma  enorme  quantidade  d'ar  a  cada  inspiração.  Os  canaes  aerios  são 
muito  grandes;  os  pulmões  teem  um  volume  considerável;  e  os  bron- 
chios  são  anastomosados  entre  si.  Além  d'isto,  as  artérias  aorta  e  pul- 
monar apresentam  diverticulos  muito  espaçosos  em  que  pode  accumu- 
lar-se  o  sangue  oxigenado  ou  viciado. 

Os  cetáceos  não  teem  glândulas  salivares.  A  lingua  é  grande,  o  es- 
tômago dividido,  o  flgado  pequeno  e  os  intestinos  de  dimensões  muito 
variáveis  de  espécie  a  espécie. 

A  pelle  é  quasi  desnudada,  hsa,  macia  ao  tacto  e  pouco  espessa; 
sob  ella  encontra-se  uma  forte  camada  de  gordura. 

Toda  esta  disposição  e  natureza  morphologica  é  eminentemente 
apropriada  á  vida  aquática.  A  pelle  lisa  faciUta  aos  cetáceos  os  movimen- 
tos; a  camada  de  gordura  diminue-lhes  o  pezo.  protege-os  contra  o  frio 
e  permitte-lhes  resistirem  á  enorme  pressão  que  supportam  quando  des- 
cem ao  fundo  do  mar;  os  vastos  pulmões  podem  reter  consideráveis  vo- 
lumes d'ar,  o  que  lhes  permitte  immersões  demoradas;  finalmente  as  arté- 
rias enormemente  dilatadas  que  hgam  os  pulmões  e  o  coração  podem 
conter  e  conservar  sangue  arteriahsado  por  largo  tempo,  sem  que  ao 
animal  seja  preciso  fazer  muito  repetidas  inspirações. 

Os  maiores  mamíferos  conhecidos  são  pequeníssimos  ao  lado  dos 
cetáceos. 


voL.  m  22 


338  HISTORIA  NATURAL 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHICA 


Os  cetáceos  vivem  em  todos  os  mares  do  globo.  Uns  teem  uma  arca 
de  dispersão  muito  extensa,  outros  vivem  confinados  nas  regiões  mais 
frias,  muitos  emfim,  são  verdadeiramente  cosmopolitas. 


COSTUMES 


Todos  os  cetáceos  evitam  a  visintiança  das  costas.  Á  excepção  de 
uma  familia  que  entra  pelos  rios,  não  passando,  ainda  assim,  para  além 
do  ponto  em  que  a  maré  se  faz  sentir,  os  cetáceos  não  abandonam  a 
agua  salgada.  Fora  da  agua  nenhum  se  pode  mover;  se  acontece  que 
uma  tempestade  os  atire  para  terra,  estão  irremediavelmente  perdidos. 

Em  certas  estações  os  cetáceos  emigram  e  percorrem  o  mar  segundo 
um  trajecto  determinado.  Nadam  todos  com  grande  facilidade,  sem  es- 
forço, e  muitos  mesmo  com  inacreditável  rapidez.  De  ordinário  vivem  á 
superfície  d'agua,  com  quanto  possam  descer  a  grandes  profundidades. 

Quando  depois  de  um  prolongado  mergulho,  um  cetáceo  volta  á  su- 
perfície do  mar  dá-se  um  facto  curioso :  o  animal  expelle  ruidosamente  o 
liquido  que  lhe  entrou  {Jfelas  narinas,  e  fal-o  com  violência  tal  que  uma 
columna  d'agua  pulverisada  se  eleva  até  cinco  ou  seis  metros.  Parece 
que  um  jacto  de  vapor  sáe  atravez  de  um  tubo  estreito.  São  portanto 
falsos  os  desenhos  que  representam  a  agua  saindo  das  narinas  do  ani- 
mal como  de  uma  fonte.  Á  expiração  que  descrevemos  succede  uma  ins- 
piração ruidosa  e  muito  rápida.  A  esta  succede  uma  expiração  que,  não 
havendo  agua  a  expeUir,  é  rapidamente  seguida  de  uma  outra  inspira- 
ção; e  assim  sempre,  successivamente.  As  narinas  acham-se  dispostas  de 
modo  que  são  sempre  a  primeira  parte  a  sair  da  agua  quando  o  cetáceo 
immerge. 

Para  se  fazer  idéa  dos  prolongados  mergulhos  dos  cetáceos,  basta 
lembrar  que  n'um  caso  de  ferimento  elles  podem,  segundo  Scoresby  que 
os  observou  de  perto,  conservar-se  debaixo  d'agua  por  espaço  de  vinte 
minutos ! 

Um  facto  curioso  e  que  não  está  bem  explicado  é  o  da  morte  rápida 


mamíferos  em  especial  339 

dos  cetáceos  em  terra.  Respirando  pulmonarmente,  não  se  pode  explicar 
a  morte  por  aspliixia  como  nos  peixes.  Explicar-se-ha  pela  fome?  Talvez; 
no  entanto  custa  a  crer  que  a  causa  seja  esta,  porque  a  morte  é  exces- 
sivamente rápida. 

Os  cetáceos  são  carnívoros;  só  casualmente  comem  vegetaes,  que 
todavia  lhes  não  servem  provavelmente  de  alimento.  Os  animaes  mari- 
nhos, grandes  e  pequenos,  seja  qual  for  a  classe  a  que  pertençam,  cons- 
tituem a  verdadeira  alimentação  dos  cetáceos.  Devemos  notar  este  facto 
muito  singular:  os  cetáceos  de  maiores  dimensões  são,  de  ordinário,  os 
que  se  alimentam  de  mais  pequenos  animaes  e  inversamente. 

Entre  os  cetáceos  ha  espécies  que  se  alimentam  apenas  de  peque- 
nos animaes,  peixes,  crustáceos,  molluscos,  annelados,  etc;  outras  po- 
rém attacam  os  grandes  animaes,  não  poupam  mesmo,  se  as  aperta  a 
fome,  os  seus  congéneres  mais  fracos.  Este  ultimo  é  o  caso  dos  golphi- 
nhos. 

Os  cetáceos  são  animaes  extremamente  sociáveis.  Nas  regiões  em 
que  o  homem  os  não  attaca,  vivem  em  bandos  numerosíssimos;  e  geral- 
mente manifestam  uns  pelos  outros  uma  grande  dedicação.  O  macho  e  a 
fêmea  dão  n'esta  ordem  altos  exemplos  de  affeição.  Claro  está  que  á  afíir- 
mação  anterior  fazemos  uma  restricção :  a  que  já  ficou  mencionada  rela- 
tivamente ás  espécies  cujos  membros  se  attacam  nas  occasiões  de  fome. 
Esta  restricção,  de  resto,  somos  obrigados  a  fazel-a  mesmo  para  a  nossa 
espécie.  Nas  fomes  do  alto  mar,  a  anthropophagia  é  uma  perfeita  reali- 
dade. 

Não  existem  dados  precisos  sobre  a  epocha  do  cio.  É  provável  que 
o  acto  sexual  se  reahse  durante  todo  o  anno,  mas  com  mais  ardor  nos 
fins  do  estio.  É  então  com  effeito,  que  os  bandos  se  dividem  em  pares 
e  que  os  machos  agitam  violentamente  em  torno  de  si  as  aguas  batendo 
com  força  e  em  todas  as  direcções  com  as  barbatanas.  Também  se  não 
conhece  com  precisão  o  tempo  que  dura  uma  gestação,  embora  geral- 
mente se  creia  que  seja  de  nove  ou  dez  mezes.  Brehm  julga  que  nas 
pequenas  espécies  a  gestação  poderá  durar  com  efí*eito  esse  tempo  ape- 
nas, mas  que  nas  grandes  espécies  deverá  prolongar-se  por  vinte  ou 
vinte  e  dois  mezes.  É  de  Fevereiro  a  Abril  que  as  fêmeas  apparecem 
com  os  filhos.  Estes,  mesmo  depois  de  muito  crescidos,  reclamam  ainda 
os  cuidados  maternos.  As  baleias,  por  exemplo,  só  ao  fim  de  um  anno 
estão  habihtadas  a  procurarem  por  si  mesmas  o  ahmento.  Parece  que  as 
grandes  espécies  só  aos  vinte  annos  estão  aptas  para  a  reproducção. 

Em  caso  de  perigo,  os  cetáceos  auxiliam-se  mutuamente;  as  mães, 
sobretudo,  combatem  corajosamente  pelos  filhos. 


340  HISTORIA  NATURAL 


USOS   E    PRODUCTOS 


Além  da  baleia  de  que  se  fazem  varas  para  coUetes,  para  guarda- 
chuvas,  ele,  obtem-se  do  cetáceo  um  producto  valioso  de  muitas  ap- 
plicações  industriaes,  a  gordura. 

Pode  considerar-se  a  ordem  dividida  em  quatro  géneros:  os  nar- 
vaes  ou  v/nicornes,  os  golphinhos,  os  cachalotes,  e  as  baleias. 


-•-CSO-* 


mamíferos  em  especial  341 


CETÁCEOS  EM  ESPECIAL 


OS  UNICORNES 


Teem  a  cabeça  espherica,  curta  e  o  corpo  espesso;  não  possuem 
barbatana  dorsal.  O  que  principalmente  caracterisa  e  distingue  os  ani- 
maes  d'este  género  é  a  existência  na  maxilla  superior  de  um  dente  in- 
cisivo, recto,  de  superfície  canelada  em  espira,  perpendicular  á  cabeça 
e  em  continuação  do  corpo,  dente  que  nos  machos  chega  a  attingir  me- 
tade do  comprimento  do  tronco.  Nas  fêmeas  este  dente  é  rudimentar. 

Este  género  comprehende  uma  espécie  única. 


O  UNICÓRNIO  OU  LICORNE 


A  cabeça  d'este  cetáceo  6  relativamente  pequena,  o  pescoço  curto 
e  muito  grosso  e  a  barbatana  caudal  extensa  e  apresentando  ao  meio 
uma  chanfradura  profunda.  No  logar  da  barbatana  dorsal,  que  falta, 
existe  uma  simples  prega  cutânea.  A  pelle  é  hsa,  desnudada,  mollc,  lu- 
zidia e  relativamente  fina.  A  epiderme  não  tem  mais  espessura  que  uma 
folha  de  papel,  o  corpo  mucoso  apresenta  apenas  dois  centimetros  de 
espessura  e  a  derme  é  fina,  embora  resistente. 

A  cor  geral  doeste  cetáceo  varia  com  a  edade  e  o  sexo.  O  macho 


342  HISTORIA  NATURAL 

é  de  ordinário  branco  ou  branco-amarellado  com  manchas  trigueiras, 
numerosas,  alongadas  o  irregulares.  Estas  manchas,  mais  abundantes  no 
dorso  que  no  ventre  tornam-sc  muitas  vezes  confluentes  na  cabeça. 

O  comprimento  do  licorne  varia  entre  quatro  e  seis  metros  e  meio. 
O  dente  incisivo  ou  defeza  offerece  uma  extensão  de  dois  metros. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHICA 


O  licorne  habita  os  mares  do  Norte.  É  muito  commum  no  mar  Gla- 
cial, entre  a  Groelandia  e  a  Islândia,  em  Nova-Zembla  e  nas  costas 
septentrionaes  da  Sibéria.  Este  cetáceo  appareceu  quatro  vezes  nas  cos- 
tas da  Inglaterra  e  duas  nas  costas  da  Allemanha,  em  1736. 


COSTUMES 


Acerca  do  licorne  correm  nos  livros  antigos  as  mais  espantosas  fa- 
bulas. Á  falta  de  dados  precisos  e  observações  rigorosas,  a  phantasia 
apoderou-se  do  assumpto  e  deixou  n'elle  os  vestígios  da  sua  passagem. 
Alberto  o  Grande,  chama  a  este  cetáceo  um  peixe  e  diz-nos  que  com  um 
corno  que  tem  implantado  na  cabeça^  elle  pode  attravessar  de  lado  a 
lado  um  navio,  embora  seja  fácil  evitar-lhe  o  embate  porque  o  animal 
é  muito  moroso  em  todos  os  seus  movimentos.  Strabao  e  Fabricius,  con- 
sideram também  o  dente  d'este  cetáceo  como  um  corno  que  lhe  serve 
não  tanto  para  attacar  as  diíTerentes  espécies  aquáticas,  como  para  par- 
tir o  gelo. 

Nós  devemos  dizer  com  lealdade  que,  embora  os  nossos  estudos 
modernos  nos  tenham  dado  o  incontestável  direito  de  julgar  verdadeiras 
phantasias  muitas  aífirmações  dos  antigos,  é  todavia  certo  que  não  pode- 
mos hsongear-nos  de  conhecer  tão  bem  e  tão  minuciosamente  quanto  se- 
ria para  desejar  os  costumes  e  hábitos  de  vida  do  licorne.  Com  effeito  a 
nossa  ignorância  é  sobre  alguns  doestes  pontos  quasi  absoluta.  Procura- 
remos dizer  quanto  ha  de  averiguado. 

O  licorne,  como  muitos  outros  cetáceos,  evita  cautelosamente  as 
costas,  refugiando-se  no  mar  largo.  É  sociável.  Raras  vezes  se  encontra 


mamíferos  em  especial 


343 


um  d'estes  animaes  só.  Os  bandos  são  geralmente  constituídos,  ao  que 
dizem  os  navegadores,  de  quinze  a  vinte  individues. 

Os  licornes  são  animaes  pacificos,  inoíFensivos,  que  se  não  provo- 
cam uns  aos  outros,  nem  ás  espécies  visinhas.  Nadam  encostados  uns 
aos  outros,  apoiando  cada  um  d'elles  o  enorme  dente  incisivo  sobre  o 
dorso  do  que  o  precede. 

Relativamente  ao  vagar  de  movimentos  que  lhes  attribuiam  os  anti- 
gos naturalistas,  podemos  hoje  aíTirmar  que  a  verdade  é  o  contrario  do 
que  se  disse.  Os  navegadores  que  teem  lido  occasião  de  observar  muito 
de  perto  estes  cetáceos,  são  todos  unanimes  em  attribuir-lhes  uma  enorme 
rapidez  de  movimentos.  Com  um  só  movimento  da  barbatana  caudal,  vol- 
tam-se  habilmente  para  a  direita  ou  para  a  esquerda. 

O  licorne  quando,  depois  de  ter  mergulhado,  chega  á  superfície  do 
mar,  expulsa  pelo  nariz  a  agua  de  um  modo  violento  e  ruidoso.  Quando 
muitos  d'estes  animaes  fazem  isto  ao  mesmo  tempo,  ouve-se  de  longe 
um  forte  som  de  gargolejo  produzido  pela  expulsão  simultânea  de  ar  e 
de  agua. 

A  base  da  alimentação  do  licorne  é  constituída  por  molluscos  e 
peixes. 

Nada  se  sabe  relativamente  á  reproducção  d'este  cetáceo:  nem  a 
epocha  do  cio,  nem  a  do  parto,  nem  o  tempo  que  dura  cada  gestação. 
O  que  pode  affirmar-se  é  que,  matando-se  e  abrindo-se  uma  fêmea  no 
mez  de  Julho,  se  lhe  encontrou  um  feto  quasi  completamente  desenvol- 
vido. 


PESCA 


O  processo  empregado  na  perseguição  do  licorne  é  o  do  arpeu. 
Esta  pesca  não  é  porém,  tentada  em  alta  escala;  deve  considerar-se,  tal- 
vez, mais  uma  diversão  accidental  do  que  um  trabalho  regular.  De  resto, 
ella  é  difficil,  porque  o  licorne  não  costuma,  como  muitos  outros  cetá- 
ceos, reapparecer  á  superfície  d'agua  no  ponto  em  que  mergulhou. 
Immerge  em  um  dado  logar  e,  nadando  rapidamente  sob  a  agua,  vae 
reapparecer  á  superfície  n'um  outro  muito  distante,  ora  adiante,  ora 
atraz,  ora  ao  lado  direito  ou  esquerdo  d'aquelle  em  que  desappareceu; 
desorienta  assim  os  perseguidores.  O  homem  não  é  pois  o  mais  teme- 
roso inimigo  do  licorne.  Superiores  n'este  ponto  á  nossa  espécie  estão 
alguns  cetáceos.  Mas  mais  funestas  ainda  do  que  Iodas  as  influencias  ani- 
madas são,  para  os  licornes,  as  tempestades.  Muitas  vezes  o  mar  ar- 


344  HISTORIA  NATURAL 

roja  para  as  praias  do  Norte  dezenas  de  cadáveres  d'estes  cetáceos,  em 
que  se  não  encontra  um  ferimento  único. 


usos   E    PRODUCTOS 


Os  groelandezes  comem  a  carne  dos  licornes  depois  de  cosida  e 
comem  cruas  a  pelle  e  a  gordura.  Com  os  tendões  fazem  flos,  com  o 
esophago  e  os  intestinos  fazem  bexigas  que  empregam  na  pesca  e  com 
o  óleo  que  extraem  da  gordura  alimentam  as  lâmpadas  que  os  alumiam. 

Para  os  pescadores  o  producto  mais  valioso,  mais  estimado  são  as 
defezas.  Houve  tempo  em  que  a  ellas  se  attribuiam  virtudes  therapeuti- 
cas  e  então  valiam  sommas  consideráveis.  Hoje  já  ninguém  se  lembra 
de  procurar  nas  defezas  do  licorne  um  poder  medico  qualquer;  mas  to- 
dos vêem  ainda  n'ellas  uma  substancia  superior  ao  marfim. 


OS  GOLPHINHOS 


Estes  cetáceos  teem  um  focinho  estreito  e  alongado,  um  corpo  de  re- 
gulares proporções;  apresentam  barbatana  dorsal,  a  maior  parte  das  es- 
pécies. 


.CONSIDERAÇÕES  HISTÓRICAS 


A  este  propósito  escreve  Brelim:  «Eis-nos  chegados  ao  género  que 
deu  o  seu  nome  á  familia  inteira,  aos  golphinhos  propriamente  ditos, 
animaes  que  as  fabulas  e  as  lendas  teem  successivamente  celebrado.  Foi 
um  golphinho  ou  delpbim  que,   maravilhado  pelos  cantos  divinos  de 


mamíferos  em  especial 


345 


Arion,  recebeu  sobre  o  dorso  o  poeta  e  o  subtraiu  ao  furor  dos  mari- 
nheiros, transportando-o  ao  cabo  Tenare. 

«Quem  não  leu  em  Plinio  a  historia  d'aquelle  golphinho  que,  reco- 
nhecido a  um  certo  rapaz  que  todos  os  dias  lhe  dava  pão,  o  transpor- 
tava no  dorso  atravez  do  lago  Lucrin  até  á  escola  e  depois  até  casa! 

((Quando  o  rapaz  morreu,  diz  o  author  latino,  o  cetáceo  voltou  ainda 
por  muito  tempo,  dias  seguidos,  ao  logar  costumado  até  que  morreu  de 
saudade  pelo  amigo  para  sempre  perdido.»  Os  golphinhos,  segundo  o 
dizer  dos  antigos,  propeliam  os  rodovalhos  para  as  redes  dos  pescado- 
res, ao  que  estes,  reconhecidos,  correspondiam  dando-lhes  pão  humede- 
cido em  vinho.  Um  certo  rei  tendo  mandado  prender  um  golphinho,  um 
grande  numero  de  companheiros  vieram  por  meio  de  signaes  impetrar  do 
monarcha  a  soltura  do  captivo;  o  rei  não  pôde  negar  o  que  lhe  pediram. 
Phnio  conta  ainda,  com  toda  a  seriedade,  que  os  golphinhos  novos  são 
sempre  acompanhados  por  um  companheiro  velho  que  lhes  serve  de  men- 
tor. Diz-se  também  que  os  golphinhos  subtraem  os  cadáveres  dos  com- 
panheiros á  voracidade  de  outros  habitantes  do  mar. 

((Desgraçadamente,  a  todas  estas  famosas  narrativas  falta  apenas 
uma  coisa:  a  verdade.»  * 


O   GOLPHINHO  COMMUM  OU  DELPHIM 


Este  cetáceo  mede  de  ordinário  dois  metros  a  dois  e  sessenta  cen- 
tímetros. Apresenta  barbatanas  peitoraes  alongadas,  finas  e  ponteagudas; 
a  barbatana  caudal  é  semi-circular.  O  numero  de  dentes  varia  muito;  de 
ordinário  porém  encontram-se  desde  trinta  e  dois  até  quarenta  e  sete 
em  cada  maxilla.  Estes  dentes  são  implantados  a  distancias  eguaes  de 
uns  a  outros  e  separados  por  curtos  intervàllos  de  modo  a  ingrenarem-se 
mutuamente.  São  alongados,  cónicos,  terminados  em  ponta  aguda,  ligei- 
ramente recurvos  de  fora  para  dentro;  diminuem  de  comprimento  de 
diante  para  traz.  O  dorso  é  geralmente  escuro  com  reflexos  esverdea- 
dos que  pouco  e  pouco  se  confundem  com  a  cor  clara  do  ventre. 


Brehm,  Obr.  cU.,  vol.  2.»,  pg.  219. 


346  IIISTOniA    NATURAL 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPHICA 


Habita  todos  os  mares  do  hemispherio  septentrional. 


COSTUMES 


Com  quanto  extremamente  parecido  com  os  cetáceos  já  estudados, 
sob  o  ponto  de  vista  dos  seus  hábitos  e  costumes,  o  golphinho  commum 
ou  delphim  apresenta  alguns  factos  particulares  dignos  de  menção.  Assim 
é,  por  exemplo,  que  elle  não  vive  nem  exclusivamente  no  mar  alto,  nem 
perto  das  costas,  mas  indifferentemente  n'um  ou  n'outro  ponto  e  até 
mesmo  nos  rios  cuja  corrente  sobe  até  grandes  distancias  da  foz.  É  so- 
ciável; mas  os  seus  grupos  não  conteem  geralmente  mais  de  seis  a  dez 
indivíduos. 

O  aspecto  da  dentição  é  bastante  para  indicar  que  o  golphinho  com- 
mum é  um  dos  mais  terríveis  carnívoros.  Alimenta-se  exclusivamente  de 
peixes,  de  crustáceos,  de  cephalopedes  e  outros  animaes  aquáticos.  Per- 
segue principalmente  os  arenques,  as  sardinhas  e  os  peixes  voadores  que 
obriga  a  saltarem  fora  da  agua  e  atraz  dos  quaes  elle  mesmo  salta  tam- 
bém e  corre  com  extrema  rapidez.  Algumas  aves  da  beira-mar  vêem  em 
auxilio  do  golphinho  n'esta  caça,  porque  perseguem  no  ar  esses  peixes 
ás  bicadas  e  forçam-os  assim  a  mergulhar  na  agua  onde  o  carnívoro  os 
espera. 

O  acto  sexual  reaUsa-se  no  outomno;  dez  mezes  depois  a  fêmea  pare 
um,  raras  vezes  dois  filhos  de  cincoenta  a  sessenta  e  seis  centímetros  de 
comprimento.  A  mãe  trata  com  soUicitude  o  filho  durante  longo  tempo. 
Só  aos  dez  annos  é  que  o  golphinho  commum  se  pode  considerar  adulto. 
Um  antigo  auctor  grego  affirmava  que  esta  espécie  attingia  a  edade  de 
cento  e  trinta  annos;  os  modernos  navegadores  não  lhe  attribuem  mais 
que  vinte  e  cinco  a  trinta  annos  de  existência. 


mamíferos  em  especial 


347 


pesca 


o  homem  poucas  vezes  persegue  o  golphinho  commum;  e  quando  o 
faz,  não  emprega  de  ordinário  as  armas  de  fogo  nem  os  arpeus.  Limita-se 
a  fazer  um  cerco  de  barcos  ao  cetáceo  forçando-o  a  fugir  para  as  costas; 
desde  que  o  golphinho,  empehdo  por  uma  vaga  pousa  o  corpo  sobre 
a  terra,  está  definitivamente  morto.  Durante  a  agonia  este  animal  faz 
ouvir  suspiros  profundos. 


usos  E   PRODUCTOS 


Comia-se  em  outro  tempo  a  carne  e  a  gordura  d'este  animal.  Hoje 
este  uso  acha-se  quasi  completamente  extincto.  No  tempo  dos  romanos  o 
fígado  do  golphinho  passava  por  excehente  remédio  contra  as  intermit- 
tentes,  o  óleo  por  magnifico  tópico  para  as  ulceras  e  a  gordura  por  for- 
migações  proficuas  contra  affecções  do  baixo-ventre.  Também  se  quei- 
mava o  animal  e  juntava-se  a  cinza  com  mel  para  fazer  unguentos.  To- 
das essas  praticas  desappareceram  e  com  ellas  o  alto  valor  do  cetáceo. 


A  ORCA 


É  conhecida  esta  espécie  desde  tempos  muito  remotos.  Os  antigos 
attribuiam-lhe  uma  grande  maldade  e  todos  os  observadores  modernos 
estão  ainda  hoje  do  accordo  sobre  este  ponto. 


348  HISTORIA  NATURAL 


CARACTERES 


A  orca  6  um  golphinho  vigoroso.  Tem  a  cabeça  pequena,  o  dorso 
eTevado,  as  barbatanas  lateraes  compridas  e  a  caudal  forte,  larga  e  ter- 
minando por  uma  curva  cm  forma  de  s.  Apresenta  onze  a  treze  dentes. 
O  dorso  é  negro  brilhante  e  o  ventre  branco  com  reflexos  amarellados. 
Por  cima  e  por  traz  dos  olhos  encontra-se  uma  comprida  macula  branca. 
O  negro  do  dorso  é  separado  do  branco  do  ventre  por  uma  linha  nitida, 
mas  irregularmente  traçada.  Do  contorno  do  anus  parte  uma  larga  facha 
branca  que  se  dirige  para  diante,  enviando  duas  outras  egualraente  bran- 
cas e  largas  para  a  parte  posterior  do  tronco,  continuando-se  depois  até 
á  barbatana  peitoral,  subindo  e  recurvando-se  para  o  angulo  da  bocca  e 
terminando  por  um  fino  traço  branco  em  torno  da  maxilla  superior.  A 
partir  da  base  ou  parte  posterior  da  barbatana  dorsal  estende-se  para 
diante  e  para  baixo  uma  outra  facha  azul  escuro  ou  purpura. 

Esta  espécie  apresenta  dimensões  muito  variáveis  desde  cinco  até 
dez  metros  de  extensão.  A  barbatana  peitoral  mede  sessenta  e  seis  cen- 
timetros  e  a  dorsal  sessenta  e  trez;  a  largura  doestas  membranas  é  de 
metro  e  meio,  termo  médio. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHICA 


A  área  de  dispersão  doeste  cetáceo  foi  já  muito  maior  do  que  é  hoje. 
Os  naturalistas  romanos  conheciam  esta  espécie  e  assignavam-lhe  como 
pátria  o  Mediterrâneo.  Nas  costas  da  Córsega  e  da  Sardenha  abundavam 
as  orcas.  Actualmente  este  cetáceo  não  se  encontra  no  Mediterrâneo;  ha- 
bita o  norte  do  Atlântico,  o  mar  Glacial  e  o  norte  do  oceano  Pacifico 
d'onde  desce  até  ás  costas  da  França  por  um  lado  e  do  Japão,  por  outro. 


MAMK^EROS   EM   ESPECIAL 


349 


COSTUMES 


Segundo  Tilésius  véem-se  as  orcas  nos  mares  do  norle  em  grupos 
de  cinco  indivíduos  com  a  cabeça  e  a  cauda  recurvados  para  baixo  e  a 
barbatana  dorsal  erecta  e  fora  d'agua,  parecendo  soldados  de  sabre  em 
punho,  desembainhado.  Passam  com  assombrosa  rapidez;  e,  porque  teem 
uma  vista  penetrante,  vêem  a  grandes  distancias  em  todas  as  direcções. 

A  orca  é  de  todos  os  carnivoros  marítimos  o  maior  e  o  mais  terrí- 
vel; não  se  Hmita  a  attacar  os  pequenos  peixes,  mas  acomette  mesmo  os 
cetáceos  gigantescos.  É  respeitada  e  evitada  por  todos  os  golphinhos. 

Phnio  disse:  «A  falsa  baleia  (assim  appelidavam  os  antigos  a  orca) 
comporta-se  como  um  bandido:  ora  se  occulta  á  sombra  de  um  navio 
ancorado  e  apanha  um  marinheiro  que  teve  a  phantasia  de  banhar-se  no 
mar,  ora  ergue  a  cabeça  fora  d'agua  e  se  atira  de  encontro  ás  barcas 
dos  pescadores,  voltando-as.))  Os  observadores  modernos  confirmam  as 
palavras  do  naturalista  antigo.  Rondelet  affirma  que  as  orcas  perseguem 
as  baleias  e  as  mordem;  assim  estes  cetáceos  são  por  aquelles  forçados 
a  abandonarem  as  profundezas  do  mar  e  a  refugiarem-se  perto  das  cos- 
tas onde  se  torna  fácil  matal-os  pelo  emprego  das  frechas  ou  do  arpeu. 
Anderson  refere  que  em  Nova-Inglaterra  se  chama  á  orca  o  assassino  das 
baleias.  Quando  tratam  de  perseguir  uma  baleia,  as  orcas  juntam-se  cm 
grande  numero,  mordendo-a,  arrancando-lhe  pedaços  de  pelle;  quando 
a  baleia  fatigada  abre  a  bocca  e  projecta  fora  a  lingua,  as  orcas  preci- 
pitam-se  sobre  ella  e  ar  rançam -Ih' a.  Eis  porque  de  tempos  a  tempos  se 
encontram  nas  costas  cadáveres  de  baleias  a  que  falta  a  Hngua.  Pontop- 
pidan  e  Steller  confirmam  o  que  acabamos  de  dizer  acerca  das  hostili- 
dades da  orca  e  da  baleia  e  bem  assim  as  affirmações  de  Plinio  sobre  a 
maldade  do  cetáceo  em  questão.  Steller  diz:  «Todos  os  pescadores  teem 
um  enorme  medo  da  orca,  porque  quando  se  lhe  approximam  muito  ou 
a  ferem,  ella  volta  os  barcos.» 

Nada  se  sabe,  absolutamente  nada,  sobre  a  reproducção  doeste  ce- 
táceo. 


350  HISTORIA    NATURAL 


CAÇA 


Não  se  faz  uma  caça  regular  á  orca.  Apanha-se  uma  vez  ou  oulra 
nos  rios,  e  com  grande  diííiculdade.  Gravemente  ferida,  a  orca  nada  ainda 
assim  com  uma  velocidade  de  oito  milhas  por  hora,  arrastando  comsigo 
um  barco. 


usos  E   PRODUCTOS 


A  gordura  da  orca  pode  produzir  cem  ou  duzentos  francos,  segundo 
Gerbe.  O  esqueleto  vende-se  por  altos  preços  aos  museus  zoológicos. 


AS  TONINHAS 


Estes  cetáceos  são  caracterisados  por  um  focinho  curto,  curvilíneo, 
uma  fronte  hgeiramente  inclinada,  uma  barbatana  dorsal  pouco  elevada, 
dentes  numerosos  e  irregularmente  dispostos  em  cada  maxilla.  Vamos 
occupar-nos  da  especie-typo. 


I 


mamíferos  em  especial  351 


A  TONINHA 


Mede  approximadamente  um  metro  e  trinta  centímetros.  Embora  se- 
jam raros,  encontram-se  todavia  individues  de  mais  de  dois  metros  e 
meio.  N'um  exemplar  de  metro  e  meio  de  comprido,  as  barbatanas  pei- 
toraes  teem,  termo  médio,  dezenove  centimetros  de  extensão,  a  caudal 
quatorze  centimetros  de  largo  e  a  dorsal  dez  de  altura. 

O  corpo  é  fusiforme,  ligeiramente  comprimido  posteriormente;  a 
maior  espessura  é  na  parte  media.  As  barbatanas  peitoraes  são  obtusas 
nas  pontas;  a  dorsal  é  sensivelmente  triangular. 

A  pelle  é  luzidia.  O  dorso  é  trigueiro  muito  escuro,  com  reflexos 
violáceos  ou  esverdeados  e  o  ventre  branco. 

Cada  maxilla  apresenta  vinte  e  trez  a  vinte  e  cinco  dentes  por  lado 
o  que  prefaz  a  somma  total  de  noventa  e  seis  a  cem.  Encontram-se  com- 
tudo  muitos  individues  com  vinte  ou  vinte  e  dois  dentes,  o  que  Brehm 
explica,  acceitando  como  provável  a  dentição  incompleta  ainda  de  taes 
individues.  Os  dentes  são  separados  uns  dos  outros  de  modo  a  que  se 
ingrenem  os  de  uma  e  outra  maxilla. 


DISTRIBUIÇÃO   CxEOGRAPHlCA 


É  esta  a  espécie  mais  conhecida  de  toda  a  familia  dos  golphinhos. 
Vive  no  Pacifico  e  no  Mediterrâneo;  no  entanto  a  sua  verdadeira  pátria  é 
o  Oceano  Atlântico :  perto  de  suas  costas  encontra-se  um  numero  espan- 
toso. Penetra  nos  rios  até  uma  grande  distancia  da  foz;  e  é  ahi  que  prin- 
cipalmente se  lhe  dá  pesca.  No  Tamisa,  no  Senna  e  no  Tejo  não  é  raro 
encontrar  esta  espécie. 


costumes 


É  proverbial  a  voracidade  da  toninha;  a  rapidez  com  que  digere 
explica  a  quantidade  considerável  de  alimento  que  ingere. 


352  HISTORIA    NATURAL 

Os  pescadores  sentem  um  verdadeiro  ódio  por  esta  espécie  que  lhes 
rompe  as  redes  e  lhes  devora  o  peixe  apanhado.  As  vezes  também  acon- 
tece que  sendo  muito  duros  e  resistentes  os  fios  da  rede,  o  cetáceo  ahi 
fica  preso;  é  uma  alegria  para  os  pescadores  quando  isto  se  dá. 

A  toninha  é  muito  sociável;  como  todos  os  representantes  da  famí- 
lia, vive  em  bandos.  Quando  nada,  o  que  faz  com  perfeição  e  rapidez, 
abaixa  e  levanta  alternativamente  a  cabeça  e  a  cauda  e  recurva  o  dorso 
em  arco  de  convexidade  ora  superior,  ora  posterior.  Brincando  na  agua, 
a  toninha  salta  ao  ar  e  mergulha  alternativamente  com  rapidez  assom- 
brosa. Quando  está  imminente  uma  tempestade  salta  fora  da  agua  a  uma 
altura  muito  maior  que  a  do  costume;  já  os  naturalistas  antigos  tinham 
observado  este  facto.  Antes  da  introducpão  dos  barcos  a  vapor,  a  toninha 
era  muito  mais  fácil  de  observar  do  que  é  hoje;  ella  segue,  é  certo,  es- 
tes barcos,  mas  não  tão  de  perto,  nem  com  tanta  confiança  como  fazia  no 
tempo  da  navegação  em  barcos  de  vella,  de  carreira  mais  vagarosa.  Perto 
das  costas  as  toninhas  seguem  ás  vezes  uma  embarcação  durante  uma 
légua  e  mais,  ora  nadando  por  baixo  d'agua,  ora  saindo  á  superfície, 
como  para  observar  melhor  o  barco  e  os  tripulantes. 

Na  epocha  da  apparição  dos  arenques,  a  toninha  vive  quasi  exclu- 
sivamente da  carne  d'estes  animaes;  persegue  também  o  salmão  nos 
rios,  difficultando  muito  as  pescas. 

O  cio  começa  com  o  verão  e  dura  pelo  menos  dois  mezes,  de  Junho 
a  Agosto.  A  excitação  é  grande  n'este  periodo  de  tempo.  Os  machos  per- 
correm o  mar  com  extrema  velocidade  perseguindo  as  fêmeas;  também 
se  dão  combates  violentos  n'esta  epocha.  Emquanto  a  excitação  genésica 
dura,  os  machos  não  conhecem  perigos;  muitas  vezes  vêem  cair  na  areia 
ou  batem  com  a  cabeça  de  encontro  ás  embarcações,  morrendo  por  ef- 
feito  da  pancada. 

Em  Maio  realisa-se  o  parto  que  produz  um  a  dois  fílhos  de  pouco 
mais  de  meio  metro  de  extensão  e  de  cinco  kilogrammas  de  pezo,  termo 
médio.  O  comportamento  da  mãe  em  relação  á  prole  é  o  de  todas  as  es- 
pécies de  cetáceos. 


PESCA 


A  perseguição  activa  de  que  é  victima  a  toninha,  exphca-se  em  parte 
pelo  valor  da  carne  e  da  gordura  d'este  cetáceo,  em  parte  pelos  prejuí- 
zos enormes  que  causa  á  pesca.  Embora  se  empregue  contra  a  toninha 
o  tiro  de  bala,  é  certo  que  os  meios  mais  usuaes  são  as  redes  fortes  que 


mamíferos  em  especial  353 

n'alguraas  partes  se  collocam  nos  rios  na  epocha  do  cio,  e  n'outras  se 
dispõem  na  occasião  em  que  apparecêm  os  arenques.  As  redes  são  de 
fios  resistentes  e  malhas  largas  que  se  deixem  facilmente  attravessar 
pelo  peixe  meudo.  A  epocha  do  cio  é  boa  para  armar  estas  redes,  porque 
o  cetáceo  vive  então  n'um  estado  de  excitação  tal  que  se  vae  cegamente 
prender.  A  epocha  da  apparição  dos  arenques  é  talvez  melhor  ainda;  o 
cetáceo  persegue  estes  animaes  que  attravessam  as  malhas  das  redes,  ao 
passo  que  elle,  infinitamente  maior,  excitado  pelo  ardor  da  perseguição, 
fica  retido  sem  poder  escapar-se,  nem  mesmo  mordendo  a  rede,  porque 
os  fios  são  fortíssimos. 


GAPTIVEIRO 


A  toninha  é  o  único  cetáceo  que  até  hoje  se  tem  reduzido  ao  capti- 
veiro.  Conta  Brehm  que  um  certo  americano  teve  a  felicidade  de  possuir 
uma  toninha  captiva  durante  largo  tempo.  Infelizmente  para  a  sciencia, 
esse  homem  nada  escreveu  sobre  os  costumes  d'esse  animal  nas  condi- 
ções de  captiveiro. 

Affirma  ainda  Brehm  que  no  Jardim  Zoológico  de  Londres  se  teem 
feito  muitas  tentativas  para  crear  a  toninha  e  outros  golphinhos,  mas  sem 
resultado  satisfactorio.  O  naturahsta  citado  possuiu  também  uma  toninha, 
mas  não  pôde  fazer  observações  algumas  dignas  de  menção,  porque  o 
animal  durou  apenas  um  dia.  Diz  Brehm  que  não  estando  o  animal  ferido 
e  não  lhe  faltando  de  comer,  porque  no  vasto  tanque  em  que  foi  lançado 
havia  muitos  peixes,  a  morte  d'elle  subsiste  um  verdadeiro  enigma.  O 
naturalista  não  crê  que  a  agua  doce  possa  ser  tão  rapidamente  mortal 
para  um  vertebrado  aquático;  assim  esta  mesma  expHcação  que  se  po- 
deria invocar,  é  insufficiente.  Pela  minha  parte,  eu  creio  que,  a  despeito 
da  opinião  de  Brehm,  é  á  ausência  da  agua  salgada  que  deve  exclusiva- 
mente attribuir-se  a  morte  d'este  e  de  todos  os  cetáceos  que  vêem  ás 
praias  ou  aos  tanques  e  ahi  morrem.  Esperemos  de  mais  minuciosas  ob- 
servações a  exphcação  do  facto. 


23 


354  HISTORIA  NATURAL 


USOS  E  PRODUGTOS 


Os  romanos  estimavam  muito  a  carne  da  toninha;  muito  posterior- 
mente já  á  meza  dos  reis  e  dos  grandes  na  Inglaterra  servia-se  como  um 
mimo  esse  prato.  Ainda  hoje  para  os  habitantes  das  costas  e  para  os  ma- 
rinheiros privados  por  largo  tempo  de  carne  fresca,  o  musculo  da  toni- 
nha é  um  magnifico  ahmento. 

O  óleo  que  se  extráe  da  gordura  é  semelhante  ao  da  baleia,  mas 
ainda  mais  fino  e  mais  estimado.  Os  groelandezes  bebem  este  óleo  com 
o  mesmo  prazer  com  que  nós  bebemos  um  bom  copo  de  vinho. 

