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Full text of "Rainha Santa Isabel : heróis, santos e mártires da pátria"

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ROCHA MARTINS 

DA ACADEMIA DAS SCIÊNCIAS 



HERÓIS, SANTOS E MÁRTIRES 
'■ DA PÁTRIA ' 



RAINHA SANTA ISABEL 



CAPA ILUSTRADA POR 

ALBERTO DE SOUSA 




Colecção «HISTÓRIA* 

— Rua do Alecrim, 61 — 

LISBOA 

EDIÇÃO DO AUTOR 



Os Grandes Amores 
= de Portugal = 



11IUL0S DOS CAPÍTULOS 



I. — Linda Inês. 
II. — Desvario de Rainha. 

III. — Fiôr de Altura. 

IV. — A Amada do Camareiro. 
V. — O Drama de Vila Viçosa. 

VI. — Relicário de Paixão. 
VII. — «Senhora de Bem Fazer>, 
VIII. — Soror Mariana. 

IX. — Sombra de Rei. 

X. — Madre Paula. 

XI. — Dona Flor da Murta. 
XII. — O Bichinho de Conta. 



Heróis, Santos e Mártires 
=z da Pátria = 



THULOS DOS CAPÍTULOS 



I. — Rainha Santa. 
II. — O Condestável. 

III. — Os Dose de Inglaterra. 

IV. — O Vedor de Sagres. 
V. — Infante Santo. 

VI. — Cavaleiro da Morte. 
VII. — O Decepado. 
VIII. — A princesa Santa Joana. 
IX. — Vasco da Gama. 
X. — O Grã capitão. 
XI. — Camões. 
XII. — O Fantasma de D. Sebastião. 



Corap. e impr na— — 
Rua do Alecrim, 61 
LISBOA 







I. 



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PRIMEIRO QUADRO 



OS AMORES DE D. DINIS 



ERA ainda menina de dez anos a esbelta 
D. Isabel de Aragão quando viera para 
Portugal, a casar-se com el-rei D. Dinis 
na igreja de S. Bartolomeu da vila de 
Trancoso. O marido, poeta, à maneira dos 
trovadores provençais, educado em distinções 
e altos voos de sapiência pelo bispo francês 
e erudito Aymeric oVEbrarad, vira-a como um 
mimo, quizera-lhe logo com simpatia de alma, 
menos de esposo, porque ela ainda não es- 
tava núbil, que de enternecido apreciador de 
suas gentilezas e graças. Acrescentara-lhe ao 
pingue dote de três vilas — Óbidos, Abrantes 
e Porto de Moz — mais a do feudo onde se 
matrimoniara e, depois do descanso das festas 
das bodas, passara à Guarda, logo a Viseu, 
por fim a Coimbra, entre pompas e delírios 
dos povos extasiados ante a infância gentil e 
coroada que lhes davam por soberana. Corri- 
dos meses vinham avisá-la de que o rei tinha 
amantes. Aos seus vinte e um anos de fanta- 
sioso, amigo das letras e das artes, ungido 
pela magia poética, não bastava a criança 
formosa e duma ingenuidade arcangélica lan- 
çada para os seus braços; e, ligado a uma 
D. Aldonça Rodrigues, que devia ter encan- 



RAINHA SANTA 

tos sabedores, andava o monarca estonteado 
e bem preso. 

Na recamara real, a rainha, pequenina, ro- 
deada pelas aias, que trouxera, D. Brites de 
Cardona, D. Maria Coronel e D. Betaça, linda, 
do sangue dos imperadores da Grécia, não se 
ruborisava por ignorante do que seriam tais 
amores, longe da graça de Deus, e, de olhos 
baixos sobre os panos finíssimos ou deitados 
para a estopa grosseira, ia cosendo, com seus 
dedinhos rosados, as toalhas do altar ou as 
vestes da pobreza. 

Tal era o seu passatempo na corte com 
suas damas de Aragão e com as portuguesas 
ligadas a seu serviço e também o de levar 
seus socorros aos necessitados. Prendia-se 
numa grande fé e praticava-a de tal maneira 
que, de joelhos, no decurso das quaresmas, 
lavava os pés a treze pobres dos mais chaga- 
dos, preferindo os leprosos, dos quais todos 
fugiam. E, dando-lhes de comer, agasalhan- 
do-os em roupas, escutava de seus lábios os 
dramas de suas desditas de pedintes e de ga- 
fos. Chegara a aparecer-lhe uma mendiga com 
um cancro mal cheiroso num pé; as camarei- 
ras, ao trazerem a água para a ablução, vira- 
ram os rostos, enojadas pelo cheiro das maté- 
rias apodrecidas, gangrenadas; ela, porém, na 
mesma humildade de sempre, lavou-lhe a 
funda ferida, tocou-a em suas mãos, limpou-a 
com a suavidade fresca do linho e, como se 
tivesse na sua frente, em vez duma úlcera al- 
guma rosa, curvou-se e beijou-a, ante as lágri- 
mas da condenada e o pasmo das damas e 
dos gentis-homens. O grave mestre Pedro, seu 
chanceler, sentira-se turbado e encontrara os 
olhos aguados de Estevão Gonçalves, guer- 



RAINHA SANTA 

reiro de fama, alçado a mestre de cavalaria 
da Ordem de Cristo e o pranto sem continên- 
cia de Pedro Martins, filho da ama da sobe- 
rana e que brincara desde tamanino com tam 
doce e cândida senhorinha. 

O infante D. Afonso, irmão do rei, egoísta 
e duro, que andava de mordomo-mór na casa 
da soberana, não ocultara o espanto, o que 
dava o toque da sublimidade do acto e Este- 
vão da Guarda, o pagem, beijara as lajes do 
templo, em sinal de abdicação das ambições, 
ante tão estranho exemplo de humildade. 

Correra logo a fama das bondades da es- 
posa de D. Dinis ; diziam-na desprendida das 
honrarias e que, sob as suas vestes de gala, 
apertava à cintura um cilício forte que lhe 
enodoava a carne rosada de formosa, pois 
D. Isabel era linda, cada vez mais de celes- 
tial beleza, à medida que decorriam os anos. 

Não se amofinava em ciúmes nem em al- 
vorotos a cada denúncia recebida sobre as 
expedições amorosas do infiel e romanesco 
marido; caíam em seus ouvidos como pala- 
vras de outro sentido as de anúncio daquelas 
fervorosas e multíplices paixões. Umas vezes 
era a notícia do nascimento dum menino, dos 
amores de D. Aldonça com o monarca. Ti- 
nham-no chamado de Afonso Sanches e seu 
pai amimava- o com a infinita ternura sentida 
pelos filhos do delito. Andava a criar-se com 
pompas de infante ; recebera o Dom com ter- 
ras e privilégios; e como diziam estéril a legí- 
tima senhora do tálamo real, já viam no pe- 
quenino o sucessor. Nem tais soadas a indi- 
gnavam. Pois se a Deus aprazia sua infecun- 
dez, que podia ela perante os desígnios do 
céu? Continuava nas suas caridades, nos seus 



RAINHA SAN! \ 

pensamentos religiosos, nas suas acções de 
bondade, a inquirir das donzelas desonesta- 
das, das pobrezas metidas nos escondidos 
pardieiros, das feridas a lenitivar, das dores 
carecidas de suavização, dos males e dos 
horrores aos quais poderia assistir. Os neces- 
sitados afluíam às portas do palácio e nenhum 
partia sem esmola; às vezes eram tantos que 
a criadagem os expulsava dos pátios, em 
grande algarada, mas a rainha, ao sabê-lo, 
mandava repreender pelo seu mordomo quem, 
sendo pobre e agasalhado no paço, contra 
seus irmãos sem socorros assim se manifes- 
tava. Numa ocasião em que encontrou um 
mendigo chorando e, ao saber ter sido espan- 
cado pelo porteiro, tristemente ajoelhou a seus 
pés, pedindo-lhe perdão para o culpado e 
maiores carinhos lhe dispensou. Entretanto os 
novos amavios do esposo chegavam a seus 
ouvidos, mas ía-os recebendo sempre em tal 
resignação e calma que D. Dinis entrou a 
achá-los de desamor. Procurou-a em sua re- 
camara; estava lindíssima, como desabrochar 
da idade; e se suas galas de trajar não real- 
çavam a formosura, por garridas, a simplici- 
dade de vestidos de maior beleza a tornava. 
Mais dois meninos tinham nascido dos vários 
e ilegítimos amores do monarca — um, Fernão 
Sanches ; João Afonso, o outro — quando ela 
sentiu ter Deus abençoado também o seu 
ventre. Estava pejada a rainha e, na aurora 
de janeiro, veiu alegrá-la uma filhinha, à qual 
denominou de Constança, emquanto o pai, 
mais atormentado pela desilusão de tal fruto 
sem varonia, mais se ligava ao carinho de seu 
primogénito bastardo, D. Afonso Sanches. 
Docemente, a esposa enganada, inquiria da 



RAINHA SANTA 

vida das que o rei abandonava, ao cabo de 
saciar seu deleite ou seu capricho. Ficavam 
sempre em termos de riqueza desde que não 
o possuiam; porém, ela ia dando remédio às 
situações dos filhos de seu marido. Reserva- 
va-lhes amas, doçuras, lugares perto dos pa- 
ços e, humildada, sem palavra áspera ou de 
zelos, sem mesmo mostrar uma lágrima em 
seus olhos moços, mas já afeitos a verem to- 
das as misérias humanas, deixava o rei nas 
aventuras. 

Um ano depois dava ao mundo um infante. 
Era robusto, rijo, de carnes fortes e rosadas. 
Seria D. Afonso, como o avô; herdeiro do 
trono pelo direito de nascimento. Usufruiu 
logo todas as homenagens e os beijos do rei 
que, todavia, não olvidava o seu primogénito 
bastardo do mesmo nome, já em crescimento 
de graças e separado da mãe, a ser recebido 
na corte por empenho da rainha. Ela adorava 
o seu filho, mas não esquecia os das outras, 
como tampouco diminuirá sua ternura pelos 
pobres, suas orações, o trabalho de suas mãos 
mimosas nos panos grosseiros, a descida às 
gafarias, a prática do bem e de tal modo que 
já não lhe chegavam as rendas das suas qua- 
tro vilas para tantas desditas a consolar. 

Ligeiro de ânimo, o monarca, ia sempre a 
entreter-se em suas paixões de inconstante, 
procurando os amores onde encontrava mu- 
lher bela; mas, a-pesar-de tudo, dava-se à go- 
vernação, sabia de todos os seus súbditos, 
mandava cultivar campos e ajudava os lavra- 
dores aos quais chamava «os nervos da repú- 
blica», dedicava-se a abrir escolas de grandes 
estudos, ordenava a sementeira do pinhal de 
Leiria, com o fito no fabrico de naus, e depois 



RAINHA SANTA 

volvia-se a fazer versos, a engendrar fantasias, 
a procurar deleites do espírito e da carne e às 
montearias sem fim nas selvas do seu reino. 
Da esposa ocupava-se, um pouco enciumado, 
ao vê-la dar tão minguado valor a seus des- 
vios de marido que nem deixava de lhe aca- 
rinhar os rebentos de tais amores. Enchia-se 
de zelos, porque são os piores ciumentos os 
inconstantes e quando quiz perscrutar do 
ânimo da soberana logo houve quem aven- 
tasse distinguir ela muito e mandar em reca- 
dos distantes a certo pagem com o qual se 
encerrava nas salas do paço durante largo 
tempo. Fixou o escudeiro invejoso que tal 
notícia lhe dava; injectaram-se-lhe em raivas 
os olhes apaixonados e, partindo de galope 
além da cidade de Coimbra, foi ao arrabalde 
onde topou um forneiro de cal em seu mister. 
Apeou, deu-lhe ordens terminantes num estilo 
irrespondível, escutado em vénia e obediên- 
cia. Ao raiar da aurora do dia seguinte viria 
até ele um pagem com certo recado. Tomá-lo 
hia, dando-lhe como prémio a bocarra de 
seu forno para o calcinar, o reduzir a cinzas. 

