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Full text of "Pernambuco, seu desenvolvimento historico"

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ui+1.3 



HARVARD COLLEGE LIBRARY 

SOUTH AMERICAN COLLECTION 



THE CIFT OF ARCHIBALD CARY COOLIDCE, '87 
AND CLARENCE LEONARD HAY, '08 



J 



•1 



PERNAMBUCO 



SEU DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO 



JOÃO MAUKICIO, CONDE DE NASSAU-SIEGEN 
GOVEBNADOR DO BRAZIL HOLLAMDEZ. 



o 



PERNAMBUCO 



SEU DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO 



POR 



M. DE gLIVEIRA LIMA 

SÓCIO CORRESPONDENTE DO INSTITUTO ARCHEOLOGICO E GEOGRAPHICO 

PERNAMBUCANO 



1/ 
COM QUATRO RETRATOS 



LEIPZIG 

F. A. BKOCKHAUS 
1895 



SAu + y-ô 



KáíVcLu 3jííot'5 Llbrary 

Cift of 

Archlbaid Cary Coolld^e 

and 

CSa/cnoe Loonard II -y 



O titulo d' este trabalho indica sufficientemente a sua 
indole. Não constitue elle uma historia de Pernambuco 
pacientemente investigada, esquadrinhada nos seus acon- 
tecimentos menos importantes, corrigida em datas e cifras 
mediante documentos desconhecidos: pretende singelamente 
ser o quadro da nossa evolução politica e social, nos quatro 
séculos de historia que contamos, quadro desenhado a largos 
traços, sem que, comtudo, sejão desprezados os contornos 
valiosos e deixadas na sombra as feições interessantes. 

Na bibliographia collocada no fim do volume encontra-se 
a lista dos escriptores, nacionaes e extrangeiros, de que me 
soccorri, especialmente para a parte narrativa do livro. 
Em todos procurei os factos pernambucanos, dos quaes 
tentei explicar a significação, relacionando-os com a marcha 
da civilização brazileira e prendendo-os com os aconteci- 
mentos do Velho Mundo, de que elles forão effeito ou re- 
flexo. Em todo este trabalho animou-me sobretudo, e seja 
esta a sua recommendação, o amor á terra natal, pátria 
de tão generosos sentimentos, campo de tão dramáticas 
peripécias. Julgar-me-hei feliz si houver conseguido re- 
tratar -lhe nas paginas que se seguem o sympathico 
caminhar. 

Berlim, 29 de Junho de 1893. 



Acompanham esta edição quatro retratos, dos mais importantes 
vultos da guerra hollandeza. O de Maubicio de Nassau é reproducção 
do quadro do seu pintor Pranz Post, que se encontra no Museu 
Nacional de Amsterdam. Os de Mathias de Albuquerque e Fban- 
cisco Barreto de Menezes são copias de telas antigas existentes na 
Galeria degli Ufíizi, em Florença. O de Bagnuoli é fac-simile de 
uma gravura de F. de Grado, datada de 1691. primeiro foi ex- 
pressamente feito para acompanhar a publicação d" este volume. Os 
trez outros são devidos em sua primitiva reproducção á obsequio- 
sidade do intelligente estudioso de historia brazileira, snr. barão do 
Rio Branco. 



J 



SUMMARIO 



Ié Descobrimento do Novo Mundo. Colombo e Martim Beheim. 
O Brazil. Inícios de Pernambuco. Partilha das terras de Vera Cruz. 
A fidalguia portugueza em tempo de D. João El e o assalto da 
índia. A quem coube a capitania de Pernambuco. Seus primitivos 
habitantes. 

IL Itamaracá. Chegada de Duarte Coelho á sua capitania. 
A colonização de Pernambuco. O feudalismo brazileiro. Belleza da 
terra. Iguarassú e Olinda. O assucar, o pau brazil e o oiro. Por- 
tuguezes, Índios e jesuítas. 

III* A theocracia jesuítica. Os primeiros padres da Companhia 
em Pernambuco. Projecto de absorpção das capitanias pela Coroa. 
Centralização intentada pelo conde da Castanheira e executada por 
Thomé de Souza. Altivez do donatário pernambucano na defeza dos 
seus direitos e dos de seus moradores. Ausência de uma Inquisição 
brazileira. Os filhos de Duarte Coelho, typos de verdadeira nobreza. 
Expedição contra os cahetés e defeza contra os francezes. Os tra- 
balhos da náu Santo António. Em Alcacer-Kibir. 

IV. A hegemonia de Pernambuco no Norte revelando-se pela 
colonização da Parahyba e do Rio Grande. Em Sergipe. As ex- 
pedições francezas e inglezas ao Brazil. Saque do Recife. A vida 
pernambucana, de abundância e luxo, no fim do século XVI. O com- 
mercio, o funccionalismo e a religião. Trafico de escravos. Ele- 
mentos fixos da população e sociabilidade dos moradores. 

V. Os começos do século XVII em Pernambuco. Augmento 
da riqueza, diminuição da moralidade e crescimento da população. 
Expedições ao Ceará, Maranhão e Pará. Apparição de novos in- 
vasores. Caracter da expansão hollandeza. 



VIII 

VI. O movimento protestante, sua impressão geral e seu aspecto 
nos Paizes Baixos. A revolução hollandeza. Filippe II e Guilherme 
o Taciturno. A trégua dos doze annos negociada por Barneveldt, 
victima da unidade politica da Hollanda. Fundação da Companhia 
das índias Occidentaes. Filippe IV e o seu ministro, condeduque 
de Oli vares. A politica d' este homem de Estado. 

VIL Tomada da Bahia pelos hollandezes. A esquadra de D. 
Fradique de Toledo. Retirada do inimigo. As façanhas de Piet 
Heyn e as riquezas da Companhia. Expedição victoriosa contra 
Pernambuco. Defeza de Mathias de Albuquerque. Combate naval 
entre Oquendo e Pater. Incêndio de Olinda, o terreal paraizo de 
frei Manoel Calado. O commandanto Weerdenburch confinado no 
Recife. 

VIII* Deserção do Calabar. Vantagens dos hollandezes. Vinda 
a Pernambuco de dois directores da Companhia. O regimento do 
Conselho Politico e as preconizadas liberdades de consciência e pro- 
priedade. Itaimracá e Rio Grande do Norte em poder dos invasores. 
Os soccorros da Hespanha. Conquista da Parahyba e de grande 
parte de Pernambuco. Triste retirada de Mathias de Albuquerque 
para as Alagoas. Um general hespanhol e a batalha da Matta Re- 
donda. Infrene anarchia do Brazil Hollandez. 

IX. Conquista moral da colónia. O conde de Nassau gover- 
nador geral: sua educação e tendências de espirito. Bagnuoli re- 
fugiado em Sergipe e a possessão hollandeza limitada ao sul pelo 
rio São Francisco. A nova capital, os palácios de Maurício e a sua 
paixão por Pernambuco. Politica de tolerância desajudada pelos 
ministros calvinistas e pelos agentes da Companhia. Expedições 
felizes a Mina (Africa), Ilhéos, Sergipe e Ceará, e revez na Bahia 
defendida por Bagnuoli. 

X. Chegada de Artichofsky e sua desavença com o conde de 
Nassau. O estado da defeza hollandeza no Brazil e a situação com- 
mercial. Judeus e plantadores. Prenúncios da independência por- 
tugueza e indifferença do reino pela sua colónia. A esquadra 
hispano -lusitana do conde da Torre na Bahia. Preparativos de 
Maurício para frustrar-lhe os intentos. Batalhas navaes. Expulsão 
dos frades do Brazil Hollandez. Marcha de quatrocentas léguas pelo 
território inimigo, commandada por Luiz Barbalho. Devastações 
portuguezas e represálias bátavas. Desolação geral. O padre An- 
tónio Vieira na tribuna sagrada. 

XI. As idéas politicas do conde de Nassau. Convocação para 
o Recife de uma assembléa legislativa de portuguezes. Vexames 
que pezavam sobre os moradores. Propostas apresentadas pelo 



IX 

Supremo Conselho, sua discussão, e proposições elaboradas pelos 
eseabinos e representantes do povo. As necessidades da colónia. 
Falia de encerramento e resultados da reunião. Continuação dos 
abusos. Dois deputados e amigos de Maurício — Gaspar Dias Fer- 
reira e João Fernandes Vieira. 

"" XII. Chegada e disposições conciliadoras do marquez de Mon- 
talvão. Negociações entaboladas com o conde de Nassau. Permu- 
tação de reféns. Revolução em Lisboa contra o domínio castelhano. 
O perigo dos Braganças. Differente politica de Olivares e de Fi- 
lippe II para com a poderosa casa ducal. Descontentamento constante 
dos portuguezes e miséria do reino. Vexações em tempo de Fi- 
lippe IV. Miguel de Vaseoncellos , a guerra da Catalunha e os 
jesuitas apressão a sublevação. Os conjurados decidem com diffi- 
culdade D. João de Bragança a acceitar a realeza. O dia I o de 
Dezembro. Felicidade do movimento no continente e nas possessões. 
A acclamação no Brazil. Troca de prisioneiros de guerra e suspen- 
são das hostilidades entre o Recife e a Bahia. Justas e torneios 
com que Maurício celebrou a independência de Portugal. 

XIII* Os representantes de D. João IV no extrangeiro. Em- 
baixada á Hollanda de Tristão de Mendonça Furtado. Tréguas 
assignadas a 12 de Junho de 1641, e como foram entendidas e 
seguidas além-mar. Occupação de Sergipe e conquistas de Angola, 
São Thomé e Maranhão, ordenadas pelo conde de Nassau. Protestos 
portuguezes. Um momento de paz. O director Herckman, da Para- 
hyba. Maurício em repto aos XIX descreve sombriamente a situação 
da colónia. A Companhia acceita-lhe a demissão. O sentimento 
religioso e o interesse dando-se as mãos e impellindo a sublevação. 
Opportunidade da tentativa. O governador Telles da Sylva e a con- 
spiração. Revolta do Maranhão. Outras infelicidades hollandezas. 
Partida do conde de Nassau para a Hollanda e a sua carreira 
na Europa. 

XlVé Desorganização mais palpável da colónia. Os apuros finan- 
ceiros da Companhia e as violências do Conselho Supremo. Toma 
corpo a sedição e é descoberta. Gloriosa sublevação. Evasivas de 
Telles da Sylva. Batalhas do Monte das Tabocas e da Casa Forte, 
em que ficaram derrotados os hollandezes. Combate naval de Ta- 
mandaré e perda da esquadrilha da Bahia. A correspondência ap- 
prehendida na capitanea de Serrão de Paiva. Perplexidades da for- 
tuna no resto do Brazil Hollandez. Os revoltosos dirigem -se a D. 
João IV. Chegada de reforços da Hollanda. As misérias do cerco 
do Recife. 

XV» As desconfianças da Hollanda, os embaraços diplomáticos 
de Souza Coutinho e a linguagem do cardeal Mazarino. Solução 



X 

dos conflictos proposta por Gaspar Dias Ferreira. Resumo dos dois 
pareceres e seu acolhimento na corte portugueza. Desventuras do 
auctor. Reanimação da guerra no Brazil: infelicidades de van Schkoppe 
e de Henderson. Tomada e abandono de Itaparica pelos batavos. 
Uma esquadra portugueza. Sustos e resoluções de D. João IV. A 
revolta campeando apezar das ordens de Lisboa. Convénio firmado 
na Haya. Novos soccorros hollandezes chegados a Pernambuco. Fran- 
cisco Barreto de Menezes. 

XVI. Inevitável perdição do Brazil Hollandez. A primeira 
batalha dos Guararapes. Recuperação de Angola e São Thomé. O 
convénio da Haya em Lisboa e o celebre Papel forte. Segunda ba- 
talha dos Guararapes. Fundação da Companhia de Commercio Occi- 
dental á instigação do padre António Vieira. A missão de António 
de Souza de Macedo e as attribulações da Hollanda. Os últimos 
dias do dominio batavo em Pernambuco. A esquadra de Pedro 
Jacques e a capitulação do Taborda. Caracter da occupação hollan- 
deza. Os planos dos Estados Geraes e a sympathia dos invasores 
pela colónia. As culpas da Companhia das índias. Os fautores da 
reivindicação e as recompensas. 

XVII. Pernambuco disputado aos herdeiros de Duarte Coelho 
e ás exigências da diplomacia hollandeza. Peripécias das duas 
questões. A capitania confiada á administração militar. Fermentos 
de desordem pelas aggressões do poder e pelo mal estar geral. As 
desgraças pernambucanas. Gregório de Mattos Guerra, genuino 
representante litterario da epocha. Seenas da escravidão. Paulistas 
e jesuitas. A destruição do quilombo dos Palmares. 

XVIII. Nobres brazileiros e mascates portuguezes. Erecção 
do Recife em villa contra as pretenções de Olinda. O governador 
Castro Caldas posto em fuga pelos pernambucanos em 1710, por 
causa do seu favoritismo e perseguições. Uma reunião memorável : 

s mallograda proposta republicana. A administração prelaticia. Reac- 
ção dos mascates e consequente guerra civil. Apaziguamento e 
violências da justiça. Os primeiros martyres da nova idéa. Continua 
decadência de Pernambuco e crescente prosperidade de Minas Ge- 
raes. As manifestações do espirito brazileiro no século XVIII e os 
ciúmes da metrópole. 

XIX. Exploração do Brazil desconhecido. O marquez de Pom- 
bal. Sua defeza da monarchia absoluta contra o clero e a nobreza. 
Lucta com a Companhia de Jesus. O papel dos padres na catechese 
dos selvagens. Razões da má vontade á Ordem e geral brutalidade 
da expulsão. No Recife. A transformação do ensino realizada em 
Olinda no seminário fundado pelo bispo Azeredo Coutinho. Theorias 



XI 

económicas de Pombal. A Companhia de Commercio de Pernambuco 
e Parahyba. A reacção sob D. Maria I pretende apagar a obra do 
marquez. O Tiradentes em Minas. Transplantação da corte para 
o Rio de Janeiro por motivo da invasão franceza, e suas consequên- 
cias para a colónia. 

XX. Levantamento de Pernambuco e as suas condições econó- 
micas. Aspectos do Recife. As festas religiosas. Evolução da vida 
de sociedade na capitania. Decadência de Olinda. Defeitos da ad- 
ministração portugueza. O futuro julgado por Henry Koster. Poli- 
tica opportunista sagazmente exercida por D. João VI e apreciada 
na orientação interna e relações externas do Brazil. A republica em 
Pernambuco. Caracter da sedição. 

XXI* O dezembargador Caetano Pinto, governador da capitania 
em 1817. O jacobinismo na colónia. Idéas de independência nos 
quartéis e lojas maçónicas. A conspiração e a desvairada rebellião 
de 6 de Março. Vietoria dos nacionaes. As primeiras palavras do 
governo provisório. Sancção democrática do movimento. Papel 
liberal do clero. Perfis de sacerdotes. Era viável a autonomia per- 
nambucana? Commercio e recursos da província. Boa Índole dos 
habitantes compensando a deficiência da justiça. Hospitalidade aos 
extrangeiros e doçura para com os negros. Situação do escravo 
brazileiro comparada com a do proletário europeu. Effeitos da escra- 
vidão. Corrupção favorecida pelos conventos. Ausência de ódios de 
raça. Os perigos do militarismo. 

XXII. Primeiros actos do governo provisório. Propaganda nas 
demais capitanias. A Parahyba e o Rio Grande adherem ao movi- 
mento. Missões infelizes ao Ceará e á Bahia. Supplicio do padre 
Roma. Medidas de administração e defeza tomadas no Recife. 
Domingos Martins, o homem de acção da junta: seu anterior viver. 
Os Estados Unidos e a Inglaterra negam á republica o seu re- 
conhecimento. Principia a reacção, preparada na Bahia e no Rio 
de Janeiro. A contra-revolução domina a comarca das Alagoas, o 
Rio Grande e a Parahyba, e alastra-se em torno do Recife bloqueado 
por mar. A pátria declarada em perigo e o ensaio do Terror. 
Afunda-se o projecto da constituição pernambucana. Combates inú- 
teis. Prisão de Domingos Martins. Domingos Theotonio procla- 
mado dictador. As propostas de capitulação e a fuga dos revolucio- 
nários para o norte. Crimes do absolutismo victorioso. Os senten- 
ciados á morte e os prezos. 

XXIII. Feição dominante de aversão ao Brazil da revolução 
portugueza de 1820. O constitucionalismo além mar. Papel de Luiz 
do Rego em Pernambuco : antipathias que concitara, aggressões que 



XII 

recebia e defeza que intentou. O estado politico da província. In- 
surreição de Goyanna. Resistência do governador e inicios de 
guerra civil. Ganho de causa pelos insurgentes. Regresso de D. 
João VI para Portugal e regência de D. Pedro. 

XXIV. A politica anti -americana das cortes de Lisboa. Sua 
parodia da Convenção. Attitude particularista de Pernambuco. Mo- 
tins contra os europeus. A centralização fluminense contrariada 
pela junta do Recife. Insolências do congresso e consequente recru- 
descência dos sentimentos independentes no reino ultramarino. Mo- 
vimentos do Recife. Gervásio Pires Ferreira deposto como infenso á 
União. O home rule brazileiro negado pelas cortes. Outras decisões 
vexatórias. O grito da emancipação. 

XXV» Installação do Império e suas primeiras difficuldades. 
Vitalidade do sentimento republicano e desconfianças contra o sobe- 
rano. Reunião da Constituinte, seus trabalhos e forçada dissolução. 
Effeitos d' este acto de prepotência de D. Pedro I. Descontentamento 
de Pernambuco. Demissão da junta e eleição de novo governo 
presidido por Manoel de Carvalho. Frei Caneca na imprensa. 
Prenúncios de rebellião. Manejos democráticos e final proclamação 
da Confederação do Equador. Episódios da lucta e rápida victoria 
dos unitaristas. Dispersão dos revoltosos e crueldades da repressão. 

XXVI. Subsequente anarchia das provindas confederadas. Ir- 
ritabilidade do organismo politico pernambucano. Symptomas de 
reacção e apparição do legitimo partido constitucional. Infelicidades 
e desvarios da politica imperial. Embaraços externos e difficuldades 
internas. Forçada abdicação do soberano. A regência em lucta 
com a regressão e o federalismo. Os columnas e os càlangros na 
imprensa e litteratura de Pernambuco. O Sete de Abril no Recife. 
Prorunda agitação da provincia. Serie de motins ultimados pela 
guerra dos Cabanos. Papel do bispo Marques Perdigão. Morte de 
D. Pedro I e consequente dissolução do partido caramurú. Promul- 
gação do Acto Addicional. Nova phase da regência. A Sociedade 
Defensora e as suas aspirações. Primorosos característicos do de- 
cennio parlamentar. Resistência do federalismo. A maioridade. 

XXVII. Angustiosa situação do império. Infância de D. Pedro II. 
Suas boas qualidades. Erros de sua politica opportunista. Alie- 
nação do exercito, da grande propriedade e da egreja, e desrespeito 
pelas franquias provincianas. A queda da monarchia e o juizo do 
soberano sobre o advento da Republica. O famoso poder pessoal 
consagrado no regimen presidencial. Vantagens da instituição par- 
lamentar. Solidez da idéa federalista. Fatal desapparição do mili- 
tarismo, e objec ivo do Brazil unido. 



XIII 

XXVIII, A revolução de 1848 em Pernambuco. Sua significação. 
Liberaes e republicanos no campo das reformas. Começos da lucta. 
Ataque do Recife. Victorias dos legalistas. Papel da provincia 
durante o segundo reinado. O seu futuro como Estado. Vantagens 
de uma pequena immigração, permittindo a manutenção do typo 
nacional. Ausência da questão social. As civilizações européa e 
americana e as inconveniências da sua attracção. O espectro das 
rebelliões politicas. Desideratum de paz e progresso. A missão 
do clero. A Egreja brazileira. Instrucção popular e educação 
civica. 



PERNAMBUCO 



SEU DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO 

I 

A humanidade é devedora á Península Ibérica, re- 
presentante gloriosa do grande cyclo das navegações, de 
um dos mais altos serviços prestados á civilização — o 
duplo desencantamènto da America e da índia. No mesmo 
decennio em que a audácia de Colombo, cujo nome o 
mundo inteiro acaba de acclamar n' uma confraternização 
admirável, sacudia a Hespanha para as regiões ignoradas 
do Occidente, a intrepidez de Vasco da Gama arrastava 
Portugal para os paizes mysteriosos do Oriente. Um e 
outro desvendaram perante a Europa continentes envoltos 
nas trevas da insciencia, nas brumas do presentimento ou 
nas miragens da fabula; um e outro abriram novo e pi- 
cante campo ao espirito religioso e ao estimulo commercial 
da Meia Edade, e forneceram um quadro magestoso ao so- 
berbo desabrochar da epocha inimitável da Renascença. 

Velhos escriptores e auctores modernos que lhes foram 
no encalço, citam entre as navegações que precederam as 
derrotas de Colombo e Gama, as quaes não são certamente 
factos isolados e milagrosos, mas o grandioso corollario de 
uma pertinaz sequencia de esforços, as viagens de Martim 
Beheim, um allemão de Nuremberg que esteve ao serviço 
de D. João II de Portugal, sendo membro da Junta do 
Astrolábio de Lisboa. Pretenderam alguns condensar n' este 
geographo importantíssimas descobertas, as de parte dos 

Lima, Pernambuco. 1 



Açores e da America, e, especializando, contaram que, 
tendo Beheim acompanhado Diogo Cão ao rio Congo ou 
Zaire, desviára-se extraordinariamente para oeste, aportando 
a Pernambuco. O sfír. Ernesto do Canto, erudito portu- 
guez, destruio com vantagem essa lenda em um estudo 
publicado no seu Archivo dos Açores. O famoso globo de 
Nuremberg, obra do alludidó Beheim, que perpetua o seu 
nome e dizem ser copia da primitiva carta de Toscanelli, 
é sufficiente para demonstrar a inconsciência do allemão 
dos feitos que se lhe attribuiram. 

Martim Beheim foi, como Toscanelli, e como Colombo, 
legitimamente filho d' esse inquieto século XV, em que a 
Europa, despertada pelas Cruzadas, anceava por despren- 
der-se da estreiteza da sua área; em que os estudos cos- 
mographicos, as reminiscências clássicas, as viagens aven- 
turosas, as tradições bíblicas, a ambição das riquezas, e a 
seducção mystica do desconhecido se reuniam para im- 
pellil-a sobre o oceano em busca do Oriente maravilhoso. 
No globo de Nuremberg a America não figura, e o Cathay 
(China), além do Cipango (Japão), entre a Tartaria e a 
índia, é que faz face ás costas occidentaes da Europa, 
annunciadas pelas ilhas fabulosas — Sam Borondom e An- 
tilia — que occupavam e atormentavam a imaginação dos 
cosmographos contemporâneos, e nas quaes, pela própria 
genaralidade da crença de sua existência e á mingua de 
outras provas, se não podem de boa fé concretisar as 
eventuaes descobertas de Martim Beheim, por nenhum fun- 
damento auctorisadas. Para executar o arrojado emprehen- 
dimento de comprovar praticamente a esphericidade da 
terra singrando para o Occidente na direcção do Oriente, 
cujos esplendores as jornadas de Marco Polo, Conti e outros 
tinham divulgado, o imperador Maximiliano convidara o 
doutor Jeronymo Monetário, designando este a Beheim 
como singularmente próprio para esto acabar (traducção 
da carta do doutor Monetário, feita por frei Álvaro da Torre 
e impressa no raríssimo gothico Tratado da S/era do Mundo). 
A tentativa foi porém differida e Beheim, menos feliz do que 
Colombo, falleceu em Lisboa depois de ouvir os echos das 
ovações tributadas ao descobridor da America, e de assistir 



aos regressos triumphaes de Vasco da Gama e de Pedro 
Alvares Cabral. 

Descoberto quasi simultaneamente ao nascer do século 
XVI por Alonso de Hojeda, Vicente Yanez Pinzon e Pedro 
Alvares Cabral, o Brazil não deu desde principio a conhecer 
a enorme extensão do seu território, nem a esplendida 
uberdade do seu solo. Cabral tomou por uma ilha o novo 
continente, que elle propositalmente abordara, não de certo 
na intenção definida de o descobrir, mas, baseando-se n' uma 
falsa medição da terra, na de aproar rapidamente pelo 
Occidente aos esplendores da índia, aos quaes Colombo 
ainda não chegara, emmaranhado em terras selvagens, 
prenúncios, acreditava-se, do almejado continente asiático. 
Ou pelo menos e talvez com maior probabilidade na con- 
vicção de, seguindo uma derrota para oeste, aconselhada 
porventura por Vasco da Gama e em todo o caso con- 
veniente para a segurança e rapidez da navegação veleira 
em razão das calmarias da Guiné, descortinar outras terras 
novas que no mar occidental precedessem a Ásia: quem 
sabe si aquellas ilhas lendárias insistentemente mencio- 
nadas nos mappamundis, planispherios e portulanos, e cuja 
existência cobrara vulto apóz as viagens de Colombo, en- 
ciumando a corte portugueza. Américo Vespucio, o grande 
navegador florentino que si, como alguns pretendem, aug- 
mentou o próprio cabedal de glorias, narrando viagens hypo- 
theticas e exaggerando a importância de outros commetti- 
mentos de que foi parte, da navegação de Alonso de Hojeda 
por exemplo, o qual não teria descoberto o Brazil mas ape- 
nas avistado as Guyanas e lobrigado o Orenoco em vez 
do Amazonas , ainda assim fez tanto que percorreu em toda 
a sua extensão a costa Brazilica; comquanto impressionado 
pela formosura da natureza americana, concedeu diminuto 
valor á feracidade das terras que enxergou, e cujo aspecto 
selvático se carregava na sua imaginação pelo contraste com 
a índia rica e monumental, cheia de edifícios phantasticos, 
de especiarias rendosas, de infinitas tentações, monopoli- 
zadora de todo o sangue e actividade dos portuguezes. 

Isto explica que, em tempo de D. Manoel, o Brazil 
preoccupasse tão pouco o reino, não comtudo a ponto de 

1* 



impedir o afortunado monarcha de procurar lá introduzir 
o fabrico do assucar, para que se não limitassem as in- 
cipientes exportações da nova possessão ao páu brazil, ao 
algodão e ás pelles de animaes. A tentativa sabe-se que 
não falhou porque em 1526, já reinando D. João III, pa- 
gava direitos na Casa da índia, por onde transitavam os 
géneros coloniaes, assucar vindo de Pernambuco, lugar 
em que havia sido anteriormente estabelecida uma feitoria 
agora renovada por Christovão Jacques; e da ilha de Ita- 
maracá, fronteira á qual era fundada outra feitoria n' esse 
anno pelo mesmo capitão-mór da esquadrilha portugueza, 
que viera defender as costas brazileiras dos desembarques 
de extrangeiros. (Varnhagen, Historia Geral.) Eram estes 
quasi exclusivamente francezes, que desconhecendo, como 
o seu rei Francisco I, o artigo do testamento do velho 
Adão pelo qual se dividia o mundo extra-europeu entre os 
soberanos de Hespanha e Portugal, procuravam aonde 
installar-se e commerciar á vontade. 

Também em 1526 transitaram por Pernambuco Se- 
bastião Cabot, commandante de uma frota hespanhola, e 
D. Rodrigo de Acuna, ao cabo das suas extraordinárias 
aventuras, que dariam pasto a uma interessante novella. 
De resto, a futura capitania de Duarte Coelho pela sua 
admirável posição geographica, avançada sobre o Atlântico, 
como que a procurar o Velho Mundo, era quasi um ponto 
obrigado de paragem e aguada para os navios que iam 
explorar as regiões recem-descobertas, ou que, proseguindo 
no sonho de Colombo finalmente realizado por Fernão de 
Magalhães na sua viagem de jcircumnavegação, tentavão 
chegar á índia pelo Occidente. Já em 1530, tendo Christovão 
Jacques regressado ao reino com trezentos prisioneiros 
francezes, feitos em peleja naval, e havendo o seu succes- 
sor abandonado a feitoria pernambucana por aquelle restau- 
rada, fora ella saqueada pela tripulação de um galeão 
francez, escapando apenas ao morticinio o feitor. Em seu 
lugar era levantada uma fortaleza pela gente da náu mar- 
selheza La Pelerine, aprezada no regresso, com a carga, 
ao atravessar o estreito de Gibraltar, emquanto Pêro Lopes 
de Souza, apóz dezoito dias de combate, desbancava os 



o 

que tinhão ficado de guarda ao pequeno estabelecimento 
francez, deixando-o confiado a mãos portuguezas (1532). 
Pêro Lopes, quando praticou este feito d' armas, voltava 
para Portugal com vários despojos de guerra e o diário 
das suas navegações, publicado por Varnhagen em 1839, 
deixando no sul seu irmão Martim Affonso de Souza, chefe 
da expedição que em 1531 realmente tomou posse, costeando 
todo o littoral, das vastas terras brazileiras, e preparou a 
sua partilha. 

Os repetidos ataques francezes, difficilmente reprimidos 
no mar; a necessidade que se fazia sentir de um firme 
apoio em terra para as esquadras de defeza; talvez o de- 
sejo de afastar parte da emigração portugueza da índia, 
onde, além de seguir-se a menos hábil politica commercial, 
se alastrava pela afíluencia de aventureiros a mais ver- 
gonhosa anarchia moral; mais do que tudo o estado mise- 
rável da fazenda publica, que não permittia tentar a colo- 
nização por conta do Estado, levaram D. João III ou antes 
o conde da Castanheira, seu ministro, a transformar os 
pequenos núcleos de população disseminados pela nossa 
costa em grandes capitanias quasi soberanas, a repartir 
pelos senhores da corte. Christovão Jacques, que conhecia 
o alto valor das terras de Vera Cruz, já pretendera annos 
antes ser donatário, mas nada lograra. Outros foram de- 
pois os aquinhoados. 

Parece, comtudo, que os nobres não disputaram as 
doações. Não só era dispendioso, senão ruinoso, para 
fidalgos empobrecidos pelo luxo e desmoralização da corte 
o transporte de colonos, a compra de armamento, a acqui- 
sição dos muitos objectos de que carecem aquelles que se 
propõem desbravar um paiz selvagem; como os attrahia 
a própria vida de ostentação e vicio de Lisboa, quando não 
iam, além mar, piratear na índia, theatro de vil ganância 
e requintada crueldade. Não os prendia a veneração da 
habitação solarenga no meio da independência campe- 
zina: nem podia ser bem viva esta tradição n' um paiz 
caracterisado na Meia Edade pela ausência do feudalismo. 
O fidalgo portuguez até deshabituàra-se de todo de viver 
altivamente nas suas terras como o senhor castelhano, 



6 

embora bocejando uma preguiça desdenhosa, e affeiçoára- 
se á vida da capital, então pejada de riquezas orientaes, 
mergulhando na devassidão quando não salientando -se 
pela brutalidade. Embeveciam-n' o as sedas, estonteavam- 
n' o as especiarias e os perfumes, seduziam-n' o as pedra- 
rias, despejadas das naus pezadas e desconjunctadas das 
armadas do Oriente para os armazéns abertos nas ruas 
tortuosas e sujas da cidade, á espera dos navios fretados 
pelos mercadores de Antuérpia, a quem sobretudo apro- 
veitava o negocio, porque sabiam espalhar pela Europa 
essas fazendas. Quando, vasios os bolsos pelas exigências 
da vaidade em uma epocha de vida caríssima, a inveja o 
aguilhoava, ahi ia, barra fora, dobrar o Cabo e saquear 
desordenadamente, com fúria, a índia inexhaurivel. 

Outros motivos o não impelliam com decisão. por- 
tuguez pensou sempre mais em acommetter e roubar o hindu 
do que em convertêl-o, e isso mesmo sem methodo, porque 
em matéria de commercio nunca se chegou na Peninsula â 
concepção de um systema vantajoso. Lisboa foi no século 
XVT, período da sua maior prosperidade, um mero entre- 
posto por onde transitavam, caminho de Flandres, as car- 
gas ultramarinas. reino não soube crear relações mer- 
cantis com as outras nações da Europa, e na índia toda 
a politica colonial consistiu em uma ladroeira aventurosa, 
na qual fraternizavam o Rei e o soldado. D. Francisco de 
Almeida e Affonso de Albuquerque foram os únicos, no meio 
da sangrenta bacchanal, a tentar a execução de um plano, 
comquanto diverso. O primeiro preferia dominar no Oceano, 
vigiando as feitorias da costa; o segundo, mais arrojado, 
desejou imperar em terra, e, embebido n' este sonho gran- 
dioso, fez de Goa a capital do seu império, assenhoreou-, 
se de Malaca, empório da China e das Molucas, e con- 
quistou Ormuz, chave do Golfo Pérsico, e cidade pela qual 
anteriormente árabes e venezianos permutavam as suas 
mercadorias. Annunciavam-se n' estes planos as duas fu- 
turas e grandes politicas coloniaes — a hollandeza e a 
ingleza (Oliveira Martins, Historia de Portugal). 

A partilha do Brazil ficara resolvida em 1532, mas só 
a executou o monarcha em 1534, depois do regresso ao 



reino de Martim Affonso de Souza. Foram verdadeiramente 
régias as doações, as mais d 1 ellas distribuídas por fidalgos 
illustrados nos combates ou enricados nas traficancias 
orientaes; quasi todas de cincoenta léguas de costa, com 
uma enorme extensão pela terra a dentro. A capitania de 
Pernambuco, que dispunha de sessenta léguas de littoral, 
abrangendo grande parte do actual estado e o vizinho 
estado das Alagoas, contava d' este modo doze mil léguas 
quadradas, sem fallar na posse exclusiva do rio São Fran- 
cisco, uma das principaes artérias fluviaes da grande pos- 
sessão. Por donatário teve a Duarte Coelho, neto de um 
grande valido do illustre infante D. Pedro, duque de 
Coimbra, e cavalleiro que na índia se distinguira pela sua 
intelligencia, prudência e valentia, servindo sob o com- 
inando de Vasco da Gama, de D. Francisco de Almeida e do 
grande Affonso de Albuquerque, a quem acompanhara na 
tomada de Malaca. Deixara elle no Oriente fama de especia- 
lista em assumptos chinezes e siamezes, por ter frequentado 
muito a Ásia Oriental, quer em felizes embaixadas desti- 
nadas a proteger a península de Malaca, quer involun- 
tariamente, arribado por temporaes: mesmo das suas pe- 
lejas com os chins dá-nos immorredouro testemunho o 
pomposo chronista João de Barros, no seu estylo de um 
colorido magnifico como o de um quadro do Ticiano ou 
do Veronezo. Sete annos havia que Duarte Coelho voltara 
para Portugal e despozára D. Brites de Albuquerque, quando 
recebeu o valioso, porém justo galardão dos seus leaes 
serviços. O novo donatário já estivera para travar conhe- 
cimento com a sua capitania dous annos antes, no momento 
em que na metrópole se ignorava ainda ter sido tomada 
a fortaleza franceza de Pernambuco por Pêro Lopes de 
Souza. A este coube no repartimento, além de um quinhão 
no Sul, em São Vicente, trinta léguas contíguas a Per- 
nambuco, de um pouco ao norte da foz do rio Iguarassú, 
em cuja margem esquerda existira uma das duas feitorias 
de Christovão Jacques, á bahia da Traição, isto é, quasi 
todo o actual estado da Parahyba, além da formosa ilha 
de Itamaracá, que dava o nome á capitania. 

Habitavam esses territórios tribus de Índios nómadas, 



bellicosos e anthropophagos , denominados, segundo se lê 
nos chronistas, cahetés, tábayares e petiguares, e pertencentes 
á grande família tupi, cuja barbárie no meio de regiões 
fertilissimas como as do Brazil, contrastava singularmente 
com a organização social dos povos fracos e pouco guerreiros 
que habitavam as costas areentas do Pacifico e os platós 
elevados dos Andes (Nadaillac, VAmérique préhistorique). 
Os cahetés, tábayares e petiguares assemelhavam -se na 
physionomia sem traços fundamente característicos, como 
os que distinguem um Europeu de um Africano, na in- 
telligencia rudimentar e nos costumes pouco edificantes, 
miudamente descriptos pelos velhos escriptores portuguezes 
e pelos nossos modernos historiadores e ethnographistas, 
aos demais selvagens do Brazil. Em todos esses bugres, 
por índole corajosos e temerários, se encontravam, com 
raras excepções pessoaes e até collectivas, que altamente 
testemunhão a sua possível fidelidade e eventual dedicação, 
a mesma aleivosia, idêntica ferocidade e iguaes vícios. 

Os anthropologistas e ethnogenistas teem estudado 
fervorosamente a origem dos primitivos habitantes da 
America, mas bem envolta em hypotheses ella todavia se 
nos apresenta. O que se conta de positivo apóz a famosa 
descoberta de Lund junto da lagoa do Sumidouro (Minas 
Geraes), é a existência do homem quaternário. O sábio 
dinamarquez, que revolveu mais de mil cavernas em qua- 
renta e oito annos de aturado estudo da fauna fóssil do 
Brazil, exprime n' uma carta ao seu amigo Rafn a con- 
vicção de que a America foi habitada desde os tempos 
prehistoricos. Porém das luctas fratricidas entre os tupis, 
da sobreposição d' estes invasores a outros indigenas 
menos fortes e violentos, quiçá mais civilizados, pouquís- 
simo sabemos, deduzindo-se no emtanto de analyses cra- 
neanas, comparações philologicas e exames de esculpturas 
em pedra, pinturas e exemplares de cerâmica, a diversi- 
dade de filiação das raças americanas, a penetração de 
umas nas outras, e a affinidade dos habitantes do Novo 
Mundo com os povos da raça amarella. A infiltração mon- 
golica pôde mesmo para alguns ter-se como um ponto 
discutido da ethnogenia americana. 



9 



II 

As duas capitanias vizinhas tiveram destinos diversos. 
Pêro Lopes de Souza desprezou a sua doação, preferindo, 
caracter irrequieto, envergar a armadura para acompanhar 
Carlos V a Tunis na romanesca expedição contra Barba- 
roxa, cruzar o Oceano á busca de prezas opulentas, e 
ganhar o seu quinhão no assalto da índia. Para Itamaracá 
despachou um lugartenente, que fundou na ilha a villa da 
Conceição e procurou insufflar-lhe vida, deixando porém 
por temperamento, por desleixo ou mais provavelmente por 
falta de meios de repressão, de manter a^ severa disciplina 
necessária a uma sociedade que se formava, luctando phy- 
sicamente pela vida, dando livre curso ás suas paixões, 
sem outro freio moral além de uma religião mal comprehen- 
dida, toda de ritos, quasi fetichista. Pêro Lopes, comman- 
dando uma armada, morreu pouco depois, em 1539, diz-se 
que perto da ilha de Madagáscar; seu filho Martim Affonso 
ficou creança, e Itamaracá tornou -se depressa refugio de 
criminosos escapos á justiça rigorosa de Duarte Coelho. 

O donatário de Pernambuco, pelo contrario, tomou a 
peito corresponder á munificência régia, sem desistir de 
pensar em augmentar os cabedaes da sua casa. Cuidou 
como homem pratico da expedição, e seguio no mesmo 
anno da doação (1534) para o magnifico dominio que a 
Coroa lhe concedera, levando além da mulher e do cunhado, 
Jeronymo de Albuquerque, muitos gentishomens da sua 
parentela, alguns fidalgos e bons colonos. A verdadeira 
colonização de Pernambuco fez-se pois com gente nobre e 
gente limpa, porque o excedente da prostituição que não 
apodrecera, e o peor da criminalidade que escapara á 
forca, mais ou menos regularmente remettidos da metró- 
pole para ajudar a povoação da colónia, e até então ahi 
abandonados, haviam desapparecido, anniquilados pelos sel- 
vagens, ou sumidos nas refregas de que fora theatro a 
feitoria pernambucana. Certamente as remessas de degre- 
dados continuaram em escala ascendente durante todo o 
século XVI, sendo Pernambuco largamente favorecido com 
taes levas, a ponto de n' uma das suas cartas a D. João III, 



10 

Duarte Coelho pedir pelo amor de Deus que lhe não en- 
chessem a capitania de semelhante peçonha: mas não só a 
nobreza emigrada do reino e os honrados plebeus que a 
rodeavam desdenhavam allianças vergonhosas, como os 
criminosos tinhão de mudar de vida sob a dura fiscalização 
do donatário, que não trepidava em usar das suas largas 
attribuições, como a de alçada de morte natural para os 
peões livres, com o fim de suster em casa a desordem. 
Instrumentos como as doações de D. João III, em que 
estavam exarados direitos absolutamente magestaticos , si 
perigosos nas mãos de um capitão propenso a aventuras, 
eram preciosos para um Duarte Coelho, espirito serio, re- 
flectido e enérgico. 

Os donatários podiam escravizar o gentio e exportar 
algum; dar sesmarias; condemnar em muitos casos sem 
appellação nem aggravo ; nomear officiaes de justiça, contra 
os quaes eram impotentes os corregedores reaes; investir 
tabelliães e alcaides ou governadores militares das villas; 
e até possuíam a faculdade de não annuir ás eleições dos 
juizes e mais officiaes dos concelhos , feitas pelos homens 
bons. Pertencia-lhes o monopólio dos engenhos e a redi- 
zima, ou o dizimo de todos os dizimos, paga pelo sobe- 
rano. Este, que cedia tão grandes direitos e mais, sub- 
sidiava o culto divino, para o que, na sua qualidade de 
grãomestre da Ordem de Christo, a cujo padroado per- 
tenciam as terras do Brazil, recolhia as contribuições ec- 
clesiasticas; recebia o dizimo e os direitos das alfandegas, 
muito reduzidos pelos foraes, cabendo-lhe também o mono- 
pólio das drogas e especiarias, e o quinto dos metaes e 
pedras preciosas. Almoxarifes e feitores escolhidos pelo 
rei faziam as cobranças da Coroa e exerciam funcções con- 
sulares, "valendo os seus attestados no reino para regular 
as franquias e privilégios que teriam nas alfandegas os 
productos exportados para as capitanias" (Varnhagen, 
Historia Geral). Como na metrópole, nos tempos medie- 
/aes, os donatários tinham de fazer confirmar a posse dos 
seus domínios senhoriaes por cada novo monarcha, ou 
quando os recebiam por successão, restricção destinada a 
recordar a suzerania real. O feudalismo brazileiro, que, 



11 

como todas as instituições humanas, durou emquanto apro- 
veitou ao progresso, descentralizando de principio a colo- 
nização, facilitou a povoação de toda a costa e, garantindo 
a independência dos donatários de qualquer auctoridade que 
não fosse immediatamente a do soberano, deu incremento 
ao espirito local, fortalecendo-o para repellir as invasões 
de extrangeiros. Este espirito local, desenvolvendo-se máu 
grado a centralização dos séculos seguintes, veio a consti- 
tuir um traço saliente da nossa historia. 

A capitania de Duarte Coelho foi a que mais cedo 
prosperou, comquanto á custa de muito gasto e de muito 
esforço, porque, além das pouco vulgares qualidades pes- 
soaes do donatário, a terra recommendava-se pela sua ex- 
cellencia. Clima quente, porém temperado pelas suaves 
virações de terra e mar, tão falladas de Piso, o sábio me- 
dico de Maurício de Nassau. Chuvas abundantes e regu- 
lares em toda a zona aquém do sertão, refrescando os 
campos, engrossando os rios e evitando as seccas. Ter- 
reno accidentado sem demasias, descendo gradualmente 
dos platós ou taboleiros do interior para as mattas fron- 
dosas, nas quaes a pujança não sobrepuja a belleza, e para 
as várzeas fertilissimas banhadas por muitos rios, e ex- 
pirando nos mangues ou alagados do mar. 

donatário levantou nas immediações dos lugares 
onde se tinham erguido as antigas feitorias de Christovão 
Jacques, as primeiras villas do seu feudo — Olinda e 
Iguarassú, separadas cinco léguas uma da outra. Revelou- 
se ainda n' esta escolha a incapacidade commercial dos 
portuguezes: Iguarassú é uma villa central, e Olinda, 
destinada a ser a principal cidade de uma capitania 
que contava prosperar com a exportação dos seus pro- 
ductos, foi edificada sobre um morro senhoril, coroado de 
massiços de palmeiras, mas distante uma légua do porto do 
Recife, cuja situação marítima fez espontaneamente medrar 
um povoado, que os hollandezes depois valorisaram, trans- 
formando-o na sua capital. Pelos campos dados em ses- 
marias ou cultivados por conta do próprio Duarte Coelho, 
se iam ao mesmo tempo semeando mantimentos, que es- 
casseavam quando os indios não vinham a vendel-os, tendo 



12 

de sahir em procura d' elles os caravellões dos moradores, 
plantando cannaviaes e recoltando algodão. A montagem 
dos engenhos contractada na Europa pelo donatário, em- 
bora feita quasi toda por judeus industriosos fugidos á 
fúria religiosa da metrópole, e operários de São Thomé e 
da Madeira, conhecedores do processo, levava tempo e 
consumia dinheiro, mas era este o principal objecto da 
attenção de Duarte Coelho, o qual, em suas cartas a D. 
João III, queixava-se por vezes de estar pobre e endivi- 
dado, confiando somente no assucar para alcançar a for- 
tuna que afanosamente buscava. 

Entretanto o páu brazil, monopólio da Coroa, que por 
elle vexava os donatários, era o grande negocio, tão lu- 
crativo que em 1557 foi revogada das doações a concessão 
da vintena, até então pertencente aos capitães, d' aquelle 
que fosse exportado das suas capitanias e vendido em Por- 
tugal. As cartas de Duarte Coelho ao monarcha, docu- 
mentos quasi únicos para o estudo d' este momento his- 
tórico, estão recheadas de lamentações que parecem não 
ter sensibilizado a avidez real. Sentiá-se elle de que em 
procura do páu brazil, muito abundante em Pernambuco, 
tivessem de sahir pela costa os seus bergantins, quando 
não internarem-se os colonos pelo sertão; e sobretudo do 
alvoroço que nas suas povoações introduziam indivíduos 
que vinham fazer os carregamentos, ás vezes por conta 
própria que os tinham como dadiva do soberano, distrahindo 
dos trabalhos grossos da lavoura os Índios amigos com 
presentes, até de armas. Algum páu brazil também em- 
barcava o donatário, mas sem enthusiasmo pelo negocio, 
e apenas o vemos em 1549, gastado de fazenda e receoso 
pelos seus privilégios, impetrar de D. João III o favor de 
o deixar exportar durante vinte annos, sem concorrência 
extranha na sua comarca de Olinda e forros de todos os 
direitos, trez mil quintaes da preciosa madeira, cada anno, 
com o fim de se prover de coisas que lhe eram necessárias 
e que não achava quem Ih' as fiasse. Trez annos antes 
implorara Duarte Coelho que a recolta do páu brazil se 
não fizesse em quasi toda a sua capitania durante dez ou 
doze annos, para socego da terra e estabelecimento dos 



13 

moradores, porém não tendo sido provavelmente attendido, 
entendeu e com razão que dos males o menor, e que, a 
lucrar alguns com a desordem, não fosse elle o derradeiro. 

Parece que da metrópole, cuja cubica se aguçava pelas 
novas da Hespanha, onde jorrava com abundância oiro e 
prata do Perii e México, insistia-se n' uma expedição ao 
interior em busca de metaes preciosos, Duarte Coelho 
duas vezes se referiu a esta exigência de Lisboa, em 1542 
e em 1546, dizendo que cada dia se esquentavam mais as 
novas do sertão, isto é, que augmentava a probabilidade 
de se encontrar o almejado, mas adiando a expedição 
sob pretextos diversos, nunca quiz trocar por uma explo- 
ração arriscada e problemática os proventos do seu assu- 
car, comquanto tardios, e de resto a edade e as fadigas 
impunham -lhe tal reluctancia. Em vez dos moradores 
desertarem das suas habitações e lavras, foram-se mon- 
tando mais engenhos, e em 1546, por sentença do dona- 
tário que elle submetteu á approvação da Coroa, se pagava 
em Pernambuco todo o dizimo em assucar feito e purgado, 
quando na vizinha Itamaracá unicamente se mercadejava 
e contrabandeava em páu brazil. E com tudo bem crivei 
que o donatário enviasse alguma gente a explorar o inte- 
rior da capitania, deparando-se por essa occasião a Paulo 
Àffonso, quando subia o rio São Francisco, a formosa e 
celebre cachoeira que traz o seu nome. Si de semelhante 
expedição, destinada mais que tudo a inquirir do valor 
geral da grande doação régia, resultasse a descoberta de 
minas, tanto melhor: Duarte Coelho as não desdenharia 
seguramente. ao que elle fugia era a trocar o certo 
pelo incerto, desorganizando, como outros, o desenvolvimento 
regular da terra e malbaratando o dinheiro em successivas 
explorações aventurosas. Já o filho, Duarte, educado longe 
do feudo, pouco afeito a acariciar-lhe o lento germinar, 
falto de experiência pelo verdor dos annos, sonhou embar- 
car em taes pretenções e duas vezes, ao voltar de Pernam- 
buco, segundo conta Gabriel Soares, occupou o rei com 
as suas chimeras, mas "desconcertou -se com S. A. pelo 
não fartar das honras que pedia". 

Duarte Coelho na faina de arredar todos os obsta- 



14 

culos ao feliz êxito da sua empreza, e tendo para mais 
deante dos olhos o espectáculo desolador de outras capi- 
tanias mergulhadas na anarchia, intentou prudentemente, 
desde sua chegada, viver em paz com o gentio, e conse- 
guio que os tabayares, em parte dominados pelo medo e 
grandemente seduzidos pelas dadivas de ferramentas e 
bugigangas, auxiliassem os seus colonos na edificação das 
duas villas e nos pezados trabalhos ruraes. Com as 
mulheres d' esta tribu cazaram-se alguns moradores e 
amancebaram -se outros, vivendo muitos annos em doce 
concubinato com a filha do cacique Arco Verde o pro- | 

prio cunhado do donatário, Jeronymo de Albuquerque. j 

Este bravo portuguez, typo do colonizador peninsular, 
manejava com facilidade a espada e até perdeu um olho 
em pugna contra os bárbaros, mas apezar d' este defeito, 
galanteava com êxito, e quando por ordem da rainha regente 
D. Catharina d' Áustria, cuja beatice se escandalizara de tanta 
libertinagem, cazou-se com D. Filippa de Mello, escoltavam- 
n' o onze filhos naturaes, nem todos da filha do chefe indio, 
os quaes elle perfilhou e sempre lhes quiz com ternura. 

Os cahetés não foram igualmente amáveis para com 
os invasores. Dotados de maior ferocidade, açulados 
pelos francezes e estimulados pelo ódio aos tabayares, 
esses selvagens que nas suas canoas percorriam ligeira- 
mente os rios e não duvidavam affrontar o mar em 
débeis jangadas, incommodaram por vezes o donatário 
com as suas covardes emboscadas e os seus assaltos rui- 
dosos de gritos estridentes. Foram elles que em 1548 
estiveram a ponto de destruir Iguarassú. Os colonos as- 
sustados pediram para Olinda algum soccorro, e d' ahi 
lhes acudiram quarenta homens da tripulação de um navio 
que chegara de Portugal com um carregamento de depor- 
tados e se preparava para regressar com outro de páu 
brazil, indo no troço expedicionário Hans Stade, allemão 
de Hesse emigrado para Portugal, que de volta ao paiz 
natal e curado do gosto pelas terras do Novo Mundo, es- 
creveu na lingua materna uma pinturesca relação das suas 
digressões no Brazil e lidas entre os tupinambás. O sitio 
de Iguarassú foi apertado, e o terrível gentio usou n' elle 



15 

durante cerca de um mez de todos os seus ardis de guerra, 
como sortidas inesperadas dos esconderijos, frechas guar- 
necidas de cera e algodão inflammado, derrubadas de ar- 
vores lançadas no rio no intuito de interceptar a nave- 
gação e cortar os viveres que os sitiados faziam ir de 
Itamaracá, retirando -se finalmente, graças ao terror que 
lhe inspiravam as armas de fogo e estragos que produ- 
ziam em suas fileiras. 

Das pelejas sérias, como a de Iguarassú, ficavam pri- 
sioneiros, que iam augmentar o numero de Índios escra- 
visados nas rixas com os colonos ou resgatados pelas 
bandeiras, que exploravam o interior, e pelas barcaças 
que percorriam o littoral com a mira n' este trafico. O 
grosso da escravatura já era porém constituído pelos negros 
robustos e soffredores, que durante quatro séculos foram 
extrahidos da Africa aos cardumes. Não só ao contrario 
de Castella desde 1504, era considerada illegal em Portu- 
gal e Brazil a escravidão dos indios, excepto para os dona- 
tários e em alguns casos, por exemplo o de guerra, como 
a ella sempre se oppuzeram os jesuitas, cuja apparição 
na colónia coincidiu com a primeira tentativa, em 1549, de 
centralização do poder e absorpção das capitanias pela Coroa. 

Dominados por um ardente proselytismo gerado na 
defeza do ideal poético do Christianismo, de Jesus heroe 
generoso sacrificando -se pela humanidade, emprehendida 
pela Companhia contra o espirito critico da Reforma, os 
primeiros jesuitas que desembarcaram na Bahia e se es- 
palharam pelo Brazil, trataram logo de converter o gentio. 
Para o conseguirem, assenhoreavam -se d' elle á mão ar- 
mada: á força succederiam a habilidade bondosa e a 
astúcia tenaz, características da Ordem, cujo objectivo se 
foi despindo de todo o romanticismo ao embate das luctas 
vehementes e no gozo das victorias silenciosas. O processo 
era idêntico com os neophytos sujeitos aos exercícios es- 
pirituaes de Loyola, os quaes "despertando n' elles o homem 
interior e fulminando-lhes o espirito com o subtil desvendar 
das verdades diuturnas, venciam -n' os pelo amor, depois 
de os ter esmagado pelo terror" (Ayalla, Goa antiga e 
moderna). Os selvagens deveram aos padres uma serie de 



16 

providencias protectoras arrancadas ao fanático D. João III 
e aos seus successores até D. José, sendo ellas comtudo 
como lettra morta nas plantações communistas da Com- 
panhia, onde índios e negros trabalhavam como servos 
mantidos pela collectividade, para os padres, seus generaes, 
mercadores e magistrados, sob o meigo encanto da palavra 
jesuítica e o doce influxo da musica organizada para acor- 
rentar as tribus aldeadas. O sonho dos jesuítas, lenta- 
mente germinado ao apalparem a consistência moral dos 
seus convertidos e delineado com arte consummada, foi 
fazerem do Brazil a nação theocratica mais tarde ensaiada 
no Paraguay; mas tiveram de arcar longamente, além da 
malevolencia temerosa da Egreja, com ciúmes de gover- 
nadores e malquerenças de colonos, e cahiram afinal sob 
a enérgica pressão do marquez de Pombal, quando o vento 
das reformas politicas, para elles negativas, começou a 
soprar na Europa, subsistindo apenas da sua obra vã, 
artificial e esterilizadora, as tristes ruínas das Missões. 
Os padres da Companhia eram mestres em anniquilar 
as vontades, pear os entendimentos e embotar as sensibili- 
dades. Na metrópole chegaram um momento a levar a 
cabo seus propósitos, manietando a educação e dominando 
a administração: na colónia porém, varrida de um ar mais 
sadio, si logrou dominar pelo amor um Anchieta, como 
na índia o grande Apostolo Xavier, o plano tão acariciado 
pelos seus successores, nos quaes o caracter se deprimira 
pela educação nas máximas da Ordem, desfez -se de en- 
contro ás resistências dos moradores, que os expulsaram 
de São Paulo para o sul, rebellaram-se no Maranhão contra 
o padre António Vieira, e por quasi todo o Brazil armaram 
conflictos. Os indígenas, pupillos dilectos dos padres, 
máu grado os hymnos christãos lançados em coro ao si- 
lencio mysterioso das florestas virgens ou em frente ao 
oceano coruscante do sol tropical, definharam sem poderem 
adaptar-se á civilização, inoculada muito embora pela forma 
mais benigna e persistente; e desappareceram quasi de 
todo pelo cruzamento com os portuguezes, diário nos pri- 
meiros tempos de convivio mais assíduo e escassez de 
mulheres brancas, e dizimados pelas epidemias. 



u 



17 



III 

No Norte, isto é, em Pernambuco, então com Ita- 
maracá o extremo Norte do Brazil desbravado, a colonização 
theocratica ainda poude vingar menos do que no Sul. Não 
só o caracter aristocrático do feudo de Duarte Coelho, im- 
pedindo esses morticínios de selvagens que deshonram as 
primeiras e sanguinolentas installações hespanholas, dis- 
pensava, ao inverso de outras capitanias somente povoadas 
por levas avinhadas de aventureiros turbulentos, a inter- 
venção dos jesuítas em prol dos índios, como "parallela- 
mente com as missões desenvolveu -se alli a população 
européa, dando-se uma ponderação de forças e nunca pas- 
sando o domínio politico, a exemplo de S. Vicente, das 
mãos do governo para as da população" (Oliveira Martins, 
O Brazil e as Colónias portuguesas). 

Os jesuítas appareceram em Olinda em 1551. O ar- 
dente padre Nóbrega, distincto estudante de Salamanca e 
Coimbra filiado na Companhia para esconder o seu despeito 
por injusta preterição em um concurso, e o padre António 
Pires vieram, dizem as suas cartas , no intuito de restabe- 
lecer entre os colonos as perdidas idéas de moralidade e 
• amor do próximo, no que não cuidavam os cinco ou seis 
sacerdotes que ahi viviam uma vida desregrada. O dona- 
tário, por velho e cançado, já fracamente podia combater 
os abusos, e faltava-lhe muito para hum bom regimento de 
justiça, escrevia o padre Nóbrega a D. João III, insi- 
nuando-lhe que reivindicasse para a Coroa a capitania, das 
maiores e melhores d? esta terra. Além d' esta insinuação, 
contava-lhe o incançavel jesuita, em estylo chão e sincero, 
de uma simplicidade que não exclue o pinturesco, que a 
semente do bem germinara entre os moradores de Per- 
nambuco; apezar da reluctancia de muitos em abandonarem 
a sua existência de mancebia, rancores, irreligião, e até 
de gentilismo, pois que os filhos já christãos deixavam-n' os 
correr o matto entre os selvagens, e de uma sedição pro- 
movida pelos curas feridos na bolsa pela inesperada con- 
corrência, tanto mais para recear quanto preferia ao 
dinheiro os espíritos. As conversões do gentio escravo e 

Lima, Pernambuco. 2 



\ 



18 

livre eram ás dúzias, segundo relatava, sendo -lhes dado 
baptismo apóz muito catecismo e não menos exorcismos, 
e regularizando -se o antigo viver escandaloso dos neo- 
pliytos, que se agrupavam em redor dos padres, a ponto 
de não terem conta com pães nem parentes (palavras do 
padre António Pires). Nóbrega retirou-se no anno seguinte, 
deixando o companheiro á testa dos aldeamentos por elles 
organizados e na tarefa de edificar uma ermida, núcleo 
do futuro collegio da Companhia. Em uma carta conta 
por seu lado o padre António Pires que as predicas de 
Manoel da Nóbrega eram sofregamente escutadas pelos 
indios, deslumbrados pela pompa do catholicismo e pela 
eloquência do novo page, e que, seguindo a tradição da 
Ordem á qual devemos formosíssimos monumentos philo- 
logicos, elle próprio ia estudar o tupi para poder pregar 
no idioma indígena, pois de officios manuaes Unha já 
aprendido assaz para d' elles poder viver. A missão de 
Pernambuco foi porém abandonada até 1560, por falta de 
obreiros e também porque o donatário, apezar dos annos 
e naturaes achaques, era homem para reagir contra qual- 
quer menosprezo, em proveito dos çadres ou da Coroa, 
da sua auctoridade quasi soberana. A Companhia só con- 
vinha a própria suzerania, ou a do monarcha jungido ao 
carro triumphal de Loyola pela preponderância na corte 
do padre Simão Rodrigues de Azevedo, um dos com- 
panheiros de Santo Ignacio, valido de D. João III e mestre 
de seu filho; pelo que ella auxiliava a obra de centrali- 
zação intentada pelo conde da Castanheira nos regimentos 
dados a Thomé de Souza, primeiro governador do Brazil, 
e ao ouvidor geral e provedor-mór da fazenda conjuncta- 
mente nomeados.. 

O hábil ministro, estabelecendo na Bahia um repre- 
sentante directo do rei com poderes que salientemente 
cerceavam os dos donatários, baseava-se na crescente 
relaxação de todos os feudos. Em Pernambuco, cuja pros- 
peridade attrahia gente das outras capitanias e seduzia 
colonos do reino, e até famílias nobres que fugiam á 
miséria progressiva da metrópole, ainda a conhecida austeri- 
dade e nunca de todo embotado rigor do capitão punham 



19 

algum embaraço á anarehia, mas em todo o resto do Bra- 
zil abertamente se pirateava com Índios e páu brazil, 
sahindo embarcações a saltear a costa de norte a sul; os 
degredados exerciam cargos importantes e os próprios 
ecclesiasticos eram assassinos e polygamos. No caso de 
perseguição, o direito de homisio contido nas doações de 
D. João III facultava aos criminosos asylos seguros. 

Duarte Coelho, com a consciência de sempre ter cum- 
prido as suas obrigações para com a Coroa e de haver 
envidado esforços para manter em casa a disciplina, e tanto 
assim que pedira para Lisboa que se mandassem executar 
as precatórias de umas para outras capitanias e que só se 
entendesse o homisio entre a metrópole e a colónia, re- 
voltou-se contra a invasão dos seus privilégios, queixando- 
se amargamente d' esta violação da palavra real. Em 
carta de 15 de Abril de 1549 elle lamentava que, na f al- 
iada doação a uma grande companhia de armadores, que 
se planeava constituir com as mais amplas attribuições 
sob a protecção real, com o fim de sustar a desordem que 
lavrava nas capitanias e fazer frente ás repetidas incur- 
sões francezas, enriquecendo ao mesmo tempo. os concessio- 
nários emquanto a Coroa os não substituísse, se preten- 
desse englobar o seu Pernambuco, que tantos gastos, 
trabalhos e sangue já lhe custara. No próprio anno em 
que esta carta era dirigida a D. João III, retiravam-se aos 
donatários valiosas prerogativas, como a de larga alçada 
no eivei e no crime sobre os colonos, que passou para o 
ouvidor geral, com assentimento do governador nos casos 
de morte, e auetorisava-se até a suspensão dos capitães 
das suas jurisdicções. Os serviços do antigo batalhador 
da índia e sizudo administrador de Pernambuco foram 
comtudo reconhecidos, e attendidas as suas reclamações, 
com o que honrou-se o rei, estatuindo que se não enten- 
deria com a doação d' elle a lata auetoridade dada a Thomé 
de Souza. A carta de 24 de Novembro de 1550 respira a 
fervorosa gratidão de Duarte Coelho pelo favor do seu prín- 
cipe, comquanto não mostrasse o donatário inteiro contenta- 
mento com o obtido. Queria ainda que as liberdades e privi- 
légios dos seus moradores fossem igualmente respeitados na 

2* 



20 

forma exacta em que se achavam inseridos na doação e foral 
que recebera, sob pena de os ver sahir da capitania e despo- 
voar-se uma terra que com tantas fadigas começara a tomar 
incremento. Contavam-se cinco engenhos seus moentes e 
correntes, e outros se montariam no caso do monarcha 
fazer respeitar os direitos dos povoadores, sentidos sobre- 
tudo do regimento de fazenda, mandado executar nas dif- 
ferentes partes do Brazil pelos provedores e officiaes en- 
carregados agora da fiel cobrança dos dízimos, dos bens 
dos defunctos e ausentes, do serviço das alfandegas e da 
verificação da legitimidade das sesmarias. 

No regimento de Thomé de Souza, que com os dois 
outros, de Pêro Borges, ouvidor geral, e António Cardoso, 
provedor-mór da fazenda, formam um sagaz esboço da centra- 
lização administrativa da grande colónia, prohibia-se a com- 
municação pelo sertão de umas para outras capitanias. Esta 
disposição obedecia ao duplo fim de estimular e proteger a 
navegação costeira, desideratum que se obteve, e de em- 
baraçar a escravisação dos Índios, crime para o qual ficava 
imposta a pena de morte. Cimentava-se assim a grande 
força de que iam dispor os jesuítas, e que naturalmente 
já lhes cabia pela sua supremacia intellectual e mundana 
e pelo facto de representarem a moralidade e o amor 
contra a depravação e o ódio. 

A grande expansão da Companhia no Brazil devemos 
certamente um bem: o estar limpa a nossa historia da mancha 
fúnebre da Inquisição pérfida e sanguinária, inimiga natural 
da Ordem, que á intolerância antepunha a benignidade, á 
intransigência a submissão e ao terror physico a ascendência 
espiritual. Os dominicanos, agentes apaixonados do terrível 
tribunal, chegaram a pretender destruir os jesuítas, urdindo- 
se em volta deFilippelI uma tenebrosa intriga de trinta annos 
e salvando-se a Ordem somente pela sua extrema docili- 
dade. Nem espanta tamanha arrogância, quando elles ar- 
caram com o próprio Papado, como no celebre processo 
movido pelo ódio pessoal do inquisidor-mór Valdez ao arce- 
bispo de Toledo Carranza. Goa, a capital do império por- 
tuguez na Ásia, foi menos feliz do que o Brazil, não só 
porque existiam lá extrangeiros aos quaes era mister afastar 



21 

do trafico, prendendo-os e condemnando-os em holocausto 
aos interesses commerciaes dos portuguezes, como "porque 
convinha ao Santo Officio assassinar muitos hindus ricos 
para apropriar-se dos seus bens" (Payne, European Colo- 
ri i es). Ainda assim conta o historiador Southey que o Brazil 
não haveria talvez escapado ao flagello, si a occupação 
hollandeza no Norte não tivesse acarretado aos administra- 
dores e aos administrados pezadas attribulações, pois de 
Madrid pedira-se já ao governador D. Luiz de Souza uma 
lista de todos os christãos novos da possessão com infor- 
mações minuciosas sobre seus haveres e lugares de resi- 
dência, apontando-se particularmente os suspeitos de en- 
treter relações com os extrangeiros. Porventura tratava-se 
apenas de levas como as que posteriormente amarguraram 
a colónia. 

Duarte Coelho falleceu em 1554, logo depois de haver 
tão nobremente defendido os seus privilégios contra a ab- 
sorpção regalista iniciada por Thomé. de Souza, o qual, no 
proseguimento da sua obra politica, e casualmente auxi- 
liado pela ausência, inépcia ou miséria dos donatários, 
victimas quasi todos das primeiras difficuldades e das cizâ- 
nias que entre si levantaram, golpeava diariamente o feu- 
dalismo brazileiro. Simultaneamente ia a metrópole por 
ciúme isolando a sua colónia de toda communicação com 
os extrangeiros, quer impedindo o commercio pelo interior, 
dos povoadores do Sul com os castelhanos do Kio da 
Prata, commercio tão favorável ao descobrimento de terras 
inexploradas ; quer espreitando a apparição do mais pequeno 
navio que não trouxesse hasteada a bandeira das quinas, 
ainda que viesse furtivamente em busca d' uns kilos de 
pimenta, para dar-lhe feroz caça e aprezal-o, si possivel. 
Tão estúpida se mostrava a administração de Lisboa na 
sua febre de exclusivismo, que até acabou por mandar ar- 
rancar as arvores productoras de especiarias, para que não 
baixassem os proventos do real negocio na índia! Somente 
em 1640, chegando para tudo a emancipação, se permittiu 
no Brazil este cultivo. 

Os dois filhos do donatário estudavam em Portugal, 
quando o pai falleceu. A viuva D. Brites ficou confiado 



22 

o governo da capitania, que ia entrar n' um período de 
damnosa agitação. indomável gentio caheté, já não 
presentindo por traz da torre quadrada de Olinda o forte 
braço de Duarte Coelho, e imitando as tribus das outras 
capitanias, deu o signal de estarem rotas as hostilidades 
com massacrar e devorar os náufragos de um navio que 
se dirigia para o reino, entre os quaes o primeiro bispo 
do Brazil, Pedro Fernandes Sardinha, e o provedor-mór da 
fazenda, António Cardoso. In-continenti e com guerreiro 
estrépito os selvagens vieram semeando o fogo e a deso- 
lação até ás villas de Iguarassú e Olinda, destruindo em 
sua passagem os engenhos ainda que, de accordo com a 
disposição do regimento dado a Thomé de Souza, possuíssem 
estes armas para sua defeza: 

"Entre bulcões de fumo que se enrola, 
Estalos, chispas dos combustos galhos 
Correm; voam as soltas labaredas 
Pelos mandiocaes e milharadas 
A cinzas reduzindo as verdes roças." 

(Domingos de Magalhães, Confederação dos Tamoyos, canto VIII.) 

Para acudir ao perigo esteve de partida da Bahia o 
segundo governador D. Duarte da Costa (1553 — 57), e 
assumiu a direcção da terra pernambucana o irmão de 
D. Brites, Jeronymo de Albuquerque, que á testa dos 
moradores armados desbaratou quanto poude os cahetés, 
condemnados a perpetua escravidão por um edicto régio 
de 1557. A lucta intermittente de emboscadas e escara- 
muças prolongou -se até que em 1560, por ordem da 
rainha D. Catharina, regente em nome de seu neto D. Se- 
bastião, o moço donatário Duarte de Albuquerque Coelho 
partiu para Pernambuco com seu irmão Jorge e algumas 
famílias fidalgas. 

Os dois mancebos — Jorge contava apenas 21 annos, 
tendo nascido em Olinda em 1539 — haviam sido educa- 
dos na corte tristonha e beata da viuva de D. João III, 
tão differente da corte culta e alegre de D. Manoel, mas 
na qual o fanatismo não brigava com o ideal de heroísmo 
peculiar ao século pela resurreição das tradições clássicas; 
antes, cazando-se este ideal com o ascetismo religioso 



23 

crescente pela opposição ao sensualismo dominante, pro- 
duzia caracteres da tempera dos jesuitas Nóbrega, Anchieta 
e São Francisco Xavier, e do rei D. Sebastião. Anciosos 
por darem amostra do seu esforço, decidiram castigar 
os selvagens, tomando Jorge o commando da expedição, 
de cujas peripécias nos dá summaria conta a Relação 
do naufrágio da náu Santo António, publicada em 1736 
no 2 o volume da Historia tragico-maritima como da penna 
do poeta pernambucano Bento Teixeira Pinto, que se 
achava a bordo, e attribuida por Varnhagen ao piloto 
Aífonso Luiz. Consumiram-se cinco annos n' essa lucta 
contra o gentio e contra a solidão, percorrendo o bellicoso 
troço as montanhas e desertos do sertão de Pernambuco, 
desde o rio São Francisco, seu limite sul, até o norte e, 
ajudado pelos índios contrários, limpando a capitania das 
aldeias de cahetés. A Duarte coube entretanto medir-se 
com fortuna com os calvinistas francezes companheiros 
de Villegaignon, expulsos do Rio de Janeiro, cuja impor- 
tância geographica haviam posto em relevo, pela energia 
do terceiro governador Mem de Sá e pela actividade do 
padre Nóbrega; e que, na fuga, tentaram um desembarque 
e estabelecimento no Recife, então burgo miserável de 
pescadores e marítimos. Pungiam-n' os porém as saudades 
de Lisboa, agora que poderiam honrosamente discretear na 
corte sobre assumptos militares e narrar aos fidalgos or- 
gulhosos das suas façanhas da índia, as aventuras de uma 
arrojada expedição aos sertões brazileiros e a firmeza de 
algumas cutiladas varando gibões de aguerridos soldados 
francezes, velhos rivaes de Duarte Coelho nas relações com 
o gentio. O joven monarcha, na expansão do seu tem- 
peramento impetuoso, abrir-lhes-hia certamente os braços 
com affecto, orgulhoso de apresentar-se com tão gentis e 
valentes cavalleiros. Partiram pois para o reino, Jorge em 
1565, e Duarte, o donatário, em 1572, deixando outra vez 
sua mãi governando a capitania emquanto não regressava 
o irmão, que em 1576 voltou definitivamente para Portugal. 
Foi extraordinariamente accidentada a viagem em- 
prehendida em 1565 por Jorge de Albuquerque Coelho. 
Logo ao sahir da barra do Recife, a náu encalhou n' um 



24 

baixo pela maré e vento contrários, safando-se a custo com 
sacrifício dos mastros. Concertada no porto, seguio de 
novo o seu rumo, mas antes de chegar á altura da linha, 
tinha aberto agua, e estava quebrado o gurupez. Forçada 
todavia a continuar a viagem, dirigiu-se para as ilhas de 
Cabo Verde, apóz as grandes calmarias habituaes n' essas 
paragens; perseguida pelos francezes e não podendo en- 
caminhar-se para terra pelo vento rijo que de lá soprava 
e muita agua que fazia a embarcação, foi porém arrastada 
para os lados da America, onde soífreu a náu novas cal- 
marias e outro rombo, e a tripulação que de desespero já 
armava brigas, muita fome e sede. Retomava penosamente 
a Santo António a direcção do archipelago africano, quando 
d' ella se approximou um navio corsário francez, provido de 
oitenta homens e bem artilhado, intimando-a a render-se, 
ao que altivamente se oppoz Jorge de Albuquerque, 
indo contra a opinião da gente de bordo. Só com sete 
criados seus, mal armados, e apenas dispondo de duas 
fracas peças que elle próprio carregava, borneava e a que 
punha fogo, sustentou a lucta durante dois dias, não ces- 
sando durante elles as bombardadas, arcabuziadas e frecha- 
das (Naufrágio que passou Jorge de Albuquerque Coelho). 
Cançados do espectáculo de tão desigual peleja, os tripu- 
lantes portuguezes abaixaram as velas á traição e deram 
entrada na náu aos francezes, maravilhados de encontrar 
tão escassos combatentes e munições tão resumidas. Posta 
uma guarnição de dezesete homens a bordo da Santo An- 
tónio, velejaram as duas embarcações para França, Jorge 
sentido da affronta da derrota e projectando uma revolta 
contra os piratas. Dissuadiu-o d' este intento uma horro- 
rosa tempestade que se levantou aos setenta e seis dias 
da sua navegação, a contar da partida do Recife, des- 
manchando o leme, partindo os mastros, destroçando as 
vergas e enxárcias, rasgando as velas e desconjunctando 
de todo o navio que quasi se afundou, comquanto para 
allivio houvessem lançado ao mar muita da enorme carga, 
as peças e até roupas. Morreram na tormenta alguns dos 
portuguezes, e outros ficaram feridos, entre os quaes o 
próprio Jorge de Albuquerque. Não perdendo comtudo 



25 

inteiramente a coragem pelos inauditos esforços do moço 
fidalgo, os que ficaram, uns quarenta, atamancaram a des- 
graçada Santo António, e quasi sem mantimentos, falhos 
de petrechos náuticos e de bússolas, abandonados miseravel- 
mente pelos francezes, depois de saqueado o resto da carga 
e pilhada a bagagem, foram indo ao Deus dará. mar 
balouçava- os furiosamente; a fome e sede dilaceravam- 
lhes as entranhas; o trabalho de exgottamento da agua 
que entrava pelos rombos consumia -lhes as forças,, ao 
ponto de fallecerem os menos robustos, cobiçados como 
pasto pelos sobreviventes. Apezar de tudo' Jorge ia -os 
animando, e sem experiência do mar, sem conhecimentos 
especiaes, recompondo o essencial para não ir a náu a 
pique; o que a muitos já se afigurava uma solução que 
se devia apressar. Finalmente desanimados, extenuados, 
quasi mortos, desamparados pelas embarcações que avista- 
vam e fugiam velozes do navio phantasma, errante sem 
mastros nem velas pelo oceano, lobrigaram as terras de 
Portugal n' um dos seus pontos mais pinturescos, as mon- 
tanhas de Cintra. Ahi, uma pequena barca acudiu-lhes 
carinhosamente e desembarcou em Cascaes e Belém os 
miseros náufragos, semi-nús, immundos e esqueléticos. 

Na vida ociosa da corte onde, apezar do luxo desen- 
freado e boçal, as poucas distracções se cifravam em in- 
trigas de palácio, visitas a meretrizes, toiradas e autos de 
fé, entre cortezãos alardeando effeminação e vangloriando- 
se de servir de denunciantes e esbirros do Santo Officio, 
sentiram os dois irmãos a nostalgia da lucta. Alistaram- 
se portanto viril e alegremente no batalhão da nobreza, 
fina flor do mesclado e indisciplinado exercito de mendigos 
e mercenários, formado á custa de exacções e de ruinas, 
com o qual D. Sebastião propoz-se, aproveitando as dis- 
sensões berberes, suífocar o Islamismo na conquista do 
império de Marrocos. O sonho do imprudente monarcha, 
uma heróica criança, teimosa por natureza e pelos mimos 
da avó, do tio cardeal e dos jesuitas que todos porfiavam 
em dominal-o, e impulsionado pelas glorias militares do 
avô Carlos V, cujas campanhas constituiam a sua leitura 
predilecta, desfez -se tristemente na derrota de Alcácer- 



26 

Kibir, em que Duarte e Jorge de Albuquerque Coelho fica- 
ram prisioneiros, não sem que tivessem rijamente defen- 
dido a sua liberdade. Jorge 

"0 esquadrão rompe, dos de Mafamede, 
Lastima, fere, corta, fende, mata, 
Decepa, apouca, assola, desbarata." 

(Bento Teixeira Pinto, Prosopopéa.) 

Era tal o renome de bravura do segundo filho de Duarte 
Coelho, escolhido para enfermeiro-mór do exercito, que a 
imaginação dos chronistas fixou n' elle a lenda do fidalgo 
que, tendo por vezes recusado ao seu soberano um soberbo 
ginete, Ih' o oíferece na batalha, na occasião do maior 
perigo. Levados para Fez os prisioneiros, Jorge quasi 
agonisante, 

"Em sangue mouro todo já banhado 
Do seu vendo correr um caudal rio," 

n' um estado que reclamou prolongado tratamento de dolo- 
rosas operações, foram mais tarde resgatados, fallecendo 
porém Duarte antes da chegada a Portugal. que sobre- 
viveu, estropeado e desilludido da guerra, procurou des- 
canço no casamento, tendo em segundas núpcias a Duarte, 
depois marquez de Basto, e a Mathias, que foi o illustre 
general conde de Alegrete; e desfastio nas lettras, escre- 
vendo umas falias politicas e religiosas que nunca foram 
publicadas. Bento Teixeira Pinto foi o cantor, em prosa 
e verso, de tão denodado gentilhomem. auctor dos in- 
teressantes Diálogos das Grandezas do Brasil^ antes de 
cobrar dízimos em Olinda, de cultivar o trigo como senhor 
de engenho e de descobrir a malagueta, imitara Camões, 
cujos Lusíadas começavam a ter celebridade, n' um poema, 
Prosopopéa, dedicado ao seu protector : 

"Que eu canto um Albuquerque soberano 
Da fc, da chara pátria firme muro, 
Cujo valor e ser que o Céu lhe inspira, 
Pode estancar a lacia e grega lyra." 



27 



IV 

A hegemonia de Pernambuco no Norte, pôde dizer-se 
em todo o Norte, porque ainda a Amazónia se não dese- 
nhava, estabeleceu-se n' este fim do século XVI. Pernam- 
buco, que já dera o seu contingente de homens e man- 
timentos para a expedição de Estacio de Sá contra os Ín- 
dios do Rio de Janeiro, colonizou a Parahyba e o. Rio 
Grande do Norte á custa de sangue seu, libertando do 
gentio estes territórios, e vêl-o-hemos mais tarde proseguir 
na sua marcha civilizadora até ao Ceará e Pariá, emancipar 
o Maranhão de uma brilhante occupação franceza, e sa- 
cudir de todo o Norte o arraigado dominio hollandez. 

A parte no continente da capitania de Itamaracá, com- 
prehendendo fertilissimas várzeas, começava a attrahir a 
attenção dos plantadores, e via mesmo levantarem-se al- 
guns engenhos de assucar, expostos porém ás duras e fre- 
quentes aggressões dos petiguares, quasi sempre guiados 
pelos frahcezes. Convindo repellir estes ataques, e tendo 
a família do donatário pouco menos do que abandonado 
as suas terras brazileiras, varias expedições se organizaram 
por ordem do governo da Bahia, com gente de Pernam- 
buco na maior parte. Duas não tinham sequer chegado a 
partir e outras duas haviam sido destroçadas, quando 
Manoel Telles Barreto, governador do Brazil, aproveitou a 
passagem por São Salvador, de volta de uma viagem in- 
feliz ao estreito de Magalhães, do almirante hespanhol 
Diogo Flores Valdez — já n' esse momento Filippe II pela 
persuasão das armas do duque d' Alba e do dinheiro espa- 
lhado pelo marquez de Castello Rodrigo, grangeára a coroa 
portugueza — , para confiar-lhe o commando de uma nova 
expedição ao Norte (1584). Acceitou o marinheiro a mis- 
são e para lá seguio, tocando no Recife afim de ajuntar 
à sua, gente de Pernambuco e Itamaracá. D. Brites de 
Albuquerque já era fallecida, e Jeronymo estava afastado 
do governo pelo quebrantamento, augmentado o natural da 
velhice por dissensões de família: o misero foi uma victima 
das sogras! D. Filippe de Moura, casado com uma filha de 
Filippe Cavalcanti, neta pela mãi de Jeronymo de Albu- 



28 

querque, achava-se como lugartenente do donatário, e elle 
próprio e Fructuoso Barbosa que veio a ser o primeiro go- 
vernador da Parahyba, partiram por terra a juntar-se com 
a gente da esquadra de Diogo Flores na foz do rio Para- 
hyba. Ahi, o almirante delineou a construcção de um forte 
e confiou-a aos hespanhoes, emquanto os pernambucanos, 
internando-se afoitamente, farejavam os indios pelos cam- 
pos, .vindo a ser victimas d' elles. Os que escaparam, vol- 
taram para Olinda entristecidos, e o gentio, impando de 
vaidade, entrou a provocar os defensores do forte, que pe- 
diram soccorro para Itamaracá. O auxilio não lhes foi ne- 
gado, mas os bugres eram cada vez mais numerosos e in- 
solentes. De Pernambuco partiu então (1585) uma expedi- 
ção de duzentos cavalleiros, trezentos infantes e muitos 
auxiliares negros e indios, commandada pelo ouvidor geral 
Martim Leitão, correspondendo plenamente o êxito aos 
gastos e fadigas dos expedicionários. Quando porém estes 
se recolheram ás casas, os colonos sentiram-se morrer de 
desesperança no seu ermo e, inutilizando n' um dia os re- 
sultados tão penosamente adquiridos, "queimaram o forte, 
botaram a artilheria ao mar, metteram a pique um navio 
que ahi ficara para os proteger" (Varnhagen, Historia Geral), 
e fugiram para Itamaracá, ficando a Parahyba na situação 
primitiva. Felizmente appareceram entre o gentio as in- 
evitáveis desavenças, e de combinação com um dos prin- 
cipaes, o temido Braço de Peixe, com o qual parlamentara 
João Tavares, de Olinda, Martim Leitão poz-se á frente de 
novos povoadores. Estes ergueram definitivamente um 
forte no local da capital, depois de enxotar de toda a capi- 
tania (1585—86) os selvagens, que no Kio Grande do Norte 
ainda seriam perseguidos. A capitania de Itamaracá ficou 
reduzida a sete léguas de costa, as quaes a Coroa quiz 
reivindicar apóz a guerra hollandeza, por não ter o dona- 
tário auxiliado a restauração; mas o marquez de Cascaes, 
descendente de Pêro Lopes, poude supplantal-a perante a 
justiça, entrando no gozo do seu feudo quasi imaginário, 
até que em 1763, por honrosa convenção, a família cedeu 
dos seus direitos em favor do monarcha. Itamaracá tor- 
nou-se d' esta data dependente de Pernambuco, excepto nos 



29 

assumptos judiciaes, em que, até 1815, dependeu da ouvi- 
doria da Parahyba. 

Pouco depois (1589 — 90), Pernambuco voltava-se para 
o Sul, ajudando no interesse de escra visar algum gentio 
para as suas plantações, a expedição bahiana de Christovão 
de Barros a Sergipe. A Coroa declarara justa a guerra, 
condição obtida pelos omnipotentes jesuítas, e necessária 
para validar a posse e tornar exigivel a entrega dos escra- 
vos índios, que muitas vezes se acoutavam nas missões da 
Companhia. Foi productiva a colheita, comquanto traba- 
lhosa pela resistência tenaz dos atacados, ficando captivos 
quatro mil no cerco que lhes foi armado : resultado brilhante, 
além do susto pregado aos ubíquos francezes, que n' aquelle 
local commerciavam livremente em pau brazil, algodão e 
pimenta. Fundou-se uma villa; nos pastos dos campos 
vizinhos dados em sesmarias, entrou-se a criar gado; e 
pelas duas margens do São Francisco — a margem norte 
sabemos que pertencia ao donatário pernambucano — , co- 
meçou-se a desfazer mais esta solução de continuidade na 
povoação da costa brazileira. 

O gentio não se aquietara porém na Parahyba com 
as rudes licções que lhe tinham sido administradas. Vol- 
tara, conluiado como sempre com os francezes, que agora 
faziam do Rio Grande o seu quartel e asylo, e atacara 
vivamente a installação portugueza do forte do Cabedelo. 
Forçoso se tornou ao governador D. Francisco de Souza 
e a Manoel Mascarenhas, capitão-mór de Pernambuco, ar- 
marem ás custas do estado, que para isto tributou cada 
caixa de assucar de dez quintaes em um cruzado, e de 
particulares, uma expedição, auxiliada pela Parahyba e que 
a metrópole reforçou (1597), ás terras em má hora doadas 
a Ayres da Cunha e João de Barros. Indo, uns por mar 
e outros mais fadigosamente por terra, congregaram-se 
esses elementos na foz do rio Grande, onde Manoel de 
Mascarenhas, com receio logo justificado dos inimigos, en- 
trincheirou-se e levantou um forte de que fez entrega, 
antes de volver á Olinda, a Jeronymo de Albuquerque, um 
dos numerosos filhos naturaes do cunhado de Duarte Coelho. 
O futuro conquistador do Maranhão, prudente como os que 



30 

teem a consciência do seu valor, aliás já demonstrado nas 
contendas do velho Jeronymo com os cahetés, preferiu ás 
armas, recorrer á persuasão, e poude firmar paz com os 
selvagens, chamando a si os principaes dos petiguares, Ín- 
dios guerreiros de velha nomeada, entre os quaes o Cama- 
rão, que tão conhecido se tornou depois pela sua parte 
activa nas luctas com os hollandezes. A cidade do 
Natal deve a Jeronymo de Albuquerque a sua fundação 
(1599). 

Os francezes comtudo já não possuíam o exclusivo da 
pirataria nas nossas costas, exercida sem respeito algum 
pelas convenções lealmente firmadas entre o seu paiz e 
Portugal, as quaes os Valois, no meio das dissensões po- 
liticas e religiosas que retalhavam a França no século XVI, 
eram impotentes para fazer vingar, impedindo as expedi- 
ções clandestinas. Na segunda metade do século XVI, 
reinando Izabel na Inglaterra e dominando na Hollanda a 
revolta calvinista, as marinhas d' estes dois paizes do Norte 
desenvolveram-se, ambas pela precisão, ensaiada com gloria, 
de guerrearem Filippe II. Os inglezes tinham começado 
a apparecer na Madeira e na costa da Mina antes da 
occupação hespanhola, quando ainda subsistia a alliança 
entre as duas coroas. Izabel, com sua habitual dissimula- 
ção, animava secretamente as expedições dos seus vassallos, 
e promettia attender, sem que a isso nunca se decidisse, 
ás repetidas e enérgicas reclamações portuguezas. Por fim, 
em razão de sua attitude, tendo o Conselho de Estado de 
Lisboa resolvido sequestrar todas as fazendas inglezas 
existentes em Portugal, e fechar os portos do reino ás 
mercadorias britannicas, a rainha assignou em 1576 um 
tratado, suspendendo por trez annos as correrias marítimas. 
A união com Castella desfez porém o conchavo, e trazendo 
a expulsão dos inglezes do commercio peninsular, estimu- 
lou-os a trilhar os mares nunca d? antes navegados, herdando 
com os hollandezes o predomínio da era de mercancia, re- 
novada pelos descobrimentos. Ajudou então a Inglaterra 
as pretençôes do prior do Crato, em troca de futuras con- 
cessões: a expedição Norris & Drake, em 1598, facultaria, 
si tivesse vingado, inteira liberdade de commercio aos sub- 



31 

ditos britannicos nos portos portuguezes do continente e 
das índias. 

Como colónia hespanhola, o Brazil soffreu as conse- 
quências dos desaguisados da sua nova metrópole. Assim, 
em 1595, Lancaster, fidalgo educado entre os portuguezes, 
e que andava feito corsário a soldo de mercadores londrinos, 
entrou com sete veleiros navios no porto do Recife; tomou 
de escalada a fortaleza de terra que o defendia, e de par- 
ceria com hollandezes e francezes que por alli andavam, 
ou appareceram, como corvos, na occasião da pilhagem, 
saqueou durante um mez a villa nascente, de umas cem 
casas apenas, mas em cujos armazéns estava justamente 
recolhida a opulenta carga de um galeão da índia, que 
naufragara perto, além de muitos productos da terra, promp- 
tos para o embarque. Os portuguezes retirados em Olinda, 
tentaram queimar os navios de Lancaster, que se recusara 
até a parlamentear com elles, e assaltaram por vezes o 
Recife, morrendo em uma sortida dos inglezes o vice-almi- 
rante Barker com muitos companheiros; mas nada impediu 
que os navios inglezes, e outros hollandezes adrede freta- 
dos no porto, partissem abarrotados. 

Os escriptores que no século XVI se occuparam do 
Brazil, entre os quaes avulta sem favor Gabriel Soares de 
Souza, senhor de engenho da Bahia que, andando a pre- 
tender concessões de minas na corte de Madrid, offereceu 
ao amigo de Filippe II, D. Christovão de Moura, uma 
descripção que Varnhagen chama encyclopedica, da colónia 
americana em 1587, excellentemente observada e graciosa- 
mente escripta, são concordes em affirmar que Pernambuco 
era então a mais adiantada das capitanias, quer no cul- 
tivo e producção das terras, quer na polidez dos costumes 
e conforto da vida. Em Olinda, que tinha "setecentos co- 
lonos, e com seu termo mais de dois mil, além de outros 
tantos negros escravos (P e . Fernão Cardim, Carta, 1584), 
as casas eram numerosas, e já tinham perdido a miserável 
apparencia das primitivas palhoças, defendidas por pali- 
çadas e fossos, dentro das quaes se haviam alojado Duarte 
Coelho e seus companheiros. Si n' essas casas se não viam 



32 

preoccupações de architeotura, também se as não observa- 
vam nas da metrópole. O auctor da relação da viagem dos 
embaixadores venezianos Tron e Lippomani, que em nome 
do doge vieram a Lisboa cumprimentar Filippe II, — 
escriptor habituado em sua terra, centro italiano da archi- 
tectura civil, ás elegantes e formosas concepções de Pedro 
Lombardo, Sansovino e Palladio — , notava que na capital 
portugueza não se levantasse palácio algum de fidalgo ou 
de burguez, que merecesse consideração quanto á matéria 
ou quanto ao estylo da construcção. Effectivamente eram 
apenas edifícios muito grandes, de aspecto conventual, co- 
bertos de telhas e revestidos interiormente de frescos azu- 
lejos; comquanto ricamente decorados de estofos e tape- 
çarias, extrangeiras e das que então se fabricavam no reino, 
e encerrando, além dos moveis europeus soberbamente en- 
talhados no gosto da renascença italiana, mil preciosi- 
dades importadas da índia, China e Japão, taes como 
moveis axaroados e dourados, loiças esmaltadas e teteias 
grotescas e caras. Em Pernambuco, os traficantes de ne- 
gros e senhores de engenhos, plebeus ou nobres endinhei- 
rados, minhotos quasi todos, com as suas qualidades de 
raça, trabalhadores e pacientes, punham todo o luxo no 
numero da escravaria, indígena e da Guiné; na riqueza 
dos vestuários de bellos tecidos de seda simples , adamas- 
cada ou avelludada, a despeito das disposições sumptuárias 
do regimento de Thomé de Souza; nos cavallos de preço 
ricamente ajaezados, palanquins e liteiras; no padre capellão 
da casa; finalmente nos banquetes de abundantes vitualhas 
e bons vinhos portuguezes, embora pagassem 1,400 reis 
por pipa de imposição, "para acudir á construcção de forti- 
ficações e á reedificação de templos". Não desprezavam 
elles com tudo o adorno das habitações, pois que o padre 
Cardim relata que nas fazendas pernambucanas, maiores 
e mais ricas que as da Bahia, o agasalharam e aos seus 
companheiros, não em redes indígenas, mas em leitos de 
damasco carmezim franjados de oiro, e ricas colchas da índia. 
Gastavam os pernambucanos com prodigalidade, por- 
que com facilidade ganhavam. Mais de cem colonos tinham 
de mil a cinco mil cruzados de renda, e alguns de oito a 



33 

dez mil. Os sessenta e seis engenhos por alli dissemina- 
dos em 1584 — no Brazil existiam ao todo cento e vinte — 
produziam duzentas mil arrobas de assucar, e não podiam 
dar vencimento á canna. Quarenta e cinco navios funde- 
avam em media, no correr do anno, deante do Recife, que 
suppriam a importação e transportavam para Portugal o 
assucar, e o páu brazil, cujo estanco andava arrendado por 
dez annos a vinte mil cruzados cada anno , rendendo quasi 
o mesmo o dizimo dos engenhos. 

O commercio era todo feito com a metrópole, e realengos 
os géneros de maior valia, a não ser o assucar que todavia 
constituia o commercio mais rendoso, mesmo para o so- 
berano. Nos Diálogos das Grandezas do Brazil, obra de 
um espirito claro, aberto ao experimentalismo renascente, 
e que embora religioso, se não contenta com explicações 
sobrenaturaes, antes revela-se dotado de illustração pouco 
vulgar, analysando com saber e commentando com faci- 
lidade assumptos de historia natural, economia e medicina, 
estabelece-se a comparação dos lucros reaes no trafico da 
índia com os auferidos da exportação do assucar do norte 
do Brazil. Assegura Bento Teixeira Pinto que, pondo de 
um lado o que o monarcha despendia em cada anno com 
os aprestos das naus que mandava ao Oriente; soldos da 
gente de guerra e marítima; moradias de seus criados; 
mercês feitas a particulares; juntamente com o cabedal que 
remettia para a compra da pimenta do Malabar; e do outro 
o que esta lhe rendia ; e mais o arrendamento dos direitos 
que pagavam "a canella de Ceylão, o cravo de Maluco, a 
massa e nós muscada da Banda, o almiscre, benjoim, por- 
celana e sedas da China, as roupas e anil de Cambaya e 
Bengala, a pedraria do Balaguate, e Bisnaga e Ceylão", 
os ganhos excedentes ficavam todavia áquem do rendimento 
do consulado, e da entrada no reino do assucar de Per- 
nambuco, Itamaracá e Parahyba, cultivado somente no lit- 
toral, porquanto os colonos não se haviam ainda afastado 
dez léguas da costa. O assucar produzido nas capitanias 
citadas em 1618, tempo em que o auctor pernambucano 
escrevia, era avaliado em quinhentas mil arrobas, levadas 
annualmente por muito mais de cem naus, todas fretadas 

Lima, Pernambuco. 3 



34 

por particulares, cujo trabalho estimulador excedia pro- 
porcionalmente o das grandes companhias postas em moda 
no decorrer do século XVII. As relações commerciaes com 
outros paizes, com a Inglaterra por exemplo, que a prin- 
cipio pareciam querer estabelecer-se, foram sofregamente 
abafadas pela politica de isolamento, a qual um século 
depois até dominou o espirito lúcido de Cromwell e, annul- 
lando o intercurso de idéas indispensável para o desen- 
volvimento da mentalidade, degradou as colónias latinas, 
ainda que em menor escala do que as suas metrópoles, 
"deixando-as á mercê dos ofíiciaes e ecclesiasticos, e ag- 
gravando o effeito d' essa combinação de tyrannia, santi- 
monia e monopólio sob a qual eram governadas" (Payne, 
Europcan Cólomes). 