A  pelle  dá  um  couro  magnifico. 


OS  CACHALOTES 


Está  comprehendida  n'este  género  uma  espécie  de  cetáceos  de  gran- 
deza collossal  e  tendo  uma  cabeça  enorme,  equivalente  a  um  terço  do 
comprimento  total  do  corpo.  Os  dentes  são  muito  desenvolvidos  na  ma- 
xilla  inferior  e  muito  extensos;  na  maxilla  superior  são  nullos  ou  rudi- 
mentares. 

O  género  abrange  uma  espécie  única  de  que  vamos  occupar-nos. 


mamíferos  em  espegul  355 


O  CACHALOTE  MACROCEPHALO 


Este  cetáceo  apenas  cede  á  baleia  em  tamanho:  o  macho  adulto 
pode  attingir  um  comprimento  de  vinte  a  vinte  e  trez  metros  e  uma  cir- 
cumferencia  de  nove.  A  fêmea  não  tem  mais  que  metade  d'estas  dimen- 
sões. As  barbatanas  peitoraes  são  relativamente  muito  pequenas:  medem 
apenas  um  metro  de  comprido  sobre  sessenta  e  seis  de  largo  n'um  ma- 
cho de  vinte  metros.  A  barbatana  caudal  mede  perto  de  seis  metros  e 
meio  de  largura.  Os  dois  sexos  assemelham-se  muito;  alguns  observado- 
res porém,  pretendem  achar  uma  diíferença  na  forma  do  focinho  que  se- 
ria recto  e  truncado  na  fêmea  e  arredondado  no  macho. 

A  cabeça  do  cachalote  macrocephalo  é  muito  comprida,  muito  larga, 
quasi  quadrangular;  é  tão  alta  e  tão  larga  como  o  corpo  de  que  se  não 
separa  claramente.  O  corpo  é  quasi  cylindrico  nos  dois  terços  anteriores; 
rio  terço  posterior  adelga-se  de  diante  para  traz.  A  barbatana  dorsal,  pe- 
quena e  formada  de  tecido  gorduroso,  parece  truncada  atraz  e  confun- 
de-se  insensivelmente  com  o  resto  do  corpo.  As  barbatanas  peitoraes  são 
curtas,  largas,  espessas  e  collocadas  immediatamente  atraz  dos  olhos; 
estas  barbatanas  apresentam  na  face  superior  cinco  sulcos  alongados,  cor- 
respondentes aos  dedos.  A  barbatana  caudal  é  profundamente  fendida  e 
bilobada.  A  fêmea  apresenta  duas  mamas  apenas  junto  á  região  umbi- 
lical. 

A  face  anterior  da  cabeça  é  vertical.  No  logar  que  o  nariz  occupa 
em  outros  mamíferos,  apresenta  o  cachalote  um  respiradoiro  ou  fenda 
recurvada  em  s  e  da  extensão  de  vinte  e  dois  a  vinte  e  sete  centíme- 
tros. Os  olhos  são  pequenos  e  coUocados  muito  posteriormente. 

As  pálpebras  são  desprovidas  de  pestanas;  e  as  orelhas  collocadas 
um  pouco  abaixo  dos  olhos,  apresentam  como  abertura  uma  pequena 
fenda  longitudinal.  A  bocca  é  muito  grande,  fendida  quasi  até  ao  nivel 
dos  olhos;  a  maxilla  inferior  é  mais  estreita  e  mais  curta  que  a  maxilla 
superior  que  a  cobre  quando  a  bocca  se  fecha.  As  duas  maxillas  são  or- 
nadas de  dentes  cónicos  e  sem  raizes;  os  da  maxilla  inferior  são  os  maio- 
res e  chegam  a  attingir  um  comprimento  de  trinta  e  trez  centímetros.  O 
numero  de  dentes  varia  entre  trinta  e  nove  e  cincoenta.  Nos  individues 
novos  são  muito  agudos,  mas  gastam-se  com  o  attrito,  de  forma  que  nos 
velhos  não  são  mais  do  que  cones  occos  de  marfim. 

O  craneo  é  notável  pela  grandeza  desproporcionada;  a  elle  deve  a 
espécie  o  nome  por  que  é  conhecida. 


356  HISTORIA  NATURAL 

Por  baixo  de  uma  espessa  camada  de  gordura  estende-se  uma  larga 
aponevrose  que  cerca  um  espaço  cheio  de  matéria  transparente,  oleosa, 
o  spermaceti,  que  lambem  se  encontra  n'um  canal  prolongado  da  cabeça 
á  cauda  e  ainda  em  pequenas  bolsas  dessiminadas  no  meio  da  gordura 
e  dos  músculos. 

As  vértebras  cervicaes  são  sete,  das  quaes  uma,  o  atlas,  é  livre  e 
as  outras  seis  soldadas.  As  vértebras  dorsaes  são  quatorze,  as  lombares 
vinte  e  dezenove  as  caudaes.  O  omoplata  é  relativamente  delgado,  o  hu- 
mero  curto  e  grosso,  soldado  aos  ossos  do  antebraço  que  são  mais  cur- 
tos ainda. 

Sobre  os  músculos  que  são  duros  e  de  fibras  espessas,  estende-se 
uma  camada  gordurosa  de  muitos  centímetros  de  espessura.  A  pelle  é 
lisa,  luzidia,  negra  em  geral,  mas  apresentando  placas  claras  no  ventre, 
na  cauda  e  na  maxilla  inferior. 

A  lingua  adhere  por  toda  a  sua  face  inferior  á  base  do  maxillar.  O 
estômago  é  dividido  em  quatro  compartimentos  e  o  intestino  tem  quinze 
vezes  o  comprimento  do  corpo. 

Na  bexiga  d'este  cetáceo  encontra-se  muitas  vezes  pequenos  corpos, 
provavelmente  concreções  pathologicas,  verdadeiros  cálculos  urinários, 
constituindo  o  famoso  oAnbar  pardo. 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPHIGA 


O  cachalote  macrocephalo  é  um  animal  cosmopolita :  encontra-se  em 
todos  os  mares  do  globo.  No  entanto  é  nos  mares  do  hemispherio  sul 
que  elle  é  mais  frequente.  É  ahi  que  se  lhe  faz  uma  perseguição  regu- 
lar; é  d'ahi  que  geralmente  se  admitte  que  elle  se  espalhou  por  todas 
as  regiões  onde  actualmente  vive. 


COSTUMES 


Percorre  os  mares  em  grandes  bandos,  como  o  golphinho  commum. 
Procura  os  legares  mais  profundos  ou  a  visinhança  das  costas  escarpa- 
das. Dizem  os  baleeiros  que  cada  um  dos  bandos  tem  á  sua  frente  um 


mamíferos  em  especial  357 

macho  vigoroso  que  defende  as  fêmeas  e  os  indivíduos  novos  dos  atta- 
ques  d'outros  animaes.  Os  velhos  machos  vivem  em  pequenos  bandos 
uns  com  os  outros,  isolados  das  fêmeas  e  dos  individues  novos.  Ha  occa- 
siões  em  que  muitos  bandos  se  reúnem  em  um  só,  composto  então  de 
algumas  centenas  de  indivíduos. 

Nos  movimentos  o  cachalote  assemelha-se  mais  aos  golphinhos  com- 
muns  do  que  ás  baleias.  Nadando  tranquillamente,  percorre  trez  a  qua- 
tro milhas  inglezas  por  hora;  quando  se  apressa  fende  o  mar  com  assom- 
brosa rapidez,  produzindo  em  torno  de  si  grandes  vagas  que  se  esten- 
dem até  muito  longe.  Rivalisa  então  em  rapidez  com  todos  os  navios. 

De  ordinário  os  membros  de  um  mesmo  bando  nadam  uns  atraz  dos 
outros  n'uma  longa  fila,  repetindo  cada  um  os  movimentos  do  que  mar- 
cha na  frente;  assim  mergulham  e  immergem  quasi  simultaneamente.  Só 
quando  dormem  se  conservam  immoveis,  deitados  ao  longo  do  mar. 

O  cachalote  pode  conservar-se  vinte  minutos  debaixo  d'agua.  De  or- 
dinário este  cetáceo  faz  trinta  a  sessenta  inspirações  em  dez  ou  quinze 
segundos;  após  isto  encontra-se  habilitado  para  mergulhar  de  novo  e  por 
longo  tempo. 

O  tacto  é  talvez  o  sentido  mais  perfeito  do  cachalote;  a  pelle  é  com 
effeito  abundante  em  papillas  nervosas  dehcadissimas,  capazes  de  rece- 
berem as  impressões  mais  ligeiras.  A  vista  é  boa;  o  ouvido,  pelo  contra- 
rio, é  rude. 

O  cachalote  é  muito  timido  e  evita  cuidadosamente  a  proximidade 
do  homem;  mas  se  o  ferem,  se  o  attacam  a  timidez  nativa  substitue-se 
rapidamente  por  uma  coragem,  visinha  da  temeridade. 

A  ahmentação  d'este  cetáceo  compõe-se  principalmente  de  cephalo- 
podes  de  differentes  espécies.  Segundo  as  narrações  dos  antigos,  o  ca- 
chalote perseguiria  os  outros  golphinhos  e  as  baleias;  os  observadores 
modernos  contestam  isto,  affirmando  mesmo  que  o  cachalote  teme  e 
evita  os  outros  cetáceos. 

Cada  parto  produz  de  ordinário  um  filho  único,  da  extensão  de  qua- 
tro a  cinco  metros.  Para  aleital-o,  a  mãe  volta-se  um  pouco  de  lado;  o 
filho  apanha  o  mamilo,  não  com  a  parte  anterior  da  bocca,  mas  com  o 
angulo  das  maxillas. 


pesca 


O  cachalote  sò  principiou  a  tornar-se  objecto  de  uma  pesca  regular 
desde  os  fins  do  século  xvii.  Os  americanos  foram  os  primeiros  a  arma- 


358  HISTORIA  NATURAL 

rem  navios  para  esta  pesca,  em  1G77;  os  inglezes  só  um  século  mais 
larde  lhes  seguiram  o  exemplo.  O  mar  do  Sul  tornou-se  desde  o  princi- 
pio do  nosso  século  o  verdadeiro  Iheatro  d'estes  trabalhos;  inglezes  e 
americanos  do  Norte  são  os  principaes  actores.  É  verdadeiramente  es- 
pantosa a  quantidade  de  spermaceti  recolhida  n'estas  pescas,  tão  peri- 
gosas, tão  cheias  de  aventuras. 

Ao  contrario  da  baleia  que  raríssimas  vezes  sustenta  lucta  com  a 
nossa  espécie,  o  cachalote,  uma  vez  ferido,  sabe  oppôr  ao  homem  uma 
resistência  vigorosa  e  terrivel,  em  que  lhe  são  armas  os  dentes  e  a 
cauda. 

Os  processos  empregados  n'esta  pesca  são  os  mesmos  que  na  das 
baleias.  Adiante  tocaremos  n'este  ponto. 


usos   E    PRODUGTOS 


^.  A  gordura  do  cachalote  fornece  um  óleo  precioso;  o  spermaceti  e  o 
âmbar  são  productos  muito  estimados  e  que  se  pagam  por  bons  preços. 
O  spermaceti,  além  do  emprego  medico,  é  utilisado  na  fabricação  de 
vellas  muito  estimadas.  O  âmbar,  cuja  origem  apontamos  anteriormente, 
é  também  um  producto  vahoso  que  a  industria  faz  entrar  na  composição 
de  certos  óleos  caros  e  dos  sabonetes  perfumados.  Os  gregos  emprega- 
vam este  producto  como  antispasmodico;  os  romanos  e  os  árabes  conhe- 
ceram-o  também.  No  século  passado  ainda  todas  as  pharmacias  o  pos- 
suíam. Os  dentes  do  cachalote  são  fortes,  duros,  pezados  e  fáceis  de  tra- 
balhar. A  industria  emprega-os  em  muitos  dos  usos  em  que  serve  o 
marfim. 


mamíferos  em  especial 


359 


AS  BALEIAS 


Esta  família  comprehende  dois  géneros :  os  rorquaes  e  as  baleias  pro- 
priamente ditas. 


OS  RORQUAES 


Estes  cetáceos,  conhecidos  também  pelo  nome  de  balénopteros,  são 
animaes  compridos,  relativamente  bem  feitos,  tendo  uma  barbatana  dor- 
sal situada  no  terço  posterior,  uma  barbatana  caudal  pequena,  barbata- 
nas peitoraes  finas,  um  focinho  quasi  recto  e  na  parte  inferior  do  corpo 
sulcos  numerosos  e  profundos  que  se  estendem*  desde  a  maxilla  inferior 
até  ao  umbigo. 

A  columna  vertebral  d'estes  cetáceos  comprehende  sete  vértebras 
cervicaes,  soldadas  umas  ás  outras  geralmente,  quinze  dorsaes,  quatorze 
lombares  e  vinte  e  quatro  caudaes. 


AS  BALEIAS  PROPRIAMENTE  DITAS 


DiílTerem  dos  rorquaes  em  terem  um  corpo  muito  mais  pezado,  in- 
forme e  de  ordinário  maior,  porque  uma  baleia  adulta  raras  vezes  me- 
dirá menos  de  vinte  metros  de  comprido.  Diíferem  ainda  as  baleias  dos 
rorquaes  pela  ausência  de  sulcos  ventraes  e  de  barbatana  dorsal.  As  ba- 


360  HISTORIA  NATURAL 

leias  propriamente  ditas,  como  os  rorquaes,  não  teem  dentes,  mas  no 
logar  d'elles  o  que  se  chama  barbas  de  baleia^  varas  ou  laminas  córneas, 
triangulares,  muito  elásticas. 

No  grupo  dag  baleias  propriamente  ditas  estão  comprehendidas  duas 
espécies:  a  baleia  boreal  ou  commum  e  a  baleia  austral.  Tendo  estas 
duas  espécies  os  mesmos  costumes  e  diíTerindo  pouco  nos  caracteres 
morpliologicos,  faremos  apenas  a  descripção  da  primeira.  A  historia  de 
uma  é  a  historia  da  outra. 


A  BALEIA  COMMUM 


Muitos  navegadores  e  escriptores  antigos  se  occuparam  d'este  cetá- 
ceo; pouco  ha  porém  a  aproveitar  do  que  disseram.  O  conhecimento  exa- 
cto e  completo  d'este  cetáceo  é  devido  ás  informações  de  Scoresby.  Os 
antigos,  dando  curso  á  phantasia  irrequieta  e  disposta  sempre  a  exage- 
rar aquillo  mesmo  que  em  realidade  é  extraordinário,  informam-nos  de 
um  modo  inexacto  e  por  vezes  absolutamente  falso.  Assim  faliam  de  ba- 
leias de  cincoenta  e  sessenta  metros,  quando  nós  sabemos  que  ellas  em 
geral  não  excedem  vinte  ou  trinta  e  dois.  Scoresby  em  trezentas  e  vinte 
e  duas  baleias  que  apanhou  apenas  encontrou  uma  que  excedesse  deze- 
nove  metros. 


CARACTERES 


A  baleia  commum  é  um  cetáceo  informe,  mal  proporcionado.  A  ca- 
beça representa  um  terço  do  comprimento  total  do  corpo,  isto  é,  pouco 
mais  ou  menos,  seis  metros  de  extensão.  A  bocca  tem  trez  a  quatro  me- 
tros de  largura  e  cinco  a  seis  de  comprido;  cabe-lhe  dentro  sem  diíEcul- 
dade  uma  canoa  de  pesca  com  a  respectiva  tripulação.  O  corpo  é  cylin- 
drico  e  não  se  separa  distinctamente  da  cabeça.  As  barbatanas  peitoraes 
teem  dois  a  trez  metros  de  comprimento  e  um  e  trinta  centímetros  a  um 


mamíferos  em  especial 


361 


e  sessenta  de  largura;  são  alongadas,  ovaes,  muito  flexíveis  e  muito  mo- 
veis. A  barbatana  caudal  é  enorme;  tem  um  metro  e  sessenta  centime- 
tros  a  dois  metros  de  comprido  e  seis  a  oito  de  largo.  É  um  verdadeiro 
remo  e  um  leme  de  alguns  metros  quadrados.  No  animal  adulto  os  res- 
piros ficam  na  parte  mais  elevada  da  cabeça,  a  trez  metros  da  extremi- 
dade do  focinho  e  consistem  em  duas  fendas  em  forma  de  S,  de  cin- 
coenta  centímetros  de  comprimento.  Os  olhos,  que  teem  pouco  mais  ou 
menos  o  tamanho  dos  de  boi,  abrem-se  sobre  as  faces  lateraes  da  ca- 
beça, acima  e  atraz  dos  ângulos  da  bocca.  O  canal  auditivo  é  tão  estreito 
que  a  custo  se  lhe  pode  introduzir  um  dedo  minimo;  o  animal  pode  fe- 
chal-o  á  vontade,  tornando-o  assim  impenetrável  á  agua. 

O  numero  de  barbas  oscilla  entre  trezentos  e  dezeseis  e  trezentos  e 
cincoenta  por  lado.  As  mais  compridas  são  as  do  centro  que  podem  attin- 
gir,  embora  poucas  vezes,  cinco  metros  de  extensão.  A  lingua,  immovel 
e  adherente  á  maxilla  por  toda  a  face  inferior,  é  grande,  molle,  exclu- 
sivamente formada  de  tecido  cellular  impregnado  d'oleo. 

A  pelle  é  relativamente  fina  e  cobre  uma  camada  de  gordura  de 
vinte  a  cincoenta  centímetros  de  espessura  que  cerca  todo  o  corpo. 

O  dorso,  os  flancos,  as  barbatanas  peitoraes  e  caudal  são  ordinaria- 
mente negros;  os  lábios,  a  maxilla  inferior  e  a  maior  parte  do  ventre 
são  brancos  com  reflexos  amarellados.  Ha  indivíduos  completamente  bran- 
cos e  outros  maculados.  Os  lábios  apresentam  na  parte  anterior  algumas 
sedas;  o  resto  do  corpo  é  completamente  desnudado. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHICA 


A  baleia  commum  habita  exclusivamente  os  mares  mais  septentrio- 
naes.  Encontra-se  até  ao  polo;  para  o  sul,  desce  até  ao  sexuagessimo 
grão  de  latitude  norte.  Viaja  ao  longo  das  costas  septentrionaes  da  Eu- 
ropa, da  Ásia,  da  America.  Abunda  muito  nas  aguas  ricas  em  pequenos 
animaes  marinhos  e  que,  por  isso,  se  denominam  paragens  da  balda. 


3 152  HISTORIA   NATURAL 


COSTUMES 


Nos  logares  cm  que  o  alimento  abunda,  encontram-se  as  baleias 
communs  em  bandos  numerosos;  não  se  pode  porém  aífirmar,  dizem 
quasi  todos  os  naturalistas,  que  a  espécie  seja  sociável. 

A  despeito  do  volume  e  dimensões  consideráveis  que  a  caracleri- 
sam,  a  baleia  é  um  animal  vivo  e  ágil;  a  força  predomina  evidentemente 
sobre  o  pezo.  As  barbatanas  peitoraes  servem-lhe  apenas  para  se  manter 
em  equilíbrio;  a  barbatana  caudal  é-lhe,  pelo  contrario,  um  órgão  in- 
dispensável á  locomoção.  Quando  o  animal  morre  na  agua,  é  que  se 
vê  perfeitamente  a  funcção  desempenhada  pelas  barbatanas  peitoraes; 
ellas  deixam  de  mover-se  e  desde  então  o  animal  volta-se,  repousando 
sobre  o  dorso  ou  sobre  os  flancos.  Quanto  á  força  da  barbatana  caudal, 
pode  fazer-se  uma  idéa  lembrando  que  ella  tem  a  superfície  de  uma  he- 
lyce  de  navio  regular. 

Segundo  Scoresby,  a  rapidez  e  precisão  de  movimentos  da  baleia 
contrastam  singularmente  com  o  pezo  e  a  corpuratura  informe  d'este  ce- 
táceo. «Ás  vezes,  diz  este  navegador,  projecta-se  com  violência  tal  que 
salta  fora  da  agua.» 

Nadando  tranquillamente  á  superfície  d'agua,  a  baleia  percorre  n'uma 
hora  o  espaço  de  nove  milhas  inglezas;  se  a  ferem,  percorre  doze  a  de- 
zeseis  no  mesmo  espaço  de  tempo,  não  havendo  então  vapor  que  possa 
seguil-a.  Diz  Paeppig:  «Se  as  baleias  tivessem  tanto  de  intelligentes  como 
teem  de  grandes  e  fortes,  não  haveria  canoa  ou  navio  capaz  de  resistir- 
Ihes;  seriam  os  verdadeiros  soberanos  do  Oceano.»  Mas  as  baleias, 
affirma  Brehm,  são  animaes  estúpidos  e  cobardes.  K  vista  e  o  tacto  são 
os  únicos  sentidos  que  n'este  cetáceo  parecem  attingir  um  certo  grão  de 
desenvolvimento.  O  ouvido  é  muito  mau. 

A  baleia  prevê  com  uma  grande  antecipação  as  mudanças  de  tempo; 
quando  uma  tempestade  se  approxima,  manifesta-se  inquieta,  agita  for- 
temente a  agua. 

Gomo  revellações  da  intelUgencia  da  baleia  nós  não  conhecemos 
mais  que  a  dedicação  da  mãe  pelos  filhos. 

A  baleia  commum  aUmenta-se  de  molluscos,  de  crustáceos  e  princi- 
palmente de  alforrecas,  que  nos  mares  do  polo  são  abundantíssimas. 
Também  come  annelados  errantes  e,  casualmente,  peixes,  quando  de  pe- 
quenas dimensões,  porque  a  estreiteza  do  esophago  não  lhes  permite  a 
deglutição  de  grandes  animaes. 


mamíferos  em  especial 


363 


Seguindo  o  doutor  Thiercelin,  que  escreveu  o  Diário  de  um  haleeirOy 
Figuier  escreve:  «A  baleia  passa  uma  parte  do  seu  tempo  á  superQcie 
da  agua  e  outra  parte  a  uma  profundidade  de  duzentas  ou  trezentas 
braças.  Quando  se  prepara  para  subir,  a  próxima  immersão  é  annun- 
ciada  á  superfície  da  agua  por  um  largo  remoinho.  Primeiro  ve-se  im- 
mergir  um  ponto  negro:  é  a  extremidade  do  focinho.  Logo  depois  appa- 
recem  os  respiros  e  após  uma  porção  mais  ou  menos  extensa  do  dorso; 
a  cauda  é  a  ultima  a  patentear-se. 

«Na  occasião  em  que  os  respiros  chegam  á  superfície  da  agua,  ele- 
va-se  ao  ar  a  muitos  metros  de  altura  uma  dupla  columna  de  vapor 
branco,  mais  ou  menos  espessa,  em  forma  de  V.  Depois  d'esta  expulsão 
os  respiros  immergem  de  novo  e  durante  trinta  ou  quarenta  segundos  o 
cetáceo  deshsa  á  flor  d'agua  de  modo  que  o  espectador  lhe  vê,  atravez 
da  camada  de  liquido  que  o  cobre,  a  tinta  azulada  do  corpo.  Um  minuto 
depois  o  ponto  negro  apparece,  depois  os  respiros  e  uma  nova  expulsão 
de  liquido  tem  logar. 

«Este  jogo  alternado  de  respiração  e  progressão  á  superfície  d'agua 
dura  oito  a  dez  minutos;  durante  este  tempo  reahsam-se  sete  a  oito  pro- 
jecções ou  jactos  de  hquido.  O  primeiro  é  mais  espesso  que  os  seguin- 
tes; o  ultimo,  tão  espesso  e  tão  prolongado  como  o  primeiro,  annuncia 
que  a  baleia  vae  mergulhar.  Debaixo  d'agua  conserva-se  trinta  ou  qua- 
renta minutos  e  algumas  vezes  mais  para  voltar  depois  á  flor  d'agua  e 
reproduzir  os  seus  jactos  irregulares  e  periódicos. 

«É  assim,  diz  Thiercelin,  que  as  baleias  passam  a  vida  ora  sobre  a 
agua,  ora  debaixo  d'ella,  de  dia  e  de  noite,  no  bom  e  no  mau  tempo, 
em  todas  as  estações. 

«Quando  a  baleia  respira,  o  ruido  que  faz  ouve-se  a  alguns  centos 
de  metros  apenas,  se  ella  está  tranquilla;  mas  quando  a  agita  o  medo 
ou  a  cólera,  o  ruido  respiratório  estende-se  então  a  muitos  kilometros 
de  distancia.  Thiercelin  compara  o  ruido  respiratório  de  uma  baleia  ao 
de  uma  forte  columna  d'ar  projectada  por  um  largo  folie  de  forja  n'um 
tubo  também  largo  de  cobre :  é  uma  nota  muito  grave  e  muito  intensa 
sustentada  durante  oito  ou  dez  segundos. 

«Segundo  o  mesmo  observador,  o  jacto  não  seria  formado  por  agua 
no  estado  hquido :  compor-se-hia  ao  mesmo  tempo  de  ar  quente  saído  do 
peito,  de  uma  certa  quantidade  de  vapor  d'agua,  misturado  com  este  ar, 
e  de  partículas  oleaginosas.  Assim  quando  a  temperatura  é  elevada,  o 
mar  calmo  e  o  sol  perto  do  zenith,  o  jacto  torna-se  invisível.  Quando  o 
vapor  d'este  jacto  se  dessimina  pelo  ar,  dissolve-se  e  tudo  desapparece; 
no  mar  caem  apenas  algumas  gottasinhas  de  gordura.  Estas  pequenas 
gottas  espalhadas  na  agua  c  juntas  ás  exalações  dajíelle  deixam  sobre 
a  superfície  do  mar  extensos  rastos  de  manchas  oleosas  que  indicam  a 


364    ^  inSTORIA   NATURAL 

passagem  do  cetáceo.  Em  lodos  os  casos  ha  sempre  uma  certa  quanti- 
dade d'agua  que  penetrou  no  canal  aéreo  terminado  pelo  respiradoiro; 
esta  agua  (um  a  dois  litros  pouco  mais  ou  menos)  mistura-se,  em  estado 
de  poeira,  ao  ar  aspirado  e  dessimina-se  na  atmosphera  como  a  humi- 
dade pulmonar. 

«O  alimento  da  baleia  compõe-se  exclusivamente  de  seres  peque- 
níssimos. Segundo  Lacépède,  o  cetáceo  nutre-se  especialmente  de  mol- 
luscos  e  de  carangueijos  do  mar.  O  numero  d'estes  animaes  que  engole 
compensa  a  pouca  substancia  que  fornecem. 

«Segundo  Thicrcelin,  nos  togares  de  pesca,  na  primavera  e  sobre- 
tudo no  estio,  o  mar  apresenta  aqui  e  além  uma  coloração  trigueira  de- 
vida á  presença  de  pequenos  crustáceos  da  forma  da  lagosta,  mas  cujo 
diâmetro  não  excede  dois  millimetros.  Estes  crustáceos  formam  verda- 
deiros bancos  de  matéria  animal  de  dez,  quinze  ou  vinte  léguas  de  ex- 
tensão sobre  algumas  léguas  de  largura  e  trez  ou  quatro  metros  de  es- 
pessura. É  um  banquete  sem  duvida  bem  servido,  senão  pela  variedade 
ao  menos  pela  quantidade.  A  baleia  exulta  n'estes  togares  e  como  que 
pasta  n'estas  immensas  pradarias  animaes. 

«Thiercelin  dá  ainda  informações  minuciosas  sobre  o  modo  por  que 
a  baleia  apanha  os  alimentos.  O  cetáceo  abaixa  a  maxilla  inferior,  estende 
bem  a  lingua  sobre  o  pavimento  inferior  da  cavidade  boccal  e  avança 
lentamente  pelo  meio  dos  infinitamente  pequenos  que  se  propõe  enguhr. 
A  bocca  apresenta  então  uma  abertura  anterior,  irregularmente  triangu- 
lar, oíTerecendo  seis  a  sete  metros  de  lado  a  lado.  Á  medida  que  a  ba- 
leia avança,  a  agua  que  attravessa  e  que  lhe  entra  pela  bocca,  escapa-se 
lateralmente  pelos  intervallos  que  separam  as  barbas  emquanto  que  os 
animalculos  se  prendem  às  ramificações  d'essas  barbas  e  adherem  á  abo- 
bada palatina  do  cetáceo.  Quanto  a  baleia  tem  assim  percorrido  um  es- 
paço de  quarenta  a  cincoenta  metros,  diminue  a  velocidade,  levanta  a 
maxilla  inferior,  applica  os  lábios  sobre  as  barbas  e  dilata  a  lingua  de 
maneira  a  encher-lhe  toda  a  capacidade  da  bocca  fechada.  A  agua  escapa 
pelos  interstícios  das  barbas;  a  ponta  da  hngua  junta,  por  um  movi- 
mento de  rotação,  todos  os  animalculos  presos  ás  barbas  interiores,  reu- 
ne-os  n'um  bolo  alimentar  e  leva-os  á  entrada  da  pharynge,  onde  se  exe- 
cuta a  deglutição  que  o  faz  passar  ao  esophago  e  d'ahi  ao  estômago. 
Feito  isto  a  baleia  abaixa  de  novo  a  maxilla  e  recomeça  a  pesca  em  ver- 
dade bem  fácil.»  *■ 

Scoresby  declara  nunca  ter  ouvido  a  voz  da  baleia;  este  viajante 
crê  que  o  cetáceo  é  incapaz  de  produzil-a. 


1    L.  Figuier,  Oh)\  clL,  pg.  3G  e  37» 


mamíferos  em  especial 


365 


Nos  mares  do  norte  a  copula  tem  logar  em  Junho  e  Julho.  N'este 
momento  as  baleias  apresentam  uma  grande  excitação. 

O  parto  produz  um  filho  único,  muito  raras  vezes  dois.  Que  tempo 
dura  a  gestação?  Eis  o  que  os  naturahstas  nos  não  dizem  precisamente; 
uns  faliam  em  dez  mezes,  outros  em  vinte  e  dois,  alguns  mesmo  em  dois 
annos.  O  recemnascido  tem  ordinariamente  de  extensão  seis  metros  e  de 
circumferencia  cinco.  O  amor  materno  é  um  sentimento  muito  desenvol- 
vido na  baleia;  este  cetáceo  habitualmente  tão  timido,  torna-se  durante 
os  primeiros  mezes  de  maternidade  corajoso,  terrivel  para  quantos  lhe 
fazem  a  pesca.  Scoresby  e  Fitzinger  relatam  alguns  casos  de  observação 
própria,  eminentemente  demonstrativos  da  coragem  ou  antes  da  temeri- 
dade da  baleia  quando  lhe  perseguem  o  filho  no  periodo  de  aleitamento. 
N'esta  occasião  não  evita,  como  de  costume,  nem  as  canoas  dos  pesca- 
dores, nem  mesmo  os  navios  de  alto  lote;  arremetem  destemidamente 
contra  tudo  e  contra  todos. 


INIMIGOS 


Além  do  homem,  tem  a  baleia  outros  inimigos  ainda.  O  tubarão  nos 
mares  do  Norte  persegue-a  e  chega  a  arrancar-lhe  grandes  pedaços  de 
pelle.  Os  parasytas  animaes  e  vegetaes  fixam-se-lhe  no  dorso  em  numero 
assombroso.  «Véem-se  baleias,  diz  Brehm,  que  trazem  sobre  o  dorso 
todo  um  mundo  de  vegetaes  e  de  animaes.»  *■ 


PESCA 


A  pesca  regular  ás  baleias  data  dos  séculos  xiv  e  xv.  Os  perigos 
que  ella  offerece  são  por  vezes  consideráveis;  e  no  entanto  os  baleeiros 
teem  uma  verdadeira  paixão  por  este  género  de  perseguições.  Os  pro- 
ductos  da  baleia  tornaram-se  artigos  importantes  de  commercio  e  ha 
hoje  paizes  que  os  exploram  em  alta  escala.  Em  1841  os  americanos  tra- 


1     Brehm,  Obr.  eit.,  vol.  2.«,  pg.  859. 


366  HISTORIA  NATURAL 

ziam  nos  mares  do  Sul  seiscentos  Larcos  de  vela  e  treze  mil  e  quinhen- 
tos homens  empregados  na  pesca  da  baleia. 

A  pesca  doeste  cetáceo  faz-se  empregando  principalmente  o  arpeu. 
A  timidez  da  baleia,  especialmente  nos  togares  em  que  está  habituada  a 
ser  perseguida,  torna  esta  pesca  difficil.  A  baleia  foge  das  embarcações 
com  grande  velocidade;  é  pois  necessário  fazer-lhe  um  verdadeiro  cerco 
em  que  se  empregam  muitos  homens.  A  baleia  ferida  não  costuma  op- 
por,  como  os  golphinhos,  uma  resistência  qualquer  ao  homem;  de  ordi- 
nário foge,  mergulha,  procura  escapar-se.  Mas  no  tempo  do  cio,  os  ma- 
chos, e  no  periodo  de  aleitamento,  as  .fêmeas  sabem  resistir,  sabem 
combater,  possuem-se  de  uma  grande  excitação,  de  uma  notável  cora- 
gem e  então  a  pesca  torna-se  verdadeiramente  perigosa.  É  o  que  facil- 
mente percebe  o  leitor,  recordando  as  dimensões  da  baleia  e  a  enorme 
força  de  que  dispõe. 

O  arpeu,  instrumento  quasi  exclusivamente  empregado  na  pesca 
d'este  cetáceo,  é  um  ferro  reclihneo  terminado  por  um  lado  em  ponta 
fmissima,  penetrante  e  munido  do  outro  lado  de  um  gancho  ou  argola  a 
que  se  prende  uma  corda  muito  comprida  e  muito  flexível,  enrolada 
n'um  sarilho  collocado  na  proa  do  barco  da  pesca.  Depois  que  se  lança  o 
arpeu  á  baleia  é  necessário  manter  uma  grande  presença  de  espirito:  o 
cetáceo  ferido  mergulha  e  nada  com  assombrosa  rapidez,  arrastando 
comsigo  o  barco  que  ora  sobe  a  espantosas  alturas  ora  desce  a  grandes 
profundidades,  tantas  e  tão  grandes  são  as  vagas  que  o  animal  agita  em 
torno  do  corpo  até  uma  grande  distancia. 

A  baleia  morta  entra  rapidamente  em  putrefação.  Poucos  dias  são 
precisos  para  que  todo  o  seu  corpo  se  reduza  a  uma  vasta  massa  espon- 
giosa;  os  gazes  que  se  desenvolvem  dilatam  por  tal  forma  o  corpo  que 
a  pelle  estala  com  detonação  e  um  cheiro  pestilencial  se  espalha  rapida- 
mente a  grande  distancia.  É  preciso  pois  que  os  pescadores  façam  muito 
rapidamente  o  trabalho  que  consiste  em  despojar  o  cetáceo  de  quanto 
pode  ser-lhes  útil. 


usos  E   PRODUGTOS 


De  todos  os  mamíferos  marinhos,  affirma  Brehm,  é  a  baleia  aqueUe 
cuja  pesca  é  mais  productiva.  Uma  baleia  de  vinte  metros  de  comprido 
pode  produzir  mais  de  trinta  e  trez  mil  kilogrammas  de  gordura  e  perto 
de  dois  mil  kilogrammas  de  barbas.  A  gordura  produz  approximada- 
mente  vinte  e  sete  mil  kilogrammas  de  óleo.  Mil  cento  e  vinte  kilogram- 


mamíferos  em  especial  367 

mas  d'oleo  valem,  termo  médio,  cem  francos  e  a  mesma  porção  de  bar- 
bas paga-se  por  quatro  mil  e  quinhentos  francos.  Por  estes  dados  faz-se 
uma  idéa  clara  do  que  pode  produzir  a  pesca  das  baleias  em  grande  es- 
cala e  tal  como  os  americanos  a  organisam. 

Na  Europa  apenas  teem  emprego  a  gordura  e  as  barbas.  As  povoa- 
ções do  Norte  fazem  uso  da  carne,  comem  a  gordura  e  bebem  o  óleo 
com  tanto  prazer  como  um  alcoólico  bebe  um  copo  de  bom  vinho.  Os  es- 
quimós comem  mesmo  a  pelle  crua.  O  esqueleto  tem  grande  valor  ao 
Norte,  porque  é  ahi  empregado  na  construcção  de  barcos  e  de  cabanas. 


AS  SIRENIDAS 


Este  grupo  de  mamíferos  é  por  alguns  naturalistas,  por  Brehm  por 
exemplo,  constituído  em  ordem  á  parte,  por  outros,  por  Figuier  por 
exemplo,  incluido  na  ordem  dos  cetáceos.  Não  achando  motivos  bastan- 
tes para  fazer  da^  sirenidas  uma.  ordem,  damol-as  como  fazendo  parte 
do  grande  grupo  dos  cetáceos  e  constituindo  o  ramo  dos  cetáceos  herbí- 
voros. Assim  a  divisão  que  atraz  fizemos  dos  cetáceos  em  unicornes, 
golphinhos,  cachalotes  e  baleias,  corresponde  aos  cetáceos  propriamente 
ditos  ou  ordinários.  Os  géneros  que  vamos  agora  estudar — dugongos  e 
manatins — pertencem  ás  sirenidas  ou  cetáceos  herbívoros. 

O  nome  de-  sirenidas,ipYO\em  do  vocábulo  latino  sirenia  que  nós  tra- 
duzimos por  sereias  e  com  que  os  antigos  designavam  seres  phantasti- 
cos,  metade  peixes  e  metade  mulheres,  cujo  canto  suavíssimo  fazia  pa- 
rar os  navios  e  encantava  os  marinheiros  para  os  perder.  Os  naturahs- 
tas  que  fazem  das  sirenidas  uma  ordem  distincta,  consideram  estes  ma- 
míferos como  estabelecendo  a  transição  entre  as  pliocas  e  as  baleias. 

Nas  sirenidas  existem  membros  anteriores  com  dedos  desenvolvidos 
e  ligados  pela  pelle,  mas  perfeitamente  immoveis  e  constituindo  verda- 
deiros remos;  a  cauda  representa  os  membros  posteriores  e  é  uma  bar- 
batana horisontal.  A  cabeça  é  pequena,  o  focinho  grosso  e  cylindrico,  o 
péllo  é  raro,  curto  e  grosso.  Teem  dentes  incisivos  e  mollares.  Apresen- 
tam duas  mamas  peitoraes;  e  é  d'ahi  que  deriva  a  comparação  feita  en- 
tre estes  cetáceos  e  as  sereias  da  fabula,  mulheres-peixes. 


368  HISTORIA   NATURAL 

São  dois  OS  géneros  compreliendidos  n'este  grupo  ou  família:  os 

dugongos  e  os  manatins. 


OS  DUGONGOS 


Teem  um  focinho  curto,  achatado,  guarnecido  de  um  grande  numero 
de  sedas  curtas  e  ásperas;  o  craneo  é  notável  pelo  grande  desenvolvi- 
mento dos  intermaxillares.  Teem  trinta  a  trinta  e  dois  dentes,  sendo 
quatro  incisivos  superiores,  seis  ou  oito  inferiores  e  cinco  mollares  por 
lado  nas  duas  maxillas;  nenhum  d'estes  dentes  tem  raizes.  As  barbatanas 
peitoraes,  representantes  dos  membros  anteriores,  não  teem  unhas;  a 
barbatana  caudal  é  semelhante  á  dos  golphinhos  e  das  baleias.  A  pelle  é 
muito  espessa  e  desnudada. 


O  DUGONGO  COMMUM  OU  CAMELLO  DO  MAR 


Foi  este  animal  o  que  deu  origem  á  fabula  das  sereias;  é  também 
o  mais  característico  da  familia  natural  das  sirenidas.  Os  chinezes  e  os 
árabes  conhecem  este  cetáceo  ha  muitos  séculos;  na  Europa  porém,  só 
no  começo  do  século  passado  se  souberam  algumas  informações  a  seu 
respeito.  Publicou-as  em  1702  Dampier.  Advirtamos  porém  que  a  des- 
cripção  exacta  do  dugongo  commum  foi  feita  pela  primeira  vez  n'este 
século  pelos  naturahstas  francezes  Diard  e  Duvaucel.  Mais  tarde  Riippel 
observou-o  no  mar  Vermelho  e  fez-nos  conhecer  o  seu  género  de  vida. 
Hoje  possuímos  -a  historia  quasi  completa  d'este  singular  cetáceo. 