— «O primeiro que chegar com minhas pa- 
lavras vá de lhe dar o bom calor!» 

E partiu rindo, contente, ordenando ao pa- 
gem arguido a missão do dealbar. Acordou 
de ânimo perturbado; já o sol rompera e não 
aparecia o plebeu a dizer-lhe de sua obra; 
então, impaciente e em fúria, chamou o es- 
cudeiro acusador das detenças da rainha com 
o condenado e mandou-o a saber do aconte- 
cido. Passaram-se horas. De repente el-rei 
viu em sua presença o pagem sorridente de joe- 
lho em terra a dizer-lhe ter o forneiro já cum- 
prido suas ordens quando ele lá chegara. O 



RAINHA SANTA 

pasmo do monarca era intenso. Via vivo o 
que quizera morto e interrogou-o, quiz saber 
se houvera menos cuidado por seu serviço. 

— «Não, meu senhor. . . O forneiro deu o 
bom calor ao que primeiramente chegou em 
serviço de vossa real mercê ! Foi o que me 
disse, senhor, e vos repito.» 

El-rei compreendeu tudo, mas hesitou, até 
que fez a pregunta? 

— «Mas tu quando te achegaste?» 

— «Senhor ... Eu prevariquei . . . Detive-me 
a ouvir missa no convento de S. Francisco da 
Ponte. . . Demorei-me, senhor. . . » 

Recebera o castigo o denunciante, o da 
falsidade, o primeiro que chegara à fábrica 
com o recado real. E D. Dinis, num extasi, 
sentiu passar a justiça divina. Curvou a ca- 
beça, ajoelhou, pôs-se a resar e viu a imagem 
da inocente rainha, como aureolada dum res- 
plendor. 




SEGUNDO QUADRO 

O PATRIOTISMO 
DUMA SANTA 



IAM com vagares os anos e Isabel não mu- 
dava. Âcrescera-lhe o esposo seus bens 
para mais ter que doar à pobreza. Acom- 

panhava-o pelo reino, sabia-lhe dos amorios 
sempre renovados, duma D. Gracia de Sousa, 
a encantá-lo e a dar-lhe um filho, que chamou 
D. Pedro t 1 ), o qual seria conde de Barcelos; 
e, ou envergonhado de acrescentar sua prole, 
desfalcando os régios réditos, ou vencido pela 
bondade da soberana, êle ía-lhe fazendo mercê 
de maiores bens, a-fím-de não julgar ser seu 
desígnio arruinar a coroa a favor dos bas- 
tardos. 

Chegados certa manhã ao castelo de Alía- 
zeirão, entregou-lhe por dom as colheitas das 
vilas de Óbidos e de Sintra, com mais padroa- 
dos e alcaidarias; entraram em Alcobaça e 
ela fora dar graças a Deus no mosteiro, tendo 
comsigo muito mudado o esposo. Mandara-se 
fazer para a igreja de S. Domingos, de Lisboa, 
uma imagem em que a soberana figurava de 



(i) Foi o celebrado conde D. Pedro, autor do Nobi- 
liário. 

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RAINHA SANTA 

Mãe de Deus, tendo ao colo o menino com o 
rosto do infantesinho D. Afonso e êle sorrira, 
desvanecido. Embora continuasse em suas 
proezas de amoroso e de fragoeiro, encarava 
em singular respeito as qualidades da con- 
sorte. Admirava-lhe a unção, a bondade, os 
seus modos de perdoar, o seu carinho pelos 
nascidos do amor culpado, e desde aquele 
traço duma estranha Justiça em que o es- 
cudeiro sofrera a sorte destinada ao pagem 
inocente, não mais deixara de meditar nos 
desígnios do céu. De resto, a rainha indus- 
triava-o tanto em suas devoções, contava-lhe 
tantos dos seus idealismos e consagrava-lhes 
tais horas de conversação religiosa, que êle, 
poeta, educado por um bispo douto, dado a 
rimanceiros, acabara por se fascinar nas legen- 
das divinas. Sobretudo — el-rei o confessava 
a desbastar sua incredulidade, tão provada 
depois ante as sobrenaturais revelações — 
sentira-se crédulo, após certo facto que a mi- 
lagre imputara. 

Vira ainda o pai, D. Afonso III, um pouco 
scético pelo conhecimento da alta clerisia, a 
sobordinar- se-lhe na hora da morte, receoso 
do castigo, aninhada a superstição na sua 
alma bárbara. Êle, criado em subtilezas, não 
se amesquinhava e pretendia erguer-se acima 
dos banais terrores. A rainha, porém, falava- 
-lhe sempre dos milagres do céu e, naquele 
tempo, insistira muito nas virtudes do seu pa- 
rente Luís, bispo de Tolosa, que trocara as 
coroas reais da Hungria e das Sicílias, pri- 
meiro pelo burel de mendicante e depois pe- 
las vestes de prelado, sob as quais se alma- 
fegava em grosseiras roupas. Vivia numa rés- 
tea luminosa de boas acções, de milagres e o 

12 



RAINHA SANTA 

exemplo de tanta bondade enchia-lhe a alma 
de esplendor, querendo deslumbrar o marido 
e levá-lo para menos pecadores trilhos. Ele 
ouvia-a, mas não se emendava. 

Chegara, emfim, a hora em que sentira 
como roçar-lhe a carne um frémito sobrena- 
tural e quebrara, daí em diante, um pouco 
mais a sua leviandade. 

Partira de Beja com luzido séquito de 
monteiros e escudeiriços, batedores e moços, 
matilhas de galgos e falcoaria, para fazer uma 
grande caçada. Entusiasmara-se no seguimento 
duma corça leveira que o arrastava com a 
graça travessa e feminil, tentando-o com seus 
olhos de antílope. Perdera-se num matagal, 
vizinho de Belmonte, nas margens do Gua- 
diana, pois assim se chamava a terra para 
onde o desviara com seus saltos o garrido e 
astuto animalzinho, ao qual procurava abater 
e lhe fugia. De repente, soou um rugido es- 
pantoso e, diante do monarca, em vez da 
corça ligeira, encontrava-se um negro e pesado 
urso, de bocarra escancarada, as unhas afila- 
das, esfaimado e feroz, a avançar para o real 
caçador. D. Dinis, do alto da sela, defronta- 
va-o. Via-o fugir e seguia-o, no seu ímpeto de 
bom sangue, quando o perdeu, como se em 
algum fosso caísse; a súbitas, sentiu-se arre- 
metido; dum salto brusco, o urso, que se ocul- 
tara numa penha, atirou-se contra a montada 
e derrubou o corsel com o cavaleiro. De 
repente, as garras rasgaram-lhe as roupas e, 
num ímpeto, sacando do afiado punhal, que 
se entalava em seu cinturão, procurou defen- 
der-se, ao receber no rosto o hálito imundo e 
os uivos do atacante. Em vez de garreado, 
foi uma doce visão que a seus olhos decor- 

13 



RAINHA SANTA 

reu ; julgou \ er santo bispo de Tolosa humil- 
dado num burel, a dar-lhe ânimo e, de chofre, 
no impulso de quem recebe um auxílio pode- 
roso, rasgou a garganta da fera, calando-lhe a 
voz rouca e abatendo-a, num lago de san- 
gueira. 

No regresso lançou-se nos braços da rai- 
nha, a contar-lhe o terrível encontro; escutou 
a corte a narrativa do rei e da comitiva que 
se assombrara, ao topá-lo com o despojo aos 
pés. 

Na igreja de Odivelas, de que deliberara 
a fundação em memória de sua sorte, mandou 
celebrar o feito com uma figura de cavaleiro 
derrubado sob o furioso urso de Belmonte. 
Menos afundou sua carne do que vincou sua 
alma semelhante duelo. Abrandou em loucu- 
ras, deu-se mais aos trabalhos da governação, 
aos quais, de resto, nunca descurara; dedi- 
cou-se em novos anelos ao amor da família, 
sem esquecer os bastardos, entre os quais 
preferia, com manifesto carinho, o primogénito, 
D. Afonso Sanches, que a rainha também 
afagava. 

Inclinava-se em respeitos por sua bon- 
dade, dia a dia maior; não dava um passo 
sem a consultar, aferroado a uma amisade 
feita de imensa ternura. Seu irmão, D. Afon- 
so, andava a disputar-lhe o reino. Dizia-se o 
verdadeiro sucessor de Afonso III, visto ter 
nascido quando já era morta D. Matilde, a 
primeira mulher do pai, ao passo que o rei, 
nado também do segundo consórcio com 
D. Beatriz, viera ao mundo em vida da repu- 
diada; possuía, por isso, menos legitimidade. 
Erguera seu brado e encontrara partidários; 
aliara-se a Castela e topara auxílios. Reclamava 

14 



RAINHA SANTA 

para seus filhos três castelos da coroa; não 
queria saber de suas bastardias, mas apenas 
dos bens aos quais não renunciava: a vila 
aberta de Vide, Marvão, Arronches e Porta- 
legre, ern cujo reduto se entrincheirou. Em 
breve, porém, falharam-lhe os recursos e as 
alianças e, foragido, lançou-se para Badajoz, 
onde os de Castela, voltados para D. Dinis, 
o cercaram e o virem rendido. Entre as 
mesnadas apareceu um emissário de D. Isa- 
bel a chamar o rei aonde ela se encontrava 
e tanta impressão soube produzir no ânimo 
do monarca que, num impulso de poeta, de- 
pondo sua espada vitoriosa aos pés duma en- 
cantadora mulher, que era a sua, se dispunha 
a transigir com o infante, a doar-lhe de novo 
suas atalaias para que as legasse aos filhos, 
desapossando assim os sucessores, criando 
maiores motivos para futuros dissídios. 

Levava mais longe a sua isenção. Dizia à 
esposa, que o olhava surpreendida, estar dis- 
posto a legitimar a prole do vencido e mos- 
trava-se em rasgos de idealista, alagado na 
aura bemfazeja daquele fim de batalha diante 
da linda medianeira. 

O infante, ainda revestido das suas armas 
de guerra, aguardava a sentença na alcáçova, 
sentindo toda a influência da cunhada no âni- 
mo bondoso do irmão, agora levado até à 
munificiência mais generosa. 

De repente, D. Dinis sentiu escurentar-se- 
-lhe o ânimo. A voz doce e terna da rainha 
era toda de sinceridade e bom senso, ao ci- 
tar-lhe quanto ele dava que ela não pe- 
dira. Desejava seguros e acautelados os des- 
cendentes de D. Afonso ; queria para o infante 
e para os seus todas as regalias; tratava-os 

15 



RAINHA SAN 

de parentes, ricamente apetrechados para as 
desgraças; sentia dever-se-lhes muito oiro; po- 
rém, ia bastante longe el-rei, em suas graças. 

Imaginara ser vítima dum pesadelo ao es- 
cutá-la, tão mimosa e tão suave, vestida de 
gala, decerto amarrados os cilícios à cinta, em 
humildade e castigo, mas não a compreen- 
dia. 

Porque viera, nesse caso e de longe a cele- 
brar as pazes, ou antes a intervir em favor de 
rebelde, se não o queria satisfeito em suas exi- 
gências? 