Em Pernambuco, para mais abandonado do seu dona- 
tário, Jorge de Albuquerque, o qual, pai de família e lau- 
reado, pensava na maneira de despender tranquillamente 
em Lisboa a renda de dez mil cruzados que auferia da re- 
dizima, do dizimo do pescado que era o único a possuir in- 
teiro, e dos foros dos engenhos do seu feudo, os males 
eram idênticos aos das outras terras do Brazil. Já Mem 
de Sá se queixava dos individuos em quem eram providos 
officios, e até capitanias. Os empregados de justiça só 
serviriam para embaraçar as numerosas demandas, e tornar 
ainda mais accessivel a Themis venal transplantada do 
reino; padres, sabemos nós que não faltavam, parasitas em 
grande parte. De 30.825 cruzados, que tanto rendia a co- 
lónia em 1583 com todas as difficuldades de cobrança — 
em 1602 já rendia 106.000, e em 1612, 125.000 — , 7.500 
cruzados iam para os jesuítas ; e acontecia que, mandando- 
se 10.030 para a metrópole, havia nos gastos um deficit 
annual de 2.000 cruzados approximadamente. Nas despezas 
de Pernambuco em 1601, fixadas em 12.528 $ 417 reis, en- 
travam os ofíiciaes de justiça e fazenda e o donatário por 
6.211 # 917 reis, o clero por 1.547 $ 300 reis e os gastos 
de guerra por 4.799 9 200 reis. Verdade é que Olinda, 
Iguarassú que tinha duzentos colonos, e os engenhos em 
cada um dos quaes viviam vinte a trinta portuguezes, afora 
os das roças circumvizinhas , podiam pôr em campo mais 



35 

de trez mil homens — o colono que possuísse 400 $ era 
obrigado a ter armas — , sendo quatrocentos cavalleiros, 
além de quatro a cinco mil negros e muitos Índios (Ga- 
briel Soares de Souza, Tratado descriptivo do Brazil em 
1587). 

A Companhia de Jesus, altamente recommendada pelos 
reis, era não só por este facto objecto das mais gentis 
attenções dos governadores, quando a sua ambição não 
provocava desconfiança nos mais ariscos, como também 
pelo auxilio que lhes ella prestava nos primeiros tempos, 
nas expedições contra o gentio e consequente fundação de 
villas; não fallando em apaziguamentos de rixas não muito 
raras, como a que em 1562 rompeu entre o donatário de 
Pernambuco e os principaes da terra e, segundo conta o 
padre Simão de Vasconcellos, historiador dos feitos da Or- 
dem no Brazil, foi serenada por dois jesuitas. Sob tão 
bons auspicios, o poderio da Companhia ia crescendo dia 
a dia na perseguição constante e passiva de um ideal ap- 
parentemente desinteressado. Outras ordens religiosas que 
ainda no século XVI se estabeleceram no Brazil: os bene- 
dictinos, que vieram para Pernambuco em 1596; os fran- 
ciscanos capuchos de Santo António, pedidos por Jorge de 
Albuquerque para a sua capitania, onde chegaram em 1585, 
e cujo chronista seria no século XVIII Santa Maria Ja- 
boatam; os carmelitas observantes que deviam acompanhar 
Fructuoso Barbosa em uma das expedições mallogradas á 
Parahyba, e que se quedaram em Olinda; todas progre- 
diram e viram multiplicarem-se os seus conventos, mas 
pela sua forma racional menos adeantada e pelo seu feitio 
menos ambicioso e mais contemplativo, não puderam com- 
petir com os jesuitas na educação da mocidade nem na 
conversão do gentio. Os collegios da Ordem, negações da 
livre critica ensaiada pela Renascença, levantavam-se no 
fim do século em Olinda, na Bahia, no Rio, em Piratininga: 
n' elles se ensinava além da leitura, escripta e doutrina, o 
latim, humanidades e casuística. As missões augmentavam 
constantemente, chegando a haver algumas com cinco mil 
neophytos em tempo de Mem de Sá. Foi este governador 
grande amigo dos padres, aos quaes prodigalizou altos fa- 



36 

vores nos seus dezeseis annos de administração, offertando- 
lhes até para a fundação dos collegios, o producto das 
condemnações e penas pecuniárias. N' isto não fazia elle 
mais do que seguir na esteira da Coroa, a qual accumu- 
lava sobre a Companhia as graças mais amplas, dando-lhe 
a redizima, abono de mantimentos que no Rio recebiam em 
assucar de Pernambuco, sommas de dinheiro; e sobretudo 
collocando os Índios fora da alçada dos colonos, com o que 
muito lucravam as terras da Ordem. 

Os selvagens só podiam ser escravos, decidira-o a 
Meza da Consciência de Lisboa, quando captivos em guerra 
justa, e mesmo assim por dez annos apenas, conforme ficou 
estatuído em 1611; entregues crianças pelos pais, ou ven- 
didos adultos por motu-proprio. Os padres ainda conse- 
guiram que a primeira hypothese fosse a única válida, mas 
o clamor levantado pela decisão régia determinou uma 
modificação d' esta no sentido anterior, sendo comtudo or- 
denado em 1595 que ficassem livres todos os Índios escra- 
visados em guerras não emprehendidas por provisões as- 
signadas pelo próprio soberano. Em 1596, por alvará de 
26 de Julho, cabiam aos jesuítas o governo e administra- 
ção do gentio. Estava finalmente ganha a porfiada lucta, 
em que Roma, a futura demolidora da Companhia, bata- 
lhara fervorosamente pelos novos defensores da religião 
catholica e da supremacia papal, n' esse século no qual a 
humanidade procurara emancipar-se da tyrannia espiritual 
e da oppressão politica, contrapondo a natureza á fé, a ob- 
jectividade critica á subjectividade tradicional. 

trafico de negros com todos os seus horrores, que 
ainda presenciaram nossos pais, augmentou na razão directa 
da protecção dispensada aos Índios, e até 1851 apenas se 
interrompeu um momento durante os primeiros annos da 
occupação hollandeza. espiritualismo christão invocado 
pelos jesuítas, que na Itália haviam praticado o machia- 
velismo, para defeza dos seus neophytos, não serviu para 
embaraçar a importação dos Africanos, trabalhadores ru- 
raes requeridos pelos colonos com pleno assentimento real; 
pois que, ao passo que Duarte Coelho carecia de impetrar 
de D. João III como uma graça, o introduzir algumas peças 



37 

da Guiné na sua capitania: em 1559, a rainha regente 
D. Catharina já permittia a cada senhor de engenho mandar 
vir do Congo até cento e vinte escravos, pagando somente 
o terço dos direitos, em vez da metade. Por tal forma foi 
avultando o commercio, que nos começos do século XVII, 
quando em Olinda, por exemplo, os indios eram poucos: 
"se ha criado no Brazil uma nova Guiné; em tanto que, 
em algumas das capitanias, ha mais dos escravos vindos 
d' ella que dos naturaes da terra, e todos os homens que 
n' elle vivem teem mettida case toda sua fazenda em seme- 
lhante mercadoria" (B. Teix a Pinto, ob. cit.). Os infelizes 
morriam dizimados pelos maus tratos de bordo, e pelas 
epidemias de sarampão e bexigas, sem fallar nos homicí- 
dios, sobretudo por envenenamento, que uns contra outros 
praticavam; o viveiro porém não ficava demasiado longe 
para a ganância dos traficantes. Succediam-se no porto 
do Recife os navios negreiros, lançando as tristes filas 
de sórdidos escravos uma nota desconsoladora na vida 
animada de Olinda, cheia de lojas onde mercadores do 
lugar expunham as fazendas chegadas do reino, "toda a 
sorte de louçaria, sedas riquíssimas, pannos finíssimos, 
brocados maravilhosos, que tudo se gastava em grande 
copia na terra", á qual affluiam os mercadores de arriba- 
ção que, vendidas as suas cargas, embarcavam para Lisboa 
com muito assucar, algodões e âmbar. 

Para os commerciantes de ida por vinda; para os offi- 
ciaes mechanicos que abundavam; para os jornaleiros que 
se occupavam "em encaixamento de assucares, feitorisar 
cannaviaes de engenhos, criarem gados, com nome de va- 
queiros, e servirem de carreiros"; para os pequenos agri- 
cultores "que tinham partidos de cannas ou lavravam 
mantimentos": toda a mira residia no grosso cabedal, ou 
pelo menos no farto pé de meia, que permittisse o regresso 
ao torrão natal. A cidade resentia-se d' esta existência 
fugitiva, já na carestia e falta de géneros, mesmo dos que 
produzia o paiz, mas que não eram dos dominantes e lucra- 
tivos; já na ausência de jardins, pomares, tanques, afor- 
moseamentos com que os que assistem n' uma terra, pro- 
curam dotar as suas habitações. Os jesuítas, que lançavam 



38 

raizes na capitania, possuíam junto ao seu collegio fundado 
e subsidiado por D. Sebastião em 1576, uma grande horta 
e dentro d' ella, conta o padre Cardim com embevecimento, 
um alegre jardim fechado, com muitas hervas cheirosas, 
e duas ruas de pilares de tijolo com parreiras, gostosos 
maracujás, innumeras romãs, figueiras de Portugal, tantos 
melões que não havia exgottal-os, laranjeiras e legumes 
sem conto. Antes de edificado o collegio, tinham os padres 
levado à scena, em 1575, um auto intitulado Rico ava- 
rento e o Lazaro pobre, cujo eífeito conta-se ter sido tão 
suggestivo, que muitos homens abastados se despojaram 
dos seus bens (Pereira da Costa, Mosaico pernambucano). 
A peça entrava certamente no numero dos autos e tragi- 
comedias espectaculosas destinadas a ferir as imaginações, 
e cujo poder moral a Companhia ensaiara alguns annos 
antes em Coimbra. Eram portanto os jesuítas e os senhores 
de engenhos que davam fixidez áquella sociedade hetero- 
génea, a qual laboriosamente embolsava os seus ganhos, 
sem outros pensamentos que a agitassem, além de vagas 
chimeras provocadas pelas noticias do oiro , vindas 
do Sul. 

solo ia exercendo a sua acção despótica sobre os 
proprietários, gentishomens ou villãos enriquecidos, entre 
os quaes caloteiros de profissão e até criminosos por Ín- 
dole, typos merecedores da attenção de um Lombroso, que 
fugiam do reino. Foram ficando os que se viam prezos 
pelas fabricas em que traziam empenhados não pequenos 
capitães, pois que cada engenho prompto para o trabalho 
custava cerca de dez mil cruzados, e entregavam-se sem 
indolência à industria tão remuneradora do assucar. Grandes 
escravarias collocavam as cannas recoltadas entre os eixos 
que movia a roda, batida pela corrente ou girada por ani- 
maes; limpavam o summo nas caldeiras de cocção; faziam- 
n' o coalhar e criar corpo, e finalmente purgavam e bran- 
queavam o assucar em formas de barro. Fora do trabalho, 
regalavam-se os fazendeiros com banquetes, nos quaes a 
cozinha pátria já não podia blasonar de genuína pela in- 
filtração de temperos indígenas e introducção de novos e 
magníficos legumes, caças e pescados differentes que faziam 



39 

esquecer no gosto os da metrópole. A farinha de mandioca 
era excellentemente recebida, e juntamente com o arroz e 
o milho, cultivavam-se de preferencia ao trigo, centeio e 
cevada. Os saborosissimos fructos tropicaes, ricos de per- 
fume, opulentavam as sobremezas, e os vinhos e azeites 
nacionaes ensaiavam uma timida entrada. Por todas as 
formas se patenteava o esplendor sem igual d'uma natureza 
virgem, que fornecia liberalmente nas mattas e campos 
agrestes, onde chilreavam revoadas de pássaros lindíssimos 
e se abriam milhares de flores incomparáveis de viço: 
fortíssimas madeiras de construcção, fios próprios para 
serem tecidos, drogas das quaes muitas especiarias e paus 
de tinturaria, gommas, ceras e hervas medicinaes. 

A lembrança da mãi pátria resumbrava todavia a cada 
passo nas cerimonias do culto, que fortaleciam a fé rejuve- 
nescida pelas predicas insinuantes dos jesuítas; nas festas 
religiosas de respeitadas usanças; nos jogos e divertimentos 
peninsulares. O padre Cardim relata que no dia do caza- 
mento de uma olindense abastada, "se correram touros e 
jogaram cannas, pato e argolinha", dando assim largas a 
mocidade aos exercícios de equitação, que no reino andavam 
tão estimados. Dos palanques os applaudiriam as damas 
faceiras, tão senhoras e não muito devotas, de que falia o 
jesuíta; as faces avermelhadas com araribá na clausura 
dos gyneceus cheios de escravas, e cujas distracções ca- 
seiras consistiam, além das rezas e leituras em commum, 
na confecção de gulozeimas segundo receitas de Portugal, 
e na execução de pachorrentos bordados. Trajavam ellas 
com riqueza igual á da corte, e conversavam, cavalleiros 
e damas, com facilidade e cortezia elogiadas por Bento 
Teixeira Pinto, a ponto de escrever que os filhos de Lisboa 
iam aprender no Brazil "os bons termos com os quaes se 
faziam diíferentes na policia, que d'antes lhes faltava". 
Isto faz crer que o nosso poeta não guardava recordação 
agradável da rudeza lisboeta, sobretudo depois de ter tido, 
como é provável, occasião de comparal-a com a urbanidade 
dos fidalgos hespanhoes, educados na distincção da Casa 
d' Áustria. Vemos que a vida assumira em Pernambuco 
uma feição de inteira sociabilidade, característica d' esta 



40 

capitania, não lhe faltando sequer a paixão do jogo, muito 
espalhada entre os moradores, para dar á nova sociedade 
um ar de Velho Mundo. 



v 

Com o continuo augmento da producção e constante 
estimação do assucar, a riqueza de Pernambuco cresceu 
palpayelmeàte nos começos do século XVII, e com ella o 
luxo dos moradores e a distensão da moralidade. Amol- 
lecêra-se a enérgica direcção impressa por Duarte Coelho 
á sociedade que fundara: aos capitães-móres faltava pres- 
tigio para manter inquebrantável a tradição da auctoridade. 
Jorge de Albuquerque nunca mais cogitara da terra que 
fora theatro de suas primeiras façanhas, e seu filho Duarte, 
o quarto donatário, apezar dos vinte mil cruzados que lhe 
rendia o senhorio, dobro do que o pai recebia, deslustrara 
o seu nome tornando-se cúmplice de descaminhos de páu 
brazil, segundo revelou a syndicancia feita pelo honesto 
dezembargador Sebastião de Carvalho, adrede enviado do 
reino. A Coroa ia entrementes accentuando a sua ingerên- 
cia nos negócios da capitania, chegando Olinda a ser por 
vezes sede do governo geral, sob os pretextos de se acti- 
varem as expedições para o Norte, sempre infestado pelos 
francezes; melhorarem-se as fortificações por causa dos 
prenúncios de próximos ataques hollandezes; e acompa- 
nhar-se a syndicancia que denunciara graves abusos com- 
mettidos pelo elemento official. Os principaes burocratas 
contrabandeavam sem pejo em Pernambuco, defraudando 
a fazenda real com embarques clandestinos de páu brazil. 
Este género, fornecido quasi exclusivamente pelo Norte, 
andava contractado em toda a possessão por quarenta mil 
cruzados, não podendo os contractadores embarcar por 
anno mais de dez mil quintaes : o que não era mau nego- 
cio pois que', comprando elles cada quintal a sete e oito 
tostões, e mesmo mais, aos indivíduos que cortavam o páu 
pelas mattas e o traziam em carros de bois até onde esta- 
cionavam os bateis dos carregadores, vendiam-n' o no reino 



41 

por quatro e cinco mil reis, segundo a escassez ou abun- 
dância da droga. 

A progressão geral da criminalidade era de resto ta- 
manha, que a Relação installada na Bahia em 1609, com 
o fim de cercear as demasiadas attribuições do ouvidor 
geral, desfez-se por impotente contra ella, tendo apenas 
servido para multiplicar na colónia o numero das sangue- 
sugas do direito, que á metrópole sorviam o ultimo e so- 
rôso sangue, e complicar com formalidades jurídicas o an- 
damento de questões, que anteriormente se compunham 
pela simples intervenção de terceiros, ou eram dezembar- 
gadas pelos governadores. As próprias causas que agora 
iam por appellação á Bahia, explica o auctor dos Diálogos, 
melhor seria para os moradores que seguissem para o reino, 
não só pela maior frequência e facilidade, por causa das 
monções, das communicações entre a metrópole e as varias 
capitanias, do que d' estas entre si; como também porque 
as partes cobriam os gastos de seus processos com um 
caixão de assucar consignado a um parente ou amigo. Na 
Bahia, onde geralmente os colonos das outras terras não 
possuíam parentes nem conhecidos, sem fallar na necessi- 
dade de se homisiarem emquanto concorriam por cartas de 
seguro contra os mandados de prisão, forçoso se lhes tor- 
nava seguirem pessoalmente suas questões gastando boa 
somma na jornada e na acquisição de dinheiro de contado, 
que custava muito a ajuntar-se no Brazil. Tinham os co- 
lonos de compral-o aos peruleiros do Rio da Prata, os quaes 
em pequenas caravelas vinham permutar por géneros brazi- 
leiros, "somma grande de patacas de quatro e de oito 
reales, e assim prata lavrada e por lavrar, em pinhas e 
em postas, ouro em pó e em grão, e outro lavrado em ca- 
deias" (B. Teix ra Pinto, ob. cit.). 

As capitanias annexas de Itamaracá e Parahyba, com- 
mercialmente também prosperavam por uma forma notável, 
graças ao assucar fabricado pelo negro, que na lucta pelo 
desenvolvimento e no cruzamento vantajoso contra o clima, 
substituirá o indio, o qual desapparecia victimado por di- 
versas moléstias, algumas importadas, não possuindo bas- 
tantes condições physiologicas para resistir ao contacto da 



42 

raça mais forte dos invasores. A mortalidade entre os 
selvagens, cuja população d' antes se mantinha estacionaria, 
si não decrescia já pelas guerras continuas que os sepa- 
ravam, e pelos hábitos de vida que seguiam, foi enorme 
depois da occupação européa. Igualmente, dous terços das 
crianças portuguezas falleciam no período da adaptação 
colonial, e os pais foram apalpados pda ferra, na phrase 
expressiva do nosso conterrâneo tantas vezes invocado: 
quando porém Bento Teixeira Pinto compoz a sua ode á 
magnificência brazileira, era-lhe licito affirmar "serem estas 
terras mais sadias e de melhor temperamento que todas 
as demais". Southey, o historiador inglez que escreveu a 
mais documentada historia do Brazil depois da de Var- 
nhagen, citando os males dominantes, descriptos por Piso 
uns lustros depois do escriptor dos Diálogos — moléstias 
de fígado e de olhos, frequentes nos trópicos, apoplexias, 
febres intermittentes e ulceras, além de um grande alas- 
tramento da syphilis — , e em grande parte devidos á re- 
pugnância geral por toda prophylaxia, commenta que "não 
ha exemplo de terem os homens brancos soffrido tão pouco 
na sua naturaleza physica, transplantados além dos limites 
que lhes foram assignados, para a região mais formosa de 
toda a terra habitável". Com effeito, as colónias portu- 
guezas da America medraram sem excepção. A Parahyba, 
terreno de sertão mais montanhoso que o de Pernambuco, 
e quasi tão fértil no littoral pela muita humidade, com 
mais de setecentos moradores brancos e oito aldeamentos 
indios a cargo de frades, podia já chamar-se uma capitania 
importante. Em 1618 dava ella de rendimento nos dízimos 
doze mil cruzados, quasi todos do muito, fino e apurado 
assucar que produzia, capaz de carregar vinte naus, e que 
era vendido em Pernambuco, onde os moradores parahyba- 
nos se proviam do necessário. O morgadio de Itamaracá, 
com gente rica nos seus dez engenhos e cinco grandes 
missões jesuíticas, uma das quaes de cinco mil frecheiros, 
segundo a estatística do sargento-mór Diogo de Campos, 
auctor da Razão do Estado do Brazil, era dobrada fonte de 
receita, para o soberano e para o donatário: junto com a 
Parahyba armava seiscentos arcabuzeiros. Rio Grande 



43 

pouco podia ainda com seus oitenta colonos; comtudo 
criava-se gado nas suas pastagens, fabricava- se assucar 
em um engenho de Jeronymo de Albuquerque, e extrahia-se 
muito sal das salinas de Guamaré. Ceará e Maranhão foram 
agora colonizados. 

A occupação do Ceará data do governo de D. Diogo 
de Menezes e realizou-a, depois da viagem de exploração 
de Diogo de Campos, o sobrinho d' este, Martim Soares 
Moreno, com a ajuda de um chefe petiguar irmão do Ca- 
marão, que, mudando-se com sua gente, desbaratou os ine- 
vitáveis francezes. O Ceará tinha como riquezas naturaes 
"páu violete, sal, e âmbar do melhor, branco e gris, que 
se vendia por 4 # 000 reis e mais a onça" (Jaboatam, Chro- 
nica, e B. Teix. ra Pinto, ob. cit.), mas era terra em geral 
menos fértil, e por este facto pouco povoada do gentio. 
Todavia duas expedições recentes se haviam lá gorado. 
Uma, organizada em 1603 por Pêro Coelho, morador da 
Parahyba, e ajudada pelo governador geral Diogo Botelho, 
assistente em Pernambuco, batêra-se valentemente contra 
os indios e francezes, e estivera prestes a passar ao Ma- 
ranhão depois de levantado um forte; mas como tardassem 
os novos auxílios pernambucanos, pessoalmente reclamados 
na Parahyba pelo chefe da expedição e distrahidos no ca- 
minho pelo commandante Soromenho, entretido em caçar 
indios, os companheiros de Pêro Coelho abandonaram-n' o, 
voltando para o Rio Grande (1605). O infeliz capitão-mór 
do Ceará, compellido a breve trecho a seguil-os com sua 
família, morreu da funda impressão moral que lhe causara 
o mallogro da expedição, das torturas da fome e sede, do 
cançaço das marchas sob o sol tropical e das difficuldades 
do caminho. A segunda expedição, igualmente reforçada 
com gente de Pernambuco por ordem do capitão-mór 
Alexandre de Moura, fora tentada em 1607 por dois jesuí- 
tas, ao terem noticias da excellencia da serra de Ibiapaba, 
e também se frustrara, sendo martyrizado um dos padres, 
e fugindo o outro, que era o celebre grammatico Luiz 
Figueira. 

O Maranhão, conquistou-o Jeronymo de Albuquerque 
aos francezes do senhor de La Ravardière, bravo huguenote 



44 

a quem o recemcatholico Henrique IV doara em 1605 uma 
colónia ao sul do equinoxio, in partibus infiãelium. A 
França, como temos visto, preoccupava-se então muito com 
o Brazil: Ferdinand Denis, no prologo da sua edição da 
obra do padre Yves d'Evreux sobre o Maranhão, lembra 
mesmo a excitação litteraria que os nossos selvagens des- 
pertaram nas margens do Sena. Os grandes Ronsard e 
Malherbe tiveram ao vêl-os, uns fortes assomos de natura- 
lismo precursores de Rousseau, supplicando ambos em suas 
poesias que não se maculasse a feliz innocencia d' esse 

peuple ineognu 
D'habits tout aussi nud, qu'il est nud de malice, 

lis vivent maintenant en leur age doré. 

O movimento de sympathia pelos indios e pelas es- 
plendidas terras de Véra-Cruz foi tão poderoso que, ajunta 
o erudito bibliographo francez, os poetas juravam que so- 
mente n' uma fonte tão vivificante poderia rejuvenescer por 
meio de comparações novas um estro que se estancava. 
A colónia tão facilmente cedida pelo primeiro Bourbon em 
territórios que lhe não pertenciam, tinha-se estabelecido 
sete annos depois da dadiva, graças aos esforços de dois 
catholicos associados a La Ravardière na empreza, o al- 
mirante Razilly e o financeiro de Harlay. Em paz com o 
gentio, que era dirigido por intelligentes capuchinhos, dos 
quaes os excellentes escriptores Claude d'Abbeville e Yves 
d'Evreux, entravam os moradores a cultivar a terra, quando 
os portuguezes, recebendo noticia do perigo, armaram em 
Pernambuco duas expedições. A primeira, dê exploração, 
lançou na bahia das Tartarugas as bases da povoação do 
Rosário, que resistiu aos ataques dos contrários; a outra, 
adeantando-se para o norte, foi vivamente assaltada pelos 
francezes, reforçados com a gente de de Pratz, chegado 
da Europa. Jeronymo, tendo por adjuncto a Diogo de 
Campos, repelliu-os vigorosamente em um combate traçado 
com habilidade e levado a cabo com vontade. Estipula- 
ram-se logo tréguas de um anno, as quaes porém não vie- 
ram a ser por inteiro respeitadas, pelas chegadas, de tropas 
sob o commando do capitão-mór de Pernambuco Alexandre 



45 

de Moura, e pouco depois, de Diogo de Campos e Martim 
Soares Moreno, portadores de um novo e grande soccorro. 
La Ravardière viu-se obrigado a entregar o forte de São 
Luiz, e apezar da promessa de serem garantidas as pes- 
soas e bens dos francezes, constituiram-n' o prisioneiro 
(1615), sendo como tal levado para Pernambuco, e depois 
para Lisboa, onde permaneceu trez annos. Do Maranhão 
ordenou Alexandre de Moura uma outra expedição mais ao 
norte, ao Pará, encarregando-a a Francisco Caldeira de 
Castello Branco, que fundou em 1616 o forte de Belém, 
sendo em seguida, com auxílios de Jeronymo de Albuquer- 
que Maranhão e outros vindos de Lisboa, expulsos da nas- 
cente capitania amazonica, hollandezes que alli tinham feito 
plantações. 

Não eram estes novos inimigos menos para temer do 
que os francezes. Impellidos para o mar pela sua situação 
geographica e pelas necessidades do seu commercio, pa- 
ralysado depois da revolta protestante contra o domínio 
de Filippe II, senhor de Portugal e colónias e que lhes 
havia* fechado os portos frequentados por seus navios, os 
hollandezes percorriam o mar em busca de navios hespa- 
nhoes, facilmente capturados pelas embarcações ligeiras e 
bem guarnecidas, que sahiam dos estaleiros batavos. Var- 
nhagen conta vinte e oito navios da carreira do Brazil 
tomados por ellas durante o anno de 1616, e setenta no 
decorrer de 1623. Crescia a fortuna hollandeza, e simul- 
taneamente a sua audácia. Vencedores, como foram du- 
rante oitenta annos, dos aguerridos terços catholicos de 
Flandres; navegando victoriosos no Oriente onde, expulsos 
os árabes e venezianos, mandavam exclusivamente os por- 
tuguezes: era natural que os filhos do Mar do Norte tam- 
bém procurassem extender á America o seu império marí- 
timo, sobre que firmavam a preponderância commercial, 
objectivo de toda a expansão neerlandeza. A transbordante 
fé religiosa que acompanhava os peninsulares nas expedi- 
ções longínquas, na pessoa dos missionários apaixonados, 
murchara com o sopro austero do livre exame, entusias- 
ticamente abraçado pelas Províncias Unidas. Não se ar- 
mavam no frio e alagado inferno do padre António Vieira, 



46 

expedições em nome de Christo e para a propagação da 
sua doutrina de paz. Era outro o ideal sonhado e procla- 
mado por Amsterdam, cidade para a qual tinham emigrado 
muitos dos mercadores de Antuérpia, expostos depois do 
faustoso e indulgente dominio da Casa de Borgonha á in- 
tolerância politica e religiosa de Filippe II, rei que na 
Hespanha não trepidava em prender os commerciantes ex- 
trangeiros, confiscar-lhes as mercadorias e entregal-os á 
Inquisição, sua dócil collaboradora. que Amsterdam 
pretendia, era encher os seus armazéns das pedras preciosas, 
dos assucares e outros géneros coloniaes com que Portugal 
suppria as lojas de Bruges ç de Gand, das sedas, brocados 
de oiro e chamalotes da Itália, das lãs da Hespanha, dos 
pannos e estofos da Inglaterra. Antuérpia, a opulenta, que 
guerreava soberanos; a cosmopolita, que encerrava mil 
casas de negocio dirigidas por extrangeiros; Antuérpia, o 
maior entreposto do commercio europeu: eis o modelo que 
procurava ambiciosamente attingir a revoltada burguezia 
bátava, activa e industriosa. As duas companhias, das 
índias Orientaes e Occidentaes, pondo em acção o admirá- 
vel espirito de associação que ainda hoje encontra-se na 
Hollanda, obedeceram exactamente á idéa mercantil, na 
formula exclusivista do momento histórico. As colónias 
portuguezas, bruscamente arrancada a metrópole á velha 
neutralidade, viram-se de súbito duplamente expostas aos 
ataques dos novos navegadores, não menos ousados do que 
os cantados por Camões; já pelo seu valor e prosperidade, 
já por representarem as suas occupações, outros tantos 
golpes dados no orgulho dos Filippes e no poderio da 
Hespanha. 



vi 

A revolta hollandeza não podia ser suffocada, pois que 
a animava o protesto igualmente caloroso da bolsa e do 
espirito. Dizem auctores allemães que na evolução histórica, 
a Reforma, embora nós, latinos, a apodemos de gerada pelo 
amor próprio ferido e pela cobiça dos bens do opulento 



47 

clero catholico, secularisados pelos protestantes, representa 
um passo enorme. Nada menos do que a dissolução do 
velho feudalismo pela alliança, sob a impetuosa propaganda 
de Luthero, dos pequenos soberanos com as cidades, contra 
a politica de absorpção imperial e a cúpida hierarchia re- 
ligiosa; a consequente libertação do poder profano das 
peias do poder ecclesiastico ; e o necessário desenvolvi- 
mento dos estados independentes e da burguezia, a qual 
depois veio por seu lado a emancipar-se dos reis, que an- 
davam intimamente ligados com os padres e os fidalgos. 
Estas asserções são porém incompletamente exactas, espe- 
cialmente si sahirmos do campo da historia allemã. Nos 
Paizes Baixos foram os nobres, altos dignitários da Egreja, 
os iniciadores da rebellião protestante, e no Occidente la- 
tino foi a realeza unitária e catholica, apoiada no povo 
como os príncipes que na Germânia guerreavam o Império, 
quem conscientemente extinguio o feudalismo, dando in- 
cremento á classe media, a qual em 1789 realmente rea- 
lizou a grande revolução, franceza de origem, republicana 
em politica, racionalista em philosophia e deista em reli- 
gião. Foi ainda a realeza quem collocou o clero sob a 
total dependência da Coroa; obra iniciada em Hespanha 
pelos reis catholicos Fernando e Izabel, e activamente ulti- 
mada por Filippe II, servindo-se para este fim da Inquisi- 
ção como arma politica e financeira manejada contra os 
tribunaes ecclesiasticos, não respeitando mesmo as immuni- 
dades dos sacerdotes e rindo-se das excommunhões de 
Roma. Um dos mais conscienciosos biographos de Fi- 
lippe II, o francez Forneron, chega a dizer que elle foi na 
Hespanha tão chefe espiritual como o anafado Henrique VIII 
na Inglaterra, impedindo a publicação de bulias pontificaes, 
nomeando prelados e até reformando o ritual da Egreja. 
Árido como resultado politico geral, o movimento da 
Reforma foi moralmente fecundo para o grupo ethnico de 
que era a expressão; comquanto nascido de uma mera des- 
avença de sacristia, despido de aspirações democráticas e 
de sentimentos humanitários, e tendo por corypheus um 
Luthero, egresso supersticioso e aphrodisiaco e um Hen- 
rique Tudor, rei fanático, immoral e auctoritario, com uma 



48 

sequella de "frades refractários, clérigos esfomeados e prín- 
cipes licenciosos" (Forneron, Hist. de Felipe II). O pro- 
testantismo conservou-se sempre extranho ás reformas so- 
ciaes, repudiando o próprio Luthero, espirito estreito e 
theologo conservador, a revolta dos lavradores allemães 
contra os senhores feudaes: mas em seu desenvolvimento 
puramente religioso, soltou o independente espirito germâ- 
nico dos liames da instituição catholica, e deu-lhe como 
campo de actividade o lado interno, a concepção mais re- 
servada, mais intima do christianismo, fundada na liberdade 
do pensamento. Esta liberdade, porém, não chegou ao 
ponto de só por si determinar uma nova era scientifica. 
Si a Inglaterra e a Allemanha reformadas ufanam -se de 
um Newton e de um Leibnitz; a Itália catholica orgulha- 
se de um Galileo e de um Colombo, a França de um 
Descartes e de um Pascal. Uns e outros são filhos, 
não de mesquinhas scisões ecclesiasticas , mas sim da 
verdadeira Reforma, da Renascença, que fecundou um 
período de pujança experimental, philosophica, litteraria 
e artística. No mundo catholico a auctoridade reagiu em 
nome da crença contra a reforma religiosa, affirmando-se 
Roma com violência. Por paladinos armou os inteligen- 
tíssimos jesuítas, porém o scepticismo amável que fora 
concebido na resurreição das lettras clássicas, mais pro- 
gressivo do que o protestantismo, e mais forte do que a 
resistência catholica, dissolveu com sangue, lagrimas e 
risos, a intransigência religiosa e o despotismo monarchico. 
Para o applauso tributado á campanha contra o trafico 
das indulgências, annunciado por frades cuja riqueza ou 
ignorância os votava á inveja ou ao sarcasmo, entravam 
vários estimulantes. Além da vaga e finalmente ludibriada 
reclamação popular de liberdade civil, a qual os prelados- 
principes não eram aliás dos últimos a desdenhar, conta- 
vam-se velleidades de independência da nobreza, sujeita 
na Allemanha aos suzeranos locaes e ao Imperador, e mais 
tarde disposta em França a fazer surgir da divisão hugue- 
note o fraccionamento do paiz, convertido em uma federa- 
ção aristocrática; e o cançaço testemunhado pelos monar- 
chas do jugo a que os acurvara a Egreja desde o indo- 



49 

mavel Gregório VII, e de que elles anteviam desforrar-se 
ruidosamente, avocando a jurisdicção ecclesiastica. re- 
pugnante Henrique VIII, esse obrou por libertinagem, cruel- 
dade e pirataria. Carlos V mesmo, que iniciou a lucta com 
o protestantismo antes d' este movimento fervilhar na Itália, 
agitar-se freneticamente em França e ameaçar a Hespanha, 
não acompanhou a Cúria por puro zelo religioso. Politico 
cosmopolita no desapego affectado pela Hespanha, pela 
Itália, pela Áustria, pelos Paizes Baixos, por qualquer das 
porções do seu extensíssimo império, differente n' isto do 
filho, Filippe II, que sempre conservou-se ferrenho caste- 
lhano, o famoso soberano contrariou a Reforma pelo triplo 
receio de ver o Papado intimamente alliado á França, de 
alienar da sua dynastia o enérgico sentimento catholico 
d' além Pyreneus, e de desmanchar a já frouxa organização 
germânica, favoneando o particularismo mediante a indisci- 
plina religiosa. 

Na Hollanda, o movimento protestante foi todo cal- 
vinista. Os nobres que se revolucionaram contra a terrível 
Inquisição que pretendia destruir com o fogo a liberdade 
espiritual, provinham da escola de Genebra, nascida na 
democrática Suissa, onde Zwinglio pregara uma Reforma 
mais liberal que a de Luthero, e onde com Calvino, o 
protestantismo "despira-se do seu caracter de interpretação 
erudita dos textos sagrados, para elevar-se a preoccupações 
moraes que se fundiram na austeridade. O calvinismo 
adaptava-se maravilhosamente á energia sombria do povo 
hollandez, á sua obstinação criada na lucta eterna contra 
o mar, á sua independência, ao seu gosto pela poesia 
bíblica que faz de cada chefe de família um patriarcha" 
(Almirante Jurien de la Gravière, Les Gueux de mer). O 
caracter do lutheranismo , de propaganda contra o depra- 
vado e corrupto clero catholico, perpetuou -se todavia na 
nova phase do protestantismo, e Marnix de Sainte-Aldegonde, 
o grande instigador da revolução neerlandeza, não des- 
denhou a sátira como uma das armas poderosas contra 
Roma dominadora e o sinistro tribunal fradesco, que in- 
vocava o doce nome de Jesus para justificar a sua repug- 
nante ferocidade. Das chambres de rftétorique, academias 

Lima, Pernambuco. 4 



50 

de aldeia espalhadas por toda Flandres, sahiram innumeras 
canções turbulentas, que n' um tom picaresco sympathico 
á plebe, insensivel ao fino sabor litterario das criticas 
picantes engendradas ao calor do humanismo da Renascença, 
verberavam as tyrannias hespanholas e os escândalos ro- 
manos. A ironia completava nos espíritos a propaganda 
enorme, que sob todas as faces pregava a necessidade da 
independência da Hollanda. 

O perspicaz ministro de Margarida de Parma, regente 
dos Paizes Baixos, o celebre cardeal Granvelle, percebeu 
o perigo, e pugnou pelas concessões, obtendo até a reti- 
rada das tropas hespanholas, cuja permanência offendia o 
brio nacional; mas, aguilhoado pelo respeito á Inquisição, 
que não perdoava tibiezas, tentou a perseguição religiosa, 
prurido ao qual nem Carlos V pudera fugir, e que antes 
o incitara a bárbaros tratamentos. O imperador era em 
todo o caso respeitador dos privilégios politicos de Flan- 
dres, oíide elle encontrava o melhor dos seus rendimentos 
em impostos e contribuições de guerra; fonte que seu filho 
devia exhaurir pela ruina da industria local sob o pezo 
dos loucos impostos lançados pelo duque d' Alba, e pela 
espoliação vergonhosa das abbadias e mosteiros. Gran- 
velle teve afinal de fugir deante da ciumenta nobreza 
amotinada, a qual andava descontente desde que Filippe II 
reinava, pelo seu afastamento do poder, a que Carlos V 
a habituara em detrimento mesmo dos fidalgos hespanhoes; 
e que tinha demais perdido, por bulia de Paulo IV, de 
1559, impetrada pelo monarcha castelhano, o direito ás 
dignidades ecclesiasticas reservadas desde então aos dou- 
tores em theologia. Obstinando -se Filippe II, a quem o 
ideal da centralização politica e religiosa cegara, em não 
reconhecer a liberdade de consciência, a opposição exten- 
deu-se ás outras classes sociaes, e recrudescendo ao seu 
contacto, chegou em 1566 ás violações de templos e orgias 
da populaça. Com o fim de pôr um freio á anarchia, foi 
enviado no anno immediato o famoso general duque d' Alba, 
catholico fanático que compenetrado da missão divina, de 
velar pela fé, confiada ao seu rei, quiz afogar em sangue 
a heresia. A morte dos condes de Horn e de Egmont deu 



51 

o signal da lucta sanguinolenta, que durante ura século 
quasi, dilacerou a riquíssima Flandres. Guilherme de 
Nassau o Taciturno, príncipe de Orange, collocou-se á 
frente da sua plebe querida, "dos gueux de bois que po- 
voavam as florestas pantanosas das províncias bátavas, e 
dos gueux de mer, piratas que se aninhavam como águias 
nas anfractuosidades d' essa costa tão recortada" (Alm. 
Jurien de la Gravière, ob. cit.), para defender as liberdades 
hollandezas, sobretudo a liberdade politica. Por ellas se 
mediu o stathouder com os mais illustres capitães de 
Filippe II, o monarcha mais poderoso da Europa, e quando 
expirou em 1584, ferido pelo punhal traiçoeiramente armado 
senão pelo solitário do Escurial ao menos pelas suas máxi- 
mas politicas, a Hollanda era uma realidade promettedora, 
e a Hespanha via despontar a sua decadência. Os milhões 
despendidos a esmo; a conhecida valentia dos terços da 
infanteria hespanhola; o prestigio do duque d' Alba, de 
D. João d' Áustria, de Alexandre Farnesio, esbarraram 
ante a altivez d' esse povo singular, que nos séculos XVII 
e XVIII chegaria a oppôr-se triumphante ás esquadras da 
Inglaterra, potencia que depois da destruição da Invencível 
Armada, dia a dia affirmava com maior intensidade a sua 
preponderância marítima. 

Filippe Hl, que subiu ao throno em 1598 apóz a hor- 
rível agonia paterna, dominado pelo seu faustoso favorito, 
o duque de Lerma, e sentindo pouca inclinação pela guerra, 
proseguio a pérfida, intrigante e hábil politica de Filippe II, 
semeando a pezo de oiro, distúrbios nas nações adversas. 
No seu fervor religioso porém, arruinou de todo a Hes- 
panha, já quasi exgottada pelas monstruosas despezas 
militares, com a inepta expulsão dos moiros: perto de um 
milhão de súbditos pacíficos, instruídos e prolíficos, agri- 
cultores eméritos, industriaes activos e commerciantes 
previdentes. O apoio concedido aos hollandezes por Izabel 
de Inglaterra, a rancorosa inimiga da Hespanha, e por 
Henrique IV, a quem Filippe n, auxiliando os Guise, em- 
baraçara a subida ao throno, agitando a França com o 
espectro catholico e demagógico da Liga, provocadora de 
desapiedadas paixões populares, tinha animado a revolta 

4* 



50 

de aldeia espalhadas por toda Flandres, sahiram innumeras 
canhões turbulentas, que n um tom picaresco sympathico 
á plebe, insensível ao fino sabor litterario das criticas 
picantes engendradas ao calor do humanismo da Renascença, 
verberavam as tyrannias hespanholas e os escândalos ro- 
manos. A ironia completava nos espíritos a propaganda 
enorme, que sob todas as faces pregava a necessidade da 
independência da Hollanda. 

O perspicaz ministro de Margarida de Parma, regente 
dos Paizes Baixos, o celebre cardeal Granvelle, percebeu 
o perigo, e pugnou pelas concessões, obtendo até a reti- 
rada das tropas hespanholas, cuja permanência offendja o 
brio nacional; mas, aguilhoado pelo respeito á Inquisição, 
que não perdoava tibiezas, tentou a perseguição religiosa, 
prurido ao qual nem Carlos V pudera fugir, e que antes 
o incitara a bárbaros tratamentos. O imperador era em 
todo o caso respeitador dos privilégios politicos de Flan- 
dres, onde elle encontrava o melhor dos seus rendimentos 
em impostos e contribuições de guerra; fonte que seu filho 
devia exhaurir pela ruina da industria local sob o pezo 
dos loucos impostos lançados pelo duque d' Alba, e pela 
espoliação vergonhosa das abbadias e mosteiros. Gran- 
velle teve afinal de fugir deante da ciumenta nobreza 
amotinada, a qual andava descontente desde que Filippefl 
reinava, pelo seu afastamento do poder, a que Carlos V 
a habituara em detrimento mesmo dos fidalgos hespaahflGlí 
e que tinha demais perdido, por bulia de Paulo *** ** 
1559, impetrada pelo monarcha castelhano, o 
dignidades ecclesiasticas reservadas d&sdft fmjflfa ft 
tores em theologia. Obstinan 
ideal da centralizaç 
reconhecer 
deu 



IV, 



•■*->.>*: 



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voavam a* fiurt^ia- uanuncnaiE das província- *>:• 
dos owcíij <íí nf-. »nu"jii i^ se aninhav»n <•■■' 
nas anfninu<ríiusu~ c e-sa costa tão twotth 
Jurie-n de la bravi-r^ ui.. cu.), para dileim- - ;i- 
boliaiiuezaé. ><olimaa'. a liberdade pnliiii-í. ! 
mediu e statiiouuer com os mais íIiihp-- 
Filijijf H. v nioiiar-;iia mais poderoso n^ l ■* ■ 
expirou em 1>^. ferido pelo punhal tmi ••«■■■- ■ 
senão j*e}o eoiiiam doEscurial «c m>""~ •■ 
mas jxcdcíh--. a Bullanda era uma mum 
e a H*sí*lLií -via despontar a sua n«\ 
despe&iCi» * «aw: a conheoid;. v,.«- 
iiifariin-rui ip^janiLoIa; o prostun- 

D. J<ú&!>> <£ ÍihCTH, (J e .^..auifl. . - 

anie a ;uh-M»E tf' t^ge povn shunt;. 
e XVH3 íiutawriaa oppur-9c rn:;- 
IngtMruncu. 5>(ii«Dcia que deim:- 
Ann*£n_ dia a dia aifirmav,. .-. 
prepoo»4*neaeía maritime. 

Kilipp* m, que sahu: i. - 
rivel agonia paterna, âmau, 
o duque de Lerma, esennr 
proseguío a pérfida, nmmr 
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i anno em 
ii ajustada 
commercio 
das índias 
;a escala as 



cargas, que 
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• iissociações 



52 

das Províncias Unidas. Quando modificou -se a primeira 
alliança pela accessão á coroa ingleza do pacifico James 
Stuart e pelo subsequente tratado com a Hespanha, e a 
segunda por um convénio firmado entre Filippe IH e o 
Bearnez, o cançaço da lucta obrigou os hespanhoes a uma 
trégua de doze annos com os batavos, que foi o inicio do 
reconhecimento politico da Hollanda. Negociou-a o advo- 
gado da nação Barneveldt, o qual, para acautelar o seu 
paiz de ambiciosas e menos honestas pretenções extran- 
geiras, fizera dar a Maurício de Nassau, filho de Guilherme, 
o titulo de stathouder, do que elle aliás se tornara bem 
digno nos campos de batalha. 

A trégua, que foi de grandes e profícuos resultados, 
acabou por satisfazer, apezar das primeiras divergências, 
tanto aos que propendiam para a guerra, calvinistas fer- 
renhos e negociantes cobiçosos, não obstando à marcha 
ovante da marinha hollandeza nos mares assenhoreados 
pelos portuguezes; como aos que se inclinavam para a 
paz, que facilitaria o progresso interno e permittiria aos 
gloriosos maltrapilhos refazerem -se das fadigas de uma 
longa serie de cercos e de combates. A suspensão das 
hostilidades trouxe ainda a affirmação da unidade politica 
neerlandeza, contraria aos sentimentos particularistas que 
tinham sido base da gestação da nova nacionalidade eu- 
ropéa, mas necessária deante das aggressões do inimigo. 
Esta lucta entre a centralização e o federalismo originou-se 
em uma controvérsia theologica sobre a liberdade de 
consciência. Digladiavam-se os arminiistas e os gomaristas, 
sustentados os primeiros pelos Estados Provinciaes e pela 
burguezia, e os segundos pelos Estados Geraes e pelo povo, 
acerca do que mais poderia convir ao desenvolvimento 
social da Hollanda, si a máxima franqueza na interpretação 
dos textos sacros, si a inamovibilidade da fé fixada por 
um synodo nacional, isto é, o individualismo na crença 
ou o auctoritarismo religioso. O novo stathouder, como 
seu pai o Taciturno, um tanto sceptico em assumptos di- 
vinos, soldado de pulso rijo e coração terno, em quem o 
zelo reformista não chegava para fazei -o experimentar 
calafrios perante o semi-paganismo da Renascença, lançou 



53 

na balança a sua espada victoriosa, quando farejou que a 
querella metaphysica podia degenerar no rompimento do 
pacto de Utrecht. Tomando precipitadamente o partido 
dos calvinistas intransigentes contra os conselhos muni- 
cipaes oppostos ao synodo nacional, elle estabeleceu mili- 
tarmente, sem respeitos inúteis pela legalidade, a supre- 
macia do poder central estribado na religião do Estado, 
una, verdadeira e intangível. O seu eminente antagonista 
Barneveldt, comquanto quasi decrépito, foi prezo e de- 
capitado, e o sábio Grotius e o austero Hoogerbeets, pen- 
sionarios de Rotterdam e de Leyde, deveram, um á evasão 
e o outro ao suicídio o escaparem á ignominia do patíbulo 
(1616 — 18). federalismo não expirou comtudo com os 
patriotas de então, nem mesmo depois, quando a plebe 
açulada pela gente da corte dos Orange, esquartejou os 
corpos dos irmãos Witt, honrados e convictos republicanos, 
e d' estes membros ensanguentados fez a escada pela qual 
subiu ao throno a dynastia dos stathouders. O povo, 
nota intelligentemente um escriptor portuguez em um bello 
livro descriptivo, ao tratar desenvolvidamente d' estes in- 
cidentes, continuou no cumprimento da sua missão histórica, 
a ser o pêndulo regulador das tendências militares e uni- 
taristas do throno em opposição ás preferencias descen- 
tralizadoras e oligarchicas da plutocracia (Ramalho Ortigão, 
A Hollanda). 

Da continuação durante a trégua, da guerra ultra- 
marina por falta de uma clausula prohibitiva na redacção 
do armistício, e dos excellentes resultados das expedições 
ás índias Orientaes, nasceu em 1621, no próprio anno em 
que expiravam Filippe III e a trégua por elle ajustada 
com Maurício de Nassau, a qual permittia o commercio 
hollandez nos portos portuguezes, a Companhia das índias 
Occidentaes, destinada a extender n' uma larga escala as 
navegações bátavas, apossando -se de algumas possessões 
hespanholas, e aprezando o maior numero de cargas, que 
com destino á Península atravessassem o oceano. Esta 
poderosa empreza, brotada da fusão de pequenas associações 
do fim do século XVI, formou-se com um capital que em 
pouco tempo se elevou a dezoito milhões de florins. Abran- 



54 

gia na sua esphera commercial a Africa e a America; dis- 
punha de poderes magestaticos de paz e guerra; e recebia 
do estado, ao qual os seus delegados prestavam juramento 
de fidelidade e obediência, a mais decidida protecção, na 
forma de um avultado subsidio pecuniário para as primeiras 
operações, e de soldados por ella assalariados, além de 
navios de combate que fortalecessem a sua esquadra mer- 
cante. A administração da Companhia, que alternadamente 
residia em Amsterdam e Middelburgo, cabia a um conselho 
de XIX deputados, dezoito das cinco secções na respectiva 
proporção de interesses, e um, representante dos Estados 
Geraes. 

Emquanto tão gigantesca associação, que chegou a 
possuir oitocentos navios e a dividir fortunas pelos seus 
accionistas, discutia e elaborava os seus regulamentos, 
herdava a coroa de Hespanha o monarcha artista e litterato, 
amigo de folgares, que durante meio século assistiu á ruina 
da grandeza peninsular e presidiu, em Mecenas coroado, 
á pujança admirável da arte e das lettras hespanholas. 
Filippe IV não havia luctado como seu pai, com a fadiga 
das longas guerras em que andava envolvida a Hespanha, 
nem com a pobreza cruciante do erário, a qual todavia 
no seu reinado attingiria inacreditáveis proporções, pois 
que a expulsão dos moiros acabara de estancar as depau- 
peradas receitas nacionaes e gerava crises de miséria e 
fome, aggravadas pelas exigências do fisco. Quiz o novo 
soberano ensaiar obra nova: instigado por conselheiros 
aterrorizados, propoz-se suspender o voo audacioso dos 
hollandezes, que, excluídos do commercio peninsular, cru- 
zavam os mares quasi desertos d' além da Taprobana, que- 
brando o monopólio dos mercadores de Sevilha e Lisboa. 
Os talentos militares de Spínola, essa fina figura de geno- 
vez que o pincel de Velasquez nos conservou com toda a 
sua suprema distincção de raça, proporcionaram á Hes- 
panha alguns, ephemeros, triumphos nos Paizes Baixos, 
mas as pobres colónias portuguezas iam amplamente des- 
forrar o inimigo das perdas que soffrêra. Hollandezes que 
na Bahia tinham vivido como prisioneiros, capturados em 
refregas navaes, de regresso á pátria narravam o abandono 



55 

do Brazil, desguarnecido de tropas e munições, desdenhado 
pela nova metrópole, que a um tempo receava com 
Filippe II multiplicar o numero dos portuguezes armados, 
e, exhausta de seiva, cuidava em parar golpes de dez 
inimigos, e acudir a cem pontos ameaçados do seu im- 
menso território. 

Attribuem alguns o rompimento da trégua dos doze 
annos ao condeduque de Olivares, ministro omnipotente de 
Filippe IV, e uma das figuras históricas mais calumniadas. 
Uma relação publicada como da penna de um embaixador 
veneziano em Madrid, e que apezar dos encómios tribu- 
tados ao engenho, erudição e experiência de governo do 
condeduque, encerra uma cruel diatribe contra a sua pessoa, 
assegura que Olivares, ao tomar aquella resolução violenta 
dictada por escrúpulos religiosos, fora de encontro ao 
parecer formulado no Conselho de Estado por D. Balthazar 
de Zuniga e pelo velho conde de Chinchon, e contrariara 
a politica ultimamente seguida pelo duque de Lerma, o 
qual chegara a opinar pela restituição do Palatinado, o 
que traria á Hespanha os auxílios dos protestantes allemães 
e do rei de Inglaterra, sogro do eleitor palatino. Seria 
mesmo esta cessão a condição do casamento gorado do 
príncipe de Galles, depois Carlos I, com uma infanta de 
Hespanha. O eminente historiador e estadista hespanhol 
Cánovas dei Castillo, nos seus Estúdios dei reinado de 
Felipe IV, contesta semelhante versão, julgando apocry- 
phos os citados pareceres do Conselho de Estado, e pen- 
sando mesmo que se deve a D. Balthazar de Zuniga o 
rompimento da trégua; ainda que era quasi impossível 
prolongal-a, querendo a Hollanda, arrogante das suas vic- 
torias, tratai -a como potencia independente, e não ad- 
mittindo a altivez castelhana reconhecer essa desmembração 
do seu poderio. O cardeal infante, desde que chegara a 
Flandres, e sobretudo depois de reabertas as hostilidades 
com a França, empenhada na sua lucta memorável contra 
a Casa d' Áustria, não deixara de pensar n' um novo ar- 
mistício, e Olivares "reconoció en su correspondência con 
él que era este el negocio de los negócios, si se podría 
hacer, entrando el Brasil, para que no quedasen como 



56 

antes agraviados los portugueses" (Cánovas dei Castillo, 
ob. cit.). Intelligente como era, o condeduque não podia 
deixar de ver que, não só a trégua era necessária, como 
da mais alta conveniência para a Hespanha a alliança da 
Hollanda, afim de conservar o resto dos Paizes Baixos e 
suster o Ímpeto da França, dividinda-o pelas fronteiras 
dos Pyreneus, dos Alpes e de Flandres. As circumstancias 
foram porém mais fortes do que todos os cálculos politicos, 
e infeliz, a memoria de Olivares verga hoje sob o pezo 
de uma geral maldicção, como elle próprio cahiu em vida 
debaixo de accusações miseráveis. 

povo, que detestava-o pelos repetidos lançamentos de 
impostos, motivados pelas excessivas despezas militares, nem 
do labéo de feiticeiro se esqueceu de estigmatizal-o. A longa 
privança real de vinte e dois annos, que elle desfructou em 
toda a confiança, foi explicada pela sua influencia sobrenatural 
sobre o monarcha, pois que dizia-se que mantinha relações 
com judeus e nigromantes, lia o Alcorão e recorria a meios 
mágicos e a bruxarias vulgares. Taes accusações possuíam 
tanto maior alcance quanto por esse tempo as sciencias 
occultas encontravam grande acceitação, dispondo de fer- 
vorosos adeptos, e de convictos sectários as mais extra- 
vagantes doutrinas naturaes e philosophicas emittidas pelos 
cultores da magia. Podem considerar -se como os únicos 
benefícios da Inquisição, a qual posteriormente na Penín- 
sula Ibérica tornou -se sobretudo uma instituição politica 
dirigida pela realeza na defeza da reacção absolutista: o 
haver mantido, ninguém ignora com quanta violência, a 
tradição scientifica contra os desvarios da cabala, da 
mesma forma que erradamente a defendeu contra as in- 
novações do pensamento; e o ter preservado o organismo 
catholico limpo das seitas heréticas, muitas sangrentas, 
algumas obscenas, que desde os primeiros séculos da 
Egreja n' elle se enxertaram, e que suífocariam certamente 
a f é e a universalidade da religião christã debaixo dos in- 
titulados e singulares commentarios á revelação, a não 
dar-se o soturno auctoritarismo do Santo Officio. Convém 
notar que semelhante intransigência foi desbragadamente 
condemnada pela Reforma, quando pretendeu encarnar a 



57 

aspiração moralizadora de toda a christandade, escanda- 
lizada da corrupção e mundanidade alardeadas pela Egreja 
apóz a supremacia conquistada e exercida sobre a Europa 
com insolente avidez, e a excavação de pompas acalen- 
tadas pela recordação pagã; mas que o próprio protestan- 
tismo imitou aquelle exclusivismo no intuito de conservar 
a sua doutrina illesa das variantes, que entraram a pullu- 
lar até o absurdo com a apregoada liberdade de inter- 
pretação da Escriptura Sagrada. Não são desconhecidas, 
«ntre outras, a bestial ferocidade de Henrique VIII, e a 
sombria intolerância de Calvino, cujos sectários pelos seus 
excessos tornaram-se insupportaveis mesmo ás províncias 
catholicas dos Paizes Baixos, que a principio os acom- 
panhavam na sublevação contra a Hespanha, e que aca- 
baram por firmar com Filippe II, em 1579, a Pacificação 
de Arraz. A primeira condição estipulada para esta re- 
conciliação foi a retirada d' aquellas terras das tropas 
hespanholas; mercê da continuação da guerra porém, os 
wallões novamente pediram os soldados extrangeiros, para 
o que andou despachado em Lisboa no anno de 1582 o 
virtuoso Dom João Sarrazin, abbade de São Vaast. 

Cánovas dei Castillo teve a nobre coragem de no seu 
livro rehabilitar Olivares , não d' aquellas estúpidas accu- 
sações da plebe, mas de calumnias mais sérias. O conde- 
duque apparece-nos ahi fascinado por um ideal, o da cen- 
tralização politica da Hespanha, então como ainda hoje, 
um aggregado de reinos differentes nas tradições, nos costu- 
mes e nas tendências, mal amalgamados n' aquelle tempo 
pelas difficuldades de communicações e pelas rivalidades 
sempre fumegantes, mas cujo espirito nacional elle queria 
a todo o transe crear. No Meandro, espécie de manifesto 
muito provavelmente da lavra de Olivares, e publicado 
depois da sua queda, se diz que o contracto existente entre 
as partes do todo peninsular era ajeno de la socieãaá 
humana y desigual. Com eífeito, Castella, a sede da mo- 
narchia, devia defeza aos outros reinos, emquanto que estes 
não tinham obrigação de amparal-a em qualquer invasão, 
antes salientavam sua desunião ao menor revez das armas 
hespanholas. A missão era portanto difficil, muito supe- 



58 

rior á do seu grande inimigo Richelieu, de abater os restos 
de feudalismo que a férrea mão de Luiz XI não havia estran- 
gulado. Ao passo que em França, além dos nobres, apenas 
a burguezia parlamentar, um tanto particularista, se contra- 
punha ao cardeal, tibiamente com excepção da da Bretanha 
pouco antes annexada: Olivares tinha que arcar com estados 
ciosos da sua independência secular, e com uma plebe que, 
fora de Castella e pronunciadamente em Portugal, era inteira- 
mente dedicada á fidalguia, porquanto a ausência do feuda- 
lismo obstara á formação de ódios inveterados de classes. 
As preoccupações unitárias de Olivares frustraram-se. 
A paz exterior, de que elle dizia carecer tanto para 
tentar executar seus planos de politica interna, não Ih' a 
permittiram as revoluções da Catalunha e de Portugal, 
nem a continuação da guerra hollandeza, movimentos 
todos fomentados pelas intrigas francezas. Esse notável 
homem de Estado, dotado de vistas originaes; um tanto 
theorico com suas citações clássicas, mas não menos reso- 
luto que illustrado; vaidoso, chegando ás fanfarronadas 
militares, e com tudo só empregando a força quando lhe 
escasseavam os meios suasórios e as contemporisações ; 
presumido em demasia do seu génio diplomático, e refreando 
por calculo intelligente os impulsos do seu temperamento 
colérico; desinteressado; leal a ponto de não perdoar erros 
e não poupar censuras, succumbiu deante de um concurso 
de acontecimentos mais poderosos do que as suas com- 
binações de gabinete e os seus loiros da victoria de Fuen- 
tarrabia. Com tantas qualidades, perspicaz, eloquente, 
agudo, versado em sciencias, hábil diplomata, sóbrio, in- 
cançavel no trabalho e paciente nas indagações, como nol-o 
descreve o seu desaffecto da Relaçam politica: Olivares 
apenas vive para a posteridade n' um dos melhores retratos 
de Velasquez, que o representa lançando o fogoso corcel 
na direcção d' um longinquo campo de batalha, como a 
significar que as operações militares obedeciam á sua inspi- 
ração, e enchendo a tela da sua figura corpulenta, realçada 
por um largo rosto expressivo, de grandes e severos olhos 
negros, espesso e longo bigode que encobre a bocca orgu- 
lhosa, pequena barba que esconde mal o queixo voluntarioso. 



59 



VII 

O primeiro ataque no Brazil dos hollandezes ao ser- 
viço da Companhia, foi dirigido em 1624 contra a Bahia, 
sede do governo geral e situação cuja posse lhes facilitaria 
o senhorio de toda a colónia. O porto de fácil accesso, 
espaçoso e seguro, espécie de lago interior na phrase de 
Netscher; a terra abundante em farinha, agua e madeiras 
para fornecimento das frotas; a copia de géneros estimados, 
como o assucar, o páu brazil e o tabaco: eram outros tan- 
tos attractivos para a especulação mercantil. A fraqueza 
dos meios defensivos confirmada pelos israelitas, anciosos 
por subtrahirem-se á intolerância do Santo Officio e ás 
violentas imposições do fisco, representava uma garantia 
de fácil occupação. Para a conservação, contavam os 
hollandezes com a tolerância religiosa agradável a christãos 
e a judeus, imbuídos das suas crenças, com o respeito pela 
propriedade e com a liberdade de commercio, termos novos 
no diccionario da gente de guerra do tempo, e com que 
deviam engalanar as suas proclamações. Ao raciocínio não 
faltava de todo a felicidade, porque a esquadra hollandeza 
(de 33 navios segundo Varnhagen, 26 segundo o barão do 
Kio Branco), commandada por Jacob Willekens, um em- 
barcadiço habituado a tratar com portuguezes, e na qual 
ia por immediato o valente Piet Heyn, apoderou-se facil- 
mente da Bahia. 

As fortificações preparadas por Diogo de Mendonça 
Furtado para suster o inimigo e defendidas pelas poucas 
tropas regulares, resistiram com denodo; mas os moradores 
armados em ordenanças, pouco habituados a heroicidades 
na quietação da cidade official, e os padres capitaneados 
pelo velho e irrequieto prelado D. Marcos Teixeira, fu- 
giram desordenadamente para o interior deante do ataque 
impetuoso dos batavos. A cidade, abandonada, foi livrada 
ao saque, e prezo o infeliz governador. De sitiantes pas- 
saram porém os hollandezes para sitiados. Os habitantes, 
não se fiando na quasi totalidade nas proclamações paci- 
ficas dos hereges, e estimulados pelo bispo, que graças a 
suas intrigas ambiciosas, conseguira ser por elles investido 



60 

na dignidade de capitão-mór, voltaram, entrincheirando-se 
n 'um arraial vizinho e destacando guerrilhas que incom- 
modassem os vencedores. D' esta lucta de ciladas e es- 
caramuças foram victimas o commandante das forças de 
terra van Dorth e o seu successor. A esquadra hollandeza 
havia-se retirado com grande parte da preza, e as espe- 
ranças de novos reforços impediam de lado a lado um 
ataque formal que decidisse a contenda. 

Francisco de Moura, um pernambucano que viera gover- 
nar a Bahia, cuja administração o bispo pouco antes de mor- 
rer entregara ao representante de Mathias de Albuquerque, 
capitão-mór de Pernambuco e a quem competia substituir 
Mendonça Furtado, annunciára a partida da Peninsula de uma 
brilhante esquadra hispano-portugueza activamente ordenada 
pelo condeduque: em Portugal succediam-se as novenas, pro- 
cissões e lausperennes, cresciam os alistamentos, especial- 
mente de nobres, e accumulavam-se as dadivas para a 
expedição, offerecidas por fidalgos, prelados e mercadores. 
Na Hollanda igualmente se aprestava uma forte armada, 
porém o almirante hespanhol D. Fradique de Toledo foi o 
primeiro a chegar com seus cincoenta e dois navios de 
combate (Varnhagen), afora os transportes conduzindo doze 
mil e quinhentos homens de desembarque, legião formada 
de castelhanos, portuguezes e napolitanos e commandada 
por um troço de gentishomens, entre os quaes o donatário 
de Pernambuco Duarte de Albuquerque Coelho e o conde 
de Bagnuoli, fidalgo napolitano que mais tarde defenderia 
vigorosamente a Bahia contra o conde de Nassau. Aos 
enthusiasticos regimentos europeus juntaram-se alegremente 
os brazileiros da Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro, e 
os auxiliares indios e negros. Não eram menos mescladas 
no seu septentrionalismo as tropas do inimigo, compostas 
de flamengos, allemães, inglezes, francezes e polacos, equi- 
valendo-se assim a homogeneidade e a h,armonia dos dois 
campos. Os hollandezes andavam além d' isso falhos de 
toda disciplina, desmoralizados pelo commando de Schouten, 
um official brutal, devasso e bêbado a quem succedeu um 
outro, que não gozava de muito maior prestigio. Entre as 
forças de Filippe IV sabemos pela diffusa relação de D. 



61 

Manoel de Menezes, almirante da esquadra portugueza, que 
também eram frequentes os eonflictos por duvidas da com- 
petência e jurisdicção que cabiam ás auctoridades de nacio- 
nalidades differentes. 

Foi prompta a victoria de D. Fradique de Toledo, o 
qual forçou a barra sem disputa. Com as novas baterias 
e o grande augmento de combatentes, o cerco foi-se estrei- 
tando cada vez mais. Os hollandezes, não podendo mais 
retrahir-se, capitularam, entregando a cidade apóz um anno 
de posse, com todas as armas, munições, prezas e prisio- 
neiros, e embarcaram para as suas terras brumosas, jul- 
gando-se em demasia aquecidos ao sol faiscante do Brazil, 
e ao calor das peças de D. Fradique. A fraqueza da Com- 
panhia começava a patentear- se antes mesmo dos seus 
mais ruidosos triumphos e mais prolongada prosperidade. 
As tropas mercenárias e os officiaes cupidos que na maioria 
a serviam, traziam na sua venalidade o gérmen da mina. 
De nada valeriam á Hollanda, que n' essas companhias 
commerciaes delegara a sua missão histórica, como hoje 
a Bélgica encobre suas ambições coloniaes em Africa com 
a bandeira do Estado Livre do Congo, as façanhas de Piet 
Heyn, nem o parenthesis glorioso do príncipe Maurício. 
Brazil não lhe escaparia somente pelos erros do Conselho 
dos XIX. Diz-se ainda hoje na Hollanda verzuimd Braziél 
— Brazil perdido por incúria — , mas a verdade é que o 
movei financeiro de uma empreza, por mais importante que 
ella seja, não é bastante para bater sentimentos moraes; 
e entre nós a fé religiosa, e a veneração dynastica fugida 
da metrópole n' um período de rebaixamento^ civico, ainda 
que não medrassem em um terreno virgem com todo o viço 
das emoções novas, estavam comtudo longe de se mostra- 
rem gastas pelas correntes do scepticismo, que se annun- 
ciavam, e pelas depravações da administração, que pullu- 
lavam. 

Trez semanas depois, apparecia em soccorro da praça 
a esquadra do almirante Hendriksoon, de trinta e quatro 
navios (Varnhagen), mas encontrando-a em poder dos 
hespanhoes, e não se aventurando D. Fradique a um com- 
bate no alto mar, velejou o hollandez para a Europa, re- 



62 

fazendo -se das fadigas da viagem na bahia da Traição, 
emquanto Ih' o consentiu Mathias de Albuquerque, que para 
alli destacou gente de Pernambuco e da Parahyba, a qual 
porém já não encontrou os inimigos. 

De regresso para a Hespanha, o victorioso D. Fradique 
de Toledo deixou na Bahia, governada por Francisco de 
Moura e a breve trecho por Diogo Luiz de Oliveira, um 
reforço de mil portuguezes, que confinados em terra, não 
puderam castigar em 1627 os atrevidos ataques de Piet 
Heyn. Este, entrando no porto e demorando -se n' elle 
quanto quiz, apoderou-se de quatro navios de guerra, e 
vinte e dois de commercio com uma riquíssima carga de 
assucar, tabaco, pelles e algodão; seguio para o sul; vol- 
tou de novo á Bahia, capturando mais dois vasos mer- 
cantes; e tornou-se á Europa, d' onde devia partir para 
outros e valiosos commettimentos. Piet Heyn destaca-se, no 
meio da alluvião de corsários assoldadados pela Companhia, 
pelo seu arrojo e modéstia: ao que d' elle dizem os patrí- 
cios, a sua espantosa temeridade não chegava comtudo á 
loucura, antes serviam-n' a uma grande previdência e um 
perfeito conhecimento da sua profissão, que o tornam um 
legitimo precursor dos celebres Ruyter e Tromp. Foi esse 
bravo marinheiro, que de grumete chegou ao mais elevado 
posto da marinha de guerra neerlandeza, e morreu um anno 
depois, 1629, n' um encontro com corsários de Dunkerque, 
quem proporcionou á Companhia a preza mais opulenta 
d' aquelles annos de incançavel perseguição aos galeões da 
índia e da America, e de desembarques repetidos nas An- 
tilhas, nas Guyanas, no Brazil, nas costas africanas, em 
todas as possessões peninsulares. Diz Du Sein (Histoire 
de la Marine) que até á paz de Munster, mais de 300 na- 
vios hespanhoes foram destruídos ou capturados pelas es- 
quadras da Hollanda, e este calculo fica muito aquém da 
verdade, pois que Netscher enumera somente entre os 
annos de 1623 e 1636, 547 embarcações hespanholas apre- 
zadas, no valor de perto de sete milhões de florins. Cabe 
todavia a Piet Heyn a honra singular de ter-se apoderado 
da frota de prata, como chamavam ao comboio dos navios 
que, abarrotados, transportavam annualmente para Hespanha 



O MESTRE DE CAMPO GENERAL 
MATHIAS DE ALBUQUERQUE. 



H 



63 

as opulências do Novo Mundo. Com a sua esquadra, o 
hollandez foi até Cuba esperar os castelhanos, e aprezando 
alguns navios da riquissima frota no mar largo, capturou 
os restantes por meio de uma intrépida abordagem no porto 
de Matanzas, onde se haviam refugiado. Foi esta enxur- 
rada de metaes preciosos do México e Peru, de pérolas, de 
anil e pelles de Guatemala, de especiarias das outras co- 
lónias, entrando repentinamente nos cofres da Companhia 
transformada em perto de quinze milhões de florins, o que 
permittiu a esta distribuir um dividendo de 50°/ e tentar 
a conquista de Pernambuco. 

A historia do Brazil hollandez principia verdadeira- 
mente n' esse momento, e pôde dividir-se em trez períodos : 
o da conquista, que começa em 1630 com a tomada de 
Olinda e do Recife, e termina em 1637 com a chegada de 
Maurício de Nassau, já então ganha toda a costa do Rio 
Grande do Norte ao Rio Formoso; o da administração, de 
1637 a 1642, sob o influxo do illustre príncipe, o qual ainda 
alargou a esphera de seu governo, para o norte até ao Ma- 
ranhão, e para o sul até Sergipe; e o da resistência, en- 
cetada em 1642 pela sublevação do Maranhão, e que foi 
adquirindo consistência com a retirada do conde até ás 
victorias dos montes Guararapes, e á final expulsão do ini- 
migo, em 1654. 

A nova expedição da Companhia ao Brazil, que veio a 
ter tão profícuos resultados, nasceu, apezar da empreza 
nadar em dinheiro, sob auspícios menos favoráveis do que 
a anterior. A Hollanda atravessava um momento difficil 
da guerra com a Hespanha e com a Áustria, e não podia 
attender com tanto cuidade e largueza á invasão do Brazil; 
mas tendo-a o stathouder Frederico Henrique libertado 
d' aquella crise angustiosa pela tomada de Bois-le-Duc, a 
esquadra do almirante Lonck poude apresentar-se deante 
do Recife com 65 embarcações, segundo de Laet, 70 segundo 
Mathias de Albuquerque. A defeza da capitania portugueza 
não podia estar em peores condições. A Hespanha man- 
dara para ahi seguir o irmão do donatário, o nosso conhe- 
cido Mathias de Albuquerque, militar que servira com 



64 

Spínola na bella escola de Flandres e era pessoalmente 
interessado na conservação do feudo de sua família, com 
muitos mais poderes porém do que soccorros, e pouco por 
isso conseguira a actividade do novo general, cujo mereci- 
mento incontestável, evidenciado em Pernambuco, leval-o- 
hia mais tarde, na campanha da independência portugueza, a 
vexar os hespanhoes em Telena e a batel-os em Montijo. 
Ainda assim, nos poucos mezes que mediaram entre a sua 
chegada de Madrid e a apparição da frota bátava, Mathias, 
ajudado pelo sargento-mór Pedro Corrêa da Gama, soldado 
pratico, dispoz as pouquíssimas tropas regulares; organizou 
as milícias; reparou as fortalezas que encontrou desman- 
teladas; levantou novas baterias; e mandou desalojar o 
hollandez Corneliszoon Jol, por alcunha o Pé de páu, de 
Fernando de Noronha, ilha quasi abandonada e que consti- 
tuía um ponto excellente para as aguadas das esquadras 
que demandassem a America ou a Europa, e uma posição 
deveras estratégica para qualquer movimento naval offen- 
sivo contra a costa brazileira. Sete caravellões pernam- 
bucanos aproaram á ilha; tomaram uma lancha hollandeza 
com alguns tripulantes e umas roqueiras; tentaram incen-r 
diar o navio jnimigo, que fez-se de vela; e destruíram uma 
bateria e quatro povoados, dois dos quaes habitados por 
negros capturados pelos hollandezes, e que alli cultivavam 
mandioca, legumes e tabaco (Duarte de Albuquerque Coelho, 
Memorias diárias). 

almirante Lonck mostrou-se com seus vasos de 
guerra em Fevereiro de 1630, e não podendo transpor à 
barra, interceptada por navios mettidos a pique e defen- 
dida por um fogo bem nutrido dos fortes do porto, quiz 
experimentar si lhe sorriria mais a fortuna com o desem- 
barque das forças de terra no Páu Amarello, ao norte de 
Olinda. O commandante Weerdenburch foi com eífeito 
mais feliz : saltou sem resistência na praia, e com seus trez 
mil homens dispostos em trez columnas (quatro a cinco 
mil, dizem Mathias e um artilheiro hollandez feito prisio- 
neiro) marchou para a villa. Mathias de Albuquerque, que 
N reunira a defeza d'aquella banda no Rio Tapado, e que 
desde a véspera pressuroso se dividia entre os dois lugares 



6õ 

ameaçados, sahiu-lhe ao encontro na passagem do Rio 
Doce com oito companhias de infanteria e quatro de ca- 
vallo, afora os indios, um total de mil e oitocentos homens 
segundo o calculo de Weerdenburch, que concorda com 
as declarações de Mathias na sua carta a Filippe IV, de 
18 de Fevereiro (Gazeta LiUeraria, Rio de Janeiro). As 
forças portuguezas, milícias na sua grande maioria, hou- 
veram-se cobardemente, fugindo para o matto ao primeiro 
embate, "sendo tão grande o seu medo e desaccordo que 
antes se deixaram alancear que quererem pelejar" (carta 
cit.). Retirou-se o capitão-mór para Olinda, onde pouco 
depois chegava o commandante hollandez, que se assenho- 
reou da villa, da qual escaparam-se espavoridos os mora- 
dores carregando seus bens, sem grande opposição, con- 
fessa-o Weerdenburch no seu preciso relatório, accrescen- 
tando ter perdido desde Páu Amarello cincoenta a sessenta 
soldados. Novamente recuou Mathias de Albuquerque, en- 
trando no Recife onde havia ficado o resto das tropas, e 
foi tal o pânico d' estas ao saberem dos successos dos con- 
trários que deitaram a correr, alguns até a nadar, sendo 
preciso mandal-os arcabuzear. Espicaçado pelo terror e 
deserção da sua gente, o general brazileiro intentou uma 
resistência desesperada: mandou incendiar vinte e quatro 
navios surtos no porto com um carregamento de mais de 
oito mil caixas de assucar e muito páu brazil, algodão e 
tabaco, e bem assim grande parte dos armazéns do Recife, 
que então contava cento e cincoenta casas, onde existiam 
mais de outras tantas mil caixas de assucar e também 
muito páu brazil e tabaco, que tudo valeria bem um milhão 
e seiscentos mil cruzados; e recolheu-se ao abrigo dos fortes 
do Picão, sobre os arrecifes, e São Jorge, em terra firme, 
com uns tristes reforços de outros pontos da capitania e 
da Parahyba, que breve se lhe juntaram. Ahi o foram 
procurar os hollandezes, cobiçosos de conquistar o porto, 
custando-lhes porém cara a victoria, porquanto António de 
Lima, tendo-se vantajosamente defendido de uma escalada, 
somente desamparou o São Jorge quando as paredes, es- 
boroadas pelos projecteis das peças bátavas, entraram a 
desmoronar-se. 

Lima, Pernambuco. 5 



66 

Senhores da villa e do porto, cujas defezas seus en- 
genheiros começaram logo a melhorar, os hollandezes pu- 
zeram a saque o que encontraram, e que ainda constituía 
uma boa preza. Segundo conta frei Manoel Calado, arrom- 
baram as caixas, os escriptorios e os contadores cheios de 
finas sedas, oiro, prata e jóias; arrecadaram os ricos e 
custosos ornamentos das egrejas no meio de torpes profa- 
nações; e exgottaram o vinho encontrado nas lojas dos 
mercadores. As ruas atulharam-se de uma sinistra mas- 
carada de soldados bêbados, "huns calçados com os cha- 
pins das molheres, outros vestidos com as opas das con- 
frarias e os balandraus dos irmãos da Misericórdia, outros 
ainda empunhando as varas dos vereadores e almotaceis", 
cantando, descarregando as armas entre roucas gargalha- 
das, dando largas á animalidade dos seus temperamentos. 
Um quadrinho de Wouwermans, dos muitos de seu pincel 
que esmaltam o Museu de Amsterdam, e que tem por 
titulo Os camponeses victoriosos, dá-nos no seu amor pela 
verdade e no seu cuidado pela expressão, uma idéa d' essa 
jovial ferocidade hollandeza, aguçada por uma longa serie 
de fomes e de misérias na guerra contra a Hespanha, e 
que não podia ser temperada pelas idéas pouco altruístas 
do século. 

Entretanto Mathias de Albuquerque, com o desespero 
no coração, recolhia-se com alguns valentes companheiros, 
senhores de engenhos da capitania, para um lugar da várzea 
situado a uma légua de Olinda e do Recife, ponto por 
elle fortificado com quatro peças e duzentos homens (Brito 
Freyre, Hist. da Guerra Braz.), e que foi o famoso Arraial 
do Bom Jesus; e dispunha-se a animar uma porfiada lueta 
de guerrilhas, aguardando a chegada de algum soccorro 
serio da Europa. A acreditarmos em Netscher, esta forma 
de pelejar por emboscadas seria mesmo mais sympathica 
ao seu espirito do que a guerra franca, aberta. Em todo 
o caso, sendo na sua indisciplina e desorientação, a única 
possível pela extrema escassez dos recursos portuguezes, 
e pela anarchia que lavrava na capitania, onde os escravos 
fugiam aos senhores, os roubos pullulavam, o sangue corria 
diariamente e os soluços entremeavam-se com os crimes, 



67 

molestou muito os hollandezes, estragando-lhes as obras 
de fortificação, diffiçultando-lhes as communicações entre 
Olinda e o Recife, reduzindo-lhes as forças nas frequentes 
surprezas, não raro coroadas de êxito, e envolvendo-os 
n' um apertado semi-circulo , onde sentiam duramente a 
falta de madeiras e de viveres frescos. D' entre os bravos 
guerrilheiros do Arraial, Luiz Barbalho, Martim Soares 
Moreno, que trouxe os seus Índios cearenses em numero 
de duzentos, e outros, não se tornou o menos afamado o 
indio Camarão, domesticado como vimos por Jeronymo de 
Albuquerque Maranhão, e o qual, tendo-se posteriormente 
distinguido em uma expedição ao norte da Bahia, contra 
negros fugidos, agora, á frente dos seus bugres, especia- 
listas em ciladas, tenazmente vexou o inimigo. 

A situação não podia comtudo manter-se indefinida- 
mente insolúvel. Da Hollanda, para onde officiava cir- 
cumstanciadamente aos XIX o Conselho Politico, que su- 
perintendia ás novas conquistas de platónico accordo com 
o governador militar, representante mais directo dos Esta- 
dos Geraes e ao qual nem por isso pertenciam mais do 
que limitada jurisdicção sobre as tropas e, presidindo ao 
conselho de guerra, a administração da justiça para os 
delictos puramente militares, partiu uma esquadra de de- 
zeseis navios commandada pelo almirante Pater, que aca- 
bava de distinguir-se na America Central ao serviço da 
Companhia. Com este soccorro chegado em Abril de 1631 
pretenderam os hollandezes, aliás sem proveito, tomar o 
porto dos Afogados, ao sul do Recife, e pouco antes a ilha 
de Itamaracá, em cujo pontal levantaram um forte, não se 
animando porém a atacar o forte portuguez da Conceição 
situado em perigosos encharcados, mormente sabendo que 
dentro d'elle Mathias de Albuquerque fizera immediatamente 
reunir uma boa guarnição. Em opposição á esquadra do 
almirante Pater, veio da Hespanha no mez de Maio uma 
frota de vinte vasos de guerra, aprestada por ordem do 
condeduque á custa de novos tributos portuguezes, e con- 
duzindo reforços: commandava-a o biscainho D. António 
de Oquendo, a quem acompanharam o donatário de Per- 
nambuco, e o conde de Bagnuoli, á frente dos seus napo- 

5* 



lhanos. Notavam -se igualmente bons ofhciaes entre os 
conduzidos por Pater, taes como Sigismundo von Schkoppe 
que ainda em 1654 militaria no Brazil, e o polaco Arti- 
chofsky, espirito culto e liberal. 

Oquendo dirígiu-se á Bahia, onde também devia deixar 
auxilio, em vez de atacar o Recife, pelo que são concordes 
em censural-o os historiadores de ambas as parcialidades. 
Nas aguas que se baloiçam ao sul da capital de Thomé 
de Souza, não longe dos Abrolhos, para onde o vento im- 
a a esquadra já de regresso de Sfto Salvador, e ha- 
j o almirante hespanhol juntado aos seus galeões 
>s navios mercantes valiosamente carregados com des- 
ao reino, e que aguardavam serem comboiados, per- 
do um total de 53 veias, o foi encontrar a frota hol- 
>za surta no Recife, travandc-se a 12 de Setembro de 
uma renhida peleja de resultados quasi nullos, e que 
ibstante custou a perda de mais de mil e quinhentos 
tatentes. Na contenda aberta entre as duas capitaneas, 
ídadas por outros vasos, a meio de uma terrível abor- 
m, a hollandeza incendiou-se, morrendo afogado, exte- 
o de conservar-se a tona d' agua convulsam ente agar- 
a uma amarra, abandonado, como fora desde o começo 
eleja, por grande parte dos seus navios receosos da 
a, o valoroso almirante Pater. A esquadra hespa- 
i, seguindo para a Península depois da infructifera 
ha, desembarcou em Pernambuco um reforço de mil 
dos — setecentos segundo Fernandes Gama, que as- 
ra ter o almirante hespanhol supprido suas faltas com 
ezentos restantes — , e outro de duzentos na Parahyba. 
iuoIí, que si não primava pelos talentos de engenheiro, 
>rme mostrou pouco depois na construcção do forte de 
reth em um local mal escolhido, muito apartado da 
i, provaria excellen temente para as marchas penosas 
iscadas, foi quem conduziu para o Arraial, a trinta 
is do desembarque, os soldados vindos da Europa, 
o seu cortejo de cargas e munições. 
Receoso da animação que estes acontecimentos des- 
xiam entre os portuguezes, pois si o reforço "não os 
ita a nos expellir d'aqui, é certo que produzirá o effeito 



69 

de frustrar completamente, e por muito tempo, a nossa 
esperança de trato com os moradores, e de nos ficar aberta 
ou franca a terra" (carta do Conselho Politico de 8 de Ou- 
tubro de 1631), Weerdenburch deixou Olinda entregando-a 
ás chammas, chammas vingadoras dos seus vicios e im- 
piedades, no dizer mais rhetorico que sinceramente religioso 
dos chronistas portuguezes. Frei Manoel Calado, com a 
sua não rara e prazenteira espontaneidade, mais própria de 
frade bem alimentado que compõe os seus in-folios nas 
horas de calma, na frescura de uma cella ou passeando 
pelas ruas aromatizadas da cerca, que de pastor d' almas 
cumprindo agitadamente nas Alagoas a sua missão es- 
sencialmente moralizadora; com a sua paixão de collabora- 
dor dos successos que descrevia, e uma pontinha de ma- 
lícia que o tornam cem vezes superior ao insipido frei 
Raphael de Jesus, auctor do Castrioto Lusitano, deixou-nos 
no Valeroso Lucideno um quadro interessante da villa de 
Duarte Coelho antes da sua destruição. Tanto tinha, na 
sua opinião, a terra de deliciosa como de peccaminosa: o 
bom do monge não ousava dizer, como Balzac o faria de- 
pois, que o vicio é sempre amável, e que ao peccado tal- 
vez se devesse grande parte do encanto de Olinda. "O 
oiro e a prata eram sem numero nas casas apparatosas, e 
por mui pobre e miserável se tinha o que não tinha seu 
serviço de prata. As molheres andavão tão louçãs e tão 
custosas, que não se contentavão com os tafetás, chama- 
lotes, veludos e outras sedas, senão que arrojavão as finas 
tellas e ricos brocados; e erão tantas as joyas com que se 
adornavão, que parecião chovidas em suas cabeças, e gar- 
gantas as pérolas, rubis, esmeraldas e diamantes. Os ho- 
mens não avião adereços custosos de espadas e adagas, 
nem vestidos de novas invençoens, com que se não ornas- 
sem; os banquetes quotidianos em que as delicias de man- 
timentos e liquores, erão todos os que se produzião assi 
no Reyno, como nas ilhas, as escaramuças e jogos de 
canas, em cada festa se ordenavão, tudo erão delicias, e 
não parecia esta terra senão hum retrato do terreal pa- 
raíso." As ultimas escaramuças, cannas e encamisadas or- 
denadas para celebrar o nascimento do príncipe Balthazar, 



70 

presidira Mathias de Albuquerque, já quando se divisavam 
ao longe as proas e scintillavam de noite os elevados fa- 
naes das naus hollandezas. 

Frei Manoel Calado não nos poupa ao reverso da me- 
dalha. "As usuras, onzenas e ganhos illicitos era cousa 
ordinária, os amancebamentos públicos sem emmenda al- 
guma, porque o dinheiro fazia suspender o castigo, as la- 
droices, e roubos sem carapuça de rebuço; as brigas, feri- 
mentos e mortes erão de cada dia ; os estupros, e adultérios 
era moeda corrente; os juramentos falsos não se reparava 
nisso; os Christãos novos seguião a ley de Moyses, e 
judaizavão muitos delles, como bem o mostrarão despois 
que o Olandes entrou na terra, que se circundirão publi- 
camente, e se declararão por Judeos ; os ministros da jus- 
tiça, como trazião as varas mui delgadas, como lhe punhão 
os delinquentes nas pontas quatro caxas de assucar, logo 
dobravão: e assi era a justiça de compadres; as causas 
das veuvas não entravão nas casas dos Avogados, para as 
enparar, e defender, nem nas dos julgadores para as des- 
pacharem, como era razão, ainda que huma, e muitas vezes 
entravão as veuvas, e sahião de peor condição do que en- 
travão." Era terra em que a justiça estava morta, dizia 
um senhor de engenho, e não havia quem a enterrasse 
honradamente. 

Emquanto crepitava a immensa fogueira, purificadora 
de tantos crimes, o commandante hollandez concentrava-se 
no Recife, coração dos espíritos de Parnambuco como lhe 
chama Brito Freyre, com uns sete mil combatentes entre 
soldados, marinheiros e negros (Netscher), que não quiz 
porém trazer inactivos, porque não era gente que se pu- 
desse impunemente deixar entregue á ociosidade. As opera- 
ções successivamente tentadas por Weerdenburch foram 
infelizes. A primeira, contra a Parahyba, não logrou as- 
senhorear-se, ainda que com perda de bastantes soldados, 
do forte do Cabedelo, bem artilhado e guarnecido. A se- 
gunda, contra o Rio Grande do Norte, não chegou a desem- 
barcar pela quasi inexpugnabilidade da posição portugueza, 
a cuja frente se achava Mathias de Albuquerque Maranhão. 
Na terceira, destinada a apoderar-se do porto de Nazareth, 



71 

o desembarque dos hollandezes foi empatado com felicidade, 
sendo mandado Bagnuoli a defender de novos ataques esse 
ponto importantíssimo do Cabo de Santo Agostinho, por 
onde o Arraial do Bom Jesus communicava com o mar. 

VIII 

Attribue-se geralmente á deserção do mameluco Cala- 
bar a repentina felicidade que em 1632 principiou a raiar 
para as armas inimigas, que de desanimo já pensavam na 
retirada. Este factor valiosíssimo da fortuna militar dos 
hollandezes não foi todavia único, e com elle concorreram 
as tropas frescas com que de continuo a Companhia re- 
forçava o seu exercito de occupação, exercito pequeno pois 
que então a guerra se fazia com forças diminutas, não en- 
volvendo como hoje o choque de nações armadas até os 
seus últimos homens validos; e o resfriamento que nas 
fileiras brazileiras produziu a chegada do soccorro europeu. 
Nos velhos escriptores se diz que no Arraial entrou-se a 
fazer mais caso dos novos soldados, fidalgos de escassos 
haveres e villãos desejosos de ganhar senão pergaminhos, 
pelo menos gloria em aventuras militares, que compunhão 
habitualmente os terços hespanhoes; que dos milicianos, 
esquecendo que estes haviam amplamente resgatado o pri- 
meiro desfallecimento por uma, já comprida campanha, 
áspera e sanguinolenta, na qual, tendò-se adaptado á vida 
das armas e vendo-se commandados por valentíssimos per- 
nambucanos, elles, mettidos pelos atoleiros, atravessando 
rios com agua pelos peitos, cortando florestas que lhes 
despedaçavam as vestes e as carnes, surprehenderam e de- 
golaram centenares de invasores. Entre os descontentes 
que abandonaram o acampamento portuguez, e se retiraram 
para suas casas ou voltaram para suas occupações, tem-se 
querido incluir o transfuga Calabar, o qual combatera com 
valor contra os hollandezes e fora até ferido; mas a sua 
fuga, segundo narra frei Manoel Calado, que na terrível 
hora derradeira, antes do supplicio, o assistiu, não obede- 
ceu ao resentimento, e sim ao receio de castigo por furtos 
contra a fazenda real. 



72 

Agasalhado pelo inimigo, que soube apreciar-lhe e re- 
compensar-lhe os serviços, Calabar, perfeito conhecedor do 
terreno, guiou-o em suas ulteriores expedições, a primeira 
das quaes, arriscadíssima, de noite, e por caminhos empa- 
pados de lama, a Iguarassú. Weerdenburch, no saque que 
se seguio ao inesperado assalto da villa, teve o cuidado 
de mandar vasar duzentos toneis de vinho que encontrou, 
e fechar n' uma egreja as mulheres, para evitar que a bes- 
tialidade dos seus soldados degenerasse em fúria; e, reu- 
nida a preza que era avultada, para o que tinham contri- 
buído os bens de muitos olindenses alli refugiados, incendiou 
a villa e regressou ao Kecife com o seu troço, em barcaças 
mandadas do próximo forte de Orange, levantado no pontal 
da ilha de Itamaracá. A este arrojado ataque seguiram-se 
outros por terra e mar, ficando memorável um d' elles, ao 
forte do Rio Formoso, em Janeiro de 1633, pela louca de- 
feza de Pedro de Albuquerque, que com vinte soldados e 
duas peças resistiu a quinhentos hollandezes commandados 
por von Schkoppe, os quaes, ao entrarem na esburacada 
fortaleza quando de dentro d'ella cessou o fogo, encontra- 
ram mortos dezenove soldados — o vigésimo, mal ferido, 
salvára-se a nado — , e moribundo o heróico commandante. 