MAMÍFEROS   EM    ESPECIAL  369 


CARACTERES 


A  barbatana  caudal  do  dugongo  é  horisontal  e  apresenta  uma  chan- 
fradura  semi-circular ;  este  caracter  importante  serve  para  distinguir  á 
simples  inspecção  o  dugongo  dos  manatins. 

A  cabeça  do  dugongo  recorda  a  do  hippopotamo;  no  resto  do  corpo 
o  cetáceo  assemelha-se  muito  a  um  peixe.  Tem  Irez  a  cinco  metros  de 
comprimento;  o  dorso  é  cor  de  chumbo,  azulado  ou  pardo  claro  e  o 
ventre  branco.  O  pescoço  é  curto  e  grosso,  mas  inteiramente  separado  da 
cabeça  e  insensivelmente  continuado  com  o  tronco  que  é  arredondado  e 
vae  estreitecendo  até  á  cauda.  As  barbatanas  peitoraes  inserera-se  pouco 
atraz  da  cabeça,  no  terço  inferior  da  altura  do  corpo;  são  largas,  arre- 
dondadas no  bordo  anterior  e  cortantes  posteriormente.  Os  dedos  não 
são  visiveis,  mas  apenas  se  reconhecem  ao  toque. 

O  lábio  superior  é  muito  grande,  arredondado,  movei  e  talhado  an- 
teriormente em  forma  de  coração;  o  lábio  inferior  separa-se  do  pescoço 
por  uma  prega  cutânea  profunda.  As  narinas  encontram-se  na  parte  su- 
perior do  focinho;  são  muito  approximadas  e  simulam  duas  fendas  semi- 
circulares. Os  olhos  são  pequenos,  ovaes,  salientes,  muito  convexos  e 
apresentando  no  bordo  superior  uma  fileira  de  pestanas;  o  animal  fe- 
cha-os,  contraindo  a  pelle.  As  orelhas  são  representadas  apenas  por  pe- 
quenas aberturas  arredondadas.  A  pelle  apresenta  algumas  sedas  curtas, 
e  rijas  que  na  maxilla  superior  são  quasi  espinhosas.  As  barbatanas  são 
inteiramente  desnudadas. 

Os  dentes  incisivos  são  curtos  e  ponteagudos  na  fêmea;  no  macho 
são  mais  compridos,  triangulares  e  talhados  em  viez.  Os  mollares  vão 
augmentando  de  diante  para  traz.  Estes  dentes  não  teem  raiz,  como  dis- 
semos, e  caem  quando  o  animal  envelhece.  No  macho  ha  dois  incisivos 
que  attingem  o  comprimento  de  vinte  a  trinta  e  trez  centimetros  e  uma 
espessura  de  trez;  representam  verdadeiras  defezas,  cobertas  em  parle 
pela  maxiUa  e  pelas  gengivas. 


2i 


370  HISTOHIA    NATURAL 


DISTRIBUIHAO   GEOGRAPIIíGA 


Habita,  segundo  informações  dos  navegantes,  todo  o  oceano  Indico. 
Para  o  lado  do  norte,  ascende  até  ao  meio  do  mar  Vermelho,  onde  é 
muito  conhecido. 


COSTUMES 


O  dugongo  commum  habita  quasi  exclusivamente  o  mar;  nunca  en- 
tra nos  rios  e  raras  vezes  se  encontra  mesmo  nas  suas  emboccaduras. 
No  mar  procura  a  visinhança  das  costas  e  poucas  vezes  se  aífasta  muito 
para  o  largo.  Habita  de  preferencia  as  bahias  pouco  profundas  e  tran- 
quillas  cujas  aguas  facilmente  se  aquecem  pelo  sol  e  em  que  os  vegetaes 
marinhos  podem  tomar  um  grande  desenvolvimento.  De  ordinário,  o  du- 
gongo vive  debaixo  d'agua;  realmente  elle  não  se  conserva  á  superfície 
senão  o  tempo  indispensável  para  respirar. 

Este  cetáceo  é  sociável:  no  oceano  Indico  vive  em  grandes  bandos; 
perto  das  costas  da  Arábia  vive  aos  pares  ou  em  pequenas  famihas. 

Os  movimentos  do  dugongo  commum  são  muito  lentos  e  muito  pe- 
zados.  Nunca  abandona  uma  certa  região  em  quanto  n'ella  encontra  ali- 
mento. 

As  tempestades  violentas  que  em  determinadas  estações  reinam  no 
mar  das  Índias,  teem  uma  influencia  decisiva  nas  emigrações  do  dugongo. 
A  agitação  das  vagas  faz  com  que  elle  procure  as  bahias,  os  estreitos 
onde  lhe  não  será  perturbada  a  natural  preguiça.  O  que  tem  levado  os 
naturahstas  a  crerem  na  influencia  das  tempestades  sobre  emigrações  do 
dugongo  é  facto  de  apparecer  este  cetáceo  periodicamente  em  togares 
onde  nunca  se  encontra  fora  d'essa  epocha  anormal. 

A  inteUigencia  do  dugongo  está  de  harmonia  com  o  pezo  e  desele- 
gancia  da  sua  massa.  Os  órgãos  sensoriaes  são  pouco  desenvolvidos. 

A  voz  consiste  em  gemidos  surdos. 


MAMÍFEROS   EM   ESPECIAL  371 

Só  na  epocha  do  cio  é  que  o  dugongo  apresenta  alguma  vivacidade. 
Os  machos  combatem  então  entre  si  pela  conquista  das  fêmeas.  N'esla 
epocha  a  excitação  genésica  cega-os,  torna-os  imprudentes  e  é  então  que 
os  pescadores  conseguem  apoderar-se  d'elles  facilmente.  No  mar  Verme- 
lho a  fêmea  pare  um  filho  único  em  Novembro  ou  Dezembro;  não  se 
sabe  se  a  parturição  nos  outros  mares  tem  logar  n'esta  mesma  epocha. 


CACA 


A  perseguição  ao  dugongo  realisa-se  na  quadra  do  cio  e  principal- 
mente de  noite,  quando  tudo  está  tranquillo  e  é  fácil  ouvir  de  longe  os 
suspiros  que  denunciam  a  presença  d'este  cetáceo.  A  arma  empregada  é 
o  arpeu.  Diz  Raílles  que  deve  procurar-se  sempre  ferir  o  animal  na  bar- 
batana da  cauda,  porque  d'este  modo  se  lhe  paralysam  os  movimentos. 
Gonta-se  que  os  dugongos  se  prestam  mutuo  auxilio  nas  occasiões  de 
perigo;  o  que  é  perfeitamente  certo  é  que  o  macho  defende  a  fêmea  e 
esta  o  filho.  • 


usos  E  PRODUGTOS 


Os  productos  mais  estimados  do  dugongo  commum  são  a  carne,  a 
gordura  e  os  dentes.  Os  árabes  e  abyssinios  comem  a  carne  d'este  cetá- 
ceo. O  dugongo  adulto  pode  fornecer  para  cima  de  vinte  e  cinco  kilo- 
grammas  de  gordura.  Diz  Riippel  que  na  Abyssinia  se  emprega  a  pelle 
d'este  cetáceo  na  fabricação  de  sandálias;  não  se  tanifica  para  este  fim, 
mas  apenas  se  deixa  seccar,  expondo-a  ao  ar.  Esta  pelle  não  pode  cm- 
pregar-se  senão  em  regiões  seccas,  porque  a  humidade  torna-a  molle  c 
espongiosa.  Os  dentes  que  hoje  valem  pouco,  pagaram-se  n^outro  tempo 
por  altos  preços,  porque  uma  superstição  muito  vulgar  nas  Índias  attri- 
buia-lhes  o  poder  de  facilitarem  o  parto  ás  mulheres  que  os  trouxessem 
ao  pescoço. 


372  HISTORIA   NATURAL 


OS  MANATIN8 


Os  manalins  teem  a  barbatana  caudal  arredondada,  vertical  e  sem 
chanfradura;  pelos  demais  caracteres  assernelham-se  aos  dugongos.  O 
corpo  pisciforme  é  coberto  de  pêllos  raros,  excepto  no  focinho  onde  se 
encontram  sedas  espessas.  O  lábio  superior  é  truncado  e  gosa  de  grande 
mobilidade;  as  barbatanas  peitoraes  são  arredondadas  e  por  vezes  mu- 
nidas de  unhas  achatadas,  o  que  constituo  um  caracter  differencial  entre 
este  género  e  o  precedente.  As  vértebras  cervicaes  são  seis,  quinze  a 
dezesete  as  dorsaes  e  vinte  e  trez  as  caudaes.  Os  individues  muito  no- 
vos apresentam  incisivos  que  nos  adultos  não  existem,  porque  caem 
muito  cedo.  A  muda  dos  dentes  mollares  faz-se  como  nos  elephantes. 


DISTRIBUIÇÃO    GEOGRAPHIGA 


Os  manatins  habitam  o  Oceano  Atlântico  entre  o  decimo  quinto  grão 
de  latitude  sul  e  o  vigessimo  quinto  de  latitude  norte. 


O  MANATIM  AMERICANO  OU  PEIXE-BOI 


De  todas  as  espécies  comprehendidas  no  género,  é  esta  a  mais  bem 
conhecida.  O  manatim  americano  tem  trez  metros  a  trez  e  vinte  centi- 


MAMÍFEROS  EM  ESPECIAL  373 

metros  de  comprimento,  sessenta  a  oitenta  centimetros  de  largura,  meio 
metro  de  altura  e  duzentos  e  cincoenta  a  quatrocentos  kilogrammas  de 
pezo.  Estas  são  as  dimensões  medias;  lia  indivíduos  maiores,  de  cinco  a 
sete  metros  de  extensão,  por  exemplo.  A  pelle  é  pouco  menos  do  que 
desnudada;  a  cor  geral  é  um  pardo  azulado  um  pouco  mais  escuro  no 
dorso  e  flancos  do  que  no  ventre.  As  raras  sedas  que  cobrem  o  corpo 
são  amarelladas. 

Os  pulmões  teem  um  metro  de  comprido;  são  formados  de  grandes 
cellulas  e  podem  reter  uma  notável  quantidade  d'ar.  O  intestino  tem 
trinta  metros  de  comprimento. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHIGA 


A  America  do  Sul  e  a  America  central  são  a  verdadeira  pátria  d'este 
animal,  que  é  hoje  muito  mais  raro  do  que  o  foi  em  outro  tempo.  Ha- 
bita principalmente  as  costas  do  Oceano  Atlântico  e  nomeadamente  as 
bailias  nas  visinhanças  de  Cayenna  e  das  Antilhas. 


COSTUMES 


líumboldt  observou  que  os  manatins  procuram  no  mar  de  preferen- 
cia os  togares  em  que  existem  fontes  d'agua  doce,  por  exemplo  a  al- 
guma distancia  da  ilha  de  Cuba,  ao  sul  do  golpho  de  Jagua,  n'um  ponto 
em  que  as  fontes  d'agua  doce  são  tão  abundantes  que  os  marinheiros 
alii  fazem  as  suas  provisões,  enchendo  pipas.  Muitas  vezes  também  so- 
bem pelos  rios  e  nas  epochas  de  inundações  chegam  até  aos  lagos  e  aos 
pântanos. 

No  Amazonas,  e  confluentes  ainda  hoje  são  vulgares  estes  cetáceos. 

Os  costumes  do  manantim  americano  são  sensivelmente  semelhantes 
aos  dos  dugongos. 

A  alimentação  é  vegetal.  Os  viajantes  antigos  disseram  que  o  ma- 
natim  americano  vinha  algumas  vezes  a  terra  pastar;  6  um  erro  com- 
pleto que  já  no  século  xviii  era  desmentido  pelos  naturalistas.  O  cetáceo 
aUmenta-se  de  plantas  que  vegetam  na  agua.  Gome  até  encher  comple- 


374  IIISTOBIA   NATURAL 

lamente  o  estômago  c  os  inlcslinos,  depois  do  que  se  deixa  ficar  immo- 
vel  iVum  logar  pouco  profundo  com  a  cabeça  íora  d'agua  para  se  não 
incommodar  em  emersões  consecutivas  reclamadas  pelas  necessidades 
respiratórias. 

Não  se  conhece  precisamente  a  quadra  do  cio,  assim  como  se  não 
sabe  o  numero  de  filhos  produzidos  por  cada  parlo. 


CACA 


A  caça  ao  manatim  americano  é  muito  simples.  Approxima-se  o  barco 
do  logar  em  que  se  vé  o  cetáceo  e  quando  elle  emerge  dardeja-se-lhe 
uma  frecha  a  que  está  presa  uma  corda  e  um  pedaço  de  madeira,  que 
serve  para  indicar  pela  fliuctuação  precisamente  o  ponto  em  que  o  animal 
se  encontra.  Também  se  emprega  o  arpeu. 

A  epocha  mais  própria  para  esta  perseguição  é  a  que  succede  ira- 
mediatamente  ás  inundações,  quando  o  manatim  se  encontra  nos  lagos 
e  nos  pântanos  e  quando  a  agua  se  escoa. 


CAPTIVEIRO 


O  manatim  americano  reduz-se  ao  captiveiro  c  chega  a  domesti- 
car-se  até  um  alto  grão.  A  acreditar  nas  informações  de  alguns  natura- 
listas antigos,  o  manatim  americano  ou  peixe-boi  reconheceria  a  voz  do 
dono,  obedecer-lhe-hia  e  viria  do  mar  ou  dos  lagos  a  terra,  a  horas  de- 
terminadas, buscar  alimento.  Já  anteriormente  vimos  que  o  mesmo  se  dá 
com  alguns  amphibios. 


usos   E    PRODUCTOS 


A  carne  do  manatim  ou  peixe-boi  assemelha-se  no  gosto,  segundo 
Humboldt,  mais  á  do  porco  que  á  de  vacca.  Ha  paizes  em  que  ella  se 


mamíferos  em  especial  375 

come  na  quaresma  e  nos  dias  de  jejum  como  se  fura  carne  de  peixe.  A 
gordura  serviu  n'outros  tempos  para  alimentar  as  lâmpadas  das  igrejas. 
A  pelle  serve  para  a  fabricação  de  corréas. 


O  MANATIM  OU  PEIXE-MULHER  DE  ANGOLA 


É  muito  pouco  conhecida  nos  caracteres  morphologicos  assim  como 
nos  costumes,  esta  espécie. 


DISTRIBUIÇÃO  GE0GRAPIIICA 


Encontra-se  na  foz  do  Senegal  e  em  toda  a  costa  occidental  da 
Africa  até  á  Guiné  meridional. 


USOS  E  PRODUGTOS 


A  carne  que  dizem  parecer-se  no  gosto  á  do  porco  é  muito  esti- 
mada pelos  negros. 


No  quadro  junto  apresentamos  sob  a  forma  schematica  as  divisões 
da  ordem  dos  cetáceos: 


376 


HISTORIA   NATURAL 


,  ORDINÁRIOS 


CETÁCEOS 


o  UNICÓRNIO 

o    OOLPIIINUO    ORDINÁRIO    OU   DK-LPIIIM 
|a   OJtCA 
jA  TONINHA 

o   CACHALOTE 

A  HALEIA   ORDINÁRIA 


herbívoros. 


O   DUGONOO 

o  MANATIM  AMERICANO 

O  MANATIM   d'aNGOLA 


•oso-« 


--X^«^®^>>|S)0- 


DIDELPHOS  OU  MARSUPIAES 


CONSIDERAÇÕES   GERAES 


O  caracter  mais  saliente  e  mais  importante  dos  didelpbos  ou  marsu- 
piaes  é  o  da  existência  na  parle  anterior  da  bacia  de  dois  ossos  compri- 
dos, estreitos,  articulados  e  moveis  que  nas  fêmeas  servem  para  susten- 
tar, ao  menos  na  maior  parte  das  espécies,  uma  bolsa  situada  abaixo  do 
abdómen  e  chamada  bolsa  marswpial.  Estes  ossos  denominados  marsu- 
piaes  não  são  propriedade  exclusiva  das  fêmeas;  pertencem  lambem  aos 
machos.  Esta  conformação  do  esqueleto  subordina-se  inteiramente  ao 
modo  especial  de  geração  que  caracterisa  os  animaes  d'esta  ordem. 

Nos  didelphos  ou  marsupiaes  os  fdhos  não  saem  do  útero  materno 
completamente  formados,  como  acontece  com  lodos  os  outros  mamífe- 
ros; são  expulsos  antes  de  terminada  a  sua  evolução  morphologica  e 
acabam  de  desenvolver-se  na  bolsa  abdominal.  D^aqui,  segundo  a  expres- 
são consagrada,  duas  phases  de  gestação:  a  uterina  e  a  marsupial.  A 
primeira  é  relativamente  curta;  a  segunda  muito  demorada.  Nos  marsu- 
piaes ha  pois  a  distinguir  dois  nascimentos,  se  assim  é  licito  exprimir- 
mo-nos:  um  que  coincide  com  a  apparição  do  novo  ser  na  bolsa  marsu- 
pial, outro  que  coincide  com  a  saída  d'elle  d>ste  berço  natural  para  o 
contacto  do  mundo  externo.  O  tempo  que  dura  a  gestação  total  varia  de 
espécie  a  espécie.  No  kanguru  o  feto  é  depositado  na  bolsa  trinta  e  oito 
dias  depois  da  fecundação  e  ahi  se  conserva  durante  oito  mczes. 

«Não  é,  diz  Figuier,  por  uma  força  interior,  por  uma  acção  muscu- 
lar mais  ou  menos  enérgica,  que  se  eííectua  o  transporte  dos  recemnas- 


378  HISTORIA  NATURAL 

eidos  para  a  bolsa  marsupial.  Segundo  as  observações  de  Owen,  anató- 
mico inglez,  a  própria  mãe  para  ahi  os  transporta,  apanhando-os  com  os 
lábios.  Eis  o  modo  por  que  cila  procede:  Applicando  com  força  os  dois 
membros  anteriores  aos  bordos  da  bolsa,  repuxa-os  em  opposição  um  ao 
outro  para  os  distender  e  tornar  maior  a  abertura,  como  nós  fazemos 
quando  abrimos  uma  sacca.  Depois  introduz  na  bolsa  o  focinho  e,  sen- 
tando-se  em  terra  para  tomar  uma  posição  mais  favorável,  extráe  ella 
própria  o  feto  que  já  passou  a  primeira  phase  de  evolução.  Depois,  sem 
nunca  se  servir  dos  membros,  leva  o  filho  a  uma  das  mamas  que  elle 
por  esforço  próprio  seria  incapaz  de  attingir,  e  ahi  o  conserva  até  que 
elle  tenha  apanhado  com  os  lábios  um  mamillo.  D'ahi  por  diante  o  re- 
cemnascido  dispensa  o  soccorro  materno;  adhere  tão  fortemente  á  mama 
que  só  d'ella  poderia  ser  separado  por  uma  grande  violência.  Todavia 
como  não  é  ainda  capaz  de  sustentar-se  pelas  próprias  forças,  isto  é  de 
aspirar  o  leite  necessário  á  nutrição,  a  mãe  determina  por  meio  das 
contracções  alternadas  de  um  musculo  especial  verdadeiras  injecções  de 
leite  na  bocca  do  filho. 

«Pelo  que  acaba  de  ser  lido,  vê-se  que  os  marsupiaes  differem  essen- 
cialmente dos  outros  mamíferos  no  facto  de  que  os  filhos  exigem  a  ali- 
mentação mamaria  em  epocha  muito  menos  avançada  do  seu  desenvol- 
vimento do  que  nas  outras  ordens.  Os  ossos  marsupiaes  e  a  bolsa  que 
elles  manteem  não  são  senão  disposições  que  correspondem  a  essa  ne- 
cessidade. 

«Durante  o  que  podemos  chamar  o  segundo  periodo  de  gestação,  a 
organisação  dos  marsupiaes  completa-se:  o  novo  individuo  vae  pouco  e 
pouco  approximando-se  da  forma  e  constituição  definitivas.  No  kanguru, 
por  exemplo,  os  pêllos  principiam  a  apparecer  ao  sexto  mez;  ao  oitavo 
começa  o  filho  a  deitar  a  cabeça  fora  da  bolsa  marsupial  e  já  preludia  a 
existência  exterior  apanhando  aqui  e  além  alguma  herva  tenra.  Por  fim, 
algum  tempo  depois  faz  a  sua  entrada  no  mundo  e  aventura  alguns  sal- 
tos timidos  a  traz  da  mãe.  Principia  a  viver  sob  responsabilidade  própria; 
comtudo  por  algum  tempo  ainda  recolhe-se  muitas  vezes  ao  primitivo 
asylo  quer  para  evitar  algum  perigo,  quer  para  supprir  pelo  leite  ma- 
terno á  insufficiencia  da  alimentação  que  as  forças  lhe  não  permittiram 
procurar  em  quantidade  bastante.  É  por  isso  precisamente  que  se  vêem 
mamar  ao  mesmo  tempo  indivíduos  já  grandes,  quasi  emancipados  e  ou- 
tros pequenissimos  ainda,  de  partos  mais  recentes.  É  também  por  isso 
que  as  fêmeas  possuem  um  numero  de  mamas  superior  ao  dos  filhos 
que  produz  cada  parto.»  * 


i    L.  Figuier,  Obr.  cit.,  pg.  15  o  seguintea. 


mamíferos  em  especial 


379 


CARACTERES 


É  difficil,  observa  justamente  Brehm,  dar  uma  idéa  geral  da  forma 
dos  marsupiaes.  As  difFerenças  entre  os  membros  d'esta  ordem  são  com 
eíTeito  profundas.  «A  dentição,  escreve  o  naturalista  alludido,  ora  é  a  de 
um  roedor,  ora  a  de  um  carnívoro;  a  disposição  do  resto  do  apparelho 
digestivo  e  a  estructura  dos  membros  correspondem  inteiramente  a  estes 
caracteres  tirados  dos  dentes.  Encontramos  n'esta  ordem  verdadeiros 
carnívoros  e  verdadeiros  herbívoros;  encontramos  mesmo  animaes  que 
nos  fazem  lembrar  os  ruminantes.  O  que  pode  dizer-se  n'um  ponto  de 
vista  geral  é  que  os  marsupiaes  são  mamíferos  de  pequenas  ou  medianas 
proporções,  de  corpo  refeito  e  de  membros  fracos  ou  delgados.  A  cabeça 
é  de  ordinário  alongada  e  ponteaguda;  as  orelhas  são  grandes  e  levan- 
tadas. A  cauda  é  muita  comprida;  o  pêllo  é  macio  e  acamado.  Os  outros 
caracteres  variam  immensamente;  é  pois  necessário  estudal-os  em  cada 
famiHa  separadamente.  Apenas  um  caracter  commum  os  relaciona:  a  exis- 
tência da  bolsa  marsupial.»  * 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHIGA 


Em  epochas  geológicas  anteriores  á  nossa  existiram  representantes 
d'esta  ordem  em  pontos  diíTerentes  da  Europa,  nomeadamente  na  França 
e  na  Inglaterra.  Hoje  existem  apenas  na  America  e  em  Nova  IloUanda; 
a  Austrália  é  a  verdadeira  pátria  d'estes  animaes.  Até  mesmo  a  máxima 
parte  dos  mamíferos  doeste  continente  pertencem  á  ordem  de  que  nos 
estamos  occupaodo. 


*     Brehm,  Obr.  cit.,  vol.  2.o,  pg.  2. 


380  HISTORIA    NATUnAL 


COSTUMES 


Acerca  dos  costumes  dos  marsupiaes  podemos  repelir  o  que  disse- 
mos fallando  dos  caracteres:  são  tão  distinctos  de  espécie  a  espécie 
quanto  possível.  Dos  marsupiaes,  com  effeito,  uns  teem  os  costumes  dos 
carnivoros,  outros  dos  roedores;  uns  são  terrestres,  outros  aquáticos  ou 
habitantes  das  arvores,  alguns  diurnos,  muitos  nocturnos.  Nutrem-se  de 
folhas,  de  raizes,  de  fructos,  de  insectos  ou  de  vertebrados;  alguns  che- 
gam a  attacar  animaes  domésticos  taes  como  o  carneiro.  Uns,  em  maior 
numero,  habitam  as  florestas  e  as  brenhas,  outros  preferem  os  logares 
descobertos,  os  descampados. 

Dos  sentidos,  a  vista,  o  olfato  e  o  ouvido  parecem  sér  os  mais  per- 
feitos. O  caracter  diversifica  e  está  de  harmonia  com  o  género  de  vida 
de  cada  espécie:  uns,  os  carnivoros,  são  mãos,  astutos,  outros,  os  her- 
bívoros, bons,  dóceis. 

O  numero  de  filhos  é  variável  entre  os  hmites  extremos  de  um  e 
quatorze.  Nascem  sempre,  qualquer  que  seja  a  espécie  a  que  pertençam, 
nus,  cegos,  surdos,  com  o  anus  imperfurado  e  os  membros  perfeitamente 
rudimentares. 


usos   E    PRODUGTOS 


Entre  os  marsupiaes  ha  uns  que  são  muito  prejudiciaes  ao  homem, 
outros  que  lhe  são.  úteis.  A  carne  de  muitas  espécies  é  aproveitada  como 
alimento  e  a  pelle  serve  para  a  fabricação  de  vestidos. 


mamíferos  em  especial 


381 


CLASSIFICAÇÃO 


Variam  muito  as  classificações  adoptadas  pelos  naturalistas  para  a 
regular  e  methodica  exposição  dos  didelplios  em  especial.  Uns  formam 
dois  grandes  grupos,  tomando  para  fundamento  o  regime  alimentar — 
carnívoros  e  herbívoros;  outros,  como  Figuier,  admittem  quatro  famí- 
lias; finalmente  alguns  dividem  c  subdividem  a  ordem  segundo  a  distri- 
buição geographica  das  espécies.  Cremos  que  a  primeira  classificação  é 
a  mais  natural  e  aquella  que  se  baseia  n'um  caracter  mais  importante; 
por  isso  a  adoptaremos. 


-•-cso*- 


mamíferos  em  especial 


383 


DIDELPHOS  OU  MARSUPIAES  EM  ESPECIAL 


MARSUPIAES  carnívoros 


Este  grande  grupo  comprehende  as  famílias  que  passamos  a  es- 


tudar. 


OS  DASYURIDOS 


Os  caracteres  d'este  grupo  são,  tanto  interna  como  externamente 
considerados,  os  mesmos  dos  carniceiros.  Os  dasyuridos  teem  com  eíTeito 
uma  dentição  completa:  teem  caninos  superiores  e  inferiores  fortes  e 
compridos;  os  mollares  superiores  são  ponteagudos  e  os  inferiores  cor- 
tantes. 


384  IIISTOIUA   NATURAL 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPHICA 


Actualmcnle  existem  apenas  na  Austrália.  São  os  raamiferos  que  pri- 
meiro appareceram  no  globo;  na  Europa  encontram-se  os  seus  restos  em 
estado  fóssil. 


COSTUMES 


Habitam  as  florestas,  os  logares  pedregosos  ou  as  visinhanças  do 
mar  e  refugiam-se  em  cavernas,  entre  raizes,  nas  fendas  dos  rochedos 
ou  nos  troncos  occos  das  arvores.  • 

Uns  vivem  somente  á  superfície  do  solo,  outros  trepam  maravilho- 
samente, alguns  mesmo  vivem  só  nas  arvores.  São  plantigrados,  isto  é, 
na  marcha  apoiam  em  terra  toda  a  planta  dos  pés;  no  entanto  teem  mo- 
vimentos rápidos  e  ágeis  como  todos  os  carniceiros.  São  quasi  todos  no- 
cturnos; dormem  o  dia  inteiro  nos  seus  escondrijos  d'onde  só  saem  ao 
crepúsculo  para  procurarem  o  alimento.  Vagueiam  de  ordinário  ao  longo 
das  costas,  devorando  animaes  frescos  ou  em  decomposição  que  o  mar 
expulsa.  Os  que  habitam  nas  arvores  alimentam-se  de  ovos,  de  insectos 
e  d'outros  pequenos  animaes.  As  grandes  espécies  chegam  a  penetrar 
nas  habitações  humanas  para  attacarem  os  animaes  domésticos.  Muitos 
dos  indivíduos  que  entram  n'este  grupo  levam  á  bocca  os  alimentos  com 
as  patas  anteriores. 

Os  individues  de  grandes  proporções  são  selvagens,  mãos,  indomá- 
veis; quando  são  attacados,  defendem-se  vigorosamente  com  os  dentes. 
Os  de  pequenas  dimensões,  pelo  contrario,  são  dóceis,  domesticam-se  fa- 
cilmente e  revelam  uma  grande  dedicação  pelo  homem. 

A  parturição  tem  logar  na  primavera;  a  fêmea  dá  então  á  luz  qua- 
tro a  cinco  filhos. 

A  utihdade  que  d'estes  animaes  podemos  tirar  é  excedida  enorme- 
mente pelos  estragos  que  produzem. 


mamíferos  em  especial  385 

Os  dasyuridos  comprehendem  os  géneros  que  seguidamente  passa- 
mos em  revista. 


OS  THYLACINOS 


As  formas  geraes  d'estes  didelphos  recordam  as  dos  cães.  Teem  qua- 
renta e  seis  dentes:  quatorze  incisivos,  oito  na  maxilla  superior  e  seis 
na  inferior,  quatro  caninos  e  vinte  e  oito  moUares.  Os  ossos  marsupiaes 
são  nos  thylacinos  rudimentares  e  cartilagineos.  Estes  didelphos  são  todos 
plantigrados. 

O  único  representante  vivo  do  género  é  o  thylacino  cynocephalo 
que  passamos  a  estudar. 


O  THYLACINO  CYNOCEPHALO 


É  este  de  todos  os  marsupiaes  carnivoros  o  mais  notável.  Tem-lhe 
sido  dados  os  nomes  de  cào  ou  lobo  de  bolsa  e  de  lobo  zebrado.  Estas 
designações  são  muito  apropriadas,  porque  realmente  elle  tem  caracte- 
res do  cão,  do  lobo  e  a  cor  listrada  da  zebra.  Tem  o  corpo  alongado,  a 
cabeça  como  a  do  cão,  o  focinho  obtuso,  as  orelhas  e  a  cauda  levanta- 
das; as  pernas  são  mais  curtas  que  as  dos  caninos  e  a  dentição  um 
pouco  diíTerente  da  que  caracterisa  este  grupo  de  carniceiros. 

De  todos  os  marsupiaes  carnivoros  o  thylacino  cynocephalo  6  o 
maior;  tem  approximadamente  as  dimensões  do  chacal.  Mede  de  compri- 
mento um  metro  e  de  altura  oitenta  centímetros;  a  cauda  tem  meio  me- 
tro de  extensão.  O  pêllo  é  curto,  brando,  pardo  trigueiro  e  apresentando 
no  dorso  doze  a  quatorze  hstras  transversaes.  Os  péllos  d'esla  região  do 
dorso  são  trigueiros  escuros  na  raiz  e  trigueiros  amarellados  na  ponta; 

voL.  III  •       25 


386  HISTORIA    NATURAL 

OS  do  ventre  são  trigueiros  claros  na  raiz  e  quasi  brancos  na  cxtrenrii- 
datle.  A  cabeça  é  mais  clara  que  o  dorso  e  os  olhos  abrancaçados,  apre- 
sentando no  angulo  anterior  uma  pequena  mancha  escura  e  superior- 
mente uma  outra  semelhante  em  sentido  transversal.  Os  pellos  da  região 
posterior  do  corpo  são  mais  compridos  que  os  outros.  Os  olhos  do 
thylacino  cynocephalo  são  maiores  que  os  do  cão  e  a  bocca  é  mais  fen- 
dida. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHIGA 


Habita  somente  a  Tasmania  ou  Terra  de  Van-Diemen;  no  continente 
australiano  encontram-se  apenas  os  ossos  fosseis  dos  seus  congéneres. 
Abundava  no  tempo  do  estabelecimento  dos  colonos  europeus,  com 
grande  prejuízo  dos  emigrantes,  porque  lhes  destruía  os  rebanhos.  Foi 
pouco  e  pouco  repellido  para  o  interior  da  ilha,  para  as  montanhas  prin- 
cipalmente, onde  se  encontra  ainda  hoje  em  grande  numero  a  uma  alti- 
tude de  mil  metros  acima  do  nivel  do  mar. 


COSTUMES 


Os  hábitos  de  vida  d'este  marsupial  são  essencialmente  nocturnos. 
Durante  o  dia  occulta-se  nas  fendas  dos  rochedos,  nas  cavernas,  nos  to- 
gares sombrios  e  inaccessiveis  ao  homem.  A  contracção  permanente  da 
pupilla  n'este  animal  denuncia  uma  extraordinária  sensibilidade  para  a 
luz.  É  por  isso  precisamente  que,  se  o  obrigam  a  caminhar  durante  o 
dia,  a  sua  marcha  é  vacillante,  os  seus  movimentos  pouco  precisos, 
quasi  descoordenados.  De  noite,  ao  contrario,  é  vivo,  ágil,  perigoso  pela 
rapidez  de  movimentos  que  denunciam  um  verdadeiro  carnivoro;  não  re- 
cua diante  dos  cães,  antes  acceita  a  lucta  com  estes  encarniçados  inimi- 
gos, saindo  muitas  vezes  victorioso.  INãb  é  o  mais  feroz  dos  marsupiaes 
carnívoros,  mas  é  indubitavelmente  o  mais  forte  e  o  mais  corajoso.  É 
um  verdadeiro  lobo  do  continente  australiano;  e,  com  quanto  menor  do 
que  este  carniceiro,  elle  produz  ahi,  proporcionalmente  ás  suas  dimen- 
sões, tantos  estragos  como  o  lobo  entre  nós. 

O  thylacino  cynocephalo  alimenta-se  de  pequenos  animaes  de  todas 


mamíferos  em  especial  387 

as  espécies:  vertebrados,  insectos,  molluscos  e  annellados.  Vagueia  de 
ordinário  pelas  costas  em  busca  de  animaes  que  o  mar  tenha  expellido; 
muitas  vezes  porém,  persegue  os  kangurus  nos  descampados  e  nas  flo- 
restas e  os  ornithorhyncos  nas  margens  dos  rios  e  nos  pântanos.  Quando 
tem  fome,  não  vacilla  mesmo  em  attacar  os  cchidneos,  mao  grado  os 
péllos  acerados,  ponteagudos,  verdadeiros  picos  de  que  estes  animaes 
teem  o  corpo  coberto.  Estes  picos  encontram-se  muitas  vezes  no  estô- 
mago do  thylacino  cynocephalo. 


GAGA 


Empregam-se  para  apanhar  o  thylacino  cynocephalo  armadilhas  e 
também  se  lhe  faz  a  capa  com  cães.  O  marsupial  sabe  bem  defender-se 
d'estes;  faz  face  a  uma  matilha  inteira. 


GAPTIVEIRO 


Pouco  se  sabe  da  vida  do  thylacino  cynocephalo  em  captiveiro.  Al- 
guns teem  aífirmado  que  elle  é  timido,  estúpido,  indomável,  diflicil  de 
sustentar.  Segundo  Brehm,  factos  recentes  infirmariam  tal  asserção.  A 
Sociedade  Zoológica  de  Londres  possuia,  ao  tempo  cm  que  este  natura- 
lista pubhcava  os  seus  livros  sobre  os  mamíferos,  trez  thylacinos,  os 
primeiros  e  únicos  que  se  teem  visto  na  Europa.  N'esses  exemplares 
não  se  observou  o  caracter  indomável,  nem  a  estupidez  a  que  nos  refe- 
rimos acima. 


388  HISTORIA  NATURAL 


OS  SARCOPHILOS 


Os  sarcophilos  que,  pelo  caracter  feroz  e  indomável,  mereceram  de 
alguns  naturalistas  a  designação  significativa  de  diabos j  teem  o  corpo  re- 
feito, vigoroso  como  o  dos  ursos,  a  cabeça  curta  e  larga,  as  pernas  de 
comprimento  médio,  a  planta  dos  pés  e  os  dedos  desnudados,  as  unhas 
compridas  e  recurvas,  a  cauda  grossa  e  tendo  o  comprimento  de  metade 
do  corpo,  os  olhos  pequenos,  revelando  continuadamente  impulsões  de 
furor,  as  orelhas  curtas  e  largas  e  péllos  fortes  no  lábio  superior.  Os  den- 
tes seguem  uns  aos  outros  sem  interrupção;  os  caninos  são  fortíssimos. 
O  craneo  torna-se  notável  pelo  seu  pouco  comprimento  e  o  focinho  pela 
largura. 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPHICA 


A  área  de  dispersão  geographica  d'este  marsupial  é  sensivelmente 
a  mesma  que  a  dos  thylacinos. 

O  género  comprehende  uma  espécie  única  de  que  passamos  a  occu- 
par-nos. 


O  SARCOPHILO  URSINO 


É  um  animal  curiosíssimo  cujas  formas  parecem  estabelecer  uma 
transição  entre  o  grupo  dos  ursinos  e  dos  musteleanos.  A  cauda  tem  o 
comprimento  de  trinta  centímetros  e  o  resto  do  corpo  de  sessenta.  O 
péllo  é  grosseiro;  o  ventre,  a  cabeça  e  a  cauda  são  de  um  trigueiro 


mamíferos  em  especial  389 

muito  escuro;  maculas  brancas,  variáveis  na  forma  e  nas  dimensões,  or- 
nam-lhe  o  peito,  as  patas  anteriores,  a  região  do  sacro  e  as  coxas. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHICA 


A  pátria  d'esta  espécie  é  a  Tasmania. 


COSTUMES 


São  unanimes  os  observadores  em  aífirmarem  que  não  existe  animal 
mais  mao,  nem  mais  furioso;  a  cólera  e  o  mao  humor  são  n'elle  habi- 
tuaes.  Tudo  o  irrita,  tudo  o  faz  entrar  em  accessos  desordenados  de 
fúria. 

Os  hábitos  de  vida  d'esta  espécie  são  nocturnos;  o  sarcophilo  ursino 
tem  tanto  receio  da  luz  como  o  thylacino  cynocephalo.  Tem-se  sem- 
pre observado  que  os  indivíduos  captivos  se  escondem  de  dia  com  uma 
grande  anciedade  no  canto  mais  escuro  da  jaula  em  que  vivem.  Como 
no  thylacino,  a  pupilla  n'este  animal  existe  em  estado  permanente  de 
contracção  durante  o  dia.  Emquanto  ha  sol  o  sarcophilo  esconde-sc  nos 
togares  mais  sombrios,  nas  fendas  dos  rochedos,  entre  as  raizes  das  ar- 
vores e  dorme  um  longo  somno  profundíssimo  de  que  o  não  desperta 
mesmo  o  estrépito  da  capa.  Depois  que  é  noite  abandona  o  seu  cscon- 
drijo  e  vagueia,  procurando  o  ahmento.  Revela-se  então  agillissimo  em 
todos  os  movimentos.  É  plantigrado  como  o  urso;  repousa  como  o  cão 
sobre  os  membros  posteriores  e  leva  os  alimentos  á  bocca  com  as  patas 
de  diante. 

Precipita-se  com  furor  indescriptivel  sobre  todos  os  animaes  que 
pode  encontrar,  sejam  elles  invertebrados  ou  vertebrados.  Tudo  lhe 
serve,  porque  a  sua  voracidade  não  tem  limites. 

O  numero  de  filhos  produzidos  em  cada  parto  é  n'esta  espécie  de 
trez  a  cinco.  Gré-so  que  a  fêmea  conserva  longo  tempo  na  bolsa  marsu- 
pial  os  fiUios;  nada  se  sabe  porém  de  positivo  e  bem  averiguado  a  este 
respeito. 