Decidira-se a obedecer-lhe, logo às primei- 
ras palavras, como um devedor galante duma 
gentileza ante a mais grácil das donas que dese- 
java bem servir. Agora, porém, era ela própria 
que, movendo suas mãosinhas brancas, enu- 
merava os bens, as doações, as tenças, tudo 
quanto ele quisesse dar ao irmão e a seus 
filhos, mas nunca os castelos, as torres amea- 
das. as barbacãs e as honras dos balsões. 

Firmemente, com tanta ardidez como a 
usada para solicitar perdões e dádivas de 
maravedis e terras abertas, ela se manifes- 
tava, no momento, ante o que sentia sair da 
coroa para os adversários do marido. 

— «Mas, Izabel, porque não os castellos se 
os pede e por suas paredes se rebelou? Por- 
que não esses muros de Marvão, de Portale- 
gre e de Arronches, se noutros teres não faz 
esforço? Sim, porque não, se de longe che- 
gaste a pedir paz e benefícios?» 

— «Deixae-lhe a sua villa de Vide; doae-lhe 
rendas e egrejas . . » 

— «Porque não os castellos, se os tomou 
em revoltas e os ambiciona? Se vieste pela 
trégua ?» 

16 



RAINHA SANTA 

— * Senhor rei, é que os castellos são de 
Portugal e menos falta fazem a um príncipe 
do que a uma grey. Doae-lhe dos meus redi- 
tos, mas deixae os castellos ás vossas ban- 
deiras. . .» 

E D. Dinis, expulsando o poeta de sua 
alma e albergando nela a realeza, sentiu bem 
quanto a sua Isabel merecia ser rainha. 



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TERCEIRO QUADRO 



A LEGENDA DAS ROSAS 



MAL chegavam as tenças e réditos da 
rainha para pagamento de tanta cari- 
dade. Andava sempre a tirar de sua 
casa para benefício dos pobres. D. Di- 
nis já não estranhava as suas atitudes; deixa- 
va-a a enternecer-se diante de todas as des- 
graças e a lançar em volta tanto bem, que os 
pobres vinham dos confins do reino, de pés 
chagados pelas arestas pedragosas e de almas 
turbadas em ânsias de socorros. Estivesse nos 
paços de Santarém, em Coimbra, em Leiria, 
vila que lhe fora doada, em Odivelas, em Ex- 
tremoz ou em Trancoso, afluiam os mendigos 
de toda a casta. A rainha lavava-lhes os pés 
cansados, dava-lhes de comer, assistia-lhes e 
quando eram de outro género as bondades a 
praticar, ela, que guardava, a-pesar-de ser 
mãe, uma larga ingenuidade, sabia aconselhar 
e conduzir as desgarradas ao bom trilho. Pro- 
curava lenitivar os males das donzelas perdi- 
das nos amores, mandava albergar criancinhas 
desamparadas em nome da moral que lhes 
ocultava as mães, recolhia nas suas casas os 
necessitados de amparo e dava suas palavras 
sãs aos pervertidos. Para a soberana, mal 
existiam culpas; tudo no mundo se remediava 



19 



RAINHA SANTA 

pelo arrependimento. Por isso, mantinha uma 
resignação enorme que enchia seu rosto da 
mais plácida e suave das expressões. Conti- 
nuava a usar os vestidos da singeleza e a 
cingir debaixo deles os cilícios. Se envergava 
trajes de magestade, comprimia mais as cordas 
da penitência, como a querer pagar com os 
vergões na sua carne o que pudesse ser to- 
mado à conta de vaidade no vestir. 

Dos seus celeiros manavam os grãos para os 
famintos, como das terras de semeadura, das 
colheitas que lhe competiam, doava logo 
grande parte aos semeadores. Queria os seus 
servos bem tratados, na posse dos alimentos 
que produziam, e se dos sementais do linho 
mandava fazer ou trabalhava por suas mãos 
as toalhas dos altares, também se talhavam, e 
seus dedos eram mais ágeis nesta tarefa, os 
panos consoladores das chagas. Entrava afoita- 
mente nas gafarias e não podia ver uma misé- 
ria sem a socorrer, fosse dum humano ou 
dum irracional, duma formiga ou duma rosa. 
Baixava-se a desviar do seu pé a pétala caída 
e afastava-se para poder avançar o carreiri- 
nho negro das trabalhadoras, a encherem as 
engenhosas células de seus depósitos previ- 
dentes. Vivia num extasi de bem-fazer e do 
mel de suas abelhas nutria as criancinhas 
que tossiam e alimentava com a cera dos cor- 
tiços as luzes do bom Deus. 

Dum lado ao outro do reino se conheciam 
já tanto as suas bondades que para ela to- 
dos se voltavam implorantes, buscando o mais 
doce dos amparos. Muito baixinho, o povo 
chamava-lhe sua mãe, temendo ofendê-la ; em 
voz alta, tratava-a de santa, mal sabendo que 
mais lhe desagradava, porque D. Isabel de 

20 



RAINHA SANTA 

Aragão julgava-se tão pecadora como a maio- 
ria aos mortais e desejava redimir com o bem 
e a humildade as supostas culpas de sua 
existência. 

Jamais hesitava em servir os que se lhe 
dirigiam e ouvindo queixar- se- lhe D. Mór de 
ter sacrificado parte da sua fortuna para eri- 
gir o convento de Santa Clara, no que a em- 
baraçavam os cruzios, logo a atendera num 
frémito irreprimivel, tanto em sua alma ecoara 
o desejo de a auxiliar. Ela erguera à beira 
do Mondego, pertinho da orla que as cheias 
saltavam, algumas paredes brancas, dentro 
das quais queria recolher as desditas do 
mundo. Gastara todos os seus bens, vendera 
ouro e prata, terras e casais, a-fim-de se en- 
terrar ali, na margem do rio. Consumiu as ri- 
quezas que de seus maiores provinham. Le- 
vara treze anos a lidar para conseguir erguer 
a sua claustra; construirá a igreja. Deixara o 
mosteiro de Santa Cruz, tão protegido de 
el-rei, pela visão da cela humilde, onde pro- 
curaria o refúgio para a sua fé, invocando 
S. Francisco, o da humildade, e Santa Clara, 
a que o imitara, preferindo-os para exem- 
plo de sua crença em Deus. Sentira-se 
venturosa e tanto que ao Altíssimo pedira 
perdão, julgando-se em pecado de orgulho. 
Frei Abril, guardião do convento de S. Fran- 
cisco da Ponte, recebera a doação por escri- 
tura, mas logo o prelado quisera embargar a 
entrega. Levantara-se tal celeuma que o pró- 
prio rei se colocara ao lado do prior de Santa 
Cruz, o qual disputava com D. Mór. Dizia a 
religiosa de sua comunidade e incapacitada 
de tratar com outras ordens. A rainha escutou 
as solicitações da virtuosa monja; acudiu a 

21 



RAINHA SANTA 

pedir justiça para cia c imaginava procurar 
recursos a-fim-de concluir o edifício, quando a 
doadora se finara e a questão mais se acendera. 
As outras freiras suplicavam da soberana to- 
dos os auxílios; a cleresia interpunha-se, à 
sombra do rei, mas D. Isabel caíra em medi- 
tação diante do convento ainda imperfeito, 
falho de recursos, um esqueleto, vizinho duma 
vaga igreja. Tomou para si a tarefa; solicitou 
do pontífice o beneplácito, ergueu-se diante 
dos sacerdotes, não na sua magestade de rai- 
nha, mas na sua atitude digna, de consciência 
limpa e nobre começou a dedicar ao edifí- 
cio o carinho que sempre mostrara para com 
os pobres. 

Ele era, na sua humildade, como um doente 
carecido de auxílio, um peregrino parado à 
beira do Mondego em ânsias de socorro ; suas 
paredes vacilavam como carnes doentes; suas 
janelas pareciam as pupilas vazias dum cego, 
esperando a luz de Deus na consagração das 
hóstias, nos exemplos de virtude. Sem deten- 
ças, num arranco, bem inspirada, como sem- 
pre, dedicou-se intensamente ao seu fim. Que- 
ria ver completo e sagrado esse mosteiro das 
claristas e deu-lhes ânimo; encantou-se, ao 
senti-las vigorosas para o trabalho dentro dos 
seus hábitos pardos, de véus negros que as 
brancas cordas cingiam, e uma vontade enor- 
me de as imitar chegava ao seu espírito. Viu 
em Santa Clara a sua futura casa, os paços 
onde deveria repousar junto das monjas, pa- 
redes meias com suas devoções e não se de- 
teve mais. Havia uma nova igreja a construir 
e foi em busca dos meios de a edificar. 

Dava-lhe seus cuidados e seu dinheiro; 
dia e noite sonhava com a obra tornada como 

22 



RAINHA SANTA 

uma filha e descia de tal maneira às ínfimas 
tarefas em honra de seu mosteiro, que o rei, 
vencido na lucta, só dessas missões mesqui- 
nhas a culpava. Embora os padres de Santa 
Cruz tivessem visto a sua derrota, perdoava 
à rainha o inflingir-lha, não se preocupava 
com os gastos de sua bolsa, mas desejava-a 
afastada de todas as fainas humildes. Era o 
que queria; eis o que lhe suplicava. Cons- 
truísse à vontade o seu convento, mesmo os 
paços; tencionasse albergar-se neles no fim 
da vida; porém não esquecesse os respeitos 
devidos à magestade real. 

Vinham dizer-lhe que andava pelos corre- 
dores em construção, mal receando os salpi- 
cos da cal; que ajudava, por suas mãos, a dar 
exemplos, e tratava com alvenéis e oficiais de 
ofício, à maneira duma necessitada. Em vez 
de empregar seus servos ou aias, era ela a 
olheira, a atalaia, a vigilante das obras do 
convento e, ainda mais, el-rei estava infor- 
mado, tirava à sua ucharia, a seu tratamento, 
à sua pompa para doar à fábrica que turbara 
sua rasão, a ponto de se misturar na balbur- 
diante vida dos mesteirais e mecânicos. 

Decerto fizera um voto ao céu; despira-se 
das vaidades e renunciara à realeza. Já não 
lhe chegavam os rendimentos das suas vilas 
de Porto de Moz, de Trancoso, de Leiria, 
Cintra, Óbidos, tampouco os seus celeiros 
para realisar o grande sonho. Tudo era engu- 
lido na lama do Mondego, ameaçador nos in- 
vernos, todo de rugidos, a saltar as pontes. 
Mas, embora se gastasse todo o oiro do reino, 
o que se tornava necessário era salvar a rai- 
nha das suas baixas ocupações. Solicitara- 
-lho ; recebera-o com o eterno sorriso cândido 

23 



RAINHA SANTA 

de sua linda boca; suplicara-lho, evocando a 
dignidade da realeza e do mesmo modo se 
quedara. Resolvera ir surpreendê-la para que 
não pudesse negar a realidade e, sem pagens, 
sem escudeiros, sem séquito, D. Dinis passou 
da portada anterior à da claustra e logo se 
lhe deparou a rainha. Trajava em modéstia c, 
erguendo o pano superior de seu vestido, à 
maneira dum avental, guardava nele qualquer 
coisa oculta aos olhos do rei. Era o dinheiro 
para as férias de alvenéis, mecânicos e carre- 
jões e o monarca tanto o percebeu e de tal 
maneira se orgulhou de a topar em sua faina 
humilde que, enviseirado de severidade, lhe 
preguntou: 

— «Senhora: que levaes em vosso regaço?» 
Sem a menor perturbação, a rainha, es- 
garçando um pouco a veste, volveu : 

— «Rosas, real Senhor!» 