Pouco antes d' esta épica defeza, que Camões, si vivo 
fora, juntaria ás melhores façanhas dos seus Gamas e 
Castros, haviam chegado da Hollanda, com novos soldados, 
dois directores da Companhia, van Ceulen e Gysselingh, 
delegados pelos collegas para encarregarem-se da adminis- 
tração brazileira, e, estudando as condições da campanha, 
imprimirem maior actividade ás operações militares. 
Conselho Politico não as avivava com o conveniente ardor, 
diziam na Hollanda os accionistas descontentes com as 
ultimas cotações dos seus títulos; e o defeito talvez resi- 
disse no crescido numero dos membros d' essa junta — 
nove, que, provavelmente divergentes a cada novo impulso, 
e ainda que resolvendo as questões de governo, guerra, 
policia, fazenda e justiça por maioria de votos, paralysavam 
em demasia a ficção do commandante militar. O regimento 
do governo das praças conquistadas nas índias Occiden- 
taes,' datado de 1629 e copiado do Groot Placaat-BoeJc 



73 

pelo sfír. D r José Hygino Duarte Pereira na sua provei- 
tosa viagem á Hollanda em commissão do Instituto Ar- 
oheologico e Geographico Pernambucano, diz-nos qual era 
a organização do Conselho Politico, escolhido pelas camarás 
da Companhia, e a que servia de secretario ou assessor 
um jurisperito nomeado pelos XIX, a um tempo notário e 
pensionario, auctor de memorias e redactor de pareceres. 
A famosa liberdade de consciência promettida pelos hollan- 
dezes, ahi vemos em que se cifrava: o calvinismo, religião 
nacional da Hollanda, cujos presbyteros eram salariados 
pelo Estado, não se mostra muito mais tolerante do que 
o catholicismo. Calvino, tal como se nos revela em sua 
correspondência e no martyrio de Miguel Servet, foi um 
espirito estreito, ao qual repugnaram liberdades, um faná- 
tico sanguinário obsecado pela sua idéa religiosa, que, 
como observa Eenan, substituía o Deus de Roma, pomposo, 
amável e misericordioso, pelo culto judaico do Deus vin- 
gador. Já na metrópole a escola de Genebra "tinha querido 
repellir a intervenção do poder civil na nomeação dos 
funccionarios ecclesiasticos, e obter a livre reunião dos 
seus consistórios ou synodos sem a autorização ou presença 
dos magistrados" ; e na colónia, exigia agora que os mem- 
bros do Conselho Politico fossem todos reformados, bania 
o clero catholico do território hollandez, supprimia os con- 
ventos e entregava as escolas á ministros da sua religião. 
respeito pela propriedade não passava igualmente de 
um chamariz mentiroso. As propriedades régias e as dos 
habitantes que seguissem a causa da Hespanha, eram con- 
fiscadas de envolta com os bens dos jesuitas e outras or- 
dens religiosas, em proveito da Companhia; e aos herdeiros, 
para usarem de seus direitos, nem sequer lhes era facul- 
tado residir em territórios de Filippe IV, ou de seus alliados. 
No mais, o regimento, no qual se estabelecia para a Com- 
panhia, não menos soberana que o rei de Hespanha, o 
monopólio dos metaes caros, das pedras preciosas, da pesca 
das pérolas, e do âmbar, incluía excellentes artigos regula- 
mentando a pesca e a caça, bem como a distribuição pelos 
colonos das terras, livres de qualquer ónus nos cinco pri- 
meiros annos ; e determinava as attribuições judiciarias do 



74 

Conselho Politico. Nas causas criminaes, julgadas pelo 
Conselho pleno, tribunal a que estavam sujeitos os pró- 
prios militares com a intervenção do governador e do 
general (commandante em chefe da esquadra), recommen- 
dava-se benevolência, na certeza de que a criminalidade 
avultaria na colónia; nas causas eiveis, julgadas por trez 
commissarios do Conselho nomeados cada trez mezes, e de 
cujas decisões se podia appellar para o Conselho pleno, 
aconselhava-se brevidade, o que era um adiantamento em 
terra de delongas forenses. 

A guerra effectivamente proseguio com maior energia 
depois da vinda dos emissários da Companhia. Aprovei- 
tando os dois mil e novecentos soldados hollandezes, muitos, 
invasores do primeiro dia e outros, substitutos dos licen- 
ciados, reunidos n' esse momento em Pernambuco (Netscher), 
os directores extenderam-se pela várzea, oceupando Afoga- 
dos e levantando um forte nas proximidades do Arraial, 
que infruetiferamente assaltaram, morrendo na acção o 
coronel Rembach, suecessor de Weerdenburch apóz a re- 
tirada d' este para a Europa; atacaram Itamaracá, renden- 
do-se á mingua de defeza o governador Salvador Pinheiro 
a Sigismundo von Schkoppe; e realizaram com felicidade 
intermittente outras expedições de menor importância, ze- 
losamente contrariadas pelos portuguezes, entre os quaes 
se via batalhando com denodo uma companhia negra capi- 
taneada pelo famoso Henrique Dias. Em Dezembro de 
1633 van Ceulen, que assistira á tomada de Itamaracá, 
tentou negocio de maior monta — apoderar-se do Rio 
Grande do Norte. Conseguio realizar o seu intento com 
dez navios e oitocentos homens de desembarque (Netscher), 
além do auxilio dos Índios, senhoreando-se do forte portu- 
guez cujo governador morreu na peleja, e mudando-lhe o 
nome de Reis Magos para o próprio, Ceulen, depois de 
excessos vergonhosos em que rivalizaram hollandezes e 
selvagens. Pouco antes o companheiro, Gysselingh, acom- 
panhado pelo infallivel Calabar e pelo almirante Lichthardt, 
fizera uma rendosa correria nas Alagoas, assolando as 
villas nascentes, arrebanhando os gados e arrecadando os 
assucares; augmentando d' est' arte a preza recolhida pelos 



75 

navios que bordejavam na costa á caça das embarcações 
mercantes hespanholas e portuguezas. Para oppôr uma 
decidida resistência á crescente prosperidade inimiga, não 
contava Mathias de Albuquerque com mais do que mil e 
duzentos homens de tropas regulares, incluindo-se n' este 
numero os hespanhoes e napolitanos (Fernandes Gama). 

Em meados de 1633 chegaram ao Arraial cento e 
oitenta ilhéos, que com duzentos que ficaram na Parahyba 
puderam escapar á perseguição dos navios hollandezes. 
Soccorro avultado, em vão se esperava. Os recursos da 
Hespanha, nota judiciosamente Cánovas dei Castillo, nunca 
estiveram em proporção com as múltiplas e vastas emprezas 
em que o paiz a'ndava mettido, e d' este enorme desequi- 
librio nasciam, por um lado os felizes successos das armas 
inimigas, e por outro a penúria da fazenda, já chronica 
n' uma terra em grande parte de terrenos baldios, devastada 
por guerras intestinas de séculos, e na qual coexistiam em 
poucas cidades prosperas levantadas em áridas e despo- 
voadas campinas, uma aristocracia soberba, um clero 
faustoso e uma plebe miserável. Castella com o seu pe- 
queno numero d'habitantes, fraquíssimos contingentes de 
exercito nos podia pois oíferecer. Basta dizer-se que em 
meados do século XVI apenas militavam fora da Peninsula, 
repartidos por diversos exércitos e guarnições, uns vinte 
mil hespanhoes, que mal pagos, mal vestidos, e mal ali- 
mentados, como nol-os descreve Cervantes, sustentaram 
durante dois séculos pela sua firmeza, resignação, e bra- 
vura pessoal, o renome europeu dos terços hespanhoes e 
constituíram o typo dominante da milícia do tempo. 

Dois annos antes, ainda não sendo de regresso D. An- 
tónio de Oquendo, ordenara Filippe IV o armamento em Por- 
tugal de uma nova esquadra destinada á defeza do Brazil, e 
renovara essa ordem quando voltou o almirante hespanhol ; 
oíferecendo para os gastos, de sua própria e desfalcada 
renda, quinhentos mil cruzados annuaes. Outro tanto de 
renda fixa, recommendava o monarcha que se obtivesse 
por meio do estanco do sal, extensivo ao Brazil, e de um 
empréstimo. Da sugada Lisboa porém, onde já assomavam 
velleidades de rebeldia, fizeram-lhe por tal forma ouvidos 



76 

de mercador, provavelmente também porque na carta régia 
se mandavam suspender na quarta parte todas as tenças 
e rendas da Coroa, commendas e mercês redituaes feitas 
pelos soberanos, as quaes, diz o historiador Rebello da Silva, 
absorviam o melhor dos rendimentos públicos: que em 
Setembro de 1633 Filippe IV se via obrigado a escrever 
uma nova carta a todas as camarás municipaes. N' este 
documento, publicado por Varnhagen nas suas Lutas dos 
Hollandezes no Brami, o rei tão facilmente appellidado de 
inepto e desdenhoso das cousas publicas, declara applicar 
todos os annos para o apresto das armadas portuguezas, 
um milhão das rendas castelhanas; pedindo que algum 
sacrifício também fizesse Portugal pelas suas colónias, reu- 
nindo-se adrede procuradores das cidades e villa de San- 
tarém, do clero e da nobreza. Comtudo nem soldados nem 
dinheiro acudiram ás suas instantes solicitações, nas quaes 
os portuguezes diziam ter perdido toda a confiança, apezar 
de ellas serem portadoras de vantagens e facilidades, e os 
hollandezes puderam proseguir as suas tentativas, quasi 
sempre venturosas. 

Repellidos na Parahyba, para onde tinham seguido 
com vinte embarcações e mil e quinhentos soldados (Net- 
scher), o director Gysselingh, o almirante Lichthardt e o 
commandante von Schkoppe atacaram o forte do Pontal no 
Cabo de Santo Agostinho, occupando-o máu grado os soc- 
corros do Arraial trazidos pelo próprio Mathias de Albu- 
querque; graças ainda ao engenho do Calabar que, con- 
duzindo as lanchas apinhadas de soldados e não logrando 
effectuar na costa o desembarque convencionado, descobriu 
nos arrecifes, um pouco mais ao sul, passagem para a 
juncção das forças hollandezas, as quaes por táctica se 
haviam separado, havendo já os navios forçado a barra e 
conseguido attingir o Pontal. forte de Nazareth conti- 
nuou em poder dos portuguezes, senhores ainda da barra 
mas impossibilitados de pôr cobro ás correrias devastadoras 
do inimigo que, destruindo os cannaviaes e as casas de 
engenho, arruinava aos poucos a risonha agricultura da 
capitania. A chegada nos meados de 1634 de successivos 
reforços e munições, os últimos vindos com Artichofsky, 



77 

que fora á Hollanda buscar a sua patente de coronel, ele- 
vou as forças de terra bátavas a mais de quatro mil sol- 
dados, e as navaes a quarenta e duas naus e bergantins 
com mil e quinhentos homens de tripulação (Netseher). 
Entregue de novo a administração ao Conselho Politico e 
embarcados para a Hollanda os dois diligentes directores 
com uma bôa carga de assucar e páu brazil, Lichthardt, 
von Schkoppe e Artichofsky formaram nos fins do anno 
uma nova e mais solida expedição á Parahyba. Mais feliz 
do que as anteriores, esta expedição poude arrancar aos 
portuguezes toda a capitania, cercando o forte do Cabe- 
delo depois de um impetuoso desembarque, tomando-o jun- 
tamente com as outras fortificações que defendiam a en- 
trada do porto, occupando vencedora a cidade, nova Fre- 
derikstad, e deportando para outras possessões hespanholas 
fora do Brazil, quasi todos os soldados das guarnições 
estacionadas na terra. m 

Já trez capitanias do Brazil se achavam em poder dos 
hollandezes — Rio Grande do Norte, Parahyba e Itama- 
racá, e em Pernambuco a occupação portugueza limitava- 
se ao Arraial, ao forte de Nazareth e ao actual estado das 
Alagoas, defendido em Serinhaem por Mathias de Albu- 
querque. O Arraial tinha sido por vezes investido, sobre- 
tudo depois de uma audaciosa tentativa de Martim Soares 
Moreno contra o Recife, mas sempre resistira tenazmente: 
rendeu-se por fim com todas as honras da guerra a Arti- 
chofsky, que de volta da Parahyba e senhor de todo o 
norte de Pernambuco lhe poz cerco, levantando reductos, 
bombardeando-o, e mais que tudo minando-o pela fome e 
falta de munições. Sigismundo von Schkoppe entretanto 
impedia Mathias de Albuquerque e Bagnuoli de soccorrerem 
o seu velho acampamento , e depois d' este conquistado, 
apertava fortemente o cerco de Nazareth, capitulando a guar- 
nição commandada por Pedro Corrêa da Gama e Luiz Bar- 
balho quasi um mez depois da do Arraial. Os dois gene- 
raes, o brazileiro e o napolitano, viram-se forçados a descer, 
retomando Mathias antes da chegada de Artichofsky, e 
graças á presença de espirito e dissimulação do morador 
Sebastião do Souto, que enganou os hollandezes quanto ao 



78 

numero dos assaltantes portuguezes, a povoação de 
Porto do Calvo, da qual Lichthardt se apoderara quatro 
mezes antes. Era-lhe porém impossível manter-se n' essa 
posição, e, destruídas as fortificações, garrotado o Calabar, 
que o major Picard entregou no momento da capitulação, 
o animoso chefe pernambucano continuou a sua sombria 
retirada com um punhado de soldados fatigados e des- 
coroçoados e os incançaveis auxiliares de Camarão e Hen- 
rique Dias, elle próprio exhausto de uma guerra quotidiana 
e que durava havia cinco annos. Na sua vanguarda levava 
sete a oito mil pernambucanos que fugiam ao dominio 
extrangeiro, deixando propriedades, amigos, a quietação do 
lar e os suaves effluvios do solo natal. Passaram todos 
torturas no doloroso caminhar do exilio, por entre as flo- 
restas densas, sob as chuvas torrenciaes da estação, tendo 
que cruzar rios caudalosos; foram innumeras as horas de 
fome, as horas de desalento, as horas de medo, emquanto 
lhes ia no encalço Artichofsky com os seus soldados bê- 
bados de gloria, farejando o roubo dos carros que com- 
boiava Mathias. O official polaco parou todavia em Peri- 
pueira, onde levantou uma fortaleza. 

Entretanto os pernambucanos acouta vam-se na Alagôa 
do sul, esperando ahi o tão fallado auxilio da Hespanha, 
que chegou afinal sob a forma de mil e setecentos sol- 
dados castelhanos e doze canhões, vindos n' uma esquadra 
que trazia a bordo o novo governador geral do Brazil D. 
Pedro da Silva. O reforço era commandado por D. Luiz 
de Rojas y Borja, das nobres casas ducaes de Gandia e 
Lerma, e gentilhomem que se havia batido em Flandres, 
indo de encontro á tradição da nobreza do seu paiz, a qual 
trocara os campos de batalha pelos salões do Alcazar dos 
Filippes, desde que a guerra se deslocara para o norte da 
Europa, e que Carlos V mostrara favorecer os generaes 
flamengos. D. Fradique de Toledo, desafiando o temivel 
desagrado do condeduque, recusara a missão, a menos que 
lhe não concedessem os doze mil homens que julgava in- 
dispensáveis para expulsar os hollandezes, sendo por este 
facto lançado n' uma prisão. A Hespanha era na verdade 
impossível mandar á America soccorro mais numeroso. 



79 

A victoria de Nõrdlingen, ganha em 1634 pelos hespanhoes 
e austríacos sobre os protestantes suecos e allemães, levara 
a França a declarar guerra a Filippe IV, e em Flandres o 
governador, cardeal infante, um dos vencedores de Nõrd- 
lingen, via -se em lucta diária, de fortuna inconstante, 
contra os hollandezes que, fortes com o auxilio de Riche- 
lieu, não se tinhão de bôa vontade prestado ás negociações 
de uma nova trégua. Não só faltavam soldados como 
meios, sendo tal a penúria do thesouro que ao romper a 
guerra com a França em 1636, muito embora o rei, man- 
tendo a prodigalidade paterna, enriquecesse com telas pre- 
ciosas as suas galerias e protegesse largamente pintores e 
escriptores, se reduziram os gastos de vestuário e meza 
do cardeal infante. 

Desembarcaram os hespanhoes em Jaraguá, nas Ala- 
goas, ao começar o anno de 1636, e o mestre de campo 
general D. Luiz de Rojas y Borja, portador da demissão 
de Mathias de Albuquerque, bode expiatório das infelici- 
dades militares dos portuguezes, deixando Bagnuoli em 
Santa Luzia com a artilheria e bagagens, avançou com 
sua gente na direcção de Porto do Calvo, logo abandonado 
por von Schkoppe, o qual recolheu-se ao Recife, ordenando 
a Artichofsky de vir em auxilio d' aquelle ponto com os 
mil e trezentos soldados a que commandava. O ardente 
hespanhol entrou na povoação, congregando - se logo os 
moradores que andavam fugidos pelas mattas, e sabendo 
da jornada do coronel polaco, sahiu-lhe ao encontro, tra- 
vando-se aos 18 de Janeiro uma batalha campal, verda- 
deiramente a primeira d' essa prolongada campanha carac- 
terisada pelos sítios, como a dos Paizes Baixos. 

A nobreza hespanhola, escreve com largos commen- 
tarios Marcos de Isaba, auctor do Cuerpo enfermo de la 
Milícia espafíola, escasseavam além da pratica, os princípios 
da arte militar, e por isso tão experimentados eram os 
ooroneis dos terços, como pouco hábeis na generalidade os 
generaes, herdeiros sempre de illustres nomes. Pretexta- 
vam os fidalgos para colorir o fervor com que, em vez de 
pelejarem, disputavam em Madrid os rendosos vice-reinados 
da Europa e da America, que a guerra occasionava-lhes 



80 

grandes gastos, incompatíveis com as rendas dos seus 
morgadios, gastos que não eram compensados pelos sol- 
dos. Com razão ponderava o condeduque em uma con- 
sulta do Conselho de Estado que "para ir á la ocasión y 
tomar una pica no era necesario, ni mucho gasto, ni larga 
ausência, y cumplían con su obligación y daban muestras 
de sus- personas". Comtudo, accrescentava Olivares, força 
é distinguir as pessoas: "porque algunas están con gran 
satisfacción de si mismas, y estos será imposible que 
acierten á ser soldados, porque no admitiendo consejo, no 
se les puede encaminar; y otras que no tienen esta pre- 
sunción se les puede disponer á que aprendan." 

D. Luiz de Rojas entrava provavelmente na primeira 
classe: desprezando advertências, escutou apenas a sua 
intrepidez. Dispoz os seus soldados em numero de mil e 
trezentos, porque deixara trezentos e cincoenta em Porto 
do Calvo, como para uma das acções que testemunhara em 
Flandres. Os piques dos infantes não tinham porém em 
Matta Redonda que sustentar choque de cavalleiros, e os 
mosqueteiros inimigos, em esquadrões volantes, puzeram em 
debandada os arcabuzeiros auxiliares das lentas e cerradas 
companhias hespanholas, ficando Artichofsky senhor do 
campo, e pagando D. Luiz de Rojas com a vida a sua 
generosa loucura, "por não advertir quanto as temerárias 
acções que honrão hum soldado, desacreditão hum Gene- 
ral" (Brito Freyre, ob. cit.). Camarão, dizem os contem- 
porâneos, cobriu com os seus Índios a desordenada retirada 
dos bisonhos castelhanos, cuja pouca solidez era especial- 
mente filha da inexperiência, commum a um paiz em que 
o serviço militar fazia- se todo com voluntários, sem a 
escola pratica das milícias, e que não tinham a animal-os 
alguns dos bons veteranos de Flandres, da Allemanha ou 
da Itália. 

Assumiu Bagnuoli o commando em chefe do exercito, 
si é que mereciam este pomposo titulo as poucas forças 
que o rodeavam, e, familiar com as condições da guerra 
brazileira, renovou o systema das correrias e emboscadas 
posto em pratica por Mathias de Albuquerque. Generalizou- 
se a tal ponto o uso das guerrilhas, que durante todo o 



81 

anno de 1636, Pernambuco e a Parahyba viram-se entre- 
gues á mais cruenta bacchanal, da qual capitães brazileiros, 
como André Vidal de Negreiros, Sebastião do Souto, o 
Rebellinho e Estevão de Távora, índios de Camarão e 
negros de Henrique Dias, participaram gostosamente. Ca- 
marão chegou até Goyanna, batendo Artichofsky que viera 
encontral-o e que soffreu não pequenas perdas no combate. 
Quatro mil pernambucanos quizeram seguir o atrevido chefe 
petiguar em sua volta para as Alagoas, "sendo impossível 
a muitas destas famílias chegarem a se unir com as pri- 
meiras, faltas de comboy; pela ignorância, asperesa e di- 
lação de tão comprido caminho, se lhes acabou todo o 
sustento, com que forão padecendo, cahindo, e espirando 
irreparavelmente, até chegarem a Porto Calvo; por alguns 
daquella funesta marcha que hião chegando, os tristes 
gemidos de quantos agonisavão entre os matos" (Brito 
Preyre, ob. cit.). O chronista ajunta que Bagnuoli mandou 
logo soldados e mantimentos, "que foi o único remédio 
para não acabar de perecer tanta gente". 

Os hollandezes defendiam -se das correrias quanto e 
como podiam, ajudados por bandos de indios amigos. Os 
bugres, conta frei Manoel Calado, "esquadrinhavão os ma- 
tos, por entre os quaes muitos moradores estavão escon- 
didos com suas famílias, e alli os matavão, e roubavão, 
não perdoando a molheres, nem a meninos, e fazendo com 
toda a casta de molheres, assi elles, como os Flamengos 
outros desaforos, que não he licito por honestidade, e por 
não offender os ouvidos fieis, de que sejão escritos". Os 
europeus, não menos selvagens, "sospeitando que os mora- 
dores terião dinheiro, ou joyas de ouro, ou prata de manos 
a boca lhe levantavão falsos testimunhos, e os acusavão 
de traidores, e lhe davão cruéis tormentos, metendolhe os 
pés em azeite, e breu fervendo, e a outros enforcandoos 
por os braços, ou por os pés, e a outros metendolhe os 
dedos nos fechos das clavinas, até que obrigados dos tor- 
mentos davão o que tinhão, e prometião o que não tinhão; 
e a muitos dos moradores enforcarão, degolarão, e arca- 
buzearão sem outra causa mais que de os roubarem". 
Ainda é mais lúgubre, si possível, o quadro traçado por 

Lima, Pernambuco. 6 



82 

frei Raphael de Jesus. Escreve o frade que "do roubo se 
não isentou morador algum e do martyrio poucos", e 
ajunta horripilado pormenores das torturas: os açoites in- 
famantes, o alcatrão fervente, as agulhas espetadas entre 
as unhas e a carne, as taboas repassadas de agudos pre- 
gos comprimindo e perfurando os miserandos, cujos corpos 
opulentavam os banquetes dos indígenas, restituidos á 
liberdade e novamente sacudidos pelos hollandezes na 
anthropophagia. Netscher calando estas infâmias, diz acci- 
dentalmente que von Schkoppe era dur jusqtfà la cruauté; 
mas Pierre Moreau, sem razões de patriotismo para passar 
uma esponja por cima das crueldades bátavas, ao historiar 
as causas da posterior sublevação brazileira, confirma o 
testemunho dos chronistas portuguezes, indicando que a 
Companhia, como aliás hoje soem praticar no interior da 
Africa nações retintamente civilizadas, comprava aos sel- 
vagens as prezas ainda ensopadas de sangue a troco de 
tabaco, vinho, aguardente e bugigangas. (Hist. des der- 
niers troubles du Brésil.) 

Dos escravos pretos, muito numerosos porque o trafico 
africano tinha sempre augmentado pelas necessidades da 
lavoura, muitos refugiavam-se, cada vez em maior escala, 
no quilombo dos Palmares, contribuindo com suas depre- 
dações para a funda desorganização social das capitanias 
portuguezas, empolgadas por descaroaveis invasores, victi- 
mas da mais desbragada desordem, arquejando sob o im- 
pério da pilhagem e do assassinato. "Era como se cada 
qual aspirasse a ser senhor de um império deserto" (Frei 
Raphael de Jesus). 

IX 

A Companhia não convinha a prolongação de seme- 
lhante anarchia. Até então, o Brazil não tinha sido para 
ella mais do que um campo de rapina, e a associação fun- 
dada pelo espirito ardente de Usselincx aspirava á con- 
quista moral dos territórios que saqueara; comprehendendo 
que a paz e os consequentes benefícios do commercio eram 
vantagens bem mais apreciáveis do que as cargas apre- 



83 

zadas e os roubos legalizados, embora a somma por tal 
forma obtida já excedesse trinta milhões de florins. A lucta 
custava porém rios de dinheiro, e com os 806 navios 
aprestados e 67.010 marinheiros e soldados engajados para 
sustental-a nos últimos treze annos, despenderão-se mais 
de quarenta e cinco milhões de florins : o deficit ameaçava 
portanto abafar os poderosos interesses da Companhia, e 
força era pôr-lhe cobro. Com a anterior superintendência 
dos dois directores, a guerra, como vimos, activara- se 
muito, e seguindo n' este raciocínio, julgaram os XIX que o 
que mais poderia convir n' aquella occasião, seria a presença 
em Pernambuco de um governador geral, nobre, intelligente 
e bravo, que orientasse a nova colónia no caminho do 
desenvolvimento material e da organização politica. Pre- 
sidiria elle a um conselho secreto de trez membros, o qual 
compartilharia, vigiaria e limitaria a sua auctoridade, per- 
manecendo o antigo Conselho Politico como auxiliar da 
administração, cousa de que, segundo Moreau, tinha todavia 
mostrado entender menos que de negócios, e sobretudo 
como distribuidor da justiça. A plutocracia bátava, re- 
centemente desafogada, mostrava-se ciumenta dos direitos 
que alcançara, mas não levou n' esse momento a sua des- 
confiança ao ponto de não escolher para seu delegado no 
Brazil um membro da família do stathouder, o conde João 
Maurício de Nassau-Siegen. 

Era o novo governador quasi um rapaz, pois contava 
somente trinta e dois annos; educado, como todos os Nas- 
saus, nas universidades hollandezas e suissas, "focos de in- 
tensa cultura intellectual e da máxima liberdade scienti- 
fica". Ahi, bebera o leite fecundo, revolucionário e sen- 
sualista da Renascença, e a guerra, aprendêra-a pelejando 
sob as ordens dos seus illustres parentes Maurício e Fre- 
derico Henrique, tomando parte em alguns dos mais re- 
nhidos combates e dos mais difficeis cercos da longa cam- 
panha dos Paizes Baixos, depois da trégua dos doze annos. 
Ambicioso, como cumpria a um espirito do seu quilate; 
pródigo, como se era n' aquella epocha de rejuvenescimento 
artístico; vendo limitada na pátria a sua fortuna a um 
posto de general ou a um cargo de governador, Maurício 



íí* 



84 

acceitou com enthusiasmo a quasi soberania que lhe era 
offerecida n' um paiz de além mar, e os pingues vencimen- 
tos com que a Companhia se compromettia a retribuir os 
seus serviços. Embarcou com uma comitiva mais espiri- 
tual do que bellicosa, na qual se viam o ministro evan- 
gélico Plante, latinista e poeta; o medico e naturalista 
Piso, de Leyde; o botânico Marcgraf; o mathematico e 
geographo Cralitz, e o pintor Franz Post, saltando no Re- 
cife, pais, como elle logo escreveu, des plus beaux du monde, 
aos 23 de Janeiro de 1637. 

A guerra reclamava-o comtudo antes da administração, 
e não podia Maurício continual-a em melhor occasião do 
que n' essa, em que as forças da Companhia reunidas no 
Brazil, subiam a seis mil e cem homens, entre soldados e 
marinheiros. Apezar de estar-se no verão, epocha na qual 
os hollandezes naturalmente mais soariam do clima sob o 
pezado serviço militar, o conde de Nassau partiu logo para 
as Alagoas com quatro mil e quatrocentos homens, inclu- 
indo um troço de Índios, em busca de Bagnuoli, que con- 
tava com quasi igual numero de soldados (carta de Mau- 
rício aos Estados Geraes da Hollanda datada de 3 de Feve- 
reiro de 1637). Encontrou-se o príncipe na margem do 
Comendatuba com as forças destacadas pelo general 
napolitano, e, batendo-as com relativa facilidade máu grado 
a extremada defeza dos portuguezes, em cujas fieiras se 
viram combater mulheres, diz Netscher, querendo referir-se 
entre outras a D. Clara Camarão, cazada com o esforçado 
indio que infatigavelmente pelejava em todos os encontros, 
assaltando e assolando nos intervallos dos combates as 
propriedades e terras do inimigo, poz cerco a Porto do Calvo. 
Estava o lugar defendido somente por Giberton, um ex- ' 
perimentado soldado das guerras de Flandres, porque Bag- 
nuoli, deixando degenerar em pânico a sua proverbial pru- 
dência, que tão precioso o tornava para as retiradas diffi- 
ceis, e esquecendo as licções de fortificação que recebera 
de Spínola na guerra dos Paizes Baixos, abandonara o 
posto, fugindo com parte do exercito para Sergipe, arras- 
tando o pobre donatário de Pernambuco que havia seis 
annos assistia silencioso, redigindo um minucioso diário, 



85 

ás desventuras do seu feudo, sem poder dar-lhes remédio, 
e governando menos, elle, o senhor, o neto do altivo Duarte 
Coelho, do que qualquer capitão de emboscadas. Depois 
de ter feito capitular Giberton e prohibido o saque da po- 
voação, o conde de Nassau continuou a sua marcha descen- 
dente sem poder alcançar Bagnuoli, que não eífectuára 
com lentidão a sua retirada; apoderou-se do Penedo; atra- 
vessou o São Francisco; e, voltando para traz, levantou 
junto do Penedo o forte Maurício, estabelecendo esse rio 
magestoso como o limite sul do Brazil Hollandez. 

A von Schkoppe ficou confiada a guarda da fronteira; 
quanto a Artichofsky, mandou-o o governador geral re- 
gressar para a Hollanda, por ter-se desavindo com elle. 
A Maurício desagradaria provavelmente ter tão perto de si 
um official ambicioso, reputado pela sua valentia e talento 
militar, e demais de um espirito cultivado. Frei Manoel 
Calado, que conheceu Artichofsky nas Alagoas, diz que 
elle era "um bom latino, fallando a lingua de Cicero dis- 
creta e eloquentemente"; Barlaeus, o chronista do conde 
de Nassau, escreve textualmente: "tribunitia dignitate Ar- 
tisoskius, militaris ingenii vir et operum preclaras"; e o 
sfir. D r José Hygino cita no relatório de sua viagem, trez 
documentos que encontrou da penna do official polaco, dois 
escriptos sobre a riqueza e colonização do Brazil Hollandez 
e a liberdade do commercio, e uma memoria justificativa, 
nos quaes Artichofsky se revela escriptor claro e elegante. 
O que satisfazia ao príncipe eram militares como von 
Schkoppe, sabendo manter a disciplina nas fileiras e atacar 
com denodo o inimigo, sem oífuscar-lhe a superioridade 
de guerreiro e de politico. 

Esta segunda superioridade, evidenciou -a Maurício 
nos annos seguintes ao seu regresso ao Recife, ponto por 
elle definitivamente escolhido para capital da possessão 
neerlandeza e que, tendo encontrado pequena povoação, 
deixou com mais de duas mil casas. Da ilha de António 
Vaz o governador geral fez o centro da cidade — a Mau- 
rítzstadt dos hollandezes — , ligando-a por meio de pontes 
com os actuaes bairros do Recife e Bôa Vista, "e lhe trouxe 
a entrar por o meio delia, por um dique, ou levada, a agua 



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do Rio Capivaribe a entrar na barra, por o qual dique en- 
travão canoas, bateis e barcas para o serviço dos mora- 
dores por debaixo das pontes de madeira, com que atra- 
vessou em algumas partes este dique a modo da Olanda" 
(Frei Manoel Calado, ob. cit.). Na ilha ordenou também a 
construcção dos seus dois palácios, assistindo a todos os 
trabalhos como qualquer mestre d' obras. À architectura 
civil hollandeza fez assim a sua entrada n' um paiz onde 
a arte, dirigida pelos jesuitas, sempre obedecera á preoc- 
cupação religiosa, e testemunhava nos templos regulares e 
banaes e nos pezados ornamentos doirados a falta de senso 
esthetico da Ordem. Maurício de resto tinha uma affeição 
particular pelas artes. As tradições da terra natal haviam- 
n' o educado n' este culto respeitoso, e elle próprio era do- 
tado de uma intelligencia brilhante, de uma imaginação 
viva, de um temperamento expansivo. Adorava os edifí- 
cios, os quadros, as esculpturas, não desamparando com- 
tudo o recato hollandez pela exuberância flamenga. Quando 
partiu da Hollanda, deixou levantando-se sob a direcção 
do architecto Pieter Post, irmão do seu pintor, o elegante 
palacete da Haya onde hoje está installado o museu de 
pintura, debruçado sobre o risonho Vijvier, delicioso lago 
situado no centro da cidade, e ao qual uma ilhota que é 
um massiço de verdura e um bando de cysnes augmen- 
tão a graça e a frescura. Na ilha de António Vaz vemos 
que logo cuidou em construir Vrijburg e Schoonzigt — 
Sem cuidado e Bella Vista — , conforme appellidou as duas 
habitações cujos desenhos nos foram conservados na pre- 
ciosa obra de Barlaeus, publicação monumental das que 
timbravam em editar os livreiros dos Paizes Baixos, ver- 
dadeiros artistas mais do que homens de negocio, como a 
dynastia dos Plantin-Moretus, de Antuérpia. 

Eram ambas as residências, edifícios sem as audácias 
da architectura gothica, correlativa com uma epocha de 
mysticismo e arrojo mental já desapparecida: grandes, 
commodos, realistas como toda a arte hollandeza, as per- 
feitas moradias de um bom senhor batavo que procura o 
conforto e a independência. Vrijburg custou seiscentos mil 
florins, e estava prompto dois annos depois da chegada do 



87 

governador geral. Rodeava a casa que com suas duas 
altas torres se erguia entre palmeiras, um sitio com cen- 
tenares de coqueiros, laranjeiras, bananeiras, romanzeiras, 
videiras, castanheiros e outras arvores de fructo, horta 
copiosa, jardim encantador, cavallariças com bons animaes, 
pombal, collecções zoológicas e viveiros de saborosos peixes. 
Eis como esse sitio é descripto por frei Manoel Calado, 
amigo pessoal do conde de Nassau, cujo trato insinuante 
a todos captivava, não se contando um único chronista, 
mesmo desaffecto, que ouse macular-lhe a memoria: "No 
meio daquelle areal estéril e infrutuoso plantou hum jardim, 
e todas as castas de arvores de fruito que se dão no Brasil, 
e ainda muitas que lhe vinhão de differentes partes; e a 
força de muita outra terra frutífera, trazida de fora em 
barcas rasteiras, e muita soma de esterco, fez o sitio tão 
bem acondicionado como a melhor terra frutífera; poz neste 
jardim dous mil coqueiros, trazendoos alli de outros lugares, 
porque os pedia aos moradores, e elles lhos mandavão 
trazer em carros, e delles fez humas carreiras compridas, 
e vistosas, a modo da alameda de Aranjues, e por outras 
partes muitos parreiraes, e taboleiros de ortaliça, e de 
flores, com algumas casas de jogos, e entretenimentos, 
onde hião as damas e seus affeiçoados a passar as sestas 
no verão, e a ter seus regalos, e fazer suas merendas, e 
beberetes, como se usa em Olanda, com seus acordes ins- 
trumentos; e o gosto do Príncipe era que todos fossem ver 
suas curiosidades, e elle mesmo por regalo as andava mos- 
trando, e para viver com mais alegria deixou as casas 
onde morava, e se mudou para o seu jardim com a maior 
parte dos seus criados. 

Também alli trazia todas as castas de aves, e animaes 
que pode achar, e como os moradores da terra lhe conhe- 
cerão a condição, e o apetite, cada hum lhe trazia a ave, 
ou animal exquisito que podia achar no sertão, alli trazia 
os papagaios, as araras, os jacys, os canindés, os jaburys, 
os motuns, as galinhas de Guiné, os patos, os cirnes, os 
pavoens; de perus, e galinhas grande numero, tantos pom- 
bos, que não se podião contar, alli tinha os tigres, a onça, 
a cissuarana, o tamanduá, o bugio, o quati, o sagoim, o 



88 

apereá, as cabras do Cabo Verde, os carneiros de Angola, 
a cutia, a paqua, a anta, o porco javali, grande multidão 
de coelhos, e finalmente não avia cousa curiosa no Brasil 
qui alli não tivesse, porque os moradores lhas mandavão 
de boa vontade, por a boa inclinação que vião de os fa- 
vorecer, e assi também lhe ajudarão a fazer as suas duas 
casas, assi esta do jardim aonde morava, como a da boa 
vista sobre o capivaribe aonde hia muitos dias passeando 
a se recrear, porque huns lhe mandavão a madeira, outros 
a telha, e o tijolo, outros a cal, e finalmente todos o aju- 
darão no que puderão; e elle se mostrava tão agradecido, 
e favorecia de sorte aos Portugueses, que lhe parecia que 
tinhão nelle pai, e lhe aliviava muito a tristeza, e dor de 
se verem cativos." 

Em um jardim de tão preciosas collecções, enrique- 
cidas ainda pelas viagens emprehendidas por Piso e Marcgraf 
ao interior do Brazil Hollandez, encontravam os sábios e 
artistas da comitiva do governador ampla matéria para 
seus estudos e pinturas. Maurício, dizia Piso com enthu- 
siasmo, Jembra Alexandre Magno fornecendo a Aristóteles 
os materiaes para seus trabalhos. Com effeito, o jardim 
do príncipe por si só podia ter fornecido o assumpto, não 
somente dos livros de historia natural dos dois citados es- 
criptores, livros que conservam hoje a primitiva importân- 
cia, como dos numerosos desenhos e quadros que o prín- 
cipe, de envolta com seus lauréis, carregou para a Haya. 
Esta collecção antes de sua morte se dispersou, em mo- 
mentos de aperto pecuniário, parte vendida ao eleitor de 
Brandeburgo, parte interesseiramente oíferecida a Luiz XTV, 
o qual no emtanto, herdeiro do tibio gosto artístico de 
Luiz XIII, mostrava pouca inclinação para conhecedor de 
pinturas, zombando por exemplo como de "affreux magots" 
dos personagens de um tão decidido realismo que povoam 
as telas de David Teniers. Quando mesmo se perdessem 
aquellas producções artísticas, bastariam para abonar a 
memoria do illustre protector das sciencias e artes, as ob- 
servações astronómicas, de geographia mathematica, zoo- 
lógicas, botânicas, climatológicas, hygienicas, ethnographi- 
cas e outras, recolhidas pelo medico Piso e pelo infeliz 



89 

Marcgraf que, victima da sua nobre curiosidade, falleoeu 
em Loanda de uma febre. 

A casa de Vrijburg não destoava do jardim na cor 
local tão prezada do dono. Em vez das tapeçarias flamen- 
gas, grandes telas de Post e seus companheiros, pois que 
o conde tinha seis pintores ao seu serviço, representando 
"em tamanho natural os homens e os mais notáveis indi- 
víduos da fauna e da flora do Brazil"; em lugar dos mo- 
veis delicadamente entalhados, cinzelados como preciosi- 
dades de ourivesaria, dos bahús de coiro e missanga, dos 
cofres de cobre com incrustações de madrepérola, espalha- 
dos por toda Flandres, "cadeiras, mezas e consolos feitos 
de marfim da costa d' Africa e de madeira do Brazil" (re- 
latório do sfir. D r . José Hygino). A Hollanda far-se-hia 
comtudo lembrada nas faianças de Delft, imitadas das ja- 
ponezas em suas paizagens fantasiosas e em seus animaes 
grotescos; nos vidros caros como os de Veneza, coloridos, 
doirados, gravados á agua forte, desenhados á ponta de 
diamante; nas miniaturas, marfins, esmaltes e filigranas de pa- 
ciente execução; nos utensilios caseiros, tenazes, bules, almo- 
farizes, etc, burilados com arte; nas taças e chavelhos ornamen- 
tados a oiro e prata, que convidavam ás libações amistosas. 

Além de ser um fino epicurista, Maurício sentia-se bem 
entre nós, porque ficara positivamente enamorado da terra. 
Fascinava-o a natureza tropical. Da sua viagem ás Ala- 
goas e da sua subida pelo caudaloso São Francisco, trouxera 
impressões magnificas de viajante e de administrador, que 
se reflectem em suas cartas ao stathouder e nas instancias 
que fazia para que lhe mandassem colonos laboriosos e 
morigerados, os quaes cultivassem as lindas terras virgens 
que elle acabava de atravessar, e aproveitassem a fertili- 
dade excepcional d' esse formoso paiz por onde elle va- 
gueara, absorto pelo canto das aves, pelo ruido das ca- 
choeiras, pela opulência da vegetação, pelo brilho do sol, 
pela seducção imperiosa da belleza e da força. Franz Post 
era o principal encarregado de fixar na tela as paizagens 
que mais sorriam ao príncipe, e desempenhou sem enfado 
a sua missão, ornando Vrijburg com dezenas de quadros 
que, depois de transportados para a Mauritshuis da Haya, 



90 

faziam lembrar com saudades ao dono a sua grata resi- 
dência em Pernambuco. Em Hampton-Court e em Amster- 
dam vi quadros do pintor hollandez, risonhas paizagens 
pernambucanas com um fundo de montanhas azuladas, 
cuja base é frequentes vezes regada por crystallinos rios, 
destacando-se no primeiro plano entre coqueiros, casas de 
engenho tendo como única decoração um espaçoso alpen- 
dre; egrejas de singelo portal; fazendeiros a cavallo, os 
pés em pezados estribos portuguezes, abrigados do sol por 
largos chapéus, ou a pé, acompanhados de troços de es- 
cravos quasi nús, carregando liteiras ou panancuns com 
fructa. Meio escondidos entre as ramagens viçosas do ar- 
voredo, o artista collocou em um d' estes quadros, e, valha 
a verdade, sem respeito ás proporções, um tamanduá, uma 
preguiça, um tatu, alguns macacos, pássaros e insectos. 

A obra de reorganização politica do conde de Nassau 
foi valiosíssima: a justiça e a tolerância succederam sob 
o seu governo á desmoralização e ao fanatismo. Casti- 
gando os principaes culpados de mortes, roubos e mal- 
versações, deu satisfacção a queixas dolorosas e mostrou 
que ultra aequinoctialem a equidade não morria. Reprimiu 
os inqualificáveis abusos dos funccionarios que consentiam 
entre as tropas naturalmente indisciplinadas, a mais ver- 
gonhosa licença, com o fim de extorquirem aos soldados 
por turvos escambos o producto dos seus furtos de guerra. 
Protegeu compadecidamente os órfãos, os doentes, os po- 
bres, os indios e os escravos. Tolerante como os de sua 
família em matéria religiosa, talvez mesmo sceptico como 
os stathouders Guilherme e Maurício, detestando em todo 
o caso a theologia e a metaphysica, permittiu o livre exer- 
cício dos cultos catholico e judaico com todas as suas 
manifestações rituaes. Compenetrado de que a agricultura 
representava a grandeza e o futuro da colónia, fomentou-a 
largamente, vendendo em hasta publica os engenhos de 
assucar abandonados pelos emigrantes, com o que fez a 
Companhia lucrar uns dois milhões de florins. Procurando 
grangear a affeição dos vencidos, aos quaes fez um formal 
appello de adhesão, equiparou-os aos seus compatriotas nos 
direitos e deveres exarados na legislação neerlandeza, e 



_J 



91 

formou com elles companhias de milícias. Introduziu a 
honestidade na distribuição dos mantimentos ao exercito, 
e a regularidade na forma das permutas commerciaes. 
Consignou os princípios municipaes nas camarás de es- 
cabinos, com attribuições judiciarias de primeira instancia 
no eivei e no crime e appellação para o Conselho Politico, 
formadas em igual proporção por hollandezes e brazileiros, 
e presididas por um esculteto batavo, a um tempo, diz 
Varnhagen, delegado da administração, promotor publico 
e exactor da fazenda. Finalmente, arcando com a própria 
Companhia e com a grita dos interessados, indiíferente á 
rude polemica travada entre os mercadores hollandezes e 
os accionistas da empreza, defendeu e conseguio em 1638 
a liberdade de commercio e navegação entre o Brazil e a 
Hollanda, ficando o monopólio da Companhia restricto á 
importação de escravos e provisões de guerra e á expor- 
tação do páu brazil, e sendo limitadas as transacções de 
cada negociante na colónia a uma só carga annual. 

O animo liberal do conde de Nassau encontrava porém 
opposição no espirito rotineiro da Companhia, que sup- 
punha ter mandado para o Brazil um guarda-livros e via 
desabrochar um príncipe, e na intolerância calvinista, re- 
ceosa da influencia catholica dominante no grosso da po- 
pulação, e do desafogo dos numerosos israelitas attrahidos 
pelos bons lucros, e christãos novos que tinhão reabraçado 
a religião paterna. Os ministros protestantes promptamente 
exigiram, e alcançaram graças á benevolência que em 
Maurício haviam despertado os seus esforços para a con- 
versão e educação dos indígenas, sempre tratados com 
bondade pelos hollandezes, que aos romanos e judeus fosse 
tolhido o exercício exterior das respectivas religiões, prohi 
bindo-se as procissões catholicas e as cerimonias das syna- 
gogas. O calvinísmo ficou dominando como zelosa religião 
official, alienando os invasores o poderoso sentimento do 
reconhecimento de consciência dos vencidos. Pelo lado 
administrativo também assustava tanto modernismo ao 
Conselho Secreto, primitivamente composto dos honrados 
directores Ceulen, Gysselingh e van der Dussen; nem as 
boas e probas intenções mostradas por Maurício foram 



92 

posteriormente ajudadas pelos seus subordinados, a alguns 
dos quaes houve até que instaurar-se processo. As exacções, 
venalidades e despotismos d' estes agentes da Companhia 
constituiriam o outro dos motivos decisivos, que impelliram 
a colónia para o levantamento em prol de Portugal. 

No meio de tantas preoccupações de uma hábil ad- 
ministração, não poz Maurício de banda as operações mili- 
tares, que se succederam. Desejando assegurar á lavoura 
pernambucana um manancial perenne de trabalhadores 
negros, indispensável pela indolência e indisciplina dos 
bugres, aliás livres, mandou á costa da Guiné em 1637 
uma pequena expedição de nove navios e mil e duzentos 
homens, que se apoderou do forte da Mina, firmando-se os 
hollandezes n' um local excellente para o trafico de escra- 
vofe. Recommendou a Lichthardt que cruzasse com o resto 
da esquadra na costa do Brazil afim de perseguir as em- 
barcações hespanholas, no que o almirante cuidou attenta- 
mente, levando o seu zelo ao ponto de tomar a villa de 
São Jorge dos Hhéos, ao sul da Bahia. Deu ordem a von 
Schkoppe e ao conselheiro Gysselingh de atacarem Bagnuoli, 
que, internado em Sergipe com dois mil homens, relíquia do 
exercito de Porto do Calvo, fazia continuas incursões aquém 
do São Francisco. O general napolitano porém correra por 
entre as mattas sombrias, arrostando as fadigas da marcha 
e os perigos dos assaltos de indios e feras, "percorrendo 
distancias em muitas das quaes a constância abrio caminho 
por donde a natureza fechara o passo" (Brito Freyre, ob. 
cit.), afim de salvar a Bahia de um ataque eventual. Para 
não regressarem de uma viagem inútil, e seguindo as 
instrucções brutaes da Companhia, contra as quaes tanto 
se insurgia Maurício, as tropas hollandezas entraram em 
Dezembro de 1637 na capital da real capitania de Sergipe, 
destruindo-a, depois de devastados os campos e plantações 
e saqueadas as criações de gado. A pedido das tribus in- 
dígenas do Ceará, enviou ainda Maurício o major Garst- 
man tomar conta da pequena fortaleza portugueza d' essa 
capitania quasi abandonada, e comtudo rica em âmbar gris 
e sal, como o próprio Nassau informou os Estados Geraes 
em 16 de Novembro de 1637. 



O MESTRE DE CAMPO GENERAL 
PRÍNCIPE DE BAGNUOLT. 



93 

Uma febre violenta impediu por algum tempo o gover- 
nador geral de proseguir a consolidação armada da sua obra 
de colonização. Quando restabelecido, emprehendeu uma 
viagem pela Parahyba e Rio Grande, profícua para a sua 
saúde abalada e para o interesse d' essas terras assoladas 
pela guerra; e em Abril de 1638, obedecendo de contra 
gosto ás ordens dos XIX, intentou um ataque contra a 
Bahia. A Companhia, que se tornara em extremo parci- 
moniosa de reforços e munições, queria entretanto ver 
realizado o mais depressa possivel o velho sonho da occu- 
pação da capital brazileira, e instigava o seu delegado a que 
coroasse por tão brilhante forma os triumphos alcançados ; 
tanto mais quanto não era segredo que a Hespanha prepa- 
rava-se para soccorrer as possessões portuguezas da Ame- 
rica. Justamente no anno de 1638 escrevia o condeduque 
para Flandres ao cardeal -infante, que contava com es- 
quadras superiores á las que jamás había poseído Espana, 
incluso la Invencible; affirmação pouco chimerica, ac- 
crescenta Cánovas dei Castillo, porque eram com eflfeito 
numerosos n' esse momento os baixeis de Pilippe IV. 

Accedendo ás repetidas instancias dos directores, e 
tendo recebido informações favoráveis do estado de defeza 
da Bahia, e da pouca intelligencia que reinava entre 
Bagnuoli e o governador geral portuguez, embarcou Mau- 
rício trez mil e quatrocentos soldados e mil índios em 
trinta navios e fez-se de vela para o sul, desembarcando 
poucos dias depois sem resistência as suas tropas além de 
ítapagipe. Com igual facilidade o príncipe apoderou -se 
dos fortes que rodeavam a cidade, e começou esperançado 
o cerco. Por traz de trincheiras e reductos, construídos á 
pressa depois que Sebastião do Souto trouxera a noticia 
da expedição, por elle recolhida n' uma correria em terras 
de Alagoas, "pondo -se as mãos ao trabalho quando era 
tempo de meter os mosquetes ao rosto" (Brito Freyre, ob. 
cit.), se tinham concentrado as forças portuguezas, a prin- 
cipio desejosas de um encontro em campo raso com os 
invasores. Bagnuoli, a quem o governador geral, sacri- 
ficando rancores, nobremente entregara a defeza, oppuzera- 
se porém a semelhante idéa, escarmentado com o revez 



94 

de Porto do Calvo, como justamente observa Varnhagen. 
Dentro das fortificações, ainda que imperfeitas, os milicia- 
nos, já açulados pelos padres, e os soldados bisonhos da 
guarnição mais facilmente receberiam estimulo e coragem 
da gente aguerrida de Pernambuco, que havia oito annos 
servia tão dedicadamente, sem o mais magro soldo, os in- 
teresses da metrópole, cujos alforje e carruajem eram o 
hombro e a mochila, e cujos capitães — Luiz Barbalho, 
Sebastião do Souto, o Eebellinho, Estevão de Távora, An- 
dré Vidal de Negreiros, Henrique Dias e Camarão — esta- 
vam bem acostumados a terçar as armas com os bravos, 
enérgicos e calmos officiaes hollandezes. As tropas in- 
sufficientes trazidas pelo conde de Nassau não puderam 
desalojar os portuguezes, que somente soldados regulares 
tinham trez mil, das suas posições, nem mesmo impedir o 
abastecimento da cidade pelo interior, protegido quando 
não realizado pelas companhias de emboscadas, que demais 
difficultavam em extremo a construcção das plataformas e 
baterias inimigas. "0 Olandes para cortar quatro feixes 
de faxina para suas fortificaçoens lhe era necessário por 
muita gente em ala com as armas nas mãos, e nem tudo 
isso bastava, porque em se ouvindo a pancada da fouce, 
que cortava os ramos, logo também se ouvia o estrondo 
do arcabuz, ou espingarda, que com sua baila tirava a 
vida a quem o cortava" (Frei Manoel Calado, ob. cit.) Por 
mar também os sitiados recebiam mantimentos, que esca- 
pavam sem grande custo á vigilância da esquadra inimiga. 
Maurício, como já o fizera em Porto do Calvo, bateu-se 
no meio dos seus soldados. N' essa epocha em que 
Luiz XIV não havia ainda levantado os seus grandes exér- 
citos, a guerra, como já disse, fazia-se com forças dimi- 
nutas, e nos troços onde todos se conheciam, cada um 
queria rivalizar com os companheiros em serenidade e 
denodo. As batalhas não se resumiam em sabias par- 
tidas de xadrez, dispostas de antemão no silencio de um 
gabinete sobre cartas de campanha, combinações de estra- 
tégia e informações de espiões, e jogadas por um general 
invisivel, frio e methodico como um Moltke, fazendo mover 
automaticamente dezenas de regimentos. Os soldados en- 



95 

tão seguiam a espada brilhante do seu commandante, que 
á frente d' elles pelejava como qualquer infante, arriscando 
heroicamente a vida n' essa orgia de individualismo. O 
conde de Nassau assim praticava, e a sua figura garbosa, 
sempre trajada com elegância, botas de búfalo, luvas de 
anta, coiraça de fino aço, destacava-se nos lugares onde 
mais accesa corria a lucta, vibrando golpes dignos de um 
paladino medieval. De nada serviram comtudo os seus 
esforços physicos, nem a sua ascendência moral. Fortes 
como cada qual sóe ser em sua casa, os portuguezes, per- 
nambucanos e bahianos, e os napolitanos não só resistiram 
valentemente em seus reductos e trincheiras, que se iam 
accrescentando com presteza onde mais vantagens podiam 
offerecer, aos assaltos contrários, ainda que com perdas 
sensíveis, especialmente as de Sebastião do Souto e Este- 
vão de Távora; como até fizeram sortidas cruéis para as 
forças hollandezas. Conta o donatário Duarte de Albu- 
querque Coelho, o qual, já de partida para a Hespanha, 
offerecêra-se para auxiliar a defeza da cidade quando che- 
garam as noticias da vinda do conde de Nassau, que foi 
um audacioso ataque de Luiz Barbalho pela retaguarda, 
no momento em que os hollandezes tentavam vigorosa- 
mente apoderasse da trincheira de Santo António, que 
provocou a derrota decisiva do inimigo (Memorias diárias). 
Maurício, procurando disfarçar o seu despeito, levantou o 
cerco depois de quarenta dias de combates inúteis e cruel- 
dades excusadas, reembarcando para o Recife com os seus 
soldados dizimados pelas pelejas, pelas fadigas e pelas 
doenças. Bagnuoli, recompensado com o titulo de príncipe 
pela feliz defeza, veio a fallecer dois annos depois na própria 
cidade de Bahia, que elle salvara de um tão grave perigo. 

x 

Do revez da Bahia nasceram as primeiras desconfianças 
entre Maurício e a direcção da Companhia, não trepidando 
esta em enviar no mez de Março de 1639 os reforços que 
logo poude reunir, menos de metade dos que eram pedi- 
dos, sob o commando de Artichofsky, a quem se dava o 



96 

posto militar immediato ao do governador geral. Irritou- 
se o príncipe com o impôrem-lhe a convivência diária e a 
collaboração na guerra de um official, com a confiança do 
qual não podia contar; mas a sua cólera subiu quando 
percebeu que a missão secreta do polaco era espionar-lhe 
o procedimento. Os XIX entravam a não enxergar com 
bons olhos a benevolência usada no Recife para com os 
portuguezes, e quiçá no espirito receoso d' esses financeiros 
transpiraria já a suspeita de uma ambição de que alguns 
quizeram mais tarde culpar o príncipe, a de sonhar com 
a realeza pernambucana. Em menos de dois mezes a 
desintelligencia convertêra-se em briga, e Maurício lia 
ao Conselho Supremo uma carta destinada á Hollanda, em 
que Artichofsky satirizava e calumniava a sua conducta 
official e privada, resolvendo aquelles altos funccionarios 
mandar para a Europa o elemento perturbador. 

peor era que semelhantes dissidências não faziam 
augmentar as forças hollandezas. A 18 de Fevereiro àe 
1639 queixava-se o conde de Nassau de contar apenas com 
trez mil duzentos e cincoenta soldados validos, comprehen- 
dendo n' este numero os da esquadra, e de serem igual- 
mente escassas as provisões e munições de guerra. Arti- 
chofsky trouxera mil e seiscentos homens, com que se 
perfazia um total ainda inferior a cinco mil, quando o 
governador geral julgava indispensáveis sete mil para for- 
talecer as guarnições do considerável território neerlandez, 
e formar um solido corpo expedicionário. O estado finan- 
ceiro da Companhia, obrigada a implorar subvenções dos 
Estados Geraes e a tentar o recurso das emissões, não 
permittia porém um tamanho alistamento, aliás difficultado 
pelas exigências da conflagração européa. As suas avul- 
tadas receitas — dízimos e meunças, imposto de 20% sobre 
cento e cincoenta engenhos de assucar, cuja producção era 
todavia inferior á de antes da invasão, fretes, arrendamento 
dos direitos alfandegários sobre todos os artigos de pro- 
ducção nacionaes ou extrangeiros, e de outros como peza- 
gem, pescarias, pontes, etc, venda de escravos por preços 
altamente remuneradores e alienação de terras — não 
bastavam para os gastos excessivos : esquipamento de frotas, 



97 

largos soldos, construcção de fortalezas, perdas de guerra 
e fornecimento do exercito e armada. 

Si a Companhia, cuja direcção na opinião do auctor 
de um folheto publicado em Amsterdam em 1639, andava 
entregue a indivíduos pouco experientes e inclinados a 
abusos, não auferia lucros, embolsavam-n' os entretanto os 
negociantes do Recife; porto que se ia tornando tão im- 
portante, diz Duarte de Albuquerque Coelho, como o de 
Amsterdam na Hollanda ou o de Flessingue na Zelândia, 
servindo-se d' elle o inimigo para "sacar náos i gente para 
sus empresas, siendo de tanta mas comodidad el de Per- 
nambuco para ellas, por el parage en que está para la 
navegacion de entrambas índias". Referia-se o donatário 
á pequena expedição organizada no Recife em Julho de 
1638 pelo almirante Jol o Pé de páu para ir a Cuba apre- 
zar a frota de prata, e mallograda em parte pelo cobarde 
abandono de alguns navios hollandezes, e muito pela va- 
lente resistência dos galeões hespanhoes. Os judeus sobre- 
tudo iam -se fazendo os grandes proprietários urbanos e 
ruraes da colónia, onde, conta frei Manoel Calado, "tanto 
era o dinheiro de prata e ouro, que até os negros e negras 
trazião dobroens nas mãos". Como é sabido, muitos hebreus 
portuguezes, entre os quaes o pai do celebre Spinoza, ap- 
pellidado o negador do livre arbítrio e fundador da philo- 
sophia moderna, haviam-se refugiado na Hollanda depois 
que a benevolência de D. João II se convertera na intole- 
rância de D. Manoel e no fanatismo de D. João III, e na 
expansão do seu génio mercantil, que bastante contribuíra 
para fomentar as grandes navegações peninsulares, acom- 
panharam os hollandezes na transplantação para o Brazil, 
"não trazendo mais que hum vestidinho roto sobre si, e 
em breves dias fazendo- se ricos com seus tratos e mo- 
fatras". Com tão proveitosos resultados, a immigração 
judaica ia sempre em augmento, "começando a vir muitos 
da Olanda e outras partes do Norte, cada hum com suas 
baforinhas" (ninharias que vendiam os bufarinheiros). Além 
da reconhecida propensão para o commercio, tinham elles 
as vantagens de fallar a lingua e de manter preciosas 
relações com os christãos novos brazileiros, e com os 

Lima, Pernambuco. • 



98 

afíluidos da Península apóz a permissão de sahida com- 
prada a pezo de oiro em 1601 a Filippe III e logo depois 
revogada com um accrescimo de perseguições, — condições 
que redundavam em prejuizo dos mercadores hollandezes, 
os quaes andavam furiosos com a concorrência, e até se 
amotinaram contra esses furavidas, intermediários forçados 
das operações commerciaes dos dois povos, e únicos cor- 
retores de fazendas e causas. O dinheiro israelita com o 
seu magico poder venceu comtudo todas as resistências, 
"untando as mãos aos do supremo Concelho, que he o 
caminho por onde se chega ao fim que se pretende entre 
os Olandeses", diz o auctor do Valeroso Lucideno, não sei 
si injustamente, porque então o Conselho ainda era repre- 
sentado pelos primitivos titulares, considerados probos. O 
certo é que os judeus continuaram a enthesoirar, mais do 
que os commerciantes, pequenos industriaes e operários 
hollandezes, que povoavam o Recife luctando pela vida, e 
do que os plantadores brazileiros disseminados pelos cam- 
pos ensanguentados. 

Estes tinham sido as victimas de toda a guerra. For- 
çados a resgatarem-se por grandes sommas, quando nãò 
arruinados e martyrizados pelos hollandezes, viam as suas 
fazendas igualmente saqueadas pelos soldados incumbidos 
de os defender, como si fossem despojos dos contrários. 
Alguns dos capitães de emboscadas, coronéis mesmo como 
Luiz Barbalho que pedia a seu sobrinho João Lopes Bar- 
balho negros e mais negros, consentiam francamente n' esta 
rapinagem: o que faz Brito Freyre comparar os proprie- 
tários brazileiros "aquelles piquenos peixes, a que não 
valeo prevenilos a naturesa de humas parpatanas como 
azas : porque se nadão pela agua, outros peixes os tragão ; 
e se voão pelo ar, as aves os comem". Reconhece hon- 
radamente o escriptor portuguez, que taes aggravos não 
foram porém causa de que os fazendeiros acudissem nas 
demais occasiões com menos lealdade. 

A metrópole soubera da tentativa do conde de Nassau 
contra a Bahia e tremera da audácia. Resolvida no em- 
tanto a destruir a todo o transe o crescente prestigio de 
Maurício, fechara os olhos ao sacrifício pecuniário e orde- 



99 

nára o apresto immediato de uma armada de soccorro, 
havia muito reclamada e por vezes -adiada. A geralmente 
ambiciosa e desordenada regência do reino pouca obe- 
diência prestava de facto ás ordens de Madrid, onde 
funccionava desde 1631 uma Junta de Pernambuco. Mais 
tarde avolumára-se a resistência de Portugal ao pagamento 
de impostos extraordinários, ainda que lhe assegurassem 
que eram para seu beneficio, que como tal se devia con- 
siderar a restauração do Brazil: "pois se se perdesse, o que 
Deus tal não permitta, totalmente ficaria destruído o Reino", 
observava Filippe IV a Margarida de Mantua, regente de 
Portugal em substituição do conselho nacional, com uma 
],ucidez amplamente justificada por successos muito poste- 
riores. A revolta fermentava na nação annexada por Fi- 
lippe II, soprada pelo baixo clero — padres, sobretudo 
jesuítas, que viam com olhos invejosos as largas conces- 
sões de bens ecclesiasticos obtidas pelos príncipes da 
Egreja hespanhola, e a benevolência pródiga de graças da 
Cúria romana para com os monarchas castelhanos em detri- 
mento dos sacerdotes portuguezes, ainda que Urbano VIII 
se mostrasse por vezes bem escasso de favores em tempo 
de Filippe IV; e religiosos professos, escandalizados da cle- 
mência dispensada pelo condeduque aos judeus e christãos 
novos a troco de grossas sommas, todavia pequenas para 
as exigências insaciáveis dos cofres do Estado, chegando 
a revogar em 1629 a lei que impedia essas desgraçadas 
victimas da Inquisição de venderem os seus bens ao sahi- 
rem de Portugal. -Os motins de Évora e do Algarve em 
1637 deram o signal de uma agitação mais intensa, porém 
Filippe IV, certo da fidelidade, aliás patenteada mais tarde, 
de grandes senhores e prelados poderosos, não ligava 
maior importância a esses prenúncios de separação, e 
mostrava até na occasião desejo de ver reprimida a sedi- 
ção pela própria nobreza da terra, para que o não accu- 
sassem de armar castelhanos contra lusitanos, e também 
para divorciar pelo sangue a fidalguia e a plebe, seguindo 
o astuto conselho de Diogo Soares, que de Madrid dirigia 
os negócios portuguezes. Em todo o caso e com o fim de 
apoiar os fidalgos, o monarcha hespanhol ia armando na 



100 

fronteira os seus soldados, desviando-se assim forças que 
em outras circumstancias bem podiam ser aproveitadas na 
reconquista de Pernambuco. 

Cuidava-se pois fervorosamente em Portugal em procla- 
mar rei o duque de Bragança. Valia por certo este prín- 
cipe pusillanime e deshumano muito menos do que os 
monarchas da Casa d' Áustria, mas representava uma idéa 
elevada, o principio tradicional da independência. No meio 
de taes assomos de desunião, é bem de ver que se não 
pensava a serio no Brazil, o qual no emtanto deveria no 
próprio interesse preoccupar mais attentamente a metró- 
pole. Nem era novidade semelhante incúria. Dos vice-reis 
nomeados pela Hespanha o que mais pensara em Pernam- 
buco fora D. Diogo de Castro, conde de Basto, pelas causas 
que a ninguém esquecem, diz D. Francisco Manoel na sua 
Epanaphora I, a saber, ser elle sogro do donatário Duarte 
de Albuquerque Coelho, tendo ido porém a sua interven- 
ção pouco além da intenção. "Entre tudo isto, escrevia 
a 3 de Dezembro de 1637 o rei de Hespanha a Margarida 
de Mantua, o que faz admiração universal é que, depois 
de se haver perdido o Brazil, sendo conquista d' esse reino, 
com o Governo e Governos que tem havido, não ha sido 
possível enviar Armada considerável d' essa Coroa, a tratar 
de o defender e recobrar, estando em diíferentes vezes 
aparelhados muitos navios d' esta de Castella; e ao tempo 
de se aprestar, ficou pelos ministros portuguezes em tanto 
grau, que feita a conta, por esta Coroa de Castella se ha 
feito milhão e meio de gasto, em diíferentes aprestos para 
este fim, que ficaram perdidos, por não haver concorrido 
a Coroa de Portugal. E não havendo remédio para fazer 
este despacho, se ha tirado da substancia d' este e dos 
demais reinos meus, para pôr uma Armada de vinte Ga- 
leões, provida de tudo, que custa mais de um milhão". 

Esta missiva régia, publicada por Varnhagen, revela 
da parte do soberano, que escriptores imparciaes hoje apon- 
tam como a personificação da bondade, um grande espirito 
conciliador, o qual a tradição vulgar entre nós não ajusta 
bem com o decantado orgulho dos Filippes. O rei rece- 
bera duas propostas de Lisboa, uma do Senado suppli- 



101 

cando-lhe que continuasse a assistir Portugal na empreza 
da restauração do Brazil; outra do conde do Prado indi- 
cando como o meio infallivel de superar as difficuldades 
do momento e dar satisfacção aos descontentamentos po- 
pulares, deixar ao reino a faculdade de arrecadar e gastar 
suas rendas, certo de que assim seriam estas applicadas á 
reconquista de Pernambuco, e em seguida, desafogado Por- 
tugal do pezadelo hollandez, estaria apto para ajudar Cas- 
tella nas suas varias pendências. A regente, cumprindo 
com o que lhe mandava Filippe IV, consultou a respeito 
as camarás e tribunaes portuguezes, não se chegando porém 
com o palavriado das corporações a conclusões mais pra- 
ticas do que com o lançamento dos tributos. 

A armada de soccorro apromptada na Peninsula á 
chegada das novas da Bahia, partiu em Setembro de 1638, 
quando já era conhecida a retirada do conde de Nassau. 
Compunha-se de trinta e trez navios segundo Varnhagen, 
quarenta e seis segundo Netscher, que procurou suas in- 
formações no relatório apresentado aos Estados Geraes pelo 
governador do Brazil Hollandez : iam a bordo mais de sete 
mil homens, e commandava-a um fidalgo portuguez, o 
conde da Torre. Por motivo de uma longa arribada nas 
ilhas de Cabo Verde e de grande demora na navegação, 
desenvolveram-se entre a tripulação e os soldados de de- 
sembarque moléstias, cujos estragos terríveis obrigaram o 
chefe da expedição a renovar o erro que em 1636 inuti- 
lizara o soccorro da esquadra que conduzia D. Luiz de 
Rojas — passar pelo Recife, fracamente defendido, sem 
atacar esse ponto vital da occupação hollandeza, e singrar 
em direcção á Bahia. Os hollandezes, conhecedores do 
critico momento que atravessava então a Hespanha, tendo 
Fuentarrabia cercada pelo grande Conde, o futuro heroe 
de Rocroy, nem contavam com semelhante visita. O conde 
da Torre fez porém ainda peor do que anteriormente o 
marquez de Velada: demorou- se quasi um anno, até 
Novembro de 1639, na capital brazileira, com o fim de 
fornecer-se de mantimentos e especialmente de augmentar 
o poderio da sua armada, já com embarcações, já com re- 
forços da ilha Terceira, do Rio de Janeiro e de Buenos 



102 

Ayres, os quaes junto com os soldados de Bagnuoli e os 
auxiliares elevaram as tropas hespanholas, comquanto hou- 
vessem sido as novas dizimadas pelas epidemias, a oito 
mil e quinhentos soldados (relatório cit. do conde de Nas- 
sau). Dir-se-hia que o capitão general portuguez andava 
apostado com tal basofia em confirmar a espirituosa e cruel 
opinião do condeduque sobre a nobreza do reino, expressa 
em uma memoria apresentada a el-rei Filippe IV ao ser 
por este chamado para o governo : "Es la nobleza de aquel 
reino sin duda la de mayor presunción y satisfacción pro- 
pia, que ninguna otra se habrá visto. Generalmente son 
entendidos; pêro, asi en esto como en todas las acciones, 
tienen afectación, casi dafío común y connatural. Los 
ânimos de aquella gente sin duda son grandes; pêro tam- 
bien es cierto que fueron mayores." 

Entretanto ia Maurício tendo tempo de organizar a 
defeza, sobretudo a marítima, pois que elle via com perspi- 
cácia quanto lhe seria mais favorável tentar um encontro 
no mar com os seus aguerridos marinheiros, gente mais 
escolhida do que os soldados remettidos para as colónias, 
em vez de ensaiar batalhas para as quaes não dispunha 
de forças sufficientes, e demais n' uma terra onde a popu- 
lação não deixava de mostrar-se systematicamente hostil 
aos invasores. Sem descurar os reparos das fortificações, 
cujas guarnições reforçou, e uma collocação intelligente das 
tropas, postadas de forma a poderem-se facilmente congre- 
gar no ponto ameaçado pelo desembarque, o príncipe ar- 
mou em naus de guerra algumas embarcações mercantes 
que tinhão chegado da Hollanda, e poude d' est' arte, com 
os baixeis disponíveis, formar uma frota de quarenta e um 
navios com mil e seiscentos marinheiros e mil e duzentos 
soldados, a cuja frente collocou o almirante Corneliszoon 
Loos. Antes de partir, o conde da Torre despachou para 
Pernambuco e Parahyba, atravez dos sertões, André Vidal 
de Negreiros, João Lopes Barbalho, Henrique Dias e Ca-> 
marão, com a dupla missão de molestarem os hollandezes, 
devastando-lhes os bens, e auxiliarem o desembarque das 
forças da armada, aliás facilitado pela bôa vontade dos 
moradores, revelada pouco depois nas Alagoas, onde foram 



103 

prezos ou desterrados os principaes de uma conspiração, 
culpados de haverem soccorrido os capitães brazileiros e 
entretido relações com a esquadra hespanhola, na sua pas- 
sagem. A frota estivera com effeito surta durante dezeseis 
dias deante das Alagoas, "para fazer aguada ou haver no- 
ticia, ou suppondo attrahir-nos para o sul, ou, emfim, por 
ambos estes motivos" (carta do governador e do Conselho 
Supremo aos XIX, em 2 de Março de 1640). 

Deixara finalmente a 19 de Novembro o porto de São 
Salvador o luzido cortejo de oitenta e seis navios, tripula- 
dos por seis mil marinheiros e conduzindo outros tantos 
soldados. Maurício classificou por esta forma os vasos ini- 
migos: 12 galeões hespanhoes, 8 portuguezes, 27 navios 
auxiliares dos Açores e Brazil, e 39 caravelas, patachos e 
barcas, embarcações mercantes as ultimas que se utiliza- 
ram para transporte das tropas. Estas eram capitaneadas 
pelo mestre de campo general príncipe de Bagnuoli, gene- 
ral conde de Óbidos, coronel Luiz Barbalho, coronel Hector 
de la Calce, um napolitano que Artichofsky fizera prisio- 
neiro em Matta Redonda, e vários gentishomens mais da 
Península. As delongas não deixaram mais uma vez de 
perseguir o conde da Torre: levou elle quasi dois mezes 
para chegar á altura de Pernambuco, e ahi o vento con- 
trario empurrou-o subitamente para o norte, impedindo o 
desembarque dos soldados no Cabo de Santo Agostinho. 
Veio a encontral-o a frota hollandeza no dia 12 de Janeiro 
de 1640 deante das praias do Pau Amarello, quando justa- 
mente se preparava o conde da Torre para fazer descer 
as tropas de terra. Era inevitável a peleja, e com effeito 
ella travou-se renhidamente entre Itamaracá e a Parahyba 
durante trez dias consecutivos, comquanto a tivesse pro- 
curado evitar o almirante portuguez. A negra e densa 
fumarada dos canhões envolvia as duas esquadras e mal 
consentia que se percebessem os ligeiros movimentos re- 
commendados por Maurício ás pequenas embarcações 
hollandezas, de atacarem vivamente os grandes e morosos 
galeões hespanhoes e escaparem velozmente ás abordagens. 
Gritos de feridos, estertor de agonisantes, clamores de as- 
saltos, golpes de machados, estalar de mastros, tudo era 



104 

abafado pelo tiroteio incessante, que até dominava o ma- 
rulhar das ondas. Aqui e além afundavam-se navios des- 
pedaçados pelas balas, cujos tripulantes procuravam afflicti- 
vamente alcançar a praia ou, seguros a um madeiro, 
enroscados no cordeame, esperavam que os seus os reco- 
lhessem. No audacioso ataque que cruzara no primeiro 
dia com a náu almiranta do conde da Torre, o almirante 
Loos morrera, sendo substituído pelo seu immediato Huy- 
ghens; mas o ardor da lucta não diminuirá com essa 
perda, antes redobrara a fúria, emquanto o vento ia sempre 
enxotando para o norte as duas frotas. No terceiro dia 
achavam-se ellas em frente do forte do Cabedelo, onde a 
calmaria interrompeu durante quarenta e oito horas a horro- 
rosa pugna, que parecia dever decidir do futuro da America 
Portugueza. A 17, recomeçou a peleja na altura do Rio 
Grande, e com tal impetuosidade a encetaram os hollan- 
dezes que o conde da Torre, desnorteado com as perdas 
que tinha já experimentado e com o consequente baquear 
das suas presumpçosas illusões, fugiu para traz do Cabo 
de São Roque. Ahi, no porto dos Touros, desembarcaram 
para escapar á fome e sede que as ameaçavam a bordo, 
algumas das forças expedicionárias — uns mil e trezentos 
soldados commandados pelo pernambucano Luiz Barbalho. 
A vistosa esquadra hispano-portugueza foi-se miseravel- 
mente dispersando, naufragando alguns barcos, tomando 
outros o rumo das Antilhas, refugiando-se poucos no Mara- 
nhão, regressando muitos á Bahia e sumindo-se até vários, 
ermos dos defensores victimados pelas feridas e pelas pri- 
vações. Em um pobre bergantim voltou para São Salva- 
dor, donde sahira tão ufano, o capitão general portuguez 
conde da Torre, regressando também para alli o príncipe de 
Bagnuoli, cuja carreira militar se fechava com semelhante 
insuccesso. 

Desbaratados tão completamente os hespanhoes, Mau- 
rício, no meio do seu jubilo, cedeu a um d' esses momentos 
de cólera familiares a todas as organizações como a sua, 
cheias de vida e de energia, e igual ao que na Bahia lhe 
fizera permittir atrocidades contra os moradores da cam- 
panha. Um d' estes , trucidado pelos hollandezes , era o 



105 

octogenário João de Mattos Cardoso, o qual por duas vezes 
defendera o forte do Cabedelo, na Parahyba: "a morte, es- 
creve Brito Freyre, que lá entre os pelouros o não achou, 
aqui entre os bosques o descobriu". Allegando que os 
frades haviam ajudado a gente do conde da Torre com 
mantimentos e informações, o príncipe deportou-os todos 
para as Antilhas, na mesma occasião em que recebia por 
mão de dois franciscanos chegados de França, uma affec- 
tuosa cartinha de seu primo Luiz XIII, agradecendo o bom 
tratamento por elle dispensado aos religiosos, e convidan- 
do-o a sempre conceder-lhes protecção e assistência. Ainda 
eram uns sessenta os monges — carmelitas, franciscanos 
mendicantes e abastados benedic tinos ' — que habitavam 
as capitanias conquistadas, e que, a acreditarmos frei Ma- 
noel Calado, soífreram no caminho do exilio vergonhosas 
brutalidades. Toleravam-n' os os hereges para não acirrar 
a vehemente animosidade dos portuguezes: n' este intuito 
já haviam modificado em 1636, depois da tomada da Pa- 
rahyba, o intolerante regimento de 1629, e Maurício per- 
mittira aos padres que se tinham deixado ficar escondidos 
apezar das cruéis perseguições, o reapparecerem sem susto 
e exercitarem seus officios nas egrejas do campo. Ficára- 
lhes apenas vedado dizerem missa em publico dentro das 
fortificações, porque em particular sabemos haver dito o 
conde de Nassau ao seu commensal, o auctor do Valeroso 
Lucideno, que fecharia os olhos á infracção. O numero 
dos padres crescera com tal condescendência, tendo vindo 
alguns da Bahia sob o maior segredo, visto estar formal- 
mente prohibida a communicação com a capital da posses- 
são portugueza; quer temporal, quer espiritual, não obstante 
residir em São Salvador o prelado que extendia a sua 
jurisdicção religiosa sobre todo o Brazil. 

A penosíssima marcha de mais de quatrocentas léguas 
do Rio Grande á Bahia, emprehendida pelas forças brazi- 
leiras de Luiz Barbalho por um território sujeito ao ini- 
migo, duramente maltratadas dos hollandezes e selvagens, 
foi com razão comparada á famosa retirada dos Dez Mil, 
effectuada por Xenophonte na Ásia Menor, das margens 
do Tigre a Chrysopolis, na costa do Bosphoro. Os gregos 



106 

certamente não escaparam a maiores perigos do que os 
nossos heróicos soldados, forçados a abrir caminho com 
as suas espadas, quando não embrenhados em espessos 
matagaes; semi-mortos de fadiga, e encontrando a cada 
momento novos troços de contrários mandados em sua 
perseguição; pelejando quasi diariamente com igual cons- 
tância e não rara felicidade, e compellidos a soffrer re- 
signadamente a fome. Ao corpo de Luiz Barbalho junta- 
ram-se os destacamentos enviados por terra pelo conde da 
Torre, e que seguindo bem á risca e ainda além as desa- 
piedadas instrucções recebidas na Bahia, de não deixar 
pedra sobre pedra nem dar quartel a framengos, batiam-se 
com os inimigos, onde descortinados, e sobretudo conti- 
nuavam afanosamente a lúgubre obra da ruina pernambu- 
cana, vivendo espalhados como bandos de salteadores a 
despojar indistinctamente compatriotas e extrangeiros, rom- 
pendo até, conta frei Manoel Calado, as orelhas ás mulheres 
dos moradores para lhes tomarem os brincos de oiro. Re- 
ceando semelhantes barbaridades, o conde da Torre re- 
commendára todavia em suas instrucções, mas bem pla- 
tonicamente como estamos vendo, que aos moradores se 
não fizesse aggravo nem moléstia, sendo castigado com a 
pena de morte todo aquelle que transgredisse esta dis- 
posição. 

Voltaram muito a tempo aquellas tropas para São 
Salvador, porque na fúnebre empreza da devastação do 
Brazil, Maurício quizéra ter a ultima palavra e, aprovei- 
tando novos soccorros da Hollanda, ordenara o saque das 
capitanias portuguezas ao sul do São Francisco: "pois a 
necessidade impõe que levemos a guerra ao território ini- 
migo, sob pena de não vivermos nunca aqui tranquillos" 
(carta cit. de 2 de Março de 1640). Já em resposta ás 
correrias ordenadas pelo conde da Torre, o príncipe subs- 
crevera um edital em que "mandava que nenhum morador 
recebesse em sua casa, ou fora d' ella, nem escondesse sol- 
dado algum do inimigo, nem doente nem ferido, manifes- 
tando algum que pelo dito inimigo lhe fosse deixado, e 
levando-o logo no estado em que estivesse ao presidio mais 
vizinho para o rigor que o inimigo dera por ordem se exe- 



107 

cutasse em nossos soldados, sendo morto sem piedade alguma, 
e seus bens dados em pilhagem a nossos soldados" (Doe. 
publ. na Rev. do Inst. Arçh. e Geog. Pern.). Uma e outra 
ordem, a do capitão general portuguez e a do governador 
hollandez, não nos é licito duvidar de que houvessem sido 
executadas fielmente. Escrevia em Setembro de 1640 o 
príncipe, com visível satisfacção, que só no recôncavo da 
Bahia e ilha de Itaparica vinte e sete engenhos haviam 
sido queimados, e não foram em relação provavelmente 
menores os estragos em Sergipe e Espirito Santo, onde 
comtudo a resistência portugueza se mostrara encarniçada 
e levara finalmente a melhor. 

Continuava assim o Brazil a offerecer o mesmo som- 
brio espectáculo: nem um sentimento pacifico em quasi 
toda aquella região banhada de luz, fadada para a alegria. 
Ouviam-se apenas o roçar das espadas e o estrondear dos 
arcabuzes. Viam-se somente incêndios de plantações e 
degolações de militares e paisanos. A guerra, brutal, des- 
caroavel, não cessava de empolgar a esplendida colónia e 
de triturar-lhe a promettedora vitalidade. A vida nacional 
desfallecia sob o lueto e a dor. Rojavam-se os moradores 
pelas lages dos templos implorando em publicas preces o 
restabelecimento da paz, emquanto do púlpito o padre An- 
tónio Vieira, n' um rasgo de eloquência juvenil que a affec- 
tação ainda não maculava, increpava o Creador: "Vós ha- 
veis de ser hoje, Senhor, o arrependido Parece- 

vos bem que a mim, que sou vosso servo, me opprimaes 
e afflijaes? e aos impios, e aos inimigos vossos os favore- 
çaes e ajudeis? Parece- vos bem que sejam elles os pros- 
perados e assistidos da vossa Providencia; e nós os deixa- 
dos de vossa mão, nós os esquecidos de vossa memoria, 
nós o exemplo de vossos rigores, nós o despejo de vossa 

ira? Se esta havia de ser a paga e o frueto de 

nossos trabalhos, para que foi o trabalhar, para que foi o 
servir, para que foi o derramar tanto e tão illustre sangue 
nestas conquistas? Para que abrimos os mares nunca 
dantes navegados? Para que descobrimos as regiões e os 
climas não conhecidos? Para que contrastamos os ventos 
e as tempestades com tanto arrojo, que apenas ha baixio 



108 

no Oceano, que não esteja infamado com miserabilissimos 
naufrágios de portuguezes? E depois de tantos perigos, 
depois de tantas desgraças, depois de tantas e tão lasti- 
mosas mortes, ou nas praias desertas sem sepultura, ou 
sepultados nas entranhas das feras e monstros marinhos, 
— que as terras que assim ganhamos, as hajamos de per- 
der assim? Mas pois vós, Senhor, o quereis e or- 

denaes assim, fazei o que fordes servido. Entregae aos 
hoDandezes o Brazil, entregae-lhe as índias, entregae-lhe 
as Hespanhas, entregae-lhe quanto temos e possuímos, 
ponde em suas mãos o mundo: e a nós, os portuguezes e 
hespanhoes, deixae-nos, repudiae-nos, desíazei-nos, acabae- 
nos. Mas só vos digo e lembro, que estes mesmos que 
agora desfavoreceis e lançaes de vós, pôde ser que os 

queiraes algum dia, e que os não tenhaes Não 

vos quero dizer mais. Já sei, Senhor, que vos haveis de 
enternecer e arrepender, e que não haveis de ter coração 
para ver taes lastimas e taes estragos." 



XI 

Homem de guerra como quasi todos os príncipes do 
seu tempo, Maurício de Nassau sentia todavia especial vo- 
cação para a tranquillidade de um governo pacifico e es- 
clarecido. Coagido á lucta, imposta pela intransigência 
dos adversários e pela ambição da Companhia de que era 
delegado, elle tinha verdadeiro prazer em repoisar-se dos 
combates, acariciando algumas idéas politicas, que a sua 
culta intelligencia lhe suggeria. Assim, julgando desar- 
mada a Península depois do destroço da expedição do 
conde da Torre, e querendo congraçar n' um sincero am- 
plexo conquistadores e conquistados, apezar de reabertas 
as velhas feridas com os novos golpes, o príncipe convo- 
cou para o Recife uma assembléa portugueza, com o fim 
de discutir com o Supremo Conselho e juntos resolverem 
os problemas de administração mais consentâneos com o 
progresso material e moral da colónia a que presidia. Era 
nada mais nada menos, do que a introducção, comquanto 



109 

em elevada dynamização, de um regimen novo em um paiz 
fechado até então a todo o movimento europeu, entregue 
exclusivamente á lucta pela vida animal. Essa assembléa 
que podemos chamar legislativa, a primeira da America 
do Sul, compoz-se de escabinos portuguezes e moradores 
especialmente eleitos de todas as freguezias das capitanias 
de Pernambuco, Itamaracá e Parahyba: o Rio Grande do 
Norte pela resumidíssima população e maior distancia não 
teve ahi representação. A reunião, inaugurada com um 
esplendido banquete, cousa sem a qual Maurício não en- 
tendia solemnidades , effectuou-se no palácio das Torres, 
de Mauricéa, durante nove dias, de 27 de Agosto a 4 de 
Setembro de 1640, e as suas actas formam um dos mais 
interessantes achados do sfir. D r . José Hygino Duarte Pe- 
reira nos archivos da Hollanda. 

A colónia, já o sabemos, atravessava um período dif- 
ficil para os nacionaes. Os plantadores que tinham ficado 
no paiz, não se deixavam certamente vencer em actividade 
no amanho dos cannaviaes e no fabrico do assucar pelos 
hollandezes, que haviam adquirido engenhos confiscados; 
mas, empobrecidos pelas vicissitudes da guerra, opprimi- 
am-n' os terrivelmente o pezo das contribuições officiaes e 
a usura dos empréstimos particulares, fornecidos pelos 
mercadores extrangeiros. A vida mesquinha que geral- 
mente levavam, não era comparável com a faustosa exis- 
tência de outr' ora. N' um relatório do Conselho Supremo, 
de 1638, falla-se desdenhosamente das suas casas de barro, 
dos seus poucos moveis, dos seus vestidos de estofos or- 
dinários, dos seus calções e gibão que usavam golpeados, 
com grandes cortes por onde se deixava ver um pouco de 
tafetás. A passada opulência transluzia para maior con- 
traste no velho luxo portuguez das baixellas de prata, que 
alguns tinham podido conservar, e nos adornos das mu- 
lheres, "que ciosamente trazem sempre fechadas, reconhe- 
cendo assim que os de sua nação são inclinados a cor- 
romper as mulheres alheias. Só sahem cobertas, e são 
carregadas em uma rede, sobre a qual se lança um tapete, 
ou encerradas em uma cadeira de preço (palanquim), de 
modo que ellas se enfeitam para serem vistas somente 



110 

pelos seus amigos e amigas. Quando vão visitar, primeira- 
mente mandam participar; a dona da casa senta-se sobre 
um bello tapete turco de seda estendido sobre o soalho e 
espera as suas amigas, que também se sentam a seu lado 
sobre o tapete, a guisa dos alfayates, tendo os pés cober- 
tos, pois seria grande vergonha deixar alguém ver os pés". 
A vaidade feminina não podia abandonar tão facilmente 
os atavios do feliz tempo da Olinda pulchris aedibus tem- 
plisque conspícua de Barlaeus: "vestem-se ainda custosa- 
mente, e cobrem-se de ouro; trazem poucos diamantes ou 
nenhum, e poucas pérolas boas, mas muitas jóias falsas" 
(relat. cit). 

Luctavam ainda os fazendeiros nos campos com a 
falta de trabalhadores, porquanto as grandes escravarias 
tinham debandado, indo não poucos negros para a Bahia 
com seus senhores, combatendo outros, forros por este 
facto, nas fileiras portuguezas e nas hollandezas, além dos 
muitos que se acoutavam nos palmares. Os novos que 
chegavam d' Africa, eram disputados a fortes preços. 
Com os trabalhadores índios, embora os assalariassem, 
era inútil contar: os poucos missionários hollandezes que 
estudaram o tupi e procuravam fazer dos aborígenes 
elementos de riqueza, não podiam alcançar mais do que 
os jesuitas, dedicados de corpo e alma á catechese. "Vivem 
os indios em suas aldeias sobre si, e debaixo da inspec- 
ção de capitães hollandezes. Alimentam-se de mandioca 
e de outros fructos, de que tomam o quanto lhes parece 
necessário para a sua sustentação, e quanto ao mais vivem 
despreoccupados, sem terem disposição alguma para gran- 
gear riqueza. Contentes com possuir uma rede onde dur- 
mam, e alguns cabaços por onde bebam, o seu arco e 
flechas, a sua farinha, a sua boa agua e a caça que vão 
buscar nas matas para se alimentarem, trabalham somente 
para ganhar para si e suas mulheres o panno que seja 
necessário para cobrir seus corpos, e consideram bastante 
que suas mulheres vistam uma camiza de panno pendente 
até o chão, e elles mesmos obtenham alguma roupa que 
lhes permitta trazer uns calções e um gibão, ainda que 
sem camiza" (relat. cit.). 



111 

Juntemos á pobreza, ás exacções judiciarias e com- 
merciaes, e á escassez de trabalhadores, a ausência de 
segurança individual e de protecção á propriedade, e a 
falta de soccorros espirituaes, lacuna bem dolorosa para 
espiritos religiosos, e veremos quanto era precária a vida 
brazileira sob o domínio da Companhia, máu grado as pro- 
messas dos directores e a indulgência de Maurício. Na 
falia de abertura da assembléa, ao serem apresentadas 
pelo governador as cinco propostas do Conselho Supremo, 
enumeram-se sem rebuço os resultados da guerra, a que se 
tentava dar remédio com aquella reunião — "abusos, costu- 
mes insólitos, oppressivas violências, levantamento de la- 
drões, desordens de soldados e desobediência dos moradores." 

Para pôr um freio aos roubos e incêndios, indicava o 
Conselho que se restituissem aos moradores as armas de 
que andavam despojados, afim de poderem defender-se dos 
bandidos. Acceitaram os deputados a proposta com a 
honrosissima condição, que testemunha altamente a fide- 
lidade brazileira, de não serem compellidos a hostilizar 
com ellas os soldados hespanhoes, cujas guerrilhas aliás 
não praticavam façanhas inferiores ás dos salteadores: em 
troca promettiam não transformar a perseguição dos ladrões 
em ataque contra a Companhia. 

O plano de defeza apresentado pelo Conselho na segunda 
proposta, consistia em um systema de alarme, a que concor- 
reriam os moradores assaltados e seus vizinhos, e guarnições 
hollandezas collocadas em todos os rios, próximas umas das 
outras. Quanto á apparição dos soldados inimigos, desistia o 
Conselho de que a recebessem a tiro os moradores, mas exigia 
que a denunciassem, pretendendo que ficavam attendidos 
com esta distincção os escrúpulos e removidas as difficul- 
dades mencionadas. A resistência e perseguição dos ban- 
didos representaria uma obrigação a cuja infracção cor- 
responderia uma penalidade, e seriam dirigidas por officiaes 
adrede nomeados d' entre os moradores, e cuja qualidade 
militar cessava fora d' essas emergências. Conjunctamente 
se providenciava na segunda proposta acerca dos negros 
fugidos, estabelecendo-se os capitães de campo, que todos 
ainda conhecemos. A assembléa achou inconvenientes no 



112 

systema de armamento commum a toda a campanha, jul- 
gando mais vantajoso que apenas aos habitantes dos 
engenhos ou freguezias onde houvesse guarnições, fosse 
facultado o possuírem armas de fogo, precaução inútil e 
mesmo vexatória para aquelles que residiam isolados, fora 
dos caminhos das freguezias. Os deputados interrogados 
successivamente, como estava determinado, offereceram 
ainda as seguintes reflexões, no dizer das actas: I a que 
ficasse livre aos senhores armarem alguns negros e outros 
não, de accordo com a confiança que n' elles depositassem; 
2 a que não servissem os alarmes de causa para novas 
oppressões aos moradores por parte dos soldados e offi- 
ciaes, ficando bem discriminada a obrigação dos moradores 
da obrigação militar, não sendo prezos os que faltassem 
ao appello e não tendo os que comparecessem que perse- 
guir os salteadores além do seu próprio arbitrio; 3 a que 
fossem os portuguezes paulatinamente dispensados d' esse 
serviço, o qualjBcaria inteiramente affecto ás companhias 
dos capitães de campo. 

Contra os soldados indisciplinados que infestavam as 
capitanias conquistadas, o Conselho lembrava a conve- 
niência em todos os districtos de patrulhas de protecção 
aos moradores e repressão contra os abusos — inevitáveis 
onde existia o elemento militar, allegavam os conselheiros, 
assegurando que na Hollanda e na Allemanha procedia a 
gente d'armas ainda peor do que em Pernambuco. Recor- 
davam assim os administradores os excessos vergonhosos 
dos lansquenetes, que em bandos assolavam a Allemanha 
antes que Louvois tivesse dado o typo dos exércitos per- 
manentes, com tal sanha que depois da guerra dos Trinta 
Annos, collaborando com esta a fome e a peste, a popu- 
lação germânica ficou reduzida de dezoito a quatro mi- 
lhões. Esqueciam-se porém de que boa parte dos soldados 
da colónia entregavam-se á vagabundagem e ao roubo 
depois de explorados, caloteados e ludibriados pelos empre- 
gados da Companhia, factos indecorosos que obrigaram os 
inglezes e francezes a apoderarem-se nos seus portos de 
navios da empreza, forçando os capitães a saldarem os 
honorários dos seus compatriotas. Os moradores dariam 



118 

ás patrulhas meio soldo mais sobre o que ellas percebiam 
da Companhia, e farinha grátis. Approvaram os represen- 
tantes o alvitre como provisório, a titulo de experiência, 
e sob duas condições: que as patrulhas residiriam em 
lugares certos para poderem ser facilmente chamadas, e 
que seriam castigados com aviso da camará do districto 
os soldados que n' ellas não cumprissem com suas obri- 
gações. 

Para acabar com o estado de desconfiança subsistente 
entre invasores e vencidos e separar, no intuito de evitar 
rigores injustos, os innocentes dos culpados, o Conselho 
suggeria em quarto lugar a instituição de inquiridores ou 
espias encarregados de vigiar as acções dos moradores, 
sendo banidos com todos os seus bens os desaífectos e 
derramando-se sangue apenas nos casos de publicas trai- 
ções. Responderam os deputados reclamando uma previa 
amnistia para todos os ausentes amigos, ainda que cul- 
pados, e fazendo duas restricções : de que os espias seriam 
portuguezes, pessoas tementes a Deus e dignas de credito 
(sic), e de que os exilados embarcariam para a Hollanda 
e teriam tempo de vender seus bens. Os conselheiros 
accederam in totum á ultima modificação; prometteram 
que as informações seriam tomadas cautelosamente e que, 
quando mesmo fossem muito desfavoráveis, proceder-se-hia 
com circumspecção; e concederam o perdão geral solici- 
tado, excepto para os refugiados na Bahia, devendo os 
culpados amnistiados apresentar-se ás camarás mais vizi- 
nhas no prazo de trez mezes, a partir da publicação do 
respectivo edital. 