300  HISTORIA  NATURAL 


CAÇA 


A  voracidade  do  sarcophilo  é  uma  condição  que  torna  fácil  a  sua 
caça.  Cáe  facilmente  em  qualquer  armadilha,  porque  todo  o  engodo  o 
sollicita,  o  attráe,  ou  seja  um  pedaço  de  carne,  ou  um  peixe  ou  ainda 
um  mollusco.  Empregam-se  lambem  os  cães  n'esta  caça;  porém  este  pro- 
cesso não  é  dos  melhores,  porque  o  sarcophilo,  graças  á  selvageria  in- 
domável e  á  força  extraordinária  que  o  caracterisa  é  um  inimigo  temí- 
vel dos  cães  a  que  sabe  oppor  uma  tenacíssima  resistência  e  de  que  não 
poucas  vezes  triumpha.  Não  ha  cão  de  caça  que  isolado  se  atreva  a  lu- 
ctar  com  o  sarcophilo. 

Nos  primeiros  tempos  do  seu  estabelecimento,  os  colonos  da  terra 
de  Van-Diémen  soffreram  muito  com  a  visinhança  do  sarcophilo  ursino, 
porque,  como  a  marta,  elle  penetrava  nas  capoeiras  e  matava  quanto 
encontrasse.  Assim,  os  colonos  principiaram  a  consideral-o  um  inimigo 
terrível  e  a  perseguil-o  sem  tréguas.  Graças  a  uma  caça  activa,  conse- 
guiram afugentar  o  marsupial  para  as  florestas  mais  espessas  e  mais  im- 
penetráveis das  montanhas.  Hoje  existem  muitos  legares  d'onde  desap- 
pareceu  inteiramente;  e  mesmo  nas  regiões  em  que  é  ainda  abundante, 
raras  vezes  apparece  e  se  defronta  com  o  homem. 


CAPTIVEIRO 


O  sarcophilo  ursino  parece  não  modificar  o  seu  caracter  em  capti- 
veiro.  Depois  de  muitos  annos  de  prisão  é  ainda  tão  furioso,  tão  colérico, 
como  no  dia  em  que  caiu  no  poder  do  homem.  Precipita-se  sem  motivo 
contra  as  grades  da  jaula  e  dá  em  todas  as  direcções  violentas  panca- 
das com  as  patas  como  se  tentasse  despedaçar  alguma  coisa  que  o  in- 
commodasse.  Ninguém  saberá  muitas  vezes  explicar  os  accessos  de  có- 
lera que  o  accommettem  repentinamente.  Nunca  revela  affeição  por 
aquelle  que  lhe  fornece  os  ahmentos;  attaca-o  com  tanto  furor  como  a 
um  estranho.  Ao  mesmo  tempo  é  preguiçoso  e  estúpido.  Depois  que  os 
accessos  de  raiva  passam,  dorme  por  muito  tempo  no  canto  mais  escuro 


mamíferos  em  especial  391 

da  jaula.  Alimcnta-se  esle  animal  com  muita  facilidade,  dando-se-lhe  os- 
sos que  elle  parte  com  os  dentes  e  que  se  entretém  a  triturar. 


usos   E    PRODUGTOS 


A  carne  d'este  didelpho  passa  entre  os  colonos  por  ser  delicadís- 
sima, superior  mesmo  á  do  veado. 


AS  DASYURAS 


São  ainda  marsupiaes  carnívoros;  pelo  manto  parecem  intermediá- 
rios ás  rapozas  e  ás  martas,  sem  especificamente  se  assemelharem  a 
qualquer  d'estes  dois  grupos.  O  corpo  é  alongado,  elegante,  o  pescoço 
comprido  e  o  focinho  ponteagudo;  as  pernas  são  baixas,  de  uma  espes- 
sura media.  As  posteriores  são  um  pouco  mais  compridas.  As  patas  teera 
quatro  dedos  separados,  munidos  de  unhas  fortes,  recurvadas,  pontea- 
gudas  e  um  pollegar  rudimentar.  A  cauda  é  comprida  e  bem  provida  de 
pêllo.  As  maxillas  são  armadas  de  quarenta  e  dois  dentes,  entre  os  quacs 
somente  vinte  e  quatro  mollares,  doze  superiores  e  doze  inferiores. 


DISTRIBUIÇÃO   GE0GRAPHICA 

Estes  marsupiaes  pertencem  exclusivamente  á  Austrália. 
Conhecem-se  quatro  espécies  d'este  género. 


392  fflSTORIA   NATURAL 


A  DASYURA  MALHADA 


É  talvez  a  espécie  mais  conhecida  do  género.  A  cor  geral  d'este  di- 
delplio  é  o  trigueiro  mais  ou  menos  claro;  o  ventre  é,  de  ordinário, 
branco  e  sobre  o  dorso  e  cabeça  existem  malhas  brancas  irregulares.  As 
orelhas  terminadas  em  ponta  e  de  grandeza  media,  são  cobertas  de  pêl- 
los  curtos  e  negros.  A  ponta  do  focinho  é  côr  de  carne.  A  dasyura  ma- 
lhada tem  quinze  centímetros  de  altura  sobre  quarenta  de  comprimento; 
a  cauda  tem  trinta  centímetros  de  extensão. 


DISTRIBUIÇÃO    GEOGRAPHIGA 


É  muito  commum  esta  espécie  em  Nova-Hollanda. 


COSTUMES 


Vive  nas  florestas  e  á  beira-mar.  De  dia  esconde-se  entre  raizes, 
entre  pedras,  ou  nos  troncos  occos  das  arvores,  d'onde  sáe  apenas  ao 
crepúsculo  para  procurar  alimentos.  Ahmenta-se  de  animaes  mortos  que 
o  mar  atira  ás  praias,  de  pequenos  mamíferos,  de  aves  que  fazem  o 
ninho  em  terra  e  até  de  insectos.  Nos  logares  habitados  visita  os  galli- 
nheiros  onde  perfeitamente  se  calcula  os  estragos  que  fará.  A  dasyura 
malhada  é  plantigrada  e,  marchando,  parece  que  se  arrasta.  Não  trepa 
bem;  porém  os  seus  outros  movimentos  são  vivos  e  rápidos. 

O  numero  de  filhos  dados  á  luz  em  cada  parto  varia  n'esta  espécie 
entre  quatro  e  seis.  Nascem  imperfeitíssimos  e,  por  isso,  demoram-se 
muito  na  bolsa  marsupial  materna. 


mamíferos  em  especial 


393 


CAÇA 


A  (lasyura  malhada,  como  todos  os  didelphos  carnívoros,  é  victima 
de  uma  perseguição  tenacíssima.  O  processo  mais  empregado  n'esta  caça 
é  o  das  armadilhas  de  ferro  a  que  serve  de  engodo  um  animal  qualquer. 


CAPTIVEIRO 


Em  captíveiro  a  dasyura  malhada  é  um  ser  perfeitamente  aborre- 
cido; não  tem  vivacidade,  não  tem  encantos  de  qualidade  alguma,  não 
tem  finalmente  a  dedicação  pelo  homem  que  poderia  tornal-a  sympa- 
thica.  Quando  alguém  se  approxíma  da  jaula  em  que  vive,  foge  para  um 
canto,  abrindo  a  bocca  ameaçadoramente.  No  entanto  não  se  pense,  jul- 
gando apenas  pelas  apparencias,  que  se  trata  de  um  inimigo  perigoso. 
Com  quanto  mostre  os  dentes  e  bufe  hostilmente  á  maneira  dos  gatos,  é 
certo  que  qualquer  pode  sem  risco  lançar-lhe  a  mão;  não  oppOe  resis- 
tência, Hmita-se  a  protestar. 

Como  animal  nocturno  que  é,  a  dasyura  malhada,  evita  cuidadosa- 
mente a  luz. 

Parece  insensível  á  influencia  das  estações. 

Accomodando-se  a  todos  os  ahmentos,  é  fácil  mantel-a;  note-se  po- 
rém que  prefere  a  tudo  a  carne  ou  crua  ou  cosida.  Não  é  tão  voraz  como 
qualquer  das  espécies  de  que  até  aqui  nos  temos  occupado.  Depois  de 
comer  senta-se,  lava-se  e  alisa  o  péllo,  como  os  gatos. 


304  HISTORIA    NATURAL 


OS  TAPUÁS 


São  didelphos  carnívoros  que  recordam  mais  ou  menos  os  musara- 
nhos. Teem  o  corpo  refeito,  os  membros  curtos,  cinco  dedos  de  que  o 
poliegar  é  desprovido  de  unhas  e  os  outros  armados  de  garras  agudas  e 
recurvas,  a  cabeça  larga,  vindo  a  terminar  em  focinho  agudo,  as  orelhas 
e  os  olhos  grandes  e  a  cauda  quasi  tão  comprida  como  todo  o  resto  do 
corpo  e  guarnecida  na  metade  posterior  de  pêhos  extensos.  Os  incisivos 
superiores  são  muito  grandes,  os  caninos  alongados,  os  falsos  moUares 
em  forma  de  turberculos  ponteagudos,  análogos  aos  dos  insectivoros. 
Teem  oito  mamas  dispostas  circularmente. 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPHIGA 


Todos  os  tapuás  habitam  a  Austraha. 


COSTUMES 


Vivem  sobre  as  arvores  e  alimentam-se  de  insectos.  O  pouco  que  se 
sabe  dos  hábitos  de  vida  d'estes  didelphos  estudal-o-hemos  a  propósito 
da  espécie  única  que  representa  o  género. 


mamíferos  em  especial 


395 


O  TAPUA-TAFA 


Tem  pouco  mais  ou  menos  as  dimensões  do  esquilo:  mede  approxi- 
madamente  meio  metro  de  extensão,  sendo  vinte  e  dois  centimetros  per- 
tencentes á  cauda.  O  pêllo  é  comprido,  molle,  lanoso,  pardo  no  dorso, 
branco  ou  pardo  muito  claro  no  ventre.  Os  olhos  offerecem  um  circulo 
negro  e  são  encimados  por  uma  pequena  malha  branca.  Na  cabeça  pre- 
domina o  negro.  Os  dedos  são  brancos.  A  cauda  é  coberta  no  seu  pri- 
meiro quinto  de  extensão  por  um  péllo  liso,  análogo  ao  que  reveste  o 
resto  do  corpo;  os  quatro  outros  quintos  são  cobertos  de  péllos  compri- 
dos, muito  escuros. 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPHIGA 


Este  didelpho  é  muito  vulgar  na  Austrália.  Ahi  se  encontra  indlffe- 
rentemente  nas  planícies  ou  nas  montanhas.  N'isto  differe  dos  outros  ma- 
míferos australianos  que  habitam  sempre  uma  determinada  altitude. 


COSTUMES 


O  tapuá-tafa  tem  a  apparencia  de  um  pequeno  ser  elegante,  inno- 
cente,  incapaz  de  prejudicar  quem  quer  que  seja.  Observa  Brehm  porém 
que  nenhum  animal  desmente  tanto  como  este  as  apparencias.  A  despeito 
de  um  exterior  agradável  que  á  primeira  vista  seduz,  este  didelpho  é  um 
carnívoro  selvagem,  feroz,  audacioso,  que  se  embriaga  com  o  sangue, 
que  se  torna  emfim  um  verdadeiro  flagello  para  o  homem,  porque,  pe- 
netrando nas  habitações,  produz  grandes  estragos,  destruindo  animacs 
domésticos. 

As  suas  pequenas  dimensões  e  a  cabeça  fina  e  estreita  permiltem-lhe 
facilmente  passar  pelas  aberturas  mais  insignificantes.   Não  ha  paredes 


396  HISTORIA  NATURAL 

OU  estacadas  que  bastem  a  impcdir-lhc  a  passagem:  introduz-se  pelas 
fendas  mais  estreitas  e  trepa  com  agilidade  os  muros  e  estacadas,  pene- 
trando assim  em  toda  a  parte.  Se  este  didelpho  tivesse  dentes  de  roe- 
dor, desempenharia  perfeitamente  bem  o  papel  de  um  rato;  felizmente 
não  acontece  assim,  e  contra  uma  porta  sem  fendas,  bem  adaptada,  o 
animal  é  impotente. 

O  tapuá-tafa  só  de  noite  principia  a  vida  activa,  embora  uma  vez 
OLi  outra  vez  se  encontre  de  dia.  É  muito  ágil  sobretudo  nas  arvores, 
onde  vive  mais  tempo  do  que  em  terra;  salta  de  ramo  a  ramo  como  um 
esquilo.  A  longa  cauda  serve-llie  não  só  de  órgão  de  prehensão  para  se 
balançar  c  segurar  aos  ramos,  mas  ainda  de  leme  para  se  dirigir  nos  sal- 
tos. Os  troncos  occos  das  arvores  servem  de  escondrijo  a  este  animal. 

A  voracidade  que  caracterisa  este  didelpho  explica  sufficientemente 
a  perseguição  de  que  é  victima  por  parte  do  homem. 


OS  ANTECHINOS 


Distingue-se  este  género  do  anterior  pelas  dimensões  que  são  as  de 
um  pequeno  rato.  A  cauda  é  menos  extensa  que  o  corpo  e  coberta  de 
péllos  curtos.  Os  dentes  incisivos  médios  são  alongados.  Apparentemente 
é  muito  diíTicil  distinguir  estes  animaes  dos  ratos. 


DISTRIBUIÇÃO  CtEOGRAPHICA 


Os  antechinos  habitam  principalmente  o  sul  da  Nova-Hollanda,  onde 
são  muito  communs. 


mamíferos  em  especial 


397 


COSTUMES 


Estes  animaes  representam  na  ordem  dos  didelphos  os  musaranhos 
a  que  se  assemelham  nos  costumes  e  género  de  vida.  Passam  o  tempo 
nas  arvores,  trepam  maravilhosamente  e  correm  não  só  na  face  supe- 
rior mas  ainda  na  inferior  dos  ramos.  Descem  os  troncos  com  a  cabeça 
voltada  para  baixo  e  saltam  de  ramo  a  ramo  com  agilidade  notável  e  ás 
vezes  a  grandes  distancias. 


O  ANTECHINO  DE  PATAS  AMARELLAS 


Tem  pouco  mais  ou  menos  vinte  centímetros  de  comprimento,  dos 
quaes  oito  pertencera  á  cauda.  O  péllo  é  molle  e  abundante;  a  côr  geral 
é  um  pardo  escuro.  As  partes  superiores  do  corpo  são  quasi  negras  com 
maculas  amarellas,  os  lados  ruivos  amarellados  ou  amarellos  claros,  a 
maxiJla  superior  e  o  peito  muito  claros,  quasi  brancos  e  a  cauda  clara, 
apresentando  aqui  e  além  manchas  escuras.  As  patas  são  amarellas. 


OS  MYRMECOBIOS 


Os   animaes  que  pertencem  a  este  género  são  caracterisados  por 
um  corpo  alongado,  um  focinho  ponteagudo,  uma  cauda  de  comprimento 


398  HISTORIA  NATURAL 

médio,  não  prehensil,  cinco  dedos  nos  pés,  separados  e  armados  de 
unlias  forles.  A  língua  é  extensível.  A  fêmea  não  apresenta  bolsa  marsu- 
pial,  mas  oito  mamas  dispostas  em  circulo  e  constituindo  um  verdadeiro 
refugio  para  os  filhos.  Os  dentes  são  cincoenta  e  dois;  os  caninos  são 
alongados. 

O  género  comprehende  uma  espécie  única. 


O  MYRMECOBIO  LISTRADO 


É  uma  das  mais  notáveis  espécies  dos  marsupiaes.  Este  animal  tem 
pouco  mais  ou  menos  as  dimensões  do  esquilo.  Tem  tanto  de  altura  como 
de  comprimento,  isto  é  vinte  e  sete  centímetros  para  cada  uma  das  di- 
mensões; a  cauda  mede  vinte  centímetros,  isto  é  quasi  tanto  como  a  ex- 
tensão de  todo  o  resto  do  corpo.  A  cabeça  é  curta.  O  manto  é  formado 
por  duas  ordens  distinctas  de  péllo:  um  sedoso,  comprido,  muito  grosso, 
outro  curto,  fino,  abundante.  Immediatamente  abaixo  dos  olhos  e  no  lá- 
bio superior  apresenta  o  animal  pôllos  compridos  e  rijos.  A  coloração  do 
manto  recorda  a  do  thylacino.  A  região  anterior  do  corpo  é  amarella 
clara;  a  posterior  é  negra,  apresentando  nove  listras  transversaes  bran- 
cas ou  pardas.  D'estas  listras,  as  duas  primeiras,  que  correspondem  sen- 
sivelmente á  parte  media  do  tronco,  são  pouco  visíveis,  porque  quasi  se 
confundem  com  a  cor  fundamental;  as  outras  são  muito  mais  nitidamente 
delimitadas.  A  parte  inferior  do  corpo  é  de  um  branco  amarellado.  O  fo- 
cinho é  de  um  amarello  mais  claro  dos  lados  do  que  na  frente  e  a  ca- 
beça de  um  trigueiro  accentuado.  Os  péllos  da  cauda  são  negros,  bran- 
cos e  amarellos.  Os  membros  são  amarellos  exteriormente  e  brancos 
pela  face  interna;  o  focinho,  os  lábios  e  as  unhas  são  negros. 


mamíferos  em  especial 


399 


DISTRIBUIÇÃO    GEOGRAPHIGA 


Este  marsupial,  conhecido  lia   vinte  annos  somente,  foi  encontrado 
á  Leira  de  um  pequeno  rio,  o  rio  dos  Gysnes,  na  Austrália  oriental. 


COSTUMES 


A  impressão  agradável  que  se  recebe  ao  ver  pela  primeira  vez  este 
animal  e  que  é  produzida  pela  diversidade  das  cores  perfeitamente  dis- 
postas, não  se  dissipa,  antes  augmenta  quando  o  observamos  de  perlo. 

É,  affirmam  todos  os  naturalislas,  um  animal  ágil  que  corre  dando 
pequenos  saltos.  A  velocidade  de  que  dispõe  não  é  grande,  mas  esta 
imperfeição  compensa-a  elle  pela  astúcia  e  pela  vivacidade.  Nas  flores- 
tas virgens  em  que  de  preferencia  gasta  o  seu  tempo,  encontra  a  cada 
passo  uma  cavidade,  um  tronco  d'arvore  carcomido,  uma  fenda  de  ro- 
chedo que  podem  servir-lhe  não  só  de  logar  de  repouso,  mas  ainda  de 
refugio  quando  o  perseguem.  Sabe  perfeitamente  introduzir-se  n'estes 
escondrijos  e  ahi  se  conserva  persistentemente  em  quanto  algum  perigo 
o  ameaça. 

O  nome  de  mymercobio  é  dado  a  este  animal  para  exprimir  que  a 
alimentação  principal  de  que  faz  uso  se  compõe  de  formigas.  Os  logares 
que  prefere  são  sempre  aquelles  em  que  os  formigueiros  abundam.  As 
unhas  aguçadas  e  a  hngua  muito  comprida  que  possue,  são  instrumen- 
tos em  harmonia  com  este  género  de  alimentação.  Como  os  tamanduás, 
elle  estende  a  lingua  e  retira-a  rapidamente  para  a  bocca  quando  um 
numero  sufficiente  de  formigas  se  fixou  a  ella.  AUmenta-se  ainda  de  ou- 
tros insectos  e,  quando  a  fome  o  aperta,  até  de  vegetaes,  embora  a  sua 
natureza  não  seja  a  de  um  herbívoro. 

Ao  contrario  dos  outros  marsupiaes  carnívoros,  este  é  um  animal 
inoíTensivo,  Innocente.  Quando  se  lhe  delta  a  mão,  não  tenta  morder  nem 
arranhar;  apenas  emitte  um  som  fraco  de  queixume  e,  se  vc  que  lhe  é 
impossível  fugir,  delxa-se  prender  sem  resistência. 


400  HISTORIA  NATURAL 


CAPTIVEIRO 


Pouco  tempo  se  pode  conservar  este  marsupial  preso,  porque  é  im- 
possível fornecer-lhe  em  quantidade  suíTiciente  o  alimento  que  mais  lhe 
convém,  as  formigas.  Diz  Brehm:  «o  captiveiro  é  para  elle  a  morte.» 


OS  DIDELPHOS  PROPRIAMENTE  DITOS 


Os  differentes  géneros  comprehendidos  n'esta  vasta  familia  com- 
poem-se  de  marsupiaes  de  pequenas  e  medias  proporções,  que  quando 
muito  egualam  as  do  gato  e  muitas  vezes  não  excedem  a  de  um  rato 
pequeno. 

N'estes  marsupiaes  o  corpo  é  refeito  e  a  cabeça  terminada  por  um 
focinho  mais  ou  menos  ponteagudo.  Teem  de  ordinário  os  olhos  e  as 
orelhas  grandes,  a  cauda  de  comprimento  variável,  mas  geralmente  pre- 
hensora  e  desnudada  na  extremidade,  os  membros  posteriores  mais  com- 
primidos que  os  anteriores  e  cinco  dedos  em  cada  pata  sendo  o  pollegar 
até  certo  ponto  opponente.  Em  um  dos  géneros  os  dedos  são  reunidos 
por  uma  membrana  palmar.  A  bolsa  marsupial  falta  era  algumas  espé- 
cies; o  numero  de  mamas,  variável  de  género  a  género,  é  sempre  ele- 
vado. 

A  dentição  dos  didelphos  propriamente  ditos  é  a  de  todos  os  carní- 
voros. Os  caninos  são  muito  desenvolvidos  e  os  mollares  mais  ou  menos 
ponteagudos  e  cortantes;  os  falsos  mollares  teem  duas  raízes  e  os  mol- 
lares superiores  trez.  A  columna  vertebral  comprehende  sete  vértebras 
cervicaes,  treze  dorsaes,  cinco  a  seis  lombares  e  dezoito  a  trinta  e  uma 
caudaes. 


mamíferos  em  especial  401 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPHIGA 


Todos  os  didelphos  propriamente  ditos  hoje  vivos  são  próprios  da 
America.  Na  Europa  encontram-se  apenas  restos  fosseis  que  attestam  a 
existência  d'esses  marsupiaes  n'esta  parte  do  mundo  em  epochas  geoló- 
gicas anteriores  á  nossa. 


COSTUMES 


Os  marsupiaes  d'esta  familia  vivem  nas  florestas  e  nas  brenhas  es- 
pessas e  estabelecem  as  suas  moradas  nos  buracos  das  arvores,  nas  ca- 
vernas, nas  hervas  altas  e  nos  mattos.  Ha  uma  espécie  que  habita  as 
margens  dos  ribeiros,  que  nada  admiravelmente  e  que  se  refugia  em 
tocas.  Todos  estes  marsupiaes  são  nocturnos  e  vivem  uma  vida  errante; 
só  em  tempo  do  cio  se  encontram  aos  pares.  Caminham  muito  lentamente 
e  são  plantigrados;  quasi  todos  trepam  e  alguns  que  possuem  cauda  pre- 
hensora,  servem-se  d'ella  para  se  suspenderem  aos  ramos  das  arvores  e 
conservarem-se  horas  inteiras  n'esta  posição.  Fogem  dando  pequenos 
saltos. 

De  todos  os  sentidos,  o  olfato  parece  ser  o  mais  perfeito.  Não  teem 
muita  intelhgencia;  comtudo  é  impossível  negar-se-lhes  a  astúcia,  porque 
sabem  perfeitamente  evitar  as  armadilhas. 

No  regime  alimentar  d'estes  marsupiaes  figuram  pequenos  mamífe- 
ros, aves,  ovos,  pequenos  reptis,  insectos,  larvas  e  vermes;  em  casos 
de  necessidade  extrema  comem  fructos.  Os  que  frequentam  a  agua  ali- 
mentam-se  de  peixes.  As  grandes  espécies  nos  logares  habitados  são  pre- 
judiciahssimas,  porque  matam  os  animaes  domésticos. 

Só  quando  são  perseguidos  é  que  os  didelphos  propriamente  ditos 
fazem  ouvir  a  voz.  Attacados,  não  se  defendem  e,  quando  reconhecem 
a  impossibilidade  de  fugir,  simulam-se  mortos.  Sob  a  influencia  do  ter- 
ror espalham  um  cheiro  forte  e  detestável. 

São  fecundíssimos;  o  numero  de  filhos  dados  á  luz  de  um  só  parto 
pode  ser  de  dezeseis.  Os  novos  seres  apparecem  n'um  estado  de  imper- 
feição extrema;  as  fêmeas  que  teem  bolsas  marsupiaes  completas  intro- 
duzem-os  alii  e  as  outras  coUocam-os  sobre  o  dorso  a  que  elles  solida- 

voL.  III  26 


402  HISTORIA  NATURAL 

mente  se  manteem,  agarrando-se-lhe  ao  péllo  ou  crirolanclo  a  própria 
cauda  á  cauda  materna. 


CACA 


As  grandes  como  as  pequenas  espécies  são  perseguidas  encarniça- 
damente pelo  liomem:  as  primeiras  pelos  estragos  que  produzem,  as  se- 
gundas pela  fealdade  repugnante  que  as  caracterisa.  Burmeister  aíTirma 
que  se  apanham  no  Brazil  os  didelphos  propriamente  ditos  collocando- 
Ihes  á  disposição  e  em  logar  apropriado  agua-ardente  em  quantidade: 
bebem  com  avidez  este  liquido,  embriagam-se  e  deixam-se  depois  pren- 
der sem  resistência. 


GAPTIVEIRO 


A  maior  parte  d'estes  marsupiaes  habituam-se  rapidamente  ao  ca- 
ptiveiro;  são  porém  animaes  desagradáveis  que  passam  exclusivamente 
o  seu  tempo  a  comer  e  a  dormir. 


usos  E  PRODUGTOS 


Os  negros  comem  a  carne  d'estes  marsupiaes.  Algumas  espécies 
fornecem  um  pêllo  que  se  fia. 


mamíferos  em  especial 


403 


AS  SARIGUEIAS 


De  todos  os  géneros  da  família  é  este  o  mais  bem  estudado,  o  mais 
minuciosamente  conhecido. 

As  sarigueias  são  caracterisadas  por  uma  cauda  comprida,  esca- 
mosa e  prehensora.  É  n'este  género  que  se  encontram  os  didelphos  pro- 
priamente ditos  de  maiores  dimensões. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHICA 


Estes  marsupiaes  pertencem  exclusivamente  á  America  intertropical. 


COSTUMES 


As  sarigueias  são  animaes  nocturnos  que  vivem  nas  arvores  onde 
apanham  fructos,  perseguem  os  insectos,  comem  ovos,  moUuscos  e  ainda 
outros  pequenos  animaes. 

Segundo  Rengger,  que  fez  observações  interessantíssimas  acerca  da 
reproducção  dos  didelphos  selvagens  do  Paraguay,  é  no  meio  do  inverno, 
isto  é  em  Agosto,  que  principia  o  cio  para  estes  animaes;  é  pelo  menos 
n'esla  epoclia  que  os  sexos  se  encontram  reunidos  e  é  no  mez  seguinte 
que  as  fêmeas  apparecem  gravidas.  «Não  parem,  diz  o  alludido  escri- 
ptor,  senão  uma  vez  por  anno.  O  numero  de  filhos  varia  segundo  as  es- 
pécies e  até  segundo  os  indivíduos.  Vi  fêmeas  de  uma  mesma  espécie 
terem  quatorze,  oito,  quatro  ou  mesmo  um  só  filho.  A  gestação  dura 
trez  semanas.  No  começo  de  Outubro  realisa-se  o  parlo,  passaudo  imme- 
dialamcnte  os  filhos  á  bolsa  marsupial  e  prendendo-se  ás  mamas  por  es- 
paço de  cincoenta  dias.  Decorrido  este  tempo,  os  filhos  abandonam  a 


404  HISTORIA  NATURAL 

bolsa,  mas  não  abandonam  por  isso  a  mãe;  Irepam-lhe  ao  dorso,  ahi  se 
engancham,  segurando-se  ao  pêllo  c  assim  vivem  ainda  por  um  certo 
tempo.»  * 

O  mesmo  observador  continua:  «Os  filhos  não  nascem  todos  ao 
mesmo  tempo;  decorrem  muitas  vezes  trez  ou  quatro  dias  entre  o  nas- 
cimento do  primeiro  e  o  do  ultimo. 

«Os  recemnascidos  são  e  conservam-se  ainda  um  certo  tempo  ver- 
dadeiros embryões.  Teem  quando  muito  um  centímetro  e  meio  de  com- 
prido; o  corpo  é  mi,  a  cabeça  proporcionada  ao  resto  do  corpo,  os  olhos 
fechados,  as  narinas  e  a  bocca  já  abertas,  as  orelhas  com  pregas  ou  do- 
bras longitudinaes  e  transversaes.  Os  membros  anteriores  cruzam-se  so- 
bre o  peito,  os  posteriores  sobre  o  ventre  e  a  cauda  enrola-se  sobre  si 
mesma.»  Estes  animaes,  quatro  semanas  depois  de  terem  entrado  na 
bolsa  marsupial,  apresentam  o  tamanho  de  um  ratinho  e  ao  fim  de  sete 
o  de  uma  ratazana,  abrindo  então  os  olhos.  Só  vinte  e  quatro  dias  de- 
pois da  sua  saída  do  útero  é  que  os  pequenos  didelphos  principiam  a 
excretar  matérias  fecaes;  a  mãe  abre  de  quando  em  quando  a  bolsa 
marsupial  para  expulsar  as  dijecçôes. 


CAGA 


As  sarigueias  são  animaes  prejudicialissimos,  perigosos  inimigos  das 
capoeiras,  mesmo  quando  captivos.  Por  isso  em  toda  a  parte  se  lhes  faz 
uma  guerra  de  extermínio.  Apanham-se  em  armadilhas  ou  esperam-se 
de  noite  e,  no  momento  em  que  ellas  se  approximam  dos  gahinheiros, 
apresenta-se-lhes  uma  luz;  fascinadas  pelo  brilho  da  chamma  não  pen- 
sam em  fugir  e  é  então  muito  fácil  matal-as  á  pancada. 


CAPTIVEIRO 


Todas  as  sarigueias  se  domam  e  reduzem  a  tal  ou  qual  grão  de  do- 
mesticidade;  é  possivel  tocal-as  sem  que  ellas  mordam.  No  entanto  não 


*    Citado  por  Brehm,  Obr.  cit,  pg.  13. 


mamíferos  em  especial  405 

manifestam  intelligencia  e  são  desagradáveis  não  só  pela  extrema  feal- 
dade, mas  ainda  pelo  cheiro  repugnante  que  espalham  em  torno  de  si. 


A  SARIGUEIA  DA  VIRGÍNIA 


É  a  espécie  mais  conhecida  e  também  uma  das  maiores  do  género. 
O  manto  nada  oíferece  de  notável;  é  formado  de  um  pêllo  grosseiro  de 
um  branco  amarellado  por  todo  o  corpo,  excepto  nas  patas  que  são  tri- 
gueiras. As  dimensões  da  sarigueia  da  Virgínia  são  approximadamente 
as  do  gato  domestico:  mede  meio  metro  de  comprimento  sobre  vinte  e 
dois  centímetros  de  altura;  a  cauda  tem  trinta  centímetros  de  extensão. 
O  corpo  é  pezado,  o  pescoço  curto  e  grosso,  a  cabeça  comprida,  a  re- 
gião frontal  achatada,  o  focinho  comprido  e  ponteagudo,  as  pernas  cur- 
tas, os  dedos  eguaes  uns  aos  outros  em  extensão  e  o  pollegar  opponente 
nas  patas  posteriores.  A  cauda,  muito  grossa,  principalmente  na  base, 
arredondada  e  terminada  em  ponta,  só  é  coberta  de  péllos  na  raiz;  em 
todo  o  resto  da  extensão  cobrem-a  escamas  por  entre  as  quaes  apparece 
um  ou  outro  péllo  curto.  Esta  cauda  é  prehensora  e  a  sarigueia  serve-se 
d'ella  para  trepar  ás  arvores.  A  fêmea  tem  uma  bolsa  marsupial  com- 
pleta. 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPHIGA 


A  America  do  Norte  é  a  pátria  d'este  marsupial;  encontramol-o 
desde  o  México  até  ás  regiões  frias  dos  Estados-Unidos,  á  Pensylvania  e 
aos  grandes  lagos.  Abunda  na  parte  media  d'este  vasto  espaço. 


406  HISTORIA  NATURAL 


COSTUMES 


Audubon,  que  observou  detidamente  a  sarigueia  da  Virgínia  em  li- 
berdade, escreve :  «Os  movimentos  doeste  didelpho  são  de  ordinário  va- 
garosos; caminha  a  passo  com  a  cauda  quasi  a  arrastar  pelo  chão  e  com 
as  orelhas  levantadas,  fitas.  Á  medida  que  vae  marchando  applica  a  ex- 
tremidade do  focinho  a  todos  os  objectos  que  encontra  pelo  caminho 
para  reconhecer  que  qualidade  de  animal  por  ahi  passou.  Parece-me  es- 
tar vendo  d'aqui  uma  sarigueia  a  saltar  brandamente  pela  neve  que  se 
derrete,  á  beira  de  um  lago  pouco  frequentado,  farejando  tudo  quanto 
encontra  em  volta  de  si,  para  encontrar  a  pista  de  alguma  presa  prefe- 
rida. Acaba  de  descobrir  os  vestígios  da  passagem  recente  de  uma  per- 
diz ou  de  uma  lebre:  ergue  o  focinho,  aspira  o  ar  fino  e  cheio  de  ema- 
nações até  que  descobre  a  direcção  a  seguir;  corre  emfim  com  a  velo- 
cidade de  um  homem  em  marcha  apressada.  Mas,  pouco  tempo  depois 
estaca,  como  se  tivesse  seguido  um  caminho  errado  ou  se  estivesse  em 
duvida  sobre  a  direcção  a  proseguir.  Decerto  a  presa  fez-lhe  perder  a 
pista,  dando  um  grande  salto  ou  retrocedendo  sem  que  a  sarigueia 
desse  por  tal.  Então  levanta-se  sobre  os  membros  posteriores,  observa 
por  um  momento  o  espaço  que  a  cerca,  fareja  em  todos  os  sentidos 
e  prosegue  depois.  Agora  não  a  perca  de  vista  o  leitor.  Parou  ao  pé 
d'aquella  arvore  magestosa,  girou  em  torno  do  tronco  velhíssimo,  farejou 
entre  as  raizes  cobertas  de  neve  e  acabou  por  encontrar  uma  abertura 
por  onde  se  insinuou.  Passados  minutos,  eil-a  que  reapparece,  arrastando 
agora  comsigo  um  esquilo  já  sem  vida;  tral-o  entre  os  dentes  e  principia 
a  trepar  com  elle  vagarosamente  a  uma  arvore.  Não  lhe  agradando  a 
primeira  bifurcação  da  arvore,  receiando  ser  ahi  vista,  a  serigueia  con- 
tinua a  trepar  até  que  encontra  um  berço  frondoso,  constituído  á  custa 
de  ramos  entrelaçados  com  cepas  bravas;  ahi  senta-se  commodamente, 
enrola  a  longa  cauda  a  algum  ramo  novo  e  principia  o  repasto,  segurando 
entre  as  unhas  dianteiras  o  esquilo  e  rasgando-o  com  os  dentes  agudi- 
cissimos. 

«Quando  os  bellos  dias  de  primavera  voltam  e  as  arvores  princi- 
piam a  cobrir-se  de  rebentos  vigorosos,  a  sarigueia  apresenta-se  ainda 
quasi  nua  e  parece  depauperada  por  um  longo  jejum.  Visita  então  as 
bordas  dos  pequenos  lagos  e  ahi  se  regala  a  vêr  as  rãs  novas  cujo  crés- 


mamíferos  em  especial  407 

cimento  espera  em  ante-gostos  de  gastronomia.  Entretanto  principiam  a 
apparecer  os  renovos  tenros  e  succulentos  da  phitolacca  e  das  ortigas 
que  lhe  serão  valiosissimo  soccorro.  O  grito  natural  do  peru  bravo  aca- 
ricia-lhe  deliciosamente  os  ouvidos,  porque,  astuciosa  como  é,  bem  sabe 
a  sarigueia  que  a  fêmea  responderá  pouco  depois  e  que  então  poderá 
seguil-a  até  ao  ninho  e  ahi  sugar-lhe  os  ovos,  manjar  predilecto.  Cami- 
nhando atravez  dos  bosques  ou  por  terra  ou  pelas  arvores,  de  ramo  em 
ramo,  ouve  também  o  canto  do  galío;  e  então  palpita  de  prazer  lem- 
brando-se  do  famoso  banquete  que  no  verão  passado  fizera  n'uma  her- 
dade visinha.  De  vagar,  com  os  olhos  fitos  e  deslisando  sem  ruido  con- 
segue introduzir-se  na  capoeira. 

«A  fêmea  pode  citar-se  como  um  modelo  de  ternura  maternal.  Olhando 
para  o  fundo  da  sua  bolsa  singular,  vér-se-hão  os  filhos  todos  agacha- 
dos, seguro  cada  um  a  uma  teta.  Excellente  mãe,  a  sarigueia  não  só  os 
alimenta  com  cuidado,  mas  protege-os  contra  os  inimigos,  ora  arreba- 
tando-os  comsigo,  como  faz  a  phoca,  ora  indo  collocal-os  á  sombra  de 
um  tulipeiro,  occultos  entre  a  folhagem.  Ao  fim  de  dois  mezes  os  filhos 
podem  já  prover  ás  próprias  necessidades  e  então  cada  um  d'elles  re- 
cebe da  mãe  lipões  especiaes  sobre  o  modo  futuro  de  proceder. 

(cimagine  agora  o  leitor  que  o  dono  de  uma  herdade  surprehende  a 
sarigueia  em  flagrante  delicto  de  lhe  estrangular  alguma  das  melhores 
gallinhas.  Exasperado,  furioso,  o  homem  atira- se  contra  o  marsupial  que, 
reconhecendo  a  própria  fraqueza,  se  enrola  n'uma  bola  e  recebe  sem 
se  mexer  as  pancadas.  Quanto  mais  o  homem  se  exaspera  tanto  menos 
o  animal  manifesta  a  intenção  de  se  vingar;  conserva-se  aos  pés  do 
aggressor  sem  dar  signaes  de  vida,  com  a  bocca  aberta,  a  lingua  pen- 
dente e  os  olhos  fechados  até  que  o  verdugo  se  resolve  a  deixal-o,  pen- 
sando comsigo — está  morto.  Mas  não  está,  leitor;  fingia-se  morto,  mas 
desde  que  o  homem  lhe  volta  as  costas,  ergue-se  lentamente  e  depois 
deita  a  correr  na  direcção  da  floresta.»  * 

De  todos  os  sentidos  da  sarigueia  da  Virgínia  o  mais  perfeito  é  o 
olfato;  immediatamente  depois  está  a  vista.  Os  outros  sentidos  parecem 
imperfeitíssimos.  Nas  florestas  espessas  que  lhe  offerecem  uma  obscuri- 
dade conveniente,  a  sarigueia  da  Virgínia  vagueia  de  noite  e  de  dia. 
Nos  Togares  onde  tem  algum  perigo  a  receiar,  dorme  o  dia  inteiro  es- 
condida n'uma  toca  ou  occulta  nos  troncos  carcomidos  das  arvores  e  ape- 
nas sáe  á  noite. 

Só  no  tempo  do  cio  é  que  se  encontram  juntos,  macho  e  fêmea;  no 


•     Audubon,  Schies  de  la  nature  dans  les  Ètata-Unia  et  le  Nort  de  VAmériquCf 
tom.  II.  Citado  por  Brehm,  Loc.  cit,,  p.  13  e  14. 


408  HISTORIA   NATURAL 

resto  do  anno  vivem  separados,  solitários.  A  sarigueia  da  Virginia  não 
tem  escondrijo  certo;  refugia-se  no  primeiro  logar  conveniente  que  en- 
contra ao  erguer  do  sol.  Se  depara  com  uma  toca  onde  algum  fraco  roe- 
dor tenha  estabelecido  morada,  apropria-se  d'ella  e  devora  o  proprie- 
tário. 

Quando  a  alimentação  animal  falia  completamente  a  sarigueia  con- 
tenta-se  com  raizes  succolentas.  Prefere  o  sangue  a  tudo;  e  é  esta  a  ra- 
zão porque  mata  quanto  pode.  Entrando  n'uma  capoeira,  matará,  se  a 
não  surprehenderem,  todas  as  aves  que  encontrar,  somente  para  lhes 
beber  o  sangue;  não  tocará  na  carne  de  nenhuma  d'ellas.  Embriaga-se 
com  o  sangue  e  muitas  vezes  é  encontrada  de  manhã  a  dormir  entre  os 
corpos  das  victimas. 