O esposo curvou-se e viu, na verdade, 
em vez de dobras e maravedis, em câmbio de 
oiro e prata, uma abada de rosas das mais 
lindas, tão vermelhas umas, tão brancas ou- 
tras, que lembravam laivos de sangue de sa- 
crifício, vertido sem tocar a candidez das que 
eram da cor da pureza e da bondade. 

Tudo se passara na simpleza das coisas 
santas. 

— «Rosas, real Senhor ! . . . » 

E a voz de Isabel soava como um cântico 
de celestial harmonia. 



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24 




II 



V. 

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QUARTO QUADRO 



OS ZELOS DO INFANTE 



COM a idade, o rei, que tanto se dedi- 
cava ao reino, ia fazendo tudo quanto 
sua mente imaginava e como o erário 
se enchia das pingues riquezas da 
terra, podia, como um poeta, sonhar e como 
um pródigo proceder, que sempre a míngua 
seria espancada de sua beira. Erigia esco- 
las e templos, auxiliava os empreendimentos, 
e, todo desvanecido no esplendor de sua obra, 
a mais pacífica da dinastia, tratava de dar fe- 
licidade aos que o rodeavam. Desde tenra 
idade amerceara o filho legítimo com casa 
separada dos paços, cercando- o de honrarias, 
como sabia ser hábito em França onde seu 
pai aprendera e conforme lhe aconselhara o 
bispo, o mestre Aymeric, já chamado pelos 
portugueses D. Américo, na sua diocese de 
Coimbra. 

O infante críava-se como um pequenino 
rei. Seu educador era o futuro arcebispo de 
Braga, D. Martinho de Oliveira; seu aio era 
D. Martim Gil de Sousa, a quem o rei dera o 
título quando o seu pupilo fizera catorze anos. 
Lentamente se criava um partido em volta do 

25 



RAINHA SANTA 

herdeiro do trono ao qual se juntavam turbu- 
lentos fidalgos e seus aderentes, ambiciosos 
moços, pagens e escudeiros, que tinham en- 
volvido num ódio sinistro os bastardos do 
monarca, à excepção de D. Pedro, maleável 
e hábil, amigo das letras, sumamente talen- 
toso e que, a-pesar-de sua mocidade, sabia 
desviar-se dos escolhos. O pai admirava-lhe 
as qualidades ; revia-se nele, sentia-o detentor 
do seu temperamento e das suas paixões de 
alma, emquanto no bastardo primogénito reco- 
nhecia a dedicação, o ardor, a valia de o bem- 
querer. Tatnbém nomeando um alferes-mór, 
reservara para este a mordomia-mór, o que 
lhe dava largos foros e excitava as iras da 
corte, reduzida mas turbulenta, do sucessor do 
trono. 

Fernão Sanches e João Afonso, os outros 
ilegítimos descendentes de D. Dinis, ligavam- 
-se a D. Afonso Sanches, embora ele se guar- 
dasse de tomar atitudes, aceitando as doações 
paternas sem alarde. Querendo agradar aos 
contrários, mostrava-se simples e calmo, sem 
se envaidecer das preferências régias, de 
resto patentes a todas as vistas. 

Por este tempo, andava na corte uma 
grande intriga. Debalde se procurava deter a 
onda ciumenta do ânimo do infante, espica- 
çado por seus partidários. Diziam-lhe querer 
o pai proclamar seu sucessor o bastardo tão 
querido; mostravam-no a caminho do poder; 
afirmavam ter já partido um emissário a soli- 
citar do papa a sua acedência e tratava-se 
de inutilisar o rival, tecendo à sua volta o 
grande enredo. Mandaram-se a Castela dois 
criados do infante, Pêro Gonçalves e Pêro 
Guilhelme, a-fim-de levantarem um instru- 

26 



RAINHA SANTA 

mento de culpa contra o inimigo. Traçaram 
um verdadeiro romance de horrores escrito 
em traslado de tabeliães e no qual se tendia 
a provar que por palavras dum peão atacado 
no vilar de Santa Maria de Magarela, se ficara 
sabendo ser este da casa de D. Afonso San- 
ches e que fora ali em busca de veneno para 
empeçonhar o senhor infante, por ordem do 
irmão. De tal guisa teria revelado o caso que 
não restariam dúvidas da cilada. Encomendado 
o feito e escrito o auto fingido, levaram-no ao 
monarca, depois de publicado em Coimbra 
pelos juizes. 

Foram seus portadores os fidalgos Nuno 
Martins Barreto e Ruy Gracia do Casal por 
banda do herdeiro da coroa que, requerendo 
o castigo do acusado, ficava aguardando a 
justiça real. Nublou-se a alegre fronte do rei 
poeta ; turvou-se-lhe a alma, ao imaginar, ante 
as letras da notícia, ter seu querido filho al- 
bergado ideas de assassínio e exclamou, em 
ira, disposto a punir, «que se fosse certo que 
outro seu irmão legitimo (se elle o tivera) con- 
tra elle comettera tal traição, sem alguma pie- 
dade lhe mandara tirar o coração pelas espa- 
doas, como ao mais vil homem do mundo» ( l ). 
Ordenara a cavaleiros de sua confiança o tra- 
zerem-lhe certezas, inquirições verdadeiras. 
Partiram e voltaram com desmentidos. Jamais 
se dera em Magarela caso semelhante. Eram fal- 
sos todos os documentos apresentados a sua 
alteza acerca da suposta acção do seu bas- 
tardo. Sangrando de alma, à conta da mentira 



(') Duarte Nunes de Leão— Chronka de El-rey D. Diniz. 

27 



ÍHA SANTA 

do filho legítimo, tão torvamcntc descido à 
infâmia, chamara à sua recamara D. João 
Mendes de Briteiros, Martim Afonso de Sou- 
sa, Gonçalo Anes Berredo, D. Pedro Estaco, 
mestre de S. Tiago; D. Gil Martins, mestre 
de Cristo; bem como a Vasco Pereira e mais 
conselheiros e, revelando a sua pesquiza feita 
na terra castelhana, dizia-lhes que se o des- 
mentido lhe era grato ao espírito, por inocen- 
tar um dos seus filhos, o aterrava ante a mal- 
dade do outro, do que seria o seu sucessor 
no trono. Um rei jamais devia descer à men- 
tira contra um seu súbdito. Evocava os bene- 
fícios que lhe fizera ; como o tratara dando-lhe 
casa, elevando-o acima dos hábitos de sua 
idade em honras e proventos e queixava-se, 
num desabafo, de todo o horror da intriga, do 
mal aconselhado que andava seu filho. Um 
dos amigos do infante, o seu aio, Martim Gil 
de Sousa, transtornara-lhe o carácter em vir- 
tude do ódio nutrido contra D. Afonso San- 
ches, seu meeiro numa tença. Era certo que 
os puzera de acordo, rogando largamente ao 
bastardo para deixar a demanda, mas o cava- 
leiro, ainda azedado, passara-se a Castela, em 
treda e negra acção. Tal fora o aio de seu 
filho, tal o que lhe ateara no ânimo a cólera 
e os zelos. Numa raiva maior, acrescentava 
ter o infante protegido sempre o seu antigo 
mestre e todos os que hostilisavam ou desobe- 
deciam ao rei. Enchera-se de raivas e agora 
levantava aquela vileza que mais bela e no- 
bre tornava a figura do acusado. 

Os cavaleiros baixaram as cabeças, ao 
darem rasão ao monarca. Depois, num rude 
ímpeto, desafogando-se ante os familiares, 
falou da invenção de ter ele enviado car- 

28 



RAINHA SANTA 

tas ao papa, com os selos de vinte e duas 
vilas, a-fim-de alçar o que diziam seu prefe- 
rido, afastando do trono o legítimo herdeiro e, 
ardendo numa sentida dôr, declarara estar 
disposto a escrever ao pontífice, a-fim-de ele 
atestar a falsidade da imputação. E, arrebata- 
damente, numa grande pressa, chamara Pêro 
Esteves e Lourenço Annes Redondo, fidalgos 
de sua casa e ordenara-lhes que fossem 
aonde o filho e lhe narrassem seu propósito. 
Queria-o tranquilo, com os seus vinte e um 
anos, aprendendo na obediência e no amor 
pelos pais o ofício tão difícil de reinante. E ao 
acabar, despedindo os do conselho, golfaram- 
-lhe dos olhos afeitos à beleza as lágrimas da 
tortura. 

D. Isabel, nas horas que a sua caridade e 
fé lhe deixavam livres, ia em busca do esposo 
cuja alma andava tão perturbada e, sem lhe 
dar palavra acerca dos seus pecados, mos- 
trava-lhe o caminho da resignação. 

Não havia dúvida de que, sem os seus amo- 
res culpados, sem o nascimento desses bas- 
tardos, tudo decorreria tão bem no reino que 
ninguém se atreveria a uma vaga queixa. 

O filho preferido mal estadeava a sua qua- 
lidade de bem-amado; não procurava defron- 
tar o irmão, mas na alma deste anichara-se o 
fel dos zelos e o terror de ficar sem o trono 
Conhecia a história do avô, vindo de França, 
do exílio em que vivia, atraído pelo clero e 
pelos inimigos do rei D. Sancho, seu primo- 
génito, a-fim-de o destronar. Tarefa mais difí- 
cil esta fora do que um soberano solicitar do 
papa a troca de seus herdeiros. Daí a ânsia, 
a raiva, o rumor de intriga, a crença nos con- 
selhos dos ambiciosos parciais, que levavam 

29 



RAINHA SANTA 

o filho ao desvario. A^ora mesmo, num ar- 
ranco de louco, partira para Castela, onde a 
irmã falecera, a súbitas, sendo rebente. Ia 
entender- se com a sogra e em busca de âni- 
mo e de auxílio. Mas porque sucedera tudo 
isto, porque se movia assim o infante contra 
os desígnios paternos? Só uma resposta acu- 
dia aos lábios da rainha: a do pecado pater- 
no, a da geração daqueles filhos do amor cul- 
pado, vindo castigar o pecador. E, de joelhos, 
pedindo a Deus lenitivos, em vez de repelir 
o marido, mais o bem-queria e não deixava 
de acolher os que causavam tantos males. 
Ao próprio D. Afonso Sanches, cujas quali- 
dades conhecia desde a meninice, recebia-o 
e tratava-o, desviando-o dos maus caminhos, 
com carinho igual ao usado para com o pró- 
prio filho. Se neste encontrava relutâncias, no 
bastardo só via obediência e submissão, de- 
sejo de agradar, poucas ambições de substi- 
tuir o futuro rei. Êle é que, no regresso da 
fronteira, se mostrava mais irritado. A sogra, 
a rainha D. Maria de Castela, enviara letras 
a D. Dinis nas quais insinuava a necessidade 
da partilha do governo com o infante, a-fim-de 
este sossegar, sentindo não haver contra êle 
propósitos de expoliação. 

Desta vez uma raiva profunda rompeu do 
íntimo do rei e, num arrebatamento enorme 
ante o olhar doce e calmo da esposa, que o 
encarava, sem palavra, quis obrigá-la a falar, 
a aconselhá-lo, a tomar um partido. 

Na mesma serenidade de sempre a rainha 
envolveu-o num consolador sorriso, quedou- 
-se, deixou-o no impeto da sua zanga, por- 
que, na sua alma de ternura e de pureza, apa- 
recera a dúvida e o receio. 

30 



RAINHA. SANTA 

Não seria também culpada de ter dado 
à luz semelhante filho, ambicioso e falso, re- 
belde e fementido? 