Finalmente o Conselho referiu-se ás brutalidades dos 
officiaes e ás extorsões dos escultetos, verdadeiros tyrannos 
de aldeia, como os appellida o sfir. Dr. José Hygino no 
seu substancioso relatório. Consignariam os escabinos 
d'alli por deante n'um livro — o Livro dos Delictos — , 
todos os gravames, violações de instrucções, injustiças, 
furtos e mortes que fossem commettidos por aquelles repre- 
sentantes da suprema administração, do que seria remet- 
tida para o Recife copia trimestral. Recommendava-se 
toda a imparcialidade e sinceridade na confecção do allu- 

Lima, Pernambuco. o 



114 

dido rol de crimes, e a máxima precaução contra as cavil- 
lações dos officiaes de milícia e justiça e contra quaes- 
quer movimentos de compaixão. Esta derradeira propo- 
sição foi unanimemente acceita, agradecendo os deputados 
aos conselheiros "a ordenança de todas ellas e o zelo pela 
Republica que os tinha levado a convocar a assembléa por- 
tugueza." 

Tiveram em seguida a palavra os primeiros represen- 
tantes do povo brazileiro. Reconhecidos aos sentimentos 
de justiça incontestavelmente manifestados pelo Conselho 
Supremo, e sobretudo captivados pelas maneiras sympa- 
thicas do conde de Nassau, elles, cujo servilismo nem por 
sombras pode ser invocado por quem haja lido as respos- 
tas dignas, sensatas e cordatas dadas ás propostas hol- 
landezas, que não se arrecearam de dizer que os cuidados 
do Conselho em promover o bem estar dos vencidos, em 
abrir uma era nova, lhes parecia bem extranho, porque 
equivalia a passar de um extremo ao outro, começaram 
por pedir a conservação do illustre governador geral. Des- 
creveram-n'o com estas palavras, que são o seu melhor e 
mais insuspeito elogio: bondoso no tratamento, solicito 
pela justiça, activo nos interesses militares, vigilante no 
eivei, applicado e diligente no augmento da Companhia, 
amigo dos pequenos, sympathico ao povo, desinteressado, 
experiente e tão grande que "nos induz e obriga a dizer 
que de bom grado o houvéramos para sempre por nosso 
governador si fosse isto possível." Van Ceulen e Gysse- 
lingh, em vésperas de seguirem para a Hollanda, promet- 
teram apresentar e empenhar-se por este requerimento 
junto dos XIX. Os dois conselheiros foram também encar- 
regados de submetter á approvação da alta commissão 
vários desejos dos moradores, que o Conselho do Recife 
se julgara incompetente para resolver, entre outros o apre- 
sentado pelos deputados de Mauricéa, concedendo faculdade 
ao Pontífice de nomear um bispo ou vigário geral para 
Pernambuco, e levantando a prohibição da entrada de 
sacerdotes ainda que vindos exclusivamente por caminho 
da Hollanda. O Conselho indeferiu logo a petição que 
reclamava a pratica exterior das cerimonias religiosas, e 



-« ^--.«-d 



115 

destinou provisoriamente um engenho para sustento do 
clero portuguez, em resposta á proposição para a manu- 
tenção official do catholicismo. 

Em matéria de justiça, os escabinos da capital arvo- 
rados em leaders, como hoje diríamos, da assembléa, pela 
sua intelligencia e maior pratica dos assumptos políticos, 
apresentaram sete artigos determinando: I o que em todos 
os processos pleiteados perante o Conselho Politico, em 
que uma das partes fosse portuguez, se chamasse um 
escabino do seu districto "para assistir o tribunal ao pro- 
ferir a sentença, informando, lendo e explicando os actos 
e escripturas portuguezas", e melhor seria que no referido 
tribunal tivesse assento um juiz da terra ou pelo menos 
um syndico; 2 o que nos casos de revista das decisões do 
Conselho Politico, o numero dos juizes revisores fosse 
sempre superior ao dos que haviam proferido a sentença; 
3 o que os emolumentos das revistas se tornassem menos 
vexatórios; 4 o e õ° que os escultetos e ofíiciaes de justiça 
seguissem mais efficazmente responsabilisados e os escabinos 
mais largamente garantidos; 6 o que os contractos celebra- 
dos antes da occupação hollandeza se julgassem de accordo 
com as leis e ordenanças de então; 7 o que se fixasse uma 
tarifa máxima das custas e emolumentos dos processos, 
que eram engrenagens de uma equidade irrisória, monta- 
das para extorquir dinheiro. O Conselho remetteu os trez 
primeiros artigos e o sexto para os XIX, decidindo com- 
tudo immediatâmente a admissão no tribunal de procura- 
dores portuguezes, defendendo na língua materna o direito 
dos seus constituintes, e opinou favoravelmente sobre os 
restantes. 

Os artigos concernentes á matéria de guerra, igual- 
mente elaborados na intenção liberal de fortalecer a insti- 
tuição dos escabinos, foram attendidos pelo Conselho. 
Dispunham que as contribuições de carne e farinha seriam 
unicamente lançadas e cobradas pelas camarás municipaes; 
que os soldados não poderiam pedir alimento aos mora- 
dores; que os dinheiros levantados e escravos subtrahidos 
pelos ofíiciaes da milícia se depositariam, havendo queixa, 
nas mãos dos escabinos, até que por estes ficasse resol- 

8* 



116 

vida a legitimidade ou iilegitimidade da posse; finalmente 
que perderia o cargo todo o official que conservasse prezo 
um morador por mais de vinte e quatro horas sem re- 
mettel-o ao juiz competente, ou o maltratasse physica- 
mente, sendo multado si a injuria fosse de palavras. 

As propostas de policia pediam que se consignassem 
rendas ás camarás municipaes — metade do imposto de 
pezagem, ou o das bebidas, e o arrendamento das pescarias 
ao longo das praias — para que pudessem occorrer a obras 
publicas urgentes, especialmente pontes; e providenciavam 
na boa armazenagem dos assucares a preço razoável, con- 
fiança nas taras, passos dos rios e prohibição de remover 
os materiaes arruinados de Olinda, a qual estava sendo 
reedificada, ficando elles propriedade da camará de Mau- 
ricéa. Quasi todos estes artigos guardaram-se para ulterior 
resolução, sendo remettidos para a Hollanda dois outros 
assentando: I o que cada camará de escabinos escolheria 
annualmente um procurador do povo que fosse junto d' ella 
o defensor dos interesses da gente do districto; 2 o que 
aos escabinos seria conferida maior auctoridade, havendo 
burgomestres escolhidos d' entre elles, para que em parte 
se arruinasse a supremacia dos escultetos, agentes directos 
da Companhia. 

Os deputados das outras camarás e os representantes 
directos do povo seguiram n' esta esteira, adherindo ás pro- 
posições enunciadas pelos escabinos de Mauricéa e apresen- 
tando mais algumas, nem todas de interesse local, repiques 
de campanário na moderna expressão parlamentar, que o 
Conselho devolvia ás corporações municipaes. Assim a 
Parahyba pediu rasgadamente, sem resultado como era de 
prever, suppressão do cargo de esculteto; concessão de 
honras e privilégios aos escabinos para que fossem respei- 
tados como convinha; permissão, visto escassearem tanto 
os negros, de firmar contractos de locação de serviços com 
os índios, sem licença dos ministros reformados e de ac- 
cordo com a jurisdicção commum; navegação directa entre 
a Hollanda e o seu porto; e — reedição do velho rancor 
portuguez — banimento dos judeus. Itamaracá requereu 
que não fosse obrigatório o plantio da mandioca; que se 



117 

reprimissem os desmandos dos selvagens; e que houvesse 
contemplação para com os devedores, não sendo estes obri- 
gados a dar em pagamento mais de metade do assucar 
produzido, e não ficando suas fabricas e pertences dos 
engenhos sujeitos ás penhoras. Iguarassú reclamou liber- 
dade aos mancebos de irem estudar a Roma e a Hespanha, 
e tomarem ordens sacras; fixação do maximum dos juros 
do dinheiro dado a premio, que andavam em 18°/ annuaes; 
inteira faculdade de testar, até em favor dos inimigos da 
Companhia; e assistência catholica, bem como sepultura 
sagrada, aos condemhados á morte portuguezes. Serinhaem 
e Porto do Calvo preoccuparam-se designadamente com a 
reducção dos fretes marítimos, e todos os districtos com 
as sempiternas vexações hollandezas, mostrando também 
especial cuidado pela sorte dos bois e vaccas, raça que 
diziam estar sendo atrozmente dizimada, lançando -se até 
mão dos bois de trabalho. Esta procura de gado para o 
consumo denuncia a carestia da vida, á qual se refere 
Pierre Moreau, mencionando preços exorbitantes de artigos 
que, sobrecarregados de excessivas imposições, não deixa- 
riam lucro algum a não serem vendidos por quantias fan- 
tásticas. Os cobiçosos agentes da Companhia cediam-n' os 
a credito, reembolsando-se mais tarde por meio de assucar, 
algodão, gengibre e tabaco, ao preço por elles próprios 
fixado. Por isso a camará de Porto do Calvo chegou a 
reclamar que se não vendessem os mantimentos, antes de 
haverem sido estimados pelas corporações dos escabinos. 
Com a carestia da vida e a escassez de mantimentos 
— nos fortes era tal a falta que, escrevia Maurício, os ratos 
morriam de fome nos armazéns — coincidia uma enorme 
penúria de numerário. Suppriam-n' o na circulação vales 
que, recebidos pelos moradores em pagamento dos ali- 
mentos extorquidos para as tropas hollandezas, eram, por 
inconvertiveis na caixa da Companhia, descontados nos cam- 
bistas judeus com um terço e mais de perda. Aos nego- 
ciantes serviam muito os vales para compensar nas car- 
teiras as próprias dividas de escravos, bens ruraes e fretes 
de que era credora a Companhia, ainda que nem sempre 
esta tolerasse o manejo. A carência de numerário tinha- 



118 

se àggravado pelos receios do capital hollandez deante dos 
aprestos da formidável armada do conde da Torre, e pelo 
retrahimento e occultação do metal em mãos dos moradores 
portuguezes. Agora a crise naturalmente redundara na 
suspensão de pagamentos por parte da administração e 
n' um crescente abandono do estimulo agrícola. Ao Su- 
premo Conselho apenas occorria como impedimento a esse 
mal, o velho palliativo da elevação na colónia do valor das 
espécies amoedadas, com relação ao que possuíam na metró- 
pole bátava. 

Na falia do encerramento Maurício, que professava 
idéas pouco exclusivistas, insinuou aos moradores que sem 
abandonarem a rendosa cultura da canna, dispendiosa para 
muitos pela montagem e conservação dos engenhos, se de- 
dicassem mais às chamadas especiarias orientaes, tão bem 
cotadas na Europa, e ás producções brazileiras como o 
algodão e o anil. Vibrando n' um communicativo enthu- 
siasmo, o illustre príncipe, que mandara construir em Mau- 
ricéa o primeiro observatório da America, fizera levantar 
os minuciosos e fidelíssimos mappas topographicos do 
Brazil Hollandez e sonhava com a fundação de uma uni- 
versidade pernambucana e com a installação de uma typo- 
graphia, entrevia o seu porto do Recife, que como seu lhe 
queria, aberto á navegação internacional, frequentado por 
centenares de embarcações, empório poderoso do commercio 
americano. 

Dissolveu-se a assembléa das Torres, não valendo os 
seus eífeitos as excellentes intenções com que fora reunida. 
Quinze dias depois do encerramento, comquanto se tivesse 
declarado peremptoriamente que as propostas votadas vigo- 
rariam como leis e seriam inviolavelmente guardadas, vol- 
tava-se á vida velha, continuando os hollandezes a cevar- 
se no corpo pernambucano, tão anemico já. O próprio 
Maurício, o qual com a desdenhosa liberalidade que sempre 
o acompanhou na vida, pouco inquiria do estado da sua 
bolsa, teve o seu quinhão n' essas exacções. Creio porém 
que ficaria surprezo si lhe contassem a origem de bom 
numero de presentes que recebia, e de dobrões que en- 
contrava no seu contador, dizendo-se-lhe que pela maior 



- --a 



119 

parte provinham de tropelias do seu secretario e amigo 
Gaspar Dias Ferreira. Este intelligente portuguez, verda- 
deiro troca-tintas sem sombra de escrúpulos, enriqueceu ao 
abrigo da affeição do governador, e á custa de um sem 
numero de commissões, concussões e luvas arrancadas por 
geito, ou á força. Frei Manoel Calado, que nutria uma 
marcada antipathia pelo seu collega na privança do prín- 
cipe, junto do qual o frade era o manso defensor das liber- 
dades ecclesiasticas, conta pelos miúdos algumas gatunices 
de Gaspar, entre outras a de nunca -ter prestado contas 
aos vigários catholicos da administração, que a seu cargo 
tomara, do engenho Mussurepe, cujo usufructo o Conselho 
Supremo lhes destinara. Como escabino de Mauricéa fez 
tão preclaro sujeito parte da assembléa das Torres, e tam- 
bém n' ella teve assento, enviado pelo povo da Várzea, o 
opulento mercador madeirense João Fernandes Vieira, o 
terceiro dos portuguezes a quem o conde de Nassau dis- 
pensava especial estima, não tanta porém que pudesse elle 
prescindir de recorrer para alguns negócios ao valimento 
de Gaspar Dias Ferreira, ainda que lhe fosse irritante en- 
treter semelhantes relações. Gaspar, sem romper hostili- 
dades inúteis, antes servindo-o, pagava-lhe em igual moeda: 
n' uma de suas cartas appellida-o mesmo com desprezo de 
mulato. Pierre Moreau, que esteve em Pernambuco no 
ultimo período do domínio hollandez, relata também e por 
duas vezes que o Castrioto Lusitano era mulato e até, o 
que não é crivei, liberto. Por contra os fradescos panegy- 
ristas do século XVII, e modernamente o académico Lima 
Felner, estribado em documentos, fazem-n' o filho de pai 
nobre, um Francisco de Ornellas, facto comtudo que não 
basta para invalidar a hypothese de ser elle de cor, porque 
a escravatura negra existia então na formosa ilha da 
Madeira. 

Tendo vindo muito novo para o Brazil tentar fortuna, 
Vieira batalhou aos 17 annos, querem alguns e elle próprio 
o allega mais de uma vez, nas fileiras de Mathias de Al- 
buquerque, desempenhando brilhante ou melhor romanesco 
papel na defeza do forte de São Jorge: o que outros for- 
malmente contestam, fazendo começar a sua acção em 1645. 



120 

De positivo sabemos apenas que foi protegido por Stacho- 
wer, um conselheiro politico que depois do combate de 
Matta Redonda bateu o Rebellinho, vindo n' uma temerária 
investida quasi aos fortes do Recife. Stachower comprara 
uma fazenda confiscada por 62.000 florins a pagar em seis 
prestações, e associara n' ella o seu amigo portuguez, 
deixando-o como procurador de seus negócios ao embarcar 
para a Hollanda, e extendendo-lhe a sua confiança ainda 
além do tumulo, no testamento. Continuando a negociar 
no Recife por conta de Stachower e por conta própria, 
Vieira ajuntou cabedaes que lhe permittiram comprar o 
engenho do hollandez, ao qual depressa reuniu outros, tor- 
nando-se um dos mais importantes proprietários ruraes de 
Pernambuco e senhor de mil e quinhentos escravos. Grave, 
pouco expansivo, cheio de si, dissimulado, mas esmoler, 
faustoso mesmo, amparando facilmente os desvalidos, re- 
edificando templos destruidos, transformando parte do seu 
oiro em dividas de gratidão, elle gozava desconsideração 
entre hollandezes e portuguezes. Era tanta a sua reserva 
que, mantendo sempre correspondência secreta com o foco 
de resistência nacional da Bahia, por meio dos soldados 
que corriam a campanha de Pernambuco, nunca d' isso 
conseguiram certificar-se os vencedores, apezar de algumas 
delações. Taes prudência, frieza e posição social habilitaram- 
n' o a ser posteriormente o centro da conjuração pernam- 
bucana. 



XII 

Emquanto Maurício proseguia no Recife a sua politica 
de conciliação, sempre mal comprehendido pelos que o 
cercavam, chegava á Bahia o marquez de Montalvão, no- 
meado para substituir o conde da Torre, contra o qual o 
condeduque, furioso pelas derrotas navaes soffridas pela 
esquadra hispano-portugueza, expedia ordem de prizão e 
perda de honras e proventos. O estado de lucta em que 
o vice-rei encontrou immerso o Brazil, do Ceará ao Espi- 
rito Santo, dictou-lhe uma norma de proceder differente da 



121 

que fora imposta ao seu antecessor, vindo da Península em 
pé de guerra. Montalvão assim que tomou posse, entrou 
em negociações, a principio indirectas, com o conde de 
Nassau, afim de renovar uma convenção firmada en 1633 
para humanizar a ferocidade da pugna, e que nunca havia 
sido respeitada. Os preliminares passaram logo a uma 
seguida correspondência, que se acha hoje publicada na 
Revista do Instituto Archeologico e Geographico Pernam- 
cano, e faz parte da collecção recolhida pelo sôr. Dr. José 
Hygino Duarte Pereira. 

Em Agosto de 1640 Montalvão, começando por invocar 
a benevolência que sempre testemunhara aos hollandezes, 
já tratando com agasalho os prisioneiros de guerra, já ob- 
tendo em Lisboa passaportes para o major Picard e duzen- 
tos companheiros se transportarem á Hollanda, externava 
o desejo de entrar em franca communicação com o go- 
verno do Recife por intermédio de commissarios que pu- 
dessem promover a permuta de prisioneiros e a confecção 
de uma trégua. Para isto dirigia-se simultaneamente ao 
conde e a Gaspar Dias Ferreira. Respondendo a 20 de Ou- 
tubro reclamou Maurício como favor, a entrega de dois 
sargentos-móres , que tinham cahido nas mãos dos portu- 
guezes e estavam na Bahia, pedido a que Montalvão não 
poude acceder, excusando-se em sua resposta de 5 de No- 
vembro por forma tão cortez, que o príncipe escrevia-lhe 
depois com sua captivante amabilidade: "Quando eu não 
houvera alcançado em vir ao Brazil mais que conhecer a 
V. Ex a . e communical-o , creia-me que para mim foi a 
maior fortuna e é o maior premio". Este tom de extre- 
mada fidalguia resumbra de toda a correspondência, mas 
governador geral e vice-rei não chegaram de súbito á troca 
dos reféns e despacho dos commissarios, apezar dos ec- 
clesiasticos, no intuito de melhorar-se a situação dos mo- 
radores, ajudarem o accordo. Maurício allegava a prin- 
cipio não ter pessoa digna para enviar em razão da lingua, 
que aos nossos é difficil, e o marquez sob outros pretextos 
também ia adiando a intelligencia. Por fim dispoz-se o 
príncipe a mandar os reféns, não sem que deixasse de ven- 
cer, confessa-o elle, "algumas contradicções do seu con- 



122 

selho, antepondo a todos o animo que alcançava em Mon- 
talvão de lhe fazer favores e mercês": na mesma occasião 
offerecia um presente de sellas da sua cavallariça, que o 
vice-rei retribuio, quando por sua parte remetteu dois mili- 
tares como reféns portuguezes. Isto passava-se em Janeiro 
de 1641, e a subsequente missão do commissario hollandez 
ia ser facilitada pela noticia que a 15 de Fevereiro chegou 
á Bahia, de ter sido proclamado rei de Portugal o duque 
de Bragança. 

Effectivamente um golpe de mão executado na capital 
do reino pela audácia de alguns conjurados, pelo bom con- 
selho de Sanches deBaena e pela astúcia de João Pinto 
Ribeiro, homem de negócios do duque de Bragança, pri- 
vara a Hespanha de uma das melhores porções do seu do- 
mínio peninsular, no próprio momento em que a Catalunha 
estava sublevada apóz excessos lamentáveis, e luctava com 
denodo ajudada pela França. Nutrindo um profundo des- 
prezo pela tibieza do novo D. João IV, o condeduque con- 
tara pouco com a fortaleza de sua mulher, a hespanhola 
D. Luiza de Guzmán, e sobretudo com a agitação popular. 
O ministro de Filippe IV deixara o duque de Bragança 
mettido tranquillamente no seu paço de Villa- Viçosa, dan- 
do-se ares de monarcha desthronado, rodeado de uma ver- 
dadeira corte, conspiradora á força de ociosa, quando não 
por estímulos de patriotismo, — lembrando-se somente da 
molleza do homem para esquecer o poder e esplendor de 
uma casa quasi soberana pelos rendimentos e pelos depen*- 
dentes, que provia dezoito alcaidarias-móres e quatro ou- 
vidorias, concedia foros de nobreza, commendas e outras 
mercês, possuía uma cidade e seu termo e vinte e uma 
villas além de terras e jurisdicções, mandava oitenta mil 
vassallos, gozava de privilégios, immunidades e isenções 
reaes, e para mais na qual, morto o prior do Crato e meio 
esvaída a lenda do sebastianismo, se tinham congregado 
as ambições e despeitos de vários, e as aspirações de mui- 
tos. Aspirações é o termo, porque os portuguezes, apezar 
das extraordinárias concessões das cortes de Thomar, apezar 
das ameaças e das violências posteriores, nunca se resig- 
naram á perda da sua independência. Olivares não igno*- 



,123 

rava decerto que a consummada prudência, o tino adminis- 
trativo e a fria crueldade do rey papélista, como chamava 
a Filippe II o aragonez conde de Luna, não haviam con- 
seguido a abdicação das saudades nacionaes, crystalliza- 
das no ideal de um rei natural. E tanto assim pensava 
o condeduque que, ao chamal-o Filippe IV para os negó- 
cios públicos, indicára-lhe o novo ministro com sagacidade 
os meios brandos de realizar a fusão de Portugal com 
Castella, taes como, a residência do soberano estabelecida 
por algum tempo em Lisboa, a completa extincção dos 
portos seccos ou alfandegas interiores, e a distribuição de 
vice-reinados, embaixadas e officios da real casa pelos vai- 
dosos fidalgos da corte de Àviz, e de bispados e cadeiras 
de magistrados e lentes pelos ecclesiasticos e lettrados. 
As luctas externas da Hespanha e o estado de desaggre- 
gação interna não lhe permittiram todavia durante o seu 
longo governo empregar a persuasão, nem tampouco a 
força quando percebeu a inefficacia da brandura. 

Uma medida indispensável para a segurança da uni- 
dade peninsular não a julgou Olivares necessária, a exclu- 
são do elemento no qual se condensava o perigo, e que 
já em Lisboa fizera sentir ao duque de Uceda, ministro de 
Filippe III, o pezo da sua soberba. Podia pessoalmente 
merecer pouco, como por certo merecia, o duque de Bra- 
gança: convinha comtudo não ter olvidado o que já uma 
vez lembrei, que esse príncipe meio aldeão, encobrindo a 
intelligencia com a rusticidade, dado á caça, aos prazeres 
da meza e á musica religiosa, disfarçando a manha e a 
irresolução sob a capa da bonhomia, era o alvo das ten- 
dências particularistas de um reino subjugado n' um mo- 
mento de desorganização mais aguda e de desanimo mais 
pronunciado. Desfeita a ultima tentativa do pretendente 
prior do Crato, ajudado pelos inglezes e abandonado dos 
seus partidários, Filippe II vira claramente o perigo do 
lado dos Braganças, e procurando annullal-o, até reques- 
tara machiavelicamente em cazamento a duqueza D. Catha- 
rina. A illustre dama declinou a honra, mas, entufada com 
a offerta, formulou em paga da discreta desistência dos 
seus direitos ao throno, que o ciúme da nobreza não deixara 



124 

triumphar, tamanhas exigências que, diz Rebello da Silva, 
parecia querer vender pela segunda vez a coroa de Portu- 
gal, já comprada tão cara e a tantos. Começou ella por 
pedir que o herdeiro do throno de Hespanha despozasse 
«sua filha mais velha, e para si e sua casa os bens que 
possuirá a ultima rainha D. Catharina d' Áustria, desfiando 
por ahi além um rosário tal de pretenções a cidades, titu- 
los, mestrados, dignidades e rendas que, quer-me bem 
parecer, a collocariam e aos filhos em situação mais inve- 
jável do que a de hospedes do Escurial. Filippe II então 
em Portugal, depois de reunir o Conselho d' Estado, desem- 
baraçou-se com algumas mercês distinctas dos pedidos da 
duqueza, augmentando-lhe a riqueza já que entendia não 
dever lisonjear-lhe a ambição, e continuou a dispensar cal- 
culada benevolência e medida generosidade á família de 
Bragança, a qual correspondeu á munificência régia com- 
batendo o prior do Crato ao lado dos castelhamos. 

O descontentamento portuguez foi entretanto crescendo 
pelo correr dos annos, pôde dizer-se que diariamente. As 
immunidades concedidas em Thomar n' um momento em 
que tudo se promettia para alcançar a cobiçada união, en- 
traram a ser desrespeitadas. Madrid centralizava, no, dizer 
dos portuguezes, o despacho dos negócios, a distribuição 
dos empregos, os armamentos de terra e mar, os rendi- 
mentos das colónias. De nada lhes aproveitava por outro 
lado serem súbditos de um grande monarcha, pois que a 
annexação fizera augmentar, n' um período de penúria e de 
despovoamento como esse que se seguia á empreza de Al- 
cacer-Kibir, as contribuições de dinheiro e de sangue, e 
despertara ataques de novos inimigos, sem trazer uma 
única compensação: nem sequer o commercio transatlân- 
tico, as riquezas do México e do Peru que tanto escalda- 
vam as imaginações européas, se abriu ao reino. E a mi- 
séria rugia em Portugal, paiz de aventuras, falto de uma 
agricultura ordenada e de uma industria solida, no qual 
o estado vivia de onerosos direitos alfandegários, diminuí- 
dos pelas luctas marítimas e pelos consequentes retrahi- 
mento do commercio e desenvolvimento do contrabando, e 
os nobres e religiosos de mercês realengas e impostos op- 



125 

pressores; todos do trabalho Ímprobo do povo que não 
emigrava ou não morria de fome, e dos lucros incertos de 
um trafico exposto aos azares da guerra, que se traduziam 
por perdas reiteradas e valiosíssimas. 

O estado da fazenda publica era uma elegia. Mili- 
tares, sacerdotes, magistrados e fidalgos compenetravam-se 
tão bem do seu papel de roedores do orçamento que o 
deficit, aberto por encargos muito superiores á receita 
publica, já então consumia o pobre paiz, asphyxiado por 
atrazos, empréstimos, conversões forçadas, hypothecas, to- 
das as angustias dos que se administram mal, vivendo a 
nação á mercê dos credores e roto o flanco pelas fraudes 
toleradas dos contractadores. Algumas disposições do tempo 
de Filippe III, destinadas a melhorar os apuros do erário 
regularizando as operações financeiras, e a normalizar a 
administração da justiça compilando as novas ordenações, 
bem como outras medidas castigando as tyrannias e im- 
moralidades da índia, não bastaram para mitigar lo azedume 
das relações dos dois povos, que ás vezes já se denun- 
ciava por motins. A viagem de Filippe HL a Portugal foi 
uma completa desillusão para os que esperavam ainda lo- 
grar maior respeito ás concessões e maior reparação aos 
aggravos. 

Fervia o mal estar quando Filippe IV subiu ao throno, 
e aggravou-o o ideal de centralização do condeduque, in- 
dispensável para a grandeza da dilacerada Hespanha. 
Queixou-se lego a fidalguia de que lhe attribuiam pouca 
consideração em Madrid, obrigando-a o monarcha, no prin- 
cipio do seu reinado, a soffrer a confirmação das mercês 
que ella possuía em bens da coroa e das ordens. Roncou 
o clero lesado em seus benesses e ameaçado em suas re- 
galias, e murmurou mais impaciente o povo contra as re- 
petidas exacções a que o expunha a voracidade do thesouro 
hespanhol, em chronico esfalfamento. Além de tudo isto, 
os piratas berberes infestavam as costas portuguezas, e os 
inglezes e hollandezes, uns e outros agremiados em com- 
panhias eolossaes, invadiam e expulsavam os portuguezes 
do Oriente e do Occidente, sem que a metrópole pudesse 
oppôr aos seus atrevimentos uma repressão efficaz. A 



126 

companhia de commercio sinceramente imagmada por Oli- 
vares para fazer face ás do Norte, cujos triumphos o amar- 
guravam, fenecera, impotente para combater uniões espon- 
tâneas de mercadores ávidos de lucros com a sua pecha 
de instituição official, gerada pelo esforço ingrato de em- 
préstimos e impostos. As colónias andavam assim amea- 
çadas de perto, e as contribuições que se lançavam para 
a sua defeza, desviadas da legitima applicação* nem che- 
gavam para as necessidades da politica da Casa d' Áustria, 
dynastia alheia aos interesses portuguezes e a qual* pro- 
vocada por inimigos poderosos, não queria abandonar suas 
tradições gloriosas, e não achava meios com que amparal-as 
na pobreza de Castella e na má vontade dos reinos con- 
quistados. 

A resistência passiva em Portugal seguiram-se as re- 
belliões frementes, quando em 1635 o secretario de estado 
Miguel de Vasconcellos tencionou servir com mais eífeito 
os planos do condeduque, calcando sem reserva os privilé- 
gios e armando sem piedade as cobranças. A ogeriza 
votada por este funccionario aos nacionaes, nobres ou ple- 
beus, os quaes haviam feito pezar sobre elle a hegregada 
memoria do pai, um jurisconsulto dedicado cordialmente 
aos interesses de Madrid e assassinado por mão vingativa, 
peorou de tal modo a situação que o desfecho podia ser 
prophetizado para breve. A Hespanha aos poucos foi tendo 
resolutamente contra si quasi todo o paiz, que a estron- 
dosa victoria de Tromp no Canal, em Outubro de 1639, 
roubando á Hespanha quarenta e quatro navios e seis mil 
homens, e destruindo, com o revez do conde da Torre no 
Brazil, o poderio naval de que tanto se jactava o conde- 
duque, unicamente salvou de ser encorporado á força na 
monarchia. Este plano violento, afagado por Olivares 
quando de todo se convenceu da improficuidade de qual- 
quer outro mais benigno, começara claramente a despontar 
no projectado arrastamento da nobreza portugueza para 
os campos da Catalunha, apóz as levas de soldados e ma- 
rinheiros, manchadas de episódios dolorosos. Na derrota 
das Dunas, Portugal perdeu, além de um galeão, nove- 
centos filhos, e não foram estes os únicos que o conde- 



127 

duque fez sahir da pátria, para esmagal-a quando estivesse 
deserta de homens validos e de pessoas de posição, e con- 
sumida pelas exacções que cresciam sempre. "A contri- 
buição, como rede immensa, colhia a todos os que ainda 
podiam concorrer de algum modo, e não perdoava a ne- 
nhuma classe. Os mosteiros e os cabidos eram collectados 
a par dos officiaes das alfandegas e da casa da índia, e 
o tribunal dos contos e as sete casas em commum com os 
negociantes de grosso tracto e as corporações pias." (Re- 
bello da Silva, Hist. de Portugal.) 

A fidalguia em grande parte empobrecida pelos gastos 
da corte e pelos ainda recentes malbaratos da expedição 
de D. Sebastião, enleada pelas dividas á fazenda e pelos 
impostos sobre mercês e rendas, recebeu com enfado a 
ordem de acompanhar Filippe IV á Catalunha, e de com- 
bater um povo sublevado em nome dos seus foros contra 
constantes e vexatórios tributos e inacreditáveis atropelos 
militares, nascidos os últimos da guerra da fronteira. Agru- 
pando-se em volta do seu legitimo chefe, o poderoso duque 
de Bragança, os nobres procuraram resolvel-o a levantar 
o pendão da revolta e sentar-se no throno portuguez. Se- 
nhores das escolas e dos confessionários, onde tinham 
sempre incutido o ódio ao dominio extrangeiro, os jesuitas 
entraram na conspiração e seduziram o povo, inclinado ao 
maravilhoso, com seus prognósticos interpretados, textos 
sacros deturpados, representações allegoricas, oráculos ex- 
plicados e avisos celestes espalhados. Mudando o sentido das 
prophecias, falseando as trovas pouco claras do, sapateiro 
Bandarra e encarnando no duque de Bragança o mytho do 
Encoberto, elles fizeram brilhar deante da grande massa in- 
génua a realização do prodígio e a esperança da libertação. 

As sofreguidões de grande parte da aristocracia, os 
estímulos da França, o apoio decidido do clero secular e 
das ordens religiosas, os desejos da classe media e o fre- 
nesi do povo não convenceram porém D. João a pro- 
clamar logo a sua realeza. Os conjurados desanimados 
pela attitude vacillante do duque, chegaram a pensar no 
irmão D. Duarte, que batalhara ao lado dos imperiaes na 
guerra dos Trinta Annos e continuava na Europa Central 



128 

a revelar qualidades de homem de acção, e mesmo na 
republica, provavelmente fascinados com a pujança da Hol- 
landa. Comtudo, empurrado pela ambição da mulher, cedeu 
D. João de Bragança por fim ás reiteradas instancias, e 
decidiu-se á aventura quando lobrigou que Olivares não 
tardaria em arrancal-o ao descanço de Villa Viçosa. Achava- 
se elle d'est' arte collocado na alternativa de vegetar pobre- 
mente n'um desterro ou de abalançar-se a ser rei de Por- 
tugal. Por intermédio de João Pinto Ribeiro aplanaram- 
se as difficuldades do movimento, e estabeleceu-se o alme- 
jado accordo entre o novo monarcha e seus vassallos; mas, 
sempre cauteloso, o duque esperou nas suas terras do 
Alemtejo que a revolução estalasse na capital, da mesma 
forma que depois, sendo rei, deixou prolongar-se a guerra 
contra a Hespanha sem nunca comparecer n'um campo de 
batalha. 

Miguel de Vasconcellos principiava a desconfiar das 
machinações dos conjurados e d'ellas prevenira o conde- 
duque, que sem demora expediu ordens de severa repres- 
são, quando a 1 de Dezembro de 1640, por uma formosa 
manhã de inverno, os fidalgos entraram bruscamente no 
paço, desarmaram as guardas castelhana e tudesca, força- 
ram á obediência a duqueza de Mantua, assassinaram o 
odiado secretario de estado, lançando o cadáver ensanguen- 
tado aos insultos do populacho, e acclamaram D. João IV. 
O arrojo do golpe fez emmudecer toda resistência. Os 
sacerdotes abençoaram prestemente o movimento, e o povo 
applaudiu-o com enthusiasmo. Os partidários de Castella, 
que se recrutavam particularmente na Casa da Supplicação 
e no Senado da Camará, adheriram a elle para salvar suas 
vidas; o castello de São Jorge, onde jazia prezo o esfor- 
çado Mathias de Albuquerque por imaginarias culpas nos 
revezes de Pernambuco, abriu as portas á ordem constran- 
gida da princeza regente, e as outras fortalezas igualmente 
se submetteram sem disparar um tiro, vendendo-se o com- 
mandante da forte torre de São Julião a conselho do conde 
da Torre, alli prisioneiro. Tampouco ensaiaram pelejar 
os galeões hespanhoes surtos no Tejo, e em duas sema- 
nas, não contando a conspiração ramificações definidas e 



129 

achando-se quasi exgottados os meios de defeza, campeava 
em todo Portugal a bandeira da independência. 

A acclamação de D. João IV effectuou-se com igual 
felicidade nas numerosas e separadas colónias portugue- 
zas. O Brazil causava á metrópole especial inquietação, 
não só pela considerável importância da possessão, como 
pelo estado de guerra em que se encontrava e pela divi- 
são das forças da Bahia, metade castelhanas, metade por- 
tuguezas: "ma come che alli gran sospetti non sempre 
seguano grandi eífetti, anzi per lo piú facilmente isgom- 
brano quei temporali, che originati da varietà di venti piú 
torbida mostravano Faria sul nascer dei giorno" (Birago, 
Disunione). A prudência do marquez de Montalvão deveu- 
se tão lisonjeiro resultado, passando-se a mudança de 
governo no Brazil, na phrase de Birago, como em qual- 
quer fortaleza collocada no coração do reino. Chegada a 
carta do novo monarcha, que lhe íoi entregue com subida 
precaução pelo mestre da caravela, o vice-rei mandou 
interceptar a communicação da gente de bordo com os 
habitantes, e armar os soldados portuguezes afim de conter 
em respeito os seiscentos castelhanos e napolitanos da 
guarnição, os quaes mais tarde foram embarcados para 
as Antilhas. Em seguida fez vir á sua presença o bispo, 
o general D. Francisco de Moura e mais officiaes, os ec- 
clesiasticos, magistrados e outras pessoas de distincção, 
e pedindo separadamente a opinião de todos, certificou-se 
da unanimidade de sentimentos que entre elles reinava: 
feito isto, procedeu ao solemne reconhecimento do rei 
portuguez. Da carta relatando este feliz successo e dos 
emboras de Montalvão foi portador seu próprio filho, 
acompanhado por dois illustres jesuitas,. o padre Simão 
de Vasconcellos , chronista da Ordem na província do 
Brazil, e o padre António Vieira, que ia fazer sua entrada 
na corte, theatro mais adequado ao engenho e finura dó 
grande escriptor. Nas outras capitanias não se desmentiu 
a fortuna do duque de Bragança. 

O vice-rei, a 2 de Março, deu conta do occorrido ao 
conde de Nassau, certo de que a sublevação de Portugal 
contra a Hespanha, figadal inimiga das Províncias Unidas, 

Lima, Pernambuco. 9 



130 

contribuiria para o êxito das negociações em que andava 
empenhado, e em sua carta noticiava a partida de Lisboa 
de uma embaixada com destino á Hollanda. Juntamente 
com sua resposta de 12, Maurício expediu alguns prisio- 
neiros de guerra portuguezes, e annunciou a próxima 
viagem dos seus delegados: poucos mezes depois regres- 
sava com effeito á Bahia o tenente general Martim Fer- 
reira, que no Recife estivera como refém. A carta do 
príncipe já foi recebida pelo triumvirato composto de Luiz 
Barbalho, do provedor-mór interino e do bispo, o qual, 
servindo-se de ordens particularmente transmittidas ao 
jesuita Vilhena para d'ellas se utilizar somente no caso 
de Montalvão manter-se leal a Castella, injustamente de- 
puzéra o vice-rei e o enviara em ferros para Lisboa, onde 
o soberano, informado dos pormenores da sua acclamação 
na Bahia, lhe fez porém gentil acolhimento. A missão 
vinda de Pernambuco foi um reflexo da embaixada de 
Tristão de Mendonça Furtado á Haya: o governo da 
Bahia restituio quasi todos os prisioneiros hollandezes, e 
suspendeu as hostilidades, sendo mandadas recolher as 
guerrilhas de Camarão, Henrique Dias e Paulo da Cunha, 
que ainda semeavam no território conquistado pela Com- 
panhia os incêndios e as degolações. A trégua definitiva 
ficou dependente do accordo que se estipulasse na Europa 
entre o emissário portuguez e os Estados Geraes. 

Maurício não era homem que perdesse tão bôa ocea- 
sião para uns festejos, com que deleitasse o seu caracter 
divertido e servisse os interesses de sua politica. De 
prompto, no mez de Abril, fez preparar um terreno fron- 
teiro ao palácio, aplainando-o e levantando n'elle palan- 
ques, para celebrar com um brilhante torneio a nova que 
lhe mandara o marquez de Montalvão. Convidou alguns 
bons cavalleiros da terra, entre elles João Fernandes 
Vieira, que todos acudiram ao chamado; u e alguns ouve, 
que para aparecerem ricamente adornados, se prepararão 
de custosas librés e ricos jaezes, empenhando-se mais do 
que suas posses, e cabedal alcançava, e outros pedirão 
emprestadas a seus amigos, e parentes muitas jóias de 
preço, e de valor." Dispol-os o príncipe n' uma quadrilha, 



»tí 



131 

collocando-se elle próprio á frente de outra composta de 
extrangeiros , e inaugurou as festas com um soberbo jan- 
tar. No dia da justa, os dois bandos percorreram a 
cidade ao som de alegres instrumentos antes de darem 
entrada na liça, em volta da qual se reunira grande mul- 
tidão de espectadores: fí as damas estrangeiras de todas 
as partes do Norte, postas por as janelas, e a mais gente 
grave subida nos palanques, e theatros, e a outra gente 
commua repartida cada hum por onde pode, e o rio cheio 
de bateis, e barcas, carregadas de homens e molheres." 
Nas diversas partes do torneio — carreiras, argolinha, 
patos á mão e á espada ou estafermo — , diz frei Manoel 
Calado que os portuguezes levaram sempre a melhor e 
alcançaram custosos prémios, não só executando prodígios 
de equitação, como fazendo-se notar pela harmonia do 
conjuncto. "Cavalgavão todos á gineta e corrião tão fecha- 
dos nas sellas, e tão compostos, e airosos, que leva vão 
após si os olhos de todos, e principalmente os olhos das 
damas; porem nenhumas se poderião gabar, que Portu- 
guês algum de Parnambuco se affeiçoasse a molher das 
partes do Norte; não digo eu para casar com ella, mas 
nem ainda para tratar amores, ou para alguma desenvol- 
tura." Apezar d' esta arisca reserva tão gostada do pudi- 
bundo frade, e na qual, para honra dos meus conterrâ- 
neos, não quero acreditar demasiado, algumas damas in- 
glezas e francezas, impressionadas com o ar e bizarria 
dos portuguezes, tiraram os anneis dos dedos e os man- 
daram offerecer por prémios, só por os ver correr. Não 
se diga que tal enthusiasmo visava a enciumar as brazi- 
leiras, porquanto estas tinham já perdido os hábitos de 
vida mundana, e, retrahidas em suas casas, não mais 
aqueciam nas justas e torneios a intrepidez dos caval- 
leiros com o ardor dos seus olhos negros. 

"No dia seguinte mandou o Príncipe desparar toda a 
artelharia, assim da terra, como do mar, e convidou a 
todos os cavalleiros, aonde ouve muitos brindes, como he 
costume de sua terra, e com humas ceremonias a modo 
de jogo, e quem as errava lhe fazião beber três vezes em 
castigo de seu erro, e- todas as vezes que se brindava a 

9* 



132 

saúde dei Rey Dom João o Quarto deste nome Rey de 
Portugal, tinhão obrigação de se levantarem todos os cir- 
cunstantes com os chapéos nas mãos, e não se tornavão 
a cubrir nem assentar, até que o brindes não dava volta 
a toda a mesa; e em quanto o brindes durava, não se 
calavão as trombetas, que erão muitas, nem parava o 
estrondo das caxas de guerra; e se o banquete era jantar 
durava a beberronea até a noite, e se era cea até a ma- 
drugada; e nestes convites se achavão as mais lindas da- 
mas, e as mais graves molheres, Olandesas, Francesas e 
Inglesas, que em Pernambuco avia, e bebião alegremente 
melhor que os homens, e arrimavão-se ao bordão de que 
aquelle era o costume de suas terras" (Frei Manoel Ca- 
lado, ob. cit.). 

No terceiro dia, mal descançados os convivas d' este 
ruidoso banquete, que lembraria na sua expansão de ani- 
malidade os quadros communicativos de transbordante 
jovialidade de van der Helst e Franz Hals, "ordenou o 
Príncipe hum jogo de canas, e laranjadas, o qual se fez 
na praça dos Coqueiros com muito regozijo; o Príncipe 
de huma parte com os de sua quadrilha, e da outra os 
cavalleiros Portugueses, e com duas emboscadas de mos- 
queteiros, os quaes desparavão todas as vezes que o Prín- 
cipe corria, ao som de muitas caixas, e trombetas; e ao 
despois se fizerão escaramuças, nas quaes os Portugueses 
deixarão muito atraz os Olandeses, em destreza, e galhar- 
dia; e chegada a noite, despois da cea, mandou o 
Príncipe representar huma Comedia em língua Francesa, 
com muita ostentação, suposto que poucos, ou nenhum 
dos Portugueses entendeo a letra da Comedia, senão pra- 
ticada por os mesmos Franceses na nossa lingua materna; 
e no seguinte dia despedio o Príncipe os cavalleiros Por- 
tugueses, com muitos agradecimentos da mercê, que lhe 
avião feito em se querer achar nas suas festas" (Frei 
Manoel Calado, ob. cit.). 



133 



XIII 

A diplomacia portugueza estava talhado largo e bri- 
lhante papel no período que se seguio á independência do 
reino. Como era evidente, a Hespanha não deixou passar 
sem um protesto armado a desannexação da preciosa con- 
quista de Filippe II, e D. João IV sentiu bem a necessi- 
dade em que se achava, além da de velozmente organizar 
a defeza do paiz, de estribar a sua posição no reconheci- 
mento de estados europeus desaffectos a Filippe IV. Não 
havia no momento muito por onde escolher embaixadores. 
Dos fidalgos que se recommendavam pela distincção e 
intelligencia, vários estavam, quando rebentou a revolução, 
reunidos em Madrid a convite do condeduque para a 
celebre conferencia em que o ministro hespanhol declarou 
a perda dos .foros portuguezes, e outros tinham seguido o 
partido de Castella; mas nem por isso deixou o novo 
monarcha de nomear os seus representantes. Para a Hol- 
landa foram despachados com o embaixador, que era um 
militar por nome Tristão de Mendonça Furtado, o conse- 
lheiro Dr. António de Souza Tavares, escriptor fluente, o 
secretario António de Souza, e dois delegados technicos 
para os assumptos mercantis, negociantes conhecidos, um, 
hollandez naturalizado, e o segundo portuguez. Os Esta- 
dos Geraes receberam fácil e amavelmente a embaixada, 
que fez a sua entrada na tranquilla cidade da Haya a 
9 de Abril de 1641, sendo hospedada pelo stathouder. 

A irmandade dos interesses anti-hespanhoes de Portu- 
gal e da Hollanda tornaria esta missão sobremodo agra- 
dável por despida de asperezas, projectando até espontanea- 
mente os Estados Geraes auxiliar D. João IV, si não 
existisse o embaraço das possessões portuguezas occupadas 
em tempo do domínio dos Filippes pelas duas Compa- 
nhias de Commercio, pouco dispostas agora a ceder das 
suas conquistas, e que antes regozijando-se com a divi- 
são da Peninsula, pensavam em extendel-as. As Alusões 
do soberano portuguez acerca da restituição das suas co- 
lónias, exaradas nas propostas de Tristão de Mendonça, 
não tardaram a soífrer um duro abalo: os commissarios 



134 

dos Estados Geraes e os deputados das Companhias eram 
indivíduos em demasia práticos para se não aproveitarem 
da fraqueza de um reino que lhes pedia alliança. Fez-se 
o tratado e assignou-se aos 12 de Junho, incluindo, entre 
outras disposições, a suspensão por dez annos de toda 
guerra entre os dois paizes, o esquipamento de uma ar- 
mada de soccorro hollandeza para ajudar a lucta portu- 
gueza, na qual veio o famoso Ruyter a fazer as suas pri- 
meiras armas, a liberdade religiosa e a liberdade mutua 
de navegação e commercio para os súbditos de ambas as 
nações em todas as possessões, menos no Brazil Hollan- 
dez. Estipulava porém esse documento que cada uma 
das duas potencias conservaria nas índias Occidentaes 
durante a trégua, aquelles territórios de que estivesse de 
posse na epocha em que a ratificação do tratado fosse 
officialmente publicada nas colónias ultramarinas. Era 
clausula esta ultima somente própria para estimular a 
ganância da Companhia no alargamento do seu domínio, 
e o brio dos portuguezes em recuperarem o perdido, pro- 
longando a guerra em vez de sustal-a; e com effeito foi 
o que succedeu. 

Os XIX, reiterando calorosos pedidos ao conde de 
Nassau, já desgostoso com a inutilidade dos seus esforços 
para a consolidação affectiva do domínio batavo, afim 
d'elle continuar á frente do governo de Pernambuco depois 
de findar o período de cinco annos que deviam durar as 
suas funcções, insistiram para que o delegado da Com- 
panhia tentasse, emquanto permittidas, algumas expedi- 
ções proveitosas. A fraqueza militar do Recife, fructo do 
espirito de economia que forçosamente reinava entre os 
directores, mais do que o escândalo da tentativa, não 
dava lugar a emprehender-se a appetecida tomada da 
Bahia. Maurício obedeceu comtudo ás instigações da 
Europa: começou por ordenar a occupação da capitania 
de Sergipe, de agricultura pouco florescente, mas que 
offerecia para a criação de gado os férteis prados inun- 
dados pelas cheias do São Francisco e banhados por 
tantos rios, e a seguir armou uma expedição contra o 
reino de Angola, viveiro importantíssimo de escravos, de 



135 

onde sahiam annualmente no principio do século XVII 
cinco mil peças para Pernambuco, e dez mil para outros - 
lugares. Cobriu o príncipe este ataque com os especiosos 
pretextos de ignorar si a colónia africana ficaria final- 
mente pertencendo á Hespanha ou a Portugal, e de que 
em todo o caso a sua perda seria muito mais sensivel á 
Hespanha, que d'alli tirava escravos para a exploração 
das minas de oiro do Peru. O almirante Jol foi ainda o 
encarregado da nova empreza, seguindo para o mysterioso 
continente negro com uma frota de vinte embarcações 
tripuladas por novecentos marinheiros, e conduzindo dois 
mil soldados europeus de desembarque e duzentos dos 
índios, que continuavam a affluir aos arraiaes hollandezes 
(Netscher). 

Angola, apezar de andar continuadamente insultada 
pelos irrequietos sovas da vizinhança, que os jesuítas não 
alcançavam manietar, achava-se como todas as possessões 
peninsulares, mal defendida e peor guarnecida. Os habi- 
tantes espavoridos abandonaram a cidade de São Paulo 
de Loanda, fugindo para o afastado presidio de Massan- 
gano, no sertão, onde também se acolheu o governador, 
acossado pelos hollandezes que facilmente se assenhorea- 
ram da cidade quasi deserta, desbaratando os portuguezes 
e os auxiliares negros. Trinta navios mercantes e cento 
e vinte oito canhões cahiram em poder de Jol, o qual, 
fortificada Loanda, velejou para o norte, desembarcando 
em São Thomé. A pequena capital da ilha resistiu a um 
cerco de dezeseis dias , a despeito da decadência d' essa 
colónia despovoada e maltratada, depois de um rápido 
período de fortuna em que chegou a contar sessenta en- 
genhos produzindo cento e cincoenta mil arrobas de as- 
sucar. O seu abatimento fora motivado pela revolta dos 
escravos em 1574, verdadeira razzia que determinou a 
emigração para o Brazil de boa porção dos colonos e se 
prolongou sob a forma de algaras periódicas, por um pa- 
voroso incêndio, pelas rudes visitas de corsários inglezes 
e francezes, e pelo saque hollandez de 1600, o qual não 
ficou sem imitação da parte das embarcações bátavas que 
coalhavam os mares da Guiné. O clima de São Thomé 



136 

foi cruel na vingança exercida contra os invasores : o des- 
temido Pé de páu morreu pouco depois de sujeita a ilha, 
e no fim de algum tempo mais verificava tristemente o 
seu successor, que apoderára-se da ilha de Anno Bom, a 
perda de quasi todos os capitães e de grande numero de 
soldados da expedição. Angola era porém sufficiente van- 
tagem para resgatar aos olhos da Companhia a perda de 
tantas vidas. Maurício calculou em mais de dois milhões 
de florins o lucro que devia produzir o trafico de escravos, 
liquido de todas as despezas, e pôde bem imaginar-se que 
o computo não era exaggerado si lembrarmo-nos que cada 
negro custava approximadamente trinta florins em Africa, 
e vendia-se no Brazil entre 300 e 500 florins. No seu re- 
latório o conde de Nassau empenhava-se fortemente pela 
dependência da conquista africana do governo do Recife, 
desejo em que o não at tenderam os XIX, instituindo em 
Angola uma administração separada. 

Não pararam aqui os ruidosos successos das . armas 
hollandezas. Desprevenido, o Maranhão cahiu com suas 
riquezas em poder do almirante Lichthardt e do coronel 
Roin, sem combate, por uma transacção ardilosa, em No- 
vembro de 1641, trez mezes antes de ser apresentada por 
D. João IV aos Estados Geraes a ratificação do tratado 
luso-hollandez. Estavam portanto todos estes ataques sal- 
vaguardados pela lettra do convénio, e de nada serviram 
os protestos do licenciado la Penha no Recife, do embaixa- 
dor portuguez na Haya, e do marquez de Montalvão, que de 
Lisboa em carta de 12 de Março de 1642, confiava a Maurício 
o sentimento de que o reino se possuirá ao saber de acção 
tão injusta, e insinuava-lhe a idéa que D. João IV estaria 
ruminando de nomear o príncipe hollandez general no 
Brazil das armas alhadas contra Castella. Accrescentava 
astutamente o honrado fidalgo, com o fim de intimidar o 
conde, no caso em que as blandícias não colhessem o de- 
sejado eífeito: "o Reino tem um pé de guerra bem for- 
mado, e temos as fronteiras bem guarnecidas e provi- 
das, e eu vou pondo as cousas do mar em mui bom 
estado". 

O protesto de Francisco de Andrade Leitão, embaixa- 



137 

dor extraordinário junto aos Estados Geraes, é datado da 
Haya em 13 de Maio de 1642, e foi impresso no mesmo 
anno n' um folheto intitulado Discurso politico sobre o se 
aver de largar a Coroa de Portugal, Angola, S. Thomé, e 
Maranhão, exclamado aos Altos, e Poderosos Estados de 
Olanda. Documento habilmente escripto, invoca a doutrina 
de que o almirante Jol devia ter-se cingido ao espirito e 
não á lettra do convénio, o qual se fizera para firmar a paz 
e não para sustentar a guerra; allega o protesto dos mo- 
radores dos lugares conquistados para dizer que, "segundo 
huma ley civil dos Romanos, he dolo não querer crer, nem 
entender aquillo que todos crem, e dizem em algum lugar" ; 
e procura por fim explicar arguciosamente que a famosa 
clausula do tratado que permittira os ataques batavos, só 
se havia de entender com os lugares e praças portuguezas 
que ainda estivessem por Castella, ou se mostrassem neu- 
traes, e duvidosas, e não com aquellas que espontanea- 
mente houvessem acclamado D. João IV, porquanto de 
outra maneira implicaria contradicção o ajuntar a Hollanda 
por uma parte armadas para soccorrer Portugal, e fabri- 
cal-as por outra para n' esse mesmo tempo lhe tomar pra- 
ças importantes. Foram inúteis as razões diplomáticas, 
visto que a força primou sempre o direito. O aphorismo 
que Lafontaine envolveu no encanto de mais de uma das 
suas fabulas, e cuja ultima applicação Bismarck nos for- 
nece na fadigosa gestação da unidade allemã, tampouco 
se desmentiu n' aquella occasião. 

Entrou e não sem tempo o Brazil Hollandez depois 
d' essas controversas conquistas n' um curto periodo paci- 
fico, que Maurício aproveitou sofregamente para tratar de 
restaurar as forças tão depauperadas da colónia, prose- 
guindo nos encetados melhoramentos materiaes e desenvol- 
vendo quanto poude a debilitada lavoura. Grande numero 
de plantações foram vendidas a prazo a moradores portu- 
guezes com o fim de augmentar a producção do assucar, 
e data do fim de 1641 a viagem do sábio Herckman ao 
interior, no encalço da velha fantasia que Duarte Coelho 
tivera o raro bom senso de desdenhar — a descoberta 
das minas de oiro e prata, ideal que fascinaria ainda ou- 



138 

tros europeus, entre os quaes o aventureiro Beck e o mis- 
sionário Astetten, nos últimos annos do dominio hollandez. 
Herckman, que foi director da Parahyba, escreveu em 
1639 uma interessante descripção d 1 esta capitania, povoada 
no seu tempo até á serra de Ocupaoba, "montes mui altos 
e de encostas mui Íngremes encimados por uma vasta 
planície de ar salubre e frio, onde a noite cae geada, e 
de tanta fertilidade que dá não somente a canna e outras 
novidades do Brazil como os cereaes, a vinha e vários 
productos da Europa". A descripção foi publicada na 
Chronica do Instituto de Utrecht (trad. do sfir. D r . José 
Hygino na Rev. do Inst. Arch. e Geog. Pern.), e n' ella 
Herckman dá-nos uma idéa muito circumstanciada da 
terra, elogia o seu clima, encarece a sua vegetação, aponta 
os benefícios dos seus rios, narra a sua curta historia, 
enumera os seus engenhos, indica a sua organização poli- 
tica, pinta os seus v fructos, animaes, plantas medicinaes e 
de valor commeroial, e habitantes selvagens. 

Apezar da trégua, Maurício não se sentia seguro da 
fidelidade portugueza, mormente depois que a independência 
da metrópole provocara uma recrudescência de patriotismo, 
e foi contra a sua opinião, expressa com vehemencia, que 
os XIX filtraram a diminuir o exercito de occupação nas 
capitanias conquistadas. O príncipe queria, ao inverso da 
Companhia, ver augmentado o effectivo das forças e dispor 
de amplas munições de guerra, e para isto conseguir che- 
gou a mandar á Hollanda em Maio de 1642 o seu secre- 
tario particular Tolner, o qual leu perante os Estados Ge- 
raes um relatório pintando a condição de desprovimento 
do Brazil Hollandez, defendido por pouco mais de trez mil 
soldados, com os arsenaes e armazéns quasi vasios, e ar- 
cando com a indisposição dos habitantes, que não perdoa- 
vam especialmente a intolerância significada á sua religião, 
comparando-a amargamente á liberdade novamente alcan- 
çada pelos judeus. A missão de Tolner foi evidentemente 
um repto aos XIX, aos quaes Maurício fazia acres censuras 
pela repugnância com que recebião os seus alvitres, tendo 
exaggerado a economia ao ponto de limitarem os gastos 
de meza do príncipe. secretario invocou em abono da 






139 

politica prudente do conde de Nassau, menosprezada pelos 
directores, a sua popularidade, e testemunhou-a lendo re- 
presentações das camarás de escabinos e earta,s de mora- 
dores de consideração, supplicando a Maurício que conti- 
nuasse á frente do governo, resolução que os judeus pre- 
tendiam arrancar-lhe docemente á custa de uma subvenção 
de trez mil florins annuaes. Os portuguezes para não 
ficarem a traz dos filhos de Israel, compromettiam-se, no 
caso do príncipe não deixar Pernambuco, a depor volun-r 
tariamente a seus pés um tributo de meia pataca por cada 
caixa de assucar fabricado. Em uma democracia ciosa do 
seu nivelamento era mais prejudicial do que persuasiva 
tamanha popularidade: o espectro de César perturbou sempre 
o somno das republicas, e na Hollanda exactamente não 
tardaria muito que os irmãos Witt se levantassem contra 
a supremacia da Casa de Orange. Accresce que os XIX 
tinhão justamente decidido diminuir ainda mais as forças 
hollandezas das colónias, e acceitar para 1643 o pedido de 
demissão anteriormente e por mais de uma vez formulado 
por Maurício. 

Não contava o príncipe com semelhante recompensa 
dos seus serviços, e de resto elle apresentara o pedido de 
exoneração mais como intimidação, para ser rogado e at- 
tendido, do que realmente com sinceridade. A 24 de Se- 
tembro escreveu aos Estados Geraes, a perguntar-lhes si 
confirmavam as ordens da Companhia, uma missiva de 
desabafo na qual, não deixando de fallar na diminuição 
que a trégua trouxera aos próprios proventos, cessando a 
percentagem que tocava nas prezas ao governador, descreve 
sombriamente o estado da possessão a braços com o re- 
sentimento da ciumenta fé catholica dos portuguezes, que 
para mais eram devedores á Companhia de perto de seis 
milhões de florins em propriedades, escravos e outras ver- 
bas; e tendo por único apoio um minguado exercito, pago 
com irregularidade e maltratado. Upia carta análoga foi 
dirigida aos XIX, que replicaram-lhe seccamente provirem 
os maus negócios da Companhia da sua faustosa e pródiga 
administração, e, para encurtar razões, pediram aos Estados 
Geraes a homologação da retirada do príncipe. A alta 



140 

assembléa politica conformou-se , dizem que pezarosa, 
com a resolução dos XIX, e Maurício recebeu a 30 de 
Setembro de 1643 a decisão tomada na Haya em 9 de 
Maio. 

Acontecimentos graves, tão graves pelas consequências 
que comportavam como pela própria natureza, haviam en- 
tretanto dado razão ao príncipe, talvez antes do quê elle 
mesmo previa. O governador geral António Telles da 
Sylva, chegado á Bahia em meados de 1642, também 
protestara no Recife contra as conquistas posteriores á in- 
dependência portugueza, e particularmente contra apreza- 
mentos de navios, julgando-se com direito deante da inutili- 
dade de suas reclamações, a proceder por igual forma, 
fomentando a nascente rebellião portugueza contra o do- 
minio hollandez — idéa de reivindicação a que annuia 
gostosamente a corte e que residia no coração, e sobre- 
tudo na consciência de cada brazileiro. Forjára-se por esse 
tempo uma conspiração, na qual entravam como elementos 
predominantes o bravo André Vidal de Negreiros e o in- 
fluente João Fernandes Vieira, seguidos tacitamente por 
quantos, e eram todos, queriam eximir-se ao execrado 
protestantismo e ás cobranças violentas, a um tempo satis- 
fazer o sentimento religioso e respirar da usura. Acredito 
todavia que a fé impulsionou mais fortemente a rebellião 
do que o interesse. A epocha era de tyrannia financeira 
sob qualquer domínio, mas por traz da ira dos aggravos 
recebidos do fisco inexorável da Companhia, impellindo-a, 
fortalecendo-a, levantava-se a religião ultrajada, a magua 
das egrejas profanadas como nos Paizes Baixos, a resis- 
tência dos princípios e crenças da infância combatidas pe- 
los reformados. "Os moradores portuguezes, escrevia em 
1638 o Conselho Supremo, são obstinadíssimos na matéria 
da sua religião; estão imbuídos de tão estúpidos precon- 
ceitos que não querem sequer prestar ouvidos Con- 
sideram os protestantes como grandes hereges, e os odeiam, 
não somente por causa da religião, como principalmente 
porque pelos protestantes foram vencidos: e assim o que 
os Portuguezes até agora tem feito e a obediência que 
prestam, é por medo e constrangidamente, mas não por 



141 

affeição ao nosso Estado, com excepção de mui poucos que 
de coração se nos mostram affeiçoados". 

A população portugueza pouco se misturara com a 
hollandeza. Duarte de Albuquerque Coelho falia de alguns 
cazamentos de catholicas com calvinistas, e frei Manoel 
Calado particularizando, estigmatiza a união da rica pro- 
prietária Dona Anna Paes com um coronel do exercito 
batavo, união que elle severamente appellida de amanceba- 
mento por ter sido celebrada segundo o rito reformado. 
Taes factos eram comtudo raros, e mau grado a licença 
excessiva dos costumes, atmosphera imprópria para fer- 
vores espirituaes, muito pouco lograram em sua propa- 
ganda os pregadores calvinistas, sojeitos, diz Brito Freyre, 
de tanta abominação como agudeza. Na Península mesmo 
os protestantes contavam- se a dedo, encarregando-se a 
Inquisição de os supprimir, o que cavava entre a Hespanha 
e a Hollanda um fosso tardiamente aterrado de sangue e 
de ódio religioso. 

A lavoura, riqueza da terra pernambucana, só nomi- 
nalmente passara para as mãos dos extrangeiros nas ven- 
das de engenhos de emigrados: continuava effectivamente 
concentrada nas dos nacioriaes, fortes pelo numero, adap- 
tados ao clima, familiarizados com o processo. "O tra- 
balho de abater tão grossas matas, limpar e cultivar a 
terra, escrevia na carta citada o Conselho Supremo, não 
agrada á maior parte dos hollandezes do Brazil, que pro- 
curam somente manter-se com uma occupação fácil; o 
mesmo succederá aos colonos, (que para aqui mandarem), 
principalmente porque a gente mais laboriosa não é a 
que costuma vir entre taes colonos, mas uma gente 
miúda inútil, apanhada aqui e acolá, homens na pátria 
mui preguiçosos para se dedicarem ao trabalho." A im-. 
migração hollandeza aliás nunca foi tão poderosa que 
pudesse suffocar a gente da terra. "Si esta conquista 
estivesse cheia de Hollandezes, a Companhia achar-se-hia 
segura contra os infiéis moradores portuguezes e teria so- 
mente que cuidar do inimigo que viesse de fora." Além 
disso, os immigrantes que chegavam, afora os que vi- 
nham tentar fortuna em grosso, vinham quasi todos sem 



142 

vintém. Era necessário assistil-os com viveres e mate- 
riaes, ficavão devendo grandes sommas aos armazéns, que 
nunca pagavão, a agricultura delles não recebia adeanta- 
mento, e, reduzidos á miséria, faziam-se pela maior parte 
soldados. Achava-se pois a colónia em condições taes 
para os invasores, que qualquer movimento intentado, 
particularmente n'este momento de inopportuno desarma- 
mento hollandez, facto que impedira Maurício de empre- 
hender a premeditada occupação da possessão hespanhola 
de Buenos- Ayres e ia contribuir para a revolta imminente, 
estava de antemão certo de vingar. 

O incêndio ateou-se em 1642 no Maranhão, a ultima 
conquista da Companhia, ao tempo que no Recife Fernan- 
des Vieira arredava habilmente as primeiras suspeitas da 
conjuração, esboçada nas entrevistas de emissários da 
Bahia, de André Vidal principalmente, com os principaes 
da terra. O levante do Maranhão, capitaneado por fazen- 
deiros, foi directamente provocado pela brutalidade e ga- 
nância bátavas. Os sublevados surprehenderam, truci- 
dando parte d'ellas, as escoltas que occupavam os enge- 
nhos, apossaram-se do forte do Calvário, e entraram na 
ilha de São Luiz, repellindo os primeiros defensores e 
aguardando ataque mais serio. Vencedores no encontro 
immediato, cercaram a cidade e, ajudados por soccorros 
do Pará, foram apertando os hollandezes que viam-se 
quasi perdidos, quando um reforço de Pernambuco ao 
mando do tenente coronel Henderson animou as desespe- 
rançadas fileiras inimigas, e fez recuar os portuguezes, 
depois de algumas mutuas perdas, para a anterior posi- 
ção. Ahi, anniquilaram estes um ataque de Índios aífei- 
çoados aos batavos e puderam sustentar-se por algum 
tempo, sendo porém forçados, falhos de munições e de 
alimentos, já em Maio de 1643, a deixar a ilha. Novas 
provisões vindas da Bahia pelo Pará habilitaram-n'os 
pouco depois a continuar os seus intuitos aggressivos, e 
foi tal a constância que mostraram, que os hollandezes, 
em Fevereiro de 1644, abandonaram a possessão, refugi- 
ando-se no Ceará, e passando depois por terra ao Rio 
Grande. Em 1642 também São Thomé se revoltara com 



143 

apoio da corte, chegando a insurreição a triumphar um 
momento, mas a ilha fora novamente submettida por dois 
navios de guerra destacados por Maurício. Comtudo a 
fatalidade ia extendendo sobre os hollandezes as suas 
azas escuras. Em Janeiro de 1644 os Índios cearenses 
degolaram a guarnição da capitania, que a Companhia 
reoccupou; e uma expedição marítima ás minas do Chili, 
partida do Recife em Janeiro de 1643, commandada por 
Brouwer e por morte d' este por Elias Herckman, esbar- 
rou lá com a hostilidade dos habitantes e teve de regressar 
sem o minimo proveito. 

As circumstancias de resto conspiravam todas em 
favor dos portuguezes. A conjuração coincidiu com a 
partida de Maurício, o Santo António dos moradores na 
phrase de frei Manoel Calado, tão expressiva na sua reli- 
giosa ingenuidade: o padre não poderia conceber com- 
paração alguma mais lisonjeira do que esta, com o popu- 
laríssimo santo lisboeta, no qual o povo portuguez depo- 
sitava a sua mais effusiva confiança, chegando um gover- 
nador de Pernambuco a dar-lhe um posto de tenente, 
que elle aliás conquistara acompanhando em effigie os 
regimentos aos combates. D'ora em diante desappare- 
ciam todas as considerações pessoaes capazes de tolher o 
arrebatamento nacional, amotinando-se contra a pressão 
extrangeira. No dia 6 de Maio de 1644 entregou o conde 
de Nassau o governo nas mãos do Conselho Supremo 
composto do negociante de Amsterdam Hamel, do ouri- 
ves de Haarlem Bas, e do mestre carpinteiro de Middel- 
burgo van Bullestrate, "qui avoient le sens commun 
très-bon à balancer en un contoir les ventes et achapts, 
dépences et recepts de la compagnie et propres à se 
souvenir du nombre des coffres de sucre des magasins: 
mais que la nature n'avoit pas doíié des qualités neces- 
saires pour tenir le timon d'un souverain gouvernement" 
(Pierre Moreau, ob. cit.). Não poupou o príncipe n'esta 
occasião as mais sinceras e prudentes advertências, repe- 
tição do seu constante programma de energia e benigni- 
dade, para a conservação da colónia que lhe era tão 
querida, e que elle tanto desejava ver forte e dilatada, 



144 

sonhando um momento com a expulsão do domínio por- 
tuguez da America, mediante a alliança neerlandeza com 
a Inglaterra, tornada depois fácil pelo cazamento do stat- 
houder Guilherme II com a filha de Carlos I. 

O seu embarque teve lugar na Parahyba, percorrendo 
elle e um séquito numeroso, a cavallo, a distancia que 
vai do Recife áquella capitania. Estava-se no mais for- 
moso mez do anno, no Maio florido e perfumado que em 
toda a terra representa o encanto e o viço, e os olhos do 
príncipe perdiam-se pela vez derradeira pelos campos co- 
bertos de vegetação, a vegetação que elle amava, impe- 
tuosa, esplendida, selvagem, das naturezas virgens, não a 
tratada, alinhada, fria e methodica arborização dos paizes 
povoados. Seguia, uma vez melancholico, ao longo da 
costa, entre as mattas frondosas e o mar azul e scintil- 
lante que se extende além da finissima areia das nossas 
praias, e que mais fallava ao seu coração, desannuviado 
por temperamento, do que o espesso e tristonho mar do 
Norte, em cujas costas se criara. Pelo caminho vinham 
magotes de habitantes a despedir-se, com tanta ternura 
que lhe acudiam as lagrimas aos olhos, relata uma teste- 
munha ocular. E todos alli se postavam espontaneamente, 
porque bem sabiam que era Maurício na paz o antago- 
nista de toda tyrannia, a garantia viva da equidade e da 
clemência. Taes demonstrações dos vencidos augmenta- 
vam ainda a sua saudade, e tão funda se foi estampando 
n' ella a imagem da terra pernambucana, que os annos e 
as aventuras nunca a puderam apagar. Na Hollanda, um 
mez depois de desembarcar, o conde de Nassau mais uma 
vez externou perante os Estados Geraes as suas idéas 
sobre o Brazil Hollandez, e a politica a seguir-se para 
com os portuguezes, verberando altivamente as descon- 
fianças e leviandades da Companhia, a qual, assim que o 
viu chegar, não se descuidou de apresentar-lhe hypocri- 
tamente as boas vindas. Mais tarde, sempre que a occa- 
sião se offerecia, no seu palacete da Haya feito de ma- 
deiras do Brazil, cujas salas maiores eram decoradas com 
as reproducções dos mais vistosos pássaros brazileiros, e 
onde elle, logo depois de installado, deu uma festa em 



145 

que onze Índios que o acompanharam divertiram os con- 
vidados com suas danças; em Wezel ou em Cleves, era 
Pernambuco o assumpto favorito da conversação do prín- 
cipe, aquillo que se revelava como a grande aífeição da 
sua vida. Os quadros e desenhos brazileiros, sabemos 
que os não desamparou emquanto a prodigalidade não o 
obrigou a desfazer-se d'elles. Confiados a mãos sobera- 
nas escaparam aos credores, que depois da morte do seu 
perdulário devedor tiveram que contentar-se com a Mau- 
ritshuis, alugada desde esse momento aos Estados Geraes 
para alojamento dos embaixadores, e interiormente des- 
truída por um incêndio em 1704. E para este resultado 
bem tiveram que esperar os credores, porque a carreira 
de Maurício na pátria foi larga e brilhante. Descreveu-a 
minuciosamente o Dr. Ludwig Driesen na biographia que 
d' elle publicou. Militou o conde de Nassau em postos 
elevados, ainda sob o commando do stathouder Frederico 
Henrique, junto ao qual recebera o baptismo de fogo; 
governou cidades hollandezas e allemãs; foi príncipe do 
império germânico, grão mestre da ordem de São João 
na Allemanha, representante do eleitor de Brandeburgo, e 
por ultimo feld-marechal do exercito neerlandez. Aos 
setenta annos ainda batalhava, lépido como um mancebo, 
denodado como os da sua raça, a favor de Guilherme IH 
nas campanhas contra Luiz XIV. 

Na sala dos almirantes do Museu de Amsterdam, rica 
em despojos marítimos da mais pura gloria, existe um re- 
trato do conde de Nassau, obra do seu pintor Franz Post, 
que encontrei reproduzido com ligeiras variantes no Museu 
da Haya por J. de Baan. Este retrato differe do de Matham, 
o qual orna o livro de Barlaeus e o poema-panegyrico do 
capellão Plante, e representa o príncipe no vigor da idade. 
No primeiro, Maurício figura ter perto de sessenta annos, 
mas a sua physionomia mostra que n' elle nunca envelheceu 
o espirito fogoso de artista amante do luxo, dissipador de 
dinheiro e de generosidade, a quem choraram usurários e 
protegidos. Como na mocidade, a fronte espaçosa está 
limpa das rugas que cavam a testa dos que muito pensão 
e muito soífrem; os olhos negros conservam toda a viva- 

Lima, Pernambuco. *0 



146 

cidade; o nariz de cavallete denuncia a enefgia de um 
temperamento afeito a mandar; a bocca bem fendida e 
sombreada por pequeno bigode branco e ligeira mosca tem 
um ar sensual, próprio d' aquelles que puderam conhecer o 
prazer e sorvel-o gulosamente. A figura é todavia esbelta, 
cingido o busto por burilada coiraça, mal coberta por um 
gibão debruado de custosa pelle, que faz destacar nos 
punhos a alvura das mãos patrícias. A cabeça assenta 
em fortes hombros, e o pescoço sente -se á vontade no 
cabeção de renda, descahido, á moda nova. Ao retrato de 
Amsterdam a cor local é fornecida, ainda mais do que 
pelo negrinho que ao lado do príncipe segura um papel 
indicando o numero de annos que elle viveu, 75, e a data 
da sua morte, 1679, por algumas outras telas de Franz Post, 
reproducções de paizagens brazileiras. 

Falleceu o conde de Nassau coberto de honras, can- 
tado em prosa e em verso, pranteado por quantos lhe obe- 
deceram, n' um retiro delicioso, á sombra de arvores por 
elle próprio plantadas, feliz e descuidado como sempre 
vivera no meio dos campos de batalha e das agruras 
da administração. Refere Netscher que entre as homena- 
gens posthumas tributadas a Maurício o Brasileiro, conta- 
se a do grande Napoleão, mandando respeitosamente restau- 
rar o monumento fúnebre estragado no principio do século 
XVIII por soldados francezes, e que fora levantado em 
Cleves á memoria do esforçado capitão e incomparável 
gentilhomem. 



XIV 

A desorganização da colónia neerlandeza pronunciou-se 
logo depois do embarque de Maurício, facto que os con- 
selheiros supremos, sequiosos de supremacia e até então 
offuscados pela posição e talentos do príncipe, foram os 
únicos em Pernambuco a saudar. Os judeus, sentindo-se 
mal a gosto sem um protector efficaz, em parte trans- 
ladaram-se para Surinam ou voltaram para a Hollanda, 
emigrando com elles a fortuna das especulações commer- 



147 

ciaes, o oiro da cidade. A fortuna rural, a que se baseava 
na resistência offerecida pela terra fertilissima a todas as 
devastações, esta andava em grande parte entregue a cre- 
dito aos nacionaes, e a Companhia, depois de haver facili- 
tado em excesso as vendas a prazo de terras e escravos, 
não poderia agora sem extraordinários vexames, fazer de 
credora impaciente e readquirir o seu capital, accrescentado 
com as dividas particulares dos moradores aos negociantes, 
que ella chamara a si para lucrar os juros leoninos e mo- 
nopolizar as safras, em operações que os seus empregados, 
peitados, crivavam de irregularidades. O período de vaccas 
magras que a empreza atravessava, mercê dos gastos e 
instabilidade da occupação, obrigava-a a procurar refazer- 
se pela fusão com a Companhia das índias Orientaes, as- 
sociação prospera porque sempre andara muito mais atare- 
fada em chatinar do que em rebater inimigos. Esta 
opinião era a seguida pelo conde de Nassau, emquanto 
que outros pretendiam singelamente que os arruinados en- 
trassem pelos privilégios dos afortunados ; mas nada afinal 
se conseguindo, o passivo implacável da Companhia das 
índias Occidentaes forçava-a ás exigências, e os antigos 
atropelos surgiram em nova edição para soccorro dos cofres 
esvaziados da empreza e dos mercadores hoDandezes. 

Aos moradores era impossível pagar, pois que as safras 
constituíam toda a sua renda, e o assucar tributado sob 
varias formas em 75°/o n &° chegava a muitos nem para 
satisfazerem os juros das suas complicadas dividas. Pro- 
moviam-se portanto execuções judiciarias de bens moveis e 
immoveis, que serviam para pagamento da tropa, a qual,, 
desenfreada, descambara ainda mais no latrocínio e em 
revoltantes bestialidades, e para esquipamento das repetidas 
armadas que ancoravam no Recife. Percorriam-se os en- 
genhos no intuito de apprehenderem-se os assucares, e 
para poder ser remettido para a Europa algum do dinheiro 
extorquido por semelhante forma, que sobrasse das despezas 
locaes inevitáveis e dos gastos das demandas, forçoso se 
tornava enfraquecer as guarnições e deixar desmanteladas 
as fortalezas. Os credores particulares antes da concor- 
data com os senhores de engenhos e a Companhia, che- 
io* 



148 

gavam, segundo conta Nieuhof, a esbulhar os seus deve- 
dores dos apparelhos e instrumentos de trabalho. Não 
tardou a reacção contra tantas violências administrativas 
e tão descomposta orgia militar. 

Em Dezembro de 1644 o governador Telles da Sylva ex- 
pediu secretamente para Pernambuco um destacamento de 
soldados, e os conjurados, certos por esta forma do auxilio 
material da Bahia, onde aliás Maurício sempre descortinara 
lucidamente o perigo, e avisados do próximo apoio dos ín- 
dios de Camarão e negros de Henrique Dias, imprimiram 
maior energia aos preparativos da revolta. A delação de 
um judeu poderia tel-a feito sossobrar em plena incubação, 
mas a advertência quasi não achou credito no Recife, tão 
bem souberam os portuguezes para não despertarem des- 
confianças, aveugler les hollandois par leurs cajollcries, 
mostrando a máxima deferência para com os magistrados 
extrangeiros, e testemunhando aos conquistadores em geral 
uma marcada benevolência. Vieira sobretudo, pelas longas 
relações de amizade que mantinha com os batavos, era 
tido por estes em grande estimação : "il estoit en tel credit 
et faveur parmy eux, que souvent il estoit appellé pour 
dire son opinion, concernant les affaires de la Compagnie, 
qui ne luy estoient pas autrement cachées, parce qu'on se 
fut meffié de tout autre plustost que de luy." (Pierre Mo- 
reau, ob. cit.) Graças porém a outra denuncia mais fun- 
damentada, partida de portuguezes, poude o Conselho 
Supremo livrar-se da armadilha de 24 de Junho de 1645, 
que consistia no massacre dos principaes hollandezes con- 
vidados para o cazamento da filha de António Cavalcanti: 
"Caro haviam de pagar o bródio, escreve o hollandez, 
auctor anonymo de um diário da rebellião portugueza de 
1645 a 1647, pois no mais caloroso da festa, e quando o 
vinho houvesse subido ás cabeças, os convidados seriam 
acommettidos pela gente para isso disposta, e depois, antes 
de sabermos do acontecido, nos sorprenderiam pela noite e 
far-se-hiam senhores d' esta praça de Mauricéa." "A la 
mesme heure quantité de barques qu'on feindroit venir 
chargées de sucre, se presenteroient au havre, et incon- 
tinent qu'ils seroient à terre se feroient maistres du port, 



149 

donneroient la charge, gaigneroient les places et bastions 
de la digue, et main basse partout jusqu'au lendemain. 
Et quant à Parayba et Rio grande; qu'à cette mesme feste 
Ton convoqueroit par passe temps des jeux de tournois 
publies àuprès des forteresses, que les Hollandois, selon 
leur coustume ne manqueroient de venir voir, et là que 
chacun fourny de pòignards et pistolets sous leurs veste- 
ments, se saisiroit de son pareíl et le tueroit et que tout 
seroit abandonné au pillage, cependant que la flotte pro- 
mise par Vidal s'approcheroit." (Pierre Moreau, ob. cit.) 
O chefe mais em evidencia da conspiração, João Fer- 
nandes Vieira, já andava por prudência refugiado nas 
mattas onde tinha ajuntado algumas armas e munições, 
abandonando seus bens e a espoza que estremecia, por- 
quanto no seu coração, segundo frei Raphael de Jesus, 
cabiam Vénus e Marte. Descoberta aquella nova Saint 
Barthelemy, e vendo já erguer-se na sua imaginação o 
patíbulo infamante, elle soltou o grito de emancipação, ao 
qual de prompto acudiram bom numero de moradores e os 
soldados da Bahia. O Conselho Supremo, sobresaltado 
com o acontecimento e infeliz nas buscas a que mandou 
proceder para prender os conjurados, organizou o mais 
depressa e o melhor que poude a resistência. Destacou 
um official para a Parahyba com o fim de conter qualquer 
ramificação do movimento; formou um pequeno corpo ex- 
pedicionário ás ordens do capitão Blaar para dar caça aos 
revoltosos acampados nas mattas; e mandou o coronel 
Hous, commandante das forças da colónia, seguir para o 
sul a prestar auxilio aos piquetes hollandezes, reprimindo 
os moradores amotinados em Ipojuca á voz de Amador de 
Araújo, e em outros pontos, e atalhar a marcha ascendente 
de Camarão e Dias, os quaes avançavam de Sergipe com 
a presteza que lhes permittia a estação invernosa. A in- 
surreição entretanto alastrava-se; cresciam as adhesões 
armadas ao núcleo revolucionário, e escaramuças aqui e 
acolá deram começo a esta lucta heróica, que só por si 
nobilitaria a historia de um povo, e da qual dizia o illustre 
escriptor, um dos mestres da lingua portugueza, D. Fran- 
cisco Manoel de Mello, que não sabia que nos archivos da 



150 

lembrança humana houvesse outra, travada em análogas 
condições e com semelhante felicidade conseguida. (Epa- 
naphora V Triurnphante.) 

Maravilhava-se com razão o distincto soldado e emé- 
rito litterato, o qual expiou na Bahia a pena de degredo 
a que o condemnou o ódio de D. João IV, de quanto al- 
cançaram os inexperientes, mal preparados, desaggregados 
e desajudados pernambucanos, apodados pelo auctor do 
diário da rebellião de gentalha e canalha que na sua maior 
parte nunca vira espadas nuas, mas que souberam vencer 
uma guerra contra militares de officio, senhores das forti- 
ficações e sustentados por uma nação em plena florescência. 
Era porém extrema a audácia que os animava, pasmoso o 
enthusiasmo que os impulsionava. As emphaticas procla- 
mações de Vieira, o governador da divina liberdade, fixando 
preço pelas cabeças dos conselheiros supremos, verberando 
o edital hollandez que expulsava as mulheres e filhos dos 
revoltosos, e ordenando que todos os portuguezes pegassem 
em armas sob pena de serem considerados rebeldes, so- 
mente correspondem no arrojo allucinado, na segurança da 
própria causa, ás moções empoladas de outros fanáticos da 
liberdade, os Convencionaes de 1792, que na sanguinolenta 
effervescencia de Pariz declaravam guerra a todos os ty- 
rannos da Europa, e prescreviam a diffusão entre os povos 
dos chamados direitos do homem. 

Não era mysterio entre os hollandezes a parte que a 
Bahia estava tomando nos successos pernambucanos, e 
para representar contra esta violação da amizade que por 
tratado se estipulara entre os dois paizes, mandou o Con- 
selho Supremo a Telles da Sylva dois emissários, o con- 
selheiro politico van de Voorde e o major Hoogstraten, 
commandante da fortaleza do Pontal no Cabo de Santo 
Agostinho. governador portuguez recebeu cortezmente 
a embaixada: mostrou-se alheio á entrada de Camarão e 
Dias no território hollandez com o fim de secundarem a 
insurreição, procurando fazer crer que o indio tainha sim- 
plesmente partido em perseguição do negro, o qual fugia 
descontente, e promettendo mandar gente sua que os con- 
tivesse, phrase equivalente no seu pensamento a dizer que 



151 

ajudasse os revoltosos. "Quero mostrar em todo o tempo 
e parte qual é a fidelidade dos Portuguezes e a sinceridade 
cândida que nella resplandece para com todos seus con- 
federados" (resposta de T. da Sylva). Certificados por 
estas evasivas do conluio existente entre Telles da Sylva 
e Fernandes Vieira, os conselheiros supremos expediram 
van de Vòorde á Hollanda com o fim de relatar todo o 
occorrido e instar por um avultado soccorro. Ainda não 
era partido o hollandez quando no monte das Tabocas, 
próximo á actual cidade da Victoria, se empenhava a 3 de 
Agosto de 1645 a primeira acção importante da guerra. 
Explica-nos amavelmente frei Manoel Calado que tabocas 
são "huma certa casta de canas brabas, grossas, e todas 
cheas de rígidos e agudos espinhos", e que d' ellas estava 
cercado e coberto o "alto e empinado monte" sobre o qual 
se haviam pouco a pouco retirado os portuguezes deante 
das forças reunidas do coronel Hous e do capitão Blaar, 
na esperança de effectuarem sua juncção com a gente de 
Camarão e Dias. 

As tropas hollandezas eram ainda o que no primeiro 
momento se conseguira reunir no Recife, uma mescla de 
veteranos, voluntários e indios em numero approximado de 
mil, nem tantos talvez, e muitos até sem armas apropria- 
das para um combate. Esperavam-n' as os portuguezes, 
igualmente armados com deficiência, contando apenas tre- 
zentos espingardeiros , em parte emboscados nos tabocaes 
e em parte postados com Fernandes Vieira no cimo do 
morro. O fogo das emboscadas, para onde o inimigo foi 
attrahido pelas avançadas dos revoltosos, causou-lhe gran- 
des estragos e desmoralizou-o desde o começo do ataque. 
Continuaram comtudo os hollandezes a luctar encarniçada- 
mente na campina, e passaram além das primeiras posi- 
ções dos contrários, chegando a escalar o monte, quando 
a reserva portugueza, descendo precipitadamente com 
grande vozearia dos negros de Vieira, carregou-os impe- 
tuosamente e lsvou-os de vencida apóz uma renhida acção, 
que em total durou quatro a cinco horas. Pela calada da 
noite retirou-se o coronel Hous, deixando o campo de ba- 
talha juncado de mortos, entre elles alguns officiaes. Com 



1 



152 

perdas menores e fortalecidos os espíritos pelo resultado tão 
satisfactorio d' esta peleja, verdadeiro Jemmapes que levantou 
o moral dos soldados e robusteceu a confiança nos chefes, os 
quaes entre si andavam desunidos, tendo-se jurado Fernandes 
Vieira e António Cavalcanti um vivo ódio, juntaram-se pouco 
depois os revoltosos aos reforços de Camarão e Dias. 

Não tardou muito que se lhes aggregasseni os terços 
de fuzileiros de André Vidal e Martim Soares Moreno, 
uns oitocentos homens vindos nos navios commandados 
por Serrão de Paiva, e desembarcados em Tamandaré 
sob pretexto de obrigarem os sublevados a deporem as 
armas. Escoltara esses navios desde a Bahia a frota 
de Salvador Corrêa, de trinta e sete velas, que em des- 
accordo com as instrucções do governador geral man- 
dou, ao parar nas alturas do Recife, entregar ao Conselho 
Supremo por dois parlamentarios as cartas tranquilliza- 
doras de Telles da Sylva, e seguio sem demora para Por- 
tugal em vez de tentar apoderar-se do porto, ajudando a 
esquadrilha brazileira e aproveitando o enthusiasmo dos 
nacionaes. "Tanto que a frota deitou fundo, era cousa 
para ver como os moradores de Parnambuco subião sobre 
os altos montes, banhados de contentamento, e alegria a 
ver a frota, não somente os homens, senão também as 
molheres, e meninos, que pareciam formigas, quando saem 
de seus alojamentos a e ,buscar a sustentação para a guar- 
darem em seus celeiros para o tempo da necessidade: huns 
dizião, aquelle he hum galeão real, aquellas são nãos guer- 
reiras, aquelloutros são navios de força, e as outras são 
caravelas que trazem provimento, e munições, Deos he 
comnosco, aqui se acabará nosso cativeiro; os que subião 
aos montes perguntavão aos que descião, quantas nãos 
aparecião, os que descião lhe davão as boas novas, e todo 
o povo andava alborotado, huns cortavão pelos matos 
varas grossas, e lhe enxerião nas pontas ferros de lanças, 
e dardos, outros fazião paos tostados, outros encanavão 
as fouces rossadouras em astias compridas f outros aguça- 
vão as velhas, e ferrugentas espadas, que estavão enterra- 
das pelos monturos, e todos tão alentados, e animados 
para abalroarem com o Arrecife, e com tanto animo de o 



153 

ganharem, como se já tiverão a victoria alcançada, e até 
os meninos fazião seus arcos, e se provião de frechas 
para se acharem na empresa. (Frei Manoel Calado, ob. cit.) 

Tendo feito de caminho capitular o forte de Seri- 
nhaem, os dois mestres de campo, Vidal e Moreno, reuni- 
ram-se a Vieira na fortaleza de Santo António do Cabo, 
por este occupada sem difficuldade depois de deixar o 
monte das Tabocas e de expedir alguma gente para o norte 
da capitania, ás ordens de António Cavalcanti. No Cabo 
novamente se scindiu o pequeno exercito restaurador, sendo 
mandado Martim Soares Moreno investir o forte do Pon- 
tal, e proseguindo Vieira e Vidal em busca de Hous, que 
se tinha acantonado com quinhentos homens perto do Re- 
cife. Encontraram-n' o com eífeito os nacionaes na Casa 
Forte (engenho de D. Anna Paes), a uma légua do porto, 
no dia 17 de Agosto, e depois de um vigoroso ataque obri- 
garam-n' o a render-se, quando as chammas já consumiam 
a fortaleza, que em tal haviam improvisado a casa, fazendo 
das janellas setteiras. O coronel hollandez constituio-se 
prisioneiro com vários officiaes e mais de duzentos solda- 
dos, afora os Índios, os quaes onde encontrados, iam sendo 
summariamente degolados ou enforcados. A vingança dos 
moradores também incluio na matança o capitão Blaar e 
muitos soldados, de viagem para a Bahia como captivos. 

Depois da nova victoria, que trouxe aos vencedores boa 
porção de armas, cavallos, mantimentos e munições, em- 
quanto Vieira cercava o Recife, partia Vidal para assistir 
Martim Soares na fácil empreza da occupação do Pontal. 
O major Hoogstraten, commandante da fortaleza, fiel aos 
compromissos tomados na Bahia, vendeu-se miseravelmente 
no dia 3 de Setembro , depois de ter encoberto a traição 
sob a capa da mais revoltante hypocrisia e de a haver 
dilatado a espiar de que lado derramaria a fortuna os 
seus favores. Esta defecção, roubando aos hollandezes uns 
trezentos soldados, entre os quaes capitães como Gaspar 
van der Ley, produziu no Conselho Supremo desoladora 
impressão. Não significava o facto somente a perda de 
uma importante posição estratégica : era além d' isto pro- 
fundamente symptomatico, descobrindo a base falsa sobre 



154 

que assentava a conquista hollandeza, deixando ver a in- 
diíferença, senão a poltroneria do mercenário, cedendo com 
facilidade o terreno ao soldado animado pelo amor pátrio. 
Na batalha naval de 1640 patenteára-se, como na de 1631, 
a pusillanimidade de vários capitães, por este motivo pro- 
cessados e todavia imitados; e mais de uma vez compto- 
vou-se posteriormente, durante a rebellião, a venalidade dos 
militares batavos, carecidos de estímulos nobres e cum- 
prindo como um mero dever de profissão, aquillo que aos 
nossos se afigurava uma imperiosa obrigação moral. Os 
soldados cujos chefes capitulavam, iam sendo imprudente- 
mente alistados nas fileiras portuguezas, promettendo-se- 
lhes os soldos atrazados devidos pela Companhia. Alguns 
mais tarde fugiram novamente para os seus patrícios, o 
que obrigou os portuguezes a embarcarem os restantes para 
a Bahia, quando Martim Soares Moreno recolheu-se ao des- 
canço, deixando uma campanha penosa aos seus muitos annos. 
Pouco afortunados nos encontros em campo raso, e 
plenamente senhores os nacionaes do terreno em redor da 
capital, tendo um hollandez vendido o próprio reducto de 
Olinda, os extrangeiros concentraram fervorosamente a sua 
defeza no Recife e Mauricéa, entregues aos burguezes. 
Para melhor poderem conservar estes dois pontos protegi- 
dos por vários fortes, restringiram a sua área, demolindo 
ruas inteiras de casas. Entre as destruições Maurício, si 
presente fora, teria assistido com pezar immenso á do 
magnifico parque por elle plantado. Como não sangraria 
o coração do príncipe ao ver o corte dos "beaux et curieux 
arbres de bois de bresil, palmiers, d' ebenne, de cedre, 
bois blanc comme neige, bois de violettes, et marbré, et 
autres de senteurs qui embelissoient les spacieuses et 
longues aJlées à per te de veue"; a devastação do seu in- 
comparável pomar, que comprehendia arvores africanas e 
asiáticas ; a desapparição das suas grandes cavallariças, dos 
seus elegantes kiosques, e do seu jardim admiravelmente 
matizado de flores; finalmente a transformação em quartel 
do seu palácio, o mais bello edifício do Brazil, pelo qual 
os judeus lhe oífereceram seiscentas mil libras para o tor- 
narem synagoga, o que o povo por ciúme impediu. 



155 

A ruina da cidade tão amorosamente fundada pelo conde 
de Nassau era pequeno soffrimento porém, em comparação 
das cruciantes torturas da fome e sede, que logo entraram a 
reinar entre os sitiados, ao passo que os sitiantes recebiam 
do norte e do sul amplos supprimentos. Conta Moreau que 
os murmúrios dos pobres contra os ricos subiram a tal 
excitação, que os magistrados viram-se compellidos a lançar 
mão de medidas do mais exigente communismo. Acom- 
panhados de soldados armados, invadiram as casas parti- 
culares e arrecadaram todos os viveres que n'ellas encon- 
traram, depositando-os em armazéns públicos, d' onde eram 
distribuidos aos habitantes rações iguaes, minguadas cada 
semana emquanto se esperava o soccorro da Hollanda. A 
lenha escasseou tanto, que os soldados na maior parte 
comiam a carne crua, ou mal cozida em agua salobra, e 
para esquentar os fornos de pão tornava-se mister recorrer 
aos destroços dos navios encalhados na areia da praia ou 
nos arrecifes, pedaços de madeira besuntados de breu e 
alcatrão, que davam ao pão repugnante sabor. Com tão 
parca e ruim alimentação, origem de um grave desenvolvi- 
mento da mortalidade, não faltavam aos habitantes menos 
combalidos exercicios violentos, motivados já pela repara- 
ção dos bastiões e muros do Recife estragados pelas gran- 
des chuvas, já pelos frequentes alarmes que provocavam 
os assaltos dos portuguezes. 