Prudente  de  ordinário,  a  sarigueia  lorna-se  porém  surda  e  cega 
desde  que  vê  a  possibilidade  de  satisfazer  a  sede  de  sangue.  Não  co- 
nhece então  perigos  de  qualidade  nenhuma;  podem  os  cães  matal-a,  sem 
que  se  defenda,  pode  o  homem  bater-lhe,  sem  que  deixe  a  presa  para 
fugir. 

A  sarigueia  é  plantigrada.  A  corrida,  que  é  pouco  rápida,  consiste 
n'uma  serie  de  pequenos  saltos.  A  trepar  porém,  é  de  uma  extrema  agi- 
lidade. O  pollegar  opponente  das  patas  posteriores  e  a  cauda  prehensora 
prestam-lhe  grandes  serviços  n'este  exercício.  Nas  sarigueias  captivas 
tem-se  observado  o  modo  de  reproducção  da  espécie.  A  gestação  dura 
vinte  e  quatro  dias;  o  parto  dá  de  quatro  a  dezeseis  filhos  completa- 
mente informes  tendo  mais  a  apparencia  de  uma  pequena  massa  gelati- 
nosa que  de  animaes.  Pezam  apenas  vinte  e  cinco  centigrammas  e  não 
teem  mais  espessura  que  a  de  um  cabello.  Não  possuem  ainda  nem  olhos, 
nem  orelhas  e  a  fenda  boccal  acha-se  apenas  indicada.  A  bocca  desen- 
volve-se  antes  do  resto  do  corpo;  os  olhos  e  as  orelhas  principiam  a  de- 
senhar-se  muito  posteriormente.  Ao  fim  de  quinze  dias  a  bolsa,  cujos 
bordos  a  mãe  pode  á  vontade  contrair  ou  dilatar,  abre-se.  Só  ao  fim  de 
cincoenta  dias  se  podem  os  filhos  considerar  formados  completamente; 
apresentam  então  as  dimensões  de  um  pequeno  rato,  são  cobertos  de 
péllo  e  teem  os  olhos  rasgadamente  abertos.  Ao  fim  de  sessenta  dias  de 
aleitamento,  o  pezo  primitivo  d'estes  animaes  tem  centuplicado.  Uma  vez 
attingidas  as  dimensões  de  um  rato  grande,  os  filhos  abandonam  a 
bolsa  marsupial,  embora  fiquem  ainda  subordinados  por  algum  tempo  aos 
cuidados  maternos. 


mamíferos  em  especial  409 


CAÇA 


Os  estragos  que  a  sarigueia  produz  principalmente  nas  aves  de  que 
é  um  terrivel  inimigo,  fazem  com  que  por  toda  a  parte  onde  existe,  o  ho- 
mem lhe  mova  uma  guerra  de  extermínio. 


GAPTIVEIRO 


A  sarigueia  em  captiveiro  é,  segundo  Brehm,  um  animal  aborrecido, 
preguiçoso  e  estúpido  que  se  conserva  indifferente  a  tudo,  deitado  o  dia 
inteiro,  enrolado,  erguendo  a  cabeça  apenas  quando  o  excitam.  Quando 
este  ultimo  caso  se  dá,  a  sarigueia  abre  a  bocca  em  quanto  alguém  per- 
manece junto  da  jaula. 

Como  se  vê,  a  sarigueia  em  captiveiro  desmente  as  qualidades  de 
astúcia,  actividade  e  intelligencia  que  lhe  são  attribuidas  em  hberdade 
por  Audubon  e  outros  naturalistas. 


usos   E   PRODUCTOS 


A  carne  da  sarigueia  da  Virgínia  constituo  para  os  negros  um  ali- 
mento. Os  europeus  não  supportam  esta  carne  por  causa  de  um  cheiro 
repugnante  de  que  se  acha  impregnada  e  que  provem  de  duas  glândulas 
anaes. 

A  pelle  d'este  marsupial  dá  mantos  ou  coberturas  de  que  fazem  uso 
os  pastores. 


410  HISTORIA    NATURAL 


AS  SARIGUEIAS  IMPROPRIAMENTE  DITAS 


Dislinguem-se  do  género  precedentemente  estudado  no  facto  de  não 
possuirera  uma  bolsa  marsupial  completa,  mas  apenas  duas  pregas  cu- 
tâneas que  a  substituem. 


O  CANCRIVORO 


É  a  maior  espécie  do  género  e  mesmo  da  familia.  Tem  oitenta  e 
quatro  centímetros  de  comprimento,  dos  quaes  quarenta  e  quatro  per- 
tencem á  cauda.  É  notável  principalmente  pelos  péllos  espinhosos,  de 
comprimento  superior  a  oito  centímetros,  amarellos  claros  na  raiz  e  tri- 
gueiros escuros  no  resto  da  extensão.  As  partes  lateraes  do  tronco  são 
amarellas;  o  ventre  varia  entre  o  trigueiro  e  o  branco  amarellado.  Os 
pêllos  da  cabepa  são  curtos  e  trigueiros  escuros;  dos  olhos  ás  orelhas 
estendem-se  listras  amarellas.  As  orelhas,  os  membros  e  a  metade  ante- 
rior da  cauda  são  negros.  A  metade  posterior  d'este  ultimo  órgão  é 
clara,  quasi  branca. 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPHIGA 


O  cancrivoro  encontra-se  espalhado  em  toda  a  America  tropical; 
vive  principalmente  nas  florestas  do  Brazil,  junto  dos  pântanos. 


mamíferos  em  especial  411 


COSTUMES 


Vive  a  maior  parte  do  seu  tempo  sobre  as  arvores,  d'onde  não 
desce  a  terra  senão  para  caçar.  A  cauda  prehensora  permitte-lhe  trepar 
facilmente,  agarrar-se  a  tudo  quanto  encontra;  quando  pretende  repousar, 
principia  por  enrolar  a  cauda  a  um  solido  ramo  d'arvore.  Em  terra  ca- 
minha lentamente,  com  difflculdade ;  no  entanto  sabe  apanhar  os  peque- 
nos mamiferos,  os  insectos,  os  crustáceos  e  principalmente  os  carangue- 
jos, seu  alimento  favorito.  O  nome  de  cancrivoro  significa  mesmo  animal 
que  come  caranguejos.  Nos  ramos  das  arvores  persegue  as  aves  e  des- 
troe  os  ninhos;  também  come  fructos.  Ás  vezes  visita  as  capoeiras  e  são 
então  enormes  os  estragos  que  produz,  destruindo  gallinhas  e  pombos. 


O  ENEIANO 


Este  marsupial  assemelha-se  muito  ao  que  acabamos  de  descrever; 
de  todas  as  espécies  do  género  é  esta  a  que  possua  as  pregas  marsu- 
piaes  menos  completas.  Tem  este  animal  quinze  centímetros  de  com- 
prido sobre  quatro  de  altura;  a  cauda  mede  dezenove.  É  pois  mais  pe- 
queno que  a  ratazana  domestica  a  que  se  assemelha  muito.  Tem  o  corpo 
alongado,  o  pescoço  curto  e  grosso,  as  pernas  baixas,  sendo  as  poste- 
riores mais  extensas  que  as  anteriores;  a  planta  dos  pés  é  desnudada, 
de  dedos  separados  e  munidos  de  unhas  curtas,  pouco  recurvas  e  ace- 
radas. Nas  patas  posteriores  ha  um  poUegar  opponente,  desprovido  de 
unha  e  ligado  ao  segundo  dedo  por  uma  pequena  membrana  extensível. 
A  cauda  é  comprida,  fina,  arredondada,  ponteaguda,  coberta  de  péllos  á 
raiz,  mas  desnudada  e  escamosa  no  resto  da  extensão;  este  órgão  é  pre- 


412  mSTORIA  NATURAL 

hensor.  O  dorso  é  pardo  e  o  ventre  branco  amarellado.  Os  olhos  são  cir- 
cuitados por  uma  pequena  mancha  escura;  a  fronte,  o  dorso  do  nariz,  as 
faces  e  as  patas  são  de  um  branco  amarellado. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHICA 


O  eneiano  vive  a  Noroeste  do  Brazil,  habitando  ahi  as  planícies  bai- 
xas, cobertas  de  florestas  virgens. 


COSTUMES 


O  género  de  vida,  os  hábitos  do  eneiano  são  os  do  cancrivoro.  Vive 
nas  arvores  como  elle  e  é,  como  elle  também,  muito  pouco  ágil  em  terra. 
É  nocturno;  esconde-se  durante  o  dia  e  só  depois  de  desapparecer  o  sol 
é  que  procura  alimento. 

Só  na  epocha  do  cio  é  que  se  encontram  reunidos  macho  e  fêmea; 
em  todo  o  outro  tempo  vivem  inteiramente  isolados. 

A  fêmea  pare  de  cada  barriga  cinco  a  seis  filhos  informes  que  se 
prendem  aos  mamillos  como  fructos  ás  arvores.  Logo  que  se  cobrem  de 
péllo,  destacam-se  das  tetas  e  agarram-se  ao  dorso  da  mãe  enrolando  as 
caudas  na  d'ella.  Mas,  como  todos  os  marsupiaes,  estes,  mesmo  depois 
de  poderem  prescindir  do  leite  materno,  ainda  por  muito  tempo  se  re- 
fugiam ao  menor. perigo  no  dorso  da  mãe  que  os  conduz  a  logar  seguro; 
d'aqui  vem  o  nome  de  eneianos  dado  a  estes  marsupiaes  por  confronto 
com  o  heroe  da  Eneida.  Em  casos  de  susto  o  eneiano  erriça  o  pêllo  e 
espalha  em  torno  de  si  um  cheiro  insupportavel. 


mamíferos  em  especial  413 


usos  E  PRODUGTOS 


Os  negros  comem  a  carne  do  eneiano.  É  o  único  producto  que  se 
aproveita. 


A  SARIGUEIA  LONTRINA 


Este  animal,  apezar  de  conhecido  ha  muito  tempo,  está  ainda  hoje 
mal  estudado.  Buffon,  illudido  pelas  membranas  interdigitaes,  conside- 
rou-o  uma  lontra  e  denominou-o  mesmo  pequena  lontra  da  Guyana.  Ou- 
tros naturahstas  chamaram-lhe  lontra  de  Dumerara^  obdecendo  á  mesma 
illusão;  os  inglezes  conservaram-lhe  o  nome  indígena  de  yapocte. 


CARACTERES 


A  sarigueia  lontrina  é  um  marsupial  curiosíssimo.  Tem  a  phisiono- 
mia  de  uma  ratazana.  Apresenta  as  orelhas  grandes,  ovaes,  membra- 
nosas  e  nuas.  O  corpo  é  alongado,  cylindrico  e  repousa  sobre  membros 
curtos.  A  cauda  tem  o  comprimento  do  corpo;  é  susceptível  de  enro- 
lar-se,  ma?  não  é  prehensil.  O  péllo  é  molle,  liso  e  acamado.  O  manto 
apresenta  este  pêllo  ao  lado  de  sedas  compridas.  A  parte  superior  do 
corpo  é  cinzenta  e  a  parte  inferior  branca.  Na  cabeça  existem  seis  lar- 
gas fachas  transversaes.  A  cauda  e  as  orelhas  são  negras.  As  patas  são 
de  um  trigueiro  claro  na  face  dorsal  e  de  um  trigueiro  escuro  na  planta. 
O  focinho  é  negro. 

O  animal  adulto  mede  cincoenta  centímetros  de  comprimento;  a  al- 
tura é  de  dez  centímetros. 


414  HISTORIA  NATURAL 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHICA 


Vive  n'uma  grande  parte  da  America  do  Sul.  Encontra-se  ao  longo 
das  costas  desde  o  Rio  de  Janeiro  até  Honduras.  É  muito  difficil  de  apa- 
nhar; por  isso  é  raríssimo  nas  nossas  coUeçÕes. 


COSTUMES 


A  raridade  d'este  marsupial  sob  o  domínio  do  homem,  a  diíTiculdade 
com  que  se  observa,  faz  com  que  a  sua  historia  deixe  muito  a  desejar. 

Vive  nas  florestas  perto  dos  regatos,  occulto  de  ordinário  n'um  bu- 
raco ou  toca  junto  das  margens.  Nada  com  grande  facilidade  e  rapidez 
e  procura  alimentos  tanto  de  dia  como  de  noite. 

Nutre-se  principalmente  de  peixes  e  pequenos  animaes  aquáticos. 
Pode  em  casos  de  necessidade  adaptar-se  a  um  regime  vegetal. 

O  numero  de  filhos  dados  á  luz  em  cada  parto  é  de  cinco.  Nada 
mais  se  conhece  relativamente  á  reproducção. 


CAÇA 


Raras  vezes  se  dá  caça  a  este  marsupial.  O  tiro  quasi  nunca  se  em- 
prega, mas  sim  as  redes,  onde  elle  se  prende,  morrendo  assim  affogado. 


mamíferos  em  especial  415 


OS  PERAMELIDEOS 


A  grande  desegualdade  dos  dedos  é  um  dos  caracteres  mais  salien- 
tes d'estes  marsupiaes. 

Nas  patas  anteriores  apresentam  cinco  dedos,  sendo  o  interno  e  ex- 
terno como  que  atrophiados,  reduzidos  a  um  tubérculo;  os  trez  dedos 
médios  são,  pelo  contrario,  muito  grandes,  livres  e  armados  de  unhas 
fortes,  recurvas  em  forma  de  fouce  e  apropriadas  a  escavar.  Nas  patas 
posteriores  o  dedo  pollegar  é  atrophiado;  o  segundo  e  o  terceiro  dedos 
são  soldados  até  á  unha. 

O  corpo  é  n^estes  marsupiaes  refeito,  relativamente  volumoso.  A  ca- 
bepa  é  ponteaguda,  as  orelhas  são  ou  de  media  grandeza  ou  muito  com- 
pridas e  a  cauda  é  em  geral  curta  e  pouco  pelluda. 

O  numero  de  mamas  é  oito.  A  dentição  é  a  dos  didelphos  propria- 
mente ditos  com  a  única  differenpa  de  que  nos  peramelideos  não  existem 
mais  que  trez  incisivos. 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPHICA 


Todas  as  espécies  conhecidas  d'esta  vasta  familia  pertencem  à  Aus- 
trália. 


COSTUMES 


• 

Os  marsupiaes  comprehendidos  n'esta  familia  habitam  as  montanhas 
elevadas  e  frias;  cavam  tocas  onde,  ao  menor  perigo,  se  refugiam. 

Ás  vezes  encontram-se  estes  animaes  perto  das  plantações  e  dos  le- 
gares habitados;  de  ordinário  porém,  fogem  do  homem. 

A  maior  parte  das  espécies  são  sociáveis  e  tecm  hábitos  nocturnos. 
Os  movimentos  são  rápidos;  não  trepam  e  a  sua  marcha  consiste  em  uma 
serie  de  saltos  mais  ou  menos  extensos.  Gomem  insectos  e  vermes  e  ao 


416  HISTORIA  NATURAL 

mesmo  tempo  substancias  vegetaes.  Levam  á  bocca  os  alimentos  com  as 
patas  anteriores,  conservando-se  meio  erguidos  e  apoiados  sobre  os  mem- 
bros posteriores  e  sobre  a  cauda. 

Todos  estes  marsupiaes  são  desconfiados,  timidos  e  irmocentes:  fo- 
gem dos  perigos  e  evitam  a  proximidade  do  homem. 

Os  estragos  que  produzem  são  muito  grandes,  ás  vezes;  porque 
para  acharem  raízes  acontece  de  remexerem  inteiramente  um  campo. 


CAPTIVEIRO 


Supportam  bem  o  captiveiro  e  domesticam-se  facilmente. 


usos  E  PRODUGTOS 


Cremos  que  nenhuma  utilidade  se  tira  d'estes  animaes.  Brehm  aíTirma 
que  nem  se  lhes  utiUsa  a  pelle,  nem  se  lhes  come  a  carne.  Outros  natu- 
rahstas  que  consultamos  nada  referem  sobre  este  ponto  nem  na  genera- 
lidade, nem  na  especiahdade. 


O  PERAMELIDEO  NASICO 


Este  animal  parece-se  ao  mesmo  tempo  com  o  coelho  e  com  o  mu- 
saranho, como  vamos  vêr  estudando-o  morphologicamente. 


mamíferos  em  especial  417 


CARACTERES 


Tem  o  focinho  ponteagudo;  o  nariz  excede  muito  o  lábio  inferior, 
as  orelhas,  curtas  e  pelludas,  são  largas  em  baixo,  mas  terminadas  supe- 
riormente em  ponta,  os  olhos  são  pequenos,  o  corpo  alongado,  a  cauda 
é  de  comprimento  médio,  coberta  de  péllos  curtos  e  os  membros  são 
fortes  e  tão  compridos  os  de  diante  como  os  de  traz. 

O  manto  é  formado  de  pellos  de  duas  ordens:  um  curto,  raro  e  fi- 
níssimo, outro  comprido  e  sedoso. 

A  parte  superior  do  corpo  apresenta  uma  côr  que  é  uma  verdadeira 
mistura  do  pardo,  trigueiro  e  negro.  O  ventre  é  branco  amarellado  e  a 
parte  superior  das  patas  de  traz  amarello-trigueira  um  pouco  clara.  A 
cauda  é  de  um  trigueiro  muito  escuro  na  parte  superior  e  mais  claro  na 
inferior. 

O  animal  adulto  mede  sessenta  centímetros  de  comprimento,  incluida 
a  cauda  que  tem  dezeseis;  a  altura  é  de  dez  centímetros. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHIGA 


O  peramehdeo  nasico  habita  as  altas  e  frias  montanhas  da  Austrá- 
lia. Falta  nas  planícies  quentes;  desce  porém  algumas  vezes  até  a  beira 
do  mar. 


COSTUMES 


Cava  na  terra  grandes  buracos  que  lhe  servem  de  alojamento;  es- 
ses buracos  communicam  entre  si  por  meio  de  corredores.  Assim  é  que 
nos  togares  habitados  por  este  animal  o  sub-solo  encontra-se  completa- 
mente minado.  As  unhas  compridas  e  fortes  permitem-llie  cavar  facil- 
mente; e  a  forma  especial  do  focinho  coadjuva  tamboni  esta  natural  dis- 
posição. 

VOL.    III  27 


418  HISTORIA  NATURAL 

O  peramelideo  alimenta-se  de  animaes  e  vegetaes;  come  vermes  e 
insectos,  mas  ao  mesmo  tempo  procura  raizes  e  para  as  encontrar  alarga 
constantemente  os  buracos  e  corredores  subterrâneos.  Nos  batataes  faz 
ás  vezes  estragos  consideráveis;  o  mesmo  acontece  se  tem  occasião  de 
penetrar  nos  legares  em  que  se  arrecadam  os  cereaes.  Em  taes  condi- 
ções é  tão  prejudicial  como  os  ratos.  Como  porém  o  peramelideo  nasico 
não  possue  os  dentes  doestes  roedoreS;,  o  plantador  consegue  com  certas 
precauções  evitar-lhe  as  visitas;  a  conslrucção  de  muros  profundos  é 
sufflciente  para  que  se  alcance  o  desejado  fim. 

A  marcha  d'este  marsupial  assemelha-se  um  pouco  á  do  coelho. 
Pousa  alternativamente  sobre  o  solo  as  patas  de  traz  e  as  de  diante  em 
vez  de  segurar-se  exclusivamente  sobre  aquellas  como  fazem  os  kangu- 
rus.  Leva  os  ahmentos  á  bocca  com  os  membros  anteriores,  sentando-se 
sobre  os  de  traz  e  sobre  a  cauda. 

Só  se  faz  ouvir  quando  ferido.  A  voz  consiste  n'uma  espécie  de  as- 
sobio análogo  ao  dos  ratos. 

A  fêmea  pare  uma  só  vez  por  anno,  dando  á  luz  trez  a  seis  filhos. 


CAPTIVEIRO 


Uma  vez  subjeito  ao  dominio  do  homem,  o  peramehdeo  nasico  perde 
toda  a  timidez  do  estado  selvagem  e  torna-se  confiante,  inoff^ensivo,  dó- 
cil. No  entanto  é  raro  ver-se  em  captiveiro  este  marsupial. 


usos   E   PRODUCTOS 


Ha  naturahstas  que  afíirmam  que  a  carne  do  peramehdeo  nasico 
se  come  na  Austrália;  outros  porém,  negam  o  facto. 


mamíferos  em  especial  419 


O  PERAMELIDEO  RAIADO 


Mede  quarenta  e  Irez  centimelros  de  comprimento,  pertencendo  dez 
á  cauda.  Tem  as  orelhas  grandes  e  a  cauda  pouco  coberta  de  péllo.  O 
manto  é  negro  e  amarello,  dominando  esta  côr  aos  lados  do  tronco  e  o 
negro  sobre  o  dorso.  A  parte  posterior  do  tronco  é  dividida  por  listras 
transversaes,  escuras  umas,  outras  claras.  Ao  longo  da  cauda  na  parte 
superior  d'este  órgão  existe  uma  linha  muito  escura;  o  resto  do  órgão  é 
amarellado.  Na  cabeça,  no  pescoço  e  nas  patas  apparece  o  pardo  de 
mistura  cora  o  negro  e  o  amarello. 


DISTRIBUIÇÃO    GEOGRAPHIGA 


O  peramelideo  raiado  habita  uma  grande  parte  do  este  e  sul  da 
Austrália,  principalmente  as  montanhas  pedregosas  extensas  e  desertas 
do  interior  do  continente. 


COSTUMES,  usos  E  PRODUCTOS 


Sobre  os  costumes  d'este  marsupial  sabe-se  muito  pouco  ou  quasi 
nada.  Deve  ser  incluído  no  grupo  dos  marsupiaes  carnívoros.  A  marcha 
é  semelhante  á  do  coelho.  Eis  o  que  se  conhece. 

Os  indígenas  comem  a  carne  d'este  animal. 


420  HISTORIA  NATURAL 


OS  CHEROPOS 


Pelas  formas  geraes  do  corpo,  estes  mamíferos  recordam  muito  os 
macroscelidos.  Os  caracteres  genéricos  podem  resumir-se  assim:  um 
corpo  delgado,  repousando  sobre  membros  finos  e  altos  dos  quaes  os 
posteriores  são  mais  compridos  que  os  anteriores;  um  focinho  pontea- 
gudo;  orelhas  compridas;  uma  cauda  de  mediana  extensão,  pouco  pel- 
luda;  dois  dedos  pouco  extensos,  eguaes,  armados  de  unhas  curtas,  mas 
solidas  nas  patas  anteriores  e  nas  posteriores  um  só  dedo  grande,  sendo 
os  outros  atrophiados. 

Da  disposição  das  patas  deriva  o  nome  de  cheropos  que  em  grego 
significa  pé  de  porco. 

O  género  comprehende  uma  espécie  única  de  que  vamos  occu- 
par-nos. 


O  CHEROPO  SEM  CAUDA 


Não  se  tome  á  lettra  o  nome  d'este  animal;  não  se  pense  realmente 
que  elle  é  desprovido  de  órgão  caudal.  O  nome,  que  não  corresponde  á 
reahdade,  tem  uma  historia  que  Brehm  conta  nos  seguintes  termos. 
«Thomaz  Miguel  que  descobriu  a  espécie,  apanhou  vivo  o  primeiro  e 
único  individuo  que  encontrou  na  cavidade  de  uma  arvore  em  que  es- 
tava refugiado;  d'ahi  o  tirou  com  grande  espanto  seu  e  dos  indígenas 
que  declararam  nunca  ter  visto  animal  semelhante.  A  ausência  de  cauda 
no  animal  impressionou  o  naturahsta  que,  attendendo  a  isso  lhe  deu  o 
nome  quahficativo  de  sem  cauda.  Mais  tarde  porém  foram  enviados  à 
Europa  outros  exemplares  nos  quaes  existia  uma  cauda  de  quatorze  cen- 
tímetros de  comprimento.  O  primeiro  individuo  apanhado  perdera  eviden- 
temente aquelle  órgão  por  accidente  ou  por  qualquer  outro  motivo.  Gray 


mamíferos  em  especial  421 

observando  que  a  designação  sem  cauda  consagrava  um  erro,  propoz 
que  ella  fosse  substituída  pela  de  castanho,  attenta  a  cor  do  animal.  Em 
historia  natural  porém,  é  uso  respeitar  tanto  quanto  possível  o  nome 
mais  antigo;  e  é  por  isso  que  este  marsupial  é  ainda  hoje  conhecido 
pelo  nome  de  cheropo  sem  cauda. >)  * 


CARACTERES 


Este  marsupial  tem  pouco  mais  ou  menos  as  dimensões  de  um  coe- 
lho pequeno;  tem  trinta  centímetros  de  comprido,  não  contando  a  cauda 
cuja  extensão  é,  como  acima  dissemos,  de  quatorze  centímetros.  O  pêllo, 
comprido  e  molle,  é  pardo  escuro  sobre  o  dorso  e  branco  ou  branco 
amarellado  no  ventre.  As  orelhas  são  grandes,  cobertas  de  pôllos  de  um 
escuro  fuliginoso  e  de  outros  negros.  As  patas  anteriores  são  brancas, 
as  posteriores  ruivas  desmaiadas,  os  dedos  claros  e  a  cauda  negra  na 
face  dorsal  e  trigueira  clara  na  face  inferior  e  na  extremidade. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHIGA 


O  cheropo  sem  cauda  habita  principalmente  a  Nova-Galles  do  Sul 

{New-south-  Walles) . 


COSTUMES 


Prefere  as  planícies  cobertas  de  hervas  altas.  Os  seus  costumes  re- 
cordam os  dos  peramelídeos.  Construo  um  ninho  com  folhas  e  hervas 
seccas  nos  legares  cerrados  em  que  a  vegetação  abunda  e  sabe  tão  bem 
occultal-o  que  um  caçador  experimentado  lem  diííiculdade  em  desco- 


1    Brehm,  Obr.  ciL,  vol.  2.o,  pg.  24. 


422  IIISTOniA    NATURAL 

bril-0.  Alimenta-se  simultaneamente  de  vegetaes  e  de  insectos.  Eis  o  que 
se  sabe  de  bem  averiguado  sobre  o  género  de  vida  d'este  animal. 


OS  PHALANGISTAS 


Os  animaes  comprehendidos  n'esta  familia  são  notáveis  pelas  formas. 
São  em  geral  de  pequenas  dimensões;  raras  espécies  attingem  sessenta 
centímetros  de  comprimento.  A  cabeça  é  curta  e  o  lábio  superior  fendido 
como  nos  roedores.  Os  membros  são  todos  de  egual  comprimento;  o  nu- 
mero de  dedos  é  cinco  em  cada  pata,  sendo  o  interno  das  patas  posterio- 
res o  mais  grosso  e  formando  um  pollegar  opponente,  desprovido  d^unha. 
A  cauda  é  geralmente  comprida  e  prehensora;  falta  porém  n'um  género. 
As  fêmeas  teem  duas  a  quatro  mamas  na  bolsa  marsupial.  A  dentição 
comprehende  seis  grandes  incisivos  na  maxilla  superior,  dois  na  maxilla 
inferior,  falsos  mollares  rombos  e  verdadeiros  mollares  em  numero  de 
trez  ou  quatro,  erriçados  de  tubérculos;  os  caninos  ou  faltam  ou  não 
teem  a  forma  cónica  característica  e  são  rombos.  A  columna  vertebral 
apresenta  doze  a  treze  vértebras  dorsaes,  seis  ou  sete  lombares,  duas 
sagradas  e  até  trinta  caudaes.  O  estômago  é  simples,  glanduloso*;  o  cé- 
rebro não  apresenta  circumvoluções. 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPHICA 


Habitam  a  Austrália  e  algumas  ilhas  da  Ásia  do  Sul. 


mamíferos  em  especial  423 


COSTUMES 


Habitam  as  arvores  e  não  se  encontram,  por  isso  mesmo,  senão  nas 
florestas.  Só  muito  excepcionalmente  descem  a  terra;  a  maior  parte  das 
espécies  vivem  constantemente  nos  cimos  das  arvores. 

Com  poucas  excepções,  os  phalangistas  são  animaes  nocturnos.  Dor- 
mem a  maior  parte  do  dia  ou  mesmo  o  dia  inteiro;  só  ao  cair  da  tarde 
despertam  e  procuram  então  os  fructos,  as  foUias,  as  aves,  os  insectos 
e  os  ovos  que  lhes  servem  de  alimento.  Assim,  como  se  vê,  não  são  es- 
tes animaes  exclusivamente  carnívoros,  mas  antes  omnívoros,  dando  até, 
segundo  alguns  auctores,  preferencia  aos  vegetaes.  Os  que  se  alimentam 
de  raízes,  cavam  tocas  onde  passam  a  estação  dos  frios. 

Sob  o  ponto  de  vista  dos  movimentos,  as  espécies  differem  muito 
umas  das  outras.  Umas  teem  a  marcha  vagarosa,  prudente,  rastejante 
quasi;  outras,  ao  contrario,  são  rápidas,  excessivamente  ágeis.  Todas 
trepam  maravilhosamente  e  algumas  dão  saltos  consideráveis.  A  pre- 
sença em  algumas  espécies  de  uma  cauda  prehensora  e  de  uma  mem- 
brana aliforme  são  indícios  seguros  de  agilidade.  Todas  as  espécies  são 
plantigradas. 

Quasi  todos  os  phalangistas  são  sociáveis  e  vivem  aos  pares. 

N'umas  espécies  o  numero  de  filhos  é  de  quatro,  n^outras  apenas 
de  dois  ou  de  um  só. 

Todos  os  animaes  d'esta  família  são  innocentes  e  timidos.  Quando 
se  sentem  vivamente  perseguidos,  suspendem-se  de  um  ramo  pela  cauda 
e  ahi  se  deixam  ficar  immoveis  por  largo  tempo  simulando-se  mortos.  É 
este,  diz  Brehm,  o  único  signal  de  intelHgencia  que  dão  estes  marsu- 
piaes. 


CAPTIVEIRO 


Gonservam-se  longo  tempo  em  captiveiro  e  são  fáceis  de  alimentar. 
Raros  são  os  que  chegam  a  distinguir  o  dono  d^outras  pessoas. 


424  HISTORIA   NATURAL 


USOS  E  PRODUGTOS 


Alguns  d'estes  marsupiaes  invadem  as  plantações,  causando  prejuí- 
zos; em  compensação  porém,  fornecem-nos  a  carne  e  o  manto.  Pode  pois 
dizer-se  que  os  estragos  que  produzem  em  vida  são  neutralisados  pela 
utilidade  que  tiramos  dos  seus  productos,  depois  de  mortos. 


OS  PETAURISTAS 


Entre  todos  os  marsupiaes  trepadores  são  os  petauristas  os  mais 
ágeis.  Assemelham-se  muito  aos  esquilos  voadores,  diíTerindo  todavia 
d'elles  pela  dentição.  Teem  uma  membrana  aliforme  coberta  de  péllos, 
que  forma  como  que  uma  franja  ao  tronco  entre  os  membros  anteriores 
e  posteriores.  N'estes  marsupiaes  o  corpo  é  alongado,  a  cabeça  pequena 
e  o  focinho  ponteagudo;  os  olhos  são  grandes,  salientes  e  as  orelhas  le- 
vantadas, mais  ou  menos  ponteagudas.  A  cauda  é  comprida  e  coberta  de 
pêllos  abundantes.  O  péllo  é  molle  e  fino. 

Geralmente  não  excedem  estes  animaes  o  comprimento  de  trinta 
centímetros. 

Este  género  tem  sido  dividido,  attentas  a  dentição,  a  forma  das 
orelhas,  a  membrana  aliforme  e  a  cauda,  em  três  grupos :  os  petawris- 
tas-esquiloSy  os  petauristas  propriamente  ditos  e  os  acrobatas.  Passamos 
a  occupar-nos  de  cada  um  d'estes  grupos  genéricos  e  das  espécies  que 
conteem. 


mamíferos  em  especial  425 


OS  PETAURISTAS-ESQUILOS 


Teem  as  orelhas  nuas,  compridas,  chanfradas  no  bordo  externo,  a 
membrana  aliforme  interfemoral  estendida  até  ao  dedo  minimo  do  mem- 
bro anterior  e  emfim  quatro  pares  de  dentes  mollares  gemiformes  infe- 
riores. 


O  PETAURISTA-ESQUILO 


Por  ser  a  única  do  género,  esta  espécie  tomou  o  nome  d'elle.  Tem 
o  porte  e  as  dimensões  do  esquilo  da  Europa.  O  corpo  é  fino  e  delgado, 
parecendo  comtudo  espesso  pela  presença  da  membrana  aliforme  que  se 
estende  entre  os  membros.  O  pescoço  é  curto,  volumoso,  a  cabeça  chata, 
o  focinho  pouco  comprido,  a  cauda  arredondada,  pendente  e  abundante- 
mente coberta  de  pêllos;  as  orelhas  são  grandes,  os  membros  curtos,  os 
dedos  das  patas  anteriores  separados,  e  os  dedos  segundo  e  terceiro  das 
patas  posteriores  soldados  um  ao  outro.  Todos  os  dedos  são  armados  de 
unhas  recurvas,  excepto  o  pollegar  que  é  desprovido  d'ellas.  A  bolsa  da 
fêmea  é  completa.  O  manto  é  espesso,  abundante,  de  pêllo  fino  e  macio. 
A  parte  superior  do  corpo  é  cinzenta,  a  membrana  ahforme  trigueira  e 
bordada  de  branco  e  o  ventre  branco  com  reflexos  amarellados.  De  uma 
orelha  a  outra  e  passando  por  diante  dos  olhos  estende-se  um  traço  largo 
de  um  trigueiro  fuUginoso;  um  outro  da  mesma  côr  encontra-se  sobre  o 
nariz,  a  região  frontal  e  o  dorso.  A  cauda  é  cinzenta  clara  na  raiz  e  ne- 
gra na  ponta. 

O  animal  adulto  mede  vinte  e  seis  centímetros  de  comprimento 
sobre  nove  a  dez  de  altura;  a  cauda  mede  vinte  e  sete,  isto  é  apre- 
senta maior  extensão  que  todo  o  resto  do  corpo. 


426  HISTORIA  NATURAL 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHICA 


O  pelaurista-esquilo  habita  em  Nova-Galles  do  Sul,  em  Nova-Guiné 
e  na  ilha  Norfolk. 


COSTUMES 


O  petaurista-esquilo  é  um  animal  sociável  que  vive  em  pequenas 
famílias,  que  se  alimenta  de  substancias  vegetaes  e  de  insectos  e  que 
faz  das  arvores  o  seu  domicilio  único.  Tem  hábitos  nocturnos:  occulta-se 
durante  o  dia  nos  cimos  mais  espessos  das  arvores,  enrolando-se,  co- 
brindo-se  com  a  membrana  ahforme  e  dormindo.  Ao  cair  da  noite,  des- 
perta. Então  principia  para  elle  a  vida  activa  em  contraste  com  a  abso- 
luta falta  de  animação  que  o  caracterisa  durante  o  dia.  De  noite  trepa 
aos  ramos  com  prodigiosa  rapidez  e  para  saltar  abre  a  membrana  ali- 
forme  que  lhe  serve  como  de  pára-quedas.  De  dia  se  desperta  e  se  move, 
é  somente  para  procurar  ahmento;  mas  caminha  com  a  cabeça  baixa 
para  evitar  os  raios  do  sol  e  a  marcha  é  pezada  e  vacillante  como  a  de 
todos  os  animaes  nocturnos  durante  o  dia.  Mas  de  noite  o  contraste  é 
perfeito,  completo:  não  ha  macaco  ou  esquilo  que  o  excedam  em  agili- 
dade, em  rapidez  de  movimentos.  Dá  saltos  enormes  de  arvore  a  arvore; 
«saltando,  diz  Brehm,  de  uma  altura  de  dez  metros  pode  attingir  uma 
arvore  distante  vinte  e  cinco  ou  trinta  metros.))  *  Durante  o  salto  pode 
á  vontade  mudar  de  direcção,  servindo-se  para  isso  da  cauda  como  de 
um  leme. 

Nada  se  sabe  sobre  a  reproducção  doeste  marsupial. 


1     Brehm,  Loc.  ciL,  vol.  2.o,  pg.  27. 


mamíferos  em  especial  427 


CAÇA 


A  caça  ao  pelaurista-esquilo  que  durante  a  noite  seria  diíficillima, 
é,  pelo  contrario,  de  uma  extrema  facilidade  durante  o  dia.  Basta  então 
que  um  homem  trepe  a  uma  arvore  e  um  outro  fique  em  baixo:  o  que 
subiu  consegue  geralmente  apanhar  o  animal;  mas  se  isto  se  não  dá,  se 
o  petaurista  acordou  e  procurou  fugir  então  o  homem  continua  a  perse- 
guil-o,  até  que  elle  oíTuscado  pela  luz,  perca  a  certeza  do  salto  e  caia  nas 
mãos  do  companheiro  que  ficou  junto  á  base  da  arvore. 


GAPTIVEIRO 


O  petaurista-esquilo  é  um  animal  encantador  em  captiveiro.  É  inof- 
fensivo,  dócil,  fácil  de  domesticar  e  vivíssimo  de  noite,  embora  conserve 
sempre  uma  tal  ou  qual  timidez.  Vive  em  boa  harmonia  com  os  outros 
animaes  domésticos  e  chega  a  aííeiçoar-se  ao  homem.  Não  é  intehigente; 
mas  a  docilidade,  a  graça  e  a  alegria  compensam  a  falta  d'aquelle  pre- 
dicado. Habitua-se  facilmente  a  toda  a  ordem  de  alimentos,  mostrando 
sempre  uma  decidida  predilecção  pelos  fructos,  pelos  insectos  e  pelas 
coisas  doces.  É  o  que  affirma  Bennett  que  possuiu  uma  fêmea  e  a  trouxe 
á  Europa. 


428  HISTORIA  NATURAL 


OS  PETAURISTAS  PROPRIAMENTE  DITOS 


Differem  dos  petauristas-esquilos  em  o  bordo  externo  das  orelhas 
ser  inteiro  e  não  chanfrado  e  em  a  membrana  aliforme  se  estender  ape- 
nas do  carpo  ao  joelho. 


O    TAGUAN 


É  este  o  nome  que  ao  animal  dão  os  colonos;  também  é  conhecido 
pelas  denominações  de  phiJandra  volante  e  de  petaurista  taguanoide.  É 
o  maior  dos  marsupiaes  voadores.  O  corpo  mede  pouco  mais  ou  menos 
um  metro  de  comprimento,  incluída  a  cauda  que  tem  metade  exacta- 
mente. A  cabeça  é  pequena,  o  focinho  curto  e  agudo  e  a  cauda  abun- 
dantíssima; as  orelhas  são  largas,  espessas  e  largamente  cobertas  de 
péllo,  os  olhos  muito  grandes  e  as  patas  armadas  de  unhas  fortes,  agudas 
e  recurvas.  O  pêllo  do  manto  é  comprido  e  macio. 

A  cor  é  muito  variável;  mas  o  caso  mais  geral  é  ter  o  taguan  o 
dorso  trigueiro  escuro,  a  cabeça  trigueira,  a  membrana  aliforme  com  si- 
gnaes  brancos,  o  focinho,  o  mento  e  as  patas  negras  e  a  cauda  negra 
também  ou  castanha  mais  clara  na  raiz  que  no  resto  da  extensão.  O 
peito  e  o  ventre  são  brancos. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHIGA 


O  taguan  habita  a  Nova-Hollanda.  Abunda  principalmente  nas  gran- 
des florestas  que  ficam  entre  Port-Philippe  e  Moreton-Bay. 


mamíferos  em  especial  429 


COSTUMES 


É  o  taguan,  como  todos  os  outros  marsupiaes  da  família,  um  animal 
nocturno  que  se  conserva  dormindo  o  dia  inteiro  nos  troncos  carcomidos 
das  arvores  onde  se  encontra  ao  abrigo  dos  inimigos. 

Os  movimentos  d'este  marsupial  são  ágeis  e  precisos;  dá  saltos 
prodigiosos,  trepa  com  pasmosa  rapidez  e  atira-se  a  grandes  distancias 
de  arvore  em  arvore.  Raríssimas  vezes  desce  a  terra. 