Voltava-se para Deus ; aceitava seus desí- 
gnios e, apertando mais os cilícios, volvia-se 
em dor para as paredes do seu querido con- 
vento de Santa Clara — entrevisto agora como 
uma obra de sua expiação. 




31 



1 




S. ISABELLA LVSITANLC REGINA 
VIXIT AN. LXV. OBIIT AN.MCCCXXXVÍ. 



IN O qual a Rainha o curava com suas 
mãos, como a mais simples e dilligente 
molher do mundo que não tivera molhe- 
res que a servissem. 

(Duarte Nunes Leão — Chroniea dt 
EURey Dom Diniz). 




5=3 c= 



II 






QUÍNTO QUADRO 



FÚRIAS DE REBELDES 



AS hostes do infante passavam como uma 
horda, devastando, arrazando, quei- 
mando, sem pouparem as searas, vi- 
lares e aldeias. Com os cavaleiros, 
escudeiriços e pionagem arrebanhara-se gen- 
talha da pior casta, facínoras, bandidos acou- 
tados nos castelos e nos solares sob a pro- 
tecção dos parciais do filho de D. Dinis. Ele 
próprio os acolhia, querendo contar com seus 
braços rijos e com suas negras consciências . 

Lançara-os na freíma do terror. Levara a es- 
posa para Castela e, sentindo-se disposto a 
tudo, ordenara as correrias, logo excedidas no 
tropel rancoroso da quadrilha. Não se tinham 
respeitos pelos adversários; destruia-se sem 
peias, sem quartel e à frente dessa turba con- 
denada, Estevão Gonçalves Leitão, vassalo 
querido do rebelde príncipe, incitava e rugia, 
apontando-lhe as crueldades a praticar. Ao 
depararem com dois amigos de Fernão San- 
chez, um dos bastardos riais, tomaram-nos 
com júbilos e, amarrando-os a duas árvores, 
fôram-nos escorchando entre risos selváticos, 
à luz vermelha das fogueiras do acampa- 

33 



RAINHA SANTA 

mento. Tiravam-lhcs as peles; depois eh 
golpearem, arrancavam-lhas lentamente entre 
gargalhadas e, ao verem escorrer o sangue, 
excitavam-se, tratavam-nos de más rezes e 
acabavam esbandulhando-os, depois de gosa- 
rem as agonias. Nem poupavam a casa de 
Deus. 

Um João Pires de Portel assaltara com 
os facinorosos o mosteiro do Marmelal, jul- 
gando ali encontrar o comendador fiel a el-rei. 
Puzera-se em fuga e os da tomadia, ao verem 
as freiras formosas, as virgens, as crianças 
acolhidas na sombra dos altares, violaram, 
insultaram, forçaram e fizeram o saque, vol- 
tando para a hoste carregados de despojos e 
gabando-se das proezas. Ninguém os expul- 
sou; antes apareciam os desterrados e os fo- 
ragidos por grandes crimes, a engrossarem o 
exército da rebelião. Sumariamente dois cava- 
leiros, Afonso Novais e Nuno Martins Barre- 
to, tinham deliberado forjar maior infâmia. 
Não receavam do castigo; andava em todas 
as bocas a notícia de que D. Geraldo, bispo 
de Évora, seria o encarregado de publicar a 
bula papal que continha a excomunhão do 
infante. Pertencia o prelado ao conselho do 
soberano; era varão de sublimes virtudes; 
sua palavra devia encontrar éco e, então, os 
rebeldes correram a Extremoz, onde ele se 
encontrava, arrastaram-no para uma sala, em 
saltos de feras, e assassinaram-no vilmente. 

Causara uma enorme repulsa em todo o 
reino aquele homicídio; erguera-se uma con- 
denação formal contra o príncipe a quem o 
pai, de longe, querendo ainda poupá-lo, acon- 
selhava a repelir os homens ruins de sua 
mesnada. Debalde lhe mandou os emissários 

34 



RAINHA SANTA 

que correram às vozes. A custo os homens s e 
escaparam ; as vozes abafaram-se no pa- 
vor. 

Chegara um legado de Roma com a res- 
posta pontifícia acerca da atoarda de ter o mo- 
narca solicitado de João XXII o alçamento do 
bastardo ao trono, do qual seria excluído 
D. Afonso. Os povos davam razão ao rei; 
fugiam diante dos invasores e queixavam-se 
da falta de defezas, por banda dos vassalos 
riais. 

O infante fingira expulsar os bandidos de 
sua tropa. Participara ir em romaria a Lisboa, 
ao mosteiro de S. Vicente, e não a pelejar, 
mas, largando de Coimbra para Leiria, levava 
a intenção de tomar a capital do reino. 

D. Dinis acordou da sua tolerância; sentia 
ser seu direito punir severamente e, apetre- 
chando a sua gente, erguendo os seus balsões, 
fora deter o avanço dos revoltados. 

D. Afonso chegara ao Lumiar mas retira- 
ra-se para Sintra, ante as forças superiores 
com que o pai surgira a bater- se. Devora- 
dos pela cólera e pelo desejo de pelejar, os 
cavaleiros não compreendiam a benigna ati- 
tude do seu chefe, ante o filho. 

Acampavam em Bemfica; êle estava nas 
Albogas, no caminho de Loures, e um arauto 
partira, a unhas de cavalo, com recado do 
monarca para que o infante o aguardasse ali. 
Desobedeceu, receoso do castigo ; levantou os 
arraiais e volveu-se ao seu anterior destino. 
Em breve tinha tomado Coimbra. Publicou-se 
logo o édito em que se cominavam as penas 
de morte para os parciais do rebelde, consi- 
derados réus de alta traição contra seu rei e 
senhor. 

35 



RAINHA SANTA 

Ordenava-sc a todos os alcaides que não 
acolhessem o príncipe c o tratassem, como à 
sua gente, de declarados inimigos. 

A rainha aparecera, em prantos, e lança- 
ra-se aos pés do marido. Guardara até aí um 
silêncio doloroso. Mal acreditava que o sobe- 
rano quizesse tirar o trono ao íílho para o 
dar ao bastardo, mas diante daqueles édi- 
tos, rojava-se, chorosa, suplicando clemên- 
cia. 

O bondoso D. Dinis explodira, na fúria 
dos tranquilos, a mais terrível, por mais tar- 
dia, geradora da inundação ruidosa da raiva 
contida, logo a galgar impetuosamente. Quan- 
do a esposa lhe pedia piedade, chegava a 
nova de que o castelo de Leiria dera guarida 
aos troços do infante. Deixou D. Isabel nas 
suas lágrimas e lançou-se com uma numerosa 
e bem provida mesnada a caminho da vila, 
rugindo que mandaria queimar todos os cul- 
pados da entrada dos troços rebeldes dentro das 
ameadas muralhas. Encontrou alguns deles aco- 
lhidos no mosteiro de Alcobaça. Abraçavam- 
-se com os altares acolhidos ao amparo do 
templo. Furiosamente, o monarca ordenou 
que os arrancassem da casa de Deus. Toma- 
ram-nos à força, arrastaram-nos para a praça 
e, dentro em instantes, eram poucas as ár- 
vores para os pendurar, à vista dos povos 
atemorisados. Sabia-se que passara ali a jus- 
tiça real. Constava que o infante se encon- 
trava em Santarém, cujo alcaide resistira, mas 
fora vencido. Em Leiria tinham sido atira- 
dos ao fogo todos os cúmplices de subordi- 
nação ao desacatador da realeza. Enfim, ex- 
plodira numa tremenda freima, num semen- 
tal de castigos, a demorada acção do rei. 

36 



RAINHA SANTA 

A rainha, deixada sem acolho pelo mari- 
do, dirigira-se a Santarém, ao encontro do 
filho. ía vestida de penitente. Enchera de 
cinza os seus formosos cabelos, envergara 
uma túnica de estamenha, enroscara ao pes- 
coço uma corda nodosa e, descalça, ferindo- 
-se nas pedras, acompanhou a procissão do 
Santo Milagre que mandou sair em vistas de 
abrandar as iras do rebelde. Ele, porém, já 
partira para Torres Novas, receoso do rei, 
que lançava na fogueira os seus adeptos. Aca- 
bara por se entrincheirar em Coimbra. 

D. Dinis topara a rainha naquele trajo de 
humildade. Trazia, porém, nos olhos todos os 
horrores da guerra e todas as queixas dos 
súbditos que lhe tinham mostrado as devas- 
tações feitas pelas hordas. Em toda a parte 
as vozes roucas dos expoliados pediam jus- 
tiça e os cavaleiros, vindos da hecatombe 
de Leiria, dizíam-lhe ser voz corrente que se 
D. Afonso se apossara da vila e do castelo 
fora menos por suas forças, sempre receosas 
do embate, do que pela vontade do alcaide. 
E acrescentavam, ao começo amedrontados, 
depois em clamores, que decerto a senho- 
ria da terra ordenara submissões aos ata- 
cantes. 

E a dona da vila era a rainha D. Isabel. 

Via-a ali, com os pés nus, de baraço ao 
pescoço, no adro da igreja, a suplicar-lhe 
ainda clemência. O príncipe, sempre em armas, 
recolhido nas fortalezas, não cedia e ela mos- 
trava-se suplicante, quando devia incutir no 
ânimo do vencedor o alento para o castigar. 

Não restava dúvida — pensava el-rei. — A 
esposa mal soubera resistir às súplicas do in- 
fante. Decerto lhe mandara entregar as vilas, 

37 



RAINHA SAN l \ 

os castelos, as regiões de sua suzerania. En- 
carava friamente a suplicante. Em volta, os 
seus homens de armas a custo continham as 
cóleras. Andavam cansados de chacinas e fu- 
riosos por encontrarem, por toda a parte, as 
devastações, os cadáveres dos fieis pendura- 
dos nos adarves das fortalezas ou no arvoredo 
dos caminhos, as cinzas dos palácios, casais 
e igrejas, as queixas e es ódios gementes e 
refervedores. E o flagelo continuava. Entre- 
gara-se ao infante a terra da Feira, Gaia, o 
Porto e só lhe resistira Mem Rodrigues de 
Vasconcelos, no castelo de Guimarães. D. Pe- 
dro, alferes-mór do reino, o inteligente bas- 
tardo do rei, servia desvairado, dizía-se que 
mais em vesos de o bem conduzir do que em 
vontade de o excitar. Porém, estava lá, rebe- 
lado e tredo. 

E ainda aquela rainha, cuja coroa andava 
em risco, ali aparecia, de vestes penitentes, 
erguendo as mãos e suplicando piedade! Deci- 
didamente era cúmplice. Os guerreiros, apoia- 
dos às altas espadas, condenavam-na, no seu 
lúgubre silêncio, que o monarca quebrou, ao 
dizer à esposa, num convencimento de suas 
culpas, quando ela só queria a paz: 

— cRetirae-vos, senhora, para a vossa villa 
de Alemquer. . . Alli aguardareis as minhas 
ordens ...» 

E logo mandava ao oficial do erário não 
pagasse os réditos dos burgos e alcaidarias de 
que sua alteza era donatária, pois esses bens 
iriam alimentar a guerra nas mãos traidoras 
do infante. 

Golpeada pela injustiça, serena, nas po- 
bres vestes, ela conservou nos lábios a sua 
expressão de doçura e, de olhos aguados, pa- 

38 



RAINHA SANTA 

receu dizer a Deus bem saber Ele estar nos 
lares dos pobres e não entregue ao filho o de- 
pósito de seus tesouros. 

Depois, obediente e calma, retirou-se, se- 
guida pelas damas que a escoltavam com lá- 
grimas nos olhos, vendo enxutos os da rai- 
nha, já esgotadas todas as fontes de seu 
pranto. 