Para mais, lavrava a sedição entre a soldadesca, 
desgostada de tão rudes serviços e miserável vida. Com 
um empréstimo fornecido pelos judeus, o Conselho, 
muito atrazado em seus pagamentos, mandou cunhar 
moedas de oiro, e só assim conseguio tapar um pouco 
a bocca aos díscolos, cuja insolência crescera insuppor- 
tavelmente. Queixavam-se elles em altas vozes do ridi- 
culo que pezava sobre a sua nobre profissão, vilipen- 
diada n' uma aventura sem solução honrosa possível , e 
insistiam por um accordo com os sitiantes, o qual ainda 
se effectuaria em condições de relativa vantagem, ou por 
um ataque desesperado antes que o seu vigor se houvesse 
de todo exgottado nas agruras do cerco. Era tal a in- 
disciplina, que os soldados puxavam na rua as barbas aos 



156 

sizudos conselheiros, e os ameaçavam com deital-os ao 
mar, e que n' um dia, tendo-se os altos magistrados reu- 
nido para jantar, alguns militares mais audaciosos pene- 
traram na casa do festim, puzéram em debandada os con- 
vidados e banquetearam-se alegremente. 

No mar unicamente lograram os hollandezes, ao tempo 
da traição de Hoogstraten, ver raiar a esperança de alguma 
melhoria. Serrão de Paiva depois de abandonado sem 
prevenção alguma por Salvador Corrêa, que não tinha 
chegado a receber uma missiva real ordenando-lhe que 
entrasse nos planos de Telles da Sylva, velejara algum 
tempo deante da costa, acolhêra-se á bahia da Traição, na 
Parahyba, para reparar uma avaria, e por fim fundeara 
na bahia de Tamandaré, em Pernambuco, fazendo desem- 
barcar e entrincheirar-se parte da guarnição das suas treze 
embarcações. De Nazareth mandaram Vidal e Moreno 
pedir-lhe encarecidamente que com elles se juntasse; "mas, 
escrevia Serrão de Paiva a Telles da Sylva, todos me 
disseram que isto seria a mina da frota, visto como esta 
necessariamente devia ancorar deante do forte do Pontal, 
de modo que em poucas e breves horas seriamos anni- 
quilados, e o próprio piloto que veio para pôr-me dentro 
do porto, declarou isto mesmo deante de nós todos." Quando 
o capitão-mór da pequena armada quiz acceder a novas 
insistências dos dois mestres de campo, era já tarde. 
Apparecêra no dia 7 de Setembro em frente de Tamandaré 
o almirante Lichthardt, com oito navios e alguns barcos, 
sendo recebido por um fogo bem nutrido que lhe poz a 
pique uma fragata, mas que não impediu o destemido 
hollandez de abordar e aprezar a capitanea portugueza, 
promptamente desertada pelos seus defensores. Não foram 
poucos os portuguezes mortos, mais na fuga que no com- 
bate, e toda a esquadrilha, com excepção de um navio es- 
capado para a Bahia, cahiu sem grande trabalho em poder 
do almirante batavo, o qual incendiou algumas das embar- 
cações capturadas — segundo frei Raphael de Jesus os 
próprios portuguezes as incendiaram — , e conduziu as 
restantes para o Recife. Juntamente ia prisioneiro o valente 
Serrão de Paiva, um octogenário, escrevia um hollandez, 



157 

cujo semblante revela coragem, ferido no meio dos raros 
companheiros que o não desampararam. 

Na camará da capitanea apprehendida foi encontrada 
uma correspondência assaz compromettedora para a corte 
de Lisboa e para o governo da Bahia, desmascarando-se 
com ella, apezar de toda a habilidade epistolar de Telles 
da Sylva, os intentos que André Vidal, certamente por 
ironia, ainda jurava aos conselheiros supremos serem 
conciliadores. O intrépido cabo de guerra fundava a sua 
linguagem na opinião do provedor-mór dos defunctos e 
ausentes da Bahia, de que "a não intervenção de um ter- 
ceiro no caso em que se matão dous particulares sem 
acudir é julgada por cruel, e que portanto soccorrer como 
medianeiro da paz entre as sedições em que os Portuguezes 
de Pernambuco estavão com os Hollandezes mais era con- 
servar paz do que fazer guerra". "E se a isto disser um, 
ajuntava o sophista do magistrado, que para medianeiro 
da paz não é necessário grande cabedal de poder, se res- 
ponde que, supposto o animo dos Hollandezes inclinado 
para a rebellião, e o dos Portuguezes apostado pelo reso- 
luto, e havendo de haver terceiro que entre para compor, 
deve ser com tal poder que quando estas duas partes se 
não concordem com suas rezões de paz, o faça sentir com 
o temor da guerra." Telles da Sylva não se expressava 
differentemente. "O soccorro que se mandou a V. M 8 ., 
reza a sua resposta aos moradores de Pernambuco, que 
haviam calorosamente impetrado auxilio da Bahia, é pura- 
mente defensivo, por se lhes não poder negar, sendo vas- 
. sallos de El-Rei Nosso Senhor e não é mais que a com- 
pol-os e reduzil-os com toda a suavidade que ser possa a 
sugeição antecedente dos Senhores do Concelho; porque se 
houver algum tão obstinado e temeroso que debaixo de 
pretexto e segurança com que espero que fiquem na antiga 
jurisdicção desses Senhores se não queira descer de seus 
primeiros intentos, o que não creio de nenhum, dei ordem 
expressa aos mestres de campo governadores Martim Soares 
Moreno e André Vidal de Negreiros, de cuja prudência 
fiei o pezo, disposição e eífeito deste meu saudável desejo, 
para o castigarem com pena capital e as mais que lhe 



158 

declarei." Na missiva de que era portador Serrão de Paiva, 
endereçada ao Conselho Supremo, o astuto governador 
geral repetia os seus mentidos protestos de lealdade: 
"Desejo mostrar a esse Conselho Supremo nesta occasião 
que este governo está prompto para fazer em todas, tudo 
o que mais cumprir a seu melhoramento, e agora a re- 
ducção e socego desses mal considerados moradores". Os 
mal considerados moradores iam entretanto extendendo 
cada vez mais a insurreição, e ainda no mez de Setembro 
de 1645 fizeram cahir em seu poder, com os defensores, 
as fortalezas de Porto do Calvo e do Penedo, no próprio mo- 
mento em que chegavam do Recife barcos previdentemente 
enviados para recolherem as guarnições ameaçadas. 

Nas capitanias do norte, Itamaracá, Parahyba e Rio 
Grande, os índios á solta espalhavam o terror, tornando 
mais difíicil a expulsão dos hollandezes. Em Cunhahú 
(Rio Grande), os bugres, guiados por um judeu allemão, 
rojaram-se sobre os moradores na occasião em que estes 
pacificamente assistiam á missa, trucidando-os sem pie- 
dade: a oração e a espada, escreve frei Raphael de Jesus, 
se encontraram nas gargantas dos míseros, com cujos 
corpos se banquetearam os selvagens. Outros moradores 
da capitania do Rio Grande, sublevando-se, formaram um 
arraial, mas sitiados pelos Índios tendo á sua frente o 
feroz judeu, renderam-se sob garantia de suas vidas, pro- 
messa que foi vergonhosamente trahida pelo conselheiro 
supremo Bullestraten, consentindo na entrega dos desgra- 
çados aos assaltantes, que os assassinaram com inacredi- 
táveis atrocidades. Tão tristes acontecimentos não fica- 
ram infelizmente isolados: casas incendiadas, plantações 
destruídas, mulheres violadas, soldados degolados, barba- 
ridades de toda a casta, continuaram mais que nunca a 
ser matéria corrente nos dois campos. Os restauradores 
alcançaram todavia no norte em 1645 alguns successos 
felizes, para compensar sobretudo o sangrento e infructi- 
fero ataque de Itamaracá, defendida com energia por um 
soccorro pessoalmente levado do Recife pelo conselheiro 
Bullestraten, e somente conquistada no anno seguinte, 
ficando ainda em mãos dos hollandezes o forte de Orange. 



159 

António Cavalcanti morrera em Iguara^ssú de um pleuriz, 
diz frei Manoel Calado, de uma ferida recebida na guerra, 
escreve o hollandez do diário; mas a sua gente e alguma 
mais com que se reforçara o troço expedicionário, entra- 
ram na Parahyba derrotando o commandante Paulo de 
Linge, recolhido no Cabedelo, n' uma sortida que intentou, 
e repelliram os extrangeiros no Rio Grande, onde depois 
o Camarão entrou com estrépito e estrago, tornando para 
traz somente por se lhe exgottarem as munições. Em 
1646, quando André Vidal bateu os hollandezes da Para- 
hyba, voltou o Camarão ao Rio Grande, regressando ao 
arraial na occasião em que chegaram os soldados de von 
Schkoppe, depois de haver triumphado em todo o terri- 
tório até ao Ceará. 

Mais velozes não foram na Sicília 

De Pompeu os triumphos, 
Que avassallou innumeras cidades 

Com deshumano estrago: 
Nem do heroe, que de gloria encheu Carthago, 
E que, sendo o terror da invicta Roma, 
Flaminio, Scipião, Marcello doma. 

(Ode pindarica de Natividade Saldanha). 

Para semelhante resultado contribuio a adhesão de 
grande numero de Índios desgostosos com a morte do 
judeu seu chefe, ordenada por Garsman em começos de 
1646, não se sabe bem si por cobiça, para o roubar, si 
por vingança particular. Os selvagens reclamavam a 
entrega do traidor para o lyncharem, e levaram a mal a 
recusa do Conselho Supremo, já então o novo, que limi- 
tou-se a embarcar Garsman para a Hollanda, destituindo- 
o do posto e confiscando-lhe os bens e soldos. O descon- 
tentamento foi tamanho que, para empatar a deserção de 
todos os indios alliados no norte, houve o Conselho que 
expedir como embaixador a um dos principaes caciques 
o interprete Roulox Baro, cuja narração de viagem consti- 
tue um documento bastante curioso dos costumes sel- 
vagens. 

Um forte soccorro da Hollanda podia comtudo annul- 
lar os ingentes esforços e sacrifícios dos nacionaes, aba- 



160 

fando a conflagração em que se debatia o Brazil Hollan- 
dez. Outra vez 'dirigiram-se os valentes soldados da 
liberdade, do seu arraial nas proximidades do Recife, cha- 
mado do Bom Jesus em lembrança do antigo reducto de 
Mathias de Albuquerque, ao monarcha portuguez, pedindo- 
lhe que os ouvisse como Pai, remedei asse como Rey e am- 
parasse como Senhor, na empreza tão afortunadamente 
encetada. Abrangia a carta uma recapitulação de todos 
os aggravos recebidos pelos portuguezes, desde a quebra 
das promessas de tolerância formuladas na conquista da 
Parahyba, e logo desrespeitadas pelo governador Eysens, 
morto n' um encontro com o Rebellinho , até ás recentes 
vexações de que haviam sido victimas em seu sangue e 
fazenda, e terminava com as seguintes altivas palavras: 
"Tornamos a pedir soccorro e remédio com tal brevidade 
que nos não obrigue a desesperação pelo que toca ao 
culto divino a buscar em outro Príncipe Catholico o que 
de Vossa Magestade esperamos." "Dli moneant si illud 
negaret, se illud a rege Castella postulaturos." (carta de 
D. Francisco de Souza Coutinho aos Estados Geraes). 

Não era exaggerada a brevidade implorada pelos portu- 
guezes, porquanto a 22 de Junho de 1646, já pensando 
os contrários, desanimados e esfomeados, em capitular, 
chegavam ao Recife dois navios portadores de duzentos 
soldados e de viveres, que annunciavam a próxima che- 
gada do grosso da armada esquipada por todas as cama- 
rás da Companhia. Com effeito no dia immediato desem- 
barcavam mais cento e trinta e seis soldados vindos em 
outra embarcação; no dia 24, oitenta e quatro transpor- 
tados n' um bergantim, e pelo correr do mez de Julho 
foram successivamente acudindo novos reforços, um total 
de dois mil homens, tropa de terra commandada pelos 
coronéis von Schkoppe e Henderson, e arrancada pelas 
instancias de van de Voorde á arruinada Companhia, que 
os Estados Geraes ajudaram pecuniária e militarmente 
n' esta emergência. Schoonenborch, membro da assem- 
bléa legislativa neerlandeza, acompanhava-a como presi- 
dente do Conselho Supremo, reformado e dotado de um 
novo e mais intelligente pessoal ; Banckert era o almirante 



161 

da frota de 52 navios, a qual pela penosa viagem de seis 
mezes, entrecortada de temporaes, naufrágios e sedições, 
fundeou reduzida a 45 vasos. 

Trez mezes havia, informa Pierre Moreau, que foi 
passageiro d'esta armada, que no Recife apenas se distri- 
buía aos habitantes uma libra de farinha de trigo, de er- 
vilhas ou de favas por semana. O resto da alimentação 
consistia n* um bocado de peixe salgado, algum peixe fresca 
que se apanhava, hervas e raizes arrancadas onde encon- 
tradas. Mil e quinhentas pessoas tinham já succumbido 
a tanta penúria, e outras tantas perecido na defeza da 
cidade, cahido prisioneiras ou fugido para o acampamento 
inimigo. Como é de ver, em tão criticas circumsíancias 
o regozijo hollandez expandiu-se tumultuosamente pela 
apparição da esquadra de soccorro. Durante dias conti- 
nuados rimbombaram as salvas dos canhões, e á noite os 
escravos, esqueléticos das misérias soffridas, percorriam a 
cidade empunhando archotes, que projectavam uma luz 
todavia mais sinistra do que esperançosa. 



xv 

Os acontecimentos de Pernambuco causaram na Hol- 
landa uma viva irritação. Os Estados Geraes não escon- 
deram o seu amargo despeito, e nos templos os ministros 
calvinistas levantaram tal grita contra a deslealdade ca- 
tholica, que a populaça da Haya, desvairada, cercou a 
casa do embaixador portuguez ameaçando saqueal-a, li- 
vrando-se D. Francisco de Souza Coutinho de algum desa- 
cato graças ao príncipe de Orange, que acudiu em pessoa 
a defendel-o com a sua guarda. embaixador de França, 
nação alliada de Portugal e da Hollanda na lucta contra 
a Hespanha, metteu-se de permeio para evitar que a ar- 
ruaça plebéa degenerasse n' um conflicto diplomático, o 
qual de resto o enviado de D. João IV, hábil politico ex- 
perimentado em duas cortes do Norte, fora o primeiro a 
procurar arredar, certificando o governo neerlandez de que 
o seu monarcha vira com maus olhos a sublevação per- 

Liha, Pernambuco. 11 



162 

nambucana, e estava mesmo disposto a reprimil-a de ac- 
cordo com oô Estados Geraes. Mantinha-se assim na 
Europa a burla de que Telles da Sylva se servira para 
engodar os conselheiros supremos nos preparativos e co- 
meços da sedição por elle próprio incitada. "O meu in- 
tento, escrevia o governador geral da Bahia ao rei de 
Portugal em carta de 19 de Julho de 1645, que D. Fran- 
cisco de Souza Coutinho forneceu aos Estados Geraes, não 
é fazer hostilidade alguma aos Hollandezes, senão livrar 
aos nossos por meio provavelmente defensivo da oppres- 
são publica em que ficaram, e reconcilial-os com os Hol- 
landezes, presentindo também que se enxergavam algumas 
demonstrações, de que se eu duvidasse de mandar esse 
soccorro, se occasionaria nesta praça outro movimento 
peior, de que o presente, por ser a maior parte dos sol- 
dados deste exercito e moradores desta cidade naturaes 
de Pernambuco, e retirantes de todas aquellas capitanias/ 1 
N' esta epistola invocava Telles da Sylva mais uma vez, 
com sobeja finura, o pretexto que teria, si quisesse, para 
atacar os hollandezes apezar da trégua, a saber, a occu- 
pação de Angola, São Thomé e Maranhão, e o que era 
mais grave, a posterior traição bátava, chamando aleivo- 
samente para mais perto de Loanda o governador Pedro 
César de Menezes, e n' um bello dia assolando-lhe o ar-, 
raiai do Bengo, roubando o que ainda ficara aos mora- 
dores, e prendendo o alto funccionario portuguez "com as 
maiores indecencias que a sua qualidade podia padecer." 
Os Estados Geraes não se fiaram muito nos protestos 
de Souza Coutinho , apezar d' elle no seu mais formoso 
latim qualificar o movimento restaurador de Pernambuco 
de execrabilis et damnandu rebellio, e communicaram á 
França a intenção em que estavam de declarar a guerra 
a um alliado tão refalsado e ingrato como o monarcha 
portuguez. Morrera havia poucos annos o cardeal Riche- 
lieu, e os destinos da França andavam entregues á enga- 
nosa diplomacia do italiano Mazarino. Ainda se estava 
porém longe do tratado dos Pyreneus, e o ministro do rei 
christianissimo não julgou prudente offerecer-se á Hes- 
panha na divisão do campo contrario uma probabilidade 



163 

de ganho. De harmonia com o seu pensamento fez o car- 
deal insistentemente ver aos Estados Geraes que, desde 
o momento em que os prejuízos eram de uma companhia 
e não da nação hollandeza, e D. João IV assegurava a 
sua nenhuma cumplicidade na revolta ultramarina, excu-> 
sado lhe parecia tamanho escarcéo ; que em lugar de rom- 
perem a sua união, o que a Hespanha sobremodo dese- 
jaria, mais valeria á Hollanda e a Portugal imitarem a 
França e a Inglaterra, paizes que não deixavam pelas 
difficuldades e rixas que entre elles existiam na Terra 
Nova, de viver em boa paz na Europa, mantendo o seu 
accordo no Velho Mundo, e destacando para o Novo for- 
ças encarregadas de zelar as suas pretenções. Nem seme- 
lhante procedimento envolvia a minima renuncia de qual- 
quer direito. Eesignou-se a Hollanda de má vontade á 
inacção, jurando de si para si tirar estrondosa desforra 
na primeira occasião. Entretanto conservou, como lhe 
aconselhava Mazarino, as relações diplomáticas com Por- 
tugal, auxiliando ao mesmo tempo as reivindicações da 
Companhia das índias Occidentaes, á qual se prorogou o 
privilegio por quinze annos. O embaixador portuguez não 
se deixou comtudo enganar por tão tranquillizadoras appa- 
rencias: era Souza Coutinho bastante ladino para compre- 
hender todo o delicado da situação do seu paiz. As nego- 
ciações para a paz de Westphalia entravam a encaminhar- 
se, e o que seria do pequeno reino que tenazmente luc- 
tava pela sua independência si, desprotegido no ultimo 
momento do doble Mazarino, visse contra si reunidas a 
Hespanha, ciosa da unidade ibérica, e a Hollanda, cobi- 
çosa do domínio colonial portuguez? Um dilemma im- 
punha-se-lhe inexoravelmente — abandonar para sempre 
as pretenções sobre as magnificas possessões conquista- 
das pela Companhia, ou arrostar nos dois hemispherios 
com uma guerra desproporcionada ás forças lusitanas. 

Foi então que Gaspar Dias Ferreira propoz a D. 
João IV o alvitre do resgate do Brazil Hollandez, solução 
que despedaçando o dilemma, punha a questão no pé em 
que devia ser tratada com uma companhia de commercio, 
"a qual, dizia elle, não tinha em attenção o bem publico* 

11* 



164 

como os reis e as republicas, mas somente o seu proveito 
próprio e particular." O amigo do conde de Nassau, 
"sugador do sangue e da fazenda da gente pobre de Per- 
nambuco," conforme o appellidou um hollandez, julgára- 
se ameaçado no Brazil fora da salvaguarda do príncipe, e 
acompanhara este no seu regresso para a Hollanda, natu- 
ralizando-se cidadão das Províncias Unidas em princípios 
de 1645. Sagaz e perfeito conhecedor dos negócios do 
Brazil, elle, em dois pareceres, um dirigido a Maurício e 
outro a D. João IV, estudou com grande verdade o carac- 
ter da conquista bátava, e aventou a liquidação simulta- 
neamente pacifica e proveitosa, que era aconselhada a 
todas as partes interessadas. (Rev. do Inst. Arch. e Geog. 
Pern., coll. José Hygino.) 

Resume-se o primeiro parecer nos seguintes termos: 
qualquer movimento intentado em Pernambuco contra os 
invasores tinha todas as probabilidades de vencer, porque 
o levantamento nacional seria em massa. "Todos hão de 
pelejar até morrer, e não é como no tempo em que não 
haviam experimentado occasião alguma de guerra, e quando 
só no retirar-se punham a salvação, como hoje a põem 

todos no pelejar Em aquelle tempo pelejavam com 

a milícia de el-rei, que nunca chegou a 3.000 infantes, e 
agora pelejam com 20.000 moradores (que cada um na 
victoria vae a ganhar, e todos no perdel-a se arruinam), 
e, si naquelle tempo os experimentaram bisonhos, pelo con- 
trario agora todos são militares, e tem a pratica da guerra 
adquirida em tantos annos que em seu paiz a hão tido con- 
tinua, nem vemos forças na Companhia para conquistar 
as praças e tel-as guarnecidas, e fazer-se por armas se- 
nhora da campanha, porque para conseguil-o lhe são ne- 
cessários 10.000 infantes, e inda fica o successo em mãos 
da fortuna, porque os levantados egualam aos seus solda- 
dos na experiência, e os precedem no valor, por defenderem 
sua própria causa". N' esta lucta as capitanias ficariam 
destruídas, abrazados os cannaviaes "que é tudo de que 
consta o Brazil", e despovoados os campos, emigrando os 
moradores e escravos para as terras portuguezas além do 
São Francisco. Nem prezas sequer acarretaria a guerra, 



165 

para compensar os gastos da Companhia que, quando 
mesmo lograsse abafar a revolução, ver-se-hia a braços 
com as numerosas e perigosas guerrilhas. Escorraçar os 
portuguezes e repovoar Pernambuco com flamengos, era 
empreza que demandava enorme trabalho e muitos annos 
de capital empatado. Pernambuco levara cento e vinte 
annos para chegar ao estado em que o encontraram os 
hollandezes, e nem em outros tantos estes o collocariam 
novamente, no primitivo nivel de prosperidade: "Deus á 
nação hollandeza não deu préstimo para o Brazil." Inau- 
gurar uma politica de tolerância religiosa e de adminis- 
tração paternal, seria já tarde para ensaial-o. Os subleva- 
dos não sentiriam mais inclinação a estabelecer conchavos 
que, além de precedidos de mil difficuldades, nunca po- 
deriam comportar a cessação das dividas, tributos e ga- 
bellas , " tão intoleráveis que é de maravilhar tanto tempo 
as hajam supportado". Fatalmente pois offerecia-se á 
Companhia uma única sahida: guardar os portos no Brazil, 
interceptando as communicações marítimas dos rebeldes, 
e entretanto ir tratando de vender a possessão ao rei de 
Portugal, que sem custo a podia conservar e defender. 
"Com essa venda ficará a Companhia logo prospera e pu- 
jante para com muitas utilidades continuar a guerra contra 
o inimigo commum (Castella), o qual por esta falta está 
colhendo sem risco das índias as riquezas com que se 
sustenta contra toda a Europa." Isto sem contar o justo 
perigo dos pernambucanos se dirigirem pedindo auxilio ao 
rei de Hespanha, o qual tornar-se-hia o tertius gaudet do 
negocio, com grave detrimento do credito hollandez. 

Este parecer datado de 2 de Outubro de 1645 confir- 
mava o que a 20 de Julho do mesmo anno Gaspar Dias 
Ferreira endereçara ao rei de Portugal, expondo com maior 
largueza o seu manhoso alvitre em um estylo destituído 
de elegância, mas fluente, claro, sem mesmo os viciosos 
ambages rhetoricos da epocha. Começava o escripto por 
um elogio do Brazil, "jardim de Portugal e albergaria dos 
seus súbditos", do qual o prior do Crato já quizéra fazer 
um reino e n' elle estabelecer sua residência. " Portugal 
não tem outra região mais fértil, mais próxima nem mais 



166 

frequentada, nem também os seus vassallos melhor e mais 
seguro refugio do que o Brazil; o portuguez, a quem acon- 
tece decahir da fortuna, é para lá que se dirige." A des- 
aggregação de um tão grande Estado era cousa tanto mais 
lastimosa quanto ia n' elle propagando-se á vontade a he- 
resia, facto que certamente repugnava bastante aos co- 
nhecidos sentimentos piedosos do monarcha. Rehavel-o 
devia constituir uma obrigação para a catholica realeza, e 
a occasião não podia offerecer-se mais azada para tal rei- 
vindicação. Manifestára-se uma ligeira melhoria nas finan- 
ças da Companhia, mas ainda assim eram decorridos dois 
annos que os accionistas não recebiam dividendo, estando 
as acções de 100 $ cotadas a 46 9. "O capital da Compa- 
nhia é actualmente de Õ 1 /* milhões de cruzados, pois em 
tanto ou pouco mais importam os 170 tonneis de ouro que 
se acham nella empregados; além disso tem, a titulo de 
deposito, um milhão, e estão mais obrigados por algumas 
dividas de mercadorias e bens que compraram e não podem 
pagar. O juro desse dinheiro a 5°/ (o que é um juro alto, 
com que são contentes os negociantes d' aqui), importa em 
325.000 cruzados. As rendas do Brazil actualmente não 
montam, nem podem montar no futuro, a 500.000 cruzados, 
em quanto não succeder mudar-se a situação da Europa. 
Esses lucros não são bastantes para cobrir as despezas que 
elles são obrigados a fazer com a milícia, os ministros do 
governo politico e os bens que possuem tanto no Brazil 
como aqui, além dos navios e gente de mar que se em- 
pregam no serviço da Companhia." Na sua opinião era 
forçoso começar por abrir guerra, não ás tropas, mas aos 
fundos da empreza, fazendo passar para mãos portuguezas 
o trafico de escravos concentrado nas dos hollandezes, a 
quem os sertanejos de Angola vendiam os negros que ar- 
rebanhavam no interior. negocio não apresentava grande 
difficuldade, porque os Estados Geraes, de conformidade 
com o artigo 20 do tratado de tréguas que tornava com- 
muns ás duas nações os portos angolenses, tinham de for- 
necer passaportes para navegarem para todos os portos 
d' aquella costa aos navios de Portugal que os reclamas- 
sem. Da extensão do commercio portuguez também de- 



167 

pendia muito a conservação da possessão africana, onde 
o domínio do reino estava correndo grande perigo de ficar 
completamente extincto. Convinha ainda não ir dilatando 
a execução do plano offerecido á meditação régia, por- 
quanto todas as nações européas estavam anciosas pela 
paz: "sabemos que a Allemanha está assolada, a França 
exhausta, Castella e os mais reinos do rei afílictos e postos 
em grande perigo, a Dinamarca oppressa e em parte con- 
quistada, a Suécia, posto que victoriosa, em grande deca- 
dência, e estes mesmos Estados da Hollanda, que estiveram 
sempre em melhor situação, de presente se acham oberados 
de dividas". A paz, que com effeito veio a íirmar-se em 
Munster, valorisaria talvez no dobro os productos brazi- 
leiros — assucar e páu brazil — , e com esta alta e o 
grande augmento dos direitos alfandegários, a Companhia 
não precisaria mais de vender as capitanias conquistadas. 
N' uma republica de mercadores, como era a Hollanda 
do século XVII, o dinheiro representava a mola real da 
politica. Tornava-se por isso necessário subornar alguns 
accionistas afim de, nas differentes camarás, irem fazendo 
propaganda da alienação das colónias occupadas pela Com- 
panhia, de forma que a idéa lograsse bom acolhimento 
quando apresentada pelos Estados Geraes, cujos membros 
influentes seriam conjunctamente peitados sem mesqui- 
nharia. Gaspar Dias Ferreira avaliava o preço do resgate 
em trez milhões de cruzados, ficando ainda a empreza com 
direito ás dividas dos moradores, á sua artilheria e muni- 
ções, ao commercio do oiro da Mina e da Guiné e ás prezas 
de Castella. Para o pagamento d' essa somma, que abran- 
geria o resgate do Brazil, Angola e São Thomé, offerecia 
o protegido de Maurício dezoito mil cruzados do seu bolso 
pagos em trez prestações annuaes, e propunha as seguintes 
bases em impostos a cobrarem-se adrede por algum tempo, 
depois de reduzidas as contribuições ás usadas durante o 
domínio portuguez: metade dos direitos de sahida dos ne- 
gros de Angola, e no Brazil, metade do dizimo do assucar 
das quatro capitanias conquistadas, a redizima e as pen- 
sões dos donatários de Pernambuco e Itamaracá, a ar- 
rematação do páu brazil, novos impostos sobre a producção 



168 

do assucar, escravos, fretes e engenhos, além de varias 
redacções de vencimentos. O total das verbas menciona- 
das deveria produzir um milhão e seiscentos e vinte cinco 
mil cruzados por anno, o que, mesmo accrescentando os 
juros e despezas imprevistas, , traduziria n' um curto período 
de trez annos a cessação dos tributos especiaes, e a appli- 
cação para a despeza geral das contribuições costumadas, 
parte das quaes ficaria sempre attribuida aos gastos colo- 
niaes. Terminando, referia-se Gaspar Dias Ferreira á po- 
derosa Companhia das índias Orientaes, indicando como 
meios seguros de vulnerar e arredar esta associação mer- 
cantil, que tinha apego aos lucros e não ás terras, uma 
avultada importação portugueza de especiarias asiáticas 
vendidas a preços baixos aos negociantes europeus, e a 
malquerença, habilmente tramada, dos hollandezes com os 
iiaturaes do Extremo Oriente. 

As idéas do parecer encontraram bom acolhimento 
na roda de D. João IV. O marquez de Montalvão, Mathias 
de Albuquerque, já conde de Alegrete, e o padre António 
Vieira, valido do monarcha, mostraram-se-lhes favoráveis, 
tomando a proposta de Gaspar Dias Ferreira em tanta 
consideração, que nas suas notas de Maio de 1646 conta 
o hollandez do diário da rebellião o facto de parlamentarios 
dos sitiantes levarem ao Recife uma carta do soberano 
portuguez, rezando que os Estados Geraes e a Companhia 
haviam tratado com elle acerca do Brazil. Portugal in- 
demnizaria a empreza de todas as despezas feitas desde a 
conquista, facultaria liberdade de commercio á França e á 
Hollanda e asseguraria a todos os proprietários as suas 
fazendas. Com razão porém mostrava o hollandez pouca 
fé na noticia, não acreditando que uma resolução d' essa 
importância tivesse sido tão de repente adoptada na mãi 
pátria, nem que D. João IV andasse por tal forma abonado 
que pudesse pagar a quarta parte do capital que o resgate 
exigiria. A verdade é que os XIX, amadoiic-js par un no- 
table present, haviam-se sentido inclinados á transacção; 
porém os Estados Geraes não patentearam disposições 
igualmente conciliadoras, antes estigmatizaram a ganância 
da Companhia e os vicios do seu governo ávido e incapaz, 



169 ~ 

que tinham provocado a penosa situação em que se en- 
contrava o nome hollandez na America. Protestando não 
consentir no abandono de uma pollegada de terreno do 
Brazil, a assembléa legislativa das Províncias Unidas de- 
clarou n'uma soberba ária de bravura ter a elle direitos 
iguaes aos dos portuguezes, visto o paiz pertencer original- 
mente aos indios e haverem-n' o conquistado os soldados 
batavos com o seu sangue; preferir arriscar a própria Hol- 
landa a ceder o Brazil, e em ultimo caso assolar este em 
toda a extensão da costa, para que em nada aproveitasse 
a sua posse a Portugal. 

Gaspar Dias Ferreira pagou caro a sua intervenção 
no negocio de Pernambuco. O diário narra a maneira por 
que foi descoberta a variada correspondência entretida pelo 
astucioso portuguez: "tendo elle carregado um pequeno 
navio com uma porção de arcabuzes e de munições para 
envial-os a Portugal succedeu ser o navio tomado por 
piratas de Alger e as cartas de Ferreira irem ter ás mãos 
de um judeu que alli residia, o qual lendo-as e vendo a 
sua muita importância, as mandou a um outro judeu de 
Amsterdam; este as apresentou á Companhia, e assim foram 
ellas parar ás mãos de Suas Altas Potencias". Prezo e 
processado pelo crime de traição, a 16 de Maio de 1646 
condemnava-o o tribunal provincial da Hollanda a bani- 
mento e ao pagamento, sob pena de prizão, das custas e 
de uma multa de doze mil florins: mas não ficaram por 
ahi as suas infelicidades. A 31 de Julho do anno seguinte 
o Supremo Conselho da Hollanda reformou a sentença da 
primeira instancia, cassando a naturalização do réu como 
indigno de tal mercê, mandando-o encarcerar durante sete 
annos, exilando-o depois perpetuamente dos territórios 
europeus e ultramarinos sujeitos á jurisdicção neerlandeza, 
e elevando a multa de doze a trinta mil florins. Gaspar 
Dias Ferreira poude em Agosto de 1649 passar a Portugal, 
evadindo-se da prizão, onde deixou uma carta em latim 
para os Estados Geraes explicando o seu procedimento. 
Em 1652 ainda se encontra o gorado politico pedindo a 
João Fernandes Vieira e a Francisco Barreto de Menezes 
que o fizessem procurador de Pernambuco perante o rei 



170 

de Portugal, compromettendo-se a apressar a restauração 
do Brazil. 

Emquanto pela Europa urdiam-se as combinações diplo- 
máticas e as intrigas politicas, além do Atlântico recru- 
descia a campanha com a chegada dos reforços hollandezes. 
Assim que se installou o novo Conselho — o qual abriu 
uma infructuosa devassa sobre o procedimento altamente 
denegrido dos seus predecessores, que na pátria responde- 
ram no anno immediato deante dos Estados Geraes pelos 
actos da sua gerência — , von Schkoppe executou diversas 
sortidas, sendo em todas malaventurado. No mez de Ou- 
tubro de 1646, para distrahir a attenção dos restauradores, 
o governo do Recife destacou para o sul Henderson e 
Lichthardt com quinze embarcações e mil e duzentos a mil 
e trezentos homens de desembarque (diário). Aproando ás 
margens do São Francisco, os hollandezes reoccuparam o 
Penedo, reconstruindo o arrazado forte Maurício; porém 
procurados pelos nacionaes fortalecidos com soccorros da 
Bahia, foram levados de vencida com grande perda, aco- 
lhendo-se na fortaleza. Henderson, depois de alguma de- 
mora, deixou as suas tropas e regressou ao Recife, seguindo 
d' alli para a Hollanda, e o almirante Lichthardt, que tão 
bons serviços sempre prestara á Companhia, por lá falleceu 
quasi repentinamente. Moreau faz-lhe o seguinte elogio 
fúnebre: "mourut de maladie naturelle que Bacchus dont 
il estoit vaillant champion, avoit de beaucoup advancée"* 

Taes desbaratos no emtanto não desanimaram o Con- 
selho Supremo, antes o levaram a emprehender mais longe 
a projectada diversão, mandando von Schkoppe e Banckert 
occuparem a ilha de Itaparica em frente da Bahia e sitia- 
rem por mar a capital do Brazil Portuguez. Para este fim 
foram os dois militares acompanhados de um dos membros 
do Conselho Supremo e de dois mil soldados, incluindo 
parte dos que tinham ido com Henderson, sendo julgados 
guarda sufficiente para o Recife os burguezes e algumas 
companhias regulares recentemente chegadas da Hollanda, 
e com as quaes se haviam completado, mesmo de sobejo, 
os claros abertos nas fileiras pelas doenças, privações e 
expedição ao São Francisco. A tomada da fértil e povoada 



171 

Itaparica, em Fevereiro de 1647, foi manchada por um hor- 
rível massacre: calculam-se em duas mil as pessoas que 
morreram ás mãos dos invasores, guiados por um official 
desapiedado como era von Schkoppe, ou afogadas, tentando 
fugir para São Salvador. Limpa de portuguezes a ilha , e 
reforçado o pequeno exercito com o resto da guarnição do 
Penedo e com quinhentos soldados vindos da Europa sob 
o commando do coronel Hous, o prisioneiro da Casa Forte 
embarcado para a Hollanda e que retomara o serviço, os 
batavos construíram um forte ao abrigo do qual a sua es- 
quadra pirateava com descaro, devastando o Recôncavo e 
assaltando as caravelas inimigas. Um primeiro ataque 
dos bahianos foi rechaçado, e sete mezes depois um outro 
dirigido pelo Eebellinho, que no encontro perdeu a vida 
com bastantes companheiros, e por Hoogstraten, que do 
Arraial viera para a Bahia. 

Itaparica só seria evacuada em Janeiro de 1648 ao 
annuncio de uma esquadra portugueza, na occasião em que 
na Europa a Hollanda e a Hespanha se davam as mãos, 
assignando o tratado de Munster em um congresso do 
qual Portugal foi excluido por exigências da Hespanha e 
prevenções da Hollanda: contra a paz opinara a própria 
provincia da Zelândia, e a guerra ter-se-hia certamente 
perpetuado si o Brazil não estivesse causando aos Estados 
Geraes as mais sérias preoccupações. Fora o padre An- 
tónio Vieira quem, regressando da sua primeira viagem 
aos Paizes Baixos e denunciando como intenção do Con- 
selho do Recife o atacar a Bahia, fizera o rei armar 
aquella frota, negociando adrede o próprio jesuita um em- 
préstimo particular. A bordo d' ella seguio para São Salvador 
o conde de Villa Pouca de Aguiar, mandado render Telles 
da Sylva no posto que este tanto honrara e que bem a seu 
pezar deixou, morrendo em naufrágio na volta para Lisboa. 

A retirada do hábil administrador era uma satis- 
facção palpável dada á Hollanda, cuja approximação do 
centro da sua possessão americana D. João IV não pu- 
dera ver sem susto. monarcha tremia pelo destino das 
outras capitanias brazileiras, mormente depois dos Estados 
Geraes terem dado provas de quererem chamar a si a pen- 



172 

dencia. A paz então imminente da Hespanha com as 
Províncias Unidas promettia vigorar notavelmente os 
dois adversários de Portugal e, atemorizado, o rei dirigiu 
até um convite de desarmamento aos chefes da revolta 
pernambucana, proposta que foi rejeitada copi nobreza, 
tomando Fernandes Vieira e Vidal de Negreiros sobre seus 
únicos hombros a responsabilidade da campanha de re- 
generação da pátria conspurcada pelos hereges. No mesmo 
momento, na Haya, D. Francisco de Souza Coutinho, des- 
norteado pelas exigências dos hollandezes que reclamavam 
franqueza, e vendo para cada instante a partida de novos 
soccorros com destino á colónia em perigo, senão ao pró- 
prio Portugal, offerecia a troco da paz a restituição do 
Brazil Hollandez, uma indemnização pecuniária pelos gastos 
de campanha e uma cidadella em caução. Só em fins de 
1648 porém, o diplomata portuguez daria a ultima demão 
e submetteria á ratificação real o convénio, em cuja con- 
fecção o assistiu o padre António Vieira, novamente de 
estada nos Paizes Baixos. O illustre maranhense João 
Francisco Lisboa na sua biographia do famoso jesuita iiol- 
o apresenta na sociedade da Haya, frequentando os salões 
vestido á secular, vivendo como fidalgo e encantando a 
todos com o brilho da sua palavra privilegiada, que ora 
discutia os assumptos políticos, ora esfuziava em observa- 
ções espirituosas e phrases galantes, ora vibrava ao calor 
dos debates theologicos. Esta maravilhosa adaptação á 
grande roda ajuda-nos a aquilatar da malleabilidade do 
espirito sobremaneira notável do preclaro sacerdote, que 
para ser exaltado perante a posteridade possuio, além de 
um enorme talento servido por uma viva ambição do poder 
e de uma immensa actividade, um absoluto desprendimento 
de dinheiro e de dignidades. 

Entrementes o convénio não impediu o embarque para 
Pernambuco de reforços batavos sob a direcção do almi- 
rante de With, em opposição á esquadra que conduzira o 
conde de Villa Pouca. Compunham -se esses reforços 
reclamados em pessoa por um conselheiro politico do Re- 
cife, de regimentos despedidos por eífeito da trégua que 
precedeu a paz com a Hespanha. No ultimo momento os 



O MESTBE DE CAMPO GENERAL 
FRANCISCO BARRETO DE MENEZES. 



H 



173 

soldados, instruídos do estado das cousas no Brazil e dos 
maus tratos a que os sujeitavam n' aquellas paragens, 
tinham -se recusado a partir, desertando uns e amoti- 
nando-se outros, mas foram compellidos a seguir viagem 
pelos vasos de guerra estacionados nos portos hollandezes. 
Não havendo Maurício de Nassau acquiescido á vontade 
da Companhia, que pretendia novamente empossai -o da 
administração dos seus domínios brazileiros, von Schkoppe 
era nomeado tenente general. Na sua frente já ia o pro- 
vecto militar encontrar um official da sua hierarchia. Diri- 
gindo os insurrectos, concentrando em suas mãos os com- 
mandos por que andava dividido o exercito restaurador 
n' uma separação nociva á boa harmonia dos chefes e á 
resolução dos combatentes, achava -se um americano, o 
mestre de campo general Francisco Barreto de Menezes, 
filho de Francisco Barreto, governador da fortaleza de 
Callao, no Peru, em tempo do domínio castelhano, e de 
uma "mulher principal" d' aquella possessão, e antigo com- 
panheiro de Luiz Barbalho na marcha prodigiosa que se 
seguio ao desembarque no porto dos Touros. Arrancado 
ás campanhas alemtejanas contra a Hespanha, Francisco 
Barreto de Menezes tinha sido, caminho da Bahia, feito 
prisioneiro por Banckert n' um combate naval, safando-se 
porém apóz nove mezes de captiveiro no Recife e cor- 
rendo a assumir o cargo com que D. João IV o galardoara 
antes de cobardemente renegar a sublevação pernambucana 
em prol da religião e do throno. João Fernandes Vieira, 
chefe acclamado pelos revoltosos, desinteressadamente en- 
tregou ao militar enviado pela corte em horas de desvane- 
cida confiança, o honroso generalato e a gloria de expulsar 
de vez os hollandezes. 



XVI 

Von Schkoppe e Francisco Barreto mediram- se, en- 
contrando-se pela primeira vez, nos montes Guararapes a 
19 de Abril de 1648, e a solução d' esse duello de morte 
podia bem ter sido prevista, porque, mau grado a supfe- 



174 

rioridade do numero, as vantagens certamente não residiam 
do lado do hollandez, á testa de soldados mal humorados, 
de bolso e estômago vasios, brutalizados pelos ofíiciaes, 
sujeitos a ferozes castigos disciplinares, predispostos á 
evasão ou ao desbarato. Moreau regressando para a Europa 
com o conselheiro politico que veio activar a ida dos re- 
forços, prophetizava sem rebuço a perda do Brazil Hollan- 
dez, não obstante todas as remessas de soldados, mais 
comprados do que escolhidos como elle dizia. A situação 
tornára-se na verdade insustentável, com o paiz de Olinda 
para o norte, até ao Ceará, inteiramente assolado e deserto, 
ensopado do sangue das matanças successivas, ainda re- 
calcado de quando em quando pela sinistra passagem das 
hordas devastadoras ; com o Recife bloqueado por todos os 
lados de terra, até bombardeado de perto de um reducto 
recentemente levantado; finalmente com a campanha abun- 
dante e todo o paiz ao sul em mãos dos portuguezes. 
Apenas no Norte as fortalezas do Ceará, Rio Grande, 
Parahyba e Itamaracá conservavam as suas guarnições 
hollandezas, desamparadas no meio das planícies tristes 
onde soluçavam no vento os ais dos massacrados. 

Tendo sido repudiados os oíferecimentos de indulto 
feitos aos nacionaes em troca da sua submissão, von 
Schkoppe dispoz-se a jogar uma cartada decisiva, e, rom- 
pendo o apertado cerco que suffocava as suas esperanças, 
sáhiu do Recife para o sul da capitania a 18 de Abril com 
mais de quatro mil soldados. Foi-lhe com presteza o general 
portuguez ao encontro com dois mil e duzentos homens, 
ficando trezentos de guarda ás estancias fronteiras ao 
Recife (parte official de F. Barreto). Ao chegarem os 
hollandezes com perniciosa demora aos montes Guararapes, 
já os esperavam os portuguezes n' um passo estreito situado 
entre o mar e o sopé dos oiteiros, que na véspera Barreto 
havia atravessado. O combate travou-se logo pela manhã 
de 19, e a principio a sorte pareceu querer favorecer o 
inimigo, que do alto dos serros por elle oceupados varria 
com facilidade os restauradores com o seu fogo, ao passo 
que os procurava circumdar : acommettido porém á espada 
pela vanguarda contraria, commandada por Fernandes 



175 

Vieira, e pelos troços de Camarão e Dias, teve de romper 
as suas fileiras. Provaram os nacionaes n' este ataque 
impetuoso que forçou os batalhões batavos, quanto era 
arguciosa a argumentação do padre António Vieira, o qual, 
exemplo do opportunismo politico e litterario, sempre sabia 
accommodar a razão ás conveniências do seu pensamento e 
do seu estylo. O famoso escriptor, querendo um dia re- 
commendar a excellencia das fortificações na fronteira por- 
tugueza ameaçada por Castella, publicara que aos soldados 
do reino ninguém os igualava na constância para sustentar 
os rigores de um sitio, mas que sem difficuldade os ex- 
cediam outros na destreza e exercício de manejar um exer- 
cito, e pelejar formados. 

Graças á sua reserva os hollandezes ainda se recom- 
puzeram e recuperaram a perdida vantagem, retomando a 
sua artilheria mal guardada pelos auxiliares portuguezes, 
entretidos no saque, e carregando os nacionaes na campina 
que se extende na base dos montes, e onde se juntaram 
os esforços de todos os regimentos de von Schkoppe; mas 
tendo-se imprudentemente mettido pelos brejos perto do 
mar, os contrários reanimados á voz de Francisco Barreto 
defenderam-se com denodo no boqueirão e executaram um 
novo ataque pela retaguarda, conduzido por André Vidal, 
obrigando o tenente general batavo, quatro horas depois, 
a galgar os montes Guararapes com o artelho atravessado 
por uma bala, deixando no campo uns mil mortos e feri- 
dos, trinta e trez bandeiras e vários outros despojos. No 
relatório logo redigido queixa-se von Schkoppe sobretudo 
dos soldados por ultimo chegados, os quaes, conforme es- 
creveu, fugiram atropeladamente sem fazerem uso das 
armas, não valendo nenhuns esforços dos superiores para 
reunil-os. Foram setenta e quatro os officiaes hollandezes, 
entre elles o coronel Hous, commandante da reserva, que 
encontraram a morte na renhida peleja, vigorosamente 
evocada em um quadro de Victor Meirelles, e a qual sem 
duvida é o mais bello feito dos nossos fastos coloniaes. 
Retirou-se o inimigo desalentado para o Recife, voltando 
também Francisco Barreto no meio das jubilosas accla- 
mações dos seus para o arraial do Bom Jesus, tendo ainda 



176 

animo para expulsar os hollandezes de Olinda, da qual se 
tinham novamente apossado na ausência das forças restau- 
radoras. 

O anno continuou a correr com pasmosa felicidade 
para os independentes. Em Agosto, Salvador Corrêa diri- 
giu-se para a Africa com a pequena frota que conduzira 
á Bahia o conde de Villa Pouca, não logrando o almirante 
de With oppôr-se-lhe á viagem por falta de provisões da 
sua esquadra, que no Recife não tinha sido esquipada para 
grande demora no mar: mercê dos poucos navios portu- 
guezes, Angola e São Thomé voltaram promptamente ao 
domínio de João IV. Tão esplendidos successos não im- 
pediram comtudo a apresentação do desvantajoso convénio 
da Haya, auctorizado pelo padre António Vieira, e contra 
o qual o povo da metrópole insurgiu-se tumultuariamente. 
Consultadas a respeito as corporações officiaes e chamados 
vários personagens de importância, de mais de quarenta 
votos dados não foram além de quatro os favoráveis ás 
negociações, embora o rei insistisse em que estava perto 
de ajustar-se a paz da França com a Hespanha, sem in- 
clusão de Portugal. É eífectivamente certo que depois 
das victorias de Rocroy, Nõrdlingen e Lens, Mazarino 
esteve a ponto de dictar as suas condições a Filippe IV, 
empatando porém a guerra civil da Fronda, com as suas 
alternativas de fortuna e de revez para o cardeal, a con- 
clusão da paz até 1659. Dos pareceres contrários ao con- 
vénio luso-hollandez distingue-se o redigido pelo procurador 
da fazenda Pedro Fernandes Monteiro, nobre protesto contra 
a cedência de territórios que estavam sendo tão generosa- 
mente resgatados, e com cuja entrega, representava por 
seu lado o Dezembargo do Paço, "Portugal ficaria de todo 
exhausto, e reduzido, qual outra Galliza, a uma inútil e 
miserável província." 

Replicou o jesuíta aos críticos com o seu famoso 
Papel forte, apontoado de sophismas, trocadilhos, redun- 
dâncias e ironias, que mal disfarçam uma grande falta de 
convicções e uma moralidade politica pouco escrupulosa. 
N' esse documento António Vieira accusa o levantamento 
de Pernambuco de obedecer somente ao desejo dos mora- 



*■" ^ 



177 

dores de não pagarem o muito que deviam aos hollandezes; 
considera a monarchia desligada de quaesquer promessas, 
desde o momento em que os revoltosos ainda não haviam 
conseguido formal triumpho; rende preito servil ao direito 
da força, dizendo que as razões da justiça só servem para 
quando o que ficou leso se vê melhorado de fortuna; e por 
fim, mentindo a si próprio, desfaz no valor dos territórios 
em questão. Chega o padre a reputar favor da Hollanda 
o querer receber tão minguado e damnificado, aquillo que 
havia pouco possuía tão inteiro e florescente, e escora a 
sua argumentação comprazendo-se especialmente na com- 
paração dos fartos recursos da Hollanda com a pobreza 
de Portugal. Desabusado como qualquer mundano, elle 
não duvida escrever, referindo-se ás inesperadas victorias 
pernambucanas, que os milagres é sempre mais seguro 
merecel-os, que esperal-os; e fiar-se n' elles, ainda depois 
de os merecer, é tentar a Deus; mas velhaco como um 
embaixador, faz na conclusão entrever a possibilidade de 
rehaver-se todo o cedido, quando o reino estivesse solida- 
mente estabelecido na Europa, e pudesse com proveito 
tentar a lucta além do Atlântico. 

João Francisco Lisboa na sua já citada e excellente 
monographia sobre o padre António Vieira, um dos me- 
lhores, senão o melhor trabalho de historia brazileira, diz 
"não ter podido averiguar qual foi o resultado immediato 
d' esta renhida e memorável discussão, que aliás ainda em 
1650 continuava ou revivera. E de crer que se recorresse 
aos meios dilatórios, de propostas, contra propostas, modi- 
ficações, e mais ardis costumados em taes occasiões, acon- 
selhados geralmente por quantos chegaram a ser ouvidos 
na matéria, e cuja efficacia foi singularmente favorecida 
não menos pela lentidão ordinária dos negócios e dos 
movimentos n' aquella epocha, do que pela frouxidão e 
hesitações da própria Hollanda, que no meio das compli- 
cações externas que tolhiam a sua acção, não a pôde ma- 
nifestar com a promptidão e o vigor necessários para evi- 
tar a perda das suas conquistas." 

Em Pernambuco, apezar dos encómios prestados pelo 
jesuíta ao poder da Hollanda, a situação persistia em não 

Lima, Pernambuco. 1^ 



178 

melhorar para os hollandezes. O almirante de With, 
senhor do mar com a sua esquadrilha, dava caça com 
felicidade ás embarcações portuguezas, e levou até ao 
Keconcavo, na Bahia, o terror da sua ruina; em terra, 
porém, a morte do velho e destemido Camarão fora com- 
pensada pela chegada de um regimento da Bahia ás or- 
dens do mestre de campo Francisco de Figueirôa, perma- 
necendo os invasores encurralados no Recife, sempre in- 
felizes nas investidas contra os sitiantes, e não querendo 
o Conselho Supremo ouvir fallar em diversões parecidas 
com a de Itaparica, quando von Schkoppe propunha o 
ataque do Rio^ de Janeiro. Uma sortida mais séria levada 
a effeito em 17 de Fevereiro de 1649 com trez mil e qui- 
nhentos soldados, foi tão desafortunada como a do anno 
anterior. combate com os dois mil e seiscentos homens 
de Francisco Barreto realizou-se nos mesmos montes Gua- 
rarapes, occupando primeiramente o coronel Brinck, com- 
mandante batavo no impedimento de von Schkoppe, não 
só os serros, como o passo ou boqueirão em que no anno 
anterior se encontravam os nacionaes, espalhando-se assim 
demasiado as forças hollandezas. Durante a noite de 18 
o general portuguez chegado do Arraial, mudou-se com 
sua gente mais para o sul, fatigando o inimigo com ame- 
aças de assalto e collocando-se entretanto em posição 
mais vantajosa do que a tomada a principio; mas viu 
com surpreza no dia immediato que esse, em vez de dar 
batalha, abandonava as suas fortes posições e dava mostras 
de querer recolher-se ao Recife. Atacando-o então com 
valentia, Francisco Barreto impediu-o de reoccupar as 
perdidas eminências, e batendo separadamente as forças 
contrarias, aproveitando-se d' est 'arte da sua dissemina- 
ção, destroçou-as mais completamente, si é possivel, do 
que da primeira vez. Fernandes Vieira e André Vidal, 
capitaneando os flancos do exercito restaurador, realiza- 
ram a sua juncção no centro das tropas inimigas, depois 
do primeiro haver-se apoderado do boqueirão e do segundo 
ter iniciado a debandada dos hollandezes. Mil mortos 
pelo menos, a começar pelo coronel Brinck e por quatro 
tenentes coronéis, foram victimas do ardor dos nacionaes, 



179 

que se apoderaram da artilheria bátava e lançaram de todo 
o pânico entre os adversários, perseguindo-os até perto 
do Recife, e parando apenas do cançaço de matar e vencer, 
na phrase de uma relação hespanhola contemporânea. 

Começaram desde esse momento a emigrar para a 
Hollanda os altos fimccionarios civis e militares da coló- 
nia, entre elles o almirante de With que, afundando ainda 
mais a Companhia no lodo das suas traficancias, não ca- 
lava, em sua franqueza de marinheiro, os abusos finan- 
ceiros que vira praticados. A Companhia de Commercio 
portugueza, creada em opposição á das índias Occiden- 
taes, viria pôr fim á já longa agonia do domínio batavo. 
Na fundação d'aquella companhia teve parte influente o 
padre António Vieira, cuja personalidade absorvente dif- 
ficilmente se separa de qualquer acto politico do tempo 
de D. João IV, de quem elle foi o mais escutado con- 
selheiro. O habilissimo jesuita apparece-nos ahi defen- 
dendo uma causa sympathica, a da benignidade para 
com os christãos novos, cujos capitães e aptidões de- 
veriam constituir o mais serio elemento do bom êxito 
de qualquer empreza mercantil que então se tentasse em 
Portugal. Semelhantes idéas não as externava de certo 
o padre por clemência de animo, senão por calculo de 
estadista, e juntamente com as suas prophecias e crenças 
em agouros e conjecturas, exemplificadas no livro do 
Quinto Império; singularidades theologicas e antipathia ás 
ordens monásticas, haviam de acarretar-lhe mais tarde, 
em um momento de desfavor da Ordem sob o governo do 
conde de Castello Melhor, sérios dissabores da parte da 
ciumenta Inquisição, rival do poderio jesuitico; assim 
como a sua ambição individual de mando lhe causaria 
désintelligencias com a própria Sociedade de Jesus, que 
um instante chegou a expulsal-o do seu seio. 

Creou-se a Companhia de Commercio como um re- 
médio supremo para o desastroso estado financeiro e po- 
litico do reino, exhausto até á consumpção e sem auxiliares 
fieis no exterior. A lógica do padre António Vieira por 
vezes tão superficial, palavrosa e enganadora, brincando 
nos ouvidos com phrases castiças e entontecendo o enten- 

12* 



180 

dimento com jogos de argumentos, n' esse debate feriu 
com eloquência a corda justa. A cruel avidez do Santo 
Officio realmente impedia o desenvolvimento do commercio 
portuguez, que os judeus, menos peados, fariam florescer; 
e o padre não deixava de notar que, singrando as frotas 
dos particulares nos mares longínquos, mais fácil se tor- 
naria a defeza das colónias , sendo além d' isso mais pro- 
fícua a lucta contra a Hollanda e a Hespanha feita com 
armas de oiro do que com armas de aço. Com effeito 
por occasião da fundação da Companhia Occidental, em 
1649, inseriu-se no alvará régio de accordo com as idéas 
do valido, e entre condições que parece não terem sido 
muito do agrado dos moradores do Brazil, adversos a 
qualquer exaggero de monopólio, a isenção do fisco para 
os capitães n' ella empregados, clausula que o Papa, a 
pedido da Inquisição, fulminou logo com um breve, ao 
qual o padre Vieira audaciosamente aconselhou o rei a 
negar o beneplácito. A Santa Sé ganhou comtudo a par- 
tida depois da morte de D. João IV, em 1657, e a este 
primeiro golpe succederam-se outras mutilações, alte- 
rações e próprios accidentes, que arruinaram e por fim 
asphyxiaram a Companhia, não sem que ella tivesse ser- 
vido para apressar a restauração de Pernambuco e levan- 
tar do seu abatimento a marinha mercante portugueza, 
empregando, em vez das fracas caravelas e das naus pe- 
zadas, embarcações solidas e que facilmente se defendiam 
no mar. A sua primeira frota, que comboiava os vasos 
de carga, tirando aos hollandezes os últimos lucros dos 
aprezamentos , partiu em fins de 1649, subordinada ao 
conde de Castello Melhor nomeado governador geral do 
Brazil. Com essa esquadra se foram procurando entreter 
os corsários batavos, emquanto na Europa, estando a ex- 
pirar a trégua dos dez annos, que de resto só no papel 
existia, e achando-se Portugal momentaneamente desa- 
vindo com a Inglaterra, reatavam-se as combinações di- 
plomáticas para dar solução a um conflicto já quasi deci- 
dido pelas armas. 

António de Souza de Macedo foi enviado á Haya, 
onde chegou em Setembro de 1650, não tendo resultado 



181 

a sua missão, comquanto o plenipotenciário fosse um 
homem de merecimento, como diplomata e como escriptor. 
Portugal desejava, resuscitando os planos de Gaspar Dias 
Ferreira, comprar Pernambuco; as Provincias Unidas que- 
riam a execução do tratado negociado por D. Francisco 
de Souza Coutinho, embaixador que fora retirado por ex- 
pol-o de continuo a sua espinhosissima situação a insultos 
da plebe hollandeza. Como poderiam porém os Estados 
Geraes dar corpo ás suas bravatas, si por casa lhes lavra- 
va tão grande a agitação? A politica democrática de 
João de Witt sobrepujara as tendências dominadoras do 
stathouderato militar, e mais tarde até votaria ao ostra- 
cismo a Casa de Orange, mas não pudera evitar que o 
ciúme naval da Inglaterra procurasse uma guerra com a 
Hollanda, nação que exercia então sobre o Oceano um 
arrogante império. Cromwell, protector britannico, pro- 
mulgou em 1651 o seu famoso Acto de Navegação, con- 
sagração do regimen exclusivista que expulsava os extran- 
geiros do commercio nos portos inglezes e assegurava aos 
nacionaes o monopólio do trafico da metrópole com as 
colónias, e tal feito de visivel hostilidade lançou os dois 
paizes n' uma lucta marítima em que as mais radiantes 
glorias da armada neerlandeza tiveram de curvar-se deante 
dos almirantes Blake e Ayscough. Com o perigo em casa, 
não era pois natural que a Hollanda se prestasse a soc- 
correr colónias distantes. 

Pedidos de soldados e de provisões eram todos postos 
de banda, e o desalento attingia além mar o seu auge. 
As prohibições de sahida do Recife sem prevenção de seis 
semanas e exhibição publica do nome, lançadas pelo Con- 
selho Supremo especialmente para poupar calotes á Com- 
panhia, não se respeitavam. Cada um tratava de arreca- 
dar o seu oiro e prata, metaes cuja sahida também era 
defeza, fornecendo a Companhia usurárias lettras de cam- 
bio sobre a Europa, e fugir de um lugar onde a fome 
mirrava as entranhas e o pavor anniquilava os espíritos. 
Os soldados, que não tinham capitães a salvar, nem por 
isso deixavam de desertar, anciosos por libertarem-se da 
oppressão d'aquella atmosphera de perdição. Arrastava- 



182 

se com tantas misérias a situação, não só em Pernambuco 
como nas capitanias do Norte, entregues á fúria dos sol- 
dados de António Dias Cardoso e de Henrique Dias, 
quando nos últimos dias de 1653 surgiu deante do Recife 
a esquadra da Companhia dé Commercio portugueza, com- 
posta de sessenta navios, commandada por Pedro Jacques 
de Magalhães, e da qual era almirante Francisco de Brito 
Freyre, auctor da Historia da Guerra Brasílica, pallida 
reedição das Memorias diárias do donatário. Portugal, 
forte pelos embaraços da Hollanda, recusava n' esse mo- 
mento a paz e entrevia a reivindicação de todo o terri- 
tório sujeito á Companhia, sem divisão nem resgate. 

De facto, com o bloqueio marítimo e as tropas fres- 
cas vindas do reino, a capital da colónia bátava estava 
perdida. Von Schkoppe, em respeito á farda, ainda de- 
fendeu energicamente os fortes exteriores, mas forçado aos 
poucos a recolher-se na estreita área da cidade, a città 
dolente onde fermentavam todas as podridões, capitulou 
no dia 26 de Janeiro de 1654. A capitulação do Taborda, 
assim chamada do nome da campina, fronteira ao forte 
das Cinco Pontas, em que ella foi ajustada pelos commis- 
sarios dos dois campos, é um documento honroso para a 
memoria do general que a impoz. Incluía a entrega da 
cidade do Recife e de todas as fortalezas no Brazil, em 
poder dos hollandezes, com suas peças e munições: os mil 
e duzentos homens da guarnição da capital sahiríam com 
as honras da guerra e embarcariam livremente para a 
Europa, dispondo dos seus bens moveis e levando suffi- 
cientes provisões para a viagem. Concedia amnistia aos 
portuguezes e judeus aífeiçoados aos extrangeiros, e aos 
indios e negros que tivessem batalhado nas fileiras inimi- 
gas. Garantia por fim plena liberdade aos hollandezes 
que preferissem ficar em Pernambuco a regressar para a 
pátria: os que quizessem embarcar poderiam comtudo 
demorar-se trez mezes para arranjarem seus negócios, 
sendo-lhes promettido respeito. A 27, João Fernandes 
Vieira entrava em Mauricéa, e no dia 28 o mestre de 
campo general Francisco Barreto recebi^ de von Schkoppe 
e do Conselho Supremo as chaves do Recife, despachando 



183 

in-continenti emissários para tomarem posse dos outros 
pontos occupados pelos batavos, e a André Vidal para 
dar pessoalmente parte a D. João IV da recuperação das 
perdidas capitanias, com as quaes o valor pernambucano, 
apóz uma guerra que o sôr. Oliveira Martins appellida de 
Nova Iliada, brindava a coroa portugueza. 

Assim findou a variegada invasão hollandeza, que 
tão fracos vestígios deixou entre o povo do Norte. Uma 
sede ardente de liberdade, mais pronunciada do que em 
qualquer outra porção do Brazil, eis talvez o que nos 
legaram em vinte e quatro annos de dominio, pela própria 
idiosyncrasia e mais ainda pela elevação moral que des- 
pertaram suscitando entre os dominados a noção de pátria, 
aquelles conquistadores audazes, aos quaes uma hostilidade 
perenne, quando não um batalhar incessante, impediu de 
basearem a sua occupação sobre as franquias politicas, 
constitutivas do nosso ideal nos séculos posteriores. Veri- 
ficámos que o balcão, principal objectivo da Companhia, 
foi impotente para bater a cruz, crença enraizada da so- 
ciedade portugueza, fé que tem produzido um mundo de 
martyres; e os Estados Geraes não tiveram tempo para 
substituir a orientação de uma associação mercantil, odiosa 
na sua cobiça, pelo influxo persuasivo das novas theorias 
de governo de que elles se haviam feito os campeões na 
Europa , atascada n' um charco de absolutismo. 

Assegura-se que a alta assembléa neerlandeza, findo o 
privilegio da Companhia, projectava chamar a si as con- 
quistas, e então tornar de todo livre o commercio colonial; 
diminuir as contribuições; catechizar os selvagens prose- 
guindo a obra iniciada pelos jesuitas; ensinar-lhes officios 
manuaes e distribuir por elles terras próprias para a la- 
voura; dotar Pernambuco com uma universidade e uma 
imprensa; acclimatar nos seus campos as especiarias do 
Oriente, idéa que os portuguezes, a conselho do padre 
Vieira, puzeram em execução; pesquizar no seu subsolo 
as minas de metaes preciosos ; n' uma palavra, abrir para 
o Brazil uma era de prosperidade commercial e de eman- 
cipação espiritual, análoga á que tinha feito da Hollanda 
do século XVII a terra da riqueza e do livre exame. Um 



184 

laço intimo prenderia o commercio dos quatro continentes, 
e o Recife transformar-se-hia n' uma monstruosa feitoria, 
de onde se espalhariam pela America, Ásia e Africa as 
mercadorias da Europa e se remetteriam para a Hollanda 
as opulências e gentilezas transatlânticas, e n' uma praça 
d' armas poderosíssima, ninho de águias marítimas, que 
opportunamente lançariam as garras sobre as fartas coló- 
nias hespanholas, o México abarrotado de oiro e prata e 
o Chili sadio e fertilissimo que um auctor coevo compara 
á França. D' est' arte, pela extensão immensa do seu im- 
pério, pelo valor incontestável das suas allianças com 
estados europeus e príncipes exóticos, pela expansão única 
do seu commercio, as Provincias Unidas tornar-se-hiam 
uma nova Roma, triumphadora e absorvente. A urbs teria 
porém desamparado a sua physionomia militar, as suas 
futilidades rhetoricas e as suas luctas tribunicias, para 
encarnar-se n' um armazém de todas as cousas raras, 
preciosas ou necessárias que se encontram no mundo. 

No meio da enorme differença que separa o Brazil, 
paiz tropical illuminado por um sol magnifico, da Hol- 
landa, terra quasi afogada no procelloso Mar do Norte, 
envolta em brumas eternas, ha pontos de contacto que 
deviam aliás contribuir para augmentar as sympathias 
bátavas por Pernambuco. As nossas terras baixas do lit- 
toral, alagadas nas proximidades do mar, recordar-lhes- 
hiam os seus campos disputados ás ondas, demarcados 
por cursos d' agua que se espraiam em cem direcções. As 
nossas várzeas fertilissimas lembrar-lhes-hiam as suas lon- 
gas e húmidas pastagens, entremeadas de arvores bem 
criadas nos nevoeiros. O Recife, dividido, contornado por 
alegre rio, avivaria em suas memorias a imagem das ci- 
dades de canaes, cuja agua escura e lodosa somente se 
não parece com a agua límpida e espelhenta do Capiba- 
ribe. Nem mesmo o typo portuguez seria para elles novi- 
dade, pois que a emigração forçada dos judeus peninsu- 
lares, que tanto contribuio para o desenvolvimento da 
Hollanda, pejara as ruas de Amsterdam de morenos, de 
tez perfeitamente meridional. Dir-se-hia hoje até que, 
desafogados de toda tyrannia, estes absorveram em grande 



185 

parte na sua multiplicação os ruivos, de pelle alvacenta, 
typo clássico do flamengo, immortalizado por Velasquez 
na sua Benãtção de Breda. 

Os vastos planos dos Estados Geraes, as suas fan- 
tasiadas e gigantescas especulações commerciaes, foram 
derruídas pela tenacidade de alguns centos de moradores: 
entretanto a Hollanda não pôde occultar que lhe cabe 
grande responsabilidade no movimento. Moreau, que fre- 
quentemente tenho invocado por ser o único dos escrip- 
tores contemporâneos no qual se alliam algumas conside- 
rações politicas á fastidiosa narração de successos bellicos, 
attribue as calamidades brazileiras ao castigo celeste pelo 
desprezo votado em ambos os campos á justiça e á pie- 
dade, "qu'ils avoient comme bannies de leur commerce". 
O citado auctor igualmente confessa que os importantes 
nogocios da colónia andaram, com excepção do conde de 
Nassau, de Schoonenborch e de poucos mais, entregues a 
pessoas de baixa extracção, que preferiam ao bem publico 
o seu interesse particular, e que acabaram por tudo perder, 
pensando tudo ganhar. O financeirismo foi de facto o 
cancro da occupação, não o financeirismo moderno que se 
traduz por emissões e jogos de bolsa liquidados por fallen- 
cias, mas o financeirismo na sua primitiva expressão, rude, 
pouco hypocrita, praticando-se por exacções brutaes e 
fraudes descaradas, que se resolvem á mão armada. Na 
volumosa bibliographia brazilio-hollandeza, que testemunha 
pela sua abundância e pela vehemencia dos debates a im- 
portância concedida pelos batavos a Pernambuco, figuram 
muitos pamphletos diffamatorios, fructos ordinários dos 
paizes liberaes , e que n' este caso desmascaram as artes 
dos financeiros hollandezes. 

O Brasilsche Géltsack é, pela franqueza da sua lingua- 
gem e pela clareza da sua exposição, um excellente exem- 
plar do género. Este libello accusa sem pestanejar o 
triumvirato composto dos conselheiros supremos Hamel, 
Bas e Bullestraten , e em geral todos os funccionarios da 
colónia, de imbecilidade, embriaguez, peculatos, furtos e 
dez outras cousas deshonestas. A corrupção bátava é de 
resto affirmada pelos chronistas portuguezes, e corroborada 



186 

no testamento de João Fernandes Vieira, quando elle con- 
fronta as quantias que ficou devendo á Companhia com 
as despendidas para os governadores o deixarem andar ao 
abrigo de vexações, além das gastas em prol da causa da 
reivindicação, que quasi consumiu-lhe a riqueza. Na lista 
dos devedores da empreza, fornecidos de propriedades e 
escravos pelos conselheiros rendidos aos presentes e bolsas 
de dinheiro, existiam muitos de sobra conhecidos como 
insolventes. Um, devedor de vinte mil florins, apenas pos- 
suia de capital dois negros, e outro, que era responsável 
por quarenta e quatro mil florins, tinha por únicos bens 
uma negra, talvez para elle de valor inestimável mas que, 
vendida, nem lhe dari#, para o juro de um anno da divida: 
só Jorge Homem Pinto, o qual peitou o Conselho Supremo 
com cincoenta mil florins, contava a seu debito um milhão. 
Diz o folheto que nem os XIX eram extranhos a seme- 
lhante esbulho, e com eífeito, um anno depois de tão ver- 
gonhosas accusações, os conselheiros especialmente in- 
criminados sentavam-se entre os directores, que superinten- 
diam os destinos da Companhia com irregularidades e 
desmazelos provavelmente iguaes aos do Recife. 

Na sedição pernambucana, que se não pôde apodar de 
visar, como a occupação hollandeza, a um secco mercan- 
tilismo, apresentam-se-nos ainda separados , porém n' uma 
completa harmonia de intenção, os elementos componentes 
do brazileiro. portuguez , factor preponderante do pro- 
ducto nacional, concretisa-se em Fernandes Vieira, cabeça 
da revolta; o indio, factor menos saliente, no valoroso Ca- 
marão, symbolicamente desapparecido antes dos sublevados 
entrarem victoriosos no Recife; e o negro, forte elemento 
de mistura, no incançavel Henrique Dias, dez vezes ferido 
e dez vezes renascendo denodado do próprio sangue, que 
em toda a campanha bateu-se com legendaria bravura e 
no cerco do Recife commandou o posto mais arriscado. 
André Vidal já representa a primeira integração de uma 
differenciação que o meio por si só entrava a exercer. O 
destemido parahybano pertencia á classe superior dos na- 
cionaes, entre a qual começavam a transparecer tantos 
zelos dos reinoes. Vieira, mercador diligente na paz, mi- 



187 

litar soffredor e calculado na lucta, era um specimen dos 
colonos laboriosos e fortes da metrópole, e contrastava 
com o generoso, desprendido, impaciente e orgulhoso André 
Vidal, o qual indica bem em suas qualidades a índole da 
fidalguia colonial, cuja susceptibilidade ferida provocaria 
em princípios do século seguinte a guerra dos Mascates, 
e quiçá já armara o braço dos mallogrados assassinos de 
Fernandes Vieira, no momento em que a mais perfeita 
união se tornava indispensável deante do inimigo meio 
vencido. Os chronistas contemporâneos accusam todos 
d' esse attentado os naturaes , e o hollandez do diário da 
rebellião portugueza insere nas suas notas de Dezembro de 
1646, que Vieira mandara prender alguns dos senhores da 
terra como tendo tido conhecimento da tentativa de morte 
dirigida contra a sua pessoa , andando um d' elles por tal 
motivo fugido pelos mattos. 

O rei de Portugal, encantado com o resultado de uma 
aventura que apenas lhe custara muitos sobresaltos, não 
se mostrou avaro no espargimento de graças — commen- 
das, foros, dignidades e pensões — - sobre aquelles que o 
presentearam com "trez cidades, oito villas, quatorze for- 
talezas, quatro capitanias, trezentas léguas de costa e lhe 
desafogaram o Brazil, franquearam seus portos e mares, 
libertaram seus commercios e seguraram seus thesouros". 
Assim se expressava o padre António Vieira, quando es- 
quecido na velhice do famoso Papel forte, que com a sua 
costumada versatilidade elle procurara afanosamente re- 
negar depois do triumpho dos pernambucanos, attribuindo-o 
a sentimentos de obediência para com o rei seu protector, 
e não duvidando polluir com a inculpação de injustas le- 
viandades a memoria do embaixador Souza Coutinho. 
Entre outros premiados, o grave soldado e hábil estraté- 
gico Francisco Barreto foi nomeado capitão general de 
Pernambuco, e mais tarde governador geral do Brazil; 
André Vidal confirmado no governo do Maranhão, que em 
1642 lhe fora doado, e depois mandado successivamente 
administrar Pernambuco e Angola; Fernandes Vieira esco- 
lhido para dirigir a Parahyba, e em seguida Angola. Este 
ultimo ainda recebeu a glorificação da Egreja, a qual por 



188 

voz do papa Innocencio X lhe conferiu o titulo de restau- 
rador do catholicismo na America; e as palmas da littera- 
tura fradesca do reino, que encomiasticamente o acclamou 
ínclito heroe em palavrosos panegyricos, cognominando-o 
de Valeroso Lucideno e Castrioto Lusitano. 



XVII 

Reconquistado Pernambuco pelo esforço pernambucano, 
entrou a coroa no gozo da formosa capitania, não porém 
com tamanha tranquillidade que deixassem de Ih' a dis- 
putar os antigos senhores da terra e as Provincias Unidas 
da Hollanda, armados os primeiros do velho pergaminho 
da doação de D. João III, ameaçadoras as segundas com 
o respeito que os seus baixeis inspiravam em todos os 
mares. Duarte de Albuquerque Coelho, o auctor das Me- 
morias diárias e quarto donatário de Pernambuco, embar- 
cara para a Europa em 1638, depois do revez soffrido pelo 
conde de Nassau deante dos reductos da Bahia. Por oc- 
casião da revolução de 1640 seguira o partido de Castella, 
e mudára-se para Madrid por segurança e á guisa de pro- 
testo, agraciando-o Filippe IV com o titulo de marquez de 
Basto, por ser elle genro do conde de Basto, um dos por- 
tuguezes governadores do reino no tempo do domínio 
hespanhol. O novo titular não tinha comtudo sufilciente 
envergadura para ser um Coriolano ou um condestavel de 
Bourbon : nunca pegou em armas contra a sua pátria, por 
cuja causa o irmão ficara batendo-se com extremada va- 
lentia, recebendo de D. João IV a mercê do condado de 
Alegrete, quando com animo incomparável transformou a 
derrota de Montijo em uma esperançosa victoria. Esta 
batalha representou a brilhante desforra de Mathias de 
Albuquerque, resentido das afltontas que lhe fizera o conde- 
duque, exonerando-o injustamente do commando das forças 
de defeza do Brazil contra os hollandezes e lançando-o 
n' uma fortaleza, como derivativo ao seu agudo desgosto e 
própria responsabilidade. 



189 

Jorge, único filho varão do marquez de Basto, morreu 
pelejando na Catalunha, e a casa e senhorios paternos 
reuniram-se com os do conde de Alegrete, fallecido sem 
successão, na pessoa de uma irmã do mallogrado man- 
cebo, a qual cazou com D. Miguel de Portugal, sexto conde 
do Vimioso depois do assassinato de seu irmão primogénito 
D. Luiz. A condessa do Vimioso não teve filhos, mas der- 
ramou os thesoiros preciosos da sua affeição sobre dois 
bastardos do marido, havidos em D. Antónia de Bulhões, 
donzella nobre e limpa que se recolheu a um dos conventos 
mais elegantes de Lisboa, trocando pelas eífusões mysticas 
os ardores do temperamento (Livro de linhagens, do sé- 
culo XVII, composto por António de Lima e annotado por 
Álvaro Ferreira de Vera, ms. de propriedade do sfir. conde 
de São Mamede). Legitimada em 1681 por graça de D. 
Pedro II, a mais velha d' aquellas crianças, por nome D. 
Francisco de Portugal, herdou todos os bens, títulos e di- 
reitos de sua mãi adoptiva, entre os quaes figurava o se- 
nhorio de Pernambuco. A coroa porém, fundando-se em 
que para a recuperação, realizada em 1654, a família do 
donatário nada contribuirá, tendo demais o próprio Duarte 
de Albuquerque Coelho emigrado para a Hespanha, decla- 
rara realengo o senhorio. Vencido em justiça no processo 
que por tal motivo moveu ao soberano, D. Francisco de 
Portugal pediu revisão da causa, nomeando então D. JoãoV, 
desejoso de acabar de vez com a enfadonha contenda, um 
procurador que se entendesse e concluísse com o conde 
do Vimioso algum ajuste honroso. O accordo realizou-se, 
e tornou-se publico no mesmo anno, 1716, dois mezes de- 
pois, sobre as seguintes bases: desistência por parte dos 
herdeiros dos Coelhos de quaesquer direitos á propriedade 
de Pernambuco, e doação por parte do monarcha do mar- 
quezado de Valença e de uma somma de oitenta mil cru- 
zados, pagos em dez annos nos rendimentos da capitania, 
desde esse dia legitimamente régia (D. António Caetano 
de Souza, Genealogia da Caza Real, Provas). Mais tarde, 
achando poucas as mercês, o rei concedeu ao feliz bas- 
tardo as honras de parente com o tratamento de sobrinho. 

Com a Hollanda não correu tão macio o negocio. Os 



190 

primeiros furores dos Estados Geraes descarregaram- se 
sobre os signatários da capitulação do Recife, Schoonen- 
borch, Haecks e von Schkoppe, os quaes responderam 
perante os tribunaes competentes, civil e militar, sendo o 
general condemnado na perda dos seus soldos "e mais van- 
tagens pecuniárias que podesse pretender da Republica ou 
da Companhia", e os dois membros do Conselho Supremo 
postos em liberdade por falta de provas de traição. Fa- 
zendo das fraquezas forças, a embaixada portugueza na 
Haya logrou impedir por algum tempo que a Hollanda, 
apezar de já congraçada com a Inglaterra, violentasse o 
reino; até que em 1657, fallecido D. João IV e sendo 
D. Luiza de Guzmán regente na menoridade de D. Af- 
fonso VI, apresentou-se na foz do Tejo uma armada bátava 
trazendo a bordo emissários a reclamar, além de tributos 
que reparassem as perdas, a restituição dos territórios re- 
cuperados no Brazil e Africa, exigências a que Portugal 
afoitamente respondeu confiscando as embarcações mer- 
cantes hollandezas, surtas nos seus portos. Sendo in- 
fructuosas as conferencias diplomáticas sobre o assumpto, 
tão bellicosamente iniciadas, chegou a Hollanda, apezar da 
officiosa intervenção do embaixador francez, á declaração* 
de guerra, logo manifestada por um bloqueio da costa 
portugueza commandado pelo almirante Ruyter, e que 
custou ao reino o aprezamento de alguns navios, ao de- 
mandarem o porto da capital. Esse bloqueio foi duas 
vezes interrompido: a primeira, pela entrada do inverno e 
escassez de agua a bordo dos vasos, e a segunda, em vir- 
tude de desaguisados neerlandezes com os paizes escandi- 
navios, dissentimento que reclamou no Norte concentração 
de forças marítimas (Chev. d'01iveyra, Mémoires de Por- 
tugal). 

Novas negociações entaboladas na Haya e patrocinadas 
pela França e Inglaterra quasi resolveram entretanto a 
questão a pezo de indemnizações pecuniárias e concessões 
mercantis; mas os progressos das armas castelhanas na 
fronteira depois que os soldados de Filippe IV tomaram a 
oífensiva, máu grado a victoria das linhas d' Elvas, e o 
desdenhoso abandono de Portugal pela França na paz dos 



191 

Pyreneus em 1659, quando as vantagens d' este tratado 
não pouco as devia Mazarino á diversão a que o reino 
obrigava as forças hespanholas, puzeram em serio risco, 
não só a libertação das colónias, como a independência da 
metrópole. N' este momento angustioso em que os melhores 
terços hespanhoes, desoccupados nos outros lugares de con- 
flicto, se removeram para a raia portugueza, foi tamanho 
o desanimo em Lisboa, que a rainha regente, não obstante 
todo o seu espirito varonil, pensou em transladar-se com 
os filhos para o Brazil. Não fazia ella mais do que pro- 
seguir nos intentos algumas vezes revelados por D. João IV, 
e a que o padre António Vieira procurara dar um ambíguo 
seguimento, negociando o cazamento do príncipe real D. 
Theodosio com uma infanta hespanhola ou uma princeza 
franceza, assegurando-se assim ao filho o throno que ao 
pai sempre estivera vacillante e se tornara perigoso, e indo 
o soberano fundar na America uma nova monarchia. Fi- 
lippe IV, comquanto assoberbado por varias guerras, recu- 
sara com a tradicional altivez castelhana o alvitre do 
cazamento, e mais tarde offerecêra, em occasiões menos 
opportunas, soluções reputadas de inferior vantagem. Afi- 
nal a enérgica D. Luiza de Guzmán, tanto mais desfalle- 
cida quanto maior havia sempre sido a tensão da sua fir- 
meza, mandava em 1660 Francisco de Brito Freyre como 
governador de Pernambuco, com o fim de prevenir para a 
dynastia uma retirada segura, no caso bem provável em 
que algum successo decisivo das armas de D. João d' Áustria, 
vencedoras no Alemtejo, tornasse necessário recorrer áquelle 
ultimo remédio. Assim o testemunhava trinta annos de- 
pois em uma carta o padre António Vieira, o qual foi 
chamado do Maranhão a Pernambuco no intuito de as- 
sistir o governador com o seu auctorisado conselho, não 
podendo levar a cabo a viagem por ter sido no próprio 
anno de 1661 prezo pelos colonos revoltados e embarcado 
para Lisboa. 

Todavia a felicidade não desamparou em crise tão 
tormentosa a dynastia portugueza. cazamento da in- 
fanta D. Catharina, irmã de D. Aífonso VI, com o rei 
Carlos Stuart, collocado no throno de Inglaterra pela reso- 



192 

lução de Monck, cazamento oneroso mas que ganhou para 
Portugal um alliado; a fortuna das armas lusitanas na 
Península, oppondo-se victoriosas no Ameixial á audaciosa 
invasão castelhana, quando o Alemtejo quasi todo estava 
conquistado pela espada de D. João d' Áustria; e a hábil 
e firme administração do primeiro ministro conde de Castello 
Melhor, foram os valiosos elementos com que o reino poude 
furtar-se a uma guerra intempestiva com a Hollanda, e 
assegurar a sua independência ao cabo de uma prolongada 
lucta com a Hespanha. Como é fácil de comprehender, a 
Inglaterra não auxiliou Portugal em suas negociações com 
as Provincias Unidas por meros sentimentos de lealdade; 
o proverbial egoísmo britannico já então se manifestava 
amplamente na politica internacional. Aquella nação fisca- 
lizava, como esperta mercadora, as concessões commerciaes 
que a Hollanda poderia obter no tratado, e procurava, 
como emula receosa, embaraçar pela paz a expansão bá- 
tava no Oriente. Luiz XIV entrementes, conservando a 
commoda posição em que o collocára o astucioso Mazarino 
e mantendo a tradição, viva desde Henrique IV e Richelieu, 
do anniquilamento da Casa d' Áustria, aproveitava, sem 
provocar reparos de Filippe IV, os apuros financeiros de 
Carlos II para comprar-lhe a antiga praça hespanhola de 
Dunkerque, aliás obrigando -o á gratidão; e parecendo 
satisfazer com cavalheirismo ás instancias da nova rainha 
de Inglaterra, promettia transformar em auxilio mais directo 
o apoio que vários gentishomens da sua corte, Schomberg 
entre outros, estavam prestando ao exercito portuguez 
depois da paz dos Pyreneus. 

Sentindo o perigo de novas complicações em face de 
tantas variações diplomáticas, e medindo a incerteza do 
cumprimento da promessa hespanhola de retroceder Per- 
nambuco, caso fosse vencida a rebellião portugueza, a 
Hollanda decidiu-se a firmar o convénio com o reino, ainda 
assim arrostando a opposição de quatro das suas provin- 
cias. Negociou-o o conde de Miranda com o sagaz João 
de Witt e assignaram-n' o a 6 de Agosto de 1661. Como 
clausulas principaes estipulava esse tratado definitivo, feito 
sobre a base do uti possidetis, e sahido de tão longas e 



193 

interrompidas discussões para ser a cada passo illudido, 
uma indemnização de quatro milhões de cruzados pagos 
por Portugal no prazo de dezeseis annos, em dinheiro ou 
em géneros; a restituição da artilheria hollandeza tomada 
no Brazil; a regularização das dividas e prejuízos parti- 
culares por meio de restituições e reparações; e as liber- 
dades de commercio, navegação e culto para os cidadãos 
das Províncias Unidas nos portos do reino e colónias, 
análogas ás que possuíam os súbditos britannicos desde 
o tratado firmado com o protector Cromwell. A derra- 
deira clausula despertou no animo do embaixador inglez 
na Haya uma viva irritação, e pela influencia do seu col- 
lega em Lisboa ficou demorada alguns mezes a ratificação 
do convénio, gorando-se quasi o resultado dos muitos 
esforços empregados, e em todo o caso facilitando-se aos 
hollandezes o extenderem as suas conquistas orientaes, 
graças a um artigo igual ao do tratado de 1641, de Tris- 
tão de Mendonça Furtado, permittindo. as hostilidades além 
mar emquanto não fosse lá conhecida a troca de ratifica- 
ções. Ceylão, as Molucas, Malaca, outras jóias do diadema 
indiano, já pertenciam á Companhia Oriental, e entretanto 
que delonga va-se a publicação do convénio, a qual por 
seu turno a Hollanda retardou até Março de 1663, Coulão, 
Cranganor, Cochim, Cananor, grande parte portanto da 
costa do Malabar foi juntar-se ao império neerlandez. A 
índia estava perdida para Portugal, e a republica de mer- 
cadores do Norte, legitima herdeira das glorias patrícias 
de Veneza, dominava na Ásia emquanto a Inglaterra a 
não viesse supplantar, lançando sobre o oceano a sua col- 
meia de marinheiros e empolgando a grande península, 
florão preciosíssimo da mais bella grinalda colonial que o 
mundo tem admirado, e cujo esphacelamento muito prova- 
velmente será um dos espectáculos curiosos do século que 
se approxima. 

Com a expulsão dos hollandezes Pernambuco entrara 
no regimen a que andavam já sujeitas quasi todas as 
demais capitanias do Brazil — o da administração de ca- 
racter militar, geralmente tacanha, cúpida e brutal, que 

Lima, Pernambuco. 13 



194 

frequentemente se maculou de opprobrio e varias vezes se 
tingiu de sangue. A nobreza da terra, na qual entrava a 
desenhar-se com bastante relevo o sentimento de naciona- 
lidade, não podia supportar com paciência o jugo dos ca- 
pitães generaes violentos e sórdidos, "mais attentos aos 
seus interesses que as suas obrigações" segundo diz o 
circumspecto Eocha Pitta, e que queriam acclimatar no 
Brazil a vergonhosa tradição indiana, mormente depois 
que nos mares do Oriente tinham começado a tremular 
com fortuna outros pavilhões. Com rude franqueza pro- 
clamavão aquelles officiaes que o monarcha os mandava 
ao Brazil para se remediarem e pagarem dos seus servi- 
ços, sendo as extorsões os meios naturalmente indicados 
para um tal desideratum. O próprio Vidal de Negreiros 
não se furtou como governador ao prurido das vexações, 
impellido pela vivacidade do seu temperamento e enfa- 
tuado com o papel brilhante que desempenhara na cam- 
panha contra os batavos, tendo até corrido o risco de ser 
destituido e encarcerado por ordem do governador geral 
Francisco Barreto de Menezes, a cujas primeiras admoes- 
tações não prestara ouvidos e a cujas ordens immediatas 
desobedecera. A hostilidade latente dos moradores pernam- 
bucanos contra os sátrapas portuguezes irrompeu logo em 
1666, anno em que foi prezo nas ruas de Olinda e embar- 
cado para Lisboa o capitão general Jeronymo de Mendonça 
Furtado, e teria o seu primeiro momento verdadeiramente 
agudo nos principios do século XVIII, revestindo o aspecto 
de um movimento politico e tomando a cor de uma rei- 
vindicação brazileira. 

Entretanto a alegria abandonara aquellas regiões deli- 
ciosas em que a natureza, trajada de galas opulentas, im- 
pregnada de aromas inebriantes, aquecida por um sol vivi- 
ficante, suggere uma impressão de felicidade. Uma lucta 
de vinte e quatro annos, lucta sem misericórdia, havia-as 
assolado ao ponto de fazer de cada casa o theatro de um 
crime, de cada campo o scenario de uma peleja. A emi- 
gração de grande parte dos capitães fluctuantes; o cerce- 
amento da moeda e as especulações baseadas sobre o seu 
diíferente valor intrínseco e de circulação, a que só poz 



195 

cobro a creação de uma Casa de Moeda, a qual reduziu 
as peças correntes a novos typos regularizados; a escassez 
de escravos para o trabalho pelo successivo engrandeci- 
mento do quilombo dos Palmares; a transplantação para 
outras capitanias de famílias inteiras de nascimento arrui- 
nadas pela guerra, eram outras tantas causas mais da 
decadência a breve trecho accentuada pela descoberta das 
minas, assambarcando braços e actividades, deslocando 
para o Sul o centro da riqueza brazileira. Nem faltaram 
a este fúnebre concerto, dizimando os cultivadores e sup- 
primindo nas villas numerosas famílias, epidemias de bexi- 
gas, e de febre amarella segundo alguns classificão o mal 
da bicha, descripto pelo contemporâneo Rocha Pitta e ana- 
lysado pelo medico do Recife João Ferreyra da Rosa no 
Tratado pestilencial de Pernambuco, composto por ordem 
de D. Pedro II e impresso em 1694. Ferreyra da Rosa 
assistira aos estragos do terrível flagello que, dizem, uni- 
camente respeitava a gente de cor, atacando de preferencia 
os europeus recemchegados. Mais de duas mil pessoas 
morreram no Recife, somente no anno de 1686, e o mal, 
passando á Bahia, continuara a sua obra devastadora, vic- 
timando entre centenares de infelizes o governador geral 
Mathias da Cunha, o arcebispo e alguns dezembargadores 
da Relação. 

As energias individuaes chafurdavam n' esse atoleiro 
de dissabores, e eclipsavam-se forçosamente todas as idéas 
de elevação moral em uma sociedade, cujas espontaneidade 
e vehemencia espirituaes haviam sido embaciadas pela edu- 
cação jesuitica, e que agora se via solicitada por tantos 
soffrimentos e dilacerada por tantas contrariedades. A 
figura então saliente das lettras brazileiras explica-nos 
pela sua feição negativa o caracter social d' este momento 
histórico. O corypheu litterario do nosso século XVTI não 
foi um poeta lyrico resumbrando suavidade, nem um pro- 
sador rhetorico estoirando de hyperboles: foi Gregório de 
Mattos Guerra, o irónico desapiedado, o sarcástico impla- 
cável que falleceu no Recife, onde residia depois do exilio 
em Angola, motivado pelo despeito de um governador 
geral envolvido nos chistes que, quando na Bahia; o poeta 

13* 



196 

soia dirigir aos enricados luxuosos da capital brazileira, 
divididos por intrigas de soalheiro e antipathias de raça. 
Em Pernambuco, arrastando uma existência de privações, 
o bohemio bahiano não perdera o sestro de arremessar 
aos poderosos a nota acre da sua troça, a qual soava 
como uma gargalhada diabólica no meio da tristonha so- 
ciedade contemporânea. 