CAPTIVEIRO 


A  diííiculdade  extrema  que  existe  de  apanhar  este  animal  vivo  ex- 
plica a  razão  por  que  é  raríssimo  em  captiveiro  e  por  que  mal  se  tem 
podido  observar  as  diíTerenças  de  costumes  que  apresenta  na  transição 
da  liberdade  para  o  dominio  do  homem. 


CAÇA 


O  indígena  da  Nova-Galles  do  Sul,  sollicitado  pela  fome  passa  o  seu 
tempo  constantemente  á  espreita  de  alguma  presa.  N'este  exercício  apren- 
deu a  reconhecer  com  admirável  perícia  os  legares  em  que  o  taguan 
constituiu  o  seu  domiciho.  Uma  ligeira  fenda  n'uma  arvore,  alguns  pcl- 
los  caídos  á  entrada  do  buraco  em  que  o  animal  penetrou  são-lhe  indí- 
cios bastantes  e  seguros  de  que  o  animal  está  em  tal  ou  tal  ponto;  o 
indígena  distingue  ainda  se  se  trata  de  um  domicílio  abandonado  ou  com 
habitantes.  Uma  vez  certificado  que  é  d'este  ultimo  caso  que  se  trata, 
elle  trepa  á  arvore  com  a  velocidade  de  um  macaco,  introduz  o  braço 
na  cavidade  em  que  o  animal  se  encontra,  apanha-o  pela  cauda,  parte- 
Ihe  immediatamente  a  cabeça  contra  um  ramo  e  atira  a  terra  o  cadáver. 
O  indígena  procede  assim,  porque  sabe  perfeitamente  que  o  animal  se 


430  HISTORIA    NATURAL 

Late  c  defende  corajosamente,  usando  dos  dentes  e  das  garras  com 
desespero  e  valentia.  O  europeu  nunca  tenta  a  caça  do  taguan  sem  a 
companhia  de  alguns  indígenas;  só  estes,  com  effeito,  sabem  encontrar 
o  animal,  só  elles  são  capazes  de  o  extraírem  do  seu  escondrijo  com  a 
rapidez  indispensável  para  que  elle  não  possa  empregar  as  garras  e  os 
dentes. 


OS  ACROBATAS 


Teem  as  orelhas  pouco  cobertas  de  pello,  a  membrana  aliforme  muito 
larga,  estendendo-se  apenas  até  ao  carpo  e  os  pellos  da  cauda  dísticos, 
isto  é  dispostos  em  duas  hnhas. 


O  PEQUENO  ACROBATA 


É  o  menor  de  lodos  os  marsupiaes  voadores.  Tem  as  dimensões  de 
um  ratinho  e  quando  está  sentado,  por  isso  que  a  membrana  aliforme 
se  une  intimamente  ao  corpo,  parece  exactamente  este  roedor;  é  esta  a 
razão  por  que  lhe  foi  dado  o  nome  vulgar  de  ratinho  voador.  Tem  ape- 
nas quinze  centímetros  de  comprimento,  pertencendo  metade  á  cauda. 
O  péllo  é  curto  e  macio,  pardo  trigueiro  sobre  o  dorso  e  branco  amarel- 
lado  no  ventre;  os  olhos  são  circuitados  de  negro  e  as  orelhas,  negras 
adiante,  são  claras  posteriormente.  A  cauda  é  de  um  pardo  trigueiro  na 
face  superior  e  desmaiado  na  inferior.  A  membrana  aliforme  apresenta 
uma  como  bordadura  branca. 


MAMÍFEROS  EM  ESPECIAL  431 


DISTEIBUIGAO   GEOGRAPIIICA 


Este  marsupial  pertence  á  Nova-Galles  do  Sul. 


COSTUMES 


Alimenta-se  de  folhas,  de  fructos,  de  rebentos  ou  renovos  e  de  in- 
sectos. É  ágil  e  vivo  como  todos  os  outros  representantes  da  familia. 
Como  estes,  elle  pode  também  dar  enormes  saltos,  percorrer  considerá- 
veis extensões  com  auxilio  da  membrana  aliforme;  muda  no  ar  de  direc- 
ção, graças  á  cauda  que  lhe  serve  como  de  leme. 


GAPTIVEIRO 


Dizem  alguns  naturahstas  que  perto  de  Port-Iackson,  os  colonos  e 
mesmo  os  indígenas  captivam  e  domesticam  muitas  vezes  este  marsupial. 
Talvez  seja  verdade;  o  que  é  certo  porém,  é  que  não  possuímos  ainda 
hoje  dados  precisos  sobre  a  reproducção  e  a  vida  em  captiveiro  do 
animal. 


432  HISTORIA  NATURAL 


OS  cuscos 


Formam  na  família  dos  phalangistas  ura  género  perfeitamente  dis- 
tincto.  Os  animaes  que  o  representam  teem  dimensões  relativamente  no- 
táveis, uma  cauda  pelluda  na  raiz,  nua  e  papilosa  no  resto  da  extensão, 
orelhas  sempre  curtas  e  ás  vezes  mesmo  não  apparentes,  a  cabeça  arre- 
dondada, o  focinho  ponteagudo,  a  pupilla  vertical  e  o  pêllo  abundante, 
espesso,  mais  ou  menos  lanoso. 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPHICA 


Encontram-se  estes  animaes  nas  florestas  de  Amboina,  de  Banda  e 
da  Nova-Guiné. 


COSTUMES 


São  animaes  nocturnos,  lentos,  preguiçosos,  em  cuja  alimentação 
entram  os  fructos.  Conhecem-se  ha  muito,  mas  nem  por  isso  a  sua  his- 
toria deixa  de  oíTerecer  lacunas  e  obscuridades  consideráveis. 

Vamos  estudar  a  especie-typo. 


mamíferos  em  especial  433 


O  PHALANGISTA  MALHADO 


Este  animal  é  também  conhecido  pelo  nome  menos  próprio  de  pfd- 
landra  do  Oriente. 

Tem  as  dimensões  de  um  gato :  o  corpo  mede  de  comprimento  oi- 
tenta e  seis  centímetros,  não  incluindo  a  cauda  cuja  extensão  é  de  meio 
metro.  O  péllo  é  lanoso,  espesso  e  de  cor  muito  variável.  O  animal  de- 
pois de  velho  é  de  ordinário  branco,  com  reflexos  amarellados  ou  par- 
dos e  grandes  manchas  irregulares  negras  ou  de  um  trigueiro  accen- 
tuado  que  desapparecem  na  face  externa  dos  membros;  no  animal  ainda 
novo  as  manchas  são  cinzentas  e  passam  pouco  a  pouco  ao  castanho  claro 
e  depois  ao  castanho  escuro.  O  ventre  é  sempre  de  um  branco  uniforme; 
as  pernas  são  de  uma  côr  fuliginosa.  A  cauda  é  branca  com  raras  man- 
chas. A  parte  que  circuita  os  olhos  e  a  fronte  são  de  um  amarello  fuli- 
ginoso nos  animaes  novos  e  de  um  amarello  vivo  nos  velhos.  As  orelhas 
são  muitas  vezes  brancas  e  as  partes  desnudadas  apresentam  um  ruivo 
variável.  ♦ 


DISTRIBUIÇÃO   GE0GRAPHICA 


Vive  nas  ilhas  Molucas  e  particularmente  em  Amboina. 


costumes 


Habita  as  florestas  e  passa  o  seu  tempo  principalmente  nas  arvores 
de  fructo  a  cujos  ramos  se  suspende  pela  cauda.  Dá  saltos  prodigiosos, 
como  todos  os  marsupiaes  congéneres;  mas,  como  é  preguiçoso,  con- 
some geralmente  o  tempo  suspenso  das  arvores,  immovel.  Quando  não 
come  ou  não  dorme,  lambe-se  e  ahsa  o  péllo,  como  fazem  os  gatos. 

A  fêmea  pare  dois  a  quatro  filhos  que  conserva  largo  tempo  na  bolsa 
marsupial. 

VOT-     TTT  28 


434  HISTORIA  NATURAL 


USOS   E    PRODíJCTOS 


A  peJle  d'esle  mamifero  é  estimada.  Em  algumas  regiões  os  indige- 
nas  comem  a  carne. 


AS  PHILANDRAS 


Estes  animaes  parecem  estabelecer  a  transição  de  certos  carniceiros 
para  certos  roedores;  uns  assemelham-se  ás  martas,  outros  aos  rapozos, 
mas  todos  ao  mesmo  tempo  aos  esquilos.  Se  lhes  faltasse  a  bolsa  have- 
ria uma  verdadeira  impossibihdade  de  saber-se  onde  collocal-os  na  divi- 
são taxonomica. 

Entre  os  marsupiaes  o  caracter  dominante  das  philandras  consiste 
na  soldadura  até  á  ultima  phalange  dos  segundos  e  terceiros  dedos  das 
patas  posteriores.  O  dedo  pollegar  em  todas  as  patas  é  opponente.  A 
cauda,  largamente  coberta  de  péllo  comprido  e  extenso,  é  prehensora. 

A  dentição  é  intermédia  à  dos  carnívoros  e  dos  roedores :  os  incisi- 
vos são  alongados  como  os  d'estes,  mas  seguidos  de  caninos  e  de  falsos 
mollares. 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPHIGA 


Habitam  a  Austrália,  as  ilhas  visinhas  e  as  Molucas. 


mamíferos  em  especial  435 


COSTUMES 


São  animacs  noclurnos,  vagarosos  e  estúpidos  que  passam  a  vida 
nas  arvores,  no  seio  das  florestas  espessas. 


A  PHILANDRA  RAPOZEIRA 


É  esta  a  espécie  mais  conhecida.  Reúne  ás  dimensões  do  gato  bravo 
o  porte  da  rapoza  e  a  graça  do  esquilo.  O  comprimento  do  corpo  é  de 
sessenta  e  seis  centimetros,  não  incluindo  a  cauda  que  tem  quarenta  e 
cinco.  O  tronco  éjelegante,  o  pescoço  curto  e  delgado,  a  cabeça  alonga- 
da, o  focinho  curto  e  terminado  em  ponta  e  o  lábio  superior  fendido;  as 
orelhas  são  de  media  grandeza,  ponteagudas  e  os  olhos  lateraes.  A  planta 
dos  pés  é  nua  e  as  unhas  comprimidas  e  recurvas,  excepto  as  dos  pol- 
legares  que  são  achatadas. 

A  fêmea  apresenta  uma  bolsa  incompleta,  representada  apenas  por 
uma  prega  cutânea.  O  manto  compõe-se  de  péllos  sedosos,  curtos  e  ri- 
jos. A  parte  superior  do  corpo  ó  de  um  pardo  com  reflexos  trigueiros  ou 
castanhos  e  ruivos;  a  parte  inferior  é  amarella  clara.  O  peito  e  o  ventre 
são  de  um  ruivo  fuliginoso,  o  dorso,  a  cauda  e  os  bigodes  negros,  as 
orelhas  mias  interiormente  e  cobertas  por  fora  de  péllos  amarellos  cla- 
ros. Os  recem-nascidos  são  de  um  cinzento  claro  misturado  aqui  e  além 
de  negro.  De  resto,  as  variações  de  cor  são  grandes. 


436  HISTORIA  NATURAL 


DISTRIBUIÇÃO    GEOGRAPIIICA 


A  philandra  rapozeira  habita  a  Nova-llollanda  e  a  terra  de  Van-Dié- 
men;  é  um  dos  marsupiaes  mais  vulgares. 


COSTUMES 


Vive  a  philandra  rapozeira  quasi  exclusivamente  nas  florestas  e  so- 
bre as  arvores.  Tem  hábitos  nocturnos;  não  abandona  o  seu  retiro  senão 
duas  ou  trez  horas  depois  do  pôr  do  sol.  Trepa  bem;  mas  ainda  assim 
os  seus  movimentos  são  vagarosos  e  pouco  precisos  relativamente  ao 
dos  esquilos.  A  cauda  prehensora  presta-lhe  grandes  serviços;  nunca  dá 
um  passo  nas  arvores  sem  previamente  se  segurar  a  este  órgão.  Em 
terra  marcha  muito  mais  lentamente  do  que  nas  arvores. 

Alimenta-se  de  vegetaes  e  simultaneamente  d'aves  ou  outros  peque- 
nos animaes  que  consegue  apanhar.  Antes  de  matal-a,  atormenta  muito 
tempo  a  presa,  revolvendo-a  entre  as  patas  e  batendo  com  ella  de  en- 
contro aos  ramos;  a  primeira  coisa  que  devora  é  o  ce^rebro. 

Um  bom  trepador  consegue  facilmente  apanhar  a  philandra  rapozeira. 
Quando  um  perigo  a  ameaça,  pendura-se  pela  cauda  a  um  ramo  d'arvore 
e  conserva-se  perfeitamente  immovel. 

A  parturição  produz  dois  filhos  que  a  mãe  conserva  muito  tempo  na 
bolsa  e  mais  tarde  sobre  o  "dorso. 


GAPTIVEIRO 


Domam-se  facilmente  as  philandras  rapozeiras,  e  teem  quasi  todos 
os  jardins  zoológicos  da  Europa  alguns  exemplares.  São  animaes  pacífi- 
cos e  dóceis,  mas  preguiçosos  e  estúpidos.  É  preciso  tel-os  em  gaiolas 
largas  e  dar-lhes  alimento  em  abundância;  se  se  não  fizer  isto  roerão  a 


mamíferos  em  especial  437 

madeira  da  prisão.  É  fácil  alimental-os  com  pão,  carne,  fructos  e  raizes. 
Espalham  um  cheiro  de  camphora  que  os  torna  insuportáveis  em  capti- 
veiro. 


usos   E    PRODUCTOS 


Os  indígenas  comem  a  carne  da  philandra  rapozeira,  a  despeito  do 
cheiro  camphorado  que  a  torna  insuportável  ao  paladar  europeu.  Utili- 
sam  também  a  pelle  do  animal  que  apreciam  tanto  como  nós  a  da  marta 
e  de  que  fazem  mantos.  No  dizer  dos  entendedores  essa  pelle  é  boa  e 
deve  cedo  ou  tarde  tornar-se  um  importante  artigo  de  commercio  pela 
riqueza  do  péllo  que  a  cobre. 


OS    COALAS 


Constituem  na  família  dos  phalangístas  um  género  caracterisado  as- 
sim: corpo  refeito,  pernas  baixas,  cabeça  volumosa,  focinho  curto,  ore- 
lhas grandes  e  peitudas,  cauda  reduzida  a  um  tubérculo  occulto,  cinco 
dedos  em  cada  pata,  sendo  os  dois  internos  das  patas  anteriores  reuni- 
dos e  susceptíveis  de  opporem-se  aos  trcz  outros,  as  plantas  nuas,  as 
unhas  aceradas,  compridas  e  recurvas,  excepto  nos  poUegares  posterio- 
res que  não  possuem  estes  appendices,  trez  pares  de  incisivos  superio- 
res muito  desiguaes,  um  pequeno  canino  único  na  maxilla  superior  e 
cinco  pares  de  mollares  em  cada  maxilla,  sendo  os  quatro  últimos  mul- 
ti-tuberculosos. 

Este  género  é  representado  por  uma  espécie  única. 


438  HISTORIA   NATURAL 


O   COALA  CINZENTO 


Este  marsupial  conhecido  também  pelos  nomes  de  womhat  e  de 
urso  indígena  que  lhe  dão  os  colonos  da  Nova-IIollanda,  tem  as  dimen- 
sões de  um  glutão;  mede  sessenta  e  seis  centimetros,  pouco  mais  ou 
menos,  de  comprimento  e  trinta  e  trez  de  altura.  A  cabeça  volumosa,  as 
pequenas  orelhas  distantes  e  muito  pelludas,  os  olhos  brilhantes  e  o  fo- 
cinho largo  e  obtuso  dão-lhe  um  aspecto  muito  particular,  tornado  ainda 
mais  estranho  e  mais  singular  pela  ausência  de  cauda  e  pela  forma  das 
patas.  O  pêllo  é  comprido  e  espesso,  quasi  crespo,  mas  fino,  macio  e  la- 
noso. Tem  o  nariz  e  o  focinho  desnudados,  a  parte  superior  do  corpo 
cinzenta,  a  parte  inferior  branca  amarellada  e  o  lado  externo  das  orelhas 
cinzento  escuro. 


DISTRIBUIÇÃO    GEOGRAPIIICA 


O  coala  cinzento  habita  as  florestas  da  Nova-Galles  do  Sul,  mas  não 
é  muito  commum. 


COSTUMES 


Encontra-se  aos  pares.  Trepa  ás  arvores  mais  altas,  mas  com  um 
vagar  que  lhe  conquistou  o  nome  de  'preguiçoso  da  Austrália.  O  que  lhe 
falta  em  rapidez,  possue-o  em  prudência  e  na  attenção  com  que  executa 
todos  os  movimentos;  sobe  aos  ramos  mais  delgados.  Só  muito  raras  ve- 
zes e  quando  a  isso  é  forçado  pela  falta  de  alimento  é  que  abandona  as 


mamíferos  em  especial  439 

arvores  e  desce  a  terra  onde  progride  com  mais  vagar  e  mais  desele- 
gancia;  descendo  a  terra  não  o  faz  senão  para  attingir  uma  outra  arvore 
que  lhe  promette  novos  alimentos. 

Os  hábitos  de  vida  d'este  marsupial  são  quasi  nocturnos.  Com  effeito, 
é  geralmente  ao  fim  da  tarde  que  principia  para  elle  a  vida  activa,  a 
vida  do  movimento. 

O  coala  cinzento,  a  despeito  de  uma  apparencia  feroz  que  o  cara- 
cterisa,  é  um  animal  pacifico,  dócil,  que  raras  vezes  se  encolerisa  e  que 
se  conserva  de  ordinário  indiíTerente  ao  que  em  torno  d'elle  se  passa. 
E  mesmo  quando  se  encolerisa,  não  pensa  em  arranhar  ou  morder. 

A  fêmea  dá  á  luz  um  filho  único  que,  ainda  depois  de  saído  da 
bolsa,  carrega  por  muito  tempo  sobre  o  dorso  e  ao  qual  testemunha  uma 
viva  aflfeição  profunda. 


CAÇA 


O  coala  cinzento  é  conhecido  dos  europeus  desde  1803.  Os  indíge- 
nas caçam-o  com  verdadeiro  ardor  para  lho  obterem  a  carne  que  para 
elles  é  das  melhores,  das  mais  preciosas. 


GAPTIVEIRO 


O  coala  cinzento  apanha-se  com  facilidade.  Dá-se  bem  em  captiveiro 
e  ahmenta-se  sem  difficuldade.  Para  comer,  senta-se  sobre  os  membros 
posteriores  e  leva  á  bocca  os  ahmentos  com  as  patas  de  diante.  Em  re- 
pouso a  postura  do  animal  é  a  do  cão  quando  se  deita.  Do  resto,  não 
off"erece  grandes  attractivos,  porque  é  estúpido. 


440  HISTORIA   NATURAL 


II 


MARSUPIAES  herbívoros 


os  KANGURUS 


São  animaes  saltadores  e  os  maiores  da  ordem.  São  notáveis  pelas 
formas  particulares  que  apresentam.  A  partir  da  cabeça,  o  tronco  au- 
gmenta  rapidamente  de  grossura,  sendo  a  parte  mais  volumosa  a  região 
lombar,  o  que  é  devido  ao  enorme  desenvolvimento  dos  membros  pos- 
teriores. A  cabeça  e  a  parte  anterior  do  tronco  parecem  atrophiados.  Os 
membros  anteriores  servem  apenas  muito  secundariamente  a  estes  ani- 
maes para  a  marcha  e  para  a  prehensão  dos  alimentos.  A  parte  poste- 
rior do  corpo  é  que  propriamente  se  destina  aos  movimentos,  o  que  ex- 
plica o  seu  desenvolvimento  extremo.  Com  os  extensos  membros  poste- 
riores e  a  forte  cauda,  os  kangurus  podem  dar  saltos  prodigiosos  e  com 
rapidez  egual  á  dos  veados.  A  forma  das  pernas  e  a  cauda  são  caracte- 
rísticas. A  coxa  é  muito  forte,  a  tibia  comprida  e  o  tarso  extraordina- 
riamente prolongado;  os  dedos  em  numero  de  quatro  apenas,  pela  au- 
sência do  pollegar,  são  muito  fortes  e  compridos  e  o  do  meio  apresenta 
uma  unha  em  forma  de  casco.  A  cauda  é  mais  comprida  e  mais  grossa 
que  a  de  qualquer  outro  mamífero  das  mesmas  dimensões;  os  seus  mús- 
culos são  vigorosíssimos.  Ao  lado  d'este  desenvolvimento  exagerado,  os 
membros  anteriores  parecem  atrophiados,  rachiticos,  embora  na  reali- 
dade o  não  sejam,  porque  o  seu  desenvolvimento  está  em  relação  com 
os  movimentos  que  executam.  Estes  membros  anteriores,  terminados  por 
cinco  dedos  armados  de  unhas  arredondadas,  servem  para  a  prehensão 
dos  alimentos;  os  kangurus  servem-se  d'estas  patas  dianteiras  como  de 
mãos.  A  cabeça  pela  forma  especial  que  aíTccta  parece  intermediaria  á 
do  veado  e  da  lebre. 


mamíferos  em  especial  441 


DISTRIBUIÇÃO    GEOGRAPHICA 


A  Austrália  é  a  pátria  dos  kangurus. 


COSTUMES 


Dos  kangurus  uns  habitam  as  vastas  planicies  cobertas  de  hervas, 
outros  vivem  de  preferencia  nas  brenhas;  alguns  procuram  as  monta- 
nhas pedregosas,  muitos  as  florestas  mais  impenetráveis  onde  são  obri- 
gados para  acharem  passagem  a  partir  ramos  e  a  arrancar  raizes,  ou- 
tros ainda  as  arvores. 

Vivem  quasi  todos  sohtarios;  só  muito  raras  vezes  e  accidental- 
mente  é  que  se  encontram  alguns  reunidos  n'um  mesmo  logar,  quando 
a  alimentação  é  ahi  abundantíssima;  são  porém  sociedades  fortuitas,  me- 
ramente temporárias,  essas  a  que  nos  referimos.  O  viajante  depois  de 
ter  visto  oitenta  ou  cem  kangurus  reunidos  n'um  ponto,  decorridas  pou- 
cas horas  não  encontra  no  mesmo  local  um  único. 

Quasi  todos  estes  marsupiaes  são  diurnos;  as  pequenas  espécies  po- 
rém são  nocturnas  e  passam  o  dia  dormindo  em  togares  occultos.  Alguns 
habitam  fendas  de  rochedos  d'onde  não  sáera  senão  para  procurar  ali- 
mento, voltando  para  lá  logo  que  se  ejicontram  saciados. 

«Os  hábitos  e  género  de  vida  dos  kangurus,  diz  Brehm,  merecem  a 
nossa  attenção,  porque  tudo  n^elles  é  curioso:  movimenlos,  repouso,  re- 
gime, reproducção,  desenvolvimento  e  intenigencia.»  *■  Do  auctor  que 
acabamos  de  citar,  o  mais  completo  sobre  o  assumpto  em  questão,  ex- 
traímos as  informações  que  seguem. 

O  movimento  dos  kangurus  quando  pastam  consiste  em  um  salto 
pezado  e  deselegante.  N'estas  condições  elles  apoiam  toda  a  mão  sobre 
o  solo  e  collocam  as  patas  de  traz  perto  das  de  diante  ou  mesmo  entre 
ellas.  Apoiam-se  ao  mesmo  tempo  sobre  a  cauda;  como  porém,  uma  tal 
posição  é  extremamente  fatigante,  pouco  tempo  a  conservam.  Para  o  ar- 


Brehm,  Obr.  cit.,  vol.  2.",  pg.  37. 


442  HISTORIA   NATURAL 

rancamcnto  de  plantas,  sentam-se  sobre  a  cauda  e  as  patas  posteriores, 
deixando  cair  os  membros  de  diante;  desde  que  apanliam  uma,  erguem-se 
para  a  comer.  O  corpo  parece  então  repousar-llies  sobre  uma  tripeça 
cujos  ramos  são  representados  pelos  membros  posteriores  e  pela  cauda. 
Raras  vezes  se  apoiam  contra  o  solo  sobre  trez  patas  ao  mesmo  tempo 
e  sobre  a  cauda;  isto  acontece  apenas  quando  os  animaes  teem  qualquer 
coisa  a  fazer  no  chão  com  uma  das  mãos.  Quando  se  encontram  meio  sa- 
tisfeitos, deitam-se  por  terra,  estendendo  os  membros  posteriores;  se  se 
lembram  de  continuar  a  comer,  levantam-se  apenas  muito  ligeiramente  e 
apoiam-se  sobre  os  curtos  membros  anteriores.  Para  dormirem,  as  pe- 
quenas espécies  sentam-se  sobre  os  quatros  membros  com  a  cauda  es- 
tendida para  traz;  esta  posição  permitte-lhes  rapidamente  fugir. 

Ao  mais  ligeiro  ruido,  os  kangurus  levantam-se  sobre  a  extremidade 
das  patas  de  traz  e  olham  em  torno  de  si;  se  vêem  alguma  coisa  de  sus- 
peito, deitam  immediamente  a  fugir.  É  então  que  se  vé  bem  a  agilidade 
de  que  dispõem.  Pulam  exclusivamente  sobre  os  membros  posteriores  e 
dão  saltos  como  nenhum  outro  animal.  Unem  os  membros  anteriores  con- 
tra o  peito,  estendem  a  cauda  para  traz,  encurvam-se,  depois  estendem 
bruscamente  com  toda  a  força  dos  músculos  femoraes  os  membros  pos- 
teriores extensíveis  e  projectam-se  no  ar  como  frechas,  descrevendo  uma 
curva.  Uns,  ao  saltar,  conservam  o  corpo  em  posição  horisontal  e  outros 
em  posição  oMiqua.  Quando  nada  os  perturba,  os  kangurus  dão  saltos  de 
dois  metros  e  meio  de  extensão;  se  se  apavoram  por  um  motivo  qual- 
quer, então  os  saltos  attingem  uma  extensão  dupla  ou  tripla.  Nunca  caem 
em  cheio  sobre  as  patas  anteriores,  mas  apenas  de  quando  em  quando 
sobre  as  extremidades  dos  dedos.  Algumas  espécies  durante  o  salto  en- 
costam os  membros  anteriores  ás  partes  lateraes  do  tronco;  outras  cru- 
zam-os  sobre  o  peito. 

A  perseguição  dos  kangurus  pelos  cães  é  muito  difficil,  o  que  muito 
bem  se  comprehende  recordando  que  aquelles  podem  dar  saltos  de 
oito  a  dez  metros  de  extensão,  vencendo  obstáculos  que  os  cães  são  for- 
çados a  costear  com  grande  perda  de  tempo. 

De  todos  os  sentidos  dos  kangurus  o  mais  perfeito  parece  ser  o  ou- 
vido; a  vista  é  fraca  e  o  olfato  obtuso. 

A  inteUigencia  d'estes  marsupiaes  é  pouco  desenvolvida.  São  des- 
confiados, curiosos,  timidos  e  tão  fáceis  de  excitar  como  de  calmar.  São 
desprovidos  de  memoria  e  este  facto  explica  naturalmente  a  falta  de  pru- 
dência que  os  caracterisa  e  bem  assim  o  não  chegarem  no  captiveiro  a 
distinguir  o  dono  e  a  affeiçoar-se-lhe.  A  curiosidade  é  nos  kangurus  um 
attributo  característico  e  extraordinariamente  desenvolvido.  Ás  vezes, 
perseguidos  pelos  cães,  correndo  ou  antes  saltando  vertiginosamente, 
cheios  de  justificado  terror,  nem  por  isso  deixam  de  ceder  ás  sollicita- 


mamíferos  em  especial  443 

ções  da  curiosidade,  voltando  a  cabeça  para  verem  os  perseguidores; 
não  é  raro  acontecer  então  que  vão  bater  violentamente  de  encontro  a 
uma  arvore,  caindo  aturdidos. 

O  regime  alimentar  dos  kangurus  é  variadíssimo.  Alimentam-se  de 
hervas,  de  folhas,  de  raizes,  de  cascas  d'arvores,  de  rebentos  e  de  fru- 
ctos.  Contra  a  opinião  de  alguns  auctores  antigos  que  julgaram  os  kan- 
gurus ruminantes,  dizem  os  modernos,  os  mais  conscienciosos,  que  nunca 
n'estes  marsupiaes  encontraram  indicio  de  ruminação.  O  erro  dos  anti- 
gos foi  decerto  originado  pelo  facto  de  mastigarem  os  kangurus  os  ali- 
mentos por  largo  espaço  de  tempo. 

O  cio,  pelo  menos  a  julgar  pelos  indivíduos  captivos,  tem  epochas 
determinadas.  Os  machos  dão-se  combates  violentos  pela  posse  das  fê- 
meas; os  membros  posteriores  e  a  cauda  são  as  principaes  armas.  As 
pequenas  espécies  são  as  que  se  excitam  mais;  o  ardor  genésico  leva-as 
a  arrancarem  os  pêllos  a  regiões  inteiras  do  corpo. 

Os  kangurus  não  são  muito  fecundos.  As  grandes  espécies  quasi 
nunca  produzem  mais  que  um  filho  por  parto.  A  gestação  não  é  demo- 
rada; a  do  kanguru  gigante,  por  exemplo,  não  dura  mais  de  "trinta  e 
nove  dias.  Doze  horas  depois  de  nascido,  o  kanguru  gigante  tem  apenas 
trinta  e  dois  milllmetros  de  comprido:  é  uma  pequena  massa  moUe, 
transparente,  vermiforme,  de  nariz  e  orelhas  mal  indicadas  ainda,  de 
membros  informes  e  de  olhos  cerrados.  O  aleitamento  e  a  permanência 
na  bolsa  materna  duram  oito  mezes.  É  extrema  a  dedicação  das  fêmeas 
pelos  filhos. 


CAÇA 


Os  indígenas  e  os  colonos  da  AustraKa  caçam  apaixonadamente  os 
kangurus.  Os  processos  empregados  pelos  primeiros  são  principalmente 
a  armadilha  e  os  laços.  Multas  vezes  fazem  grandes  caçadas  em  que  ura 
certo  numero  de  homens  se  escondem  em  determinados  togares  ao  passo 
que  outros  tratam  de  espantar  os  kangurus  e  de  os  cercarem  de  modo 
que  o  unlco  caminho  livre  que  lhes  reste  seja  o  que  conduz  aos  pontos 
em  que  os  outros  caçadores  se  occultaram.  Estes,  quando  os  marsupiaes 
se  approximam,  lançam-lhes  habilmente  laços  á  cabeça. 

Os  colonos  Inglezes  empregam  multo  na  caça  dos  kangurus  uns  cer- 
tos cães,  productos  do  cruzamento  do  braço  Inglez  e  do  bull-dog,  notá- 
veis pela  força,  pela  coragem  e  pela  perseverança.  De  ordinário,  trez  a 
quatro  cães  d'cstes  bastam  para  apanhar  um  kanguru  ou  pelo  menos 


444  HISTORIA  NATURAL 

para  o  collocar  ao  alcance  cie  uma  arma  de  fogo.  Esta  caça  nem  sempre 
é  destituída  de  perigos;  ás  vezes  os  kangurus  fazendo  uso  dos  membros 
posteriores  e  das  unhas  vigorosíssimas  fazem  face  aos  cães  e  até  ao  ho- 
mem, deixando-os  feridos.  Perto  dos  cursos  d'agua,  os  kangurus  chegam 
a  bater-se  vantajosamente  com  os  cães  mais  valentes.  Como  são  muito 
altos,  tomam  pé  em  togares  em  que  os  cães  são  forçados  a  nadar;  esta 
é  a  vantagem.  Quando  um  cão  se  approxima,  os  kangurus  deitam-lhe  as 
patas  anteriores  e  mergulham-o  até  o  matarem  por  asphyxia.  Procedem 
de  egual  modo  em  relação  a  um  segundo,  a  um  terceiro  e  aos  mais  que 
vêem  vindo,  de  modo  a  fazerem  face,  muitas  vezes,  a  uma  grande  ma- 
tilha. 


GAPTIVEIRO 


Todas  as  espécies  supportam  com  facilidade  o  captiveiro.  Alimen- 
tam-se  de  folhas,  de  raizes,  de  grãos  e  de  pão.  ,No  inverno  reclamam 
um  aposento  muito  quente.  Bem  tratados  reproduzem-se.  Ha  muitos  nos 
principaes  jardins  zoológicos  da  Europa. 


usos  E  PRODUCTOS 


Os  kangurus  são  animaes  mais  úteis  do  que  nocivos.  A  carne  d'es- 
tes  marsupiaes  é  um  bom  alimento.  É  precisamente  esta  a  razão  por 
que  alguns  nalurahstas  teem  lembrado  a  conveniência  de  fazer  multipli- 
car na  Europa  estes  mamíferos,  creando-se  assim  uma  famosa  caça  abun- 
dantíssima em  carne.  N'esta  multiplicação  encontraríamos  ainda  a  vanta- 
gem de  uma  vasta  producção  de  boas  pelles,  importante  artigo  de  com- 
mercio.  Os  estragos  ,que  estes  animaes  poderiam  causar  seriam  insigni- 
ficantíssimos e  nem  mesmo  valeria  entrar  com  elles  em  linha  de  conta 
para  os  confrontar  com  a  utiUdade  que  seriam  capazes  de  naturalmente 
produzir. 


mamíferos  em  especial  445 


O  KANGURU  GIGANTE 


É  o  maior  animal  da  familia;  d'ahi  a  designação  especial  por  que 
é  conhecido.  Os  colonos  dão-lhe  também  o  nome  de  boomer.  Um  macho 
adulto,  sentado,  tem  a  altura  de  um  homem  regular.  Dois  melros  é  o 
comprimento  total;  noventa  centímetros  pertencem  á  cauda.  A  fêmea  é 
mais  pequena  um  terço,  pouco  mais  ou  menos,  doestas  dimensões. 

O  péllo  é  abundante,  espesso,  nso,.molle  e  quasi  lanoso,  de  um  tri- 
gueiro misturado  de  pardo.  O  antebraço,  a  perna  e  o  tarso  são  de  um 
trigueiro-amarello  claro,  os  dedos  negros;  a  cabeça  é  mais  clara  anterior- 
mente do  que  aos  lados  e  o  lábio  superior  é  muito  claro.  As  orelhas  são 
trigueiras  na  face  externa  e  brancas  interiormente.  A  cauda  desde  a  raiz 
até  á  parte  media  é  da  côr  do  dorso  e  depois  negra  até  á  extremidade. 


DISTRIBUIÇÃO   GE0GRAPHICA 


O  kanguru  gigante  foi  descoberto  em  1770  por  Gook  nas  costas  da 
Nova-Galles  do  Sul. 


costumes 


Vive  nas  extensas  pastagens  ou  nos  togares  cobertos  de  arvoredo 
copado,  tão  abundantes  na  Austrália.  É  para  os  togares  arborisados  que 
elle  se  retira  no  estio  para  escapar  aos  raios  ardentes  do  sol. 

Com  quanto  o  kanguru  gigante  se  encontre  em  pequenos  grupos  de 
trez  a  quatro  indivíduos,  nem  por  isso  se  pode  dizer  com  os  antigos 
que  eUe  seja  sociável:  com  eíFeito  os  membros  de  cada  bando  vivem 
uma  vida  perfeitamente  egoista,  indifferentes  á  sorte  reciproca.  Ás  vezes 
juntam-se  muitos  indivíduos  n'um  certo  local  onde  os  pastos  abundam; 
desde  o  momento  porém  em  que  o  alimento  falta  ou  escassea,  sepa- 
ram-se  rapidamente.  Os  antigos  acreditaram  que  os  bandos  tinham  uma 


446  IlISTOUIA    NATURAL 

organisapão  e  que  n'elles  os  machos  representavam  o  papel  de  chefes 
ou  directores.  Esta  opinião,  como  o  teem  provado  as  observações  ulte- 
riores, é  perfeitamente  errónea. 

Como  todos,  o  kanguru  gigante  é  timido  e  desconfiado;  raras  vezes 
consente  que  o  homem  se  lhe  approximc. 


CAPTIVEIRO 


Houve  tempo  em  que  o  kanguru  gigante  era  mais  commum  nas 
collecções  zoológicas  ou  ménageries  do  que  é  agora.  Ainda  então  a  caça 
não  era  tão  activa  como  é  hoje.  O  numero  tem  decrescido  sensivelmente 
e  muitos  individues  teem  sido  repellidos  para  o  interior  das  terras,  onde 
é  difíicil  apanhal-os. 

O  kanguru  gigante  dá-se  bem  em  captiveiro.  Citam-se  casos  de 
individues  que  teem  vivido  dez  e  quinze  annos  captivos  na  Europa. 

O  kanguru  gigante  porém,  não  chega  nunca  a  domesticar-se  comple- 
tamente; nunca  perde  a  timidez  nativa  e  nunca  chega  a  habituar-se  aos 
guardas. 


OS  HYPSIPRYMNOS 


Estes  mamíferos  a  que  muitos  dão  também  o  nome  de  kangurus- 
ratos,  são  os  mais  pequenos  dos  marsupiaes  saltadores.  Distinguem-se  dos 
kangurus  não  só  na  corporatura  que  é  menor,  mas  ainda  na  cauda  que 
é  mais  curta  e  no  lábio  superior  que  é  fendido.  Teem  orelhas  redondas 
como  as  dos  pequenos  ratos  e  um  par  de  caninos  de  curta  extensão  na 
maxilla  superior. 


mamíferos  em  especial  447 


O  KANaURU-RATO 


É  esta  a  espécie  typo  do  género.  Tem  as  dimensões  de  um  coeliio, 
os  pêllos  muito  compridos  e  pardos-trigueiros,  o  dorso  negro  e  claro  e 
o  ventre  branco  ou  amarellado.  O  ultimo  terço  da  cauda  é  coberto  de 
péllos  compridos,  negros,  formando  tufo.  Mede  de  comprimento  total  ses- 
senta e  seis  centímetros,  dos  quaes  trinta  pertencem  á  cauda. 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPHICA 


O  kanguru-rato  habita  a  Nova-Galles  do  Sul. 


COSTUMES 


Gould  escreve  o  seguinte  sobre  os  hábitos  de  vida  doesta  espécie : 
c(0  kanguru-rato  cava  no  solo  um  buraco  onde  forma  o  ninho,  que  se 
confunde  com  o  meio  ambiente  por  maneira  tal  que  é  impossível  desco- 
bril-o,  se  se  lhe  não  presta  a  máxima  attenpão.  Escolhe  um  logar  entre 
as  hervas,  perto  de  uma  brenha.  O  animal  conserva-se  todo  o  dia  dei- 
tado ahi,  só  ou  com  a  fêmea,  completamente  occulto  á  vista  dos  que  pas- 
sam, porque  tem  o  cuidado  de  fechar  a  abertura  que  conduz  ao  ninho. 
Os  indígenas  porém,  não  se  deixam  enganar. 

«  É  curioso  ver  este  animal  apanhando  a  herva  precisa  para  a  cons- 
trucção  do  ninho.  Serve-se  para  isso  da  cauda  que  é  prehcnsora.  En- 
volve com  ella  um  tufo  de  herva,  arranca-a  e  transporta-a  ao  logar  con- 
veniente. No  captiveiro  transporta  egualmente  ao  seu  poiso  diversos  ma- 
teriaes:  era  isto,  pelo  menos,  o  que  faziam  alguns  indivíduos  que  lord 
Derby  possuía  no  seu  parque  de  Knowseley  em  condições  tão  semelhan- 
tes quanto  possível  ás  dos  que  vivem  em  liberdade. 