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SEXTO QUADRO 



AFASTAM-SE AS MÁGUAS 
E AS ÁGUAS 



FIZERA-SE uma trégua, mas sentia-se 
que bem curta seria. O infante, como 
penhor de segurança, exigira a ex- 
pulsão do bastardo para Castela. 
A rainha, incorrendo nas iras do es- 
poso, deixara Alemquer e entrara em Gui- 
marães, a tratar das pazes. Quando estas se 
declararam o rebelde enviou ao pai o seu 
herdeiro, nado durante as desavenças, para 
que o conhecesse. Com o neto nos joelhos, 
D. Dinis, dispôs-se a esquecer. Reconheceu 
direitos ao sucessor do trono, doou-lhe vilas 
e castelos, Coimbra e Montemor, com a forta- 
leza da Sé do Porto e perdoou, abraçando o 
alferes-mór D. Pedro, conde de Barcelos, que 
muito ajudara D. Isabel no intento. Afonso 
Sanches, repelido para Castela, levava a pro- 
messa de ser chamado, mal se pudessem ar- 
rancar os zelos do ânimo do irrequieto ir- 
mão. 

Este jurava, em Pombal, cumprimento de 
obediência. 



41 



RAINHA SANTA 

Em Leiria, no altar de S. Simão, pres- 
tou o soberano as garantias para o amnis- 
tiado. 

Passaram menos de dois anos. Envolve- 
ra-se, a súbitas, em negridõcs e ciúmes, o espí- 
rito de D. Afonso; via, de novo, o bastardo 
em Portugal; inflamava-se de iras, emquanto o 
monarca mandava ajustar as Cortes em Lisboa. 
Convidou-o e aos seus parciais para a assem- 
bleia, mas, num ímpeto, aquele recusou e só 
ao terminar a reunião é que se soube 
porque não acedera. Agora, que tinham 
saído da capital os ricos homens mais pode- 
rosos, com seus troços, êle avançava, porém, 
em ruins propósitos. Deteve-o el-rei; orde- 
nou-lhe que se quedasse com os seus; retor- 
quiu não saber o motivo de tal determinação 
e achegou-se ao Lumiar, onde assentou ar- 
raiais. Armaram-se, apressadamente, as régias 
hostes. A sombra dos balsões acampava uma 
luzida mesnada. Refulgiam ao sol as armadu- 
ras e as charamelas; os corséis de guerra, re- 
freados pelos fortes guantes nas nervosas mãos 
dos cavaleiros, mal se continham, escarvando 
de impaciência, e a peonagem, os homens 
de lança, viroteiros e escudeiriçcs, algaravam 
de Alvalade para o campo do Infante, num 
desafio e num fundo rancor. 

D. Dinis dissera ter de acabar, de vez, 
aquela constante rebelião da alma do filho, 
geradora das convulsões do reino. Defendia- 
-lhe a passagem para a cidade ; o combate ia 
travar-se; já tocavam os anafis e as trombetas e 
alçavam-se no campo da lide as quinas da 
realeza, Também no praso do revoltado iguais 
bandeiras tremulavam, como a dizerem ser 
rei o adversário cujas avançadas já vinham 

42 



RAINHA SANTA 

em audaciosa provocação quási até às linhas 
estendidas na baixa do terreno ('). 

Numa galopada partiu das bandas da tenda 
real um emissário, incumbido de recado deci- 
sivo. Era Álvaro Martins de Azevedo, cujo 
encargo consistia em dizer a D. Afonso ser 
vontade do soberano a sua retirada para 
Coimbra. Encheram-no de doestos os que o 
viram chegar ; insultaram-no, pela embaixada, 
e, sem algumas palavras do chefe, teria caído 
às mãos dos feros parciais. Logo subiu o som 
das longas e tubas. Numa galgada, a cava- 
laria moveu-se para o encontro com as pa- 
trulhas do exército fiel. Escaramuçava-se ; 
havia uma sede de sangue em todas as gar- 
gantas; voavam como pedradas as injúrias, e 
os montantes nus, fusilando à frente das fa- 
langes, iam, emfim, encontrar aquele inimigo 
sempre desvariado, eternamente fugitivo e 
servido pelo perdão. 

— «A elles, que a vergonha é nossa!», gri- 
tou o rei, esporeando o seu corcel e que- 
rendo lançá-lo sobre as hostes inimigas. 

Elas, porém, recuavam, aquietavam-se. 

Deixara de se ouvir o clangor guerreiro 
dos instrumentos para se fazer uma calada. 
No grande silêncio súbito escutava-se apenas 
um ou outro pipilar dos pássaros, voejando. 
D. Dinis estacou também; descobrira num 
pano do terreiro, passando entre os dois exér- 



(') Era no Campo Pequeno, no lugar onde existe hoje 
uma pedra que diz assim: 

«Santa Izabel, raioha de Portugal, mandou collocar este 
padram neste logar em memoria da pasceficação que nelle 
fez entre seu marido el-rey D. Diniz e seu filho D. Affon- 
so IV estando para se darem batalha na era de 1323. > 

43 



RAINHA SANTA 

eitos, um vulto de mulher, montada em dó- 
cil mulinha branca. 

Os cavaleiros do infante desmontavam e 
abatiam as armas diante dela; enrolavam-se as 
bandeiras emquanto a viam passar, num modo 
grave, erguendo numa das mãos um ramo de 
oliveira. Era a rainha. Mandou ao seu encon- 
tro, num ímpeto ; depois correu êle e apa- 
nhou-a, antes que ela ajoelhasse, turbada, ao 
exclamar: 

— «Senhor, senhor! Não derrameis o san- 
gue de nosso filho.» 

— «É um rebelde. . . Quer tirar-me o reino 
e apoucar meus annos, limitar minha vida. . . » 

— «Em obediência se irá, meu senhor. . . » 
E, desta vez, Isabel prostrou-se. O marido 

ergueu-a com lágrimas a aljofrarem-lhe as cãs 
e, para que o reino se aquietasse e a rainha 
não sofresse, sacrificou, mais uma vez, o bas- 
tardo Afonso Sanches, desligou de si Mem 
Rodrigues de Vasconcelos, que tam fiel lhe 
fora em Guimarães, e sentiu fazer tudo aquilo 
pelo neto. Como a querer adivinhar-lhe o des- 
tino, ao tomá-lo, dias depois, comsígo, fixava-o 
muito bem; falava em o levar para a Alcá- 
çova, em o educar a seu modo, e o príncipe 
em tudo consentia, vencido, menos pela bon- 
dade do pai do que pela certeza de Jamais 
ter na sua frente o bastardo odiado. 

Seria rei. Deitava contas ao tempo de seu 
poderio. Na hora em que se chamasse Afon- 
so IV, os irmãos sentiriam o peso de sua fér- 
rea manopla t 1 ). Não saberia perdoar. Até 

í 1 ) Mandou expulsar do reino a D. A'onso Sanches, ti- 
rando-lhe todos os meios e Fernão Sanches, tido por seu 
cúmplice nas revoltas que, imaginava êle, tramavam, foi 
degolado por ordem do novo soberano, seu irmão. 

44 



RAINHA SANTA 

lá, tratava-se ter paciência c luzir-se diante 
dos seus como vencedor. 

Houvera, ainda, tumultos entre eles e os 
de el-rei, mas logo se apagaram e o infante 
fora com os soberanos comungar a S. Vi- 
cente de Fora. 

Alastrara uma vasta espectativa. 

O povo aguardava que tivessem terminado 
tam duras e cruéis lutas. 

Viajavam juntos os adversários da vés- 
pera. 

Santarém viu a família real unida dentro 
de seus muros ; a rainha aparecia em trajos 
de gala, já mal recordando os de penitente e, 
em devota procissão, se tinham dirigido para 
a beira do Tejo, onde jaz o corpo de Santa 
Iria, a mártir cristã. 

Ela era linda e tam pura, que se dedicara 
a Deus como um lírio real, só dos altares di- 
gno. 

Porém, perderam- se em suas graças os 
olhos dum apaixonado cavaleiro bárbaro, de 
nome Britaldo, que a roubou de seu convento, 
no qual a adormecera um mau monge, cha- 
mado frei Remígio. Prostrado em adoração 
diante da branca virgem, o ardente amante 
suplicou-lhe o dom de seu corpo no refúgio 
das margens do Nabão, vendo-a como sua 
presa, querendo de seus lábios consentidos 
beijos. Recusou-lhos ; volveu para o céu seus 
olhos de doçura e pureza e quando os baixou 
reflectiram-se na lâmina larga da machada de 
guerra, com que o cioso a ameaçava. Prefe- 
riu a morte. Em breve caía por terra dego- 
lada, tingida de inocente sangue a alvura 
de sua carne que as águas do rio arrastaram, 
lavando-a, até a deixarem diante da terra 

45 



RAINHA SANTA 

que tomaria de seu santo nome o de Santa- 
rém. 

Sabendo da crueldade de seu martírio, qui- 
zera o tio da infeliz certificar-se de sua morte, 
pois a diziam fugida nos braços do sedutor e 
não sepulta no fundo do rio. Ao chegar, com 
o povo de Nabancia, o bom abade Célio viu 
as águas afastarem-se como um pano azul e 
mimoso, a correr-se para mostrarem na super- 
fície de suas areias auríferas o lugar da ja- 
zida. 

E logo, ao quererem tomar o corpo, êle 
se chumbara ao sepulcro e as ondas se fecha- 
ram, num murmúrio rebelde. 

Lá ficara no pélago do Tejo, numa lapinha 
de rochedos, acariciada nas vagas, coberta 
pelo lençol aquático, ora de oiro sob o sol, 
ora de prata sob a lua, de cristal e de púr- 
pura às vezes, como se o sangue da santa se 
coalhasse na superfície do vasto rio. 

Diante dessa extensão molhada, a rainha 
D. Isabel ajoelhara à frente do cortejo, pe- 
dindo a Deus que se servisse deixá-la con- 
templar o túmulo dado pelo céu à adorada, 
à nívea, à loira e pura Iria, degolada por 
guardar mais sua virgindade do que sua 
vida. 

Abateram-se pendões e bandeiras ; povo e 
sacerdotes, cavaleiros e donas prosternaram- 
-se; subiram os cânticos no rufio das azas 
alvas das gaivotas e, de repente, como na 
época recuada do grande milagre, a toalha 
enorme esgarçara-se, aparecera o areal doi- 
rado e a todos os olhares surgira a jazida 
alabastrina onde Iria repousava. 

Tinham decorrido muitos séculos após a 
sua morte tormentosa e a rainha, erguendo- 

46 



RAINHA SANTA 

-se, entrou a caminhar, toda vestida no es- 
plendor da luz que enchia o espaço, o rio, 
a vastidão. 

A corte olhava-a, num êxtase. Suas damas, 
D. Berengueira Ayres e D. Betaça, queriam 
seguí-la, mas detinham-se ante o passo de 
el-rei em direcção às pegadas da rainha, que 
tocavam o solo como sinais de graça. 

Um rumor de ondas o deteve. 

Lentamente as águas se iam cerrando e 
D. Dinis, maravilhado, ordenou que ah* mes- 
mo se fizesse um padrão, embora tosco, para 
emquanto existir Portugal se saber onde jaz 
a mártir que mostrara sua branca jazida 
a tantos olhos deslumbrados, mas que junto 
dela só deixara chegar uma piedosa sobe- 
rana. 

De todos os lábios se soltou um fervoroso 
cântico solene e sagrado e, mais uma vez, o 
monarca ficou meditativo, num arrependi- 
mento de ter duvidado, alguma vez, da pure- 
za das intenções daquela que já lhe parecia 
também santa. 