"Não vedes toda a nobreza desta capitania cuberta de 
trevas de dó, os olhos escuros de lagrimas, rebentando 
em suspiros os coraçoens, todos despedaçados de magoa?" 
exclamava frei Bernardo de Braga n' um sermão fúnebre 
na egreja de Nazareth pela morte do infante D. Duarte, 
captivo de Castella n' uma fortaleza de Milão. Ao fallar 
assim, o abbade de São Bento não fazia infelizmente meras 
galas de estylo: dizia a verdade, errando somente quanto 
á causa de tamanho lucto. Os destinos dos príncipes bra- 
gantinos importavão na realidade pouco a quem sè via a 
braços com a desgraça. Eram as doenças, as misérias da 
guerra, o rebaixamento politico oriundo de uma aviltante 
administração colonial, que consternavam Pernambuco e 
deviam armal-o em revoltas de desespero. Seria ainda o 
exgottamento da sua prosperidade, o fenecimento da sua 
outr' ora florescente agricultura, com a excessiva eleva- 
ção dos preços dos negros, disputados pelos mineiros 
que fariam triplicar pela concorrência o valor das escra- 
varias. "Alguns dos senhores de propriedades de can- 
nas, não tendo negros com que as beneficiar, nem posses 
para os comprar pelo grande valor em que estão, as 
deixaram precisamente, e só as conservam alguns pode- 
rosos que se acham com maiores cabedaes. Outros as 
continuam na forma que podem, por dar satisfacção ou 
contemporizar com os seus credores, experimentando n' ellas 
mais trabalho que utilidade, pois para sustentar-se e pa- 
garem umas dividas, vão contrahindo outras, sem esperan- 
ças de se verem jamais desempenhados, resultando da sua 
impossibilidade ser menos o numero das tarefas de cannas 
que se cultivam nas fazendas, e muito inferior o dos pães 
de assucar que se obram nos engenhos, sendo esta a maior 
manufactura e interesse do Brazil, com a qual chegara a 



197 

tão grande nome e opulência todo o Estado" (Rocha 
Pitta, America Portuguesa). 

azedume habitual de Gregório de Mattos Guerra 
devia achar-se á vontade em semelhante meio, e expandir- 
se em baixa libertinagem sem destoar do sentimento geral. 
Com effeito o povo brazileiro concentrou n' elle, como o 
portuguez do século XVIII em Bocage, um cyclo inteiro 
de anecdotas eróticas e sátiras picarescas, regateando-lhe 
porém os foros do arrependimento final. Não reza a tra- 
dição que o bahiano tivesse composto in articulo mortis, 
como Elmano Sadino, um soneto de contrição, cuja bel- 
leza encerrava sufficiente garantia de absolvição: conta-se 
ao contrario que elle nunca desmanchou a sua intransi- 
gência, chalaceando até expirar dos faustosos, dos beatos, 
e até de Deus. O certo é que com o seu riso estridente, 
de palpitações antes malignas do que sadias, demolidor, 
impio, e comtudo a espaços cadenciado por umas notas 
atávicas de extremada doçura, com a sua linguagem sobre- 
tudo e o seu espirito gostosamente particularistas, Gregório 
de Mattos lançou os alicerces da florescência intellectual 
do Brazil, a qual na Arcádia Mineira, em fins do século 
posterior, se anteciparia á revolução romântica, indo buscar 
o renovamento das formas lyricas ás tradições medievaes 
portuguezas, remoçadas pelo bafo da natureza americana, 
pelo poder das novas aspirações e pela concorrência de 
outros elementos ethnicos. 

A descoberta do oiro em Minas Geraes nos fins do 
século XVII, ultimo golpe dado na prosperidade do Norte, 
seguio-se trez annos á destruição do quilombo dos Pal- 
mares, acontecimento que um momento promettêra facilitar 
o desenvolvimento pernambucano. Esse quilombo, situado 
nas proximidades da actual villa de Anadia (Alagoas), era 
na forma a resurreição de um dos refúgios organizados 
durante os vaivéns da occupação extrangeira por negros 
fugidos aos rigores do captiveiro: os outros Palmares ha- 
viam sido destroçados em tempo do conde de Nassau, e 
abrazados em 1645 por nova expedição hollandeza. Aos 
primeiros evadidos tinham-se pouco a pouco aggregado 
numerosos infelizes, que nas mattas achavam libertação 



198 

para seus infortúnios. Si em epochas recentes os gemidos 
d' estes desgraçados por vezes echoavam na solidão das 
fazendas, é fácil de calcular-se quanto, n' aquelles tempos 
de escassez de sentimentos humanitários, não seria lamen- 
tável a sorte dos trabalhadores negros. Os hollandezes, 
educados em princípios que elles se esforçavam para que 
fossem sempre taxados de liberaes, levavam a sua com- 
prehensão da philantropia ao ponto de decretarem a al- 
forria das escravas violentadas pelos senhores, porém 
revendiam sem dó os escravos fugidos, comquanto sou- 
bessem dos bárbaros castigos com que os receberiam os 
senhores nas plantações. Pierre Moreau profligando com 
viva indignação os attentados de que teve conhecimento, 
descreve -os n' uma pagina commovida em que enumera 
o trabalho assíduo e esmagador imposto aos escravos; os 
açoites que cahiam sobre os seus pobres dorsos, curvados 
pela tarefa quotidiana, até o sangue espirrar com violência; 
as algemas que prendiam os seus pulsos, flácidos das fa- 
digas e da ruim alimentação; o horror de toda uma 
existência de privações e de padecimentos. 

A formação do quilombo dos Palmares, segundo é 
descripta pelos historiadores, é digna de tentar o estudo 
de um Herbert Spencer, porquanto resumidamente encerra 
uma synthese da evolução social. Organizados logo em 
colónia agrícola, como qualquer tribu nómada que se fixa 
n' um território, os negros cultivavam campos situados em 
redor dos seus mocambos, fora do povoado principal ou 
praça forte guarnecida de uma dupla estacada de madei- 
ros, e depredavam as casas e lavras vizinhas. Para com- 
panheiras raptavam mulheres dos engenhos próximos; para 
governal-os elegiam um companheiro cujas valentia e in- 
telligencia se salientassem, sendo esta dignidade de prín- 
cipe ou zumbi exercida vitaliciamente. Possuíam formas 
rudimentares de justiça; como religião, um mixto do pri- 
mitivo gentilismo e do christianismo posteriormente ino- 
culado; leis conservadas tradicionalmente, as quaes puniam 
de morte o homicídio, o adultério e o roubo; e forças ar- 
regimentadas, commandadas por officiaes. Escravisavam, 
a exemplo dos antigos, os prisioneiros de guerra, e com 



199 

o producto de suas rapinagens compravam a moradores 
da vizinhança, armas, munições, roupas, vinho e aguar- 
dente, escambo prohíbido pelos governadores, porém effec- 
tuado por colonos que olhavam atemorizados para a pró- 
pria segurança, visto serem sagradas para os negros as 
pessoas que negociavam com o quilombo. 

Desmanchou -se esta Libéria, talvez fantasiada em 
pormenores de estructura, mas indubitavelmente ameaça- 
dora, já contendo uns vinte mil habitantes, somente no 
anno de 1695, em tempo do governador Caetano de Mello 
e Castro, mais decidido que seus predecessores, dos quaes 
alguns tinham pensado na empreza sem todavia tentarem 
seriamente executal-a. Preparou-se uma expedição com- 
posta das milícias e ordenanças de toda a capitania, e de 
um regimento de mil paulistas adrede contractado, o qual, 
vindo do sertão bahiano, encontrou-se em Porto do Calvo 
com os cinco mil pernambucanos, assumindo como capitão- 
mór o commando das forças o fazendeiro Bernardo Vieira 
de Mello, homem experimentado em semelhantes Mes e 
que elle próprio fornecia á expedição um bom contingente 
de soldados. 

Os paulistas, oriundos de um enérgico cruzamento, 
representavam no Sul, bem que anarchicamente , o papel 
civilizador dos pernambucanos no Norte. Conservando a 
pratica das bandeiras, elles penetraram atrevidamente pelos 
sertões, caçando Índios nos próprios aldeamentos jesuiticos 
e procurando metaes preciosos em montes, valles e rios, 
tornando d' este modo conhecidas as opulências do interior. 
As minas, que fariam a riqueza do Brazil e sobretudo da 
metrópole no século XVIII, deveram a sua revelação a 
esses arrojados exploradores. Já em 1671 os pernambu- 
canos de Domingos Aífonso tinham-se encontrado com os 
paulistas nos sertões do Piauhy, quando, batido o gentio 
bravo, os primeiros lançavam as bases da nova capitania, 
que cincoenta annos depois, no tempo de Rocha Pitta, 
continha quatrocentas fazendas de gado, fornecendo de 
carne a Bahia e Minas Geraes. Vivendo em uma quasi 
absoluta independência; desconhecendo para assim dizer a 
ingerência administrativa do funccionalismo portuguez; 



200 

embrenhando-se nas florestas cerradas até distancias ina- 
creditáveis, despreoccupadós de toda compressão, mesmo 
moral, os paulistas deram além d' isso um exemplo de 
hombridade espiritual na sublevação contra os jesuitas. 

Ainda em tempo do dominio hespanhol e no intuito 
de defender as suas prosperas missões paraguayas das 
aggressões dos bandeirantes, a Companhia havia obtido 
do papa a extensão ao Brazil da bulia de Paulo III em 
favor dos indios peruanos, excommungando aquelles que 
os captivassem ou usassem de seus serviços; e do rei, a 
faculdade dos selvagens aldeados se arregimentarem e tra- 
zerem armas. Sobreveio logo a estas concessões a revo- 
lução portugueza de 1640, e na eífervescencia politica do 
momento os paulistas expulsaram os padres. Em Sãó Vi- 
cente e no Rio de Janeiro transigiram os jesuitas acaute- 
ladamente com o povo alvorotado, cedendo das suas exag- 
geradas pretenções e limitando aos aldeamentos a sua 
jurisdicção sobre os indios; mas em São Paulo estiveram 
elles treze annos fora das suas casas e aldeias, obtendo 
difficilmente reoccupal-as. Algum tempo depois, no Mara- 
nhão, a Ordem continuou a perder terreno, insurgindo-se 
os moradores contra as tendências dominadoras do padre 
António Vieira quando, arrancado a custo do meio mexeri- 
queiro da corte e das missões diplomáticas em virtude de 
um antigo compromisso de obediência, o celebre escriptor 
por lá andou azafamado na conversão do gentio amazonico, 
purgando os seus vezos reformadores. 

Ao chegarem a Porto do Calvo, os paulistas já batiam 
em retirada, tendo soífrido sérias perdas n' uma peleja tra- 
vada com os negros, no momento em que se approximaram 
da sua praça forte buscando combate. Realizada a reunião 
total do eífectivo, poz-se em marcha a expedição, e aos 
annuncios d' ella os palmaristas devastaram as próprias 
lavouras e pomares, recolhendo-se ao povoado fortificado, 
o qual, segundo Rocha Pitta, tinha mais de uma légua em 
circuito. Puzeram-lhe cerco os expedicionários, sendo re- 
pellidos nas primeiras tentativas de escalada; porém a 
falta de viveres dentro da praça, e também de munições 
embora muitos dos negros batalhassem com frechas e ar- 



201 

mas brancas, parecia constituir garantia sufficiente do êxito 
final da empreza. Entretanto, como se amiudassem os 
combates infructiferos ainda que mortíferos, e com o fim 
de activarem a solução do cerco, reclamaram os sitiantes 
para o Recife mais soldados e alguma artilheria que rom- 
pesse a fortificação dos contrários, além de mantimentos, 
os quaes já escasseavam no arraial. Preparava-se o go- 
vernador Caetano de Mello e Castro para em pessoa acudir 
ao perigo quando, soccorridos os expedicionários com gente 
e viveres de villas vizinhas, conseguiram forçar ao mesmo 
tempo em uma nova investida duas das trez portas do 
quilombo, espalhando a confusão entre os defensores. Diz 
a lenda que o zumbi e seus principaes guerreiros suici- 
daram-se heroicamente atirando-se por um despenhadeiro, 
e pelo menos pôde affirmar-se que morreram ás mãos dos 
assaltantes, defendendo com intrepidez a sua liberdade. 
O grosso da população dos Palmares foi conduzida captiva 
para o Recife, onde entrou entre repiques festivos de sinos 
c cânticos congratulatorios de procissões, distribuindo-se 
pelas varias capitanias e pela metrópole, depois de levan- 
tados os quinhões do rei e dos soldados da expedição. 
Algumas manifestações esporádicas do mal de liberdade, 
posteriormente occorridas, nunca foram bastante impor- 
tantes para reconstituírem o anniquilado quilombo. 



XVIII 

O pomo da discórdia que de ha muito occultamente 
lavrava entre a nobreza da terra e os commerciantes por- 
tuguezes, estes apoiados no governo militar, foi a erecção 
em villa, pela resolução régia de 19 de Novembro de 1709, 
do grande povoado burguez do Recife, que então contava 
cerca de oito mil habitantes. A importância crescente do 
porto fadava-o certamente para vir a ser a capital de Per- 
nambuco; mas o acto da metrópole, patrocinado pelo go- 
vernador Sebastião de Castro Caldas, envolvia na occasião 
mais do que a simples consagração de uma supremacia 
geographica. Encerrava um desrespeito proposital aos di- 



202 

reitos da aristocrática Olinda, e representava uma aggres- 
são directa aos nacionaes, que insistentemente reclamavam 
por intermédio do senado olindense em prol da deferência 
devida á primogenitura da villa de Duarte Coelho. A cor- 
poração municipal andava entregue aos nobres pernambu- 
canos, que ciosamente fiscalizavam e embaraçavam a en- 
trada n' ella dos portuguezes, aos quaes, com excepção dos 
mercadores de porta aberta, a rainha regente D. Catharina 
de Bragança, viuva de Carlos II de Inglaterra, facultara 
em 1705 o poderem servir de senadores. 

A ogeriza votada pelos fazendeiros aos negociantes 
tinha, além da razão de nacionalidade, um motivo especial 
na execração acalentada por todo o devedor contra seu 
credor. Desembarcados sem vintém, os mascates, como 
eram desdenhosamente chamados os commerciantes portu- 
guezes pelo facto de muitos reinoes exercerem o ofíicio de 
mercadores ambulantes, conseguiam a troco de aturado 
trabalho e rigorosa economia, meios de fortuna que a agri- 
cultura não fornecia mais aos seus devotos, esparsos pelos 
duzentos e cincoenta e quatro engenhos da capitania. 
Vendiam-lhes os senhores de engenhos os assucares que 
fabricavam; mas, com os antigos hábitos de vida faustosa, 
com o elevado valor das escravarias, e com os preços des- 
cendentes do género, podiam raramente saldar por meio 
d' aquellas remessas os débitos contrahidos nas casas dos 
correspondentes, os quaes de resto geralmente abusavam 
da situação penosa dos seus committentes. Para mais, o 
dinheiro suggeria aos portuguezes a vaidade, uma vaidade 
insupportavel de homens que hontem eram pobres e se 
viam hoje prósperos, e a má vontade latente acirrava-se 
ao complicar-se com o ciúme e a inveja. 

Sebastião de Castro Caldas, homem por natureza au- 
ctoritario e violento, contra quem os ministros da justiça 
já se haviam insurgido, desacatados na independência das 
suas funcções, motivando esta ingerência indébita uma 
áspera reprehensão do monarcha ao governador, era affei- 
çoado aos commerciantes portuguezes, não só pelos laços 
de pátria commum que os prendia, como por causas re- 
putadas menos confessáveis. Diz-se que o capitão general 



203 

ia feito com seus patrícios, interessados em empolgar a 
administração municipal para disporem das arrematações 
dos contractos reaes e taxarem ao sabor de seus interesses 
os preços dos viveres. Feita em semelhantes condições de 
parcialidade, a demarcação do termo da nova villa foi for- 
çosamente injusta, e como tal até impugnada pelo ouvidor, 
que a julgou em demasia attentatoria da jurisdicção de 
Olinda. A vontade de Sebastião de Castro Caldas não re- 
cuava porém deante de embaraço algum: levantou-se ás 
escondidas no Recife o pelourinho municipal, realizando-se 
immediatamente a eleição camarária, e sendo prezas, ou 
mandadas prender sem resultado, as pessoas que mais in- 
fensas se havião mostrado ás pretenções dos mascates. 
Sobre estas pessoas pezava também a accusação de terem 
conspirado contra a vida do governador, levemente ferido 
por um tiro que lhe foi disparado de dentro de uma casa 
no Recife, facto que ainda mais o exarcebou. Cresceram 
as perseguições ao ponto de ser exigida dos moradores a 
entrega das armas que possuissem, e o ouvidor somente 
livrou-se do encarceramento por estar de viagem para a 
Parahyba em companhia do bispo da diocese, e haverem- 
n' o protegido dois sacerdotes. 

As hostilidades romperam em Santo Antão, sendo ar- 
redado á força pelo capitão-mór Pedro Ribeiro da Silva o 
destacamento de tropa de linha encarregado de o prender, 
e tomando grande parte das ordenanças o partido dos na- 
cionaes. Dois mil pernambucanos, nobres e populares, en- 
travam pouco depois no Recife, vociferando pelas ruas 
pacatas da villa, rasgando o foral régio e soltando os 
prezos políticos: o governador entretanto, ao ter conheci- 
mento da approximação dos revoltosos, fugia precipitada- 
mente para a Bahia com os seus mais íntimos conselheiros. 
No dia immediato á invasão do Recife reunia-se o senado 
olindense aos cabeças do movimento para juntos estatuírem 
sobre a legalidade do governo (10 de Novembro de 1710). 
N' esta memorável reunião Bernardo Vieira de Mello, o 
antigo capitão-mór da expedição aos Palmares, agora sar- 
gento -mór e commandante do terço de linha do Recife, 
propoz com notável desassombro a fundação de uma re- 



204 

publica ad instar dos venezianos, isto é, a formação de um 
patriciado ao qual ficassem entregues os destinos da capi- 
tania, livres de qualquer tutela. A idéa foi julgada te- 
merária, e, considerando-a pelo prisma hodierno, era pelo 
menos ingénua a forma da sua manifestação, denunciando 
claramente a direcção egoista da aristocrática rebellião na 
projectada resurreição d'aquelle velho figurino politico, 
que á expansão commercial e ao império do Adriático, 
arrebatado aos infiéis, devera a riqueza e o renome, mas 
que, decahido da antiga supremacia, aliás disputada por 
Génova no período do seu maior esplendor, exgottava-se 
em conspirações tenebrosas e desconfianças systematicas. 
Dois factos nobilíssimos resaltam comtudo de tão audaz 
pensamento, si abstrahirmos esse seu revestimento em um 
modelo atrazado, não podendo ainda moralmente envolver 
nenhuma das exigências da bandeira apenas desfraldada 
pela Europa oitenta annos depois. Eram o sentimento de 
independência, que desde os primeiros annos sempre es- 
maltou o brazão pernambucano, e a confiança cega nos 
próprios recursos, confiança de crente característica dos 
movimentos fecundos, que na antiguidade animou os gregos 
na lucta titânica contra os persas, na edade media guiou 
os cruzados nas guerras ao islamismo, na edade moderna 
impulsionou o terceiro estado na derruição do despotismo 
e do privilegio, e hoje sustenta o proletariado nas suas 
reivindicações contra o capitalismo. 

Alguns patriotas, ainda que sem encontrarem grande 
echo, acompanharam resolutamente o parecer de Bernardo 
Vieira de Mello, e protestaram contra a entrega do poder 
ao bispo, solução adoptada pela maioria de accordo com 
a ordem de successão emanada de Lisboa, comquanto re- 
pugnasse o alvitre a varias ambições pessoaes. Vieira de 
Mello e seus companheiros, estes em ultimo caso preferiam, 
segundo declararam, sujeitar-se ao dominio francez, marcial 
mas polido, do que á suzerania portugueza, grosseira e 
ferina. Acudira-lhes a idéa dos francezes porque ao tempo 
Duclerc atacava o Rio de Janeiro, levando á colónia a 
animosidade que na Europa separava a França de Portugal 
lançado ineptamente na guerra da Successão; e preparando 



205 

com o mallogro da sua empreza o cruel ataque de Du- 
guay-Trouin no anno immediato. 

A administração prelaticia foi de curta duração. Que- 
rendo representar a serio o seu papel de ministro da re- 
ligião de Christo e manter a constante tradição de virtude 
da sede episcopal de Olinda, cujo ultimo e venerando ti- 
tular gastara até o ultimo ceitil na catechese dos selvagens 
e no soccorro dos indigentes, o bispo Alvares da Costa 
entrou no Recife com o perdão nos lábios. Pretendendo 
porém, apezar de no intimo aífecto á nobreza, congraçar 
os irmãos inimigos, elle somente provocou nove mezes de- 
pois a reacção dos mascates, os quaes, adquirindo manti- 
mentos e comprando alliados entre a tropa regular, os 
corpos de Índios e de negros, as quadrilhas de salteadores, 
e até entre os revoltosos da véspera, deram seguimento á 
guerra civil. Bernardo Vieira de Mello escapou de ser 
assassinado no levante pela intervenção do ouvidor, que 
com apparencias de rigor o prendeu. Quanto ao bispo, 
compellido a pactuar nos primeiros dias com os portu- 
guezes, poude furtivamente mudar-se para Olinda, onde, 
consumidos os meios persuasivos, optou abertamente pelo 
partido nacional, entregando todavia o governo temporal a 
uma junta composta do ouvidor Ortiz, do mestre de campo 
Arraes e de officiaes do senado da camará (27 de Junho 
de 1711). Estava assim constrangidamente sanccionada 
a lucta pelo próprio que tanto a quizéra evitar, e a breve 
trecho extendiam-se os conflictos a toda a capitania, decla- 
rando-se Tamandaré pelos mascates, dividindo-se Goyanna 
por ambas as parcialidades, e dominando a desordem em 
vários pontos mais. 

Os do Recife eram sustentados no norte pelo governa- 
dor da Parahyba, mas cercavam-n' os de perto os olindenses, 
que para isto tinham convocado os capitães-móres pernam- 
bucanos da sua facção. Das deslocações simultâneas de 
forças dos partidos chegaram-nos noticia de dois encon- 
tros importantes: um perto de Serinhaem, de mil homens 
reunidos pelos portuguezes no Cabo e Tamandaré com uma 
columna destacada dos acampamentos olindenses, no qual 
esta se entregou, sendo mandado amarrado para o Recife 



206 

pelo chefe indio Camarão, sobrinho do heroe da guerra 
hollandeza, o mestre de campo Christovam de Mendonça 
Arraes; e o outro para os lados do Cabo, de uma nova 
columna da nobreza com a gente dos mascates, em que 
ficou vencido Camarão depois de uma peleja de vinte 
horas. 

Durava ainda o cerco do Recife com o seu natural 
acompanhamento de sortidas, quando chegou o novo go- 
vernador nomeado, Félix José Machado de Mendonça. 
Oitocentos homens vindos do sul da capitania e introduzi- 
dos na nova villa mediante um ardil, singelo mas que 
illudiu os sitiantes, que os reputaram gente sua e como 
tal os deixaram adeantar-se, haviam fornecido novo vigor 
á resistência, a qual todavia não podia prolongar-se por 
demasiado tempo. E natural que a posse do porto tivesse 
mudado a marcha dos acontecimentos subsequentes. Do- 
nos d' elle, mostrar-se-hiam os revoltosos dispostos a dar 
largas á rebeldia, transformando em serio movimento poli- 
tico o que não passara ainda praticamente de apaixonado 
desabafo. O rigor com que se procedeu mais tarde em 
Lisboa contra os prezos, destoando da consideração sempre 
prestada á nobreza pernambucana, mesmo em suas sedi- 
ções, especialmente depois da restauração levada a cabo 
contra os batavos, prova que existiam na metrópole alguns 
aggravos mais do que os das meras represálias intentadas 
contra um governador havido por brutal, por isso reprehen- 
dido pelo governo geral, e repudiado pela própria corte. 
O dezembargador Christovão Soares Reymão, um dos que 
mais influíram para ser o bispo reconhecido como governa- 
dor interino pela reunião de Olinda, na parcial devassa que 
instaurou contra os nacionaes incriminados quando resta- 
belecida a legalidade portugueza, falia repetidas vezes em 
republica, dizendo que os revoltosos, depois da reacção 
dos mascates, não escondiam seus planos demolidores, 
antes os expandiam francamente e por forma arrogante. 
Pelo menos o caracter nacional do movimento se paten- 
teara desde o primeiro instante no bando que se seguira 
á entrada dos olindenses no Recife, tirando sob pena de 
morte os postos militares aos officiaes nascidos em Por- 



207 

tugal. A novidade d' esta reivindicação residia no seu tom 
subversivo, pois que ás reclamações pacificas já se habituara 
havia annos a metrópole. Em 1668, nas cortes reunidas 
em Lisboa para acclamar-se regente o infante D. Pedro, 
sanccionando-se a infâmia que roubara ao infeliz D. Af- 
fonso VI o throno e a espoza, o procurador da Bahia pe- 
dira que aos naturaes do Brazil, e lá domiciliados, fossem 
exclusivamente attribuidas as vagas que se dessem nas 
milícias, nos officios de justiça e fazenda e nas dignidades 
«eclesiásticas; e em 1671 protestara a camará da Bahia 
oontra a prohibição imposta aos brazileiros de oceuparem 
os lugares de dezembargadores da Relação restabelecida 
na capital do estado americano. 

Félix José Machado de Mendonça, ao desembarcar em 
Pernambuco, era portador da confirmação real ao perdão 
lançado pela voz do bispo Alvares da Costa, além de uma 
ríspida censura do governador geral ao da Parahyba pelo 
facto d' este ter tomado partido contra a nobreza, "de cuja 
fidelidade e valor, escrevia aquelle governador, D. Lourenço 
de Almada, se não devia presumir a minima ou leve 
suspeita, nem sombra de culpa, mais que o ódio e vin- 
gança dos emulos lhes queriam accumular." Não se mostraria 
da mesma opinião o capitão general de Pernambuco : rece- 
bido com festas por ambas as facções, Félix de Mendonça 
pouco depois inclinava-se para os seus compatriotas. As 
devassas abertas pelo ouvidor geral Bacalhau, que o acom- 
panhou, foram mais verrinas do que instrumentos de justiça. 
O bispo, deportaram-n' o para o sul da capitania, e onze 
chefes dos revoltosos olindenses, prezos, declarados incon- 
fidentes, e a custo salvos da morte por um escrúpulo da 
junta que os julgou, transportaram -n' os carregados de 
ferros para Lisboa no mez de Outubro de 1713. Encon- 
tram-se os seus nomes no diccionario dos martyres per- 
nambucanos composto pelo padre Joaquim [Dias Martins, 
é são os seguintes: Bernardo Vieira de Mello e seu filho 
André, os quaes, refugiados nos Palmares, entregaram-se 
espontânea e bizarramente afim de não comprometterem o 
amigo que lhes dera agasalho; capitão André Dias de 
Figueiredo, figura saliente de todas as phases da lueta; o 



208 

generoso Leandro Bezerra Cavalcanti e seus dois filhos, 
alferes Cosme Bezerra e Manoel Bezerra; capitão de orde- 
nanças João de Barros Correia; José Tavares de Hollanda; 
Cosme Bezerra Cavalcanti; sargento Lourenço da Silva, e 
commissario geral Manoel Cavalcanti Bezerra. 

Dos réus, homens todos tão desinteressados que nem 
sequer haviam auctorisado o saque do Recife no louco mo- 
mento da victoria, vários tinham apoiado a proposta de 
Vieira de Mello no senado de Olinda, e outros haviam 
posteriormente manifestado seus projectos revolucionários. 
Estes eram os verdadeiros crimes que sobre elles pezavam, 
salientados na syndicancia ás devassas de Bacalhau e de 
Reymão, e largamente divulgados na corte pelos emissários 
dos mascates para contrariarem a clemência do soberano, 
que sem outros motivos de severidade se teria certamente 
extendido aos prezos. Bernardo Vieira de Mello falleceu 
na cadeia do Limoeiro, onde alguns dos seus companheiros 
de infortúnio também exhalaram o ultimo suspiro, sendo 
outros degredados para a índia: "por haverem sido os 
motores das alterações e terem obrado n' ellas as inso- 
lências que se attribuiram a todos" (Rocha Pitta). Não 
tiveram sorte muito mais invejável os que se livraram do 
cárcere e do exilio. Inteiramente arruinados pelos gastos 
feitos com o exercito levantado, peitas de syndicantes e 
outros officiaes de justiça, e devastações de suas proprie- 
dades, quando não fugidos pelas mattas no intuito de sub- 
trahirem-se aos castigos; despojados dos cargos impor- 
tantes que exerciam na administração civil, e sobretudo no 
governo militar da colónia; pelo menos descrentes de uma 
lucta que custara a vida a setecentas e vinte sete pessoas 
e não tivera outro resultado além do de entregar a deso- 
lada capitania ás violências dos indios e dos bandidos: 
sentiram elles descarregar-se ainda mais descaroavel o jugo 
da metrópole, contra a qual um século depois emprehen- 
deriam os pernambucanos outro, mais pronunciado, bem 
que igualmente infeliz ensaio de emancipação. 

A decadência de Pernambuco continuou ininterrupta- 
mente durante todo o século XVIIL A producção annual 



/_ 



209 

do assucar, principal senão única riqueza da capitania, e cr'"" 
género do qual, segundo estatísticas em cuja fidelidade não 
se pôde inteiramente confiar, eram exportados do Brazil 
logo em seguida á expulsão dos hollandezes mais de cem 
milhões de libras aos preços de 960 e 1.120 reis a arroba, 
baixara nos meados d' esse século a oitenta milhões de 
libras, e a pouco mais de metade dezeseis annos depois, 
descendo ao mesmo tempo os preços a tal ponto que no 
fim do século dava-se a arroba por 120 e 100 reis. Não 
significava porém* semelhante miséria a ruina de todo o 
estado americano. Para esta enorme depreciação de um 
producto que fora outr' ora seguro manancial de riqueza, 
contribuía decerto a concorrência de colónias florescentes 
de outros paizes, mas determinava-a especialmente a fasci- 
nação dos veios de oiro e dos jazigos de diamantes nos 
próprios districtos do Sul, monopolizando todas as energias 
capazes de um arranco pela fortuna. A metrópole, até, 
nadava em dinheiro, dando largas D. João V á sua faustosa 
beatice e á sua pródiga libertinagem no grotesco arremedo 
de Luiz XIV que lhe perseguia o espirito vaidoso. Tam- 
bém a colónia em geral prosperava, pois que as minas não 
só bastavam para remediar todas as loucuras, como para 
illudir todas as pobrezas. O Brazil substituirá por este 
facto a índia, perdida sem remissão, na interesseira aífeição 
de Poxtugal, que em ciumenta tutela o segregava de todo 
contacto extrangeiro e o privava mesmo de uma industria 
balbuciante e de uma imprensa infantil. 

Não conseguio, comtudo, Lisboa suífocar o desenvolvi- 
mento espiritual do Brazil, necessário precursor da sua 
emancipação politica: as idéas de desafogo scientifico e de 
renovação social foram-lhe chegando da Europa ás lufadas, 
senão mais ardentes, pelo menos bem tonificadas do ar 
estimulante do grande oceano. O movimento intellectual 
dos Encyclopedistas, que caracterisa o século XVIII, tendo- 
o preparado pela crystallização das novas aspirações para 
o alvorecer da actual era humana, como a Meia Edade 
fundiu no seu sombrio e apparente torpor os elementos 
geradores da Renascença, não passou despercebido na co- 
lónia. Minas Geraes, tornando-se pela fixação dos primei- 

LitfX, Pernambuco. 14 



210 

ros povoadores anarchicos, promotores da guerra dos em- 
boabas e de repetidos tumultos, e pelo augmento conside- 
rável do bem estar material, centro da agitação politica e da 
vida culta, possuio uma florescência litteraria tão progressiva, 
que na actividade da escola mineira começa-se a encontrar 
bem expressa a noção da independência, como sempre assu- 
mindo um caracter isolado, uma feição particularista. A 
Arcádia Ultramarina, primeira manifestação collectiva da 
mentalidade brazileira que deixou de acompanhar servilmente 
os cambiantes da litteratura do reino, foi quiçá em sua ori- 
gem reunião de lettrados, academia particular vicejando mor- 
bidamente, como as demais, ao calor da protecção official: 
nem é para extranhar-se n'uma sociedade pouco polida como 
a brazileira de então, a ausência dos salões, esta indepen- 
dente instituição franceza que, baptisada no século XVII no 
cenáculo purista de Rambouillet, presidiu no século XVIII 
ao poderoso movimento negativista da Encyclopedia, in- 
teiramente illuminado pela graça seductora das mundanas 
parisienses. A Arcádia Ultramarina veio entretanto a ter 
uma significação litteraria subversiva, bem diversa da da 
intolerante Arcádia de Lisboa, que logrou restabelecer o 
classicismo, o qual produzira em França sob Luiz XIV 
modelos excellentes de sobriedade e harmonia. 

Foi pois a metrópole impotente nos seus projectos de 
reacção contra a evolução mental da colónia, apezar de não 
poupar esforços para contrarial-a. Até imaginou, revivendo 
um zelo religioso que já não correspondia á atmosphera 
espiritual da Europa, limpar o Brazil de sangue israelita. 
Mais de quinhentos brazileiros natos, ou colonos portu- 
guezes residentes no Brazil, foram condemnados durante o 
século XVIII, entre elles miseráveis velhas arrastadas com 
grilhões até Portugal. A mais conhecida d' essas victimas 
é António José da Silva, por alguns considerado o mais 
longínquo representante da litteratura brazileira. O Judeu 
foi certamente, além de um imitador de Molière e de 
Regnard, um engraçado e original auctor de operas em que 
figuravam nossas modinhas e um lyrico de certo valor que 
presagiava Gonzaga; mas a sua voga uos theatros lisboetas 
da Mouraria e do Bairro Alto, deveu-a elle, não ao estudo 



211 

em suas peças dos caracteres brazileiros, e somente á joco- 
sidade das suas embrulhadas mythologicas e á aoclima- 
tação que fez ao gosto das plateias populares do seu tempo 
das criticas picantes dos grandes escriptores gaulezes. 
António José da Silva é puramente portuguez pela chalaça 
franca e pezada, sem malícia occulta, que fere como um 
malho; emquanto que Gregório de Mattos começa, antes 
d' elle, a ser brazileiro na intuição que teve da differen- 
ciaçâo ethnica dos seus compatriotas, e na forma mais 
delicada e conceituosa do seu chiste. Por taes predicados 
distingue-se o bahiano da plêiade de escriptores sagrados 
e profanos, que até á escola mineira nada mais fizeram do 
que prolongar na colónia a litteratura da metrópole, ainda 
que alguns, Rocha Pitta por exemplo de empolada e hyper- 
bolica memoria, houvessem prestado á pujante natureza 
americana um preito de admiração sincera. 



XIX 

A descoberta e exploração das minas fizeram avolumar 
extraordinariamente em Portugal a sahida de emigrantes 
para a colónia. Em Novembro de 1709 pejaram estes uma 
frota de noventa fe sete navios no dizer de um escriptor, 
vendo-se o governo de Lisboa obrigado a refrear o movi- 
mento, com medo que se lhe despovoasse o reino. Tão 
grande augmento de moradores redundou em diífusão da 
população, e por isso o traço saliente do século XVIII no 
Brazil é dado pela expansão civilizadora. Varias expedi- 
ções organizadas n' um espirito scientifico ou commercial 
tornaram outrosim conhecidos muitos pontos do interior 
do paiz, desvendando ignotas opulências naturaes. O ex- 
tremo norte, Pará-Maranhão, passou especialmente a ser 
devassado, prosperando sobretudo com a administração 
pombalina. 

O poderoso ministro de D. José, alvo de acerbas cri- 
ticas e de enthusiasticos louvores, foi sem duvida um 
grande estadista e um verdadeiro reformador. A enorme 
actividade do seu espirito tocou em todos os assumptos, 

14* 



212 

quer de administração, quer de cultura, imprimindo-lhes 
sempre a marca de uma politica altiva e intransigente, 
deveras apreciável, mormente n' um momento como o da 
sua apparição na corte, caracterisado pela dispersão espi- 
ritual e pela indignidade cívica. Semelhante e constante 
intervenção do governo em todos os problemas religiosos, 
económicos ou sociaes, semelhante tutela imposta pelo 
throno á nação sob uma forma esclarecida e proveitosa, é 
até o distinctivo da missão do marquez de Pombal na 
historia portugueza. Representa elle a defeza convicta e 
apaixonada da monarchia absoluta, quebrando as ultimas 
apparencias da participação nacional no exercicio do poder 
e fazendo a coroa pratical-o de um modo paternal, de 
autocracia temperada pelo que chamaríamos hoje socia- 
lismo do Estado. Insensivelmente, porém, o illustre valido 
foi um legitimo precursor da revolução de 1789. Levan- 
tando a realeza sobre os orgulhos espezinhados da nobreza 
e sobre as pretenções esmagadas do clero, por uma lei 
natural de equilíbrio o marquez deu incremento á classe 
popular, expondo o soberano a arrostar no instante da 
explosão as iras accumuladas de séculos de servidão, sem 
que a aristocracia tivesse energia e os ecclesiasticos pres- 
tigio para defendel-o, afundando-se todos no mar revolto 
da democracia. A realeza tem hoje apenas a ficção doi- 
rada do constitucionalismo; a fidalguia possue somente o 
valor irrisório da fortuna; e, única, a Egreja sobreviveu 
pela grande malleabilidade da sua natureza e pela singular 
attracção da sua disciplina. Por isso podemos nós assistir 
no presente ao curioso espectáculo de um papa octogenário, 
débil e franzina creatura prisioneira dentro de um palácio 
rico de obras primas e venerando pelas tradições, annul- 
lando as derradeiras rebeldias monarchicas no paiz da 
Revolução, e, magico fascinador de espíritos, ajustando 
sem esforço o credo do futuro ás doutrinas socialis- 
tas de Christo e ás opiniões democráticas de um dos 
maiores Padres da Egreja — o doce escholastico São 
Thomaz de Aquino, que tão bem soube na Meia Edade 
conciliar as idéas scientificas com os dogmas christãos. 
Nas suas relações com os fidalgos^ maculadas por ódios 



213 

inclementes e cruentas represálias, Pombal resuscitou Ri- 
chelieu; nas suas relações com os sacerdotes, com o Vati- 
cano particularmente, pugnando pelas regalias da coroa, 
antecipou-se a Napoleão I. O ministro de D. José abateu, 
pois, a grande força moral do catholicismo n' um paiz de 
pensamento somente alimentado pela beatice, antes de 
haver soado a hora da sangrenta derruição dos privilégios 
e das credulidades : executou obra de negativismo pratico 
primeiro do que os Barnaves, os Dantons, os Robespierres 
e outros corypheus da Assembléa Nacional e da Conven- 
ção. Achava elle meio de justificar sempre o scepticismo 
religioso, comtanto que desse vigor á monarchia absoluta. 
O crivo da Meza Censória, bastante largo para deixar 
passar os pamphletos anti-romanos, nunca foi julgado de- 
masiado apertado para as publicações de caracter politico, 
que pudessem ferir a omnipotência da realeza. A guerra 
movida aos jesuítas encontra ainda a sua explicação n' esta 
theoria pombalina. 

A Companhia professava em matéria de governo opi- 
niões adeantadas, invocando a soberania popular e até ab- 
solvendo o regicidio que lhe satisfizesse as ambições, não 
menos frementes por andarem tão victoriosas. Esmagando- 
a, o marquez julgou servir o seu ideal autocrático, mas 
continuou a servir o progresso, desembaraçando a educa- 
ção dos entraves de um despotismo perigoso, visto que 
era illustrado, e dando ao ensino uma amplitude e uma 
orientação novas. Na catechese dos selvagens os jesuítas 
não puderam comtudo ser substituídos. Na execução do 
seu ideal humanitário, que o levou a abolir a odiosa dis- 
tincção entre christãos velhos e novos, sanccionada pela 
antipathia popular, a qual adivinhava perigos modernamente 
apontados com afan pelo anti-semitismo , e a decretar a 
Uberdade do ventre escravo em Portugal, Pombal deu aos 
indios em 1755 e 1758 a igualdade civil. Posto que elles 
não comprehendessem o alcance social de tal medida, 
aproveitou-lhes muito a concessão em suas relações com 
os colonos. Apezar porém de afugentado o espectro da 
escravidão, os bugres abandonaram os centros de civiliza- 
ção e voltaram para a vida animal das florestas, onde cada 



214 

dia foram rareando os seus bandos. Faltára-lhes simul- 
taneamente a suggestiva organização theocratica da Com- 
panhia, a qual o marquez começou por despir da auctori- 
dade civil, reduzindo em seguida as missões, falhas de 
todo poder temporal, ao mero caracter religioso, e aca- 
bando por banir os padres da metrópole e colónias. 

A expulsão dos jesuitas revestiu um aspecto geral de 
brutalidade, certamente immerecida por homens que, si 
trocaram o seu ideal de ascética abnegação pelo gozo 
immoral das riquezas e do poder, contribuíram no emtanto 
efficazmente para livrar a nossa historia de manchas ver- 
gonhosas, deslustradòras de outras historias; e muitos dos 
quaes nem de leve tocaram nas especulações commerciaes 
e agrícolas ensaiadas pela Ordem em algumas das suas 
missões. A par de jesuitas que compravam negros para 
arrotearem as terras da Companhia; que negociavam em 
larga escala com os productos d' estas terras, em navios 
seus, descarregando em armazéns próprios; que faziam 
operações bancarias e até bancarrotas: outros havia que, 
parcamente alimentados, miseravelmente vestidos, despre- 
zando quaesquer privações, tudo distribuíam pelos pobres. 
Sem deixarem de pensar no engrandecimento moral da 
Ordem, estes sabiam servir evangelicamente a Jesus. Era 
porém geral e incontestável a má vontade contra a con- 
gregação de Loyola. Pombal, Aranda, Choiseul, GaDga- 
nelli não fizeram em seu tempo mais do que dar satisfac- 
ção a uma corrente internacional da opinião. Foi preciso 
que lhe coubesse a palma do martyrio, para que a Ordem, 
assim aureolada, readquirisse parte da sympathia a que 
anteriormente fizera jus o desprendimento individual dos 
seus membros, simples no viver, insinuantes nos modos, 
seductores nas palavras. 

Os políticos que não serviam á poderosíssima Com- 
panhia no seu período áureo, votavam-lhe ódio pela resis- 
tência por ella offerecida aos planos de administração que 
não obedecessem exactamente aos seus interesses collec- 
tivos. Assim, a execução do tratado luso-castelhano de 
1750, que punha ponto ás contendas dos dois paizes na 
America Meridional entregando as Missões em troca da 



215 

colónia do Sacramento, e pacificando o Sul do Brazil, para 
onde a guerra se havia transferido no século XVTII, en- 
controu da parte dos jesuítas uma recusa armada. A volu- 
mosa e complicada legislação sobre a liberdade dos indios, 
com excepção das disposições mais levantadas de Pombal, 
não é mais do que o reflexo das alternativas de favor e aver- 
são dos estadistas portuguezes aos padres. A supremacia 
d' estes nas colónias ainda dependia comtudo dos gover- 
nadores que, ou lhes prestavam apoio incondicional, fal- 
tando mesmo ás decisões da metrópole, ou protegiam pelo 
contrario a ganância dos moradores, tão interessados em 
obter trabalhadores para suas fazendas, como os padres 
em exercer pela Junta de Redempção, a qual examinava 
e decidia da justiça dos resgates, uma selecção vantajosa 
ás próprias plantações. Era palpável por este facto entre 
os colonos a animadversão aos jesuítas; entre os commer- 
ciantes dominava o vivo ciúme mercantil, e até no espirito 
das outras- ordens ou congregações religiosas vingavam 
idéas de hostilidade, nascidas da rivalidade pelo vali- 
mento e da diversidade de comprehensão philosophica. 

Dadas semelhantes condições, é fácil de acreditar-se 
na fereza com que foi posta em pratica a medida pom- 
balina da expulsão. Enxotados como leprosos, ridiculari- 
zados como saltimbancos, insultados como réprobos, mal- 
tratados como criminosos, entregues á fúria das ondas em 
navios escolhidos sem escrúpulo entre os menos capazes 
de navegar, os jesuítas foram pela maior parte arribar 
aos Estados Pontifícios. De cento e vinte quatro porém 
lançados nos cárceres de Lisboa, oitenta e quatro fallece- 
ram sobre as palhas fétidas da enxovia: os quarenta res- 
tantes, encontrados em miserando estado, apenas tiveram 
liberdade no tempo de D. Maria I. Pernambuco destoou 
da sanha quasi unanime com que foram os padres repel- 
lidos dos lugares onde elles tinham pretendido dominar, 
mas onde haviam em todo o caso dado exemplos tocantes 
de caridade e de heroismo. Os jesuítas que assistiam na 
capitania, e os da Parahyba e Ceará que vieram remetti- 
dos para o Recife "foram recebidos com summa benigni- 
dade pelo governador Luiz Diogo Lobo da Silva e pelo 



216 

bispo D. Francisco Xavier Aranha, sendo transportados 
para Lisboa em um navio, que outr' óra pertencia á sua 
sociedade, e no qual fazia o provincial a vizita ás diver- 
sas casas da Ordem, espalhadas pelas capitanias do Brazil" 
(Cónego Fernandes Pinheiro, Ensaio sobre os jesuítas). 

Na egreja e collegio da Companhia em Olinda, doados 
em 1796 pelo príncipe regente D. João com "a cerca, pra- 
tas, e alfaias existentes", fundou o illustrado escriptor 
Azeredo Coutinho, que se sentou no sólio episcopal de 
Pernambuco e o enalteceu com a erudição do seu espirito 
e o exemplo das suas virtudes, um seminário logo consi- 
derado o melhor collegio de instrucção secundaria no Bra- 
zil. Os processos pedagógicos dos jesuítas, imbuidos da 
philosophia aristotélica, cederam ahi o passo á renovação 
intellectual pelas doutrinas cartesianas, de que os padres 
do Oratório foram em Portugal os propugnadores mais 
audazes, seguidos de perto por membros de outras ordens 
religiosas, que evolucionaram no terreno philosophico antes 
das reformas pombalinas de ensino, baseadas no Verdadeiro 
mefhodo de estudar do padre Verney, critica desapiedada 
ao systema da Companhia, o qual sacrificava a intel- 
ligencia á memoria. Pombal substituirá os jesuitas no 
magistério pernambucano por professores escolhidos pela 
Meza Censória, instituição com que o ministro servia o 
seu despotismo doseando a divulgação scientifica, e cor- 
respondente á execução da sua politica de absolutismo como 
ao dissipado fanatismo servira o Tribunal do Santo Officio, 
também reformado pelo marquez, transformado em perfeito 
tribunal régio, mais misericordioso. D. Maria I creára al- 
gumas outras cadeiras que o seminário absorveu, centra- 
lizando a instrucção da capitania. Ensinavam-se no esta- 
belecimento fundado pelo bispo Azeredo Coutinho, ironi- 
camente appellidado de Universidade por um atrabiliário 
critico coevo, theologia dogmática e theologia moral, his- 
toria ecclesiastica, philosophia universal, mathematicas, 
rhetorica e poética, grego, latim, canto-chão, primeiras let- 
tras e desenho, sendo os mestres alguns sacerdotes secu- 
lares, Congregados do Oratório e frades de varias religiões. 

Um lado ainda da administração pombalina nos in- 



217 

teressa particularmente, o económico. A economia era a 
sciencia dominante do século, e por meio d' ella pensavam 
os philosophos e os estadistas chegar a melhorar as . con- 
dições das classes inferiores, valorisando-se e facilitando- 
se a acquisição da propriedade pela divisão dos latifúndios, 
e igualando-se o imposto que pezava todo sobre a parte 
laboriosa da população. O desdobramento d' esta idéa, 
que trazia implícita uma das grandes conquistas da Revo- 
lução — o nivelamento das classes — , chegaria ás suas 
ultimas e violentas conclusões com a abolição total dos 
vínculos e a extincção dos conventos, realizadas em Por- 
tugal pelo liberalismo triumphante em 1833. O movimento 
económico vinha pejado de tantas transformações sociaes, 
que o throno acabaria por não poder satisfazel-as sem 
oomprometter a própria essência da sua missão histórica; 
mas tinham ellas de vingar porque as exigia a fome, e, 
dizia o grande poeta Schiller, a fome e o amor são os 
dois grandes fautores de todo o desenvolvimento humano. 
Pombal comprehendeu a economia n' um sentido muito 
menos revolucionário do que aquelle por que a entendiam 
os Encyclopedistas : antes como um meio mais de servir 
a monarchia absoluta. E fora de duvida porém que pro- 
curou com sinceridade dotar a pátria, até então mercantil 
e politicamente enfeudada á Inglaterra, de um bem estar 
relativo pelo augmento do commercio e pela animação da 
industria, sufficientes para prejudicarem a interesseira 
tutora de Portugal. Dando a este pensamento o envo- 
lucro de uma forte manifestação, como era próprio do seu 
temperamento voluntarioso, e procurando sacudir do seu 
torpor secular a vida de trabalho portugueza, elle foi um 
proteccionista ferrenho, favoneando no máximo o systema 
dos monopólios por conta do Estado, ou de companhias 
privilegiadas, e das manufacturas instituídas e geridas 
pela administração. "N' esta absurda e perigosa theoria, o 
governo era naturalmente o directo promotor de todas as 
industrias, o emprezario nato de todas as especulações, o 
thesoureiro e o gestor de todos os grangeios mercantis" 
(Latino Coelho, Historia politica e militar). As tentativas 
agrícolas do ministro foram além d' isso contrariadas pela 



218 

indolência e espirito de rotina da população; e as indus- 
triaes, segundo depõe um viajante contemporâneo, annul- 
ladas pela imperfeição das manufacturas, carestia da mão 
d' obra devida a escassez de artífices e pouca barateza da 
vida, e lentidão dos operários. A serie das medidas do 
marquez de Pombal que obedeceram a tal principio de 
regeneração económica pertence a creação da Companhia 
de Commercio de Pernambuco e Parahyba, fundada por 
negociantes de Lisboa, Porto e Recife e cujos estatutos 
foram approvados em 1759. 

Comportava esta associação uma junta estabelecida 
em Lisboa e duas direcções no Porto e em Pernambuco, 
formadas todas de commerciantes naturaes ou naturaliza- 
dos, residindo em cada um d' esses trez lugares um juiz 
conservador ou privativo nomeado pela junta. Entre cem 
facilidades e garantias, como poder levantar gente de mar 
e guerra para suas frotas e designar na armada e exercito 
reaes os officiaes de sua confiança, escolhidos pelo mo- 
narcha em uma proposta com dois nomes, possuía ella o 
commercio exclusivo das duas capitanias, e o trafico das 
mesmas para a costa da Africa; exceptuava-se apenas do 
monopólio o commercio interior, de umas villas para outras. 
Era semelhante empreza um arremedo extemporâneo e 
pouco feliz das grandes companhias commerciaes do Norte 
da Europa, e teve por companheira a do Grão Pará e 
Maranhão que, installada quatro annos antes, contribuio- 
fortemente para o desenvolvimento do Extremo Norte bra- 
zileiro, dando incremento á lavoura incipiente e alargando 
o numero dos productos de exportação d' aquellas terras. 
A Companhia de Pernambuco e Parahyba, funccionando 
em capitanias já bastante povoadas e exploradas, tornou- 
se porém oppressiva em vez de benéfica pela sua exces- 
siva regulação, aproveitando apenas aos negociantes im- 
portantes que n' ella empenharam os seus capitães. E até 
pela continuação os gastos absorveram as rendas, e o& 
géneros arrecadados pelas grandes companhias de com- 
mercio, encarecidos pelo monopólio da venda e pelos direitos 
fiscaes que pezavam sobre a exportação, viram diminuir 
o seu consumo e estagnar-se portanto a sua producção. 



219 

O pequeno commercio pernambucano, enleado nos extraordi^ 
narios privilégios com que Pombal dotou a associação filha 
da sua iniciativa, mostrava-se-lhe manifestamente adverso, 
bem como a agricultura, escravisada n' uma estéril depen- 
dência, obrigada a sujeitar os seus productos aos preços 
estipulados pela Companhia em troca dos empréstimos por 
esta fornecidos. Não duraram muito as duas emprezas. 
A de Pernambuco e Parahyba, passado em 1780 o prazo 
da licença, foi abolida reinando D. Maria I, e veio a liqui- 
dar-se em 1813. 

A reacção clerical e aristocrática emprehendida sob o 
fraco governo da bondosa soberana que succedeu a D. José, 
não logrou suspender em Portugal a evolução social, que 
ameaçava entrar em um dos seus momentos de marcha 
mais accelerada — como inversamente em França as con- 
cessões de Luiz XVI, as economias de Necker e as me- 
didas liberaes de Turgot não puderam entravar o desen- 
rolar das reivindicações populares. O mallogrado projecto 
de revolta em Minas Geraes, no anno de 1789, abafado 
pelo supplicio do Tiradentes e degredo de seus cúmplices, 
revelou quão funda se tornara a fermentação dos espíritos, 
mesmo em uma colónia longinqua onde a importação das 
idéas se achava fiscalizada com rigor, viam -se banidas 
sem piedade as novidades do pensamento e era apenas 
permittida circular a velha tradição, banal, ruça á força 
de gasta nos saráos da corte e nas matinas dos conventos, 
A conspiração mineira constitue um reflexo do movimento 
emancipador que despojou a Inglaterra da sua grande 
possessão americana, quando esta, educada nos princípios 
de uma franca autonomia e consummada federação, se 
achou cônscia dos direitos politicos que lhe cabiam; re- 
presenta ainda um esboço mais de independência brazi- 
leira, a qual por successos posteriores um príncipe da Casa de 
Bragança desviou em globo a favor da sua dynastia. Denun- 
ciada a meio da sua gestação, sustada no período da sua 
propaganda, aquella pallida conspiração não teve a altivez 
do protesto armado, nem a consagração da causa vencida; 
mas com a condemnação do seu membro mais irrequieto, 



220 

mais audaz e mais cheio de illusões, ganhou foros de 
extremada sympathia, e tornou -se um passo fecundo do 
caminho percorrido pela idéa da emancipação nas colónias 
hispano-portuguezas da America até sua completa reali- 
zação. O corpo do Tiradentes, enforcado n' uma praça da 
nova capital, Rio de Janeiro, collocou-se como uma bar- 
reira mais entre nacionaes e portuguezes, estimulando os 
contínuos desejos politicos, cuja execução a transplantação 
da sede da monarchia portugueza para o Brazil faria 
apressar. 

O príncipe regente D. João, a rainha louca, e os fidal- 
gos, burocratas, proprietários e negociantes que em numero 
approximado de quinze mil acompanharam a família real 
n' esta mudança, dando corpo em 1807 ao antigo projecto 
de D. João IV e aos sonhos ainda recentes de D. Luiz da 
Cunha e do marquez de Pombal, fugiam espavoridos deante 
dos soldados de Junot, mandados por Napoleão a assenho- 
rearem-se do pequeno paiz que deu então abrigo á ani- 
mosidade de Pitt contra o novo César, asylo ao rancor 
britannico contra a França. Ficou a defeza de Portugal 
entregue aos soldados inglezes e á plebe, á qual, despro- 
vida das terras assambarcadas pelos morgados e pelos 
frades, despojada dos empregos monopolizados pelos fidal- 
gos, vexada pelos tributos, ainda cabia defender a tiro e 
a punhal a honra das suas famílias e o pobre agasalho 
dos seus lares. Nas naus que singraram para o Brazil 
amontoaram-se as baixellas resplendentes, os saccos de 
moedas, as alfaias magnificas, as livrarias preciosas dos 
emigrantes, um total de riquezas que alguns computam 
em oitenta milhões de cruzados ; emquanto os cofres públi- 
cos exhaustos e a defeza publica criminosamente desleixada 
ficavam testemunhando á nação desesperada a geral inépcia 
c o chronico desmazelo dos governos portuguezes. 

A transladação da corte foi incontestavelmente de toda 
vantagem para o Brazil. Como primeira concessão do 
príncipe regente obteve a colónia em 1808 a abertura dos 
seus portos ao commercio internacional, medida alcançada 
pelo economista americano José da Silva Lisboa na sua 
faina constante de applicar o ideal de franqueza natural 



221 

que bebera na philosophia do século. Fora Silva Lisboa, 
auctor de um afamado tratado de direito mercantil e mais 
tarde visconde de Cayrú, quem acclimatára no reino a 
theoria da extincção dos exclusivos pombalinos, e da liber- 
dade do commercio e industria preconizada em França pelo 
physiocrata Quesnay e na Inglaterra por Adão Smith, o 
organizador da economia politica. A abertura dos portos 
brazileiros trouxe como consequências uma grande permuta 
de idéas e uma livre expansão commercial. Affluiram á 
colónia sábios, artistas e negociantes. Datam d' essa 
epocha as curiosas viagens de Henry Koster, Feldner, 
Lindley, Waterton, Swainsons, Caldcleugh, Mawe, Luccock, 
Ferdinand Denis e Auguste Saint-Hilaire, e os excellentes 
estudos de Spix, Martius, príncipe Maximiliano de Wied- 
Neuwied, Eschwege, Pohl, Mickan, Natterer e Raddi. Entre 
os nacionaes desenvolveram -se parallelamente o gosto 
consciente e sadio pelas explorações do paiz e o interesse 
pela prosperidade brazileira, que originaram numerosas 
publicações, taes como memorias económicas, scientificas e 
industriaes, estudos históricos e monographias descriptivas. 



XX 

Data igualmente do começo do século XIX o levanta- 
mento de Pernambuco, aliás favorecido pelas guerras na- 
poleónicas, anniquilamento da possessão de São Domingos 
e desastres das colónias hespanholas e inglezas — o que 
tudo redundou em melhoria de preços para os seus géneros 
de exportação que, afora páu brazil, fumo, couros e ma- 
deiras de construcção, consistiam principalmente em algo- 
dão remettido para a Inglaterra, e assucar enviado para 
Lisboa e Estados Unidos, lugar o ultimo onde também se 
consumia a aguardente. Foi tão sensivel aquellé levanta- 
mento que em 1812 a producção do assucar já novamente 
excedera a dos principios do século XVIII. Referindo -se 
á riqueza e importância do Recife, que em 1809 tinha vinte 
e cinco mil habitantes, senão mais, o viajante inglez Koster 
considerava -o a primeira praça do Brazil sob o ponto de 



L 



222 

vista das relações mercantis com a Grã Bretanha. Da 
Europa recebia a capitania objectos manufacturados e ar- 
tigos de luxo; da America do Norte productos industriaes 
e farinha de trigo; e da Africa escravos para os seus en- 
genhos. numero d' estas fabricas fora sempre crescendo 
máu grado todas as contrariedades politicas e económicas 
que Pernambuco havia atravessado, demonstrando a re- 
sistente vitalidade de tão precioso torrão. Uma estatística 
muito deficiente do tempo do marquez de Pombal, baseada 
como todas as antigas estatísticas portuguezas sobre dados 
«eclesiásticos , dá o numero de trezentos e sessenta en- 
genhos em Pernambuco e Alagoas, n' um total de quinhen- 
tas e dezeseis fazendas. A população juntamente aceusava 
um certo progresso, orçando por cento e setenta e cinco 
mil habitantes, e o rendimento publico mostrava uma cor- 
relativa vantagem, seguida de perto pelas capitanias vi- 
zinhas, subalternas de Pernambuco: Ceará, Rio Grande e 
Parahyba. No principio do actual século porém, já Per- 
nambuco apresentava quatrocentos e oitenta mil habitantes 
n' um total brazileiro de trez milhões, numero apenas ex- 
cedido pela Bahia e por Minas Geraes, tendo outrosim 
augmentado a proporção dos engenhos. 

Entre outros viajantes deixou Henry Koster, que veio 
a fallecer em Pernambuco, pormenores curiosos da vida 
da capitania anterior á Independência, em seus dois vo- 
lumes de digressões pelo Norte do Brazil, escriptos n' um 
«stylo fácil e agradável. O Recife não tinha, por occasião 
da primeira viagem do auetor em 1809, um aspecto que se 
pudesse qualificar de alegre, apezar da risonha perspectiva 
dos seus trez bairros ligados por duas pontes, uma das 
quaes, a de Santo António, recebia um acerescimo de ani- 
mação das lojas que sobre ella se abriam e um verniz de 
elegância dos seus arcos terminaes de cantaria. Seguindo 
a tradição portugueza, as senhoras não sahiam habitual- 
mente senão para a missa, de madrugada, ou á tarde, em 
rancho de família, a gozarem da fresca. Durante o dia 
forneciam todo o movimento, falto de graciosidade mas não 
de variedade, os negociantes, na quasi totalidade portu- 
guezes e inglezes; os frades esmoleiros de conventos cuja 



223 

consideração diminuía cada dia; a gente de cor, carrega- 
dores, vagabundos ou vendedeiras de fructas e bolos; e 
finalmente os calcetas, criminosos da peor espécie que 
podiam livrar-se do degredo em Africa ou da deportação 
para Fernando de Noronha, a fértil ilha do Atlântico ver- 
gonhosamente transformada em viveiro de sentenciados, 
cujas ruins paixões mal eram contidas pelo mando discre- 
cionario de um governador. A pena de morte applicava- 
se raramente em Pernambuco, tornando-se até preciso 
mandar julgar na Bahia os brancos accusados de crimes 
que implicassem castigo capital. 

Alguma dama menos caseira que aventurava- se a 
fazer visitas, não sahia a pé: deixava-se conduzir em uma 
enfeitada cadeirinha transportada por escravos. Tão ex- 
cessivo recato feminino e as rotulas que discretamente 
cerravam as janellas davam ao Recife um ar de villa árabe, 
na qual se adivinhassem mulheres espreitando gulosamente 
os transeuntes por traz de intrincados mucharabis. Em 
vez dos musulmanos esfarrapados e verminosos, grandes 
rebanhos de negros desembarcados dos navios que faziam 
o trafico, e expostos á venda pelas ruas, quasi nús com 
suas tangas immundas, exhalando um fedor insupportavel, 
devorando alimentos preparados ao ar livre n' um enorme 
caldeirão, numerados como galés e trancados á noite como 
animaes em escuros armazéns, alegres, os desgraçados, 
quando se apresentava o comprador que os arrancava á 
dolorosa exhibição. Entrava porém a desenvolver-se um 
certo gosto pelo conforto das residências, imitado do das 
famílias inglezas que, transplantadas para Pernambuco, ahi 
introduziram logo as suas casas de campo, o seu chá e as 
suas reuniões. Começavam a ver-se nos arredores, rodea- 
das de jardins, habitações onde pela noite, as janellas 
abertas de par em par á briza refrigerante, tocava -se, 
dançava-se e conversava-se. 

Os divertimentos favoritos eram todavia entre os por- 
tuguezes o jogo, os ruidosos folgares do entrudo e as festas 
nos innumeros templos, capellas e ermidas. Avultavam 
entre as solemnidades religiosas as novenas, com o seu 
cortejo de cânticos, musicas alegres, jantares, partidas e 



224 

fogos de artificio, e as procissões de apparato, com os 
seus animados quadros vivos, figuras symbolicas e danças 
burlescas. Differentes irmandades velavam pelo custoso 
esplendor do culto, que attingia o seu máximo de osten- 
tação nas cerimonias da Semana Santa. Na Quinta-feira 
maior o elemento feminino, trajando com espavento, en- 
volto em seda, carregado de oiro e de ricos e extravagantes 
enfeites, pejava as ruas por excepção, orando em cada 
uma das egrejas deslumbrantes de luzes, toldadas de in- 
censo, odoríferas das plantas que trepavam pelos al- 
tares e das flores que juncavam as lages. Na Sexta- 
feira toda esta vida era substituída por uma soturna 
tristeza que reflectia-se nos ornamentos, nos vestuários e 
nos semblantes. As scenas finaes do drama da Paixão 
representavam-se á voz dos frades pregadores com um 
realismo tal, que o papel da Magdalena de uma das 
egrejas, no anno em que Koster foi espectador, era effec- 
tivamente desempenhado por uma cortezã. Os anjos, o 
São João Evangelista, os soldados romanos possuíam- se 
com tamanha consciência dos outros papeis, que na nave 
os soluços redobravam a cada passo da descida da cruz e 
a cada apostrophe do sermão do monge. Sabbado de 
Alleluia e o Domingo de Paschoa constituíam para as 
famílias dias de jovial espairecimento e de farta comezaina, 
compensadora da prolongada abstinência quaresmal. 

A sincera originalidade d' estes costumes ia-se porém 
diariamente diluindo na banalidade da vida que os natu- 
raes principiavam a adoptar n' uma comprehensão mais 
ampla das relações sociaes; sendo comtudo para lamentar- 
se que de envolta com ridículas usanças tendessem a des- 
apparecer vigorosas manifestações de destreza physica 
como as cavalhadas, e expressões deliciosas da alma po- 
pular como os oiteiros poéticos ou desafios de rimas que 
d' antes animavam todas as festas. Koster, notando esta 
evolução nos costumes que o intercurso material e moral 
com a Europa ia produzindo, e que a elle permittiu-lhe 
travar conhecimento com a gente da terra, presta home- 
nagem á franqueza, hospitalidade e carinho com que foi 
recebido no seio de varias famílias de Pernambuco, onde 



225 

encontrou da parte das senhoras uma conversação agradável 
e bastante distincção, e da dos homens uma expansiva 
amabilidade. Eram estas famílias, ou portuguezas cujos 
chefes exerciam cargos, distinctos na complicada admi- 
nistração da capitania, ou brazileiras de plantadores abasta- 
dos que passavam a estação das chuvas no Recife ou em 
Olinda. Os outros reinoes, sobretudo os commerciantes, 
mostravam-se menos dispostos ás innovações, achando-se 
a maior somma de caturrice entre elles, e no interior, onde 
a vida ainda se conservava geralmente desprovida de 
commodidades e a força dos hábitos mantinha -se mais 
poderosa, guardando-se o bello sexo afastado da convivência 
dos hospedes. Os grandes senhores de engenhos, estes 
viviam com regalo e mesmo com magnificência, adaptando- 
se sem difficuldade ás transformações que no antigo viver 
iam provocando o contacto dos extrangeiros e a importação 
das manufacturas européas. Citando o conhecido fausto 
dos proprietários ruraes, Henderson refere-se aos seus ca- 
vallos adornados com todos os bellos arreios e jaezes da 
sellaria portugueza, e conta que a razão, talvez o pretexto, 
apresentado pelas senhoras ricas para em epocha posterior 
(1820) eximirem-se da maior familiaridade intentada pela 
espoza do governador Luiz do Rego, dama aliás á qual 
todos tributavam merecida consideração, foi a excessiva 
despeza que acarretaria a necessidade de em cada reunião 
exhibir um novo traje. Si, como é possível, este procedi- 
mento não era dictado por uma hostilidade pessoal ao 
capitão general, era -o somente pelo sentimento do luxo, 
pois que, não só a sociabilidade tinha continuado a aug- 
mentar, como o progresso a accentuar-se sob todas as 
formas. Já em sua segunda viagem, realizada em fins de 
1811, Koster notou grandes mudanças no Recife, tanto no 
aspecto menos monachal das casas, quanto nos vestuários 
menos pomposos e mais apropriados ao clima, e nos 
melhoramentos materiaes, pelos quaes parecia anteriormente 
existir verdadeira repugnância. 

Olinda, apezar de capital, fora entretanto decrescendo 
sempre da pristina consideração , vendo-se reduzida em 
1809 a uma população de quatro mil habitantes, entre os 

Lima, Pernambuco. 15 



226 

quaes numerosos seminaristas e adherentes do paço epis- 
copal. No anno de 1811 creou-se na velha e tranquilla 
cidade um jardim botânico destinado ao cultivo de plan- 
tas indígenas, e exóticas da Ásia antes introduzidas na 
Guyana, taes como arvores do pão, muscadeiras, girofei- 
ros, lilazes, canelleiros e coraes da índia, não esquecendo 
uma conhecida variedade da canna de assucar. Dirigia-o 
Mr. Germain, um francez vindo de Cayenna, lugar occu- 
pado em Janeiro de 1809 por tropas do Pará em guisa de 
represália ás hostilidades de Napoleão, e de novo entregue 
á França em 1815, depois de uma correcta administração 
de Maciel da Costa, futuro marquez de Queluz, por força 
das conclusões do congresso de Vienna, que fixou o limite 
da Guyana Franceza no rio Oyapock, o mesmo estipulado 
pelo tratado de Utrecht e até hoje desconhecido pela me- 
trópole européa. Muitos mostravam-se descontentes com 
aquella escolha de um director extrangeiro, preferindo que 
um nacional exercesse o cargo. O illustre naturalista Ar- 
ruda Camará, competentíssimo para tal mister, fallecêra 
havia pouco, mas o governador Caetano Pinto, ainda que 
reputasse Mr. Germain "livre do contagio Jacobinico, e 
antes aborrecendo no seu coração do que adherindo ao 
actual governo da França", fizera recahir a sua escolha 
para superintendente do horto no padre João Ribeiro Pes- 
soa, professor de desenho do seminário, amigo e discipulo 
de Arruda Camará. Foi do Rio que veio a ordem em con- 
trario, firmada pelo conde das Galvêas, nomeando director 
o francez, julgado entendido na matéria por haver dado 
provas na corte da sua proficiência. 

O elemento official, civil e militar, residia quasi todo 
no Recife, onde contava como uma boa parcella na somma 
da população. A burocracia já então constituía um dos 
males portuguezes, e o exercito de mal remunerados em- 
pregados públicos ajudava com os fructos do peculato e 
da corrupção os magros soldos que lhe eram attribuidos 
sobre o resultado das contribuições, arrancadas quasi todas 
á classe popular. Aos dizimos em espécie juntavam-se em 
atroz concorrência fiscal pezados direitos alfandegários e 
onerosos impostos de consumo e de transmissão, os quaes 



227 

na maior parte a rotineira administração arrendava a al- 
guns protegidos que por sua vez os substabeleciam, frac- 
cionando-os, pagando os homens de trabalho os lucros de 
semelhantes especulações. Estes processos de governo 
acarretavam naturalmente o desleixo dos serviços públi- 
cos: produziam a deficiência da viação; o atrazo da instruc- 
ção ministrada, além do seminário e de uma aula de com- 
mercio, por algumas, poucas, escolas primarias dissemina- 
das nas villas do interior; e a incúria da assistência pu- 
blica, supprida em grande parte pela caridade particular. 
O correio não possuía distribuidores, indo cada qual buscar 
suas cartas á repartição do Recife. A agricultura, con- 
dição da existência pernambucana, continuava servida por 
velhos processos. Livrarias não se encontravam, andando 
os livros sujeitos a uma vexatória e ridicula inspecção, e 
vendendo-se apenas n' um convento folhinhas, santinhos e 
agiologios. A policia era feita pelos soldados dos regi- 
mentos de linha, cujo effectivo orçava de ordinário pelo 
quarto do officialmente mencionado e que, pagos mesqui- 
nhamente, irrisoriamente esquipados, recrutavam-se na maio- 
ria entre a peor gente. theatro propinava aos especta- 
dores farças portuguezas sem elevação moral, característi- 
cas da dissolução da epocha. A administração finalmente, 
commenta um auctor francez, occupa-se com leis de repres- 
são em vez de cuidar em methodos de aperfeiçoamento; 
é policia em vez de ser industria; n' uma palavra, torna 
um paiz que possue todos os recursos da opulência, sede 
de todas as incommodidades da miséria. 

Henry Koster syncretisou nas seguintes judiciosas e 
propheticas palavras a sua impressão do momento histó- 
rico: "A falta de energia, the supineness, do antigo systema 
pelo qual era governado o Brazil ainda em tudo se revela; 
porém a chegada do soberano despertou a emulação de 
alguns que de ha muito entregavam-se a hábitos de indo- 
lência, e augmentou a actividade de outros que aguarda- 
vam com impaciência occasião para evidencial-a. Os bra- 
zileiros sentem que se tornaram uma nação; a sua terra 
natal dá presentemente a lei á mãi pátria. O seu espirito, 
contido por longo tempo n' uma sujeição severa ás antigas 

15* • 



228 

leis e regulamentos coloniaes, teve agora ensejo de mos- 
trar-se, e, ainda que suífocado sob o pezo de prolongados 
soffrimentos e supportando com paciência os seus males, 
provou a sua existência. Si d' ora em diante os não tra- 
tarem como homens sabidos de uma forçada puerícia, os 
nacionaes levantar-se-hão e despedaçarão os grilhões a 

que resignadamente se submetteram A livre com- 

municação com os outros paizes já foi útil ao Brazil, e 
augmentam diariamente as vantagens que d' ahi lhe resul- 
tam. Este rebento do nosso continente europeu acabará 
por desenvolver-se e produzir uma arvore muito mais im- 
portante do que o ramo de que ò separaram; comquanto 
ainda esteja distante a quadra d' esta maturidade, entre- 
tanto a rapidez ou lentidão do seu desenvolvimento depende 
dos cuidados assíduos ou da negligencia dos seus chefes. 
De qualquer modo comtudo que elles se comportem, a 
extensão, fertilidade e outras numerosas vantagens do 
Brazil dar-lhe-hão com o tempo o lugar que de direito 
lhe compete entre as grandes nações do mundo." 

O príncipe regente D. João, desde que lhe foi dado 
medir em pessoa as probabilidades da emancipação bra- 
zileira, acompanhava tacitamente o viajante inglez em seus 
raciocinios. Um ardiloso plano de resistência esboçára-se 
porém na imaginação do herdeiro da monarchia ao com- 
prehender o perigo imminente da separação, plano que 
consistiu em conceder á colónia o máximo das franquias 
económicas para garantir o minimo das cedências politi- 
cas. Procedia assim como o desventurado Luiz XVI, ainda 
que pautando a sua norma de procedimento por uma regra 
diíferente. O rei de França, dotado como o regente de 
Portugal de bastante intelligencia e grande bondade, para 
negar as liberdades que a agitação crescente do paiz lhe 
ia successivamente arrancando, abroquelava-se por impulso 
da altivez hereditária com as tradições monarchicas, sem 
ter todavia a necessária decisão e indispensável energia 
para constituir-se deante da Revolução o defensor denodado 
dos velhos ideaes. D. João de Bragança executava ma- 
treiramente e a sangue frio um projecto concebido com 
madureza, e destinado a prender o seu povo americano 



229 

pela gratidão do estômago, servindo esse projecto com a 
natural affabilidade, por elle forçada até leval-a á exagge- 
rada bonhomia. Igualmente a fraqueza de animo não lhe 
permittiria chegar a resultados mais completos do que os 
obtidos a começo por semelhante opportunismo; mas nem 
por isso deve reputar-se insignificante a sua acção na his- 
toria brazileira. 

A estupidez do filho de D. Maria I passou de perversa toada 
jacobina a ser arraigada tradição, mesmo histórica, ajudada, 
infelizmente para o interessado, por um physico pouco at- 
trahente em virtude de herdadas feições peculiares á Casa 
d' Áustria, sobretudo a espessura e o descahido do lábio 
inferior. Bem ao contrario dos narradores portuguezes, Beck- 
ford, o pouco indulgente chronista da sociedade portugueza 
dos fins do século XVIII, refere que D. João VI possuía na 
physionomia pouquíssimo vulgar e singularmente agradável 
um ar, não só de benignidade como de sagacidade. Nenhum 
dos seus súbditos, ajunta o inglez, fallava "a bella e har- 
moniosa" língua lusitana com maior pureza e elegância do 
que elle. Nas falias graves e enérgicas oíferecia uma nota- 
bilissima promptidão, facilidade de dicção: cada palavra 
pronunciada era sempre a própria e batia em cheio com 
um grande vigor. As palestras familiares frequentemente 
esmaltavam-se de um sainete creado pelo humor original, 
caracteristicamente nacional, do conversador. 

Desamparando o reino no momento da primeira inva- 
são franceza, o regente praticou por certo um acto de 
,cobardia, indigno de um gentilhomem: realizou porém um 
negocio vantajoso na eventualidade da perda da soberania 
lusitana, trocando, conforme escreveu com espirito um con- 
temporâneo extrangeiro, um castello sem dependências por 
uma herdade extensa e mal explorada. Demais os resul- 
tados políticos do seu acto foram benéficos para Portugal. 
Do magnifico refugio transmarino para onde medrosamente 
se fizera conduzir, o príncipe, livre dos opprobrios a que 
Napoleão sujeitou Carlos IV de Hespanha, animou a resis- 
tência que o povo portuguez sósinho, na sua fraqueza, 
seria incapaz de tentar com êxito, cimentando a tradicio- 
nal alliança ingleza, a única profícua n' aquella occasião, 



230 

quebrada um momento pela adhesão ao bloqueio continen- 
tal, mas reatada ao chegarem as novas da entrada em 
Portugal dos regimentos de Junot, e do tratado de Fon- 
tainebleau que repartia com apaniguados da Hespanha o 
reino e as colónias. A Grã Bretanha, que até então mais 
pelejara com suas esquadras, fez de Portugal o principal 
terreno continental do seu duèllo gigantesco com o cesa- 
rismo absorvente da França, e, começando por bater Junot 
em Vimeiro e forçal-o a retirar -se depois de assignar a 
convenção de Cintra, fez retroceder do Porto o marechal 
Soult, obrigando Masséna, em uma terceira invasão, a 
parar depois da acção do Bussaco nas linhas de Torres 
Vedras. O vandalismo gaulez e o auxilio britannico fomen- 
taram no paiz uma corrente de reacção, violenta quanto 
havia sido submissa a escravidão, a qual soffrêra onerosa 
contribuição de guerra e pezada leva de soldados, e, dizi- 
mados pelas guerrilhas hespanholas, os soldados de Bona- 
parte foram perseguidos ainda além dos Pyreneus pelo 
exercito anglo-luso. 

O estado de desbarato de Portugal, corroído pelas 
exigências das classes privilegiadas e pelas depredações 
de todo o funccionalismo, não podia ser modificado sem 
que se activasse um movimento de renovação perigoso 
para o principio da monarchia absoluta, e o príncipe D. 
João evitou sempre 'com o maior cuidado tocar em tudo 
que pudesse marear o brilho sobrenatural da coroa. Em 
compensação favoreceu o commercio e a navegação da 
colónia a que se abrigara, incitou a sua industria, julgada 
outr' ora nociva por dever fatalmente provocar a indepen- 
dência das relações com a metrópole, e, fundando o cre- 
dito brazileiro, procurou acclimatar alli as instituições ban- 
carias que o seu ministro D. Rodrigo de Souza Coutinho, 
conde de Linhares, lhe suggeria, a meio de idéas gran- 
diosas e tumultuarias elaboradas por uma fogosa imagi- 
nação de estadista, empenhado em metter hombros e ter- 
minar com milagrosa rapidez emprezas em muito superiores 
ás fantasias do luctador. 

Nas relações externas a iniciativa do regente, zelada 
por hábeis diplomatas como os condes da Barca e de Pai- 



231 

mella, também foi proveitosa, tanto quanto Ih' o permittiu 
o abatimento da nação portugueza. tratado de com- 
mercio com a Inglaterra, tratado leonino imposto pelas 
circumstanoias politicas do momento, e que excitou no reino 
geral descontentamento, elle o reformou á medida que a 
Europa se aquietava e ia-se tornando desnecessário o apoio 
britannico. fAfronteira sul do Brazil, objecto de porfiada 
contenda no século anterior, o príncipe, aproveitando a ci- 
zânia dos independentes platinos, a prolongou até seu limite 
natural pela incorporação da Banda Oriental, depois de 
annullada a desordenada ambição da espoza, a rainha 
Carlota Joaquina, que astuciosamente conspirava para rei- 
nar na America Hespanhola, de neutralizada a acção de 
Fernando VII junto das grandes potencias européas e de 
refreada a impaciência aggressiva de Puyrredon, o dicta- 
dor de Buenos Ayres. 

A titulo de pacificar a fronteira D. João começara por 
combater a emancipação do Prata, cujo contagio previa 
como fatal â colónia portugueza: havia mesmo o príncipe 
estipulado um armistício, quando os revolucionários apode- 
raram-se de Montevideo, que ainda ostentava a bandeira 
da metrópole. Tendo porém o caudilho Artigas lançado 
a perturbação em todo o estado abrindo uma guerra civil, 
o Brazil entrou na lucta a pedido de emigrados políticos 
do Prata, ganhando logo varias victorias. Com uma 
espantosa vitalidade, com uma energia de raça de que nós 
tivemos outro exemplo frizante na moderna campanha 
contra Lopez, o chefe uruguayo reorganizou as suas forças 
desbaratadas, acudindo com novos combatentes, e prolon- 
gando a guerra muito depois da entrada em Montevideo 
do general Lecór, em Janeiro de 1817. Accorreram refor- 
ços de outras capitanias, inclusive Pernambuco, que com 
as tropas de Buenos Ayres se juntaram ao exercito em 
operação. Artigas fez comtudo frente a todos os contra- 
tempos e arcou com todos os soccorros contra elle le- 
vantados, chegando a derrubar o governo revolucionário 
e a entrar na cidade de Buenos Ayres. Finalmente, 
victima da traição que espia os passos de todos os re- 
beldes, teve de emigrar para o Paraguay, e a 31 de 



232 

Julho de 1821 o Estado Cisplatino reutiia-se ao reino do 
Brazil. 

— Ainda foi dado presidir a este augmento territorial ao 
monaroha que em 1817 vira o Brazil ameaçado de uma 
separação pela proclamação da republica na capitania de 
Pernambuco, acontecimento que violentamente transferiu 
a pomposa acclamação real, já uma vez voluntariamente 
adiada pela dor filial do regente, logo que em 1816 falleceu 
a infeliz D. Maria I. A principio D. João VI não quizéra 
acreditar na possibilidade de uma manifestação de dema- 
gogia na colónia por elle recentemente elevada a reino, 
tão de continuo se trocavam os testemunhos de reciproca 
aífeição entre o monarcha e os seus súbditos americanos, 
brindados com a creação de tribunaes e escolas superiores, 
bibliotheca, museu, e até com a instituição do jornalismo, 
ainda que sujeito ao regimen da censura para garantir-se 
a isolação mental. Foi preciso que pela barra do Rio de 
Janeiro enfiasse sob a protecção da bandeira revolucionaria 
o próprio capitão general de Pernambuco, para que a rea- 
lidade se impuzesse ao espirito do monarcha, derrotando 
as illusões do seu optimismo e as habilidades do seu 
machiavelismo politicos. A democracia ensaiava com 
effeito os seus primeiros firmes passos no coração do 
grande estado, a cuja sombra se acolhera a angustiada 
dynastia portugueza. Parecia o golpe talhado para abater 
o espirito flácido do soberano; mas não o fez esmorecer 
tanto que o empatasse de organizar uma prompta re- 
sistência contra a ameaçadora sedição. Chorou-se sobre 
a derruição do principio monarchico; especulou-se com o 
horror das carnificinas francezas, que não deixariam de 
ser imitadas pelos novos jacobinos. O grito de guerra 
desapiedada aos revoltosos foi levantado pelos aulicos 
da corte, seguido pelas tropas da legalidade, applaudido 
pelos commerciantes ordeiros, reverenciado pelo povo boçal, 
agora fascinado pelo fausto desconhecido da realeza: nem 
escassearam os donativos pecuniários para apressar a ex- 
tincção da subversiva agitação. 

A celeuma era demasiada para a importância da re- 
bellião. Cifrára-se esta n' uma explosão frenética de sen- 



233 

timento nacional desdenhado, brotada de cérebros exaltados 
pelos successos da Revolução, afervorados em seus sonhos 
por uma mysteriosa solidariedade, e anciosos pela inte- 
gração da libertação americana. Condições materiaes e 
moraes para vingar não as possuía, nem em numero de 
soldados nem em universalidade de convicções, e d' ellas 
se não preoccuparam os que n' um momento de ímpeto 
lançaram a um governador irresoluto e moleirão o desafio 
da . sua impaciência patriótica. movimento não fora 
sequer bem combinado para simultaneamente rebentar em 
outras capitanias, embora estas já vivessem desde a che- 
gada do príncipe D. João, não mais independentes entre 
si, correspondendo-se directamente com a metrópole, antes 
ligadas por laços ainda que ténues de um compromisso 
nacional. O futuro não se antolhava, pois, risonho para 
os republicanos de Pernambuco: militares cançados das 
prepotências portuguezas, sacerdotes que em seus con- 
sistórios folheavam o grande livro das aspirações liberaes, 
brazileiros que nos peitos viris sentiam vibrar o affecto 
virgem da pátria. Bem souberam porém morrer os que 
tão mal souberam conspirar. 



XXI 

Governava Pernambuco em 1817 o dezembargador 
Caetano Pinto de Miranda Montenegro, que os contempo- 
râneos commummente descrevem como homem illustrado 
e benigno, porém demasiado inerte para conter os despo- 
tismos da'militança e as fraudes da burocracia. "A sua 
pusilanimidade se tem aumentado com a falta de respeito 
que elle mesmo já sente da parte do povo, talvez causada 
pela inconsideração com que se tem familiarisado, e des- 
estimação que tem sempre mostrado á força armada" 
(trecho de uma correspondência de Pernambuco para o 
Portugtiez de Londres, anno de 1817). Não era pois Cae- 
tano Pinto um tyrannete, a exemplo de muitos dos seus 
predecessores. Distanciára-se pelo influxo das novas dou- 



234 

trinas, irresistível para os ânimos mais reaccionários, da 
turbamulta dos dezembargadores da corte de D. Maria I, 
que, depois de Pombal ter desapparecido da vida publica, 
surgiram como cogumellos a disputarem o valimento régio, 
de envolta com os fidalgos burlescamente faustosos e os 
padres glutões, engordados, os segundos sobretudo, pela 
antiga prodigalidade de D. João V. O dezembargador 
tornou-se até um dos typos dominantes da corte beata e 
intrigante que o inglez Beckford e o irlandez Cadogan 
descrevem tão precisamente, figurando a modo de precur- 
sor do conselheiro Accacio do moderno romancista portu- 
guez, com a mesma inépcia e mais basofia. 

Na administração colonial tinham os magistrados par- 
cialmente substituído com o dogmatismo dos seus prin- 
cípios os militares, um instante reorganizados pelo conde 
de Lippe e que cedo haviam recahido na primitiva brutali- 
dade, provocadora de tão repetidas queixas ; sem que com- 
tudo nos cérebros opacos d' aquelles jurisperitos brilhasse 
em uma nota intelligente o consciente predomínio do ele- 
mento civil. No governo da capitania que lhe fora distri- 
buída, Caetano Pinto, adeantando-se em todo o caso aos 
officiaes que a tinham dirigido no século anterior, nunca 
abusou da sua enorme auctoridade, respeitando sempre a 
independência dos tribunaes, deixando de commetter escân- 
dalos, e procurando com a natural lhanura attrahir a si 
as sympathias. O caracter da administração portugueza 
afogava porém qualquer amostra de liberalismo do seu 
espirito, manietando-o com os grilhões de uma legislação 
antiquada, triturando-o com a damninha centralização que 
prodigalizava os tributos vexatórios, e de livre só tolerava 
as extorções. No Rio.de Janeiro o soberano, repetenado 
no throno secular bafejado pela graça divina, continuava 
a sua politica de meias tintas, que não permittia um equi- 
líbrio mais estável no jogo malabar de concessões com que 
se entretinha, cego quanto aos resultados do passatempo. 
E todavia a epocha exigia reformas radicaes. 

A opinião contida pela censura refugiára-se em Londres, 
affirmando-se em jornaes portuguezes de nome memorável: 
no reino unido do Brazil mesmo, cançada da imprensa 



235 

anodina, explodia em uma litteratura anonyma e pamphle- 
taria, que foi característica até os fins do primeiro remado. 
À crescente prosperidade dos Estados Unidos da America 
e a felicidade dos movimentos separatistas das colónias 
hespanholas occupavam as attenções, ao passo que a 
estrondosa revolução franceza impunha-se a todas as in- 
telligencias medianamente cultivadas. Esta longa epopéa 
de um povo, conglutinando-se na Assembléa dos Trez 
Estados, erguendo com decisão as suas exigências na 
Constituinte, escalando o poder na Legislativa e chegando 
na Convenção a luctar contra reis e nações, sopitar am- 
bições particulares, desfazer conspirações bourbonicas e in- 
trigas inglezas, remover tantos e tão grandes obstáculos 
internos e externos, passando a França de invadida a in- 
vasora e terçando as armas com a Prússia, a Áustria, a 
Grã Bretanha e a Hespanha, tendo para ganhar as vic- 
torias apenas soldados esfarrapados e generaes inexperientes, 
com uma marinha desorganizada e um thesouro exhausto, 
estava forçosamente destinada a fecundar uma mutação 
social. sangue que jorrara das guilhotinas, as ferozes 
diatribes de Marat e de Hébert, a fria crueldade de Robes- 
pierre desappareciam debaixo da suggestão poderosa d' aquella 
enérgica oligarchia plebéa, concentrando em suas mãos rudes 
a policia, as relações exteriores, o exercito e as finanças, 
e organizando na maior agitação politica que a historia 
tem registrado, a expansão vencedora de um paiz, e a con- 
sagração triumphal de um período novo na marcha da civi- 
lização. 

No Brazil infiltrava-se diariamente o jacobinismo fran- 
cez, concretisando-se especialmente em Pernambuco, onde 
as tristes reminiscências da guerra dos mascates acalen- 
tavam uma tradição tal de opposição á metrópole, que em 
1800 havia-se condensado n'um chimerico projecto de re- 
publica sob o protectorado da França, por motivo do qual 
estiveram prezos os irmãos Suassunas, agora restituídos 
à liberdade e occupados em insufílar aos adeptos das aca- 
demias do Cabo e Paraizo, com sedes no engenho Suassuna 
e na bibliotheca do hospital do Recife dirigida pelo padre 
João Ribeiro, o ardor revolucionário de que ainda se acha- 



236 

vam possuídos. "De facto os Pernambucanos buscavão 
com anciã os novos cathecismos; atiravão-se a elles com 
fome; devoravão-os com sofreguidão! quem não esperaria 
de tanto enthusiasmo ver progressos monstruosos" (Itevo- 
lucções do Brasil). 

A idéa da emancipação aventava -se com exaltação 
nos quartéis, pela preferencia concedida aos officiaes por- 
tuguezes, e ainda mais nas cinco lojas maçónicas que exis- 
tiam na capitania em 1816, e que estavam então no seu 
auge de animação , ligadas ás de outras capitanias e ás 
do Velho Mundo por laços de irmandade e filiação pro- 
positalmente avivados pelas viagens de alguns consócios. 
O sentimento independente transpirava até publicamente 
em banquetes d' onde eram banidos, como protesto, o pão 
e o vinho de Portugal, substituídos pela mandioca e aguar- 
dente indígenas, e outras reuniões de militares e paisanos, 
a que entre muitos assistia, apezar dos dúbios dizeres, 
frequentes appellos á coacção e persistentes confissões 
monarchxcas dos posteriores interrogatórios, o ouvidor da 
nova comarca de Olinda, António Carlos Ribeiro de An- 
drada. Era este magistrado dotado de um temperamento 
inquieto, expansivo, sobremodo loquaz, e possuia o seu 
espirito notável illustração: faltava-lhe porém a fé na effi- 
cacia da rebellião pela ausência, como filho de outra pro- 
víncia, da aspiração particularista que caracterisava o mo- 
vimento. "Como não odiaria eu antes, respondia elle aos 
juizes da alçada ao amesquinhar a revolução e seus auc- 
tores, e trabalharia com afinco para destruir um systema 
que, derrubando-me da ordem da nobreza a que pertencia, 
me punha a par da canalha e ralé de todas as cores, e 
me segava em flor as mais bem fundadas esperanças de 
ulterior avanço, e de mores dignidades?" 

Desconfiando o capitão general por denuncias repeti- 
das, em que não acreditara inteiramente, do fermentar da 
animosidade votada pelos pernambucanos aos portuguezes; 
e logo depois informado com maior precisão da existência 
de uma conspiração tramada em conciliábulos diurnos e 
nocturnos, sobretudo nas casas do negociante Domingos 
José Martins e do Cruz Cabugá, nos quaes destacavam-se 



237 

com nitidez no fundo negro formado pelas batinas dos 
clérigos as dragonas de vários officiaes, baixou uma or- 
dem do dia recommendando a mais perfeita união entre 
todos os naturaes do reino unido, e affixou um edital pro- 
mettendo segurança á população. Seguidamente reuniu os 
militares europeus de maior graduação, que em consulta 
decidiram a prisão dos officiaes de linha brazileiros apon- 
tados como díscolos, e dos civis padre João Ribeiro Pessoa, 
negociante Martins e António Gonçalves da Cruz o Cabugá. 
Assim procedendo, Caetano Pinto reconhecia com uma 
imprudência que devia repugnar ao seu caracter manso, a 
existência de uma combinação revolucionaria, e mostrava- 
se disposto a reprimil-a com severidade n' elle desusada, 
e que lhe não era aconselhada pela ausência na Banda 
Oriental e no Pará, depois de iniciadas as luctas monte- 
videanas e incorporada a Guyana Franceza, de parte dos 
regimentos de linha, onde o elemento portuguez predo- 
minava entre a officialidade. Não durou de resto muito a 
sua crise de energia. A prisão dos militares comprometti- 
dos deu lugar a uma scena de indisciplina e de sangue 
no quartel de artilheria, sendo assassinado o brigadeiro 
Barbosa, soldado que fizera a campanha do Russilhão con- 
tra a Convenção, por dois officiaes brazileiros, José de Bar- 
ros Lima o Leão Coroado e José Mariano de Albuquerque 
Cavalcanti, e tendo igual sorte um tenente coronel aju- 
dante d' ordens do governador, homem detestado na capi- 
tania, mandado na occasião para serenar o motim e contra 
o qual deu voz de fogo o capitão Pedroso. Com estas 
mortes augmentou a desordem, despertando o sangue der- 
ramado a sanha dos officiaes insubordinados, tocando-se 
a rebate nas egrejas e nas casernas, separando-se as tro- 
pas de linha e as milícias entre as duas parcialidades, 
libertando-se os prezos políticos, e sendo soltos os crimi- 
nosos encarcerados que, providos de armas, foram engrossar 
as fileiras dos revoltosos. Caetano Pinto entrementes re- 
fugiava-se na fortaleza do Brum, tendo sahido do palácio, 
segundo contam, em trajes caseiros e com uma espada 
desembainhada em punho, acompanhado na fuga por vários 
officiaes generaes. 



238 

Desmoralizadas com taes exemplos, as forças fieis ao 
governo, incluindo os milicianos apostados no campo do 
Erário pelo marechal José Roberto, não ousaram medir-se 
com a turba dos amotinados, a qual, avolumada pelos po- 
pulares mais animosos que não recolhiam-se transidos de 
susto á espreita dos acontecimentos, espalhára-se na ci- 
dade, e, annullando ligeiras resistências, apoderára-se dos 
estabelecimentos públicos e occupára os fortes. Succede- 
ram-se as deserções durante o dia da revolta (6 de Março) ; 
a anterior noticia de uma proscripção imminente vigorou 
as sympathias de muitos pelo movimento; achegaram-se 
outros pelo receio de furtarem -se ás intimações; e pela 
manhã de 7 o hábil advogado José Luiz de Mendonça, 
levando como guardacostas o capitão Domingos Theotonio 
á frente de oitocentos soldados de linha e milicias, podia 
afoitamente notificar ao capitão general a sua retirada de 
Pernambuco. "Confesso de mim, declara o secretario do 
governo Mayrink na sua exposição, que a cada momento 
me parecia ver renovadas as horrorosas scenas da revo- 
lução franceza, na qual se viu o que pode um povo desen- 
freado, e que um monumento como a Bastilha em quatro 
horas reduziu-se a nada". Os refugiados do Brum parece 
terem tido idênticos pensamentos: governador e militares 
superiores submetteram-se todos cobardemente, sem som- 
bra de opposição, ás exigências dos rebeldes, entregando 
a fortaleza, cuja guarnição juntou-se logo ás tropas revo- 
lucionarias. Ficaram os officiaes generaes prezos, e foi o 
governador deportado para o Rio de Janeiro, onde a corte, 
irritada, enclausurou-o na ilha das Cobras, junto com os 
tripulantes da embarcação que de ordem dos rebeldes o 
conduzira. 