<(  Na  Austrália  habita  as  planícies  seccas  e  as  coHinas  cobertas  de  ar- 


448  HISTORIA  NATURAL 

vores  e  de  brenhas  mais  ou  menos  espaçadas.  Não  vive  habitualmente 
em  bandos;  todavia  cncontram-se  sempre  alguns  indivíduos  reunidos  nos 
mesmos  togares.  Só  ao  cair  da  noite  é  que  o  kanguru-rato  procura  ali- 
mentos. Gome  liervas  e  raizes  que  habilmente  sabe  desenterrar.  Os  bu- 
racos abertos  perto  das  brenhas  denunciam  aos  caçadores  a  presença 
d'esle  animal.  Quando  alguém  o  perturba  durante  o  dia,  corre  com  ra- 
pidez surprehendente  para  o  buraco  mais  próximo,  para  uma  fenda  ou 
para  o  tronco  occo  de  uma  arvore  que  primeiro  encontra  e  ahi  se  es- 
conde.» * 


O  POTORU-RATO 


Tem  a  cabeça  alongada,  as  patas  curtas  e  a  cauda  semelhante  á  dos 
ratos.  Mede  quarenta  centímetros  de  comprimento  e  quatorze  de  altura; 
a  cauda  tem  a  extensão  de  vinte  e  oito  centímetros.  Tem  o  corpo  re- 
feito, o  pescoço  curto,  os  dedos  das  patas  anteriores  separados,  o  se- 
gundo e  o  terceiro  das  patas  posteriores  soldados  um  ao  outro  até  á  ul- 
tima phalange.  Todos  estes  dedos  são  armados  de  unhas  compridas  e 
recurvas.  A  cauda  é  comprida,  chata,  muito  forte,  escamosa  e  coberta 
de  pêllos  curtos  e  espalhados.  Em  geral  o  péllo  é  comprido,  um  pouco 
brilhante,  de  um  castanho  escuro  misturado  de  negro  e  de  um  castanho 
claro  no  dorso,  de  um  branco  sujo  ou  amarellado  no  ventre.  A  raiz  e  a 
face  superior  da  cauda  são  trigueiras,  os  lados  e  a  face  inferior  negros. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHIGA 


O  potoru-rato  habita  a  Nova-Galles  do  Sul  e  a  terra  de  Van-Díemen. 
É  commum  em  Port-Jackson. 


Citado  por  Brehm,  Ohr.  cit.,  vol.  2.o,  pg.  44. 


mamíferos  em  especial  449 

Durante  o  cio  o  potoru  excita-se  extraordinariamente.  O  macho  per- 
segue a  fêmea  durante  toda  a  noite,  mordendo-a,  batendo-lhe.  Um  dos 
machos  que  possue  o  jardim  zoológico  de  Hamburgo,  diz  Brehm,  chegou 
mesmo  a  matar  uma  fêmea  e  com  ella  um  filho  já  bastante  crescido  que 
andava  na  bolsa. 


A COLIMA Ç AO 


«Haveria,  diz  Brehm,  indubitavelmente  uma  grande  vantagem  em 
acclimar  entre  nós  este  animal  curioso.  N'um  grande  parque  bem  fechado 
poderia  crear-se  um  certo  numero  de  indivíduos,  que  depois  se  poriam 
em  liberdade  e  se  deixariam  entregues  a  si  mesmos.  Assim,  sem  pre- 
juízo, se  creariam  peças  de  uma  caça  sem  duvida  attrahente. 


OS  PHASCOLOMIOS 


Os  marsupiaes  comprehendidos  n'este  género  caracterisam-se  perfei- 
tamente pela  dentição  que  é  a  dos  roedores.  Não  teem  com  eíTeito  senão 
incisivos  e  mollares.  Dos  incisivos  existe  um  par  somente  em  cada  ma- 
xilla.  São  plantigrados  e  n'elles  os  membros  anteriores  e  posteriores  teem 
a  mesma  extensão. 


VOL.    III 


29 


450  mSTORIA  NATURAL 


O  TEIXUGO  DA  AUSTRÁLIA 


Este  animal  é  também  conhecido  pelo  nome  de  rato  de  bolsa.  É  ne- 
cessário porém  advertir  que  nenhum  dos  nomes  que  lhe  são  dados  ex- 
prime uma  semelhança  real.  Elle  não  se  parece,  com  effeito,  nem  com 
o  teixugo,  nem  com  o  rato.  Tem  o  typo  dos  roedores,  é  verdade,  mas 
dos  roedores  mais  pezados  e  mais  preguiçosos. 


COSTUMES 


Procura  os  logares  arborisados  e  evita  as  pastagens  descobertas. 
Cava  um  buraco  entre  as  hervas,  tapeta-o  cuidadosamente  de  folhas  sec- 
cas  e  ahi  se  junta  com  alguns  companheiros  para  dormirem  durante  o 
dia.  O  potoru-rato  é  com  effeito  um  animal  nocturno  que  não  vagueia 
senão  depois  do  por  do  sol.  O  buraco  ou  poiso  é  disposto  com  habilidade 
tal  que  escapa  facilmente  á  vista  do  europeu,  mesmo  á  curta  distancia 
de  dois  passos;  só  o  olhar  penetrante  do  indígena  o  descobre. 

O  potoru-rato  é  urti  marsupial  saltador;  mas  pulando  diífere  dos 
outros  saltadores,  dos  kangurus,  por  exemplo,  porque  em  vez  de  esten- 
der os  membros  posteriores  ambos  ao  mesmo  tempo,  estende-os  um  de- 
pois do  outro.  Esta  circumstancia  em  nada  prejudica  n'este  animal  a  ra- 
pidez do  salto  que  é  prodigiosa. 

Alimenta-se  este  marsupial  principalmente  de  tubérculos,  bolbos  e 
raizes  que  desenterra.  Gomprehende-se  por  isto  quanto  será  prejudicial 
ás  plantações  onde  chega  a  penetrar. 


CAPTIVEIRO 


Existe  em  quasi  todos  os  jardins  zoológicos  da  Europa.   Gontenta-se 
com  uma  alimentação  muito  simples  e  não  reclama  cuidados  especiaes. 


MAMÍFEROS   EM   ESPECIAL  451 

Quando  lhe  não  dão  ou  lhe  não  preparara  uma  habitação,  elle  próprio 
cava  um  buraco  que  forra  de  feno  e  de  folhas  seccas. 

Como  animal  nocturno,  o  potoru-rato  não  gosta  que  o  perturbem 
durante  o  dia,  não  gosta  que  o  acordem;  de  noite,  pelo  contrario,  mos- 
Ira-se  curioso,  olhando  attentamente  quantos  se  lhe  approximam.  De 
noite  deixa-se  acariciar,  ao  passo  que  de  dia  responde  aos  aífagos  com 
demonstrações  de  mao  humor,  chegando  a  morder. 

Segundo  alguns  auctores,  o  potoru-rato  seria  um  animal  excessiva- 
mente timido;  segundo  Brehm  tal  opinião  é  errónea,  porque  em  quantos 
viu  e  observou  de  perto  notou  uma  coragem  muito  superior  á  dos  maio- 
res kangurus.  O  naturahsta  citado  aíTirma  que  os  machos,  principalmente, 
são  audaciosos  e  mãos;  não  temem  o  homem,  antes  o  atacam  impruden- 
temente quando  são  por  elle  perseguidos.  Os  machos  velhos  são  ainda 
hostis  para  os  novos,  dos  quaes  não  poucos  succumbem  aos  mãos  tratos. 

É  um  marsupial  curioso.  Mede  oitenta  centímetros  a  um  metro  de 
comprido  e  trinta  centímetros  de  altura.  Poucas  vezes  peza  menos  de 
trinta  kilogrammas;  o  péllo  é  espesso,  molle,  claro  no  ventre  e  castanho 
passando  ora  ao  amarellado  ora  ao  pardo  no  dorso.  As  orelhas,  largas  e 
pequenas,  são  de  um  trigueiro  fuhginoso  externamente  e  brancas  por 
dentro.  Os  dedos  são  de  uma  cor  fuhginosa  e  os  bigodes  negros. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHIGA 


A  terra  de  Van-Diemen  e  as  costas  meridionaes  da  Nova-Galles  do 
Sul  são  a  pátria  do  marsupial  que  estamos  descrevendo. 


COSTUMES 


O  teixugo  da  Austrália  vive  nas  florestas  mais  espessas  onde  cava 
uma  toca  que  lhe  serve  para  dormir  durante  o  dia.  É  um  animal  no- 
cturno; e,  como  tal,  só  depois  do  pôr  do  sol  é  que  a  vida  activa  princi- 
pia para  elle,  é  só  então  que  vagueia  em  procura  de  ahmentos.  Estes 
consistem  em  folhas,  raizes  que  desenterra  e  em  herva  dura  semelhante 
ao  junco  e  que  cobre  vastos  espaços. 


452  HISTORIA   NATURAL 

O  teixugo  da  Austrália  é  um  animal  deselegante  e  de  movimentos 
vagarosos,  embora  seguros.  índiíTerente  e  estúpido,  raras  vezes  se  per- 
turba; percorre  o  seu  caminho,  sem  que  o  faça  parar  qualquer  obstá- 
culo. Contam  os  indígenas  que  este  marsupial  nas  excursões  nocturnas 
cáe  ás  vezes,  rolando  como  uma  pedra,  ao  rio  cujas  margens  percorre, 
mas  que  sem  se  perturbar  prosegue  a  marcha  no  leito  do  rio,  atlinge  a 
outra  margem  e  continua  como  se  nada  lhe  tivesse  acontecido.  Brehm  diz 
que  nenhum  animal  o  eguala  em  obstinação;  o  que  uma  vez  emprehen- 
deu,  leval-o-ha  a  cabo,  mao  grado  todos  os  obstáculos.  Se  tiver  come- 
çado uma  toca,  recomeçal-a-ha  cem  vezes  com  inalterável  paciência,  se 
cem  vezes  lh'a  obstruírem.  Os  colonos  australianos  dizem  que  este  mar- 
supial é  pacifico  e  que  de  ordinário  se  deixa  apanhar  sem  dar  provas 
de  inquietação  ou  descontentamento,  mas  que,  se  se  lembra  de  resistir, 
se  torna  um  adversário  serio,  fazendo  mordeduras  perigosas.  Brehm  con- 
firma estas  asserções,  baseado  sobre  o  que  conhece  dos  costumes  de  um 
individuo  captivo  no  jardim  zoológico  de  Hamburgo. 


CAPTIVEIRO 


Como  quasi  todos  os  animaes  australianos,  este  supporta  muito  bem 
a  privação  de  liberdade.  Quando  o  tratam  e  o  ahmentam  bem,  parece 
prosperar  em  captiveiro.  Habitua-se  ao  homem  até  ao  ponto  de  ser  pos- 
sível deixal-o  percorrer  livremente  a  casa.  A  indifferença  nativa  que  o 
caracterisa  faz-lhe  esquecer  facilmente  a  escravidão  e  supportar  sem  re- 
sistência o  destino  que  o  homem  lhe  impõe;  nunca  tenta  fugir.  Em  Van- 
Diemen  é  o  companheiro  habitual  dos  pescadores;  roda  em  torno  das 
cabanas  como  um  cão.  No  entanto  não  chega  a  ligar-se  á  nossa  espécie 
por  laços  Íntimos  de  affeição;  o  homem  é  para  elle  tão  índiíTerente  como 
qualquer  outro  ser.  O  que  ao  teixugo  da  Austraha  importa  é  ter  ahmen- 
tos  em  abundância;  como  o  homem  lh'os  fornece,  dá-se  bem  com  elle 
em  captiveiro. 

Na  Europa  alimenta-se  o  teixugo  austrahano  com  hervas,  raízes, 
fructos  e  grãos;  o  leite  é  para  este  marsupial  o  alimento  predilecto.  É 
preciso,  observa  Brehm,  não  lhe  fornecer  esta  substancia  em  grande 
quantidade  por  uma  só  vez,  porque,  se  tal  acontece,  o  animal  procura 
tomar  banho  dentro  do  vaso. 


mamíferos  em  especial  453 

O  teixugo  da  Austrália  lem-se  reproduzido  em  captiveiro  na  Europa; 
observou-se  que  a  fêmea  pare  trez  a  quatro  filhos  e  que  cuida  d'elles 
com  a  máxima  ternura  em  quanto  contidos  na  bolsa  marsupial. 


agclimaçao 


Tem-se  tentado  em  França,  e  com  bom  resultado,  ao  que  dizem, 
acclimar  o  teixugo  da  Austrália. 


usos  E   PRODUCTOS 


A  carne  d'este  marsupial  é  tida  em  conta  de  delicada  na  Austrália; 
a  pelle  é  também  ahi  aproveitada.  Talvez  que  o  paladar  europeu  não 
julgue  da  mesma  maneira  que  o  indigena  o  sabor  da  carne. 


No  seguinte  quadro  schematico  resumimos  as  divisões  estudadas  da 
ordem  dos  marsupiaes: 


45^ 


HISTORIA  NATURAL 


carnívoros 


MARSUPIAES. 


THYLACINO  CYNOCEPHALO 
O   SAKCOPIIILO  UR8INO 
A  DASyURA  MALHADA 
O  TAPUI-TAFA 

O    ANTECHINO    DE    PATAS    AMARELLAS 
O  MYRMECOBIO  LISTRADO 
A   SARIGUEIA  DA  VIRGÍNIA 
iO  CANCRIVORO 
'o  ENEIANO 

A  SARIGUEIA  LONTRINA 
O  PERAMELIDEO  NASICO 
O  PERAMELIDEO  RAIADO 
O  CHEROPO  SEM  CAUDA 
O  PETAURISTA-ESQUILO 
O  TAGUAN 

O  PEQUENO  ACROBATA 
A  PHILANDRA  DO  ORIENTE 
A  PHILANDRA  RAPOZEIRA 
O    COALA  CINZENTO 


herbívoros. 


O  KANGURU  GIGANTE 

O  KANGURU-RATO 

O  POTORU-RATO 

O  TEIXUGO  DA  AUSTRÁLIA 


-•-©so-« 


OENITHORINCOS 


CONSIDERAÇÕES    GERAES 


Estes  mamíferos,  bem  como  os  echidnos  de  que  adiante  nos  occu- 
paremos,  são  animaes  extremamente  curiosos  e  singulares,  cuja  colloca- 
ção  laxonomica  constituo  ainda  lioje  um  problema  a  que  os  naturalistas 
dão  diversíssimas  soluções.  Fazendo  uma  ordem  aparte  para  os  conter  e 
distínguindo-os  profundamente  dos  echidnos,  dístanceíamo-nos  um  pouco 
da  maioria  dos  auctores  que  costumam  collocar  uns  e  outros  como  duas 
famílias  de  uma  ordem  única,  a  dos  monotremos.  Reservamos  para  de- 
pois do  estudo  parcial  dos  ornithorincos  e  dos  echidnos  a  justiflcação 
do  nosso  procedimento,  que  consiste  em  fazer  ordens  onde  muitos  fazem 
apenas  famílias.  É  possível  que  o  leitor  não  ache  suíTicientemente  pon- 
derosas as  razões  que  nos  determinam  no  caso  sujeito  a  aíTastarmo-nos 
de  Fíguier  e  de  Brehm;  nós  lembramos  no  entanto  que  em  pontos  liti- 
giosos de  classificação  é  mais  acceítavel  dividir  em  nome  mesmo  de  pe- 
quenas dííferenças  morphologícas  do  que  agrupar  em  nome  de  seme- 
lhanças muito  geraes  e  diíTicílmente  visíveis.  Em  obras  da  índole  da 
nossa,  pelo  menos,  é  o  que  se  nos  afflgura  mais  razoável.  Talvez  o  ri- 
gor scientiflco  perca  um  pouco  com  este  desmembramento,  com  esta  di- 
visão; o  leitor  porém,  menos  familiar  ao  estudo  profundo  da  historia  na- 
tural, lucrará  um  pouco. 

No  entanto  reservamos  para  mais  tarde  a  discussão  doeste  ponto; 
depois  de  estudados  os  ornithorincos  e  os  echidnos,  exporemos  as  opi- 
niões existentes  sobre  o  arranjo  taxonomico,  pleiteando  então  a  nossa. 


456  HISTORIA  NATURAL 


CARACTERES 


Os  ornilhorincos  lêem  o  corpo  achatado,  muito  semelhante  ao  dos 
castores  e  das  lontras  e  os  membros  muito  curtos,  terminados  por  cinco 
dedos  reunidos  por  uma  membrana  palmar.  As  patas  anteriores  são 
muito  fortes,  muito  musculosas,  próprias  para  nadar  e  para  cavar;  a 
membrana  que  une  os  dedos  é  muito  flexivel,  muito  extensível  também 
e  pode  dobrar-se  para  traz  quando  o  animal  cava.  As  patas  posteriores 
recurvam-se  para  traz  e  para  fora  como  as  das  phocas  e  a  membrana 
palmar,  mais  estreita  que  nas  patas  anteriores,  não  excede  a  raiz  das 
unhas  que  são  longas  e  aceradas.  Nos  individues  velhos  a  face  inferior 
das  patas  é  desnudada;  nos  novos,  pelo  contrario,  é  bem  provida  de 
pêllos. 

A  cabepa  tem  uma  conformação  particularíssima.  É  pequena,  acha- 
tada e  terminada  por  um  largo  bico  de  pato  em  cujo  extremidade  se 
abrem  as  narinas.  A  membrana  córnea  que  cobre  os  dois  maxillares  pro- 
longa-se  para  traz  formando  uma  espécie  de  escudo  que  cerca  a  base 
do  bico.  Existem  em  cada  maxilla  quatro  dentes  córneos;  na  maxilla  su- 
perior o  primeiro  da  frente  é  comprido,  fino,  agudo  e  o  ultimo  largo  e 
chato  em  forma  de  mollar.  Os  olhos,  situados  na  parte  superior  da  ca- 
beça, são  pequenos.  Perto  do  angulo  externo  dos  olhos  abre-se  o  canal 
auditivo.  A  lingua  é  carnuda,  coberta  de  verrugas  córneas;  atraz  apre- 
senta uma  dilatação  que  fecha  completamente  a  parte  posterior  da  bocca 
no  ponto  em  que  esta  cavidade  communica  com  a  pharynge. 

O  bico  representa  o  papel  de  um  verdadeiro  philtro  como  nos  patos; 
permitte  ao  animal  como  que  peneirar  a  agua,  separar  as  partículas  ah- 
mentares  e  collocal-as  n'umas  espécies  de  depósitos  que  ficam  situados 
aos  lados  da  cabeça  e  onde  o  animal  arrecada  o  que  encontra  quando 
mergulha. 

O  macho  apresenta,  além  dos  attributos  que  lhe  são  communs  a  elle 
e  á  fêmea,  um  apparelho  particular  composto  de  uma  glândula,  de  um 
canal  excretor  e  uma  unha  ou  esporão. 

Descrevamos. 

A  glândula  encontra-se  situada  sob  um  musculo  cuticular,  na  face 
externa  do  fémur;  é  grande,  triangular,  convexa  superiormente,  lisa, 
composta  de  diíTerentes  lóbulos,  revestida  por  uma  membrana  fina,  mas 
firme;  é  de  uma  cor  acastanhada.  Nasce  d'ella  um  pequeno  canal  de  pa- 
redes espessas,  largo  ao  principio,  que  desce  por  traz  da  coxa  e  da  perna 


mamíferos  em  especial  457 

e  que  adelgaça  para  terminar  n'um  pequeno  sacco  situado  na  excavação 
da  pata.  Este  sacco,  de  quatro  a  cinco  millimetros  de  diâmetro,  é  um 
reservatório  no  qual  se  accumula  o  producto  segregado.  Da  parte  media 
do  sacco  parte  um  outro  canal  muito  pequeno  e  membranoso  que  commu- 
nica  com  o  órgão  da  inoculação,  que  não  é  mais  do  que  um  esporão, 
grosso,  cónico,  ponteagudo,  caniculado  e  preso  ou  ligado  ao  tarso.  Com- 
põe-se  de  uma  lamina  córnea  e  de  um  osso.  O  ourificio  está  no  vértice 
sobre  a  face  convexa. 

Segundo  Varreaux,  o  esporão  serviria  para  facilitar  o  acto  sexual. 


•oso-« 


mamíferos  em  especial  459 


ORMTHORINCOS  EM  ESPECIAL 


A  ordem  dos  ornithorincos  comprehende  um  só  género  e  este  uma 
espécie  única. 


O  ORNITHORINCO  PARADOXAL 


É  no  dizer  de  Brebm  e  de  Figuier  o  mais  extraordinário  dos  mamí- 
feros vivos.  Bennett  fez  uma  viagem  á  Austrália  expressamente  para  o 
observar.  O  que  se  sabia  até  ao  tempo  d'esta  viagem  era  destituído  de 
precisão;  os  costumes  conheciam-se  mal,  por  informes  vagos.  Sabia-se 
que  o  ornitborinco  vivia  na  agua  e  que  os  indígenas  o  perseguiam  com 
ardor  e  lhe  comiam  a  carne  com  prazer.  A  estes  dados  deficientes  jun- 
tavam-se  phantasias,  descripções  fabulosas  dos  indígenas.  Dizia-se,  por 
exemplo,  que  o  ornitborinco  punba  ovos  e  os  chocava  como  os  patos; 
fallava-se  das  propriedades  venenosas  do  esporão. 

A  primeira  viagem  de  Bennett  realísou-se  em  1832  e  uma  segunda 
em  1838;  o. resultado  das  observações  feitas  foi  em  1860  consignado 
em  livro  especial,  publicado  em  Londres;  é  o  que  ha  de  melhor  e  de 
mais  completo  a  consultar.  Brebm  extrata  d'ahi  o  que  ha  de  mais  impor- 
tante e  de  mais  apropriado  para  dar  uma  idéa  do  animal. 

Os  colonos  dão  ao  ornilhorinco  paradoxal  o  nome  de  toupeira  da 
agua. 


4G0  HISTORIA  NATURAL 


CARACTERES 


Mede  meio  metro,  pouco  mais  ou  menos,  de  extensão,  incluída  a 
cauda  que  tem  approximadamente  quatorze  centimetros.  O  macho  é 
maior  que  a  fêmea. 

É  coberto  de  sedas  espessas,  grosseiras,  de  um  castanho  escuro 
com  reflexos  de  branco  argênteo.  Por  baixo  d'estas  sedas  ha  um  péllo 
fino,  pardo,  semelhante  ao  da  phoca.  Os  pêllos  do  peito  e  do  ventre  são 
finos,  sedosos,  curtos,  mas  espessos.  As  sedas  são  sempre  duras,  largas 
e  lanciformes.  O  manto  assim  formado  convém  admiravelmente  á  vida  do 
animal. 

A  cor  é  variável;  o  dorso,  por  exemplo,  é  ora  claro,  ora  escuro,  o 
que  primitivamente  fez  pensar  aos  naturalistas  n'uma  multiphcidade  de 
espécies.  As  patas  são  de  um  castanho  arruivado.  A  base  do  bico  é  de 
um  pardo  escuro  em  toda  a  volta,  apresentando  numerosos  pontos  cla- 
ros. A  extremidade  da  maxilla  superior  é  cor  de  carne  ou  ruiva  des- 
maiada; a  da  maxilla  inferior  é  branca  ou  manchada. 

Os  animaes  novos  distinguem-se  pelos  bellos  péllos  finos  e  argên- 
teos da  face  inferior  da  cauda  e  dos  membros;  pelo  attrito,  estes  pêllos 
caem  e  nos  individues  velhos  já  se  não  encontram. 


DISTRIBUIÇÃO   GEOGRAPHIGA 


A  área  de  dispersão  do  ornithorinco  paradoxal  é  muito  limitada, 
restricta.  Encontra-se  apenas  na  costa  oriental  da  Nova-IIollanda,  nos  ri- 
beiros e  nas  aguas  tranquillas  da  Nova-Galles  do  Sul  e  no  interior  das 
terras.  Muito  commum  em  alguns  d'estes  pontos,  elle  é  raro  n'outros; 
parece  faltar  a  norte  e  a  sul  da  Austraha. 


mamíferos  em  especial  4G1 


COSTUMES 


Pela  natureza  da  organisação  que  o  caracterisa,  o  ornithorinco  pa- 
radoxal procura,  sempre  que  ha  logar  para  preferencias,  as  margens 
dos  pequenos  cursos  d'agua  ou  dos  lagos  em  que  crescem  numerosas 
plantas  aquáticas  e  onde  existe  constantemente  uma  sombra  projectada 
por  arvores  copadas.  É  n'estes  pontos  que  estabelece  domicilio.  A  pri- 
meira toca  que  viu  Bennett  era  aberta  sobre  uma  riba  escarpada,  em 
meio  das  hervas  e  perto  do  nivel  da  agua.  Essa  toca  era  composta  de 
um  corredor  sinuoso  de  seis  metros  de  extensão,  approximadamente,  e 
de  um  vasto  compartimento  em  que  o  corredor  ia  terminar.  Plantas  aquá- 
ticas seccas  tapetavam  toda  a  toca. 

De  ordinário,  cada  toca  offerece  duas  aberturas,  uma  superior  e  ou- 
tra inferior  ao  nivel  d'agua.  A  extensão  do  corredor  ou  corredores  é  de- 
terminada pela  necessidade  de  collocar  o  aposento  principal  fora  do  al- 
cance das  aguas;  é  por  isso  que  ao  lado  de  corredores  de  seis  metros 
apparecem  outros  de  doze  e  mesmo  de  dezesete. 

Os  hábitos  de  vida  do  ornithorinco  paradoxal  teem  mais  de  noctur- 
nos que  de  diurnos;  não  obstante  é  impossível  classificar  o  animal  de 
nocturno,  por  isso  que  muitas  vezes  procura  alimentos  durante  o  dia. 

Quando  a  agua  é  límpida  seguem-se  com  facihdade  os  movimentos 
do  ornithorinco,  ora  mergulhando  ora  emergindo  para  respirar.  No  en- 
tanto é  raro  encontrar  o  animal  n'estas  condições;  de  ordinário  procura 
a  agua  turva,  os  legares  próximos  da  margem  e  onde  a  vasa  agitada, 
toldando  o  liquido,  o  põe  a  coberto  de  observações  perigosas.  Parece 
que  o  instincto  o  aconselha  no  sentido  da  reserva  e  da  prudência. 

A  ahmentação  principal  do  ornithorinco  compõe-se  de  moUuscos  e 
de  pequenos  insectos  aquáticos. 

Acerca  da  reproducpão  do  ornithorinco  existiam,  antes  das  viagens 
de  Bennett,  as  mais  disparatadas  informações.  Dizia-se  muito  a  sério  que 
a  fêmea  punha  ovos  como  fazem  as  aves;  d'aqui  a  resistência  justificada 
dos  naturahstas  antigos  a  coUocarem  o  ornithorinco  na  classe  dos  mami- 
feros.  Bennett  destruiu  todas  as  fabulas:  descobrindo  mamas  ao  animal, 
reconheceu  desde  logo  que  se  tratava  de  um  viviparo  e  procurou  pa- 
cientemente saber  como  a  parturição  se  realisava  e  qual  o  modo  por  que 
os  filhos  eram  ahmentados.  Esta  ultima  investigação  não  era,  como  á  pri- 
meira vista  poderá  parecer,  ociosa,  porque,  embora  o  animal  apresen- 
tasse mamas,  e  d'ahi  se  devesse  concluir  que  aleitava  os  filhos,  não  dei- 


462  IIISTOIUA    NATUBAL 

xava  de  ser  um  problema  saber  o  mocJo  como  esse  aleitamento  se  fazia, 
visto  que  as  mamas  eram  desprovidas  de  mamillos  e  o  naturalista  inglez 
não  lograra  extrair  d'ellas  qualquer  quantidade  de  leite.  Segundo  as 
observações  de  Bennett,  de  Varraux  e  d 'outros  naturalistas  dislinctos,  o 
parto  realisa-se  no  ornithorinco  de  um  modo  perfeitamente  análogo  ao 
de  todos  os  mamíferos;  os  íilhos  são  expulsos  vivos  do  útero  materno. 
Nunca  ninguém  viu  um  ornithorinco  mamar,  nem  isso  parece  possivel 
pela  circumstancla  de  não  existirem  mamillos  nas  tetas.  A  crer  nas  in- 
formações tidas  como  mais  exactas,  o  aleitamento  produzir-se-hia  de  um 
modo  inteiramente  curioso  e  singularissimo :  a  fêmea,  nadando,  iria  len- 
tamente derramando  o  leite  na  agua  e  os  filhos,  seguindo-a  de  perto, 
il-o-hiam  sorvendo. 

Das  observações  de  Bennett  resulta  que  o  ornithorinco  paradoxal 
não  pode  viver  muito  tempo  debaixo  d'agua.  Esta  conclusão  enuncia  pre- 
cisamente o  contrario  do  que  em  outro  tempo  se  acreditou  geralmente. 
O  animal  quando  mergulha  precisa  de  tomar  pé;  é  por  isso  que  intro- 
duzindo o  ornithorinco  n'um  meio  túnel  d'agua,  elle  morre.  O  ornitho- 
rinco forçado  a  estar  quinze  minutos  sob  a  agua,  retira-se  d'ella  morto 
ou  quasi  morto.  Tudo  isto  prova  que  se  não  pode  dar  ao  animal  a  desi- 
gnação de  aquático. 


GAPTIVEIRO 


Eis  o  que  escreveu  Bennett  acerca  de  um  ornithorinco  que  elle  re- 
duziu ao  captiveiro:  «No  momento  em  que  foi  apanhado  na  toca,  o  medo 
fez-lhe  expulsar  os  excrementos  que  espalhavam  em  torno  um  cheiro  dos 
mais  fétidos.  Não  fez  ouvir  um  único  som,  nem  mesmo  procurou  defen- 
der-se;  apenas  me  arranhou  um  pouco  a  mão  no  momento  em  que  ten- 
tou fugir.  Era  uma  fêmea  adulta;  os  pequenos  olhos  brilhavam-lhe,  abria 
e  fechava  alternativamente  os  ouvidos  e  pude  observar  que  o  coração 
lhe  batia  precipitadamente.  Pareceu  habituar-se  rapidamente  á  sua  sorte, 
com  quanto  ainda  tentasse  vagamente  escapar.  Eu  não  podia  segurar  este 
ornithorinco  pelo  manto  que  era  de  pêllo  muito  molle.  Metti-o  dentro  de 
uma  pipa  cheia  de  vasa,  de  hervas  e  de  agua.  Tentou  sair;  vendo  porém 
que  eram  baldados  todos  os  seus  esforços  n'este  sentido,  resignou-se, 
ficou  socegado,  deitou-se  e  pareceu  adormecer.  Passou  comtudo  a  noite 
muito  agitado,  arranhando  constantemente  com  as  patas  anteriores  como 


mamíferos  em  especial  463 

se  procurasse  cavar  uma  toca.  No  dia  seguinte,  de  manhã,  vi-o  profun- 
damente adormecido,  enrolado  sobre  si  mesmo,  com  a  cabeça  encostada 
contra  o  peito;  quando  o  acordei,  rosnou  como  um  pequeno  cão.  Passou 
o  dia  inteiro  tranquillamente;  á  noite  porém,  fez  tentativas  para  evadir-se 
e  rosnou  sem  cessar.  Os  europeus  meus  visinhos,  que  muitas  vezes  ti- 
nham visto  o  ornithorinco  morto  estavam  agora  encantados  de  ver  um 
exemplar  vivo.  Era  esta,  creio  eu,  a  primeira  vez  que  um  europeu  to- 
mara posse  de  ornithorinco  e  observara  uma  toca. 

«Quando  parti,  colloquei  o  animal  n'uma  gaiola  pequena  com  hervas 
e  levei-o  comigo.  Para  distrail-o,  prendi-lhe  a  uma  pata  uma  correia 
comprida  e  colloquei-o  perto  da  agua.  Penetrou  desde  logo  no  liquido, 
nadando  contra  a  corrente  e  procurando  os  legares  em  que  mais  abun- 
davam as  plantas  aquáticas.  Depois  de  ter  nadado  sufficientemente,  vol- 
tou á  margem,  deitou-se  na  herva  e  principiou  a  catar-se  e  a  alisar  o 
pêllo  com  verdadeira  voluptuosidade.  Servia-se  para  isso  das  patas  pos- 
teriores, dobrando  o  corpo  com  flexibilidade  extraordinária.  Tudo  isto 
durou  pouco  mais  ou  menos  uma  hora.  Depois  d'este  trabalho  de  aceio, 
o  ornithorinco  parecia  mais  bello  e  mais  brilhante  do  que  antes.  Dei- 
xou-se  então  acariciar  por  mim. 

«Alguns  dias  depois,  fll-o  tomar  um  segundo  banho,  mas  d'esta  vez 
em  agua  limpida,  onde  podia  seguir-lhe  os  movimentos.  Mergulhou  até 
ao  fundo  da  agua,  demorou-se  ahi  alguns  instantes  e  voltou  á  superfície. 
Nadava  ao  longo  das  margens  e  servia-se  do  bico  como  de  um  órgão 
delicadíssimo  de  tacto.  Parecia  encontrar  com  que  nutrir-se,  porque,  de 
cada  vez  que  retirava  o  bico  da  agua,  principiava  a  mover  as  maxillas 
lateralmente  como  quando  come.  Não  perseguiu  os  insectos  que  se  agi- 
tavam em  torno  d'elle,  ou  porque  não  os  via,  ou  porque  dava  a  preferen- 
cia aos  aUmentos  que  ia  encontrando.  Depois  de  comer,  deitou-se  na 
herva  que  cobria  a  margem,  com  o  corpo  meio  dentro,  meio  fora  da 
agua;  catou-se  e  ahsou,  como  da  primeira  vez,  o  péllo.  Voltou  á  prisão 
forçado  e  com  um  visivel  desprazer,  não  socegando  um  momento.  Toda 
a  noite  o  ouvi  arranhando  a  gaiola,  que  de  manhã  fui  encontrar  vasia. 
O  ornithorinco  tinha  consiguido  destacar  uma  taboa  e  evadir-se.  Tor- 
nou-se  assim  impossível  toda  a  observação  ulterior. 

O  mesmo  naturahsta,  referindo-se  a  uns  pequenos  ornithorincos 
que  apanhou,  continua:  «Deixava-os  livremente  correr  no  meu  quarto, 
sem  inconveniente.  A  minha  pequena  famiha  de  ornithorincos  viveu  al- 
gum tempo  e  eu  pude  observar  bem  os  seus  costumes.  Muitas  vezes  pa- 
reciam sonhar  que  andavam  nadando  e  moviam  os  membros  anteriores 
de  um  modo  apropriado.  Se  os  collocava  no  chão  durante  o  dia,  procu- 
ravam um  logar  escuro  para  se  deitarem  e  dormirem;  preferiam  no  en- 
tanto o  logar  onde  habitualmente  estavam.  Outras  vezes  abandonavam 


464  HISTORIA  NATURAL 

por  capricho  a  antiga  cama  c  iam  cleitar-sc  n'oulro  logar  escuro.  Quando 
estavam  profundamente  adormecidos,  era  possivel  tocal-os  sem  que  des- 
pertassem. 

«Á  tarde  os  meus  dois  ornithorincos  favoritos  comiam  a  sua  sopa  e 
principiavam  a  brincar  como  cães,  attacando-se  com  o  bico,  erguendo 
as  patas  posteriores,  trepando  um  pelo  outro,  etc.  Se  um  d'elles  caia, 
em  vez  de  se  erguer  e  de  continuar  o  combate,  deixava-se  ficar  tran- 
quillamente  deitado,  coçando-se,  cm  quanto  o  companheiro  esperava  pa- 
cientemente que  elle  recomeçasse  a  brincar.  Eram  muito  vivos;  os  pe- 
quenos olhos  brilhavam-lhes  e  as  orelhas  abriam-se  e  fechavam-se  alter- 
nativamente e  rapidamente.  Não  gostavam  que  se  lhes  deitasse  a  mão. 

«Os  olhos,  por  isso  que  se  achavam  collocados  muito  superiormente, 
não  podiam  ver  para  diante  e  acontecia  que  os  animaes  batiam  muitas 
vezes  de  encontro  aos  objectos  e  os  deitavam  por  terra.  Baixavam  repe- 
tidamente a  cabeça  para  verem  o  que  em  volta  d'elles  se  passava.  Ás 
vezes  brincavam  comigo;  eu  acariciava-os,  fazia-lhes  cócegas  e  elles  da- 
vam pronunciados  signaes  de  contentamento.  Mordiam-me  brandamente 
os  dedos  e  comportavam-se  exactamente  como  pequenos  cães.  Quando 
tinham  o  pêllo  húmido,  aUsavam-o,  penteavam-o,  como  os  patos  fazem 
ás  pennas.  Tornavam-se  então  mais  bellos  e  mais  brilhantes.  Se  os  col- 
locava  n'um  vaso  profundo,  cheio  d'agua,  procuravam  rapidamente  sair 
d'elle;  mas  se  a  agua  era  pouco  alta  e  no  vaso  havia  hervas,  então  dei- 
xavam-se  ficar,  parecendo  estarem  muito  á  vontade.  Recomeçavam  a 
brincar  na  agua;  quando  se  cançavam,  deitavam-se  sobre  a  herva  e 
anediavam-se.  Uma  vez  hmpos  e  aceiados,  corriam  um  pouco  pelo 
quarto  e  chegavam  por,  fim  ao  logar  em  que  habitualmente  dormiam. 
Raras  vezes  se  conservavam  mais  de  dez  a  quinze  minutos  na  agua. 
Durante  a  noite  faziam-se  constantemente  ouvir,  parecendo  que  brinca- 
vam; de  manhã  encontravam-se  sempre  tranquillamente  adormecidos. 

«Estive  tentado,  ao  principio,  a  consideral-os  animaes  nocturnos; 
convenci-me  porém  rapidamente  da  inexactidão  d'este  modo  de  ver,  por 
isso  que  os  ornithorincos  repousavam  tanto  de  dia  como  de  noite  e  a  ho- 
ras muito  differentes.  Ao  pôr  do  sol  pareciam  mais  vivos,  mais  dispos- 
tos ao  movimento;  e  isto  acontecia  tanto  com  os  novos  como  com  os  ve- 
lhos animaes.  Mas  também  é  certo  que  velavam  ou  dormiam  de  dia  ou  de 
noite,  indififerentemente.  Muitas  vezes  dormia  um  em  quanto  o  outro  cor- 
ria; o  macho  era  ás  vezes  o  primeiro  a  abandonar  o  ninho,  ficando  a 
fêmea  a  dormir,  vindo  deitar-se,  depois  de  fatigado  de  correrias,  no  mo- 
mento em  que  a  fêmea  despertava  para  sair.  Algumas  vezes  também 
despertavam  simultaneamente.  Uma  tarde  em  que  os  dois  andavam  cor- 
rendo, a  fêmea  soltou  um  grito,  como  para  chamar  a  attenção  do  com- 
panheiro, que   se  escondera  n'um  canto  qualquer;  respondeu-lhe  um 


mamíferos  em  especial  465 

grito  semelhante  e  a  fêmea  correu  immediatamente  ao  logar  d'on(le  ello 
partia.»  *  Para  treparem,  os  ornithorincos  encostam  o  dorso  contra  uma 
parede  e  as  patas  contra  um  objecto  próximo,  subindo  então  rapidamente, 
graças  aos  vigorosos  músculos  dorsaes  e  ás  unhas  agudas. 


AGGLIMAÇAO 


Em  captiveiro  os  ornithorincos  alimentam-se  facilmente.  Bennett  dava 
aos  que  possuiu  pão  humedecido  em  agua,  ovos  e  carne. 

Teem  sido  até  hoje  infructiferas  todas  as  tentativas  feitas  no  sentido 
de  conservar  vivos  na  Europa  alguns  ornithorincos.  Retirados  do  paiz 
natal,  definham,  perdem  o  brilho  do  péllo,  adoecem  e  dentro  de  pouco 
tempo  morrem. 


usos   E   PRODUGTOS 


A  carne  do  ornithorinco  serve  de  ahmento  na  Austrália.  O  paladar 
de  um  europeu  diíTicilmente  se  lhe  habituaria,  porque  a  impregna  um 
forte  e  penetrante  cheiro  de  secreção  oleosa.  Como  justamente  observa 
Brehm,  os  australianos  comem  toda  a  ordem  de  alimentos,  desde  os  mais 
delicados  até  aos  mais  repugnantes;  não  causa  por  isso  estranheza  que 
os  satisfaça  a  carne  do  ornithorinco  paradoxal. 


-•-c@o-« 


Citado  por  Brehm,  Ohr.  cif.,  vol.  2.»,  pg.  292. 

.    IIT  oO 


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ECHIDNOS 


CONSIDERAÇÕES    GERAES 


A  propósito  da  formação  de  uma  ordem  para  conter  os  echidnos  que 
muitos  naturalistas  consideram  ao  lado  dos  ornithorincos  como  uma  sim- 
ples família  dos  monotremos,  relembramos  ao  leitor  as  observações  fei- 
tas nas  paginas  precedentes.  Ahi  dissemos  e  n'este  logar  repetimos  que 
reservamos  para  depois  do  estudo  parcial  de  cada  um  dos  grupos  a  jus- 
tificação do  nosso  procedimento. 