Ela entrou a praticar mais caridades, em 
Santarém; edificava capelas, abria as casas 
de amparo para os engeitadinhos e não 
sossegava um só dia sem ter feito muito 
bem. 

De quando em quando, envergava um bu- 
rel de clarísta, ensaúdava-se da cela que es- 
colhera no convento de Coimbra junto a seus 
paços e o esposo já não sabia senão dizer- 
-lhe palavras de súplica para que lhe per- 
doasse algumas de suas maldades de amores 
culpados, suas desconfianças àcêrca da cum- 
plicidade com o filho e confessava-lhe ter 
sido ela a quebrantadora de suas cóleras, a 

47 



RAINHA SANTA 

generosa medianeira de S1 irrc- 

sistível causadora de seus perdões. E sorria, 
embevecido, a recordar o que já diziam dele: 
«el-rei D. Diniz, fez tudo quanto quiz.» 

Somente não pudera resistir às súplicas 
duma santa, que era mãe e julgava o filho um 
anjo, quando êle era um terrível demónio. 



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SÉTIMO QUADRO 



NA AGONIA DE EL-REI 



EL-REI enfermara, menos pela sua derrota 
do que pelos trabalhos e canseiras dos 
últimos anos. Era um poeta que sofria 
muito das desilusões da alma. Viviam 
longe dele os filhos mais amados. Notava*nos 
olhares de D. Afonso como que uma grande 
ansiedade de reinar e, saindo de Lisboa moles- 
tado, só encontrara lenitivo ao sentir na sua 
fronte as mãos suaves da rainha. 

Andava já nos lábios do povo a fama de 
seus feitos miraculosos. Tocando com seus 
dedos diáfanos as feridas dos pobres e de 
todos os que sofriam, eles encontravam alí- 
vios ; tinha-se muita esperança na sua graça 
e sabendo-se como destribúía os seus rendi- 
mentos pelos desditosos, não podia jornadear 
sem descobrir pelas orlas das estradas alas 
de famintos, implorando pão. 

Gastava menos comsigo, com sua casa e 
seus familiares, à medida que conhecia mais 
desgraçados e, sem as honras reais a que 
devia sacrificar-se, de há muito teria doado 
às igrejas e aos humildes os brocados, o oiro, 
o dinheiro, a prata, guardando apenas o burel, 



49 



RAINHA SANTA 

cada vez mais querido, para viver amortalhada 
na cela do seu convento de Santa Clara, ao 
qual entregava, com as rendas, os cuidados e 
atenções, ambicionando vê-lo pronto e con- 
digno do alto fim da piedade. 

Alimentava-se menos do que uma avesila. 
Para si bastava-lhe um copo de água e uma 
fatia de pão, algumas hervas cosidas ou pe- 
quenas medidas de leite. 

Acrescentava os jejuns desde o dia de 
S. João até ao da Senhora de Agosto e 
ajoelhava, durante largas horas, nas igrejas 
ou no seu oratório, como se depois de fazer 
tanto bem ainda se julgasse em dívida para 
com o céu. 

Praticava as obras de misericórdia, dando 
todo o seu rédito aos pobres, comprando-lhes 
vestidos, chegando-lhes a água aos lábios 
febricitantes, lavando as gafas, beijando-as, 
dando-lhes, para cobrir as suas carnes podres, 
cuecas, pelotes e cerames, osculava-lhes os pés, 
e calçava- os para com menos dores poderem 
palmilhar as estradas. Comungava a miude e 
não ocultava a seus confessores senão a bon- 
dade que espalhava. 

Quando lhe mostravam algum pesar para 
que o oiro não seria bastante alívio, conso- 
lava- o com suas palavras inteligentes, dita- 
das pelo amor. 

Casava as mancebas, doava terras aos tra- 
balhadores, destribúia com sua pequenina mão 
tantas riquezas que ela parecia bem larga para 
tantas conter. Nos lugares onde os barrocais 
tornavam difíceis as passagens Isabel mandava 
fazer pontes e nos sítios em que a água era 
escassa, à sua custa ordenava pesquisas aos 
vedores e, mal a encontravam, pagava a 

50 



RAINHA SANTA 

construção de poços e fontiuhas. Não havia 
convento seu desconhecido, mas para o de 
Santa Clara se despojava de tudo e quando 
ali entraram as primeiras monjas, quis ser- 
vi-las no refeitório, ajudada pela nora, a tam- 
bém carinhosa Beatriz, esposa do turbulento 
infante. 

Sobretudo enterneciam-na as criancinhas; 
procurava lenítivar-lhes todas as suas queixas, 
levava-as para casas próximas dos palácios e 
buscava remédios para os seus pais poderem 
agasalhá-las, visto ser a miséria que gerava 
aqueles bandos infantis correndo as ruas como 
matilhas esfaimadas e tontas. 

A sua devoção ligava-se tão bem com seus 
actos, a sua fé era tão irmã da sua piedade 
que apenas havia a considerar a enorme be- 
leza de seu viver, a aliança das frases com 
as obras, e, por isso, o povo, que é o único 
consagrador justo, já lhe chamava a santa rai- 
nha, antes que a igreja a titulasse de rainha 
santa. 

Ali estava junto da liteira onde o marido 
ia sofrendo, aplicando suas doces mãos na 
cabeça turbada do poeta que fora generoso 
e só tinha olhos, naquela tormenta derradeira, 
para a mulher que o céu lhe dera e à qual 
por vezes molestara, suspeitando-a, e traíra, 
amando outras. 

Tinham chegado a Vila Nova da Rainha, 
dirigindo- se a Santarém mas foram obrigados 
a deter-se uns dias, pelo avanço da enfermi- 
dade. Mandou-se chamar D. Afonso que de- 
morava em Leiria; veiu, beijou a mão febril 
do rei ; olhou a mãe que o servia «como a 
mais simples e diligente das mulheres que não 
tivera mulheres que a servissem» e saudou-a, 

51 



RAINHA SANTA 

osculando-lhe respeitosamente seus dedos que 
tanto fluído de lenitivo punham em todas as 
dores, e depois, tomando sobre si o encardo 
de governo, há tanto apetecido, dissera não 
ser a vitória própria para a estadia dum rei 
e ordenara o transportassem, em fofas andas, 
até Santarém. Era já como um préstito fúne- 
bre ao longo dos caminhos. Aiava com as 
dores e com as amarguras de sua existência 
que lhe acudiam céleres em revoadas de re- 
morsos. 

Não fora mau, apenas leviano, algumas 
vezes excitado mas deixara uma larga semen- 
teira de benefícios para seu povo, para o seu 
reino; porém, na hora do grande desfaleci- 
mento, já na alcáçova de Santarém, só via os 
males praticados e pediu o Santíssimo Sacra- 
mento. Pareceu animar-se, volveu-se para o 
herdeiro do trono e suplicou-lhe que chamasse 
os irmãos, os bastardos. D. Isabel escutava-o, 
em acedêncía à sua vontade ; D. Beatriz cho- 
rava ante aquela agonia lúcida, procurando a 
piedade nos olhos do marido. Apenas man- 
dou buscar D. Pedro, o conde de Barcelos 
que fora sempre seu parcial, embora de ânimo 
franco; veiu depois D. João Afonso. 

Os outros andavam por Castela e nada 
tinham que fazer à beira do leito do pai que 
os amava. 

D. Dinis devia compreender o ditame do 
filho mas foi dizendo, com receio de lhe fale- 
cer a voz, todos os seus desígnios. Era como 
um testamento político em que recomendava 
os vassalos e a nação ao sucessor, hirto, de 
olhos acesos, em frases de sapiente experiência 
caídas de sua boca com a evocação de Deus; 
e, no fim, ficara tão aliviado como se tivessem 

52 



RAINHA SANTA 

sido suas razões medicamento salutar. Beija- 
ram-lhe a mão ; imaginaram que ia viver mais 
algum tempo. Foi apenas uma nuvem rósea 
na treva do seu sofrimento. Voltou a receber 
os sacramentos e no seu último alento, to- 
mando para si o infante, agarrando-lhe forte- 
mente as mãos, fixando-o com suas pupilas 
rebrilhantes de febre e atormentadas de dúvi- 
das, exclamou: 

«Amado filho, eu morro e a pena que levo 
são os desgostos que dei à rainha vossa mãe, 
sendo moço; peço-vos, pelos que me destes, 
e eu vos perdoo, que, em satisfação de todos, 
lhe façais muitos serviços e assim hajais a 
minha e a sua benção.» Traçou no ar um dé- 
bil gesto e, voltando-se para a esposa, pediu- 
-lhe, com o olhar mais do que em voz, a ima- 
gem de Cristo pendente de seu peito. Já não 
a pôde levar aos lábios. 

D. Isabel recolheu nos pés do divino 
mártir o último sopro de vida de seu esposo 
e rei e ajoelhou, soluçando, no rumor dis- 
creto da corte que era admitida à câmara do 
monarca morto. 

E sucedeu tal transe aos sete de janeiro 
de mil tresentos e vinte e nove. 

Lentamente, ao cabo das suas orações, a 
rainha chamou as suas damas; saiu em pas- 
sos leves, como se temesse acordar o sobera- 
no do seu sono eterno e, recolhendo-se à sua 
alcova, pediu uma tesoura. Demorou-se um 
momento diante dum espelho. Em breve os 
seus cabelos, ainda cor de oiro, cairam-lhe 
aos pés, sacrificando-os, como a todas as vai- 
dades de mulher que acaso pudessem apenas 
assomar na alma duma santa. Despiu os ves- 
tidos da magestade, sem pena; atirou-os com 

53 



RAINHA SANTA 

suas lhamas c bordados para um canto do 
aposento e envergou, consoladamente, o há- 
bito de Santa Clara que melhor condizia com 
os cilícios jamais deixados de trazer, mesmo 
sob as reais pompas. Atou o alvo cordão, 
envolveu-sc no grosseiro c negro pano de veu 
e voltou a ajoelhar diante do cadáver do ma- 
rido. 

Assim o acompanhou depois até Odivelas 
onde êle, outrora, determinara repousar. Ia 
entre bispos e outros prelados, com suas mi- 
tras de ouro, a humildade daquele trajo de 
monja e era como se todos aqueles príncipes 
da Igreja acompanhassem já uma imagem. A 
corte vestia-se de burel, que era o luto da- 
quela época ; ela revestira-se para sempre do 
trajo de monja. E, mal pôde sair de junto do 
túmulo do amado, quis despojar-se para sem- 
pre de suas galas. Ia a S. Tiago de Compos- 
tela, em jornadas, oferecer-lhe a coroa pre- 
ciosa de oiro, aljofre e pedrarias ; mandou fa- 
zer riquíssimos pontificais, tomara comsigo 
valiosos vasos de prata e, em cortejo de pie- 
dade, tudo depôs no altar do patrono das Es- 
panhas, do exterminador dos moiros, dos in- 
fiéis. 

Regressou ao seu mosteiro de Santa Clara 
cujo fabrico quis acabado rapidamente e, en- 
tre as devotas senhoras, Isabel, tomando as 
suas roupas mais finas, os linhos, as holandas, 
as rendas, os bordados, ficou a contemplá-los 
como aos trajos de damasco e oiro, púrpura 
e sedas, e, logo, num doce gesto de renúncia, 
murmurou : 

— Que se façam camisas para os pobres 
e adornos para os altares . . . 

Contava demorar ali para sempre, viver 

54 



RAINHA SANTA 

como uma freira, concluir a sua obra e ofertar 
a Deus o resto da sua vida que sempre lhe 
votara mas intervalada com o brilho dos lu- 
xos mundanais, caídos em sorte de seu nas- 
cimento. 