Levado a cabo com tamanha felicidade o movimento, 
que, á parte alguns excessos dos criminosos pouco depois 
reintegrados na cadeia, se não manchou com represálias 
pessoaes nem com depredações vergonhosas, antes revestiu 
um aspecto sympathico de doutrinarismo e desinteresse 
— não sendo sequer maltratado no caminho para a prisão 
o ouvidor do sertão Cruz Ferreira, o qual denunciara a 
conspiração e tentara depois subtrahir-se pela fuga ao re- 



239 

sentimento dos insurrectos — , organizou-se um governo 
provisório composto de representantes das differentes classes 
sociaes: o sacerdote João Ribeiro Pessoa, o capitão Do- 
mingos Theotonio, o advogado José Luiz de Mendonça, o 
agricultor coronel de milícias Manoel Corrêa de Araújo, e 
o negociante Domingos José Martins. Apenas constituído, 
este directório nobremente desistiu de quaesquer ordena- 
dos que lhe competissem, e dirigiu um appello de adhesão 
aos cidadãos distinctos da capitania, em vários pontos da 
qual aliás a conspiração contava ramificações. "A capital 
•está em nosso poder: a pátria está salva, escrevia o di- 
rectório. Ella vos chama: vinde unir-vos aos vossos ir- 
mãos. EUes vos esperam com os braços abertos, e an 
oiosos por vos apertar entre elles. O céu abençoará o 
fim da nossa obra, assim como tem abençoado o seu 
principio." 

O governo provisório escolheu ainda, si bem que sem 
emprestar-lhe nomeação official, um conselho composto 
dos negociante Gervásio Pires Ferreira, D T . António Moraes 
Silva, auctor do celebre diccionario, ouvidor António Carlos, 
deão de Olinda Bernardo Ferreira, e proprietário Pereira 
Caldas. Formados d' est' arte ambos os corpos , executivo 
e consultivo, o secretario do governo, padre Miguelinho, 
lançou ao povo, cujo enthusiasmo vibrava intenso no Re- 
cife, uma proclamação redigida n' um tom pacifico , alheia 
a mesquinhas idéas de vingança, plethorica mesmo de 

effusão: "Pernambucanos, estai tranquillos A 

Providencia, que dirigiu a obra, a levará ao termo. Vós 
vereis consolidar-se a vossa fortuna, vós sereis livres do 
pezo de enormes tributos, que gravão sobre vós; o vosso, 
e nosso Paiz, subirá ao ponto da grandeza que ha muito 
o espera, e vós colhereis o fructo dos trabalhos, e do zelo 
dos vossos Cidadãos. Ajudai-os com os vossos conselhos, 
elles serão ouvidos; com os vossos braços, a Pátria espera 
por elles; com a vossa applicação á agricultura, huma na- 
ção rica he huma nação poderosa." 

Assumira o movimento um caracter francamente re- 
publicano e autonomista. Conta Muniz Tavares que, assim 
que tornou-se conhecida a capitulação do Brum, os solda- 



240 

dos sem hesitar arrancaram das barretinas as armas reaes r 
e os offioiaes agraciados com ordens militares despojaram-se 
das suas insignias. Nas sessões do directório somente o 
advogado Mendonça discordou de tanto radicalismo, e, ame- 
drontado com as consequências da revolta, insinuou que 
se mantivesse o governo dentro dos limites constitucionaes, 
emquanto o povo não dispuzesse de armamento e instruc- 
ção sufficientes para uma attitude hostil ao centro e a in- 
stallação de um regimen democrático, obtendo-se comtudo 
do soberano a revogação de alguns impostos vexatórios, e 
a annullação de varias attribuições oppressivas dos capi- 
tães generaes. Os collegas porém discreparam do alvitre 
por forma tão ruidosa, que José Luiz de Mendonça julgou 
necessário para manter a sua reputação de patriota, o for- 
mular um demagógico Preciso da revolução. Foi este o 
primeiro impresso, com data de 10 de Março, de uma typo- 
graphia montada ás pressas, e cujos pertences se compraram 
a um inglez, que por conta de terceiro os mandara vir no 
intuito de crear-se uma gazeta, como a que já existia na Bahia. 
advogado procedeu prudentemente apregoando a 
sua profissão de fé politica, porquanto o movimento de- 
mocrático repercutiu com sympathia em toda a provincia, 
seguindo prestemente de diversos pontos para o Recife 
capitães-móres, Francisco de Paula Cavalcanti, o morgado 
do Cabo e outros, acompanhados de bandos de orde- 
nanças. Fel-os o governo provisório regressar, julgando 
as ordenanças n' aquelle momento excusadas para a defeza 
de um ideal já vencedor no Recife, e não confiando em 
excesso na fidelidade de alguns dos capitães-móres, se- 
gundo o próprio governo depois declarou. Os padres 
especialmente tomaram uma parte activa na propagação 
do triumpho da cidade, triumpho tão completo que nem 
os portuguezes residentes na capitania deixaram de applau- 
dil-o, não só por temor das represálias, como rendidos 
afinal ás palavras carinhosas dos rebeldes. Registra-se 
mesmo, e constitue brilhante testemunho do liberalismo 
do clero, na maioria composto de brazileiros, uma pastoral 
dos commissarios do bispado, que o regiam na ausência 
do titular, na qual as doutrinas democráticas cazam-se ma- 



241 

ravilhosamente com os princípios do christianismo, no es- 
pirito das recentíssimas encyclicas de Leão XIII. 

Em Itamaracá foi o vigário Tenório quem resoluta- 
mente seduziu o commandante da fortaleza a ligar-se á 
causa da revolução, pelo que fizeram o padre secretario 
ajudante do directório; e a primeira festa de congratular- 
ção mencionada depois da revolta é um Te Deum, cantado 
com grande pompa na egreja de Santo António do Recife, 
com a assistência dos membros do governo, vietoriados 
estrepitosamente no seu trajecto para o templo, solemni- 
dade a meio da qual orou o padre Miguelinho. A oratória 
sagrada representava o grande género litterario de uma 
sociedade verbosa, inquieta por achar válvulas á sua con- 
tinência espiritual, e não encontrando desafogo além do 
das tertúlias especialmente concorridas pelo clero. O se- 
cretario do governo era particularmente reputado pela elo- 
quência da sua palavra, e realmente n' aquella occasião 
honrou o género pela uncção commovedora e doce evan- 
gelismo do discurso que proferiu. "Brasileiros e Portu- 
guezes não podião conter as lagrimas; juravão todos mutua 
concórdia. Na Oração não apparecerão nem violentos im- 
propérios contra a Monarchia, nem exagerados elogios á 
republica: descrevendo os dons naturaes, com que o Al- 
tíssimo dignou-se enriquecer o solo Pernambucano, presagia 
s> Orador a perda de tantas riquezas, e a serie innumeravel 
de calamidades, senão persistisse sincera união entre todos 
os habitantes, e se a união não fosse cimentada na obe- 
diência ás Autoridades constituídas" (Muniz Tavares, Hist 
da revol. de l8l7). 

Formavam os sacerdotes a classe mais instruída do 
paiz, e por este próprio facto aninhára-se entre elles o 
mais vehemente amor á liberdade. Verificando entre 
outros auctores esta verdade, o inglez Koster refere -se 
designadamente a trez padres de quem se honrava de ser 
amigo, e aos quaes não poupa o seu caloroso elogio: os 
reverendos Almeida Fortuna, Souza Tenório e João Ribeiro 
Pessoa. O primeiro, então mestre de grammatica em Ita- 
maracá e ainda depois da Independência envolvido na 
politica militante, era um ecclesiastico que, apezar de ter 

Lima, Pernambuco. 16 



242 

residido a maior parte da sua vida no meio mesquinho da 
ilha, possuia uma instrucção quasi illimitada e um admi- 
rável fervor pela scienoia. Souza Tenório, vigário de Ita- 
maracá, pernambucano bacharelado em Coimbra, appare- 
ce-nos como um clérigo zeloso no cumprimento dos seus 
deveres parochiaes, affavel para com os pobres, enérgico, 
corajoso, morigerado e cordato. "Elle toma o trabalho de 
explicar aos plantadores a utilidade dos novos methodos 
de cultura, dos novos machinismos para os engenhos de 
assucar, e de quaesquer melhoramentos de igual natureza 

praticados com êxito nas colónias das outras nações 

Emprega os maiores esforços afim de bem civilizar a sua 
freguezia, prevenindo as cizânias e as prepotências, desen- 
volvendo entre os habitantes a instrucção e os hábitos de 

aceio e hygiene Os sermões sobre pontos de moral, 

pronunciados do púlpito de uma voz grave e sonora por 
este homem de imponente figura, vestido de negro como 
os da sua classe, produziam enorme impressão" (Koster, 
Voyages dans la partie septent. du Brésil). 

O mais sympathico comtudo d' estes excellentes sacer- 
dotes póde-se sem favor chamar o terceiro: cortez, bon- 
doso, amigo dos desvalidos, digno, e de uma extrema deli- 
cadeza de sentimentos. O povo professava pelo padre 
João Ribeiro Pessoa profunda veneração, e para exemplo 
Koster relata que um mulato exprimira-se assim, referindo- 
se a elle: "Si vir uma criança cahir, acode, levanta-a e 
limpa-lhe o rosto, não para que o vejam obrar d' este 
modo, mas porque o seu coração assim o manda" Sobre 
tudo isto, desinteressado e modesto, comquanto a sua 
educação de espirito lhe permittisse aspirar a uma posição 
saliente, como a que lhe veio a caber na republica, sem 
que elle a ninguém acotovelasse para brilhar no primeiro 
plano. Ferdinand Denis, apoiando-se nas notas dominicaes 
do francez Tollenare, espectador da revolução de 1817, 
também dedica ao distincto pernambucano muitas palavras 
de sincera admiração. Era João Ribeiro, segundo escreve 
o historiador francez, feliz na sua pobreza. Consumia os 
longos lazeres da sua capellania no estudo das sciencias 
cosmologicas, sendo um physico intelligente, e na leitura 



243 

dos philosophos que no século XVIII transformaram o 
critério das sciencias sociaes, considerando-as pelo prisma 
do metaphysismo natural. Tinha como auctor favorito a 
Condorcet, porque naturalmente ao seu espirito ardente, á 
sua imaginação viva, sorria a crença férvida do philosopho 
francez na perfectibilidade humana. Ambos sentiam pulsar 
em seus corações a vocação de apóstolos da humanidade; 
ambos anteciparam-se mentalmente a conquistas pelas quaes 
ainda hoje se peleja; e ambos, vencidos nos seus deva- 
neios, desilludidos nas suas esperanças, suicidaram-se para 
escaparem á ignominia do supplieio — Condorcet na pri- 
são, depois de ter seguido a aura e o desfavor dos Giron- 
dinos; o padre João Ribeiro n' uma palhoça, depois de, 
para dar o exemplo das privações, haver acompanhado 
descalço na derrota o exercito dos independentes. 

Como estamos vendo, em todos os espíritos illustrados 
da provincia imperava a convicção da justiça do movi- 
mento e da seguridade dos resultados. Pernambuco, escra- 
visado a um despotismo ignaro, podia e devia, no geral 
dizer d' aquella classe, constituir um estado independente; 
e até certo ponto não se encontravam os que assim pen- 
savam destituídos de razão. A provincia estava, pelo 
menos, em condições de adeantamento iguaes ás de varias 
das colónias hespanholas que por esse tempo eífectuaram 
a sua emancipação. Antes da abertura dos portos brazi- 
leiros, a exportação da capitania era de metade superior 
á sua importação, e si a convivência com os extrangeiros 
e o desenvolvimento das relações entre os habitantes crea- 
ram necessidades impossíveis de satisfazer sem recorrer- 
se aos mercados europeus, a balança do commercio não 
se desequilibrou por isso extraordinariamente. No anno 
anterior á revolução, a exportação ainda excedia em um 
terço á importação, entrando n' esta o valor dos africanos. 
O rendimento publico crescera sensivelmente, sendo em 
1812 de mais de setecentos contos annuaes, afora os mo- 
nopólios e estancos; isto apezar do péssimo systema fiscal 
portuguez, e das difficuldades de cobrança particulares a 
um, paiz vasto e de população diluída. A 6 de Março de 
1817 os rebeldes encontraram no erário seiscentos contos 

16* 



244 

de sobras, arrecadados pela industria de Caetano Pinto, 
cuja habilidade de recebedor tornára-se conhecida. A im- 
migração também augmentava com constância, e a agri- 
cultura, ainda que adstricta ao assucar e algodão, incitava 
esta prosperidade com os seus proventos: o algodão estava 
occupando na tabeliã annual das exportações o primeiro 
lugar, orçando em 1816 por 4.000.000 de arrobas, ao passo 
que o assucar não subia além de 3.600.000. As sahidas 
do porto do Recife representavam realmente a producção 
da capitania, pois que, si vinham embarcar a Pernambuco 
géneros da Parahyba, Rio Grande do Norte e Ceará, por 
outro lado tomavam a direcção da Bahia muitos dos pro- 
duetos das comarcas de Alagoas e Pajehú. 

O grosso da população livre, principalmente a do in- 
terior, pequeníssima para a extensão do território da pro- 
víncia, era certamente incapaz pelo acanhado das suas 
idéas de comprehender os motivos políticos de um movi- 
mento autonomista: mas hoje mesmo, nos paizes de maior 
civilização, o que representam verdadeiramente as moder- 
nas conquistas, o suffragio universal senão a viciação de 
um generoso pensamento, o regimen representativo senão 
a tutela de uma oligarchia? Os lavradores, e sertanejos 
criadores de gado de Pernambuco, que formavam a classe 
media, preoceupavam-se certamente mais com os annos de 
secca, de cujos effeitos desoladores, ruinosos em outras 
capitanias, os viajantes nos legaram esboços suggestivos, 
do que com as vantagens da democracia. Os bons costu- 
mes d' esses habitantes laboriosos e independentes repre- 
sentavam todavia uma caução da estabilidade de quaesquer 
instituições que se implantassem, e cuja expansão se tra- 
duziria forçosamente por um acerescimo futuro de bem 
estar para aquella parte considerável da população, segre- 
gada do progresso pela incompetência da metrópole. Re- 
ferem -se com louvor os contemporâneos extrangeiros á 
confiança com que podiam percorrer os sertões do Norte. 
Homicídios só se apontavam os por vingança; rixas as 
que o ciúme armava, ou que provocavam demarcações de 
terras entre proprietários e offensas ao amor próprio; rou- 
bos os de animaes, recrutando-se raras vezes os auetores 



245 

entre as classes ínfimas, e gozando os ladrões sem temor 
da impunidade offerecida pelas condições deficientes da 
administração. 

A fraqueza e venalidade da acção judicial chegavam 
a permittir que os senhores de engenhos mais faustosos 
alimentassem ranchos de mercenários homisiados dos cen- 
tros, com que defendiam suas orgulhosas prerogativas. 
Nem era difficil aos plantadores manterem tal indepen- 
dência das leis, visto que apenas os ouvidores das quatro 
comarcas de Olinda, Pernambuco, Alagoas e Pajehú, e os 
trez juizes de fora ou lettrados do Recife, Goyanna e Penedo 
podiam dizer-se magistrados habilitados ao desempenho 
das suas funcções. Escolhiam-se os juizes ordinários ou 
leigos da maioria das villas entre os indivíduos menos 
idóneos, cuja ignorância completa da profissão escudava- 
se oom a competência do assessor, geralmente um ex- 
escrivão habituado ás rabulices do foro. Nas villas dos 
índios o burlesco então assumia incríveis proporções. O 
juiz., indígena é claro, nem ler sabia, e o seu papel todo 
nominal era de facto exercido por qualquer mulato, ás 
vezes carpinteiro ou alfaiate, que nos dias de vereação ia 
assistir a improvisada auctoridade. "Esta immediatamente 
se encarrega do Cavallo do Senhor Escrivão; Leva-o a 
beber agoa; e por fim vae peial-lo aonde possa commo- 
damente pastar. Fica entretanto o escrivão descansando; 
Senhor aliás, da casa, molher, e filhos do officioso Juis; 
que na volta lhe cede o melhor lugar da Choupana, para 
dormir, e passar a noite; logo em amanhecendo começa 
o Juis a ornar-se com os velhos, e emprestados arreios da 
sua dignidade, e a horas competentes marcha para hum 
Pardieiro, com alcunha de Casa da Camera; aonde lidas 
as petições, que o escrivão fez na véspera, são despacha- 
das pelo mesmo escrivão em nome do Senhor Juis Ordi- 
nário; e pouco depois se desfaz o venerando Senado, e 
apparece os Senadores de camiza e ceroulas, e de caminho 
para as suas tarefas" (Bevolucções do Brasil). O auctor 
anonymo d' esta curiosa relação ajunta com graça que 
Pombal, entregando pela expulsão dos jesuítas os índios 
novamente á natureza, quiz provar a sem razão da infalli- 



246 

bilidade d' aquelle papa que definiu a racionalidade dos 
indígenas. 

A indole pernambucana resgatava porém pelo seu ca- 
valheirismo muitas das lacunas da estructura judiciaria e 
da organização administrativa. Assim, a hospitalidade aos 
viandantes e o agasalho aos extrangeiros exerciam-se do 
modo mais captivante, em contrario da falta de segurança 
que seria para temer-se. Diz Koster que em suas longas 
digressões a cavallo pelas terras do Norte, de Pernambuco 
ao Maranhão, apenas uma vez lhe recusaram pousada; e 
fallando na ausência de furtos, aponta somente o desappa- 
recimento em uma parada de alguns objectos de pequena 
monta. Esta urbanidade de maneiras revestira ainda entre 
os fazendeiros, que entretanto usufruíam privilégios de se- 
nhores feudaes, a feição de humanidade para com os ne- 
gros, os quaes gozavam de descanço aos domingos e repe- 
tidos dias de festa catholicos, conseguiam alguns d' elles 
alforriar-se á custa do próprio trabalho praticado nas horas 
de repoiso, ou por generosidade dos donos, e eram geral- 
mente tratados sem dureza. Louvando semelhante bran- 
dura, desconhecida nas possessões inglezas, narra o mesmo 
escriptor que teve noticia durante os annos de seu domi 
cilio no Brazil de vários casos de rigor, mas de um único 
exemplo de crueldade systematica e continua exercitada 
com escravos. A opinião infamava os auctores de taes 
attentados, e elles encontravam n' esta deshonra, mais do 
que na severidade da justiça, o castigo de seus crimes. 
Quasi sempre, todavia, a situação de um escravo brazileiro 
no principio do século era talvez preferível á actual posi- 
ção de milhares de proletários da França ou da Allemanha, 
e de certo superior á dos trabalhadores sicilianos, os mi- 
neiros por exemplo, cedidos em crianças por preços irri- 
sórios a desapiedados empreiteiros, sujeitos a fadigas e 
privações extremas, brutalizados com pancadas e até com 
requintes de crueldade emquanto se não resgatam; e, 
mesmo depois de adultos e alforriados, vegetando quasi 
faltos de alimentação, desconhecendo a carne e o vinho, 
dormindo nas cavernas e excavações vizinhas da mina, 
dobrados ao pezo dos mais duros serviços e da mais negra 



247 

miséria (Adolfo Rossi, no jornal romano La Tribuna). Ou 
ainda á dos mujiks russos, obrigados no continente civi- 
lizado por excellencia a pagar suas contribuições sob pena 
de açoites, e a trabalhar durante o inverno treze e quinze 
horas diárias nas fabricas afim de escaparem á miséria 
dos campos; não possuindo sequer a noção exacta de liber- 
dade, e até resignando -se ás fadigas das officinas em 
troca da simples alimentação (Jules Huret, La Question 
soei ale). 

Compare-se tanto opprobrio contemporâneo em homens 
livres, esfomeados sem um queixume, chibatados sem uma 
revolta, com a vida methodica e benigna que os escravos 
levavam em 1810 nas plantações dos religiosos benedicti- 
nos e carmelitas de Pernambuco, de onde eram banidas 
as próprias punições corporaes, e foi finalmente expulsa a 
escravidão uns vinte annos depois. "Negros destinados á 
instrucção ensinam ás crianças as orações: o hymno á Vir- 
gem é cantado por todos os escravos ás sete horas da 
tarde, hora a que cada um deve estar recolhido. Deixam- 
se os pequenos brincar durante a maior parte do dia; suas 
únicas oceupações são, a certas horas, prepararem algo- 
dão para as lâmpadas, escolherem os feijões de semear, 
ou cousas análogas. Quando chegam aos doze annos, 
as raparigas empregam -se em fiar algodão para a con- 
fecção do panno commum da terra, e os rapazes guar- 
dam o gado; si alguma criança mostra disposição par- 
ticular para qualquer officio, tem-se o cuidado de desen- 
volver esta inclinação e de educar-se a criança segundo 
o seu gosto e vocação. Alguns rapazes aprendem musica, 
e servem de meninos de coro nas festas do convento: 
podem cazar-se aos dezesete ou dezoito annos, e as rapa- 
rigas aos quatorze ou quinze, recommendando-se os matri- 
mónios, que aliás são repetidos. Logo depois de cazados, 
entram os negros a trabalhar regularmente nos campos: 
frequentemente elles próprios não querem esperar a idade 
fixada pela regra, porque não lhes é permittido cultivarem 
por sua conta emquanto não trabalhem para seus senhores. 
Quasi tudo faz-se por empreitadas, e de ordinário estas 
empreitadas estão terminadas ás trez horas da tarde, 



248 

o que dá tempo aos escravos laboriosos para amanha- 
rem suas terras. Além dos domingos e dias santifi- 
cados é-lhes concedido o sabbado, afim de poderem 
tratar de sua subsistência; os que são diligentes raras 
vezes deixão de conquistar sua alforria. Os frades 
não se reservam direito algum sobre as terras forneci- 
das para a subsistência dos escravos; aquelle que 
morre ou resgata sua liberdade, pôde íegar o campo ao 
companheiro que tiver escolhido para herdeiro. Os escra- 
vos velhos são cuidados com o maior carinho" (Koster, 
ob. cit.). 

As maiores tyrannias conhecidas eram as commettidas 
pelos capitães-móres na forma barbara por que eífectuavam 
o recrutamento para os regimentos de linha, feito entre 
as ordenanças sem resquicio de imparcialidade, ao sabor 
dos caprichos d' aquelles mandões. O serviço militar tor- 
nára-se supinamente antipathico á população, mormente 
depois que os soldados deixaram de servir em seus distric- 
tos, onde podiam continuar nas fileiras, perto das famílias, 
exercendo os primitivos mesteres. Esta nostalgia junto 
com a falta de escrúpulo que presidia a muitas escolhas, 
desprezando-se os Índios e negros para admittirem-se in- 
divíduos de péssima reputação, constituíam as causas da 
relaxarão da tropa de linha, bandos de mercenários promp- 
tos a venderem-se por um accrescimo de soldo. 

Peor impressão porém sobre os costumes do que a 
motivada pelo desregramento militar, exercia-a a numerosa 
escravaria, a qual em 1817 abrangia quasi metade dos 
seiscentos mil habitantes que Pernambuco possuía, em um 
total approximado no Brazil de mais de quatro milhões, 
com os índios selvagens. Os effeitos domésticos d' aquella 
instituição revelavam-se na grande mestiçagem : mas onde 
sentiam-se deploravelmente era na immoralidade do sys- 
tema estabelecido por muitos senhores de viverem á custa 
do aluguel ou dos jornaes de seus escravos; na molleza 
gerada no plebeu livre pelo deprimente trabalho servil, que 
afastava toda concorrência; e finalmente na libertinagem 
brotada da promiscuidade das senzalas, injuriando o recato 
das habitações. A moralidade, si em sociedade alguma é j 



249 

comprehendida como a entendem os tratadistas austeros, 
muito menos poderia ser mantida n' um agrupamento de 
senhores e escravos, em que a própria religião, embora 
pregada por sacerdotes de espirito desannuviado , compli- 
cava-se na educação familiar com arraigadas superstições 
e vulgares crendices, as quaes embotavam o gume das sãs 
doutrinas. O clero regular ajudava em não pequena es- 
cala a depravação, a seguirmos a idéa, si bem que certa- 
mente exaggerada, que o auctor do manuscripto recente- 
mente publicado — Bevolucções ão Brasil — nos fornece 
dos conventos pernambucanos: "Dizia-se pois em Pernam- 
buco, e provava-se com muitas anecdotas, que Carmo, São 
Bento, e São Francisco erão três coutos, ou baluartes, em 
que se acastellavão a ignorância, o atrevimento, e liber- 
tinagem de costumes. Que os Mariannos apenas prestavão 
para mendicarem esmollas para — a Sancta, e mais Fra- 
dinho! Que os quatro, ou sinco Barbinos Italianos podião 
soffrivelmente compor ou entrar nhum grande Romance 
Itálico — Pernambucano, no qual poucas paginas serião 
edificantes. Que os Congregados do Oratório compravão 
a sua equivoca fama de — Manigrepos (ermitães do Pegú 
mencionados por Fernão Mendes Pinto nas Peregrinações) 
— com sinco grandes virtudes: I a . servirem de empenho 
para tudo: 2 a . assistirem aos moribundos: 3 a . darem ex- 
plendidos banquetes : 4 a . pagarem as suas dividas : 5 a . em- 
prestarem dinheiro aos seus amigos". Felizmente tal cor- 
rupção não era parallelamente alimentada, e portanto ag- 
gravada, pelos conventos de freiras: na capitania apenas 
existiam acreditados recolhimentos para asylo de filhas e es 
pozas mal procedidas. 

A facilidade da vida material, que entre nós desco- 
nhece as agruras da da velha Europa; a estimação do 
trabalho agrícola e da industria pastoril; e o limitado das 
ambições pela carência dos estimulos políticos dos orga- 
nismos independentes, emprestavam a essa sociedade um 
tom de commum felicidade, que nem se achava embaciada 
pelas rivalidades de castas, fermentantes em outras coló- 
nias. No Brazil a cor não significava ostracismo para 
aquelles que se elevavam acima da multidão, sendo dia- 



250 

riamente transgredidos na pratica os obsoletos regulamen- 
tos portuguezes prescrevendo aos mestiços varias prohibi- 
ções de cargos. Era este um resultado das condições 
mesmo da colonização peninsular, a qual, longe de eliminar 
como a ingleza os povos conquistados de raça inferior, ou 
de submettel-os em classe desprezível como a hollandeza, 
prefere misturar-se com elles, achando em semelhante cru- 
zamento uma recrudescência de vigor, e conseguintemente 
uma garantia da adaptação. Muito mais profundo do que 
qualquer antipathia de cor cavára-se o ciúme que separava 
dos portuguezes os brazileiros, alheiados da metrópole por 
crescente differenciação physiologica e moral. Aquella 
fraternização das raças do producto nacional representava 
mais uma condição, e não a menos segura e valiosa, de 
vida própria para a Republica Pernambucana. 

Um só e sombrio receio, aliás bem justificável, se le- 
vanta no espirito d' aquelle que dispõe-se a lamentar a as- 
phyxia da rebellião de 1817, considerando-a como deter- 
minante do progresso nacional. Houvesse-se declarado e 
mantido independente o Estado, não mais seria elle gover- 
nado pela classe que Auguste de Saint-Hilaire intitulava "a 
patriarchia aristocrática", a qual em 1710 se alvorotara e 
continuara depois a revelar o seu rancor á metrópole; mas 
succumbiria, fácil preza, ás mãos do caudilhismo irrequieto 
e sanguinário. São por vezes perigosas as supposições no 
terreno histórico : aqui comtudo é perfeitamente licito dizer 
que os militares, agentes principaes do movimento, abafa- 
riam sem dó nem intelligencia o elemento doutrinário nas 
casamatas dos fortes, nos calabouços dos quartéis e nos 
campos de execução. E não só teriam sido levados de ven- 
cida os sonhadores incorrigíveis, como também a oligarchia 
territorial e conservadora que veio a predominar durante o 
Império mercê da manutenção da escravatura, contra 9r 
qual se disse ter campeado a insensata revolução de 1848, 
e cujo afastamento do throno favoreceria altamente em 
1889 a installação da republica. Pernambuco tornar-se- 
hia, incomparavelmente mais do que rezam os seus an- 
naes , theatro de scenas de degradante vida politica, 
toda ella acalentada na atmosphera carregada dás isaser- 



251 

nas: haveria sido desde logo uma Bolivia ou um Para- 
guay, pedestal de um Melgarejo brutal ou de um Lopez 
ambicioso. 



XXII 

Um dos primeiros actos do governo provisório foi na- 
turalmente recompensar a tropa de linha, que tão desas- 
sombradamente determinara o êxito da revolução, e cuja 
fidelidade julgava-se assim segurar. Os soldados recebe- 
ram augmento de soldo e promoções os officiaes, passando 
a coronéis os capitães Domingos Theotonio, Barros Lima 
e Silva Pedroso, militar o ultimo que, bem como o tenente 
António Henriques Rabello, distinguira-se pela sua activi- 
dade no dia 6 de Março, grangeando crescido numero de 
adhesões á causa republicana. immediato cuidado do 
directório voltou-se para fomentar a rebellião nas capitanias 
vizinhas, de forma que, quando se produzisse a inevitável 
reacção da corte, as provineias sublevadas pudessem oppôr- 
lhe a forte resistência de uma leal confederação. 

Na Parahyba nem se tornou preciso inflammar a pro- 
paganda. O movimento rebentou por si em Itabayana á 
chegada das novas do Recife, iniciado por alguns jovens 
educados no seminário de Olinda, escola brazileira de boas 
maneiras e de adeantamento politico. Os proprietários ru- 
raes, os militares e os populares que marcharam para a 
capital da capitania, onde as lojas maçónicas havia annos 
nutriam-se dos novos ideaes, foram alli recebidos com effii- 
são, sendo proclamado o novo regimen no dia 13 de Março, 
e organizada uma junta temporária a exemplo da de Per- 
nambuco. No Rio Grande o governador, aliás pernam- 
bucano e amigo do padre João Ribeiro, quiz manter-se fiel 
á monarchia, e ao receber o appello fraternal da junta do 
Recife, procurou entender-se com o coronel de milícias 
António de Albuquerque Maranhão, opulento senhor de 
engenho, possuidor de immensos latifúndios, generoso am- 
phitryão e a primeira influencia da província no dizer de 



252 

um viajante, afim de juntos facilmente esmagarem qual- 
quer ameaço de sedição. António de Albuquerque porém, 
a quem os revolucionários de Pernambuco se haviam ao 
mesmo tempo dirigido, impellido pelo ardente patriota vi- 
gário Montenegro, recusou tal alliança e deu voz de pri- 
são ao governador, o qual foi conduzido para o Recife. A 
população, ao que parece, não acolheu com enthusiasmo 
a mudança, mas também não se lhe mostrou hostil, e pe- 
rante um reforço de tropa de linha vindo da Parahyba, 
ficou installado a 19 de Março o governo provisório local. 
Foram menos felizes as missões encarregadas ao sub- 
diacono Alencar e ao padre Roma, de pregarem o evan- 
gelho da Revolução, e incitarem o Ceará e a Bahia á 
prompta acceitação do regimen democrático. Alencar, cea- 
rense que estudava no seminário de Olinda, encetou pela 
villa natal a execução da incumbência recebida: chegou o 
Crato a amotinar-se, mas a algazarra foi rapidamente aba- 
fada pelo capitão-mór do districto, e prezo o propagandista, 
que deu entrada algemado em Fortaleza. O padre Roma, 
José Ignacio Ribeiro de Abreu e Lima, monge de vida 
irregular, dizendo-se secularisado, partiu por terra á guisa 
de apostolo de uma religião universalista, certo de que as 
populações se levantariam electrisadas na sua passagem, 
saudando o novo Verbo em um delírio de liberdade. Na 
comarca das Alagoas foi-lhe com effeito lisonjeira a for- 
tuna, acclamando a tropa e o povo o governo revolucio- 
nário; porém na Bahia, para onde o exaltado ecclesiastico 
seguio serenamente n' uma jangada, e com cuja adhesão, 
bem como com a excitação do Rio, contava-se quasi cer- 
tamente no Recife pelos anteriores compromissos, a sorte 
correu-lhe adversa. O governador, conde dos Arcos, pre- 
venido por fugitivos de Pernambuco dos eventos de 6 e 
7 de Março e da missão do padre Roma, preparava-se para 
impedir o alastramento na Bahia de qualquer fagulha sub- 
versiva, pôr a mão no enviado dos rebeldes, e armar a 
resistência legal contra a sedição recifense. Neutraliza- 
vam-se entretanto os papeis incendiários da junta e os 
boletins azedos do governador, permanecendo a capitania 
tranquilla sob esse tiroteio de phrases. O infeliz sacerdote, 



253 

agarrado ao desembarcar em Itapoan a 26 de Março, foi 
julgado sem demora por um tribunal militar e sentenciado 
á morte, sem que das suas respostas houvesse resultado 
compromettimento para qualquer correligionário, tendo até, 
ao avistar os soldados que effectuaram a sua prisão, inu- 
tilizado os papeis que comsigo trazia. Nos últimos mo- 
mentos procedeu o padre Roma com fria coragem: pri- 
meira victima, cahiu, o peito varado pelas balas, murmu- 
rando a illusoria palavra — Libertação — , que constituirá 
o anhelo da sua vida tão brutalmente arrancada. 

Não se mantivera durante esse tempo ociosa a junta 
do Recife. Prohibira as sahidas de cidadãos do estado 
sem licenças especiaes, sob pena de sequestro temporário 
dos seus bens. Embargara como garantia dos actos do 
governo central as propriedades dos súbditos portuguezes. 
Abolira alguns tributos odiosos, equilibrando as receitas 
do erário, assim desfalcadas, com a canalisação de outras 
verbas que a corte absorvia. Avocara ao thesoiro publico 
as dividas á extincta Companhia de Commercio pombalina, 
as quaes estavam sendo cobradas por uma administração 
particular, desobrigando dos juros accumulados e pezadis- 
simos os lavradores que dentro de dois annos pagassem o 
capital das suas dividas. Decretara a mais plena Uberdade 
de commercio, supprimindo os chamados géneros de mono- 
pólio, e isentando dos direitos de importação os cereaes, 
os armamentos, as munições e os objectos scientificos. 
Finalmente occupára-se da defeza, congregando a cavallaria 
miliciana; animando a formação de novos corpos de ca- 
vallaria regular pela concessão do posto de capitão aos 
que os levantassem e preparassem, favor do qual apenas 
Domingos Martins se aproveitou para um seu irmão; com- 
prando as escassas armas apresentadas á venda pelos parti- 
culares; mandando vir a guarnição e os sentenciados de 
Fernando de Noronha, reforço que não chegou a ser utili- 
zado por ter ido parar á Parahyba, e ahi haver-se disper- 
sado, quando já campeava a contra-revolução; armando 
por ultimo em guerra quatro fracas embarcações. 

Domingos José Martins e o padre João Ribeiro eram 
pela sua audácia e convicção as columnas do governo 



254 

revolucionário, no qual o intelligente jurisperito Mendonça 
"sempre pareceo constrangido" (Os mart. pern.). A energia 
dos dois primeiros deveram -se todas aquellas medidas 
dictatoriaes, as únicas permittidas pela brevidade do tempo 
e pela estreiteza das condições, e que em sua precipitação 
nunca afastaram-se de uma louvável moderação. Sem pos- 
suir a disciplina mental do padre, o negociante era com- 
tudo senhor de maior dose de resolução: além de que 
conhecia melhor o meio em que se agitava a junta. O 
sacerdote, espirito mais contemplativo, enlevado pelo 
abstracto das theorias philosophicas, ainda que não despre- 
zando o ensejo da sua applicação, "ignorava, tanto a arte 
de dirigir as paixões, como a intriga: capaz de sacrificar- 
se pela pátria, não saberia porém salval-a" (Notas de Tol- 
lenare, na obra de Perd. Denis). Domingos Martins pélas 
próprias circumstancias da sua vida apresentava-se despido 
de semelhante idealismo. 

Nascido no Espirito-Santo, negociara elle, com pouca 
seriedade segundo é fama, na Bahia, em Lisboa e por fim 
em Londres, d' onde, fallida a importante casa commercial 
de que era caixa, passara ao Ceará, ganhando na exportação 
do algodão os cabedaes com que veio para o Recife. Na 
cidade pernambucana continuou a commerciar, mas sem 
grande resultado, pelo que dedicou-se simultaneamente á 
agricultura, auferindo de um engenho no Cabo alguns bens 
de fortuna. Os que com elle trataram pintam-n' o ambi- 
cioso, enfatuado na apparencia, porém affavel para com a 
gente de todas as classes, desassocegado, visando aos íins 
com bastante falta de escrúpulos, amigo de mandar e de 
gastar. Iniciado na maçonaria, o grande arsenal contem- 
porâneo das armas revolucionarias, dera Martins largas ao 
seu temperamento trefego, e entretivéra em Londres activas 
relações com vários democratas ardentes. Era entre outros 
seu commensal o general Miranda, soldado da campanha 
da independência dos Estados Unidos e do exercito de 
Dumouriez, proscripto da França pelo Directório, espirito 
constantemente embriagado da idéa de emancipar a Ame- 
rica Hespanhola, e que, não descoroçoando com uma in- 
fructifera tentativa realizada em 1805, representou em 1810 



j 



255 

o primeiro papel na sublevação da Columbia, suffocada pelo 
exercito realista, e finalmente levada a cabo por Simão 
Bolívar, ao tempo que o infeliz Miranda expirava n' um 
cárcere hespanhol. Nas conversações de americanos a 
Eevolução assumia naturalmente o caracter politico, pri- 
mando e englobando a independência colonial a reivindi- 
cação social de que, depois de derruído o throno, a França 
fizéra-se logicamente a defensora. O anhelo separatista 
era commum ao novo continente, e a revolução pernam- 
bucana de 1817 foi um elo mais da grande empreza da 
libertação da America Latina, face transatlântica do movi- 
mento de progresso que na Península provocou as fundas 
agitações adormecidas pelo constitucionalismo, e de que 
foram primeiras manifestações a revolução hespanhola de 
1812 e a conspiração portugueza, chamada de Gomes 
Freire, em 1817. Domingos Martins nas suas viagens na 
Europa, nas sessões secretas dos pedreiros-livres, ouvira 
as aspirações particularistas dos americanos; presentira a 
efficacia de um levantamento geral das colónias contra 
metrópoles carunchosas e desprovidas de largos meios de 
repressão; assistira ao irromper das idéas liberaes nos 
paizes mais conservadores do Velho Mundo, e n' estas ob- 
servações baseara a consciência do triumpho, que quasi o 
não abandonou até o triste desfecho da nossa sublevação, 
mesmo depois de destruídas as suas illusões de inter- 
nacionalismo. 

Goraram inteiramente os dois pedidos de apoio extran- 
geiro endereçados pela junta do Recife, logo depois de 
declarada a autonomia do Estado. O rico pernambucano 
Cruz Cabugá, cuja bolsa abrira -se sempre francamente 
para a projectada emancipação, mandado agora á America 
do Norte afim de obter o reconhecimento por parte dos 
Estados Unidos, alliciar officiaes francezes, dos emigrados 
de França sob a Restauração, e alcançar armas e outros 
petrechos de guerra, nada logrou conseguir. A republica 
de Franklin e de Washington não se mostrou disposta a 
fazer democracia de exportação; antes patenteou prezar 
mais intimamente as relações commerciaes tão bem aco- 
lhidas pela corte portugueza. Ainda não fora a esse tempo 



256 

formulada a doutrina de Monroe, repellindo a ingerência 
européa no continente americano. O enviado do directório 
só poude expedir trez officiaes francezes, e algum arma- 
mento comprado reservadamente, pois que tal sahida para 
Pernambuco fora logo prohibida nos Estados Unidos e em 
Inglaterra — que tudo chegou quando já reinava na capitania 
a paz varsoviana. Hyppolito José da Costa, redactor do 
Correio Brasiliense de Londres e amigo de Martins, a quem 
a junta, influída com a petição de novo exequatu/r formu- 
lada pelo cônsul britannico a exigência do próprio direc- 
tório, enviara credencial de representante do novo estado, 
nem se expoz a soífrer do governo inglez uma recusa de 
audiência. Longe d' isso o jornalista, reverencioso cultor 
da legalidade, hostilizou abertamente no seu periódico o 
movimento, que a Grã Bretanha não podia aliás ver com 
bons olhos, dada a sua preponderante ingerência nos ne- 
gócios peninsulares, e a sua posição de excepcional in- 
fluencia junto de Fernando VII e de D. João VI. Demais, 
governava-a Lord Castlereagh, o irlandez algoz da Irlanda, 
dedicadissimo servidor da Santa Alliança dos Reis contra 
os Povos, consagrada no então recente congresso de Vienna, 
reunido para esbulhar a França das odiosas conquistas 
napoleónicas e esmagar a hydra da Revolução, e ao qual 
fora delegado o primeiro ministro de Jorge III. 

As novas da derrota, seguindo de perto as da victoria, 
vieram de molde a confirmar a attitude hostil das duas nações 
havidas como prototypos da liberdade. Surgiu a reacção 
monarchica, assombreando funebremente o berço da demo- 
cracia brazileira. Trez embarcações mercantes, armadas 
em guerra pelo conde dos Arcos á custa do temor dos 
bahianos compromettidos por suas ligações com os republi- 
canos de Pernambuco, bloquearam o porto do Recife, para- 
lysando os movimentos da esquadrilha rebelde. Espalhá- 
ram-se proclamações absolutistas convidando os habitantes a 
abandonarem e darem caça aos bandidos, as quaes eram lidas 
sem desfavor; e a restauração do dominio portuguez, iniciada 
no Penedo, caminhou rapidamente pelas Alagoas, marchando 
os soldados da contra-revolução contra o reforço de tropa 
de linha que José Mariano de Albuquerque Cavalcanti 



257 

fora encarregado de levar áquella comarca. O simulacro 
de combate do Porto de Pedras, travado entre os destaca- 
mentos das duas parcialidades, provocou a fuga de José 
Mariano e a debandada do seu troço, em parte feito prisio- 
neiro. Pouco depois, nos primeiros dias de Abril, chega- 
vam novos navios do Kio de Janeiro a reforçarem o blo- 
queio, extendendo-o por toda a costa das capitanias suble- 
vadas, e secundarem o exercito realista, "limpando a fideli- 
dade nacional desta mancha ainda não vista na Monarchia 
portugueza" (manifesto do vice-almirante Rodrigo Lobo). 

Com tamanha exhibição de força da corte os ânimos 
iam -se acobardando, e ganhando terreno o regresso ao 
primitivo governo, tendência favorecida pela ausência de 
civismo da educação portugueza, e pelos ciúmes de mando 
que infallivelmente entravam a grassar entre os oligarchas. 
No Rio Grande, quando ainda não havia alli chegado in- 
timação alguma do centro, foi o novo regimen varrido por 
um movimento de rápida execução, sendo assassinado o 
coronel António de Albuquerque Maranhão, auctor da an- 
terior rebellião. Na Parahyba, a contra -revolução exten- 
deu-se com êxito igual dos campos á capital, sem op- 
posição apreciável, reunindo -se novamente a tropa em 
torno da bandeira monarchica. Em Pernambuco mesmo, 
foco todavia incandescente de jacobinismo, para onde 
marchava ás pressas da Bahia o soccorro dirigido pelo 
marechal Cogominho de Lacerda, em numero de oitocentos 
soldados na estimativa de Muniz Tavares, sem contarem-se 
as milícias sergipanas e os bandos de caboclos, o descon- 
tentamento patenteava-se nas repetidas adhesões ás procla- 
mações restauradoras. 

Não longe do Cabo, no engenho Utinga, encontrou 
Francisco de Paula Cavalcanti, um dos Suassunas improvi- 
sado general e mandado com um variegado corpo de exer- 
cito a sustentar a republica nas Alagoas, um centro de 
propaganda realista. A tal propaganda não eram os Suas- 
sunas perfeitamente extranhos, achando-se ligados por equí- 
vocos conluios de reacção ao ouvidor António Carlos, con- 
forme resalta dos próprios inquisitoriaes interrogatórios, em 
que elles, em vez de procurarem como outros réus lealmente 

Lima, Pernambuco. 17 



258 

livrar-se do supplicio mediante singelas ou mesmo frouxas 
denegações, descobriram o seu doble e em verdade pouco 
fantasiado comportamento. Em Utinga foram os indepen- 
dentes maltratados á chegada n' uma emboscada, cercados 
quando acampados no engenho, e por fim obrigados a retro- 
ceder depois de sanguinolento combate de resultado duvidoso. 
Duas villas, Santo Antão e Páu d' Alho, bandearam-se aber- 
tamente com os portuguezes. Luiz Francisco de Paula Caval- 
canti, outro Suassuna, enviado a reprimir a insurreição monar- 
chista na primeira, allegando encontrar as milicias já divi- 
didas e a resultante impossibilidade de formar um solido 
troço expedicionário, parou a meio do caminho. José Mariano, 
destacado para conter a segunda villa rebelde, poude reunir 
aos seus soldados alguns guerrilheiros, mas, recebido com 
um valente tiroteio, viu-se forçado a recuar para Iguarassú. 
A democracia concentrára-se no Recife como em balu- 
arte seguro, e proclamara a pátria em perigo, sem que 
porém os alistamentos se parecessem no enthusiasmo com 
os famosos alistamentos francezes de 1792. Decretou a 
junta obrigatório o serviço militar para os patriotas des- 
occupados, sob pena de morte, e chamou ás fileiras os 
escravos, fascinando-os com a alforria e promettendo in- 
demnizar os senhores depois da guerra: não colheram 
estas disposições muito melhor resultado. Outrotanto acon- 
tecera á creação das guerrilhas, confiada a alguns 'sacer- 
dotes e particulares como o padre Souto -Maior e Pedro 
Ivo; e a varias levas forçadas. A republica podia haver- 
se como perdida, assassinada pela mesquinhez de ideal 
politico da massa da população, e pelo habito inveterado 
da escura sujeição colonial. O coronel Pedroso já ensaiava 
no Recife, diariamente abandonado pelos habitantes, e até 
pelos membros e adjunctos do governo acoitados n' um 
subúrbio, um arremedo do Terror, prendendo e fuzilando 
sem processo os desertores, ao tempo que o conselheiro 
Pereira Caldas reclamava com uma frieza que o fez alcu- 
nhar de Robespierre, medidas sanguinárias contra os euro- 
peus. Enchiam-se as prisões de suspeitos, em virtude de 
denuncias a que se não exigiam provas, e no meio da 
anarchia submergira-se toda a sombra de organização re- 



259 

guiar, tendo a junta, desmoralizada pela guerra civil, reco- 
lhido mesmo o seu projecto de constituição, cujas excellen- 
cias não lograriam mais galvanisar o fervor revolucionário. 

Dois artigos de resto da chamada lei orgânica haviam 
excitado reparos e suscitado divergências, quando ella foi 
submettida pelo directório ao exame e referendum dos ci- 
dadãos notáveis em todas as camarás municipaes. O esta- 
belecimento da liberdade religiosa interpretou-se como de- 
vendo trazer a ruina do catholicismo, e o artigo teve de 
ser revogado á vista do descontentamento popular. A 
declaração dos direitos do homem despertou a descon- 
fiança dos senhores de escravos, que anteviram o desba- 
rato das suas plantações. Houve a junta que explicar 
uma suspeita que dizia honral-a, assegurando a validade 
da propriedade ainda a mais opposta ao ideal da justiça, 
e postergando as medidas abolicionistas, as quaes se ini- 
ciariam pela diminuição do escândalo do trafico, no intuito 
de realizar -se uma emancipação "lenta, regular e legal, 
embora lhe sangrasse o coração ao ver tão longínqua uma 
epocha tão interessante." O projecto da primeira consti- 
tuição pernambucana registrava as varias liberdades, de 
imprensa, de opinião e outras, e encerrava a separação 
dos poderes executivo, legislativo e judicial, exercido o 
primeiro por um só individuo, eleito temporariamente e 
mediante largo suffragio directo, sendo igualmente electi- 
vos os dois outros, inamovivel porém o terceiro. Em carta 
que foi conservada do padre João Ribeiro falla-se mais na 
fundação de uma capital central, provavelmente no estado 
da Parahyba, para não julgar-se que o Recife pretendia 
impôr-se á confederação. 

Na impaciência do seu temperamento, Domingos Mar- 
tins não poude assistir inactivo ao destroço da republica. 
Lançando mão de parte das forças que tinham ficado esta- 
cionadas no Recife, o negociante no ultimo de Abril mar- 
chou para o sul em auxilio de Francisco de Paula Caval- 
canti. MultiplicaVJam-se as defecções, entre outras a de 
Corrêa de Araújo, membro da junta, quando se juntaram 
os dois corpos de exercito, e um conflicto pueril de juris- 
dicção destruio a esperança derradeira dos que teimavam 

17* 



260 

em fiar dos soldados insurrectos a salvação da causa per- 
nambucana. As forças restauradoras entravam justamente 
em Serinhaem, e Martins, separando-se de Francisco de 
Paula, foi collocar-se com o seu bando ao alcance da 
vanguarda realista, composta de milicianos e indios das 
Alagoas. Acommettidos de surpreza, nem defender-se 
puderam os rebeldes, cahindo o negociante e o guerri- 
lheiro padre Souto -Maior em poder do marechal Cogo- 
minho, que os fez logo transportar para bordo de um dos 
navios do bloqueio, de nome sinistramente irónico — o 
Carrasco. O inimigo atacou em seguida o general Fran- 
cisco de Paula, acantonado n' um engenho de Ipojuca, 
empenhando-se inglório combate, e sendo dispersados os 
republicanos quando tentavam retirar -se para o Recife 
pela calada da noite (15 de Maio). Suassuna, e os míse- 
ros destroços da sua gente que conseguiram escapar á 
sanha monarchista, entraram fugitivos na cidade, isolada 
no generoso levante da véspera, batida pelo desanimo, 
privada até de mantimentos pela intercepção de todas as 
communicações marítimas e terrestres. Restava apenas 
ao Recife ceder á coalisão de todos os contratempos, ca- 
pitulando ao commandante do bloqfueio. 

A proposta de capitulação levada para bordo por José 
Carlos Mayrink, estimado secretario do ultimo capitão 
general, a quem a revolução, apezar de suas excusas, e 
depois a reacção quasi unanime conservaram o. favor, e 
por Henry Koster, e na qual a junta, já reduzida a trez 
membros, promettia a entrega da cidade com òs prezos, 
os cofres públicos e as munições de guerra, em troca de 
uma amnistia geral e da liberdade de sahir da capitania 
com seus bens para os sublevados que preferissem emi- 
grar, foi sobranceiramente repellida por Rodrigo Lobo. 
"Eu tenho em meu favor a razão, a lei, e a força armada 
tanto terrestre, como marítima, para poder entrar no 
Recife com a espada na mão afim de castigar muito á 
minha vontade a todo, e qualquer patriota, ou infiel vas- 
salo, que são synonimos, por terem atropelado o sagrado 
das leis de El-Rei Nosso Senhor": replicou brutalmente o 
vice-almirante portuguez. A meio do pânico provocado 



261 

por esta recusa, cuja crueldade ia revestindo ao ser divul- 
gada entre o povo um tom cada vez mais feroz, julgou-se 
o mais acertado proclamar dictador o coronel Domingos 
Theotonio, o qual á sua prisão no dia 6 de Março por 
ordem de Caetano Pinto, antes que ao próprio valor, devia 
b, situação preponderante de que estava gozando. Endere- 
çou o dictador no dia 18 ao commandante do bloqueio 
uma nova proposta de capitulação, com a ameaça de, caso 
^Ua não fosse acceita, reeditar os famosos massacres pari- 
sienses de Setembro, passando á espada os encarcerados 
realistas, arrazar a cidade e exterminar os europeus. O 
portador d' este ultimatum foi o ouvidor Cruz Ferreira, o 
mesmo que denunciara a conspiração a Caetano Pinto, e 
conseguio elle adoçar o humor intratável do ofíicial, ob- 
tendo a promessa de um armistício e a livre sahida para 
a corte do dictador. O vice-almirante assumiria o governo 
da capitania, entretanto que o ouvidor iria também ao Rio 
implorar a clemência real para os rebeldes. 

Cruz Ferreira já encontrou porém o Recife desertado 
de vez por quasi todos os seus defensores. A 19 dera 
Domingos Theotonio ordem de partida aos regimentos, 
carregando com o erário e os petrechos de guerra para 
Olinda, e dispondo-se a continuar a marcha para o norte, 
protegendo o general Francisco de Paula a retirada com 
os destacamentos das fortalezas, únicos que ainda perma- 
neceram na cidade. O Suassuna preferiu todavia ficar no 
Recife, e associar-se ao bando realista que entoava com 
crescente desafogo o hymno da reacção, ao tempo que o 
irmão abria as portas da fortaleza das Cinco Pontas aos 
prezos políticos. As outras fortalezas seguiram in-conti- 
nenti este exemplo, não oíferecendo resistência ás intima- 
tivas populares, e Rodrigo Lobo desembarcou ufano, depois 
de ter mandado officiaes da esquadra tomarem o com- 
inando dos fortes, desarmarem e licenciarem os soldados 
que os defendiam. Entrementes no engenho Paulista, onde 
Domingos Theotonio e sua gente haviam-se accommodado, 
entrava o pavor no seu auge com taes noticias. Os chefes 
militares fugiram, cada um por diíferente caminho, e os 
soldados abandonados irromperam em actos de desespero. 



262 

Deante de tão triste espectáculo o padre João Ribeiro, 
coração de oiro, alma ingénua que mais soffria com os 
desenganos que com as privações, enforcava- se sem 
ruido, fechando os ouvidos aos echos dos vivas dos sol- 
dados de Cogominho, apossando-se por terra da capital 
republicana. Acabára-se a Liberdade, como melancholica- 
mente escreve o auctor dos Mártires Pernambucanos. A 
dôr tomava o lugar da esperança, as lagrimas o dos cla- 
mores de enthusiasmo. O absolutismo soltava o seu canto 
de cysne, vomitando incrivel desamor e selvagem tyrannia 
contra uma democracia tão cândida, que nem se maculara 
com o latrocínio, sendo até devolvidos intactos para o 
Recife os cofres do estado. O primeiro acto da reacção 
define-a bastantemente. Com gana correram alguns sol- 
dados a profanar o tumulo do illustre sacerdote suicidado 
em Paulista, decepando-lhe a cabeça, que foi exposta como 
bárbaro tropheu de guerra: e a este sacrilégio seguiram- 
se mil vergonhas. 

Os numerosos prezos, não cabendo nas cadeias e for- 
talezas, foram logo levados atados ou acorrentados para 
bordo dos brigues bahianos que os deviam conduzir a São 
Salvador, sede da relação, e alli extendidos nos porões 
com gargalheiras ao pescoço e grilhões aos pés, duramente 
martyrizados pela fome, pela sede, pelo escarneo e pela 
chibata. Não pararam no porto de desembarque as cruel- 
dades commettidas contra os cento e treze revolucionários 
transportados no Mercúrio e no Carrasco. Amontoados com 
algemas nos pulsos em uma prisão fétida, para onde os 
conduziram alta noite, ensurdecidos pelos gritos de feroz 
alegria de parte da população, entre filas de soldados ar- 
mados empunhando tochas accesas, elles tiveram de sup- 
portar em silencio todos os caprichos e arbitrariedades de 
um carcereiro bêbado, que só a pezo de dinheiro consentia 
em amaciar o seu rigor. Monsenhor Muniz Tavares, chro- 
nistá da revolução, na qual esteve compromettido como 
secretario do padre João Ribeiro, e cuja narração os dif- 
ferentes escriptores que se teem occupado d' este período 
histórico mais ou menos acompanharam ao sabor das suas 
differentes orientações, descreve com tintas escuras a vida 



263 

dos infelizes prisioneiros, injuriados a toda a hora pelo 
atroz guardião, o qual ás palavras juntava a ameaça bran- 
dindo uma espada núa, sujos, maltrapilhos, quasi despidos, 
encerrados alguns em cellulas sombrias, agrilhoados todos, 
desamparados de affeições n' uma capitania extranha, tendo 
por exclusiva alimentação carne putrefacta, a breve trecho 
dizimados pela morte, e possuindo como única sepultura a 
valia dos escravos. Uma commissão militar, presidida 
pelo conde dos Arcos e reunida no dia seguinte ao da 
chegada dos brigues, julgara summariamente, sem quasi 
escutar-lhes as defezas, e condemnára ao supplicio Domin- 
gos Martins, José Luiz de Mendonça e o padre Miguelinho, 
os quaes foram immediatamente fuzilados. 

. Não corriam menos dolorosas em Pernambuco as scenas 
da reacção. Os revolucionários que pela fuga ainda con- 
servavam-se em liberdade, foram perseguidos e cercados 
como animaes ferozes; fervilharam as vinganças, e a ani- 
mosidade portugueza contra os independentes tomou o 
duplo aspecto do vil insulto e do cobarde assassinato. 
Com a chegada em fins de Junho do novo capitão general 
Luiz do Rego Barreto, brigadeiro que na guerra peninsular 
batêra-se com notável coragem, merecendo vivos encómios 
de Wellington, e era agora mandado com tropas frescas 
e minuciosas instrucções militares a refrear a demagogia 
brazileira, legalisou-se o desforço anarchico da metrópole. 
Os bens dos prezos foram sequestrados; a commissão mi- 
litar entrou a funccionar, e Domingos Theotonio, Barros 
Lima, António Henriques e padre Souza Tenório, descobertos 
em seus esconderijos, bem como vários patriotas parahy- 
banos trazidos para o Recife, pagaram prestes no patíbulo 
a rebeldia. Vestidos de alvas, com o baraço ao pescoço, 
segundo o informe de uma testemunha, escoltados pela 
tropa e acompanhados das confrarias psalmodiando triste- 
mente, os republicanos do Norte foram enforcados, exhibi- 
das em postes as suas cabeças e mãos, e arrastados seus 
corpos para a fossa commum por caudas de cavallos, no 
meio do silencio glacial da maioria do povo, que no cora- 
ção ia recalcando todo o ódio ao extrangeiro , conforme 
passou a ser considerado no Brazil o portuguez. Exclamava 



264 

o nacional em tosca forma o que poucos annos depois de- 
clamaria Natividade Saldanha n' um soneto offerecido aos 
seus juizes: 

Ha de ser contra ti meu ódio eterno, 

E hei de emquanto viver, fazer-tè guerra, 

Na terra, e mar, e cèo, no mesmo inferno. 

Si bem que não tão sanguinária, não se mostrou menos 
inexorável do que a commissão militar, a alçada de dezem- 
bargadores, á qual o soberano pouco depois confiou a de- 
vassa e organização do processo dos revoltosos. A Luiz 
do Rego, e sobretudo a seus subordinados, officiaes alcoóli- 
cos e libidinosos que em Pernambuco semearam profusa- 
mente a deshonra e o crime, ficava livre o exercitarem 
sua insensibilidade nos repetidos açoites com que manda- 
vam fustigar os negros e mestiços, livres ou escravos, im- 
plicados no movimento, e no violento recrutamento com 
que o governador pretendeu encher os claros produzidos 
nos quadros da força de linha pelo embarque para Monte- 
video dos soldados da revolução. Estas formas expeditas 
de justiça agradavam mesmo mais ao temperamento mili- 
tar, brusco e pouco compadecido, de Luiz do Rego. Dizia 
elle que alguns outros cabeças da revolta deviam saldar 
com as vidas o seu crime, e em seguida passar-se uma 
esponja sobre os acontecimentos, usando-se de uma cle- 
mência que o povo saberia em extremo apreciar. "Tendo 
passado muito tempo, escrevia em epocha posterior o capi- 
tão general para o Rio acerca dos resultados da alçada, 
já poucas pessoas deixarão de ver com magoa o castigo 
de tanta gente, ao mesmo passo que ao principio todos 
louvavam, e todos achavam necessárias as execuções." 

Não liam os dezembargadores pela mesma cartilha. 
A rede immensa por elles desdobrada sobre os compro- 
mettidos não possuía malhas por onde pudesse escapar o 
mais infimo comparsa da republica. Seguiam-se os mezes 
sem que nunca tivessem fim os intricados interrogatórios 
e outras emmaranhadas praxes forenses do vagaroso tra- 
balho da alçada, triste documento que de si legou o ab- 
solutismo moribundo, pois que em suas paginas desenro- 
lam-se clamorosas injustiças e abusos evidentes. A po- 



265 

pulação pernambucana sentiu-se toda preza d'aquelles vam- 
piros do tribunal, e não contariam as capitanias revoltadas 
mais do que criminosos políticos, si da corte, a repetidas 
instancias do próprio Luiz do Rego, offendido nos seus 
instinctos de domínio e nas suas idéas de perdão , além 
de resentiflo da ordem de prisão lançada contra o seu se- 
cretario Mayrink, de que este se eximiu pela fuga, não hou- 
vesse vindo por occasião da coroação do monarcha (6 de 
Fevereiro de 1818) a ordem de encerrar-se a devassa e 
carregar-se com os prezos reputados culpados para a 
Bahia. 

Juntaram-se os novos processados aos seus velhos 
companheiros de lucta, e a cadeia commum transformou-se 
em uma escola liberal, na qual se professavam as scien- 
-cias e se cultivavam as artes. Alguns dos prezos eram 
respeitados pela sua instrucção: assim António Carlos, juris- 
consulto distincto, e frei Caneca, mathematico notável; 
outros conheciam línguas extrangeiras ; vários haviam exer- 
cido o magistério, tendo ensinado grammatica, latim, scien- 
cias naturaes ou philosophia. Em semelhante reunião de 
espíritos esclarecidos, entregando-se, uns por enthusiasmo 
e outros por desfastio , aos trabalhos mentaes , educaram 
muitos as suas intelligencias, extenderam e vigoraram 
certos os seus conhecimentos. Não dera ainda a alçada A 
por terminada a sua prolongada tarefa, tendo comtudo al- 
guns dos encarcerados obtido isoladamente o perdão régio, 
quando a revolução portugueza de 1820, implantando na 
metrópole uma adaptação ao recente regimen democrático 
do Occidente, veio suspender-lhe a ríspida missão. 



XXIII 

A revolução portugueza de 1820, simultânea com o 
movimento de Cadiz contra as prepotências de Fernando VII, 
obedeceu ao movei geral de transformação politica que 
caracterisou a marcha da civilização na transição do sé- 
culo XVIII para o século actual, e obedeceu especialmente 



266 

ao ciúme da metrópole decadente pela crescente impor- 
tância da que fora a sua melhor colónia. Os liberalões do 
Porto, os Fernandes Thomaz, os Silva Carvalho, que tanto 
declamavam sobre direitos civis e liberdades publicas, pen- 
savam, em contradicção flagrante com as suas palavras, 
na reducção á antiga sujeição do estado que D. João VI 
creára com grave prejuízo do exclusivismo portuguez. 
Revelaram-se logo taes sentimentos de animosidade , que 
mais tarde acabariam por provocar a separação do Reino 
Unido, no manifesto á nação, e no seguinte manifesto aos 
paizes extrangeiros, lançados pela Junta do Porto ao em- 

. polgar ,a administração. Pouco depois, no momento de 
fixarem-se o tempo e a forma das eleições de deputados 
á constituinte, marcou-se para o Brazil um numero de re- 
presentantes inferior ao designado a Portugal, terminando-se 
por esbulhar de todo o reino ultramarino d' este primordial 

, direito politico. 

Palmella, o qual, opinando pela outorga de uma carta y 
contrabalançava junto do monarcha com o seu liberalismo 
ínoderado, á Luiz XVIII, aprendido nas cortes européas e 
na longa convivência de M me de Stael e de Benjamin 
Constant, as idéas caturras de outros conselheiros; e já re- 
commendára á regência lusitana de conter e dirigir o mo- 

, vimento revolucionário, percebia, ao inverso da junta, que a 
antiga possessão não se achava mais em condições de ser 
governada discrecionariàmente. Propunha o diplomata um 
verdadeiro dualismo de administração, permanecendo D. 
João VI no Rio de Janeiro e vindo o príncipe real D. Pedro 
para Lisboa, e a reunião na capital brazileira de outras 
cortes, consultivas porém, á moda do antigo regimen, para 
indicarem os melhoramentos de governo susceptíveis de 
admittirem-se além-mar. Agradou esta solução, como Pal- 
mella finamente previa, ao espirito do monarcha, incapaz 
de decidir-se por uma franca politica de reacção ou de 
progresso; mas não offerecia consistência sufficiente para 
resistir ao embate de aspirações que já eram nacionaes, e 
que por bastante tempo haviam sido refreadas. Pará e a 
Bahia adheriram em principio de 1821 ao movimento por- 
tuguez, depondo os governadores e organizando juntas 



267 

locaes, e no Rio de Janeiro um pronunciamento militar 
exigiu e arrancou de D. João VI, a 26 de Fevereiro, a pro- 
messa de submetter-se á constituição que fosse elaborada 
no congresso de Lisboa. 

Pelo seu evidenciado adeantamento politico não podia 
Pernambuco, màu grado os recentes rigores da repressão 
e o temor de novas desgraças, quedar-se na retaguarda 
do movimento liberal. curioso porém é que foi Luiz do 
Rego, hontem o agente da reacção absolutista, quem, apóz 
alguma, pequena, demora por elle próprio confessada e ex- 
plicada como tendo por fim obstar á anarchia (Memoria 
justificativa), a seu modo inaugurou na capitania o systema 
constitucional. Acquiesceu elle ao convite da junta portu- 
gueza; endereçou ao soberano a 3 de Março uma represen- 
tação com o rotulo de popular, para que a coroa accedesse 
aos desejos dos seus súbditos; cercou-se a 31 do mesmo 
mez de um conselho consultivo; e mandou a 7 de Junho 
proceder á escolha dos eleitores e á eleição dos sete de- 
putados a principio fixados a Pernambuco, cujo território 
andava diminuído, pois que, em paga da testemunhada 
lealdade monarchica, a comarca das Alagoas fora elevada 
em 1817 á cathegoria de capitania. Entre os represen- 
tantes enviados pela província de Pernambuco ás cortes 
portuguezas contavam-se como os proeminentes, Pedro de 
Araújo Lima, mais tarde marquez de Olinda, e o padre 
Francisco Muniz Tavares, um dos implicados na suffocada 
revolta, solto por esta occasião. A revolução portugueza 
alterara o prisma por que era olhada no Reino Unido a 
nossa mallograda tentativa de emancipação, e a relação 
da Bahia recebeu logo o humano convite de ultimar o 
processo dos encarcerados. Foi absolutória a sentença 
para todos, excepto para Silva Pedroso e José Mariano, 
condemnados a degredo perpetuo na Ásia Portugueza pelos 
crimes de indisciplina e homicídio de dois superiores, e 
passado pouquíssimo tempo amnistiados pelas cortes de 
Lisboa, antes de seguirem para seus destinos. 

Ao collocar-se á testa da agitação constitucional, lan- 
çando ao mesmo tempo a garantia do statu qwo legislativo 
até ás resoluções da constituinte, e reiterando os seus pro- 



268 

testos de fidelidade á coroa, Luiz do Rego parece ter obe- 
decido á intenção, compartilhada por Palmella em sua 
politica geral, de encaminhar aquella perturbação n' um 
sentido legal. D' est' arte evitaria a erupção dos germens 
democráticos, incubados porém não extinctos na provincia, 
e cuja vitalidade elle melhor que ninguém conhecia, e pre^ 
veniria a explosão do militarismo irrequieto, embriagado 
pela bellica orgia européa e com tendências á oligarchia, 
o qual, menos contido nas republicas hespanholas, acabou 
por submergil-as desde a independência n' um charco de 
sangue. O governador, ao facto do estado dos espiritos, 
tampouco ignorava quanto pezava aos,- pernambucanos a 
sua estada entre elles, e como os filhos da terra detesta- 
vam a sua administração, salpicada de crueldade na estreia, 
e persistentemente caracterisada pela intransigência do 
commando. Os próprios benefícios que d' ella haviam re- 
sultado, como o restabelecimento da segurança individual 
no Recife, onde anteriormente, e sobretudo á sombra da 
excitação existente, se abrigavam os criminosos persegui- 
dos nos campos, e a destreza militar introduzida pelos 
continuados exercícios dos soldados de linha e dos mili- 
cianos, eram, aquella, tarefa poupada a qualquer novo go- 
verno, e esta, arma que seria facilmente aproveitada contra 
o seu auctor. 

Em suas cartas do anno de 1820 já Luiz do Rego 
mostrava-se descontente com as invectivas de que era con- 
stantemente alvo, e com as diffamações de que na corte 
o faziam amiudadas vezes objecto; e em 1821, quando, co- 
nhecido o movimento da Bahia, elle inclinou-se para a 
nova ordem de cousas conservando o governo, surgiram 
accusações ainda mais virulentas. Alcunha vam-n' o des- 
apiedadamente de monstro; apontavam-n' o como um Don 
Juan de recolhimentos; apodavam-n' o sem rebuço de la- 
drão. As matanças do Bonito, resultantes da expedição 
contra um numeroso grupo de ruidosos visionários do in- 
terior, que, guiados por um impostor, sonhavam com D. 
Sebastião, entes sobrenaturaes e riquezas occultas, e cuja 
responsabilidade pertence principalmente aos agentes do 
capitão general, vários d' elles reputados pela sua rapaci- 



\" 



269 

dade, ausência de escrúpulos e bestialidade, constituíam 
um dos mais graves capítulos do libello de accusação for- 
mulado contra o governador. "Tuas mentiras, escreviam- 

lhe, teus crimes, teus delictos, teus sacrilégios 

vão ser patentes ao mundo inteiro." 

Em vão, com o fim de defender os seus actos, que 
elle aliás tratava de explicar para o Rio e Lisboa em uma 
seguida e variada correspondência, aproveitou Luiz do 
Rego o restabelecimento da faculdade de imprensa, cas- 
sada por ordem do ministério apóz a revolta, a qual casual- 
mente d' ella fizera no Recife o primeiro uso, para, ser- 
vindo-se de uns restos da typographia republicana que 
não tinham sido remet tidos para a corte, fundar um jornal. 
Era a folha, intitulada Aurora Pernambucana, e que teve 
curta vida, redigida com talento por um genro do governa- 
dor, emigrado de Portugal por motivo da conspiração de 
Gomes Freire, e depois sobejamente conhecido na politica 
portugueza — o afamado Rodrigo da Fonseca Magalhães. 
Nada porém podia limpar o emissário do absolutismo da 
nódoa das forcas á sua ordem levantadas, e onde se tinham 
baloiçado os cadáveres dos patriotas: nem o seu procedi- 
mento corria como fiador da sinceridade da sua conversão. 

O conselho por elle presidido era uma palpável sophisti- 
cação das juntas locaes ideadas pelos revolucionários da 
metrópole em satisfacção ao espirito provincial, e como 
meio infallivel de enfraquecer a união das capitanias, iso- 
lando-as do centro de auctoridade americana. Luiz do Rego 
pela força do habito e pelos impulsos do temperamento 
continuava á testa d' aquelle conselho a ser o mesmo dicta- 
dor absorvente, despido de condescendências, ordenando 
prisões em virtude de meras suspeitas e denuncias, não 
cessando de usar de medidas odiosas de perseguição nasci- 
das da desconfiança, a qual tornára-se commum n' uma 
sociedade dividida por aversões de nacionalidade, subsis- 
tentes apezar dos rhetoricos protestos dos momentos de 
effusão, e de facto solicitada por definidos e irreconciliá- 
veis ideaes políticos. 

Taes medidas mais irritavam ainda a mutua indispo- 
sição dos habitantes portuguezes e brazileiros, que já nova- 



270 

mente transparecia nas rixas da soldadesca, e acirravam 
os anhelos liberaes de alguns dos espíritos directivos da 
população nacional, anhelos que se concretisavam como 
satisfacção inicial na desafogada constituição da junta 
local. Os homens de 1817 aggravavam com seus ódios 
accumulados e . seus pensamentos de retaliação a tensão 
das relações das duas facções entre as quaes Pernambuco 
se achava dividido. Uma espécie de Terror branco invadira 
a província: não mais se discutia como á chegada das 
primeiras noticias constitucionaes; murmurava -se apenas, 
e dos murníurios em ambos os campos eram as palavras 
dominantes as de repressão e conspiração. De uma banda 
agremiavam -se os numerosos descontentes afim de re- 
sistirem às tyrannias e levarem a cabo seus intentos; da 
outra o governador, suspicaz como um mandão da Itália 
da Renascença, descobria no minimo ajuntamento intuitos 
sediciosos. Conta o inglez Henderson, o qual escreveu 
uma historia do Brazil bordando sobre a chorographia do 
padre Ayres do Casal algumas notas de viagem, que mesmo 
as festas religiosas mais concorridas, e que tanto costu- 
mavam despertar a ruidosa devoção dos festeiros, como a 
de Nossa Senhora do Monte em Olinda e a do Poço, re- 
sentiam-se visivelmente da falta de alegria popular: "dir- 
se-hia que a multidão errava sem fito, notando-se em seus 
movimentos e gestos apathia, falta de animação e alegria/ 4 
Não se enganava Luiz do Rego em demasia nas ap- 
prehensões que formava, pois que a 21 de Julho atten taram 
contra a sua vida na ponte da Boa Vista, deixando-o mal 
ferido o assassino, um João de Souto-Maior, dos prezos de 
1817, que na fuga se afogou. É quasi certo que esta ten- 
tativa de homicídio não significava um desforço particular, 
mas sim o fructo de uma mysteriosa combinação; em todo 
o caso effectuaram-se numerosíssimas prisões, e realizaram-se 
algumas deportações para Fernando de Noronha, e outras 
para Lisboa, em numero de quarenta e duas as segundas, 
indo entre vários negociantes, militares e proprietários o 
morgado do Cabo, que morreu marquez do Recife, e Fran- 
cisco do Rego Barros, futuro conde da Boa Vista. Nas cortes 
portuguezas, onde a rápida adhesão do Brazil ao constitu- 



271 

cionalismo provocara as sympathias liberaes, e fizera dar 
assento aos deputados eleitos por effeito das primeiras re- 
soluções da junta revolucionaria de Portugal, levantaram-se 
eloquentes as vozes dos representantes de Pernambuco em 
favor dos deportados, transportados para Lisboa n' um velho 
barco arrombado e escasso de provisões de bocca, seguindo- 
se promptamente a amnistia ás reclamações. . . 

Accentuára-se na província ultramarina com estes 
acontecimentos a emigração dos liberaes, da capital para 
outras villas; tinham fermentado as conjurações no próprio 
interesse dos conjurados salvarem-se das masínorras, e a 
29 de Agosto rompia nas vizinhanças de Goyanna um 
movimento de milicianos, os quaes logo entraram n' essa 
cidade e acclamaram uma junta provisória. Luiz do 
Rego comprehendeu perfeitamente que estava chegado 
o fim do seu governo, e, a acreditarmos na sua confissão, 
pensava justamente em retirar-se, quando a violência dos 
contrários feriu-lhe o orgulho, impellindo-o a queimar os 
últimos cartuchos sob pretexto de salvar os europeus. A 
seu convite reuniram-se no dia immediato (30) os recifenses 
afim de julgarem da situação e estatuirem sobre a adminis- 
tração, que elle, governador, declarava-se decidido e feliz 
em abandonar. Divergiram os pareceres dos convocados 
tornando -se tumultuaria a assembléa, e deante de uma 
razoável exhibição de força armada dispersou-se parte d' ella, 
deliberando a que ficou, affeiçoada a Luiz do Rego, con- 
serval-o á frente de um novo conselho, composto de mili- 
tares graduados, entre os quaes o commandante do batalhão 
portuguez, e de amigos do palácio. Os novos titulares 
ficariam partilhando com o governador a responsabilidade 
da administração, possuindo voto decisivo ao inverso dos do 
primitivo conselho, e permanecendo a força armada somente 
nos casos urgentes á disposição exclusiva do capitão general. 

Logo depois de empossada, a junta da capital dirigiu 
um appello de desarmamento e união á de Goyanna, cuja 
constituição fora entretanto reconhecida por todas as ca- 
marás municipaes com excepção da do Recife, e que ia 
funccionando no meio de calorosas adhesões, recusando-se 
os vereadores da província a nomear representantes que 



272 

tomassem assento no conselho governativo da capital. A 
lembrança das glorias outr' ora alcançadas na campanha 
contra os hollandezes era adrede invocada pelos liberaes 
para estimular as populações, e não deixava de surtir 
effeito semelhante evocação histórica. "Seria vergonhoso, 
exclamava um dos revoltosos de Goyanna, que os pernam- 
bucanos que não se acobardaram ás hostes aguerridas da 
Hollanda trepidassem em sacudir o jugo tão vergonhoso 
que actualmente soffrem." Não só com os populares en- 
grossavam as fileiras liberaes, senão com as frequentes 
deserções de caçadores dos regimentos brazileiros. A 
junta de Goyanna, que já não arreceava-se da resistência 
exhibindo energia nas prisões e contribuições ordenadas 
contra os adversários, sentia-se dentro em pouco bastante 
forte para ensaiar o ataque do Recife, desdenhando qual- 
quer accordo com o governador, o qual por intermédio 
dos ouvidores chegara a propôr-lhe a paz e a coexistência. 
Em presença da recusa organizara Luiz do Rego a defeza, 
pedindo soccorros para outras províncias, brado a que 
acudiu um indisciplinado regimento da Bahia, e armando 
indistinctamente soldados de linha, milicianos, marinheiros 
e até indios. Uma viajante ingleza que estacionou no 
Recife perto de um mez, justamente durante o cerco feito 
pelos liberaes, e em posição de seguir de perto os acon- 
tecimentos por ser o marido commandante da fragata de 
guerra britannica Doris destacada para as aguas hrazileiras, 
refere-se em um accesso de riso a uma companhia de or- 
denanças, a qual, segundo ella, Falstaff teria repugnância 
em alistar, tal era o grotesco dos seus trajes. 

Mistress Maria Graham aponta no seu diário de bordo, 
escripto com aquella propriedade de expressão e sentimento 
de paizagem que os inglezes tanto possuem, as pelejas e 
escaramuças travadas em Olinda, nos Afogados, em outros 
pontos ainda, entre as forças rebeldes e as tropas fieis ao 
governador, informando-nos de ser immenso o pânico entre 
os setenta mil habitantes da capital. As cadeias regorgi- 
tavam de prezos pelo receio de que um tumulto de rua 
correspondesse ao ataque dos que o governador intitulava 
"enthusiastas ferozes, espiritos turbulentos e energúmenos" ; 



273 

os negros em surdina gemiam, prudentemente encurralados ; 
os canhões perfilavam-se nas encruzilhadas, e o commercio 
todo se suspendera, achando-se demais o mercado quasi 
falto de provisões. Por medida de precaução Luiz do Rego 
dentro da cidade impuzéra clausura aos sacerdotes, enxer- 
gando entre elles os agentes mais perigosos do liberalismo, 
ao tempo que em Beberibe, no acampamento dos insur- 
rectos, á sombra das arvores frondosas, o secretario da 
junta Mena Calado, a smart little man, discursava como 
um carbonário, sustentando o diapasão do enthusiasmo. 

A lucta civil encetada, e que já se alastrava pelo sul 
da província, sustou -se por intervenção de enviados da 
Parahyba, os quaes a 5 de Outubro concluíram um con- 
vénio entre as duas parcialidades, incluindo o exercício 
simultâneo das duas juntas, pertencendo á jurisdicção da 
do Recife a capital e Olinda, e á da de Goyanna o resto 
da província. Este armistício, que encerrava ainda a 
manutenção de Luiz do Rego á testa do governo militar, 
a suspensão de todas as dissensões politicas, a libertação 
dos suspeitos e a franqueza das communicações, regularia 
até chegada das ordens de Lisboa. Anteciparam-se estas 
á expectativa dos dois partidos, e por indicação das cortes, 
previamente favorável aos revoltosos, elegeu-se a 26 de 
Outubro uma nova junta presidida por Gervásio Pires 
Ferreira. No próprio dia embarcou para Portugal o exe- 
crado governador, perseguido até bordo pelos motejos 
da lyra popular, ficando o batalhão portuguez, chamado 
dos Algarves, como a garantia de uma já desmoralizada 
união. 

Esta satisfacção portugueza não traduzia todavia que 
as cortes tivessem adoptado para com o Brazil uma poli- 
tica de fraternidade, si bem que nas eleições os moderados, 
houvessem sido sobrepujados pelos exaltados, e Portugal 
andasse portanto dominado por um liberalismo radical, de 
arrebatado palavriado bebido nas leituras dos philosophos 
e discursadores francezes e nas palestras com os officiaes 
de Junot. D. João VI deixara a America em 26 de Abril 
de 1821, recolhendo-se a Lisboa, mas a permanência do 
príncipe real como regente do novo reino azedava a antiga 

Lima, Pernambuco. lo 



274 

metrópole. As cortes diziam, e manifestavam, preoccupar- 
se muito menos com o perigo da separação do que com a 
idéa da subordinação do exhausto reino europeu ao fértil 
e promettedor estado transatlântico. Com essa politica de 
rivalidade augmentava diariamente o partido dos indepen- 
dentes brazileiros, congregando-se uns em torno de D. Pedro, 
almejando outros a republica, conspirando todos nos clubs 
e nas lojas maçónicas. 

No pavor demagógico gerado pelas convulsões do Rio, 
ao sabor das quaes adoptára-se, para revogar-se no dia 
immediato, a constituição hespanhola, julgara D. João VI 
conveniente formular algumas concessões ao espirito na- 
cional, já equiparando os officiaes militares dos dois reinos, 
já separando os seus exercito e armada, já adoçando a co- 
brança fiscal. Proseguira D. Pedro a senda paterna, apezar 
do paiz debater-se a meio de uma temerosa anarchia ad- 
ministrativa e de uma torturante crise financeira. Ao passo 
que algumas provincias reconheciam a auctoridade do 
regente, cooperando assim para a união brazileira, outras 
haviam-se voluntariamente sujeitado ás cortes de Lisboa 
n' um ciumento prurido de espirito local, e vaga aspiração 
de federalismo. Semelhante irregularidade de governo 
complicava-se com a pobreza do erário, anemico pela ex- 
portação de sommas enormes por occasião do regresso de 
D. João VI e da sua corte, e embaraçado pela recusa de 
varias thesoirarias provinciaes de pagarem os saques do 
Rio, os quaes respondiam por empréstimos de numerário. 
Em taes apuros foi mister suspender as obras publicas e 
os favores ás industrias, e demorar o promettidoaugniento 
de soldo ás tropas, tardança que provocou descontenta- 
mento e motins. Tornára-se mesmo permanente a agitação 
pelos zelos dos soldados europeus e brazileiros, e pela des- 
inquietação dos paisanos. Na capital, a 5 de Junho, um 
pronunciamento de côr portugueza, commandado pelo bri- 
gadeiro Jorge de Avilez, compellira o regente a jurar de 
antemão a constituição elaborada no congresso, demittir 
do ministério o conde dos Arcos, taxado de reaccionário, e 
acceitar a organização de uma junta fiscalizadora da acção 
executiva, commissão que veio a ter ephemera existência. 



275 



XXIV 

Também em Lisboa o governo desapparecêra sob o 
predomínio da oligarchia parlamentar. A constituinte no 
seu arremedo da Convenção, cuja lembrança enchia e mara- 
vilhava os espiritos, absorvera todos os poderes em nome 
do Povo; legislava inflexivelmente sobre todos os assump- 
tos, mesmo os da administração mais rudimentar; recebia 
no seu seio emissários das diversas classes sociaes, porta- 
dores de queixas e votos ; e injuriava os paizes extrangeiros 
que não acompanhavam o movimento liberal. Na lei or- 
gânica do estado, por ella confeccionada, a auctoridade do 
monarcha viu-se restricta ao ponto de tornar-se nominal, 
e o executivo passou a ser uma mera delegação da sobe- 
rania das cortes. Os chefes militares compareciam no 
recinto parlamentar para receberem incitamento e censuras, 
como iam os Dumouriez, os Hoche, os Custine, á barra da 
Convenção. Nem faltaram as insolências de Fernandes 
Thomaz, novo Pétion, e o assalto e incêndio do edifício 
da Inquisição, Bastilha do pensamento, para em tudo ser 
perfeita a parodia da grande Revolução. 

Sob o império porém de um particularismo odioso, que 
devera ser incompatível com tamanho fervor liberal, as 
cortes prohibiram a emigração para a nação irmã; impe- 
diram o levantamento de um empréstimo destinado a saldar 
as contas do governo com o banco do Rio de Janeiro; e 
retiraram a D. Pedro, emquanto permanecesse na regência, 
a sua dotação e apanágios. Favorecendo além d' isso a 
desunião .do Brazil pelo estimulo prestado á fundação das 
juntas provinciaes, quasi autónomas pois que só dependiam 
das cortes de Lisboa, os deputados portuguezes resolveram 
fundir novamente os dois exércitos de forma a poderem 
inundar o reino ultramarino de soldados europeus. Por 
ultimo, entre as desconsiderações diariamente arremessadas 
ao Brazil, principal objecto dos debates da constituinte, 
elles aboliram os tribunaes e repartições superiores creadas 
por D. João VI na ex-colonia. 

Contra tantas insolências não resistiram collectiva- 
mente os deputados brazileiros; antes appareciam separa- 

18* 



276 

dos por ciúmes de províncias. Pernambuco, por exemplo, 
apresentava-se pela voz dos seus representantes de todo 
despido de preoccupações alheias á sua única prosperidade, 
e tal attitude era a seguida pela junta eleita no momento 
da retirada de Luiz do Rego, a qual bastante tempo os- 
cillou ainda entre reconhecer a supremacia das cortes ou 
a do regente, com uma manhosa indecisão que acabou por 
acarretar-lhe graves dissabores. Reconhecer a primeira 
lisonjeava extremamente o sentimento provincialista, mais 
forte do que nenhum outro; submetter-se á segunda re- 
presentava porém a consolidação, pela ligação, dos interes- 
ses brazileiros, n' aquella occasião clara ou tacitamente 
convergentes para o desideratum da independência. E, 
como mais tarde escrevia frei Caneca, "o cordel triplicado 
é difficil de romper-se; mas não subsiste a mesma diffi- 
culdade, quando os ramaes estão desacochados e separa- 
dos." 

Em Janeiro de 1822 a attitude do governador das 
armas José Maria de Moura, antipathica aos desejos pa- 
trióticos por toda favorável aos sentimentos mesquinhos 
de Lisboa, e a noticia da chegada de novas tropas do 
reino, que dizia-se mandadas a reeditarem velhos horrores, 
provocaram em Pernambuco sérios motins, contra os quaes 
sentia-se impotente a escassa justiça ou a dividida mili- 
tança. Dos tumultos resultaram o pedido, logo satisfeito, 
da junta ao brigadeiro José Corrêa de Mello, novo gover- 
nador das armas, para não fazer desembarcar os reforços 
que trazia da Europa, e o embarque para Portugal do ba- 
talhão dos Algarves, depois de insultado e apedrejado nas 
ruas. A sombra de Luiz do Rego já não amedrontava os 
nacionaes, armados sem excepção e animados contra os 
portuguezes de um sentimento de ódio violento. Moura 
chegara a escrever que, não podendo ser remettido um 
avultado soccorro, melhor valeria a ausência das tropas 
portuguezas. Julgando as cousas com maior brandura es- 
creveu Corrêa de Mello na sua Allegação que "as gentes 
do paiz, desconfiadas, considerando sempre nos Europeus 
as intenções de os dominar, e opprimir, para serem cha- 
madas á tranquillidade, e ao socêgo, que se desejava, e 



277 

que se devia procurar, carecião de ser conduzidas com 
discrição, e summa delicadeza." 

No mesmo mez de Janeiro, a 9, o príncipe D. Pedro, 
accedendo a uma grande manifestação da capital e a re- 
presentações das províncias vizinhas, decidira resistir ás 
ordens das cortes, ficando no Brazil. Juntamente rompera 
a tutela aviltante da divisão portugueza de Jorge de Avi- 
lez impondo respeito á insubordinação, obrigando no dia 
12 a soldadesca a capitular apóz uma curta opposição, e 
fazendo-a a 11 de Fevereiro immediato retirar-se para a 
Europa, já bastante minguada pelas deserções. O proce- 
dimento de D. Pedro, que deu n' esta emergência provas 
de sua intrepidez e decisão, foi segundo o sumptuoso vo- 
cabulário da epocha qualificado de sublime, e agradou até, 
conforme depõem viajantes contemporâneos, ao commercio 
extrangeiro, fatigado da grosseria, e mais ainda, me parece, 
da concorrência portugueza. Tornou-se desde então ine- 
vitável a separação, e a questão, na phiase de M 18 . Gra- 
ham, só residia em saber-se si ella se effectuaria com ou 
sem derramamento de sangue. 

A junta do Recife não se esquivou a applaudir o acto 
do príncipe; persistindo porém na sua independência, re- 
cusou-se a compromettel-a pela execução da ordem do 
Rio, mandando proceder á eleição de procuradores das ca- 
marás ao conselho que D. Pedro resolvera congregar, afim 
de auxilial-o na sua tarefa administrativa, emquanto as 
cortes não tivessem fixado a organização politica do reino 
ultramarino. O pretexto da recusa, invocado pela junta 
no seu officio ao regente, é incontestavelmente levantado: 
opinava ella contra a forma obsoleta de um conselho 
consultivo, visto as normas liberaes dictarem a instal- 
lação de uma camará legislativa. O espirito autono- 
mista da junta era tão transparente, que o seu officio de 

17 de Maio de 1822 ás cortes de Lisboa, ampliação do de 

18 de Março, depois de mencionar vários gravames, modes- 
tamente appellidados de esquecimentos, encerra queixas 
contra a larga jurisdicção facultada á junta de fazenda, e 
elevada cathegoria concedida ao governador das armas, 
funccionario gozando na província da situação mais arbi- 



278 

traria, espécie de procônsul que directamente recordava 
o predomínio portuguez. Mal poderia em Pernambuco 
esse cacique militar estribar a sua acção nos regimentos, 
os quaes eram brazileiros; mas na Bahia, onde, pela ausên- 
cia de corte e falta de" um centro de auctoridade como o 
symbolizado no Rio pelo príncipe real, o sentimento repu- 
blicano figurava mais intenso que na capital: também fazia- 
se sentir mais violenta a reacção por ter Portugal, aprovei- 
tando relações mais intimas da junta com as cortes, con- 
centrado alli a defeza dos velhos direitos metropolitanos. 

Os attentados commettidos em São Salvador pelo 
general Madeira constituem a ultima e vergonhosa pagina 
do dominio portuguez, illuminada em Lisboa com os desa- 
foros por meio dos quaes os deputados europeus procura- 
vam salvar o crescente descrédito das cortes na opinião 
do paiz, sacudido pelas perturbações e exasperado pela 
penúria. A reacção legitimista já se esboçava tenuemente, 
e em verdade seria ella popular no velho reino. Si mais 
tarde o negativismo voltairiano dos conselheiros do impe- 
tuoso duque de Bragança supplantou fácil, e mesmo radi- 
calmente, o fervor catholico, devemos somente attribuir a 
rapidez da mudança á superficialidade das crenças. 
clero — quer o secular, quer o que agglomerava-se regu- 
larmente em conventos, onde a par da hospitalidade e por 
vezes da erudição abrigava-se frequentemente o relaxa- 
mento — ensinou sempre, não o espirito, mas a lettra do 
christianismo. Isto fez com que no momento da derrocada 
violenta dos antigos ideaes, o sangue meridional fervesse 
um instante ao vêl-os maltratados, mas, logo apóz um 
período de lucta sanguinolenta e enervante, resignasse-se 
a perdel-os de todo com a apathia da fé, que desde então 
ha caracterisado cada vez mais a sociedade portugueza. 

Em 1820 e annos immediatos porém as sympathias popu- 
lares estavam ainda com os frades, a cujos portões os 
pobres encontravam pelo menos uma tigela de caldo e o 
bálsamo da caridade moral, e com D. Miguel, príncipe ele- 
gante, destemido, brutal e devoto: apenas uma pequena 
parte da população deixava-se fascinar pelas palavras so- 
noras de liberdade declamadas na constituinte, e que não 



279 

mais acordavam echos no geral dos espíritos, abatidos por 
uma longa escravidão da intelligencia e da vontade. Uni- 
camente a sensibilidade, viva, afinada, vibratil, fazia-os 
tremer pela extirpação do que constituía, havia tanto 
tempo, a sua atmosphera social. 

Denegava-se entretanto nas cortes toda justiça ás legi- 
timas reclamações brazileiras. Urdia-se dolo no projectado 
regulamento das relações commerciaes dos dois reinos. A 
população vaiava os representantes ultramarinos nas viellas 
da cidade. Apupavam-n' os os collegas no augusto recinto 
parlamentar. Ridicularizavam-n' os os plumitivos nos tablados 
de theatros fedorentos, por onde o padre José Agostinho 
de Macedo passeava as suas faces apopleticas e arrotava as 
suas phrases indecentes. Algumas admoestações prudentes 
e conselhos avisados suggeridos na previsão dos aconteci- 
mentos, vários actos de equidade arrancados na cegueira das 
votações, desappareciam n' aquelle pélago de malquerença. 

No Brazil por seu lado a animosidade portugueza insti- 
gava a maré liberal, tornando-a tão exigente que já acoi- 
mava de atrazado o ministério José Bonifácio, aliás com- 
posto de elementos nacionaes, presidido por um estadista 
de superior illustração, dotado de vistas próprias e pro- 
gressivas, taes como a civilização dos índios, a extincção 
da escravidão e a descentralização administrativa, mas 
deixando preponderar sob o duro influxo do seu fogoso 
chefe visíveis considerações egoístas. E longe de conten- 
tarem-se com uma alteração do pessoal governativo, recla- 
mavam altamente os nacionaes uma constituinte; brindavam 
o príncipe com o titulo de Defensor Perpetuo da nação; e 
não mais escondiam o anhelo separatista. 

No ardor da propaganda continuava a accentuar-se o 
movimento centrípeto. A emancipação n' elle descobrira o 
caminho mais directo para a sua realização, e comprehen- 
dêra-se que a anarchia apenas fraquejaria perante uma 
solida expressão do principio de auctoridade. Em Minas 
bastara a presença do regente para acalmar os ânimos 
sobreexcitados. Na Bahia a expulsão do general Madeira 
requisitava um concurso de elementos alheios á província. 
Em Pernambuco evidenciára-se que a irresolução e fra- 



280 

queza da junta acabariam por produzir a confusão em 
toda a província, cuja economia se via prejudicada pela 
agitação intestina dos annos anteriores e pelo menor valor 
dos principaes productos de exportação, apezar da appa- 
rente manutenção da prosperidade rural. Tornára-se com 
effeito chronica a effervescencia, e raros dias passavam-se 
sem a perpetração de algum crime, para o qual não existia 
de facto repressão, especialmente por serem as victimas 
em geral portuguezes, ou tentativa de insubordinação nos 
quartéis, servida pelas invejas entre os offlciaes das pro- 
moções legaes e revolucionarias. Conta-se que em dois 
dias do mez de Abril foi a própria policia creada pela 
junta a auctora de bárbaros attentados commettidos contra 
os portuguezes, e que semearam intenso medo entre a po- 
pulação (Pereira da Silva, Hist. da fund. do Imp. Braz.). 
A 1 de Junho emfim um movimento, semi-popular, 
semi-militar, reagiu contra expectativa tão damnosa, inti- 
mando á junta o formal reconhecimento do príncipe D. 
Pedro como regente e chefe do poder executivo no Brazil, 
e a completa obediência ás ordens do Rio. O governo 
provisório, assustado com o tom enérgico por que lhe foi 
apresentada a reclamação, insufflada pelo Segarrega de 
Mena Calado e avocada pela camará municipal do Recife, 
acquiesceu a ella, embora pretendendo e conseguindo con- 
servar certas resalvas de deferência para com as cortes 
e a união transatlântica, e de precaução contra o despo- 
tismo do ministério do Rio, propenso á dictadura emqúanto 
a pátria se não desenvincilhasse da crise da independência. 
A adhesão da junta á regência foi applaudida pelas outras 
cidades e villas pernambucanas, seguindo algumas provín- 
cias vizinhas, habituadas a receber do Recife o santo e 
senha, o impulso dado. Não pararam porém com tal con- 
cessão as tumultuarias exigências, antes recrudesceram 
pelas duvidas na sinceridade da junta, a qual, saudosa da 
desvanecida autonomia, cogitava illudir o cumprimento dos 
compromissos contrahidos. Pretextou ella em sua sessão 
de 5 de Julho a necessidade de um plebiscito para des- 
ligal-a da dependência em que se sentia collocada perante 
as cortes, e auctorisal-a a dar a precisa execução a varias 



281 

resoluções do regente, entre outras as que referiam-se ás 
eleições de procuradores ao conselho de estado, e de de- 
putados á assembléa legislativa que a 3 de Junho D. Pedro 
determinara convocar para a capital brazileira. 