CARACTERES 


Os  echidnos  teem  o  corpo  pezado,  refeito,  um  tanto  achatado,  o 
pescoço  curto  continuando-se  insensivelmente  com  a  cabeça  e  com  o 
tronco,  a  cabeça  alongada,  relativamente  pequena  e  terminada  por  uma 
espécie  de  bico  fino,  alongado,  cyliridrico  e  em  cuja  extremidade  se  en- 
contra um  ourificio  boccal  muito  pequeno  e  estreito.  A  maxilla  superior 
excede  um  pouco  nos  echidnos  a  inferior;  as  narinas  são  pequenas  e 


468  HISTORIA  NATURAL 

ovaes.  A  pelle  nua  que  reveste  as  narinas  é  tenra  e  gosa  de  uma  certa 
mobilidade. 

Os  olhos  são  pequenos,  encovados,  lateraes  e  munidos  de  uma 
membrana  subjacente  ás  pálpebras  e  análoga  á  das  aves.  O  ouvido  não 
apresenta  pavilhão  exterior,  nem  mesmo  rudimentar.  O  canal  auditivo 
externo  abre-se  na  parte  posterior  da  cabeça;  é  largo  internamente,  mas 
a  abertura  de  entrada  reduz-se  a  uma  fenda  em  forma  de  S,  coberta  por 
uma  prega  cutânea  que  o  animal  abre  e  fecha  quando  quer. 

O  tronco  é  superiormente  coberto  de  picos.  Os  membros  são  curtos, 
fortes,  espessos  e  todos  da  mesma  extensão;  os  posteriores  são  forte- 
mente recurvos  para  fora  e  para  traz  e  os  exteriores  rectos.  Todas  as 
patas  teem  cinco  dedos,  de  pouca  mobihdade,  ligados  por  pelle  até  á 
origem  das  unhas,  que  são  próprias  para  cavar  e  portanto  muito  com- 
pridas e  muito  fortes,  principalmente  as  das  patas  posteriores.  No  macho 
as  patas  de  traz  apresentam  um  esporão  córneo  de  um  centímetro  de 
comprido,  pouco  mais  ou  menos,  forte,  ponteagudo,  tendo  um  ourificio 
e  communicando  com  uma  glândula  particular,  do  volume  approximado 
de  um  grão  de  hervilha.  Este  esporão,  considerado  como  uma  arma  de- 
fensiva do  animal,  tem  sido  injustificadamente  comparado  ao  dente  vene- 
noso das  serpentes. 

A  cauda  dos  echidnos  é  perfeitamente  rudimentar  e  apenas  se  re- 
conhece pela  forma  e  disposição  dos  picos.  A  lingua,  coberta  à  raiz  de 
verrugas  espinhosas,  ponteagudas,  dirigidas  para  traz,  pode  sair  seis 
a  oito  centímetros  fora  das  maxillas;  é  coberta  de  um  inducto  viscoso 
segregado  por  glândulas  salivares  volumosas  e  que  é  de  uma  grande 
utilidade  aos  animaes  d'este  grupo  para  apanharem  e  reterem  as  sub- 
stancias alimentares.  A  abobada  palatina  apresenta  sete  ordens  trans- 
versaes  de  pequenas  escamas  córneas,  duras,  ponteagudas,  dirigidas 
para  traz,  correspondendo  ás  papilas  linguaes  e  substituindo  dentes.  As 
glândulas  mamarias  apresentam  cerca  de  seiscentos  canaes  excretores. 


DISTRIBUIÇÃO  GEOGRAPHICA 


Habitam  o  continente  australiano. 


mamíferos  em  especial  469 


COSTUMES 


Visto  a  ordem  conter  um  género  só  e  uma  só  espécie,  fallaremos 
d'este  ponto  na  especialidade. 


USOS  E  PRODUCTOS 


Por  motivo  idêntico  ao  que  acima  produzimos,  reservamo-nos  para 
fallar  doeste  ponto  quando  tratarmos  da  única  espécie  da  ordem  em 
questão. 


—-CxSO-»- 


mamíferos  em  especial  471 


ECHIDNOS  EM  ESPECIAL 


A  ordem  comprehende  um  só  género  e  esta  uma  espécie  única. 


O  ECHIDNO  ESPINHOSO 


A  este  animal  foi  primitivamente  dado  o  nome  de  formigueiro  espi- 
nhoso, que  era  em  verdade  muito  significativo,  mas  que  oíferecia  o  in- 
conveniente fundamental  de  permittir  a  confusão  d'este  mamífero  com 
os  formigueiros.  Os  colonos  da  Austrália  denominam-o  um  pouco  impro- 
priamente ouriço,  attendendo  ao  manto  erriçado  de  espinhos  agudos  e 
perfurantes. 


caracteres 


O  echidno  espinhoso  adulto  mede  approximadamente  meio  metro  da 
extensão  e  dezeseis  centímetros  de  altura;  a  cauda  tem,  quando  muito, 
quatorze  millimetros.  Os  dois  sexos  diíTerem  apenas  pelo  esporão,  cuja 
presença  é  exclusiva  ao  macho.  Os  indivíduos  novos  distinguem-se  dos 
que  o  não  são  pela  existência  de  picos  mais  curtos. 


47â  IlISTOUIA    NATURAL 

Os  picos  cobrem  toda  a  parte  superior  do  corpo,  a  partir  do  occi- 
pital; são  muito  espessos  e  pouco  mais  ou  menos  de  egual  comprimento 
até  ás  nádegas.  N'este  ponto  separam-se  e  formam  dois  feixes  entre  os 
quaes  se  encontra  a  cauda.  Os  do  dorso  são  um  pouco  mais  curtos  que 
os  dos  lados  do  tronco.  Uns  e  outros,  não  excedendo  trez  a  seis  cenli- 
metros  de  comprido,  são  cercados  na  raiz  por  péllos  curtos,  de  quinze 
millimetros  de  extensão  e  que  se  não  vêem  senão  afastando  os  picos. 
Taes  pêllos  existem  apenas  na  cabeça,  nos  membros  e  no  ventre;  são 
rijos,  sedosos  e  de  um  castanho  escuro.  Os  picos  são  brancos  amarella- 
dos,  de  ponta  negra.  A  pupila  é  negra,  a  iris  azul  e  a  lingua  de  um  ver- 
melho vivo. 


DISTRIBUIÇÃO    GEOGRAPIIIGA 


O  echidno  espinhoso  habita  todo  o  continente  australiano. 


COSTUMES 


Habita  mais  as  montanhas  do  que  as  planícies;  prefere  as  florestas 
seccas  onde  cava  tocas  por  entre  as  raizes  das  arvores.  Subindo  nas 
montanhas,  attinge  uma  altura  de  mil  metros  acima  do  nivel  do  mar. 

O  echidno  espinhoso  é  um  animal  de  hábitos  nocturnos;  como  tal, 
occulta-se  durante  todo  o  dia  e  só  depois  do  sol  posto  vagueia  em  pro- 
cura de  alimentos.  Marcha  muito  vagarosamente  e  baixando  sempre  a 
cabeça  até  junto  do  solo.  Quando  cava,  o  que,  segundo  Brehm,  faz  ma- 
ravilhosamente, os  seus  movimentos  são  vivos  e  muito  rápidos.  Trabalha 
simultaneamente  com  as  quatro  patas  e  desapparece  n'um  momento  de- 
baixo da  terra. 

Na  obscuridade  é  difficil  vêr  o  echidno,  porque  a  cor  geral  d'este 
mamífero  confunde-se  com  a  do  solo. 

O  echidno  espinhoso  não  cava  somente  para  fazer  tocas^  mas  ainda 
para  encontrar  alimentos;  examina  cuidadosamente  cada  fenda,  cada  bu- 
raco e  desde  que  vô  ou  fareja  qualquer  substancia  que  lhe  sirva  para 
comer,  cava  para  alargar  o  ouriflcio  e  apanhar  essa  substancia.  O  ali- 
mento principal  do  mamífero  que  estamos  estudando,  consiste  era  vermes 


mamíferos  em  especial  473 

e  em  insectos,  especialmente  formigas  e  termes.  Procura-os  com  a  ex- 
tremidade do  focinho  ou  bico  que  é  muito  sensivel  e  que  parece  mais 
um  órgão  de  tacto  que  de  olfação.  Para  apaniiar  os  insectos  de  que  se 
alimenta,  faz  como  os  formigueiros :  estende  a  lingua  e  recolhe-a  preci- 
pitadamente desde  que  a  ella  adherem  os  animalculos,  presos  na  visco- 
sidade do  órgão.  Gomo  os  formigueiros,  elle  ingere  também  areia  e  pe- 
quenos fragmentos  de  madeira  secca;  no  estômago  encontrara-se-lhe 
sempre  estas  substancias. 

O  echidno  espinhoso,  sentindo-se  perseguido,  enrola-se,  como  o  ou- 
riço cacheiro,  e  torna-se  então  diííicil  apanhal-o,  porque  os  picos  são 
muito  acerados,  agudissimos.  N'estas  condições,  o  melhor  modo  de  o 
apanhar  é  segural-o  pelas  patas  posteriores.  Quando  o  animal  se  tem  re- 
colhido a  uma  toca  ou  buraco  de  alguns  centímetros  apenas  de  profun- 
didade, é  diíTicillimo  tiral-o  para  fora,  porque,  á  maneira  dos  tatus,  elle 
agarra-se  com  as  fortes  unhas  ás  paredes  e  applica  contra  ellas  os  pi- 
cos. O  animal  faz  o  mesmo  em  relação  a  todas  as  cavidades  pequenas. 
Diz  Bennett:  «Deram-me  um  dia  um  echidno.  Metti-o  dentro  de  uma  caixa 
de  herborisação  para  melhor  podel-o  transportar;  chegando  porém  a 
casa,  vi  que  elle  adherira  ao  fundo  da  caixa  como  um  caracol  a  uma  pe- 
dra. Não  se  via  mais  que  um  montão  de  picos  de  tal  modo  acerados  que 
era  impossível  alguém  tocal-os  sem  se  ferir.  Eu  não  podia  destacal-o  da 
caixa;  foi-me  preciso  introduzir-lhe  lentamente  uma  espátula  debaixo  do 
corpo  e  levantal-a  depois  com  força.  O  echidno  podeter-se  na  mão  que 
é  perfeitamente  inoíTensivo.»  * 

Os  indígenas  acreditam  que  o  macho  fere  os  inimigos  com  o  esporão 
e  lança  na  ferida  um  hquido  venenoso;  as  observações  dos  naturalistas 
provaram  que  era  absolutamente  falsa  uma  tal  asserção.  O  echidno  de- 
fende-se  como  o  ouriço  cacheiro,  enrolando-se  em  esphera  ou,  se  tem 
tempo  para  isso,  cavando  na  terra  uma  toca  em  que  se  occulta.  No  en- 
tanto é  frequentemente  victima  do  thylacino  que  o  devora,  mesmo  com 
os  picos. 

Quando  inquieto,  o  echidno  faz  ouvir  um  ligeiro  grunhido. 

De  todos  os  sentidos  d'este  mamífero  os  mais  desenvolvidos  são  a 
vista  e  o  ouvido;  todos  os  outros  são  obtusos.  A  intelhgencia  é  rudi- 
mentar. 

Sabe-se  muito  pouco  relativamente  á  reproducção.  A  fêmea  dá  á 
luz  em  Dezembro  alguns  filhos  que  aleita  durante  muito  tempo. 

Os  naturalistas,  com  quanto  o  não  aíTirmem  seguramente,  sentem-se 
todavia  dispostos  a  crer  que  o  echidno  espinhoso  tem  um  somno  hyber- 


*    Citado  por  Brehm,  Loc.  ciL,  vol.  2.»,  pg.  286. 


474  HISTORIA  NATURAL 

nal.  Fundam-se  para  dar  este  facto  como  provável  em  que  raras  vezes 
se  encontra  o  animal  durante  os  mezes  de  seccura  e  em  que  quando  a 
temperatura  abaixa,  ainda  mesmo  ligeiramente,  elle  cáe  n'uma  espécie 
de  lethargia. 


CAPTIVEIRO 


o  que  sabemos  da  vida  do  echidno  captivo  é  principalmente  devido 
a  Garnot,  Quoy  e  Gaimard.  Estes  últimos  observadores  possuíam  um  ma- 
cho vivo  em  Hobarttown.  Parecia  insensível  e  estúpido.  Conservava-se 
todo  o  dia  occulto,  com  a  cabeça  entre  as  patas,  com  os  picos  erriçados, 
embora  não  enrolado,  e  procurava  os  logares  obscuros.  Os  esforços  que 
fazia  para  sair  da  gaiola  em  que  o  haviam  collocado,  demonstravam  o 
seu  amor  pela  liberdade.  Quando  o  depunham  n'uma  caixa  cheia  de 
terra,  cavava,  servindo-se  das  patas  e  do  focinho,  e  dentro  em  dois  mi- 
nutos, ou  ainda  em  menos  tempo,  escondia-se  inteiramente.  Mais  tarde 
principiou  a  lamber  os  alimentos  que  lhe  davam  e  acabou  por  comer 
uma  espécie  de  pasta  semi-liquida,  feita  com  agua,  farinha  e  assucar. 
Morreu  em  consequência  de  um  banho  excessivamente  prolongado. 

Garnot  comprou  um  echidno  em  Port-Jakson  a  um  homem  que  lhe 
aíTirmou  tel-o  alimentado  durante  dois  dias  somente  com  vegetaes  e  que 
lhe  affirmou  que  o  animal  comia  em  Uberdade  pequenos  ratos,  etc.  Fun- 
dado n'estes  dados,  Garnot  fechou  o  echidno  dentro  de  uma  caixa  com 
terra  e  deu-lhe  legumes,  sopa,  carne  fresca  e  moscas;  o  animal  porém 
não  tocou  em  nenhuma  d'estas  substancias.  Limitava-se  a  beber  agua 
com  extraordinária  avidez;  viveu  assim,  aíTirma  Brehm,  durante  trez  me- 
zes, até  ser  transportado  a  Mauricia.  Ahi  deram-lhe  formigas  e  minhocas, 
que  se  recusou  também  a  comer;  parecia  gostar  muito  do  leite  de  coco. 
Esperava-se  trazel-o  á  Europa,  mas  foi  encontrado  morto  trez  dias  antes 
da  partida. 

Este  curioso  mamífero  dormia  não  menos  de  vinte  horas  por  dia; 
no  outro  tempo,  de  resto  bem  diminuto,  vagueiava.  Quando,  cami- 
nhando, encontrava  qualquer  obstáculo,  procurava  aíTastal-o  e  não  se 
desviava  senão  depois  de  perfeitamente  convencido  da  inutilidade  de  to- 
dos os  seus  esforços. 

No  quarto  em  que  dormia,  escolhera  um  canto  para  depositar  n'ene 
os  excrementos;  um  outro  canto,  do  lado  mais  escuro,  era  occupado  por 
uma  caixa  onde  elle  repousava.  Muitas  vezes  parecia  impôr-se  uns  de- 
terminados hmites,  caminhando  por  aqui  e  por  além  sem  nunca  os  ultra- 


mamíferos  em  especial  475 

passar.  Caminhava  com  a  cabeça  baixa;  c  embora  a  marcha  parecesse 
penosa,  é  certo  que  percorria  doze  a  quatorze  metros  por  minuto.  O  na- 
riz duro  e  movei  parecia  servir-lhe  de  guia. 

Para  escutar  abria  os  ouvidos.  Era  aífeiçoado  a  caricias,  mas  muito 
timido;  ao  mais  hgeiro  ruido  enrolava-se  n'uma  bola,  como  fazem  os  ouri- 
ços caclieiros.  Quando  perto  d'elle  se  punha  um  pé  no  sobrado,  só  pas- 
sado muito  tempo  depois  de  dissipado  o  ruido  assim  feito  é  que  come- 
çava a  desenrolar-se. 

Um  certo  dia  deixou  de  passeiar;  Garnot  foi  buscal-o  ao  canto  em 
que  costumava  deitar-se  e  sacudiu-o.  Movia-se  tão  pouco,  tão  lentamente 
que  parecia  moribundo;  Garnot  collocou-o  ao  sol  e  friccionou-lhe  o  ven- 
tre com  um  panno  quente,  retomando  o  echidno  rapidamente  a  antiga 
alegria.  Mais  tarde  conservou-se  quarenta  e  oito  horas,  depois  setenta  e 
duas  e  por  fim  oitenta  sem  se  mover;  mas  ninguém  lhe  perturbou  o 
somno.  Só  se  tornava  verdadeiramente  activo  quando  acordava  esponta- 
neamente; se  o  despertavam,  recaía  na  somnolencia  primitiva.  Ás  vezes 
vagueiava  de  noite,  mas  tão  silenciosamente  que  ninguém  o  perceberia 
se  não  acontecesse,  como  acontecia,  de  vir  bater  de  encontro  ás  pernas 
do  dono. 

O  echidno  quando  novo  alimenta-se  perfeitamente  com  leite;  cres- 
cendo porém,  e  desde  que  os  picos  principiam  a  apparecer,  reclama  ou- 
tro género  de  alimentação.  É  preciso  então  deixal-o  ir  de  quando  em 
quando  até  um  formigueiro  ou  dar-lhe  branco  do  ovo  coagulado  com 
uma  certa  quantidade  de  areia  addiccionada. 

É  provável,  diz  Brehm,  que  ainda  vejamos  um  dia  o  echidno  espi- 
nhoso na  Europa,  por  isso  que  os  mamíferos  de  somno  hybernal  suppor- 
tam  bem  as  longas  viagens. 


usos  E  PRODUCTOS 


Os  australianos  assam  o  echidno  com  a  pelle,  como  fazem  os  bohe- 
mios  ao  ouriço,  e  comem-o;  os  colonos  europeus  aíTirmam  que,  assim 
preparado,  é  um  prato  excellente.  É  esta  a  única  utilidade  conhecida  do 
echidno  espinhoso. 


476  HISTORIA   NATURAL 

Alguns  naturalistas  teem  admittido  ainda  uma  outra  espécie,  o  echi- 
d7\o  sedoso.  No  entanto  os  modernos  observadores  não  reconhecem  tal 
espécie,  limitando-se  a  fazer  d'esse  grupo  uma  simples  variedade. 


Os  ornithorincos  e  echidnos  que  acabamos  de  estudar,  são,  como  o 
leitor  viu,  singulares  animaes  cuja  coUocação  taxonomica  na  vasta  escala 
zoológica  tem  sido  e  é  ainda  hoje  objecto  de  controvérsias  entre  os 
observadores  e  naturahstas  mais  distinctos.  A  razão  d'estas  controvér- 
sias, a  plena  justificação  d'ellas  encontra-as  facilmente  quem  leu  os  ca- 
racteres morphologicos  e  os  hábitos  de  vida  de  uns  e  outros  d'estes  ma- 
míferos. Elles  foram  com  effeito  alternativamente  incluídos  nas  ordens 
dos  desdentados  e  dos  marsupiaes  e  posteriormente  relacionados  sob  a 
designação  commum  de  monotremos  ou  ornithodelphos. 

Nós,  reconhecendo  inteiramente  a  existência  de  caracteres  communs 
aos  ornithorincos  e  echidnos,  separamol-os  em  ordens  em  vez  de  fazer- 
mos d'elles  simples  famílias  de  uma  ordem  única,  porque  nos  pareceu 
que  sob  o  ponto  de  vista  da  vulgarisação,  que  é  o  nosso,  os  caracteres 
morphologicos  e  dynamicos  que  os  distinguem  são  porventura  mais  nu- 
merosos e  mais  facilmente  reconhecíveis  que  aquelles  que  os  asseme- 
lham. Com  effeito,  ao  lado  de  quahdades  que  tendem  a  collocar  ornitho- 
rincos e  echidnos  n'uma  única  ordem,  quahdades  que  abaixo  estudamos, 
ha  outras,  senão  mais  importantes,  pelo  menos  mais  apreciáveis,  mais 
visíveis  que  tendem,  pelo  contrario,  a  separal-os.  N'este  ultimo  caso  es- 
tão, por  exemplo,  a  natureza  do  manto,  a  forma  do  bico,  o  aspecto  ge- 
ral do  corpo,  o  modo  de  aleitamento,  a  natureza  do  terreno  habitado  e 
ainda  e  sobretudo  o  género  de  vida.  É  o  que  já  vimos.  O  manto  dos  or- 
nithorincos é  de  um  pêllo  sedoso,  o  dos  echidnos  de  picos  agudos,  pe- 
netrantes, como  o  dos  ouriços;  o  bico  dos  ornithorincos  é  largo  e  acha- 
tado, como  o  dos  patos,  o  dos  echidnos  estreito  e  arredondado;  o  aspe- 
cto dos  ornithorincos  é  de  patos  a  que  alguém  tivesse  tirado  as  pennas 
para  as  substituir  por  péllos  e  tivesse  collocado  quatro  membros  em  vez 
de  dois;  o  aspecto  dos  echidnos  é  o  de  ouriços  cacheiros,  com  que  á 
primeira  vista  se  seria  tentado  a  confundil-os;  o  modo  por  que  os  orni- 
thorincos aleitam  os  filhos  é  verdadeiramente  excepcional  na  classe  dos 
mamíferos,  o  que  se  não  dá  com  os  echidnos;  os  ornithorincos  procuram 
de  preferencia  os  logares  húmidos,  a  vasa,  as  visinhanças  dos  cursos 
d'agua,  ao  passo  que  os  echidnos  buscam  os  terrenos  seccos,  os  logares 
altos,  as  florestas  nas  montanhas;  finalmente  uns,  .os  ornithorincos,  teem 


mamíferos  em  especial  477 

hábitos  aquáticos  e  alimentam-se  principalmente  de  vermes  e  molluscos, 
em  quanto  que  os  outros,  os  ecliidnos,  lêem  hábitos  de  vida  subterrâ- 
nea e  preferem  a  toda  a  alimentação  as  formigas  e  os  termes.  Estes  ca- 
racteres distinctivos,  numerosos  e  importantes,  pesaram  sobre  o  nosso 
espirito,  sollicitando-nos  no  sentido  de  formarmos  duas  ordens  distinclas 
onde  outros  vêem  apenas  famihas  de  uma  ordem  única.  N'um  ponto  em 
que  se  não  chegou  ainda  a  uma  conclusão  definitiva  e  em  que  se  deba- 
tem opiniões,  ninguém  estranhará  a  apparição  de  uma  outra,  distincla 
das  existentes,  parta  ella  d'onde  partir,  seja  qual  for,  auctorisada  ou 
obscura,  a  sua  origem.  Demais,  não  esqueça  o  leitor  que,  tendo  em  toda 
a  conta  o  rigor  scientifico,  nos  propomos  sobretudo  vulgarisar.  Dada  a 
unanimidade  de  convicções  dos  naturalistas  sobre  os  legares  dos  orni- 
thorincos  e  echidnos,  ao  auctor  d'este  despretencioso  trabalho  restava 
somente  seguir  o  que  estava  decidido,  acatar  o  que  se  resolveu  no  su- 
premo tribunal  da  sciencia,  onde  os  juizes  são — os  grandes  observado- 
res e  as  provas  —  os  documentos  vivos,  a  própria  natureza.  Não  exis- 
tindo porém  uma  tal  unanimidade,  o  auctor  não  tinha  decisões  a  acatar 
e  julgou-se  auctorisado  pelas  razões  acima  expostas  a  dividir  em  duas 
ordens  os  ornithorincos  e  echidnos. 

Como  este  não  seja  porém  o  modo  de  ver  de  muitos  naturaHstas 
que,  em  vez  de  separarem,  approximam  os  mamíferos  em  questão,  para 
que  o  leitor  avahe  por  si  qual  a  opinião  mais  justa,  sentimo-nos  obriga- 
dos a  estabelecer  os  caracteres  da  ordem  dos  monotremos  ou,  como  dizia 
Blainville,  dos  ornithodeljphos,  em  que  Figuier  e  Brehm  agrupam  orni- 
thorincos e  echidnos. 


OS  MONOTREMOS  OU  ORNITHODELPHOS 


Brehm  antes  de  apresentar  os  caracteres  d'esta  ordem,  explica  a 
diííiculdade  em  que  se  teem  visto  os  naturahstas  para  chegar  a  determi- 
nal-a.  As  palavras  com  que  o  faz,  envolvendo  uma  nota  justíssima  sobre 
a  fauna  australiana,  merecem  ser  transcriptas :  «Os  monotremos  repre- 
sentam a  Austraha  no  que  ella  tem  de  mais  singular  e  independente.  A 
descoberta  da  America  alargou  consideravelmente  o  quadro  da  zoologia; 
mas  nunca  os  naturahstas  se  viram  em  difficuldade  para  classificar  sys- 


478  mSTDlUA    NATURAL 

tematicamente  os  animaes  d'esta  parte  do  mundo,  por  isso  que  as  suas 
formas  se  não  affastavam  das  que  caraclerisam  os  do  antigo  continente. 
Não  acontece  o  mesmo  relativamente  á  Austrália.  Os  marsupiaes  já  nos 
forneceram  uma  prova  do  que  aífirmamos  e  comtudo  não  são  elles  ainda 
assim  os  seres  mais  estranhos  d'estas  regiões.»  *  O  auclor  tinha  em 
vista  n'estas  ultimas  palavras  referir-se  aos  monotremos,  por  isso  que 
em  seguida  cita  as  palavras  seguintes  de  Giebel:  «Entre  os  animaes 
extraordinários,  são  os  monotremos  os  mais  singulares;  todas  as  irregu- 
laridades que  encontramos  nos  desdentados  vamos  vél-as  de  novo  n'esses 
mamíferos,  mas  n'um  grão  muito  mais  alto.» 

Brelim  continua  ainda:  «Quando  se  lança  a  vista  sobre  um  ornitho- 
rinco  ou  sobre  um  echidno,  pergunta-se  desde  logo  e  naturalmente  a  que 
classe  pertencerão;  não  é  pois  de  admirar  que  as  primeiras  pelles  im- 
portadas para  a  Inglaterra  fossem  attribuidas  á  phantasia  de  um  char- 
latão. Appareciam  pelles  de  toupeira  com  bicos  de  patos  e  só  com  diííi- 
culdade  e  com  repugnância  é  que  se  tornou  possivel  admittir  a  idéa  de 
que  taes  seres  existiam  realmente.»  ^ 

Os  monotremos  teem  dos  caracteres  exteriores  de  mamíferos  apenas 
a  pelle  ou  o  manto;  nas  restantes  propriedades  morphòlogicas  externas 
separam-se  inteiramente  de  todos  os  outros  representantes  da  grande 
classe.  Um  bico  córneo  substitue  n'elles  a  bocca,  e  os  órgãos  genito-uri- 
narios  vão  dar  a  ura  ourificio  único,  uma  cloaca,  como  nas  aves.  Por 
esse  ouriíicio  commum  se  evacuam  a  urina,  os  excrementos  e  os  produ- 
ctos  de  gerapão.  O  nome  de  monotremos  dado  aos  ornithorincos  e  echi- 
dnos  por  E.  Geoffroy  Saint-Hillaire  exprime  esta  particularidade  de  orga- 
nisapão,  porque,  derivado  de  dois  vocábulos  gregos,  significa  um  buraco 
único.  Esta  disposição  encontra-se  também  em  alguns  reptis. 

Os  monotremos  assemelham-se  aos  marsupiaes  na  conformação  dos 
ossos  da  bacia;  mas  não  teem  como  estes  a  bolsa  marsupial,  nem  tra- 
zem comsigo  os  filhos.  Não  podem  pois  considerar-se  uma  ramificação 
dos  marsupiaes,  como  alguns  auctores  teem  pretendido.  Dos  desdentados 
approximam-se  pelo  caracter  negativo  da  ausência  dos  dentes. 

Figuier  escreve  também  a  propósito  dos  monotremos :  «Não  existem 
nos  seres  organisados  as  divisões  nitidamente  estabelecidas  que  os  na- 
turalistas imaginaram  para  facilitar  os  estudos.  Na  creação  tudo  se  en- 
cadea,  tudo  se  hga.  Os  seres  passam  insensivelmente,  sem  hiatos,  da 
organisação  mais  simples  á  mais  complicada,  da  mais  grosseira  á  mais 
delicada.  A  natureza  faz  as  transições  com  uma  arte  infinita;  suavisa  por 


1  Brehm,  Obr.  cit.,  vol.  2.°,  pg.  283. 

2  Brehm,  Obr,  cit.,  vol.  2.o,  pg.  284. 


mamíferos  em  especial  479 

cambiantes  intermediarias,  o  que  poderia  haver  de  duro  na  opposição 
de  caracteres  muito  differentes. 

«Encontramos  nos  monotremos  uma  eloquente  confirmação  d'estas 
idéas.  Elles  teem  simultaneamente  alguma  coisa  dos  mamíferos,  das 
aves  e  dos  reptis.»  *  E  com  efleito  elles  possuem  das  aves  e  dos  reptis 
a  cloaca^  como  dissemos  atraz,  tendo  dos  mamíferos  os  caracteres  mais 
essenciaes.  Approximam-se  ainda,  como  também  já  dissemos,  dos  des- 
dentados, e  das  aves  possuem  o  bico.  Dos  reptis  tem  ainda  um  caracter 
importante — a  clavícula  dupla. 

Pelo  que  acabamos  de  transcrever  e  de  expor,  avaliará  quem  ler  se 
é  conveniente  admittir  uma  ordem — a  dos  monotremos — com  duas  fa- 
mílias, ornithorincos  e  echidnos,  ou  se,  como  pensamos,  será  mais  ra- 
zoável fazer  duas  ordens  distinctas,  embora  a  cada  uma  d'ellas  fique 
pertencendo  apenas  um  género  só  e  uma  só  espécie. 


FIM   DO    terceiro    VOLUME 


L.  Figaier,  Obr,  cit.,  pg.  9. 


índice  do  terceiro  volume 


mamíferos 


RUMINANTES  EM  ESPECIAL 


(Continuação) 


Pag. 

OS   MoscHos  —  Caracteres  —  Distribuição  geographica — Costumes  —  Capti- 

veiro  —  Usos  e  Productos 1-7 

o  ALMiscARKiRo — Considcrações  históricas  —  Caracteres  —  Distribuição  geo- 
graphica —  Costumes  —  Caça  —  Captiveiro  —  Usos  e  Productos      .       .  7-10 

o  MoscHo  MENOR  OU  MÍNIMO  —  Caractcrcs  —  Distribuição  geographica  —  Cos- 
tumes—  Captiveir^i  —  Usos  e  Productos 11-12 

os  VEADOS  —  Caracteres  —  Distribuição  geographica  —  Costumes  —  Capti- 
veiro—  Usos  e  Productos 13-15 

os  ALCES  —  Caracteres  geraes 15-lG 

o  ALCE  MAIOR  —  Caractcrcs  —  Distribuição  geographica  —  Costumes  —  Ini- 
migos —  Captiveiro  —  Usos  e  Productos 16-19 

o  ALCE  ORIGINAL  —  Caractcrcs  —  Costumes  —  Distribuição  geographica  — 
Caça  —  Captiveiro  —  Usos  e  Productos 20-22 

os  RANGiFERos  —  Distribuição  geographica 22 

VOL,    III  31 


482  índice 

Pag. 
o  RANGiFERO  DA  AMERICA  —  Caractcros 23 

o  RANGiFERo  DA  EUROPA  —  CaracterGS  —  Distribuição  geographiea  —  Costu- 
mes —  Caça  —  Inimigos  —  Captiveiro  —  Usos  c  Productos        .       .       .         23-31 

os  GAMOS  —  Caracteres  gcraes 31 

o  GAMO  —  Caracteres  —  Distribuição  geographiea  —  Costumes  —  Caça  — 
Captiveiro  —  Usos  e  Productos -.        32-3á 

os  VEADOS  PROPRIAMENTE  DITOS  —  Caractcrcs  geraes 35 

o  VEADO  ORDINÁRIO  —  Caracteres  —  Distribuição  geographiea  —  Costumes  — 

Inimigos  —  Caça  —  Captiveiro  —  Doenças  —  Usos  e  Productos       .       .         35-39 

o  VEADO  DA  BARBARIA  —  Carsctercs  —  Distribuição  geographiea    ...  40 

o  VEADO  DE  BENGALA  —  Caracteres  —  Distribuição  geographiea     .       .       .  40-41 

o  VEADO  AMERICANO  —  Caractcrcs  —  Distribuição  geographiea        ...  41 

os  zoRLiTos  —  Caracteres  —  Distribuição  geographiea 41-42 

o  zoRLiTo  coMMUM  —  Caractcrcs  —  Distribuição  geographiea  —  Costumes  — 
Caça  —  Inimigos  —  Captij^eiro  —  Usos  e  Productos 42-46 

AS  GIRAFAS  —  Caractcrcs  geraes 47 

A  GIRAFA  AFRICANA  —  Caractcrcs  —  Distribuição  geographiea — Costumes  — 
Captiveiro  —  Usos  e  Productos 47-51 

AS  ANTÍLOPES  —  Caracteres  —  Distribuição  geographiea  —  Costumes  —  Ca- 
ptiveiro —  Usos  e  Productos .         51-53 

A  cERvicABRA  —  Distribuição  geographiea —  Costumes  —  Caça  —  Captiveiro 

—  Usos  e  Productos -  .       .       .        54-56 

A  SAíGA  —  Caracteres  —  Distribuição  geographiea  —  Costumes  —  Inimigos 

—  Caça  —  Captiveiro 57-59 

A  cERvicABRA  DE  PATAS  NEGRAS  —  Caractcrcs  —  Distribuiçâo  geographiea  — 
Costumes       .       • 59-60 

AS  GAZELLAs  —  Caractercs  geraes 60-61 

A  GAZELLA  —  Caractcres  —  Costumes  —  Distribuiçâo  geographiea  —  Caça 

Inimigos  —  Captiveiro 61-66 

AS  cAMURÇAs  —  Caractercs  geraes 66 


índice  483 

Pag. 

A  CAMURÇA  DA  EUROPA  —  CaracterGS  —  Distribuição  geograpliica  —  Costu- 
mes —  Inimigos  —  Caça  —  Captiveiro  —  Usos  e  Productos       .       .       .        66-74: 

A  coNDOMA  —  Caracteres  —  Distribuição  geographica  —  Costumes  —  Caça 

—  Captiveiro  —  Usos  e  Productos   .       .     ' 74-77 

A  antílope  negra  —  Caracteres  —  Distribuição  geographica  —  Costumes    .         77-78 

AS  antílopes  oryx  —  Caracteres  geraes 78 

A    antílope    leucory  —  Caracteres  —  Costumes  —  Caça  —  Captiveiro  — 
Usos  e  Productos  —  Distribuição  geographica 78-81 

o   NYLGÓ  —  Caracteres  —  Distribuição  geographica  —  Costumes  —  Caça  — 
Captiveiro. , .       . 81-83 

o    GNou  —  Caracteres  —  Distribuição   geographica  —  Costumes  —  Caça  — 
Captiveiro  —  Usos  e  Productos 83-86 

AS  CABRAS  —  Caracteres  —  Distribuição  geographica  —  Costumes  —  Usos  e 
Productos      .       .       .       .       • 86-88 

o  BODEQuiM  DOS  ALPES  —  Caractcres  —  Distribuição  geographica  —  Costu- 
mes —  Inimigos  —  Caça  —  Captiveiro 88-93 

o  BODEQUIM  DA  HESPANHA  —  Caractcres .  94 

AS  CABRAS  PROPRIAMENTE  DITAS  —  Caiactcres  goraos 94 

A  CABRA  SYLVESTRE  —  Caractcrcs  —  Distribuição  geographica  —  Costumes 

—  Caça 94-97 

A  CABRA  ANÃ  —  Caractores  —  Distribuição  geographica  —  Costumes    .       .        97-98 

A  CABRA  DE  ANGORA  —  Caractcros  —  Distribuição  geographica  —  Costumes 

—  Usos  e  Productos  —  Acclimaçâo 98-101 

A  CABRA  cACHEMiRA  ■ —  Caractcros  —  Distribuição  geographica  —  Usoa  e  Pro- 
ductos —  Acclimataçâo 101-103 

A  CABRA  DA  THELAiDA  —  Caractercs  —  Distribuição  geographica  —  Captiveiro    103-104 

A  CABRA  DOMESTICA  OU  VULGAR  —  Caractores  —  Distribuição  geographica  — 

Costumes  —  Usos  e  Productos 101-107 

os  CARNEIROS  -—  CaractorGS  —  Distribuiçno  geographica  —  Costumes  —  Ca- 
ptiveiro —  Usos  e  Productos lOS-110 


484  índice 

Pag. 
o  MUFLÃo  AFRICANO  —  Caractcres  —  DÍ8tribuição  geographica  —  Costumes 

—  Caça  —  Captiveiro  —  Usos  e  Productos 110-113 

o  MUFLÃO  EUROPEU  —  Caracteros  —  Distribuição  geographica  —  Costumes  — 
Caça  —  Captiveiro 113-116 

o  ARGALi  —  Caracteres  —  Distribuição  geographica  —  Costumes  —  Caça  — 
Captiveiro  —  Usos  e  Productos 116-118 

o  MUFLAO  AMERICANO  —  Caractoros  —  Distribuição  geographica  —  Costumes 

—  Caça  —  Usos  e  Productos 118-120 

os  CARNEIROS  PROPRIAMENTE  DITOS  —  Caractcies  —  Origcm       ....     120-123 

o  CARNEIRO  MERINO  —  Caracteres  —  Distribuição  geographica.       .       .       .     12á-125 

o   CARNEIRO   DE   CORNOS   poNTEAGUDOs  —  Caractcrcs  —  Distribuição   geogra- 
phica        125 

O    CARNEIRO    DE    GRANDES    NÁDEGAS  —  Caracteros  —  Distribuição    geogra- 
phica     .       .       .       .       • 125-126 

os  B0VIDI08  —  Caracteres  —  Distribuição  geographica  —  Costumes  —  Capti- 
veiro —  Caça  —  Usos  e  Productos 126-130 

o   BOI   ALMiscARADo  —  Caractcrcs  —  Distribuição  geographica  —  Costumes 

—  Caça  —  Usos  e  Productos 130-133 

os  lACKS  —  Caracteres  geraes        .       .       .       .       • 133 

o  lACK  GRUNHiDOR  —  Caractcres  —  Distribuição  geographica — Costumes^ — 
Caça  —  Captiveiro  —  Usos  e  Productos  —  Doenças 131-137 

os  BÚFALOS  —  Caracteres  —  Distribuição  geographica 137-138 

o  BÚFALO  BA  cAFRARiA  —  Caractcies  —  Distribuição  geographica  —  Capti- 
veiro           138-140 

o  BÚFALO  ABNi  —  Caractcrés 140-141 

o  BÚFALO  ORDINÁRIO — ^^  Caractcres  —  Distribuição  geographica  —  Costumes 

—  Caça  —  Combates  —  Domesticidade  —  Usos  e  Productos       .       .       .     141-146 

os  BISONTES  —  Caracteres  geraes 146 

O  BisoNTE  DA  EUROPA  —  Caracteros  —  Costumes  —  Inimigos  —  Caça  —  Ca- 
ptiveiro —  Usos  e  Productos 147-151 


índice  485 

Paer. 
o  BisoNTE  DA   AMERICA — Caracteres  —  Distribuição  geographica  —  Costu- 
mes —  Caça  —  Captiveiro  —  Usos  e  Productos 151-157 

os  BOIS  —  Caracteres  geraes  —  Divisões 157 

I.  BOIS  SELVAGENS 157 

o  GAYAL  —  Caracteres  —  Distribuição  geographica  —  Costumes  —  Caça     .  157-159 

o    GAURO  —  Caracteres  —  Distribuição   geographica  —  Costumes  —  Capti- 
veiro        159-160 

II.  BOIS  QUE  SE  TORNARAM  SELVAGENS 161 

O  TOURO  HESPANHOL  —  Caractcrcs 161-163 

III.  BOIS   DOMÉSTICOS 164 

O  BOI  GEBo  —  Caracteres  —  Distribuição  geographica 161:-165 

o  BOI  ORDINÁRIO—  Origcm  —  Caracteres  —  Distribuição  geographica