E os mendigos vestiram finos panos e o 
Altíssimo teve suas aras revestidas dos des- 
pojos da sua majestade. 



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55 






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OITAVO QUADRO 



A AUREOLA DUMA RAINHA 



AO lado do convento, erguia-se um paço ; 
porém, a rainha mais habitava o mos- 
teiro do que as salas alcatifadas de 
sua morada. Entregara-se completa- 
mente a Deus. Já não se mostrava ao mundo. 
Um dia, invadida de escrúpulos de vestir um 
hábito ao qual não tinha direito, pois não pro- 
fessara, revelou desejos de se fazer monja 
no seu tam dileto convento. Participou tal de- 
sígnio a Frei Salvado, seu confessor e futuro 
bispo de Lamego, que a convenceu a conser- 
var-se rainha, pois acrescentava ser assim 
mais útil à pobreza, do que metida na humil- 
dade e renunciando a seus castelos e alcai- 
darias. Escoava-se-lhe pelos dedos o dinheiro 
que usofruía; passava como um sopro bené- 
fico e ela, levando a vida em orações^ sen- 
tia- se cada vez menos rica e parecia ver au- 
mentar as desditas, como se de coisa alguma 
valesse o oiro. Seu melhor tempo passava-o 
com as religiosas, levando existência em tudo 
igual à delas e ia enfraquecendo com os je- 
juns frequentes, sentindo-se mais na graça de 
Deus. Quando houve uma grande escassês de 

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RAINHA SAN I A 

trigo e a fome uivou pelo reino quiz saber 
quanto trigo existia em seus celeiros. Louvou 
a prudência dos zeladores, que não tinham 
distribuído tanto quanto mandara antes da- 
quela tormenta, pois grande falta agora faria 
para as desditas que turbavam a nação. Agra- 
deceu ao Altíssimo o possuir ainda alguma 
coisa para dar e pôr em consolo dos po- 
bres e até dos que na véspera eram reme- 
diados, os grandes depósitos reais. Suplicou 
ao filho que se despojasse também e à nora 
e ao conde de Barcelos, mas, ao escutarem-na, 
todos descontavam em sua caridade o que 
chamavam os exageros do bem-doar da rai- 
nha. 

D. Afonso IV acabara de banir Afonso 
Sanches do reino, erguendo a voz em amea- 
ças rancorosas e atirando-o para o exílio, 
após o sequestro de seus bens. Preparava-se 
para o justiçamento do que chamava seu 
cúmplice, o misterioso D. João Afonso. 

Por todos estes males, a sacrificada sobe- 
rana sofria. Agora era entre os mecânicos 
que continuava sua existência, aguardando, 
cada vez mais ansiosamente, a conclusão dos 
trabalhos do mosteiro e paço. Volveu-se para 
obra de mais interesse seu, o único que até 
aí demonstrara pessoalmente. Ordenara o la- 
vrado de seu sepulcro : era êle uma pedra 
branca, inteira, de treze palmos de comprido, 
seis de largo e cinco de alto. todo cercado de 
imagens com seus livros abertos, como numa 
procissão. Iniciava o cortejo um bispo, em 
suas vestes ; seguiam-no sacerdotes, de sobre- 
pelizes e, diante deles, erguiam-se Cristo e os 
doze apóstolos, formando a esquerda da jazi- 
da, a cuja cabeceira o Redentor e sua Mãe 

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RAINHA SANTA 

Santíssima velavam, com S. João Baptista, 
pelo repouso da que ali desejava ficar, para 
sempre adormecida. De sua pompa passada 
apenas guardava aquela cava e funda pedra, 
na qual se esculpiram as armas de Aragão. 
Aos pés do moimento destacava-se Santa 
Clara e duas rainhas com as coroas nas cabe- 
ças. Na tampa do sepulcro mandara pôr a 
sua figura revestida do hábito da ordem que 
tanto protegia e tendo sobre o véu de reli- 
giosa o diadema, para demonstrar que, sendo 
rainha, ao céu se dedicara, formando assim 
exemplos e iniciações. 

Assinalara, ainda, sua passagem na terra, 
marcando-a no jazigo com uma bolsa e uma 
concha de Santiago. Dois anjos presidiam a 
esta moradia, onde uma soberana, com sua 
coroa cingida no cordão humilde da comuni- 
dade e tendo por scetro o bordão de romei- 
ra, queria ficar perpetuamente. 

A idade deperecera-a. Ia nos sessenta e 
três anos, dedicados ao bem e à virtude. Não 
queria mais sair dali. Já tinha com sua vida 
traçado o próprio lugar de seu descanso e ia 
resando, fazendo esmolas, procurando propa- 
gar a virtude, quando lhe chegaram as novas 
de que o filho ia fazer a guerra a seu sobri- 
nho de Castela, nascido de sua irmã D. Cons- 
tança. Maltratava a rainha, sua mulher e pri- 
ma; preferia-lhe a intrigante D. Leonor de 
Guzman; arremessava os seus despresos à 
face da filha da santa rainha e o rei de Por- 
tugal, em cóleras e desesperos, deliberara 
vingar tantas ofensas. 

Alvoroçou-se o ânimo de D. Isabel; não 
se deteve nos propósitos que lhe acudiram e, 
largando de Coimbra para Extremoz nos seus 

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RAINHA SANTA 

hábitos de religiosa, com o mais modesto dos 
séquitos, correu ao encontro dos beligerantes. 
Atravessou, mais uma vez, por entre exérci- 
tos em pé de guerra, viu os elmos e os mon- 
tantes curvados à sua passagem e, ao topar o 
filho, só soube suplicar-lhe paz, como outrora 
fizera a seu favor nos campos de Alvalade. 

Era já uma sombra vaga; diafanisara-se, à 
força de penitências, e Afonso IV deliberara 
adiar os encontros, ao vê-la esmaecida, antes 
de desmaiada no agradecimento. 

Recolheu ao leito num quarto do castelo 
de Extremoz. Assistiu-lhe piedosamente a 
nora, em consolos e bondades. A rainha só 
falava em tréguas, só sabia aconselhar o filho 
a quebrar os impulsos de seu génio. 

Naquela tarde de julho, numa quinta-feira, 
a quatro, quizera vestir-se; movera-se na al- 
cova, criara um pouco de alento; depois dei- 
tara-se de novo, envergada no seu hábito; pe- 
dira que dissessem missa no altar improvisado 
aos pés de sua cama e que a sacramentassem. 
Tornou a erguer-se, foi até ao sacerdote, ajoe- 
lhou contricta e comovida e, sentindo todo o 
consolo da santa hóstia, ficou de olhos cerra- 
dos, murmurando suas orações. Saíram as da- 
mas ; apenas ficara junto da rainha a esposa 
de D. Afonso IV, D. Beatriz, a tomar-lhe do- 
cemente as mãos. A súbitas, a enferma pre- 
guntou, como saindo dum êxtase: 

— «Filha senhora, dado logo por esta dona 
que aí vai.» 

A rainha, admirada, preguntou : 

— «Que dona é?» 

E ela volveu no mesmo murmúrio, quási 
celeste : 

— «Essa que aí vai de vestiduras brancas.» 

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RAINHA SANTA 

Só ela tivera a visão duma Virgem Santa 
ou dum anjo atravessando a recamara onde 
expirava, numa grande suavidade. 

Os prelados aconselharam o rei a deixá-la 
no mosteiro de S. Francisco de Extremoz, pois 
receavam pelo cadáver em transporte de tanta 
lonjura, de trinta e duas léguas, até Coimbra 
sob o horrível calor daquele mês. Temiam pela 
putrefàção do corpo, imaginavam-no a desfa- 
zer-se em líquidos mal cheirosos, empestando 
os caminhos; mas D. Afonso IV, vigorosa- 
mente, ordenou se cumprisse a vontade de 
sua mãe cuja jazida estava em Santa Clara, a 
aguardá-la. 

Envergaram-na em panos de linho, cobrí- 
ram-na com colcha fina, coseram-na num en- 
voltório do mais grosso tecido ligado por uma 
corda alva e assim o lançaram no ataúde so- 
bre cuja tampa de coiro de boi estavam a 
bolsa e o bordão que a rainha tomara por 
emblemas. Sob a cabeça puseram-lhe fofa al- 
mofada de penas de cisne e assim, numa 
cobertura de damasco comum, em largo acom- 
panhamento, começou a primeira das sete jor- 
nadas até ao mosteiro de Santa Clara. Nem 
o mais leve odor se espalhava do corpo da 
morta. Todos a queriam vêr, atropelava- se 
a turba na entrada da igreja, e daí por diante 
os milagres começaram. Bastava tocar em seu 
túmulo, mexer num objecto que lhe tivesse 
pertencido, ajoelhar com fé ante a moradia 
escolhida. 

O povo constatava os milagres sem conto. 
Isabel era santa em suas bocas rudes e o culto 
da que tão nobre e digna fora, da mulher de 
sacrifício e de uncção, espalhou-se, como que 
uma doce e benéfica orvalhada, por toda a 

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RAINHA SANTA 

terra de Portugal. solo da pátria perdera 
uma rainha esmoler. Deus ganhava mais uma 
santa para o céu. 

Longo tempo decorreu para que em Roma a 
canonisassem ( ] ). Porém, chegou a hora de re- 
conhecerem digna da auréola a que usara uma 
formosa coroa. 

O Mondego avançara contra os muros do 
seu convento; parecia querer levar comsigo 
o túmulo da santa tantas vezes mirada em 
suas águas, como o Tejo guardava a jazida de 
Iria, e tornou-se necessário trasladá-la para 
o novo convento mandado edificar pelos ré- 
gios descendentes da canonisada ( 2 ). Fora 
construído na crista do Monte da Esperança 
e para lá iam levar a fundadora do mosteiro. 

Acorrera a clèresia. As dignidades eclesiás- 
ticas, fidalgos e toda a corte prostraram-se 
diante das pedras do sepulcro que o povo 
disputava. Já se tinha achado seu corpo in- 
corrupto. Ao abrirem o túmulo todos se ajoe- 
lhavam. Ouvíu-se o vozear das orações repe- 
tidas por vinte mil bocas e, ao levantar-se a 
pedra a-fim de se depositar a santa no novo 
ataúde viu-se subir, na brisa doce, na aragem 
mansa, primeiro uma penasinha muito leve e 
branca; depois outra; por fim, uma nuvem 



11) Morreu a 4 de Junho de Í336. Beatificada a 15 de 
abril de 1516, por Leão X. Em 1566 foi permitida a sua 
imagem, estando Paulo IV no sólio pontifício. Em 1612 foi 
aberto o seu túmulo. Uibano VIII canonisou-a era 1625. De- 
terminou-se a sua festa em 10 de Julho de 1716, tendo sido 
trasladada, reinando D. Pedro II, em 29 de Outubro de 
1677. 

( 2 ) Ordenado por D. João IV em 1649 mas só em 1677 
estava pronta, em virlude da esca^sês de dinheiro, motivada 
pelas guerras da Restauração. 

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RAINHA SANTA 

imensa que ia pelos ares como o adejo duma 
revoada de anjos, a caminho do céu. 

Aquelas plumas dos alvos cisnes de que 
se enchera a almofada sobre a qual descan- 
sava a nobre cabeça de Isabel de Aragão e 
de Portugal voejavam no espaço e para elas 
se erguiam as mãos devotas, ambiciosas de as 
guardar, dos que enchiam o templo, como se 
orassem, num impulso, pelas muitas penas 
que na terra tivera a Rainha Santa Isabel. 




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