Não encontrando nos argumentos adduzidos mais do 
que capciosas razões para furtar-se a junta á subordinação 
jurada, a opinião sobresaltou-se, e tomando consistência o 
bulicio, particularmente pela influencia de Bernardo José 
da Gama, futuro visconde de Goyanna, pelo apoio de um 
batalhão pernambucano mandado regressar pelo regente 
da Província Cisplatina, onde se achava desde 1817, e 
pela decisão do coronel Silva Pedroso, afeito ás medidas 
revolucionarias, transformou-se em motim que em começo 
de Agosto depoz o governo presidido por Gervásio Pires 
Ferreira. Immediatamente organizou-se outra junta, que 
interinamente administrou a provincia no meio de uma 
profunda perturbação, cedendo o lugar em 24 de 'Setembro 
a um governo de eleição popular, onde, pelas condições 
extensas da eleição, preponderava o elemento rural. Pelo 
pedido de demissão do brigadeiro José Corrêa de Mello, 
o commando das armas conjunctamente passara para Silva 
Pedroso, promotor do pronunciamento nas casernas, e 
algum tempo depois, quando remettido o coronel Pedroso 
para o Rio, obteve-o Joaquim José de Almeida, igualmente 
deposto por uma sedição que expulsou o presidente da 
nova junta. 

Os acontecimentos subsequentes deram razão aos amo- 
tinados de Agosto. Não que a junta deposta houvesse 
nunca usado para com o congresso de Lisboa de um avil- 
tante servilismo: pelo contrario costumava ella expressar- 
se acerca da orientação impressa em Portugal aos negó- 
cios ultramarinos com tamanha altivez que, por occasião 
de discutir-se nas cortes o celebre parecer responsabili- 
zando a junta de São Paulo, vários outros signatários de 
briosas representações ao regente e os secretários de estado 
brazileiros, culpados todos de actos attentatorios da sobe- 
rania parlamentar, diversos oradores dos dois paizes com- 
pararam a severidade d' esse procedimento com a benigni- 
dade testemunhada á junta de Pernambuco, a qual servia- 



282 

se de linguagem semelhante á das representações incrimi- 
nadas. No que tinham razão os amotinados era em quere- 
rem furtar-se de todo á supremacia das cortes. No pró- 
prio mez de Julho, quando Gervásio Pires Ferreira, espi- 
ando cautelosamente a opportunidade de alguma solução 
radical, delineava a ultima e ténue ligação entre a pro- 
víncia e o reino europeu, o congresso que ufanava-se de 
liberal approvava o parecer sobre as relações commerciaes 
brazilio-portuguezas, concebido n' um espirito rotineiro de 
monopólio e n' uma intenção mesquinha de predomínio, e 
rejeitava o home rule bill creando uma camará legislativa 
brazileira, o qual os deputados americanos haviam offere- 
cido como o minimum das suas aspirações. 

Da mesma forma que os unionistas e conservadores 
do moderno parlamento de Westminster antevêem no pro- 
jecto de Gladstone a separação da Irlanda e o esphacelo 
do império britannico, assim os constitucionaes portuguezes 
de então farejavam na proposta brazileira a desaggregação 
dos dois reinos conduzindo á perda total de uma unidade, 
que aliás na realidade já bem pouco representava, e ape- 
nas poderia talvez ter subsistido poucos annos mais me- 
diante concessões menos estreitas do que uma delegação 
do poder executivo de Lisboa, e uma regência composta 
de elementos portuguezes em substituição do príncipe real 
mandado regressar. "Ou home rule, ou estado de sitio!" 
exclamava ha pouco na camará dos communs o grande 
liberal inglez, demonstrando a inanidade do meio termo 
inventado pelos dissidentes do seu partido; como ha se- 
tenta e um annos os deputados americanos requeriam na 
constituinte de Lisboa medidas definidas, francamente 
symptomaticas da boa vontade ou do rancor portuguez. 
Nem ministério próprio lhes concederam, a exemplo do 
estabelecido para a Irlanda no projecto de Gladstone, com- 
quanto exercendo as suas funcções sob o governo consti- 
tucional de um vice-rei britannico. 

Uma tal attitude da camará lusitana, aggravada pela 
ordem de evacuar Montevideo, a magnifica conquista de 
D. João VI, no intuito de obter as boas graças da Hespa- 
nha, recuperar assim Olivença e reforçar o atrabiliário general 



283 

Madeira, somente apressaria a separação. As idéas de in- 
dependência borbulharam consequentemente, desenhando-se 
com maior clareza levemente envoltas n'uma phraseologia 
transparente em sua opulência, e organizou-se com mais 
segura presteza a resistência nacional á repressão pro- 
mettida pela concentração de tropas na Bahia. D. Pedro, 
pelo poder das circumstancias intimamente ligado com o 
partido liberal, perdeu as ultimas illusões do seu espirito 
ambicioso de presidir ao dualismo transmarino, e activou 
o desfecho da curiosa comedia politica na qual D. João VI 
esteve longe de desempenhar o infimo papel de comparsa 
que superficialmente lhe poderá ser attribuido. A 7 de Se- 
tembro de 1822, estando o regente de viagem em São 
Paulo a aplacar discórdias locaes, recebeu do Rio a no- 
ticia das novas offensas infligidas pelas cortes ao senti- 
mento brazileiro, e n' uma brusca selecção de já balança- 
dos interesses soltou com calor o grito da nossa indepen- 
dência. Optando d' est' arte pelo Brazil , e entregando 
Portugal, enervado pela crise hysterica do constituciona- 
lismo, á fácil victoria da reacção, o príncipe executava 
um vantajoso arranjo de família, quiçá correspondente ás 
suas intimas predilecções, e que, em parte pela felicidade 
immediata dos resultados e muito pela lógica das conside- 
rações, póde-se acreditar ter sido combinado n' uma justa, 
si bem que limitada previsão dos eventos políticos. 



XXV 

Com a proclamação do Império foi o Brazil repentina- 
mente sacudido na plena ebullição da sua organização 
nacional, privado, ao contrario dos Estados Unidos da 
America, de uma longa educação politica durante o período 
colonial, a braços com divisões intestinas, e atravessando 
uma epocha qualificada pelo amor ás soluções extremas. 
Nem sequer as províncias congregavam-se ainda n' uma 
eloquente expressão de solidariedade. A Bahia continuava, 
preza da guerra civil, com a capital minada pela fome e 



284 

entregue á obstinada e cruel resistência do general Ma- 
deira, cercado pelas tropas nacionaes de Labatut de que 
fazia parte um reforço pernambucano, e com os navios 
incançavelmente ameaçados pela esquadrilha ás ordens de 
Lord Cochrane, official inglez ao serviço do Brazil, cujo 
bloqueio acabou por forçar os portuguezes a embarcarem 
em 2 de Julho de 1823. O Maranhão e o Pará persistiam, 
máu grado impaciências parciaes, em receber inspiração 
das cortes portuguezas, rendendo-se afinal no decorrer do 
mesmo anno, o primeiro a Lord Cochrane, e o segundo ao 
seu subalterno, capitão Grenfell. No Rio de Janeiro entre- 
tanto, sede da nova corte, o enthusiasmo pelo soberano 
era caloroso, delirante mesmo: no theatro e pelas ruas 
succediam-se as ovações ao libertador, que no incitamento 
da mocidade e na expansão do seu temperamento cava- 
lheiroso, jurava sinceramente ás turbas e a si próprio ser, 
não um imperante, mas um pai carinhoso. 

Em outros lugares todavia, o sentimento democrático 
entrara a perceber que a aspiração emancipadora não po- 
deria ter sido em caso algum rebatida, e que fora calcu- 
lada e habilmente aproveitada n' um interesse dynastico : 
e d' ahi agitava-se, desassocegado pela consciência do lu- 
dibrio, sem mesmo aguardar que a união se cimentasse. 
Em Pernambuco, foco o mais poderoso segundo o histo- 
riador Armitage do anhelo independente, e onde D. Pedro 
foi acclamado imperador a 8 de Dezembro de 1822, come- 
çara a publicar-se no mez de Julho um jornal republicano 
— Maribondo — , logo seguido da Sentinella da Líber- 
dade do deputado Cypriano Barata, e do Escudo do capitão 
Mendes Vianna; os quaes sob o Império proseguiram as 
suas declamações. Semelhantes idéas avançadas eram tão 
notórias na provincia, que uma extrangeira, M rs Graham, 
referindo-se ao capellão de uma fazenda fluminense, es- 
creve: "he is a native of Pernambuco, of course a staunch 
independent" . Mais ainda, eram ellas assignaladas entre 
os próprios partidistas da junta local, conforme dizia, por- 
ventura com algum exaggero, José Fernandes Gama, um 
dos deportados para o Rio no anno de 1823 por occasião 
de ser annullado o segundo pronunciamento capitaneado 



285 

por Pedroso, que mettêra-se a conservador e tribuno da 
população de cor, pronunciamento provocado por manifesta- 
ções puramente democráticas, e organizado contra o go- 
verno eleito, um momento compellido a fugir para o Cabo 
deante da sedição. 

O certo é que, quando não em total francamente re- 
publicanos, os sentimentos liberaes de Pernambuco rebella- 
vam-se contra a politica centralizadora, prepotente e dy- 
nastica dos irmãos Andradas. Respondia a Fernandes 
Gama frei Joaquim Caneca n' um dos seus pamphletos 
vibrantes, dignos de emparelhar nos períodos de cáustico 
vigor com os de Paulo Luiz Courier, e nos de desbragada 
polemica com o Pere Duchêne de Hébert: "A massa da 
provincia aborrece e detesta todo governo arbitrário, il- 
liberal, despótico e tyrannico, tenha o nome que tiver, 
venha revestido da força que vier. A massa da provincia 
só se ha de pacificar, quando vir que as cortes soberanas 
não estabelecem duas camarás; que não dão ao supremo 
chefe do poder executivo veto absoluto; e que elle não 
tem a iniciativa das leis no congresso; quando vir a im- 
prensa livre; estabelecido o jurado; o imperador sem o 
commando da força armada; e outras instituições, que 
sustentem a liberdade das instituições, que sustentem a 
liberdade do cidadão e sua propriedade, e promovam a 
felicidade da pátria; fora disto, a massa da provincia, á 
semelhança de S. M. I. e Constitucional, gritará — Do Bio 
nada, nada; não queremos nada". (Frei Caneca, O Caçador 
atirando á Arara Pernambucana.) 

Refere-se o virulento escriptor n' estas phrases aos 
trabalhos da constituinte, encetados na capital brazileira 
em 3 de Maio, a meio da desconfiança dos elementos ade- 
antados gerada pela deportação de Ledo, Januário, José 
Clemente e outros liberaes, e pelas tendências absolutistas 
que se descobriam em D. Pedro, educado n' uma corte in- 
çada de preconceitos, e naturalmente levado por instiga- 
ções da indole a uma actividade desconnexa e a uma 
politica bulhenta. Nas primeiras sessões manifestou-se 
immediatamente a divergência entre um imperador cheio 
de vaidade do papel que assumira na historia americana, 



286 

e deputados convictos da infallibilidade dos metaphysicos 
princípios de direito publico que constituiam o arsenal das 
discussões politicas da epocha. "Não se pôde suppôr, ex- 
clamava o prudente Araújo Lima alludindo a uma phrase 
leviana de D. Pedro, que a Assembléa dos Deputados faça 
uma Constituição indigna do Brazil." "Si o Imperador 
desapprovar a Constituição depois de formada, accrescen- 
tava Muniz Tavares, sem duvida accederá ás suggestões 
da sua consciência, e resignará a autoridade imperial" 
(Armitage, Hist. do Brazil). 

Verificaram-se effectivamente ao cabo de poucos mezes 
as peores suspeitas dos representantes populares, entre 
os quaes, padres, proprietários agrícolas ou magistrados, 
grassavam reconhecidamente idéas avançadas. No espirito 
do monarcha,- uns tempos adormecido pelo encanto dos 
hymnos á liberdade, acordara tardio echo a Villafrancada, 
assuada com que D. Miguel atemorizara os constitucionaes 
portuguezes. D. Pedro sentia sobretudo despertar-se-lhe 
n' alma a saudade do Reino Unido, de que nascera her- 
deiro, e irresistivelmente voltava os seus afagos para os 
elementos europeus da sua roda, valiosos no exercito e na 
alta administração. José Bonifácio e os irmãos, agora 
afastados do poder por zelos de preponderância paulista, 
e bom acolhimento feito por António Carlos á proposta de 
Muniz Tavares expulsando os portuguezes hostis ao Brazil; 
e dando largas na opposição aos seus constantes senti- 
mentos de brazileirismo , no jornal — O Tamoyo — e na 
tribuna accusavam abertamente o soberano de uma tal 
preferencia. Avocando esquecidas idéas progressistas, elles 
agitavam com os seus talentos e popularidade a opinião 
e a assembléa. O acto brutal da dissolução da constituinte 
a 12 de Novembro, precedido de um simulado pronuncia- 
mento militar e seguido da deportação dos Andradas, foi 
a resposta do throno desmascarando as baterias da tyrannia 
contra as exigências do patriotismo. 

A 26 do mesmo mez reunia D. Pedro, no lugar da 
constituinte, trucidada em razão da sua altaneria, um con- 
selho de estado ao qual confiava o encargo de elaborar 
uma constituição , cujas bases elle mesmo fornecia n' um 



J 



287 

prurido de outorgar franquias para falseal-as na pratica. 
Redigiram os conselheiros a constituição n' um sentido in- 
contestavelmente liberal, si bem que algumas das attribui- 
cões imperiaes, o senado vitalício e indissolúvel, e a au- 
sência de real soberania da camará popular ferissem as 
susceptibilidades democráticas. Sujeita á approvação das 
camarás municipaes, a Carta foi jurada no Rio a 25 de 
Março de 1824 antes de ser de todo conhecida a opinião 
das vereações, vindo somente a receber de 1826 em deante 
o necessário complemento da critica, correctivo ou rati- 
ficação parlamentar. 

Recebera o Sul sem repugnância a dissolução da con- 
stituinte, ou antes acolhêra-a com manifestações de fervor 
imperialista. No Norte, porém, produziu este attentado 
politico, comparado nos jornaes contemporâneos ao 18 Bru- 
mário, uma maguada impressão. Os liberaes em Pernam- 
buco tremeram pela sorte das liberdades a tanto custo 
obtidas, e a eífervescencia, brotada da persistente atmos- 
phera de pronunciamentos e de licença, continuou n' um 
crescendo tão ameaçador, que a pouco harmónica junta, 
a qual a principio fora presidida por Aífonso de Albu- 
querque Maranhão e era-o agora, transformada em trium- 
virato, por Francisco Paes Barreto, dedicado aos interesses 
unitaristas, julgou-se impotente, não obstante a prisão dos 
jornalistas Barata e Mendes Vianna, p^a conter o rebentar 
dos rancores avolumados. A 13 de Dezembro de 1823, em 
reunião celebrada no Recife, cuja camará municipal fora 
deposta por affeiçoada á constituição outorgada e substituída 
«m novo suffragio, pediu a junta excusa dos seus cargos, 
sendo eleito um novo governo presidido pelo intendente 
da marinha Manoel de Carvalho Paes de Andrade, republi- 
cano de 1817 que andara foragido na America Ingleza, e 
recentemente em si encarnara a recrudescência das sym- 
pathias democráticas da província; e secretariado pelo D r . Na- 
tividade Saldanha, mulato de talento bacharelado em Coim- 
bra, conhecido na nossa litteratura por apreciáveis sonetos 
e poesias patrióticas do género pindarico, resuscitado por 
Diniz na pseudo-classica Arcádia Ulyssiponense. 

A 8 de Janeiro seguinte os eleitores do Recife e Olinda 



288 

confirmavam quasi integralmente as escolhas feitas, recu- 
sando-se ao mesmo tempo a reconhecer o presidente legal- 
mente nomeado pelo imperador, cuja preferencia desastrada- 
mente recahira no próprio Francisco Paes Barreto (morgado 
do Cabo), e a eleger novos deputados, quando os antigos 
representantes não tinham podido dar cumprimento aos 
seus mandatos. Em defeza do novo governo , apoiado por 
vereações e eleitores que tão resolutamente contrapunham-se 
ás determinações do soberano, creou frei Joaquim Caneca, 
preso de 1817 e monge buliçoso reputado como vimos pela 
sua energia litteraria, um hebdomadario por nome o Typhis 
Pernambucano, trazendo o primeiro numero a data de 25 de 
Dezembro de 1823 e ostentando como symbolico lemma 
os versos de Camões: 

Uma nuvem que os ares escurece, 
Sobre nossas cabeças apparece. 

"Acorda, pois, oh Pernambuco, do lethargo em que jazes! 
exclamava o periódico. Attenta os verdadeiros interesses, 
vê o perigo; olha o medonho nevoeiro que se levanta do 
sul, e que se vai desfechar em desastrosa tempestade; 
amaina os traque tes, põe-te a capa; barlaventeia das in- 
trigas, segue o rumo da união, O teu Ty- 
phis te apontará as cy ciadas, os bosphoros, as syrtes; te 
notará os perigos até onde se extender o horisonte da sua 
vista; elle subirá o mais elevado tope da tua gávea sem 
mudar a cor do rosto." 

A nuvem ia-se entretanto tornando tão caliginosa 
quanto a que no poema épico precede a apparição do gi- 
gante Adamastor. O exemplo das camarás municipaes de 
Olinda e do Recife foi seguido pelas outras camarás da 
província congregadas a 21 de Fevereiro; e um mez de- 
pois, a 20 de Março, uma contra-sedição arrancou da for- 
taleza do Brum com o auxilio da própria guarnição o presi- 
dente Manoel de Carvalho, alli recolhido depois de prezo 
n' uma sedição fomentada por Paes Barreto. O morgado 
do Cabo viu-se forçado a recuar deante da popularidade 
do rival, indo acampar com sua gente, entre a qual con- 
tava-se tropa de linha, na Barra Grande, em Alagoas; 



289 

emquanto a população do Recife e o conselho de vereações 
de 7 de Abril resistiam ás intimações do capitão de mar 
e guerra Taylor, chegado do Rio com duas fragatas a dar 
posse ao delegado imperial. Contrariado com estas dene- 
gações, Taylor estabeleceu o bloqueio do Recife e portos 
adjacentes, ao tempo que seguia para a capital uma depu- 
tação encarregada de solicitar a confirmação do presidente 
de eleição popular, o qual assumira para com os partidá- 
rios do centro uma attitude de dissimulada hostilidade. 

Era D. Pedro de natureza em demasia orgulhosa para 
supportar indicações que viessem-lhe dirigidas n' um tom 
firme, e mais ainda para acceder a ellas. Adoptando com- 
tudo n' este negocio uma solução conciliadora, nomeou a 
24 de Abril para Pernambuco um terceiro presidente, José 
Carlos Mayrink, o antigo secretario da capitania que a 
todos os governos antojava-se sympathico. Ficou Mayrink 
medianamente satisfeito com a arriscada honra que lhe 
cabia, e que tão avessa devia ser ao seu temperamento 
calmo : acceitou todavia o encargo confiado pelo imperante, 
ainda que, presentindo com a anterior experiência a latente 
erupção de uma nova rebellião, nunca tivesse querido sob 
especiosos pretextos tornar effectiva a posse que Manoel 
de Carvalho velhacamente lhe offerecia. Cedo provaria 
Mayrink a verdade que o assistia em sua hesitação, ba- 
seada no conhecimento que possuía dos anhelos democráti- 
cos do Norte, bem patenteados nas instrucções dadas por 
varias camarás municipaes aos deputados eleitos á con- 
stituinte; e particularmente fundada nos acontecimentos 
do Ceará, onde, graças ás suggestões de Manoel de Car- 
valho semeadas pelas províncias vizinhas, o presidente 
recemnomeado pelo soberano fora deposto apóz uma ad- 
ministração de quinze dias, e embarcado para o Rio com 
vários partidários da legalidade, sendo Tristão de Alencar 
Araripe acclamado presidente pelo povo e tropa. 

Nem de resto passar-se-hia muito tempo sem que Manoel 
de Carvalho se abalançasse ao projecto que com fieis acolytos 
em segredo andava ruminando. O annunciado ataque de 
um exercito portuguez, commandado por Beresford, Sil- 
veira e Luiz do Rego, contra o Brazil, depois de inutil- 

Lima, Pernambuco. 19 



290 

mente tentada a interferência armada da Inglaterra, ataque 
em que poucos mezes antes o Typhis não acreditava, antes 
ridicularizava-o perguntando si caberiam no Brazil os nume- 
rosos soldados da antiga metrópole, constituio o pretexto 
decisivo que faltava para ser levantado o grito de revolta. 
A lide Junho partira ordem do Rio para, em vista das 
ameaças lusitanas, regressarem as duas fragatas do blo- 
queio, centralizando-se a defeza nacional; a 17 porém já 
a camará e cidadãos olindenses haviam-se recusado a 
jurar sob a pressão d' aquelles navios a constituição outor- 
gada por D. Pedro, e finalmente a 2 de Julho, salientando 
n' um manifesto o abandono das províncias nortistas aos 
horrores da invasão extrangeira e recapitulando as pre- 
potências imperiaes, Manoel de Carvalho proclamava a 
Confederação do Equador. 

"As constituições, as leis e todas as instituições huma- 
nas são feitas para os povos e não os povos para ellas" 
— dizia o manifesto do presidente n' uma intuição dos 
princípios . da moderna sociologia: e seguia-se um appello 
á federação que, então abafado pelo sangue e depois sopi- 
tado pela modorra successora das grandes violências e pela 
corrupção politica, apenas sessenta e cinco annos mais 
tarde seria escutado pelo Brazil: "Segui, ó Brasileiros, o 
exemplo dos bravos habitantes da zona tórrida, vossos ir- 
mãos, vossos amigos, vossos compatriotas; imitai os valentes 
de seis provincias do norte, que vão estabelecer seu go- 
verno debaixo do melhor de todos os systemas — repre- 
sentativo — ; um centro em lugar escolhido pelos votos de 
nossos representantes dará vitalidade e movimento a todo 
nosso grande corpo social. Cada Estado terá seu respectivo 
centro, e cada um d' estes centros, formando um annel 
da grande cadêa, nos tornará invencíveis." Como consti- 
tuição mandou-se provisoriamente adoptar a da Columbia, 
estado formado das provincias de Venezuela, Nova Granada 
e Quito, illustradas pelos triumphos de Bolívar e Santander, 
e organizadas federativamente na convenção de Cucutá. A 
acreditarmos no inglez Payne, era essa constituição a /ar- 
rogo of crude and heterogenous ideas, importadas dos Esta- 
dos Unidos, da França e da Inglaterra; mas, comquanto 



291 

ephemera por motivos de divisões physicas e de indiffe- 
rença moral, representava uma generosa tentativa de ap- 
plicação de uma theoria levantada, como a da organização 
de estados autónomos vinculados por laços de reciproca 
affeição e commum defeza. Um facto demonstra pelo menos 
a orientação genuinamente liberal da nossa Confederação do 
Equador, a qual da democracia não tomara somente o 
aspecto exterior: o primeiro edital firmado pelo presidente 
depois de desvendada a revolta foi o ordenando a suspensão 
do trafico de escravos para Pernambuco. 

Ajudando dedicadamente a Manoel de Carvalho achava- 
se José de Barros Falcão, o antigo chefe da expedição a 
Fernando de Noronha em 1817, agora acclamado comman- 
dante das armas no mesmo dia 13 de Dezembro da eleição 
do presidente, immediato ao da sua chegada da Bahia com 
o batalhão pernambucano victorioso na lucta contra os 
portuguezes de Madeira. Fácil tornou-se pois a formação 
dos corpos militares que dirigiram-se para a Barra Grande, 
simultaneamente bloqueada por duas embarcações mer- 
cantes transformadas em vasos de guerra, e confiadas a 
Metrowich, Silva Loureiro e immediato Ratcliíf, este um 
instruido portuense de família polaca que havia sido offi- 
cial de secretaria em Lisboa e emigrara para o Brazil, 
perseguido pela reacção anti-constitucional. A expedição 
correu em tudo mal afortunada para os revoltosos, não 
logrando elles, quando desvanecidas as primeiras hesitações 
do acommettimento em provincia extranha, desalojar os 
legalistas de onde estacionavam, e sendo-lhes apprehendida 
por navios imperiaes a fraca marinha de combate. 

Essas próprias forças insurrectas destacadas no sul sen- 
tiam-se a breve trecho compellidas a recuar deante das tropas 
do coronel Lima e Silva, vindo do Rio a bordo da divisão 
naval commandada por Lord Cochrane, a qual bloqueou o 
Recife apóz uma gorada tentativa de conciliação com 
Manoel de Carvalho, em que serviu de intermediaria ao 
almirante a nossa conhecida M rs Graham, accidentalmente 
passageira de um paquete britannico alli fundeado. Lord 
Cochrane, exgottado o prazo das intimações, bombardeou 
ligeiramente o porto no dia 27 de Agosto. Lima e Silva 

19* 



292 

porém, menos disposto a contemporisações, para alli mar- 
chou rapidamente na intenção de destruir com promptidão 
e de vez a rebellião, no que ia ajudado pela gente do mor- 
gado do Cabo e pelo soeeorro destinado ao Ceará, pro- 
víncia que continuara a ser retalhada pelas dissensões, e 
por fim alistára-se francamente na Confederação, elegendo 
até deputados ao governo supremo de Pernambuco com o 
fim immediato de jurarem uma constituição. 

Foi rápida a victoria da expedição imperialista. No 
Cabo, Lima e Silva separou as suas tropas em dois con- 
tingentes, indo o menor ameaçar o inimigo estacionado 
não longe, e avançando o outro para o Kecife pelos Afo- 
gados. Senhor a 12 de Setembro, apóz vários encontros, 
do forte das Cinco Pontas e do bairro de Santo António, 
viu-se o coronel todavia collocado em frente aos insurgentes 
da cidade acantonados no bairro marítimo do Recife, pro- 
tegidos pelos fortes do Brum e do Buraco, e communi- 
cando-se pelo isthmo com Olinda, onde refugiaram -se a 
13 as forças rebeldes antes paralysadas pelo destacamento 
legalista, por este impedidas de envolverem Lima e Silva 
do lado dos Afogados, e repellidas na Boa Vista em um 
sangrento combate oíferecido pelos occupantes do bairro 
de Santo António. A revolução estava materialmente quasi 
batida, e moralmente annullada depois da fuga, no dia 12, 
do presidente Manoel de Carvalho para bordo de uma cor- 
veta ingleza. A camará de Olinda e logo o governador 
das armas empenharam-se comtudo por um armistício que 
fosse preliminar da capitulação. Não sendo possivel che- 
gar-se a accordo sobre elle, Lima e Silva avançou sobre 
o bairro do Recife, do qual apoderou-se, e marchou para 
Olinda onde entrou a 17, pondo em debandada as ultimas 
forças rebeldes, de que parte juntou -se em Goyanna a 
companheiros do Recife e a um contingente parahybano, 
internando-se todos, frei Caneca á frente, em direcção ao 
Ceará, ainda jurando masculamente não accederem á paci- 
ficação senão em troca da garantia da livre elaboração 
de uma constituição por uma assembléa adrede reunida. 
Perseguidos è ou aggredidos na passagem pelos soldados 
imperialistas, dizimados em successivos encontros, tive- 



293 

ram porém de depor as armas no Juiz, a 28 de No- 
vembro. 

Nas outras províncias entretanto mostrava-se a sorte 
igualmente desfavorável aos republicanos. No Ceará, onde 
a guerra civil ateára-se com energia, foi prezo n' um com- 
bate e massacrado, a 31 de Outubro, o presidente Tristão 
de Alencar Araripe, entregando-se o commandante das 
armas espontaneamente mercê d' esse successo, e fazendo 
o próprio presidente interino a contra-revolução na capital, 
á vista dos navios de Lord Cochrane. A Parahyba, que 
semelhantemente sacudida desde a dissolução da constituinte 
pelos tremores da convulsão civica e animada com insti- 
gações e soccorros pernambucanos, depuzéra a 21 de Julho 
o delegado do centro por meio de uma verdadeira coacção 
moral, abrindo d' es t' arte livre campo á revolta, um mo- 
mento triumphante e sustentada mediante a intervenção 
de Manoel de Carvalho, teve de seguir o Ceará na sua 
desventura. No Rio Grande a agitação não tinha d' esta 
vez chegado a determinar uma sensivel mudança na orien- 
tação politica, e no Pará haviam sido frustrados os con- 
chavos federalistas: ostentava- se portanto a corte victo- 
riosa, e tremulava novamente em todo o Norte o pavilhão 
unitarista. 

A repressão constitucional igualou em rigor á que sete 
annos antes exercera o absolutismo. Julgados quasi todos 
por commissões militares, os réus de estado foram em 
grande numero condemnados á morte, escapando á pena 
alguns dos mais importantes, sentenciados á revelia. Estes, 
que procuraram refugio em outras terras, chamavam -se 
Manoel de Carvalho, Natividade Saldanha, governador das 
armas José de Barros Falcão, e tenente coronel José An- 
tónio Ferreira, commandante das forças destacadas para o 
sul da província a combater as tropas do morgado, o 
ajuntamento legalista que o pamphletario do Typhis gra- 
ciosamente appellidava de patuscada. A 13 de Janeiro 
de 1825 era o illustre publicista frei Caneca fuzilado, re- 
pellidas as preces do clero pelo perdão do carmelita, 
não tendo -se encontrado um criminoso sequer que se 
prestasse a enforcai- o; e durante os mezes immediatos 



294 

muitos outros patriotas seguiram-n' o no supplicio. O preto 
major Agostinho Bezerra, o americano Rodgers, Nicolau 
Martins Pereira, e quatro mais no Recife; Loureiro, o ge- 
novez Metro wich, e Ratcliff no Rio; o padre Gonçalo de 
Loyola, o coronel Pessoa, e vários no Ceará, pagaram 
cruelmente com suas vidas o crime da aspiração fede- 
ralista. 



XXVI 

A idéa todavia não perecia com os seus martyres, e 
taes deshumanidades politicas apenas lograram inficionar 
mais o abalo de que as terras nortistas se achavam peri- 
gosamente achacadas. Refere-se que no Ceará a sangrenta 
anarchia das classes baixas e os despotismos do comman- 
dante das armas substituiram-se á exgottada acção da 
justiça militar, e juntando-se á secca, bem como á fome 
resultante, sepultaram a província n' um abysmo de deso- 
lação. Em Pernambuco não foram menos evidentes, e por 
longo tempo continuaram a sentir- se, os resultados da 
diária sedição na qual transformara -se a vida publica. 

N' esta damninha perturbação acabaram por afundar-se 
com os sentimentos de ordem, o respeito á propriedade e 
a segurança dos cidadãos inermes, que haviam nobremente 
singularizado os primeiros movimentos pernambucanos. A 
indisciplina da tropa de linha ou miliciana, habituada pelos 
successivos pronunciamentos á fereza mais descomposta e 
á venalidade mais desavergonhada, chegou a revestir o 
aspecto ainda desconhecido das rivalidades de cor, pare- 
cendo querer dar razão aos viajantes extrangeiros, os quaes, 
firmando-se em eventos não remotos como as matanças 
haitianas, presagiavam para o Brazil, n' um curto prazo, 
igual cataclysmo brotado da sanha dos escravos. Diz-se 
que nos dias da lucta mais accesa entre os partidários de 
Paes Barreto e os de Manoel de Carvalho, esteve o Recife 
a ponto de ser saqueado pelo regimento de pardos com- 
mandado por um tal Mundurucú, do que livrou-se a cidade 



295 

graças á intervenção dos pretos do major Agostinho Be- 
zerra, os quaes, longe de insurgirem-se contra os brancos, 
assim generosamente retribuíram as sevícias seculares de 
que eram victimas. Parecia porém em geral manifestar-se 
que a democracia, palavra de que já tanto entrara a abu- 
sar-se, tomava nos espíritos menos esclarecidos a signifi- 
cação de desordem, facilitando por esta falsa interpretação, 
formada na criminosa excitação ambiente, a obra futura 
do entorpecimento das convicções politicas sob o segundo 
reinado. O almejado desafogo virara totalmente em licença; 
transformára-se a liberdade civil em desorientação, moti- 
vando em Fevereiro de 1829, por um natural exaggero de 
insignificante desordem, a suspensão das garantias consti- 
tucionaes e a creação de commissões militares na provín- 
cia; e com uma tão espalhada perversão dos novos princí- 
pios lucrava somente o prestigio da auctoridade monarchica. 

Esta mesma, representada por um soberano pouco in- 
struído e de escassa experiência, via-se diariamente compro- 
mettida, não só por uma camarilha que mantinha os podres 
da corrupta administração portugueza, para mais transladados 
pela corte de Lisboa, como pelo bando dos políticos na- 
cionaes. Eram estes no geral espíritos indisciplinados e, 
mercê do obscurantismo colonial, nem todos de intelli- 
gencia assaz cultivada. Eivava- os porém o desmarcado 
orgulho dos americanos emancipados, e não reprimiam as 
brutaes rivalidades no assalto ás posições, nem abrigavam 
ainda a agitação ingénua de suas paixões, traduzidas par- 
ticularmente por uma imprensa raivosa e pessoal, quer 
sob o nobre manto do viril parlamentarismo inglez, que a 
approximação da Grã Bretanha melhor fazia conhecer, quer 
sob a capa ligeira da graça gauleza, que a estada dos 
professores e artistas francezes chamados por D. João VI 
contribuía a acclimatar. 

No altivo Pernambuco, ninho brazileiro das aspirações 
avançadas, tomou prestes assento um partido reaccionário, 
favorecido pelas tendências cada vez mais francamente 
despóticas de D. Pedro I, ainda que ostensivamente rene- 
gado pelo centro em principios de 1830, quando a audácia 
dos seus manejos provocou em Pernambuco e no Ceará 



296 

alteração do relativo socego publico. Entretanto a facção 
republicana, enfraquecida pelas selvagens repressões, des- 
moralizada pelos repetidos motins, foi-se muito paulatina- 
mente diluindo, á mingua de uma tradição nacional vigo- 
rosa que a amparasse, na corrente monarchico-representa- 
tiva á moda ingleza, brilhante e predominante mormente 
durante a Regência subsequente, e da qual os nossos cir- 
cumspecto marquez de Olinda, chefe do primeiro ministério 
parlamentar (Novembro de 1827), de ephemera duração, 
inaugurador de uma politica de tolerância e moderação 
discordantes do descabellado governo pessoal do impera- 
dor, e Hollanda Cavalcanti (visconde de Albuquerque) re- 
presentam dois dos mais genuinos e salientes typos. Este 
duplo movimento conservador, disfarçando o primeiro in- 
tentos absolutistas, respeitando o segundo muitas das con- 
quistas democráticas, constituio a inevitável resistência ás 
vociferações desvairadas contra os antigos metropolitanos, 
as quaes durante uma vintena de annos ainda acordariam 
os echos das viellas do bairro commercial do Recife, e o 
necessário emolliente á exacerbação dos espiritos indisci- 
plinados, que em 1848 soltariam o seu ultimo clamor sub- 
versivo ao retirarem-se para dentro da orbita morna da 
legalidade. 

Não logrou por certo a regressão imperar, nem rápida, 
nem inteiramente. A desunião do Reino Unido, cuja nova 
juncção afigurava -se aos ânimos nacionaes o primeiro 
revestimento da reacção, consolidou-se em 1825 pelo re- 
conhecimento da independência brazileira, suggerida a Por- 
tugal pela Inglaterra, então dominada por Canning, que, 
verdadeiro tory na politica caseira, representava no exterior, 
mercê das necessidades commerciaes da Grã Bretanha e 
dos ciúmes por esta nutridos da influencia dos impérios 
absolutistas de Leste, o papel de protector das nacionali- 
dades em busca de autonomia e divulgador das doutrinas 
constitucionaes, de moderado precursor da diplomacia ab- 
sorvente, por vezes importuna, mas sempre altaneira e 
patriótica de Lord Palmerston. Desfeita a lenda ridicula 
da recolonização portugueza, soffreu o Império no seu 
pendor para a tyrannia os vivos arrancos da discórdia in- 



297 

terna, não podendo mais oppôr-lhes a barreira da pristina, 
ainda que concentrada popularidade, embaciada pelas pre- 
potências exercidas contra os federalistas e pelo persistente 
desrespeito ás normas constitucionaes da administração; 
achincalhada no viver desregrado do monarcha, cuja favo- 
rita, intromettendo-se em politica como a Pompadour, até 
derrubava ministérios; e esvaída na sombra das derrotas, 
mal resgatadas por frouxas victorias, provenientes da in- 
surreição montevideana. Este desbarato das armas impe- 
riaes, augmentado com as intrigas argentinas tendentes a 
accrescimo territorial da republica, separou do todo bra- 
zileiro o formoso Estado Cisplatino, acarretando a lucta a 
vergonha dos insultos francezes por motivo da restituição 
das prezas de guerra, e a sedição dos mercenários extran- 
geiros engajados na falta de combatentes nacionaes, ori- 
unda da antipathia á idéa de recrutamento e apenas sup- 
prida por levas manietadas. 

O desfavor crescente da opinião, em grande parte 
revoltada contra os processos do poder, acanhados de 
horizonte e ameaçadores na constante usurpação das attri- 
buições legislativas e na creação de um systema de espio- 
nagem, perseguição e favoritismo: processos aliás estigma- 
tizados pelas consultas eleitoraes feitas a meio de uma 
pugna accesa entre ideaes mutuamente repulsivos, como 
eram o unitarismo autocrático e o federalismo democrático, 
mal amalgamados ainda na ambígua solução constitucio- 
nal; os acontecimentos do velho reino, onde D. Miguel, 
encarnando a respeitada tradição religiosa e absolutista, 
tomara no throno o lugar da filha de D. Pedro, distra- 
hindo os cuidados do imperador e affectando com questões 
diplomáticas a neutralidade e tranquillidade brazileiras; a 
péssima e chaotica situação financeira, achando-se a cir- 
culação abarrotada de papel depreciado do Banco do Bra- 
zil, sendo lastimosas as differenças de cambio, e aggra- 
vando-se vertiginosamente o deficit pelas irregularidades 
da arrecadação e crescimento das despezas; por ultimo a 
impressão causada nos elementos liberaes pela revolução 
franceza de 1830, expulsando o cavalheiroso Carlos X e 
erguendo nas barricadas a realeza burgueza, determinaram 



298 

o primeiro imperador á abdicação em 7 de Abril de 1831, 
acto precedido de arruaças populares e annunciado por um 
geral pronunciamento militar na capital. 

A installação da regência não fez comtudo baquear 
as intenções dos partidários da reacção. Na ausência de 
D. Pedro e contra a sua annuencia, negada em carta a 
António Carlos de 14 de Setembro de 1833, persistiram em 
trabalhar por elle, e substituil-o ao triumvirato militar- 
parlamentar que ficava presidindo aos destinos nacionaes. 
Em Pernambuco, desde dois annos antes da abdicação 
funccionava ás escancaras uma sociedade, secreta apenas 
no nome, chamada Columna do Throno e do Altar, trans- 
formação do antigo Apostolado, com que os Andradas 
haviam servido as suas ambições e dado replica aos 
conchavos maçónicos. Em lugar do velho Regulador flumi- 
nense, defendiam aquella sociedade na imprensa da pro- 
víncia o Cruzeiro e o Amigo do Povo, redigidos com con- 
vicção, entre outros pelo vigário Ferreira Barreto. "Tem- 
se acreditado, por uma illusão terrível, — pregava este 
sacerdote em 1825 — que um povo só é livre, quando 
ultrapassa todos os limites, e quasi não se pensa mesmo 
que é este o methodo mais efficaz de lançar qualquer sys- 
tema por terra, e de paralysar a prosperidade da nação". 
E logo abandonando semelhante moderação, bradava elle 
em verso a D. Miguel de Portugal, representante do prin- 
cipio absolutista: 

Vive, reina, prospera, brilha, exulta, 

Da fama existe no clarim facundo! 

Tens Lysia por altar, por templo o mundo. 

As apaixonadas doutrinas ultra-conservadoras dos dois 
órgãos columnas, respondiam vivamente outros periódicos 
alcunhados de calangros, como o Diário de Pernambuco, a 
Abelha Pernambucana, o Constitucional, e a Bússola da 
Liberdade, este dirigido pelo padre Barboza Cordeiro, re- 
volucionário de 1817 e 1824, poeta, dramaturgo, e prosa- 
dor fácil. Ainda no campo litterario reunio-se, como di- 
versão politica, ás poesias mysticamente religiosa, que 
perpetuou-se no período christão do romantismo, e patrió- 
tica, a qual vibrou de novo modernamente com soberba 



299 

emphase meridional por occasião da guerra do Paraguay, 
a satírica, em poemas heroi-comicos do género da Colum- 
neiãa de frei Miguel do Sacramento Lopes Gama, e Mi- 
gueleida, resposta ao primeiro pelo padre Marinho Falcão 
Padilha. Inspirando-se no Lutrin de Boileau por inter- 
médio do Hyssópe, esses poemas não obstante eram todos 
repercussão da explosão de zombaria brotada de Gregório 
de Mattos, renovada um século depois nas Cartas Chilenas, 
e perseverante máu grado as tristezas e os desenganos 
n' uma palpitação de ironia alada, característica da idio- 
syncrasia brazileira. 

Quando o marquez de Barbacena organizou o seu mi- 
nistério (Dezembro de 1829), mandara dissolver as socie- 
dades columnas de Pernambuco e Ceará, offerecendo aos 
constitucionaes este penhor dos sentimentos liberaes do 
gabinete, o qual pouco depois (Outubro de 1830) retirava-se 
deante da politica absorvente do imperador, obstinado em 
alhear-se cada dia mais da camará popular. O 7 de Abril, 
indispensável dado este perenne conflicto entre o poder 
legislativo e o soberano, apresentou-se no Recife sob o seu 
legitimo aspecto: como a victoria dos verdadeiros consti- 
tucionaes, até então votados ao ostracismo pela camarilha 
de São Christovão, sobre os absolutistas encapotados e os 
federalistas demagógicos, facções ambas que no ultimo 
anno do primeiro reinado tinham emprestado em todo o 
Brazil novo vigor aos seus recíprocos ataques, arrancando- 
os mais e mais das pacificas e doutrinarias discussões 
jornalísticas para as aggressões desbragadas dos pasquins 
e novas assuadas das ruas No intuito de expulsarem-se de 
Pernambuco os funccionariós e militares filiados na Co- 
lumna, urdiu-se o inevitável pronunciamento, d' esta vez 
inutilizado somente pela attitude do presidente, o qual 
suspendeu promptamente o commandante das armas e 
outros officiaes reaccionários. 

A sedição porém foi apenas adiada, e o fermentar das 
ruins paixões, que corroiam o organismo provincial, devia 
forçosamente supurar n' algum tumor maligno de sangue 
e de latrocínio. O exemplo do resto do império, cuja ca- 
pital continuava a ser diária espectadora de motins, re- 



300 

primidos com difficuldade , ainda que com energia, pela 
Regência, a qual oppuzéra á soldadesca infrene a guarda 
nacional, reorganização das velhas milícias, não era próprio 
para garantir a ordem civica em pontos como Pernambuco, 
onde a única tradição viva era a do tumulto, e onde o 
conflicto entre monarchistas puros, constitucionaes e fe- 
deralistas perdera por completo a apparencia de debate 
para assumir a feição de uma lucta de conãottieri. Em 
Setembro de 1831 dois batalhões de linha sahiram dos 
quartéis, e, devastando os estabelecimentos commerciaes, 
puzeram a saque durante dois dias a cidade, cahindo por 
fim uns trezentos soldados díscolos debaixo das balas da 
contra-sedição popular, e sendo uns oitocentos embarcados 
para Fernando de Noronha. Todavia o sangrento desforço 
da população contra os indisciplinados militares de pouco 
aproveitou aos contendores de qualquer parcialidade poli- 
tica, pois que, gorado um pequeno movimento forjado em 
Novembro pelos exaltados, em Abril de 1832 sublevaram-se 
no Recife os reaccionários,, elementos em sua maioria por- 
tuguezes de nascimento, contra os quaes se tinham especial- 
mente organizado as arruaças que precederam a abdica- 
ção, e aferventára-se a susceptibilidade patriótica quando 
D. Pedro entrou a pensar na solução do problema da suc- 
cessão portugueza. Armando parte da tropa, alliciada pelos 
especuladores da reacção com vergonhosa facilidade, o al- 
voroto provocou a resistência legal, e ambos os partidos 
enluctaram a cidade por trez dias consecutivos com scenas 
de atroz morticínio. 

Suffocada afinal no Recife, refugiou-se a sedição e 
ateou-se com mais rubro clarão nos campos, dando origem 
á barbara guerra dos cabanos, que trez annos desolou 
as províncias de Pernambuco e Alagoas n' um contagio 
assustador de criminalidade. Habitando as mattas, intran- 
sigentes na sua crença como os miguelistas transmontanos 
ou os carlistas biscainhos, conduzidos por políticos desal- 
mados, e abastecidos com soccorros vindos até de outras 
províncias, os ferozes sectários da regressão brazileira de- 
vastavam as plantações, e em suas repetidas correrias 
espalhavam o assassinato e o incêndio. No recesso das 



301 

florestas escapavam á perseguição das forças governistas, 
e com o aspirarem a natureza virgem recobravam alento 
para novas ruinas. A palavra de um vigário de Christo 
foi a única intervenção profícua onde haviam sido impo- 
tentes os appellos da legalidade, os rudes esforços mili- 
tares, e as novas da morte de D. Pedro I no retiro de 
Queluz, antes das da victoria dos constitucionaes cearenses 
sobre o esturrado Pinto Madeira, fuzilado por ordem do 
padre Alencar. A mediação do bispo de Olinda, Marques 
Perdigão, trazendo os últimos e valentes bandos de re- 
voltados aos sentimentos de conciliação e humanidade 
(Novembro de 1835), poz termo a tão desaforada pilhagem 
mascarada com o titulo de represálias politicas, cujas re- 
miniscências vivem ainda hoje dolorosas na tradição. 

A desordem pernambucana era de resto igualada pelas 
continuas rixas em quasi todas as outras províncias, onde 
ora os elementos absolutistas, ora os demagógicos, arcavam 
com as robustas repressões dos liberaes. A morte do ex- 
imperante em 1834 marcou no emtanto a dissolução do 
partido caramurú, ganhando forças com esta nova abdica- 
ção a grey parlamentar, apoio da Regência, que no mesmo 
anno de 1834 procurou dar satisfacção ao já minguado 
partido da federação republicana por meio do Acto Addi- 
cional. Indicadora das próprias tendências descentraliza- 
doras do poder, essa reforma constitucional alargou o nu- 
mero e extensão das franquias provincianas, a começar 
pela substituição das legislaturas locaes aos conselhos con- 
sultivos creados em 1823. 

Dissolveram-se por effeito da remodelação partidária, 
consequência dos eventos do anno de 1834, as hybridas 
allianças, copiadas de todas as sociedades politicas, entre 
os elementos atrazados e os exaltados. Todavia os segun- 
dos juntaram-se por vezes com os moderados na guerra 
commum á reacção, tanto pezo exerciam os principios re- 
cemconsagrados nos códigos liberaes sobre os espíritos, 
então mais facilmente separados por discordâncias de idéas 
do que por discrepâncias de interesses. Aos poucos o bra~ 
zileirismo tingiu de uma cor uniforme aquella sociedade 
nova, possuidora de todas as exuberancias e violências 



302 

da mocidade; habituada a encontrar nas balas das revoltas 
os argumentos que a imprensa, exhausta pela vehemencia, 
consumida pelo desbragamento, já lhe não podia fornecer; 
e debatendo-se involuntariamente nas incertezas de uma 
epocha de pronunciada transição. Sumiram-se os últimos 
portuguezes na turbamulta de conservadores e liberaes, 
que entre si dividiram a aspiração do mando desde os 
últimos annos da Eegencia, refazendo o pessoal partidário 
e remendando as bandeiras politicas de accordo com as 
circumstancias do momento histórico, e com as divergên- 
cias infallivelmente nascidas no seio da facção moderada 
apóz quatro annos de permanente e vigoroso predominio. 
Com esta nova naturalização dos portuguezes desappare- 
ceram também os derradeiros vestígios do antigo regimen 
autocrático, e prevaleceu em opposição ás quasi desvane- 
cidas illusões republicanas o metaphysismo burguez da 
França de Julho, mais ou menos doutrinário. 

O segundo império, liberalão, voltairiano, rico de má- 
ximas de governo, tolerante até á licença, é legitimo filho 
d' este período da Regência (1834 — 40), o qual fixa a vic- 
toria da Sociedade Defensora da Liberdade e Independência 
Nacional. Em semelhante associação, de fins oppostos aos 
da Sociedade Militar, apoio dos caramurús, e aos dos clubs 
federalistas, possuirá o partido moderado o seu mais forte 
esteio nas horas de lucta encarniçada, reanimando-se o 
ardor dos parlamentares, cançados de discutir entre as 
refregas civis, ao contacto do são liberalismo dos correli- 
gionários : como outr' ora Robespierre, Saint- Just, Couthon 
e Lebas iam buscar ao club dos jacobinos o auxilio moral, 
a adhesão confiada e enthusiastica aos seus projectos de 
implacável nivelamento e de penosa defeza territorial. 
u Alargou-se tanto a importância da Defensora, e tal pre- 
ponderância chegaram a ter suas deliberações, que não se 
realizava qualquer acontecimento, não abria o governo mão 
de qualquer medida que já não tivesse sido lembrada por 

ella. Parecia ser quem inspirava e iniciava o governo 

Chegou a contar mais de mil sócios, e sociedades filiaes 
em todas as provincias; e desse modo governava, póde-se 
dizer, como se fosse corpo politico, ou instituição marcada 



303 

nas leis do Estado. Dominou omnipotente a situação, go- 
vernou o Brazil em certo período, pesando sua influencia 
no ministério e no parlamento e estendendo-se por todos 
os ângulos do império. Era um Estado no Estado, porém 
não foi prejudicial nem nociva sua influencia; se pugnava 
era pela ordem, pela tranquillidade e paz da nação. Soube 
collocar-se á frente de toda a ideia útil e grandiosa que se 
discutia" (D r . Moreira de Azevedo, Brazil de 1831 a 1840). 

A extincção do trafico de escravos, somente levada a 
cabo em 1850 por Euzebio de Queiroz; a regeneração dos 
criminosos pelo trabalho, ideal tão contrario ás descon- 
soladoras, posto que julgadas mais scientificas, theorias de 
Lombroso; o progresso moral pela diffusão da instrucção, 
eram outros tantos tópicos do sympathico programma da 
Sociedade Defensora, uma risonha enumeração de aspira- 
ções ainda não crestadas do vento abrazante do pessimismo 
posterior. Elias contribuíram certamente pelo seu tom de 
sinceridade e de elevação para a moderação, não desti- 
tuida, como temos visto, de firmeza, usada pela grey parla- 
mentar depois do longo ostracismo a que o primeiro im- 
perador a votara com grave ingratidão dos serviços por 
ella prestados á causa da independência, na repressão dos 
repetidos ataques á legalidade vibrados pelos partidos anti- 
constitucionaes. Tanto mais apreciável se antolha esta 
moderação, quanto a temporária falta de divisões parti- 
dárias devia em extremo predispor aquella facção dominante 
para as manifestações da mais desenfreada arbitrariedade. 

Abolindo o rancor nas relações com os adversários; mos- 
trando-se inclinada á clemência pelos dissabores da ante- 
rior opposição, que teriam azedado outros caracteres ; afas- 
tando de si galas e vaidades, habituaes nos que escalam 
o poder apóz uma larga corrente de resistência, os mode- 
rados impõem-se á deferência da historia brazileira. O 
prestigio pessoal de D. Pedro I quando príncipe herdeiro, 
e a tenacidade, honestidade e energia dos parlamentares 
salvaram o paiz da desaggregação que o ameaçava, n' uma 
phase em que o sentimento nacional não offerecia bastante 
solidez para arcar sósinho com o anarchismo dos pro- 
grammas e com as ambições dos caudilhos. 



y 



304 

Não morreram certamente os desejos federalistas por 
effeito da publicação do Acto Addicional, o qual aliás pro- 
curara parcialmente contental-os. Continuando a compli- 
car-se com a questão social, elles ainda engendraram varias 
revoltas das mais sanguinolentas, como a do Pará, suffo- 
cada pelo general Andréa; a Sabinada da Bahia, em cuja 
dispersão representaram notável papel os soldados de Per- 
nambuco, esquecidos fora da província das próprias in- 
subordinações e dissensões; a Balaiada do Maranhão, 
extirpada por Caxias; e fomentaram sobretudo o separa- 
tismo, patenteado na longa campanha do Rio Grande do 
Sul, conhecida pelo nome de Guerra dos farrapos (1835 — 
45). Gasta a rijeza do regente Feijó, que nos annos sub- 
sequentes á abdicação e sem abandonar o seu radicalismo 
constitucional mostrara pulso adequado aos enfreamentos, 
pelas tensas relações com as camarás, e exgottados os 
termos sempre discretos e conciliadores do grave marquez 
de Olinda, fez-se mister em 1840, como em 1822, afim de 
salvar-se a unidade nacional, recorrer a uma expressão 
mais directa do principio da auctoridade, mediante a ante- 
cipada declaração da maioridade do soberano. 

Substituio-se D. Pedro II á acção peada e embotada de 
uma instituição de caracter provisional como a Regência, 
ciosamente fiscalizada pelo poder legislativo, compellida para 
viver a accordos diários com a trefega opposição, e que aca- 
bava de atravessar nove annos da mais agitada vida politica, 
sempre solicitada a sua attenção por fundas e cruentas pertur- 
bações. Os sentimentos federalistas, latentes durante toda 
a lethargia revolucionaria do segundo reinado, mas todavia 
vivazes a qualquer ameaça de asphyxia, irromperam entre- 
tanto recentemente com tal vehemencia, com tão geral es- 
pontaneidade, com tão decidido antagonismo a quaesquer 
formulas da derrubada monarchia centralizadora, que a Re- 
publica no primeiro dia da sua existência deu-lhes a mais 
rápida e larga, si bem que escassamente reflectida sancção, 
mal corroborada depois na sua amplitude pelas deficiências 
da educação politica e das condições moraes do paiz, hoje 
porém impossível de poder ser restringida, sobretudo pelos 
felizes resultados da sua applicação no campo económico. 



305 



XXVII 

Não era das menos embaraçadas a herança politica do 
joven imperante. O paiz retalhado pela guerra civil; a 
criminalidade attingindo desoladoras proporções; os re- 
cursos financeiros resentindo-se da intensa agitação social; 
a educação em excesso descurada, fazendo descrer do fu- 
turo da nação; o clero, principal senão único instrumento 
d' essa educação, dando largas á immoralidade e á violên- 
cia, depois de haver fornecido exemplos notabilissimos de 
abnegação e de liberalismo; as eleições falsificadas ou con- 
vertidas quasi necessariamente, por uma crise do instincto 
de conservação, em imposições inflexíveis de procônsules 
intolerantes: tudo congregava-se para carregar de tons 
sombrios o quadro da situação brazileira, fazendo de um 
Hobbema luxuriante um Zurbaran melancholico. E para 
fazer frente a tão pronunciada desorganização, apenas a 
inexperiência de uma criança de quinze annos, educada 
n' uma corte tristonha, desprovida de aífectos de família, 
respirando tão somente desde os mais tenros annos o pó 
das livrarias e o perfume damninho das intrigas politicas; 
um mixto inevitável, segundo poderia crer-se, de erudito e 
de hypocrita, um Machiavel encadernado n' um benedictino. 

Do meio em que deslizou a sua calma^ antes monótona 
meninice, cuja impressão contribuio para a reserva que o dis- 
tinguia, trouxe porém D. Pedro II não defeitos e sim quali- 
dades, talvez susceptíveis de serem mais tarde taxadas de 
exaggeradamente desenvolvidas — a diligencia no estudo e 
a agudeza no governo. Trouxe mais da atmosphera singela- 
mente liberal que o cercou durante a Regência, a florescência 
de uma natural clemência, pela qual firmou o throno sobre 
a amnistia, e o desdobramento de uma verdadeira simplici- 
dade, em cujo nome desprezou systematicamente as pom- 
pas. Trouxe designadamente do convivio de tantos homens 
notáveis pelo talento, pelo patriotismo e pelo desprendi- 
mento a incomparável probidade que, aformoseando-lhe o 
caracter privado, impedio-o como politico de retirar dos 
seus feitos todas as vantagens possiveis, exigindo, por 
exemplo, dos vencidos nas contendas externas, capazes de 

Lima, Pernambuco. 20 



306 

originarem reivindicações territoriaes, tão somente conces- 
sões de interesse internacional como a liberdade de nave- 
gação fluvial, ou de alcance humanitário como a abolição 
da escravatura no Paraguay. 

Ha pouco que o segundo reinado expiou duramente 
os seus desacertos, porventura as suas faltas; não porém 
os seus crimes, que os não tinha para expiar. D. Pedro II 
peccou muito pela carência de uma orientação definida de 
progresso, por um opportunismo flácido como o do seu 
avo D. João VI, incapaz de ligar-se á solução de um árduo 
problema de administração ou de diplomacia, deixando 
fluctuar até o exgottamento os obstáculos encontrados na 
marcha: mas a memória do fallecido soberano apresenta-se 
limpa de quaesquer manchas de sangue ou de quaesquer 
nódoas de vergonha; comparece serena perante o julga- 
mento da historia. Todavia o segundo imperador enga- 
nou-se, e não raro, durante o seu longo reinado. 

Enganou-se na pouca consideração attribuida ao exercito, 
que á voz de Caxias, Andréa e Coelho lhe aplainara a obra 
da pacificação, reduzindo ao silencio as províncias suble- 
vadas em nome da sua autonomia, extinguindo o miasma 
das discórdias pestilenciaes; e que fielmente o serviu nas 
guerras extrangeiras, a primeira intentada para preservar 
illesa a influencia brazileira no sul do continente, realizada 
a segunda para varrer uma affronta ao brio nacional, ainda 
que com sacrifício do equilíbrio platino, que a outra salva- 
guardara contra os manejos de Eosas. Este exercito in- 
gratamente descurado n' um prurido de paisanismo, apóz 
as agruras dos muitos annos de campanha civil e externa, 
tornou-se o principal e mais decidido agente da ruina do 
throno. Enganou-se ainda D. Pedro II na direcção im- 
pressa á considerável questão do elemento servil, a qual 
desde a independência até recentemente occupou e agitou 
o paiz. Exercendo uma pallida acção sobre o caminhar 
da idéa abolicionista; permittindo que o trafico somente 
se supprimisse efficazmente depois da vergonha de uma 
intervenção ingleza; apenas em 1871 apoiando o visconde 
do Rio Branco na libertação do ventre escravo; contem- 
porisando sempre com mais fraqueza do que habilidade 



307 

com as exigências da civilização e os interesses contrários 
da agricultura, o soberano subitamente offuscou-se para 
consentir na brusca e radical extirpação do mal secular, 
alienando desinteressadamente da dynastia o apoio da classe 
dos proprietários. Enganou-se continuadamente o mo- 
narcha na usurpação systematica, que patrocinou e exerceu, 
das inclinações unitaristas sobre a monarchia federativa, 
esboçada sinceramente, n' um largo respeito ás liberdades 
provinciaes, pelo Acto Addioional de 1834, ao qual a lei 
conservadora de interpretação vibrou em 1840 o primeiro 
golpe, logo seguido na esteira centralizadora do segundo 
império napoleónico de tantos outros, desfechados pelo 
soberano ou com o seu assentimento, que excederam a 
expectativa e alarmaram o espirito ordeiro do próprio vis- 
conde de Uruguay, auctor da lei de 1840 (Tavares Bastos, 
A Provinda). Enganou-se por fim o imperador na falta 
de protecção dispensada á Egreja, tolerando que illustres 
príncipes d' ella fossem perseguidos e encarcerados como 
vulgares criminosos por effeito de accusações, mesmo fun- 
dadas, de reacção religiosa; abatendo o prestigio episcopal 
quando tanto carecia de zelar o próprio, em um período 
de negação de todas as preeminências sociaes. 

Apartando assim da coroa os seus mais legítimos de- 
fensores, recolheu o monarcha os fructos da errada politica 
que adoptara, ao achar-se só na hora amarga do exilio, 
em seguida a meio século do governo menos tyrannico 
que uma nação pôde conhecer. Ninguém apresentou-se a 
defendel-o porque ninguém enxergou no throno a garantia 
da conservação de qualquer ordem de interesses, e a Re- 
publica, proclamada por uma audaciosa surpreza, installou-se 
perante o acolhimento mais sympathico do que indifferente 
do paiz, que não mais tentou divorciar-se da nova forma 
de governo, apezar de todas as graves accusações contra 
ella dirigidas. A monarchia cahiu como um fructo maduro 
— por isso a 15 de Novembro de 1889 nenhum dos adep- 
tos da véspera, sequer para honrar a convicção perfilhada, 
constituio-se o seu paladino enthusiastico junto da grande 
massa fluctuante, a qual o regimen decahido não soubera 
seduzir nem pelo brilho nem pela gloria, assentando exclu- 

20* 



308 

sivamente a sua popularidade sobre virtudes cuja excellencia 
apenas na privação é recordada com saudade. Intelligente, 
sagaz como era, o imperador devia por momentos lobrigar 
a pouca consistência, antever a inanidade da sua obra poli- 
tica, valiosa pela bondade e pela tolerância, porém débil 
pela frouxidão e pela dissonância com a missão histórica 
da realeza. D' ahi grande parte da admirável resignação 
patenteada por D. Pedro II no infortúnio, a qual si envolvia 
estoicismo e grandeza d' alma, também encerrava não pouca 
consciência da improficuidade de qualquer tentativa de 
restauração monarchica. Repetia- se de ha muito no Brazil, 
e já havia mesmo passado á cathegoria das banalidades 
risiveis, que o throno não possuía raizes na America: veri- 
ficou-se o dito antes do que quasi todos o esperavam, mais 
tarde quiçá do que o acreditava ò principal interessado. 
Afeito desde a adolescência, — atravessada em uma 
phase de eífervescencia politica e durante a qual preferio, 
diz-se, entre os seus mentores a Aureliano Coutinho (vis- 
conde de Sepetiba), estadista de volúvel opinião — á 
auscultação das consciências, á accommodação das idéas 
e ao manejo das convicções, como tal, por disposição pe- 
culiar e inalterável applicação intitulado hábil corruptor 
de caracteres, D. Pedro II espantou-se de facto mediocre- 
mente com a evolução eífectuada ha quasi quatro annos. 
EUe, estou certo, julgava-a perfeitamente sazonada entre 
as classes superiores; com estas considerava inevitável a 
próxima applicação do nosso velho ideal revolucionário. 
Separou-se portanto do Brazil com a magua do patriota 
condemnado a não regressar á estremecida terra natal, 
não com a dor, composta de orgulho machucado e de 
despeito rancoroso, do soberano cuja familia é expulsa no 
estalar de uma revolução de ódio. O soberano deposto no 
Rio de Janeiro nutria a firme consciência de que o movi- 
mento que derrubou-o visava á negação de um principio 
politico atrazado, prestando não obstante profundo acata- 
mento áquelle que o personificava, e trazia a escudal-o a 
lembrança de tantos annos de immutavel indulgência, no- 
tável honestidade, e tão permanente liberdade de expressão 
que até chegou a ser apodada de dissolvente. 



309 

O famoso poder pessoal, attribuido ao imperador com 
incessante persistência, a qual, realçada pelo tom myste- 
rioso das manifestações d' aquella influencia, emprestava- 
lhe um ar legendário, é ponto discutido e incontroverso 
da nossa historia contemporânea. Semelhante acção, ab- 
sorvente e ciumenta apezar de sua palpável indecisão, 
irradiando até á peripheria do organismo nacional por 
intermédio de uma sequella de funccionarios complacentes 
servidores da vontade do soberano, enervou o vigor par- 
lamentar, que perdera nos últimos tempos, com raras ex- 
cepções de caracteres mais resistentes, o pristino arreba- 
tamento da epocha da Regência ou a luminosa elevação das 
discussões dos primeiros lustros do segundo reinado. Des- 
interessando a muitos da acção politica, ella concorreu 
para a apathia com que a nação inteira, quebrantada em 
seu civismo pela abdicação de uma larga e consciente coope- 
ração na marcha dos negócios públicos, assistiu ao derruir 
do throno que no seu seio florescera durante longos annos. 

Deixou comtudo de ser licito atirar-se a D. Pedro II 
como uma pecha o poder pessoal, desde que o paiz pela 
voz dos seus representantes, imbuídos d' um prolixo 
e mal digerido americanismo, sanccionou com afanosa 
unanimidade o estabelecimento do regimen presidencial. 
Consagração legitima do poder pessoal, ás pressas accli- 
matada n'uma terra de tradições parlamentaristas, onde 
a educação politica, particularmente a das classes inferio- 
res, educação sobretudo indispensável para o regular exer- 
cício de systemas análogos ao dos Estados Unidos, está 
ainda toda por fazer-se — o novo regimen n' um curtís- 
simo período tem -se progressivamente desacreditado e 
dado lugar a uma feliz reversão de parte da opinião ás 
antigas normas de governo, firmadas n' um razoável equi- 
líbrio dos poderes executivo e legislativo na balança de- 
mocrática. Essas normas não tardarão talvez muito em 
reoccupar a perdida posição, respeitando muito embora a 
almejada e conseguida federação, principio tanto mais in- 
dispensável entre nós quanto, conforme a judiciosa obser- 
vação de Tavares Bastos, auctor do clássico estudo de des- 
centralização A Província, a civilização occidental implan- 



310 

tou-se no Brazil em núcleos diversos de desenvolvimento, 
não marchando como na America do Norte em columna 
cerrada, de Leste para Oeste. O unitarismo deixou de ser 
um symbolo de concentração, e já nem entra nos cálculos 
dos que teimam em especular com a sombra do antigo 
regimen: outro é o assumpto em discussão, dependendo 
d' elle o futuro da federação. 

O sentimento de independência, que no brazileiro friza 
a indisciplina, carece de uma válvula de desabafo ás reaes 
ou suppostas queixas do poder, e esbraveja, e enfurece-se, 
quando percebe a completa impotência dos esforços legal- 
mente empregados para sacudir a tutela que o magoa» 
Alguns dos momentos angustiosos atravessados pela Ke- 
publica, aos quaes tem-se procurado desesperadamente um 
desfecho, o menos equilibrado, na profligação do executivo 
tornado demasiado independente, em nome da esvaída so- 
berania oligarchica do ramo legislativo, haveriam sido 
seguramente poupados mediante o respeito da velha insti- 
tuição parlamentar. Um tal abandono de sediços ataques 
contra a impropriedade do constitucionalismo britannico 
fora do seu terreno de eleição, e o acatamento escrupuloso 
das garantias e franquias estaduaes — uma vez que o 
perigoso predomínio do militarismo, si não encontrar 
n' uma guerra civil ou externa pretexto para fortalecer-se, 
tende a eclipsar-se pela própria vacuidade de senso poli- 
tico e mesquinhez de processos administrativos — , pro- 
duzirão inevitavelmente considerável melhoria no desafogo 
da vida nacional, tão duramente experimentada nos últi- 
mos mezes. Farão pelo menos, e é muito, com que a 
população, já fortalecida contra os estremecimentos da 
desaggregação pelo sentimento de pátria commum, não se 
julgue coacta em suas regalias, e não descreia d' aquello 
louvável ideal de autonomia local que, durante dois sécu- 
los quasi, mais ou menos apparentemente a guiou, permit- 
tindo logo ao poder central, desembaraçado dos conflictos 
internos, prover attentamente os interesses de ordem supe- 
rior, os quaes segundo Pi y Margall devem constituir nas 
federações a sua única preoccupação. O Brazil tem a rea- 
lizar a missão histórica que lhe compete, tornando incon- 



311 

testavel a sua preponderância no continente sul-americano ; 
e a zelar no Velho Mundo o credito do seu nome honrado, 
meio deslustrado pelos desvarios da febre de bolsa que 
marcou a transição do regimen imperial para o republi- 
cano, enlaçado nas especulações do industrialismo e nas 
exigências do duplo fímccionalismo, militar e civil. 



XXVIH 

Pernambuco, como já o notámos, forneceu a ultima 
nota violenta da nossa historia durante o império, o der- 
radeiro exemplo da rebellião empregada como arma pelos 
partidos em ostracismo politico. 1849 assignala pois o fim 
da era dolorosa de agitação civil, ininterrupta desde a pro- 
clamação da independência, e o echo expirante da animo- 
sidade persistentemente manifestada á antiga metrópole, 
gerada na reacção cruenta contra revoltas generosas, mas 
somente correspondente em seu declínio ao resfolegar de 
invejas pequenas e represálias mesquinhas. 

A queda do partido liberal e ascensão ao poder dos 
conservadores — acontecimentos triviaes da rotação poli- 
tica, mas explorados ou antes desnaturados com habilidade 
e audácia por uma imprensa numerosa e turbulenta, a qual, 
exaggerando preoccupações oligarchicas, apresentaram-n' os 
como demonstrativos do rancoroso predomínio de uma fa- 
mília, e da final tyrannia do elemento portuguez — accen- 
deram aquella lucta facciosa, em que debalde procura-se 
a forte instigação de um ideal martyrizado. Apenas de- 
pois de açuladas as más paixões, atiçando uma já caduca 
eífervescencia, de postos em campo os seus partidários ar- 
mados, e de abrazado em vários pontos da província o 
facho da discórdia, illuminando assassinatos e roubos, ac- 
cordaram os deputados praieiros em erguer uma bandeira, 
cujo lemma acobertasse as suas ambições. 

Tão pouco escrupulosos ao tratar-se de allianças politi- 
cas como os actuaes conservadores allemães,os quaes,visando 
em seu ódio de raça ao mesmo fim exclusivista, para elles legi- 



312 

timado pela defeza de privilégios e propriedades contra a 
absorpção israelita, affirmão hybrida solidariedade com a 
demagogia anti-semitica: os nossos liberaes monarchistas 
de 1848 acceitaram na insurreição a coadjuvação republi- 
cana, repudiando porém pressurosamente todo o programma 
preconizado pelo agitador Borges da Fonseca no manifesto 
ao Mundo, e abrangendo o suffragio universal, o mono- 
pólio do commercio a retalho para os brazileiros e a ex- 
tincção do poder moderador. Kefreando este radicalismo 
nos limites mais modestos de uma maior descentralização, 
os liberaes todavia não baniram as prohibições de exer- 
cício de cargos ofíiciaes aos que não fossem brazileiros 
natos, destinadas a lisonjear exigências formuladas pecu- 
liarmente pelas classes inferiores, e referiram-se, sem as 
especializar, a reformas que deveriam ser aventadas e de- 
cididas em uma constituinte. Logo apóz a revolução fran- 
ceza de Fevereiro, demolidora do throno de Luiz Filippe 
e iniciadora por entre a tumultuosa vozearia politica, das 
primeiras, confusas, em todo o caso vibrantes reclamações 
socialistas, estavam as reformas muito em moda, e pode- 
mos mesmo crer que semelhante movimento democrático, 
contemporâneo de motins em Berlim, Vienna, Itália e outros 
pontos, não foi extranho á perturbação brazileira, da qual 
surgiu como expressão a revolta pernambucana. Segura- 
mente todas as vagas reformas annunciadas em Pernam- 
buco giravam em torno do eixo federativo: "Cumpre que 
desappareça de uma vez para sempre essa terrível centra- 
lização, que nos cresta, que nos mina, que nos anniquila, 
devorando a substancia nacional: — cumpre regenerar-nos" 
(Proclamação dos deputados praieiros). 

Travou-se no começo a lucta aqui e além, em pontos 
distanciados do território da província, batalhando guardas 
nacionaes e soldados da policia, auxiliados os do partido 
ordeiro pela tropa de linha, e na defeza da capital tam- 
bém pela guarnição dos navios de guerra. Obtiveram am- 
bas as facções resultados pouco decisivos nos sangrentos 
encontros effectuados no decorrer d' aquella pugna de 
guerrilhas, e ao cabo de dois mezes os conflictos concen- 
traram-se no sul, em Agua Preta, onde alguns deputados 



313 

praieiros juntaram-se ás suas forças, alli reunidas com dif- 
íiculdade; permanecendo outros, já ostensivamente rebella- 
dos, no Recife, afim de impulsionarem qualquer movimento 
subversivo. Por mar seguio promptamente o general José 
Joaquim Coelho, futuro barão da Victoria, militar que dis- 
tinguira-se em 1838 na repressão da sedição republicana 
da Bahia e agora commandava em chefe as tropas do go- 
verno, a dispersar o ruidoso ajuntamento dos insurrectos; 
mas emquanto, acampado mais para o sul, no Rio For- 
moso, dispunha as columnas destinadas ao ataque de Agua 
Preta, a realizar-se em 30 de Janeiro, no dia 27 sahiam 
precipitadamente os revoltosos em numero de dois mil na 
direcção do Recife. Indicações do deputado Lopes Netto 
haviam -lhes apontado a capital como desguarnecida de 
defensores, e disposta a bandear-se com os liberaes. Na 
verdade porém as forças existentes no porto, por si bas- 
tantes para sustentarem a invasão inimiga, foram entre- 
tanto augmentadas com reforços do Pará e do Maranhão, 
desenvolvendo o presidente Vieira Tosta, mais tarde mar- 
quez de Muritiba, prevenido do assalto imminente, a maior 
actividade nos preparativos de salvação da cidade, cuja 
guarda confiou á tropa regular de terra e mar, á guarda 
nacional, á policia e a corpos de voluntários. 

Acampando a 1 de Fevereiro de 1849 nas immediações 
do Recife, no dia seguinte os rebeldes, divididos em duas 
columnas, tentaram o ataque da capital. Por motivo da 
extensão e consequente fraqueza das linhas de defeza (Fi- 
gueira de Mello, Chron. ãa rébéll. praieiro), poude uma 
das columnas, commandada pelo capitão de artilheria Pedro 
Ivo, romper as fileiras legalistas, e penetrar no bairro de 
Santo António até perto do palácio da Presidência: ao 
passo que a segunda era obrigada a parar na Soledade, 
cahindo á frente d' ella, ferido na cabeça por uma bala, o 
convicto liberal dezembargador Nunes Machado, deputado 
conceituado, e pela sua posição e caracter um dos chefes 
proeminentes da revolta. Tendo encontrado continua e 
valente resistência, igualmente a primeira columna foi 
afinal rechaçada pela gente do general Coelho, acudida a 
marchas forçadas do sul da província, e chegada no mo- 



314 

mento indicado para dar completa victoria aos legalistas, cuja 
maior disciplina já offerecia vantagem segura de triumpho. 
Batidos na capital, retiraram-se os insurgentes para 
o norte na direcção de Iguarassú, occuparam Goyan- 
na, que abandonaram depois de devastada, e na noite 
de 13 de Fevereiro viram-se novamente destroçados pelas 
tropas do governo, mandadas a 6 em perseguição dos fu- 
gitivos, morrendo n' esse combate o seu caudilho e pro- 
vecto revolucionário José Ignacio Roma. Outra vez repel- 
lidos com perdas no Brejo da Areia, na Parahyba, aos 
poucos depuzeram as armas, não só os que tinham cami- 
nhado para o norte, teimando em fazer tilintar o ferro da 
desavença, como os que haviam-se abrigado no sul, reoc- 
cupando Agua Preta. No decurso do seguinte mez de 
Março foram aquelles dos chefes que conservavam-se livres 
da custodia procurando homisio em outras terras, e a 10 de 
Abril lograva o presidente Tosta annunciar a pacificação 
da revolta, a qual segundo uma estatística semi-official 
custou á província 814 mortos e 1701 feridos, sem que 
porém se accrescentasse ás victimas dos combates e es- 
caramuças uma única justiçada a sangue frio por ordem 
do partido vencedor. Pedro Ivo apenas, o heroe de flam- 
mejantes poesias, tentou nas mattas de Alagoas um simulacro 
de guerra de recursos, á qual poz voluntariamente cobro 
pela intervenção paterna, sendo deslealmente transportado da 
Bahia para o Bio e ahi prezo na fortaleza da Lage. Logrando 
arteiramente evadir-se graças a influentes liberaes, morreu em 
viagem marítima para o extrangeiro logo que sumidas as 
terras de Pernambuco, palco da sua lendária bravura (1850). 

Depois d' estes eventos, e mercê especialmente da acção 
nimiamente centralizadora do império, a influencia pernam- 
bucana diluio-se na marcha geral, quasi parallela, dos 
núcleos da civilização brazileira, deixando de representar 
o papel saliente de passadas epochas, sem comtudo cahir 
no aviltamento da mera vida reflexa. Abalos recentes, 
como o da total extincção da escravatura, em que pulsou 
ancioso o coração da pátria, descurando em sua soffre- 
guidão adduzidas razões económicas e apontadas convenien- 



315 

cias politicas, encontraram na bizarra província um echo 
vibrante. Alguns dos agitadores mais brilhantes e mais 
devotados da phalange abolicionista são filhos de Pernam- 
buco, e entre a sua população acharam consolo e esteio 
nas horas de mais amarga decepção da lucta. Filho de 
Pernambuco é também o antigo agricultor que praticamente 
antecipou-se, o primeiro no Brazil, á lei da libertação do 
ventre escravo; como pernambucano é o estadista que 
teve a honra insigne de despedir o golpe mortal á ver- 
gonhosa instituição colonial. A reconstituição do partido 
republicano brazileiro em seguida ao estabelecimento da 
terceira republica franceza, e simultânea com a ephemera 
victoria da democracia hespanhola, recebeu igualmente a 
activa collaboração pernambucana; e a 15 de Novembro 
de 1889 nenhuma província excedeu a nossa na pacifica e 
leal adhesão á causa federalista, alfim triumphante. Uma 
vintena de annos atraz, por occasião do appello dirigido 
pelo poder central no intuito de fortalecer-se a opposição 
brazileira aos ataques de Lopez, tampouco deixara Pernam- 
buco de subscrever enthusiasticamente ao assentimento 
nacional, enviando vários batalhões de voluntários com- 
baterem dedicadamente e morrerem pela União. 

Pelas radiantes tradições da sua historia, pelas har- 
mónicas proporções do seu território, pela relativa densi- 
dade da sua população, pelo desenvolvimento das suas 
rendas, pelas excellencias do seu clima, pela uberdade do 
seu solo, pelo valor dos seus productos, pela facilidade 
dos seus meios de transporte realizados ou realizáveis, 
acha-se Pernambuco destinado ao mais esperançoso futuro 
na nova phase da existência brazileira. Preparou -o a 
natureza para um formoso fado; rivalizaram os successos 
bellicos e os eventos liberaes em circumdal-o de uma 
aureola seductora e sympathica; esmerou-se a fortuna em 
dispensar -lhe os seus dons mais graciosos, si bem que 
nem sempre solicitados. Assim, Pernambuco tem-se, ao 
contrario de outros estados e apezar do seu benigno céu 
e da fertilidade dos seus campos, conservado ao abrigo 
das levas de immigrantes europeus, que parecem querer 
submergir o Sul n' uma inundação de extrangeirismo, des- 



316 

botando a idiosyncrasia do produoto brazileiro, já diífe- 
renciado e semi-integralizado, de seus característicos supe- 
rior ou amavelmente revelados na litteratura, na politica, e 
em outras cathegorias espirituaes. No Norte, apenas visi- 
tado por uma diminuta emigração, incapaz de sobrepôr-se 
ao elemento nacional e comtudo sufficiente para corrigir- 
lhe qualquer molleza produzida pela ausência de lucta pela 
vida, vai-se refugiando a alma do Brazil, manchada e irri- 
tada do crescente desapego a que assiste em outras partes 
do paiz, meio assambarcadas pelos extrangeiros, áquillo 
que representa o thesoiro das nossas reminiscências de 
pátria, em seu agglomerado de trabalhos e de glorias. 
Alli subsistirá com effeito o Brazil, quando um dia, não 
se havendo opposto um dique á maré enchente dos asy- 
lados de outros continentes, a nossa nacionalidade se tiver 
afundado n' uma mestiçagem heteróclita de raças e n' uma 
divergência esterilizadora de sentimentos. 

A quasi completa falta do elemento europeu, tão nu- 
meroso entretanto na America e, como é de ver, nem 
sempre recolhido entre os trabalhadores que não especulam 
com a sua condição de proletários, priva ao mesmo tempo 
Pernambuco de alimentar uma questão social, na sua forma 
pelo menos de odienta reivindicação, imposta por tantas 
misérias accumuladas e congregadas n' um instincto here- 
ditário de insubmissão. A grande extensão das proprie- 
dades agrícolas e pastoris, alistando para o amanho das 
terras, o fabrico do assucar e a criação de gado todos os 
jornaleiros disponíveis; a natural sobriedade do povo; os 
salários fartamente remuneradores; a escassez sensivel de 
gastos; a abundância feliz de mantimentos, são outras tan- 
tas circumstancias de desafogo, bem differentes d' aquellas 
em que debatem-se muitos dos operários transatlânticos. 
Não tendo a industria, a não ser a saccharina exercida 
nos engenhos, ensaiado por emquanto um augmento serio, 
atravessando portanto o estado o seu compensador período 
de puros lavores ruraes, o trabalho executa-se para mais 
em condições de hygiene e de commodidade perfeitamente 
desejáveis, respirando os obreiros o ar sadio das mattas 
em vez de definharem na atmosphera viciada de officinas 



317 

tristes, espargindo a sua lida uma serena emanação bucó- 
lica em lugar do fermento azedo da inveja. 

Por si afasta-se pois de entre nós o pezadelo de uma 
revolução de desgosto e de fome, tal como se prevê e ruge, 
ameaçadora na Inglaterra, fremente em França, surda na 
Allemanha, desesperada na Eussia, onde o elemento culto, 
encarnando as retaliações, idealiza a destruição e promove-a 
embora sem contar com o apoio resoluto do povo, embrute- 
cido pelo soffrimento e sepultado na ignorância — n' uma 
palavra, inevitável em todos os paizes do velho continente. 
E isto porque as raizes d' essa revolta latente na Europa 
vão porventura prender-se originariamente nas tenebrosas 
luctas dos primeiros povoadores contra as inclemências da 
natureza inhospita e muitas vezes ingrata; certamente ra- 
mificaram-se atravez de todos os inenarráveis infortúnios das 
classes inferiores durante os longos séculos de aspérrima 
servidão decretada por uma violenta hierarchia social, e 
imbeberam-se de muito fel na immobilisação do trabalho livre, 
suffocado pela organização feudal, apenas derruída nos seus 
últimos vestígios com as carnificinas da Revolução Franceza, 
para das suas ruinas levantar-se o baluarte poderoso, mas 
não inexpugnável, do capitalismo absorvente e desapiedado. 

Em face da Europa, ciosa de suas tradições porque 
d' ellas timbra em fazer o seu brazão; esvaída no melhor 
do seu sangue pelas guerras, e em boa parte da sua 
actividade pela emigração; enervada pelo militarismo 
arrogante e pelas repetidas paredes operarias; sacu- 
dida pelas discussões de promettedores programmas polí- 
ticos: ergue-se o colosso plethorico da America Septen- 
trional, insolente da sua riqueza, — crescente ao ponto de 
por ella soífrer o paiz crises de superabundância — ; ab- 
sorvente em sua producção variegada; fundindo povos 
diversíssimos no cadinho de uma unidade de interesse, 
que não de affeição; delirando na sua febre industrial. 
Não aspiremos, nós que poderemos ser uma das grandes 
nacionalidades do futuro, a seguir humildemente, quer uma, 
quer outra. Cumpre arrecearmo-nos do mysticismo doentio 
da primeira, oppondo á decadência que a espreita o refi- 
namento da sua cultura secular; bem como repudiarmos o 



318 

naturalismo demasiado brutal da segunda, antepondo com 
fúria as preoccupações materiaes aos plácidos gozos espi- 
rituaes. Devemos tão somente anhelar por, mantendo com 
intransigência os nossos característicos nacionaes, achar- 
mos na própria e legitima fortuna a base para um firme 
e progressivo desenvolvimento social, no qual entrem em 
doses pouco desproporcionadas a fome do oiro e a sede 
do saber, o anceio da abastança e o desejo do conheci- 
mento, realçados pela justiça que previne, mais do que 
pela philanthropia que remedeia. 

Carecemos porém de afastar um outro pezadelo, senão 
tão sanguinolento e pavoroso como o do movimento anar- 
chista, pelo menos entravando grandemente o nosso pro- 
gredir material e o nosso aperfeiçoamento moral: o peza- 
delo das rancorosas rebelliões politicas, em que bandos 
allucinados teem-se continuadamente degladiado por entre 
discursos incendiários, com um frenesi frequentemente digno 
de melhores causas e de melhores caudilhos. Precisamos 
sem duvida, aliás seriamos uma sociedade morta, levantar 
um protesto contra quaesquer attentados, partam de onde 
partirem, arremessados ao nosso capital realizado de liber- 
dades, ao nosso pecúlio de franquias : esforçemo-nos comtudo 
por lavral-o sempre por uma forma moderada, si bem que 
altiva, estribada na legalidade, embora ruidosa, pois que 
diíferenças de raça impedem no meio brazileiro o desdo- 
bramento dos movimentos silenciosos, solemnes na sua im- 
passibilidade, frios na sua eventual crueldade, de que são 
eternos exemplos os movimentos saxonios ou hollandezes 
pela liberdade civil ou de consciência. Então chegaremos 
a gozar novamente do repoiso que tanto nos escasseou 
durante o periodo colonial e os primeiros decennios depois 
da independência, e que, conquistado pelo segundo rei- 
nado, constituirá o seu inolvidável e perenne titulo de con- 
sideração. Esse repoiso não deve tomar-se pela quietação 
do cemitério, segundo na tragedia de Schiller classifica o 
generoso Posa a placidez da Hespanha sob Filippe II, quie- 
tação feita de ideaes massacrados, de aspirações decepa- 
das, de liberdades trituradas: mas sim pela tranquillidade, 
nunca estagnada, sempre activa, peculiar á existência 



319 

d' aquellas nações que teem a consciência de havel-a ob- 
tido e merecido no constante labutar pela salubridade do 
seu ambiente moral. 

Ao clero pertence um nobilíssimo papel na instigação de 
semelhante evolução: o de manter, especialmente entre as 
classes inferiores, mais accessiveis ao seu influxo, os senti- 
mentos de fervor religioso, dignidade privada, e cálido patrio- 
tismo. A Egreja Romana não possue felizmente a preoccu- 
pação da coherencia, descambando facilmente no immobi- 
lismo. Caminha antes essencialmente de accordo com o 
desenvolvimento geral humano, apezar de increpadas e passa- 
geiras regressões. Haja vista a America do Norte, onde ella 
tem-se transformado em uma grande instituição democrática 
e nacional, para cuja força e influencia crescentes appellão 
os politicos d' aquella União heterogénea na previsão de 
acontecimentos de desaggregação social e de perversão 
dos sentimentos. Ao pontífice Leão XIII deve em grande 
parte a Egreja esta nova direcção, posto que enleada 
nas exigências da politica européa e embaraçada pelas 
tradições diplomáticas do Vaticano, repassadas de argúcia 
e subtileza caracteristicamente italianas. Em nosso paiz, 
porém, a Egreja, arredada pelas circumstancias diversas da 
civilização americana, e como instituição collectiva, da 
arena politica, pôde e deve revestir-se de um poder ex- 
clusivamente moralizador, e como tal fecundo — já pro- 
curando guiar os partidos nas veredas do desinteresse e 
do respeito pelo bem publico; já buscando congraçar e 
reunir, si não pelos laços da fé, ao menos pelos da aífei- 
ção os elementos differentes e porventura discordantes de 
uma immigração aventurosa, todavia útil, quando em pe- 
quena escala e dotada da espontaneidade requerida para 
garantia de sua seriedade, para combater enervamentos 
produzidos pelo clima e aperfeiçoar processos de trabalho; 
já finalmente facilitando as novas relações entre patrões e 
obreiros livres, n' um prurido de sadio socialismo christão. 
De que haveria aproveitado á massa da sociedade brazi- 
leira ter com tamanho zelo defendido o seu typo catholico, 
ameaçado em epocha remota pelo proselytismo calvinista, 
e recentemente pelo voltairianismo da classe superior, de- 



320 

signadamente do imperador D. Pedro II, si ao clero d' essa 
religião não cumprisse tal e levantadissima missão, na 
epocha de agitada transição em que nos lançou a procla- 
mação de um regimen novo, á voz do elemento menos com- 
petente para a realizar? 

O sábio economista e esclarecido administrador da 
diocese de Olinda, bispo Azeredo Coutinho, visava a formar 
no seminário que fundara com certo luxo de ensino das 
sciencias naturaes — cadeiras de physica, chimica, minera- 
logia, botânica e desenho — , gerações de parochos-explora- 
dores, os quáes a um tempo pastoreassem as almas e de- 
vassassem as riquezas vegetaes e mineraes de suas fre- 
guezias, podendo comprehender os descobrimentos que 
fizessem e sabendo tirar d' elles proveito. A sciencia anda 
hoje por tal modo espalhada; é fornecida em tamanho 
numero de estabelecimentos leigos; pertence a <um tão 
dilatado circulo de cultores, que forçosamente desapparece o 
perfil do ecclesiastico agente propulsor do desenvolvimento 
económico do paiz, devaneado com communicativo enthu- 
siasmo pelo talentoso prelado. Ficou comtudo ao clero o 
largo e remunerador terreno moral, a messe dos espíritos 
necessitados de máximas valiosas de comportamento fa- 
miliar e civico; sem que por este facto lhe seja vedado o 
campo da especulação mental, antes devendo ajudal-o em 
sua cruzada benemérita os novos ideaes do espirito scien- 
tifico, menos analy ticos, menos fanáticos da pura investi- 
gação phenomenal, já saciados do paciente esmiuçar dos 
últimos tempos, dispostos de preferencia a generalizações 
profícuas, igualmente alheias dos preconceitos positivistas 
de retrahimento e dos arroubos de audácia materialista. 

Existem para nós pouquíssimas conquistas a emprehen- 
der no domínio das franquias politicas. No terreno da 
liberdade de manifestação não foi o segundo reinado nada 
avaro, e as concessões de caracter mais administrativo, as 
regalias de descentralização ou sélf-government a que ten- 
díamos, e eram negadas ou regateadas pelo antigo regimen 
na sua preoccupação de conservação própria, outras vezes 
levianamente desdenhada, obtivemol-as todas facilmente 
do governo provisório da republica no decurso da sua 



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321 

afanosa gerência, que tudo alterou no ciúme de tudo re- 
construir. A educação nacional, n' ella é que deve prin- 
cipalmente consistir o nosso objectivo hodierno. Si no 
Brazil a instrucção superior é fornecida em estabelecimentos 
de fundada reputação, a secundaria é já assumpto de menos 
demorada attenção, e a primaria, a verdadeira instrucção 
popular, tem sido geralmente tratada com pouco zelo. 
Juntemos ainda e com vivo interesse á necessária instruc- 
ção elementar, a educação civica, que a velha metrópole 
de todo negligenciou, sendo' mesmo incapaz de fornecel-a, 
e que o império, quer na sua phase de agitação, quer no 
seu período de paz, por vezes olvidou e frequentemente 
entorpeceu. Todavia é esta que pôde unicamente honestar 
o desenvolvimento politico de um paiz, limpando-o das 
manchas da corrupção e despindo-o dos ouropéis do finan- 
ceirismo; é esta que pôde exclusivamente libertar-nos das 
incertezas a que nos conduzem ambições avariadas, as 
quaes o elemento popular em sua sinceridade não consegue 
infamar n' um impeto de indignação patriótica, falto para 
a exhibição de uma tal energia da base de um discerni- 
mento afoito. militarismo administrativo contaria curta 
e amarga vida, si a opinião esclarecida pudesse apoiar-se 
nas camadas mais densas da população. As suas jactân- 
cias singulares, a sua geral e irregular absorpção dos cargos 
públicos e as suas inherentes ameaças de tyrannia, tudo 
estancaria si, por um appello enérgico á virilidade politica 
do paiz, o eixo do poder lograsse deslocar-se com firmeza, 
passando o principio da auctoridade a andar consubstan- 
ciado unicamente no elemento civil, e não largamente 
partilhado por uma collectividade organizada em classe 
adstricta por sua natureza ao sentimento da obediência. 

Os exemplos dignos das classes directivas, a morali- 
dade inatacável do governo, o desvendar pela propaganda 
de horizontes menos estreitos do que os indicados pela 
politica de interesses, o alargamento e disseminação da 
instrucção, base de qualquer evolução firme: eis as condi- 
ções primordiaes de florescência da educação civica, a qual 
na Inglaterra traz ao parlamento uma maioria home-ruler 
debaixo do receio de sombrias agitações; na Allemanha, 

Lima, Pernambuco. 21 



322 

máu grado a influencia quasi autocrática de um imperante 
estimado, prepara á democracia social triumphos estrepito- 
sos; em França, apezar de todos os desmandos do oppor- 
tunismo official, e de todas as possíveis incongruências do 
suífragio universal, desprestigia os homens mais notáveis, 
porque de leve os roçaram os escândalos do Panamá. 
Quando no Brazil, nação dotada de primorosos e invejá- 
veis característicos de virtude privada, estabelecer-se na 
vida publica de um modo análogo ao mencionado a digni- 
dade nas votações, a independência e convicção na escolha 
de uma bandeira politica, a severidade inexorável da opinião 
auctorisada para com os actos indecorosos e os caracteres 
ennodoados, estará em caminho seguro a nossa educação 
de povo, marcharemos para o ideal do eminente dramaturgo 
allemão do romantismo — "um povo grande, poderoso e 
ao mesmo tempo bom, no meio do qual vicejem as altivas 
e levantadas virtudes da Liberdade", 



4 



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